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Cadernos de História da Educação

versão On-line ISSN 1982-7806

Cad. Hist. Educ. vol.23  Uberlândia  2024  Epub 17-Mar-2025

https://doi.org/10.14393/che-v23-e2024-46 

Artigos

Mulheres e educação na Liga Brasileira de Higiene Mental e nos Arquivos Brasileiros de Higiene Mental (1925-1947)

Mujeres e educación en la Liga Brasileña de Higiene Mental y en los Archivos Brasileños de Higiene Mental (1925-1947)

Mariana Carraro1 
http://orcid.org/0009-0000-3870-4431; lattes: 3137083383854860

Maria Cristina Piumbato Innocentini Hayashi2 
http://orcid.org/0000-0003-1250-3767; lattes: 7263318849588556

1Universidade Federal de São Carlos (Brasil). maricarraro98@gmail.com

2Universidade Federal de São Carlos (Brasil). dmch@ufscar.br


Resumo

A Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM), fundada em 1923 no Rio de Janeiro, foi a instituição mais expressiva do movimento de higiene mental no Brasil. Suas ideias e ações foram amplamente divulgadas no seu órgão oficial, a revista Arquivos Brasileiros de Higiene Mental (ABHM). Este artigo analisa a participação feminina na LBHM e nos ABHM publicados entre 1925 e 1947 e o papel educativo das mulheres no projeto higienista da Liga, por meio das abordagens da bibliometria e da análise de conteúdo. Verificou-se que as mulheres eram minoria e recebiam tratamento patriarcal e conservador, mas eram convocadas para educar as novas gerações segundo os preceitos do higienismo. Como muitas vezes era negado a elas o papel de detentoras e porta-vozes do conhecimento científico-higiênico, seu papel era colocar em prática as instruções oferecidas pelos homens, já que o cuidado foi associado à identidade feminina de mãe, esposa e educadora.

Palavras-chave: Liga Brasileira de Higiene Mental; Arquivos Brasileiros de Higiene Mental; Mulheres; Educação higienista

Resumen

La Liga Brasileña de Higiene Mental (LBHM), fundada en 1923 en Río de Janeiro, fue la institución más importante del movimiento de higiene mental en Brasil. Sus ideas y acciones fueron ampliamente difundidas en su publicación oficial, la revista Arquivos Brasileiros de Higiene Mental (ABHM). Este artículo analiza la participación femenina en la Liga y en la ABHM publicada entre 1925 y 1947, a través de los enfoques de la bibliometría y el análisis de contenido, y el papel de la mujer en el proyecto higienista de la institución. Se constató que las mujeres eran minoría y recibían un trato patriarcal y conservador, pero estaban llamadas a educar a las nuevas generaciones según los preceptos de higiene. Dado que a menudo se les negaba el papel de poseedoras y portavoces de los saberes científico-higiénicos, su papel era el de poner en práctica las indicaciones ofrecidas por los hombres, ya que el cuidado estaba asociado a la identidad femenina de madre, esposa y educadora.

Palabras clave: Liga Brasileira de Higiene Mental; Arquivos Brasileiros de Higiene Mental; Mujeres; Educación higienista

Abstract

The Brazilian League of Mental Hygiene (LBHM), founded in 1923 in Rio de Janeiro, was the most significant institution of the mental hygiene movement in Brazil. Its ideas and actions were widely publicized in its official publication, the magazine Arquivos Brasileiros de Higiene Mental (ABHM). This article analyzes the female participation in the League and in the ABHM published between 1925 and 1947, through the approaches of bibliometric and content analysis, and the role of women in the institution's hygienist project. It was found that women were a minority and received patriarchal and conservative treatment, but they were called upon to educate the new generations according to the precepts of hygiene. Since they were often denied the role of holders and spokespersons of scientific-hygiene knowledge, their role was to put into practice the instructions offered by men, since care was associated with the female identity of the mother, wife and educator.

Keywords: Liga Brasileira de Higiene Mental; Arquivos Brasileiros de Higiene Mental; Women; Hygienist Education

Introdução

Em 1908, o estadunidense Clifford Whittingham Beers (1876-1943) publicou o livro A mind that found itself relatando sua experiência como interno em hospitais psiquiátricos, nos quais foi vítima de maus tratos e abusos, e iniciou a uma campanha pública pela melhoria no tratamento e assistência aos doentes mentais (BEERS, 1967). Logo, o estadunidense angariou apoio de diversos setores da sociedade e iniciou um movimento que mudaria a face da saúde mental na primeira metade do século XX (PARRY, 2010). A higiene mental, que recebeu a adesão de grande número de psiquiatras, tinha como objetivo a prevenção e tratamento das doenças mentais por meio da correção dos “desajustamentos” psíquicos e sociais humanos. Na América Latina, a primeira instituição de higiene mental foi a Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM) fundada em 1923 e sediada no Rio de Janeiro.

As ideias higienistas já circulavam entre os intelectuais e políticos brasileiros e emergiam como uma solução para os problemas sociais da nova República. Os primeiros jornais e revistas médicas1 diagnosticavam a nação como enfraquecida e doente, necessitada da intervenção higiênica idealizada pelos homens de sciencia - isto é, aqueles que segundo Schwarcz (1993, p.45) “se autoidentificavam com instituições científicas e de uma postura singular, intervencionista e atuante (....) e possuíam uma voz pública influente, garantida por sua posição e participação em centros de pesquisa e ensino”. Nesse contexto, apesar de poucas mulheres terem conseguido se inserir na Medicina e na Psiquiatria cabia a elas um papel relevante nos planos higienistas.

Este artigo analisa a participação feminina na LBHM e o papel educativo das mulheres nos projetos higienistas da instituição nos textos publicados nos Arquivos Brasileiros de Higiene Mental (ABHM) entre 1925 e 1947. Trata-se de uma pesquisa exploratória e descritiva conduzida por meio da abordagem da análise bibliométrica (SILVA; HAYASHI; HAYASHI, 2011) que permite explorar a base de conhecimento e estudar a estrutura intelectual de um campo científico, combinada com a análise de conteúdo (BARDIN, 2011), que consiste em um conjunto de operações utilizadas para analisar de forma objetiva e sistemática as mensagens enunciadas em um texto possibilitando a inferência de conhecimentos.

As mulheres na Liga Brasileira de Higiene Mental (LBHM) e nos Arquivos Brasileiros de Higiene Mental (ABHM)

O fundador e primeiro presidente da LBHM foi o psiquiatra Gustavo Riedel, docente da Faculdade Nacional de Medicina, membro da Academia Nacional de Medicina e diretor do Hospital Colônia do Engenho de Dentro, local onde promoveu diversas mudanças no tratamento dado aos pacientes psiquiátricos, de acordo com os preceitos higienistas. Entre os membros fundadores da LBHM figuravam nomes da elite psiquiátrica brasileira: Gustavo Riedel, Ernani Lopes, Plinio Olinto, Zopiro Goulart, Alberto Farani, Edilberto de Campos, Gustavo Rezende e Juliano Moreira, e da elite política brasileira, tais como o presidente da República Arthur Bernardes, os ministros João Félix Alves Pacheco e João Luís Alves, o prefeito do Distrito Federal Alaôr Prata Leme Soares, além de deputados, juízes e senadores. (ABHM, 1941). Nota-se que entre os membros fundadores da LBHM não se encontra nenhuma mulher.

Reconhecida como de utilidade pública pelo Decreto nº 4.778 de 27 de dezembro de 1923 (BRASIL, 1923), a Liga financiava suas atividades com recursos públicos recebidos da União e do município do Rio de Janeiro e com doações de particulares. De acordo com sua ata de fundação a estrutura da LBHM era composta pela Comissão Executiva (presidência, vice-presidente e secretaria geral), conselhos (executivo e deliberativo), presidentes e membros honorários, membros beneméritos e correspondentes, além de seções de estudos que objetivavam propagar “as modernas ideias sobre profilaxia mental, estudar os problemas relativos à higiene do sistema nervoso, publicar periodicamente os seus trabalhos na sua revista, e promover congressos de higiene mental e eugenética”. (ABHM, 1925)

A revista Arquivos Brasileiros de Higiene Mental (ABHM) também foi criada por Riedel e apresentava-se como órgão oficial da Liga Brasileira de Higiene Mental. Juntas, tinham “a grande e nobre missão de ser um órgão de doutrina e de combate”, propondo-se a “abrir, em nosso meio, a senda por onde possam enveredar, crescer e frutificar os ideais de higiene mental e eugenia, que consubstanciam o programa daquela Instituição” (CALDAS, 1929, p. 1-2). Exaltando os feitos dos associados e da própria associação, a revista buscava destacar o papel da LBHM na construção de um novo Brasil que entendiam ser saudável e moderno, por meio da disseminação da ideologia higienista. (CARRARO, 2020). Assim, nos ABHM a Liga encontrou um ambiente intelectual propício para a divulgação de ideias e trabalhos científicos relacionados à luta antialcoólica, imigração, saúde mental, mundo do trabalho, entre outros temas que eram tratados sob a perspectiva eugênica.

Os ABHM2 começaram a circular em 1925 com duas edições. Interrompida entre 1926 e 1928, a revista só voltou a ser publicada em 1929 e daí até 1947, provavelmente devido a falta de recursos que a Liga enfrentava e que se espraiava na publicação dos ABHM (CALDAS, 1930), conforme mencionado pelo editor da revista Mirandolino Caldas3. A periodicidade da revista foi irregular, bem como houve modificações nas denominações de algumas seções. Os 29 volumes publicados entre 1925 e 1935 foram coordenados por Ernani Lopes4. Juntamente com Mirandolino Caldas ambos exerciam a função de editores dos ABHM. Para auxiliá-los nessa tarefa contavam com vários redatores e colaboradores. Em 1939, o novo presidente da LBHM Henrique Roxo5 passou a atuar como redator-chefe dos ABHM. O secretário de redação era Eudóxio de Paiva Araújo auxiliado por outros editores, entre eles Ernani Lopes, Pedro Pernambuco Filho, e Plínio Olinto.

Entre 1925 e 1947 foram publicados 879 textos6 nos ABHM. Estes estavam organizados em seções com duração permanente e em seções esporádicas de curta duração, destinadas a abordar um tema específico de interesse da revista. A Tabela 1 apresenta a distribuição temporal de textos publicados nos ABHM de acordo com as seções da revista.

Tabela 1 Distribuição temporal dos textos publicados nas seções dos ABHM (1925-1947) 

Anos Seções Escopo Textos
1925-1947 Atas e Relatórios da LBHM Atas de assembleias, sessões, reuniões, trabalhos e relatórios da LBHM. 115
1929-1935 Editorial Apresenta informações sobre a revista e posicionamentos da LBHM sobre diversos assuntos. 30
1925-1947 Trabalhos Originais Artigos inéditos e da lavra de associados pertencentes às seções técnicas da LBHM ou de autores convidados. 167
1925-1935 Resenhas e Análises Resenhas analíticas de livros e artigos, a maioria publicada no exterior. 175
1925-1947 Noticiário Fatos e Comentários Notas e Comentários Publicações recebidas Informes sobre a LBHM, publicações recebidas, votos de felicitações e pesar, registro de eventos, etc. 253
1929-1931 Informações Bibliográficas Respostas a pedidos de leitores sobre referências bibliográficas relativas à higiene mental. 15
1929-1930 Informações Neuropsiquiátricas Respostas a consultas de médicos sobre ajudas em casos clínicos. 10
1925; 1929-1934; 1947 Contra o alcoolismo: em favor da higidez mental Trabalhos de Antialcoolismo Artigos, bibliografia, comentários, estatísticas, conferências, eventos e campanhas sobre o alcoolismo e antialcoolismo. 40
1925; 1932 Trabalhos da LBHM Serviços da LBHM Conferências de convidados e trabalhos de propaganda da LBHM. Fotos, lista de materiais, balanço das seções, etc. 15
1933-1934 A Campanha Pró-Higiene Mental; Trabalhos de propaganda pró-Higiene Mental Sessões preparatórias, atas, relatórios, balancetes, conferências e palestras de divulgação. 22
1925-1947 Miscelânea* Incluía textos, fotografias, índice geral de volumes, etc. 37
TOTAL 879

(*) Reúne textos esparsos não vinculados às seções existentes nos ABHM.

Fonte: Carraro (2022).

Os textos publicados nos ABHM (n=879) geralmente eram de autoria de membros da LBHM, de convidados que proferiam palestras e conferências na Liga, ou de pesquisadores brasileiros e estrangeiros com os quais a Diretoria mantinha contato.

Verificou-se que 47,3% (n=416) dos textos não eram assinados, e em sua maioria (n=253) foram publicados nas seções “Noticiário”, “Fatos e comentários” e “Publicações recebidas”, enquanto os demais (n=163) apareceram nas outras seções.

Em relação à autoria dos textos assinados (n=463) verificou-se que os homens predominaram com 93,7% (n=434) enquanto as autorias femininas foram representadas por 6,3% (n=29) do total.

A Figura 1 apresenta a distribuição dos textos (n=879) de acordo com a seção e o gênero dos autores. Vale observar que pode haver dupla contagem de autores, pois o mesmo autor pode ter contribuído em mais de um texto.

Fonte: Carraro (2022)

Figura 1 Distribuição dos textos dos ABHM por seção e gênero dos autores 

A superioridade masculina na autoria dos artigos dos ABHM mostra como as vozes femininas eram inaudíveis nas sociedades científicas do início do século XX, um reflexo da sociedade patriarcal no período (HAYASHI et al, 2007). Se, historicamente, a ciência sempre foi vista como uma atividade realizada por homens, uma mudança significativa nesse quadro ocorrerá somente após a segunda metade do século XX (LETA, 2003).

Um levantamento da nominata (n=372) de membros da LBHM e de autores de textos registrados na coleção dos ABHM indicou que as mulheres representavam apenas 10,5% (n=39) desse total. Vale registrar aqui os seus nomes: Adail Pontes; Alice Ramos Corrêa; Angelina Rodrigues da Silva; Anita Paes Barreto; Áurea Brasil; Carmem Pereira Alonso; Cecilia Resende; Clarisse Diogo Lavrador; Consuelo Pinheiro; Dinah Pereira de Castro; Edite Freire; Else Mazza Nascimento Machado; Esmeralda Azevedo; Flora E. Strout; Floripes Anglada Lucas; Glória Quintela; Helena Antipoff; Idalina de Abreu Fialho do Nascimento Gurgel; Inês Besouchet; Ione da Gloria Paixão; Josefa Gomes da Silva; Juana M. de Lopes; Lair Ximenes; Lilia dos Santos Batista; Lucia Fernando Magalhães; Ludovina de Carvalho; Marguerite Klier de Mendonça; Maria Antonietta de Castro; Maria Brasília Leme Lopes; Maria Lígia de Morais; Maria Lúcia Passos; Marita Cassiano Gomes; Nicolar Cortat Frossard; Noêmia T. M. de Araújo; Ofélia Boisson Cardoso; Olga da Costa Ramos Sharp; Regina Meinick; Virginia Leone Bicudo; Zoraide de Souza.

Dentre essas mulheres, o Quadro 1 apresenta aquelas que pertenceram (n=6) ou não (n=5) à LBHM e publicaram textos nos ABHM.

Quadro 1 Perfil das mulheres que publicaram textos nos ABHM 

Nomes Perfil
Anita Paes Barreto (1907-2003) Era pedagoga e assistente do Instituto de Psicologia de Pernambuco. Não pertencia à LBHM.
Consuelo Pinheiro Era professora e presidente da Seção de Ensino Primário da Associação Brasileira de Educação. Não pertencia à LBHM.
Flora Effie Strout (1867-1962) Norte-americana, esteve no Brasil em 1926. Presidente honorária da União Brasileira Pró-Temperança (ramificação World’s Women’s Christian Temperance Union) e da Seção de Profilaxia do Alcoolismo da 1ª. Conferência Interamericana de Higiene Mental. Não pertencia à LBHM.
Helena Antipoff (1892-1974) Estudou com Èdouard Claparède no Instituto Jean Jacques Rousseau em Genebra onde integrou a equipe de pesquisadores. Fundou e dirigiu a Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais e a Sociedade Pestalozzi do Brasil. Era membro da LBHM.
Idalina de Abreu Fialho Foi professora do Instituto Benjamin Constant e secretária da XI Secção de Psicologia Aplicada e Psicanálise da LBHM.
Juana M. Lopes Foi membro do Conselho Executivo e secretária da XI Secção de Cirurgia Geral e Especializada da LBHM e cirurgiã ginecologista da Colônia de Mulheres Psicopatas de Engenho de Dentro. Era casada com Ernani Lopes, que ocupou vários cargos na diretoria da LBHM e foi editor dos ABHM.
Lair Ximenes Foi membro da Sessão de Medicina Legal e Prevenção da Delinquência da LBHM. Era da Escola Técnica do Serviço Social.
Maria Antonietta de Castro (1892-1984) Educadora Chefe da Diretoria do Serviço Escolar de São Paulo. Não pertencia à LBHM.
Maria Brasília Leme Lopes (1909-1996) Médica e professora municipal, foi secretária da Secção de Psicologia Aplicada e Psicanálise e diretora do Laboratório de Psicologia da LBHM.
Nicolar Cortat Frossard Foi secretária da Secção de Psicologia Aplicada e Psicanálise da LBHM.
Virgínia Leone Bicudo (1910-2003) Socióloga e psicanalista, foi visitadora psiquiátrica da Seção de Higiene Mental da Diretoria do Serviço de Saúde Escolar de São Paulo. Não pertencia à LBHM.

Fonte: Elaborado pelas autoras

Virgínia Leone Bicudo, Helena Antipoff e Maria Brasília Leme Lopes foram perfiladas no Programa Pioneiras da Ciência no Brasil (CNPq, 2023) com biografias mais completas visando reconhecer a participação de mulheres que tiveram destacado papel em suas áreas de conhecimento e contribuíram para o desenvolvimento científico do país.

Virgínia Leone Bicudo, psicanalista e socióloga, foi a primeira pesquisadora negra a ocupar um lugar de destaque na divulgação e construção da psicanálise no Brasil. (BRAGA, 2023). Atuou no magistério público do estado de São Paulo como educadora sanitária e também como visitadora psiquiátrica. Na USP, foi docente de higiene mental e convidada para compor um projeto da Unesco sobre questões raciais. Sua dissertação de mestrado, intitulada “Estudo de atitudes raciais de pretos e mulatos em São Paulo”, foi a primeira a tratar da questão racial no Brasil (SBMFC, 2023).

A educadora russa Helena Antipoff trabalhou em Paris no Laboratório do psicólogo Alfred Binet, onde iniciou sua especialização em desenvolvimento mental da criança, tema ao qual dedicou sua vida. Em 1928, veio ao Brasil a convite do governo para prestar serviços na Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte, onde também fundou a Sociedade Pestalozzi de Minas Gerais e a escola-granja para amparar as crianças excepcionais, assim chamadas aquelas com deficiência. Em 1951 recebeu cidadania brasileira. Pelo reconhecimento aos seus trabalhos recebeu inúmeras condecorações e homenagens nacionais e internacionais (MELO, 2023)

Maria Brasília formou-se professora pela Escola Normal da Prefeitura do Distrito Federal em 1925, e médica, em 1936, pela Faculdade de Medicina da Universidade do Brasil. Ela faz parte de um grupo de mulheres que, antes do estudo da medicina, mostraram sua “vocação para o cuidar” por meio do magistério e, posteriormente, “pela dedicação à medicina, tendo nessa profissão um apostolado” (GALVÍNCIO; COSTA, 2021, p. 8). Como normalista, Maria Brasília foi aluna de Manoel Bonfim e Plínio Olinto, ambos membros da LBHM, e chefiou o Laboratório de Psicologia Aplicada da Liga. Essa experiência levou-a publicar artigos nos ABHM que fazem parte dos primeiros escritos femininos da psicologia no Brasil. Eles são uma pequena exceção em um meio que, à época, ainda era dominado por figuras masculinas e, portanto, representam um movimento de ruptura e abertura. Os trabalhos de Maria Brasília em Psicologia Aplicada foram interrompidos em 1944, quando, após a conclusão do curso de Medicina, ingressou no campo da Hemoterapia. (PORTAVALES; JACÓ-VILELA, 2023)

Esses autores ainda assinalam a importância de Maria Brasilia Leme Lopes tanto para a Psicologia e Medicina e sua destacada participação na divulgação científica e pela luta em prol da inserção feminina na ciência, pois foi presidente da Comissão Nacional de Hemoterapia, e a segunda mulher eleita para participar da Academia Nacional de Medicina. Lutou ainda pela abertura do campo científico às mulheres: participou da fundação da Associação Brasileira de Mulheres Médicas e a presidiu durante cinco anos. Para esses autores, a trajetória inicial de Maria Brasília poderia confundir-se com a de tantas outras mulheres brasileiras do início do Século XX, cuja inserção no mercado de trabalho ocorreu por meio dos cursos normais, ministrando aulas para a educação primária, exercendo funções tipicamente associadas ao cuidado maternal. Porém se distancia do comum por seu empenho e dedicação em conquistar um espaço ocupado quase exclusivamente por homens. Seu perfil é tanto de uma ativa pesquisadora quanto de uma pesquisadora ativista pela visibilidade da mulher no campo da ciência. (PORTAVALES; JACÓ-VILELA, 2023).

Outras pesquisadoras que constam do Quadro 1, também tiveram destaque no cenário científico brasileiro, como Consuelo Pinheiro, que teve relevante atuação como presidente da Seção de Ensino Primário da Associação Brasileira de Educação (ABE) e como pesquisadora e educadora na história do cuidado de pessoas com deficiência. Consuelo Pinheiro também foi homenageada por uma organização sem fins lucrativos do Rio de Janeiro, criada em 1969, atuante na prevenção, auxílio e acolhimento de pessoas em situação de vulnerabilidade e de risco social, o Instituto Consuelo Pinheiro. (INSTITUTO, 2023).

No que diz respeito a Maria Antonietta de Castro, ela foi uma das primeiras Educadoras Sanitárias do país, formada em 1927 no Primeiro Curso de Educadoras Sanitárias do Instituto de Higiene de São Paulo criado em 1925. A partir de 1927, foi designada para o cargo de Educador Sanitário Chefe da Inspetoria de Educação Sanitária e Centros de Saúde e nessa função sua prática pedagógica ampliou seu diálogo não somente com o ensino das primeiras letras, mas também com o ideário higienista e eugenista do período, responsabilizando-se pela instalação, organização e direção das primeiras atividades nos três centros de saúde de São Paulo e nas escolas primárias paulistanas. Sua trajetória foi marcada pela perspectiva de saúde escolar e educação sanitária. (NIEPHE, 2023). Os ABHM também destacam o trabalho de Maria Antonietta de Castro em uma nota de rodapé inserida no texto da autora (CASTRO, 1941, p.57) considerando-a “uma das figuras de mais destaque nos meios educacionais do país”.

Os textos de autoria feminina (n=29) dos ABHM foram publicados em três seções: “Trabalhos Originais” (n=15), “Resenhas e Análises” (n=13) e “Trabalhos e Serviços da LBHM” (n=1). A seção “Trabalhos originais” publicava artigos (n=167) sobre higiene mental de autoria de associados da LBHM e de convidados. Dessa perspectiva, era uma espécie de “voz oficial” da Liga. Porém, nem todos os artigos publicados ininterruptamente de 1925 a 1947 eram inéditos, pois alguns já haviam sido apresentados como comunicações nas Seções de Estudos da LBHM, e também em palestras, conferências ou trabalhos em eventos científicos realizados no Brasil e em outros países. Alguns textos eram artigos traduzidos que haviam sido publicados em periódicos do exterior, e outros eram transcrições de capítulos de livros já publicados ou ainda em fase de publicação.

Quanto ao gênero dos autores que publicaram na seção “Trabalhos Originais” dos ABHM, verificou-se que os homens prevaleceram (n=66) em relação às mulheres (n=9), estando no topo das autorias Henrique Roxo (n=15), Ernani Lopes (n=9), Oswaldo Camargo (n=8), Renato Kehl (n=6), Julio Porto-Carrero, Juliano Moreira e Plinio Olinto, cada um com (n=5).

Quem lidera entre as mulheres é Maria Brasília Lemes Lopes (n=4), seguida por Juana Maria Lopes (n=3) e Helena Antipoff (n=2). As demais mulheres (n=7) publicaram apenas um trabalho cada: Anita Paes Barreto (em coautoria com Ulisses Pernambucano), Flora E. Strout, Idalina de Abreu Fialho (em coautoria com Maria Brasília Lemes Lopes), Lair Ximenes, Nicolar Cortat Frossard, Maria Antonietta de Castro e Virgínia Leone Bicudo.

Esses achados estão consoantes com a literatura científica sobre gênero e ciência (HAYASHI et al, 2007; CAMARGO; HAYASHI, 2017) que aponta como as mulheres foram historicamente afastadas das discussões que aconteciam nas sociedades científicas, pois essas eram atividades consideradas masculinas. No entanto, as mulheres das áreas da saúde remodelaram o ideal feminino da época, associado ao cuidado (GALVÍNCIO; COSTA, 2021), para poder contribuir nessa tarefa para além do espaço privado de seus lares.

No campo da Medicina, mais especificamente na Psiquiatria - área de formação da maioria dos membros da LBHM - pode-se notar a esparsa presença feminina. Piccinini (2002), que organizou um Índice Bibliográfico Brasileiro de Psiquiatria, verificou que na bibliografia referente ao período entre 1831 a 1979, dentre 4.655 trabalhos, apenas 4,2% (n=197) são de mulheres. Para o autor,

não temos referência de mulher alienista. Os primeiros trabalhos foram em sua maioria por enfermeiras e psicólogas e o enfoque era psicanalítico. Podemos citar: Juana M. Lopes, Anita Barreto Paes em Pernambuco, Helena Antipoff em Minas Gerais, Virgínia Bicudo em São Paulo. Esta última era Assistente Social e psicanalista. (PICCININI, 2002. Grifos meus).

Essas quatro mulheres, cujos nomes estão em destaque na citação, foram autoras de artigos publicados na seção “Trabalhos Originais” dos ABHM. Um levantamento da nominata de membros da LBHM (n=372) registrados na coleção dos ABHM indicou que as mulheres representavam apenas 10,5% (n=39) do total. Entre elas 1,3% (n=5) não pertenciam à LBHM, embora tivessem publicado textos nos ABHM.

Os dados do Quadro 2 relaciona os textos de autoria feminina publicados na seção de “Trabalhos Originais” dos ABHM. Esses textos abordavam testes psicológicos e escolares, educação sanitária, o combate ao alcoolismo, e a educação de crianças especiais, entre outros temas.

Quadro 2 Textos de autoria feminina na seção “Trabalhos Originais dos ABHM 

Lopes, Maria Brasília Leme; Fialho, Idalina de Abreu. Sugestões sobre o emprego de testes. ABHM, v. 2, p. 6-77, 1929.
Frossard, Nicolar Cortat. Os testes de Binet em nossas escolas. ABHM, v. 4, p. 127-131, 1930.
Antipoff, Helena. A psicologia na Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte. ABHM, v. 7, p. 226-234, 1930.
Lopes, Maria Brasília Leme. Pesquisas sobre a memória da fixação. ABHM, v.7, p. 235-240, 1930.
Lopes, Maria Brasília Leme. Pesquisas sobre a memória da fixação (concl.) ABHM, v.8, p. 277-200, 1930.
Pernambucano, Ulisses; Barreto, Anita Paes. Ensaio de aplicação do test das 100 questões de Ballard. ABHM, v.9, p.313-345, 1930.
Lopes, Maria Brasília Leme. A atenção concentrada explorada pelo teste de cancelamento. ABHM, v. 2, p. 41-62, 1932.
Lopes, Juana Maria de. Em torno do exame pré-nupcial. ABHM, v. 2, p. 103-122, 1933.
Lopes, Juana Maria de. A enfermagem ginecológica das alienadas. ABHM, v. 2, p. 124-129, 1934.
Strout, Flora E. Programa educativo de temperança científica nas escolas. ABHM, v. 1, p. 22-26, 1935
Castro, Maria Antonietta de. A educação sanitária nas escolas. ABHM, v.1, p. 57-67, 1941.
Ximenes, Lair. Profilaxia da delinquência infantil. ABHM, v.1, p. 36-51, 1943.
Lopes, Juana Maria. Combate ao alcoolismo. ABHM, v.1, p. 65-68, 1943.
Bicudo, Virginia Leone. Higiene mental das crianças em tempo de guerra. ABHM, v.1, p. 62-68, 1944.
Antipoff, Helena. Espírito e atividade da Sociedade Pestalozzi do Brasil. ABHM, v. 1, p. 59-69, 1945-1946.

Fonte: Elaboração das autoras

Os textos de Maria Brasília Lemes Lopes chamam atenção pelo fato de a autora ser uma mulher e um nome desconhecido na história da Psicologia no Brasil, conforme assinala Jacó-Vilela (2014, p.240), ao comentar que o texto de Maria Brasília em coautoria com Idalina Abreu Fialho é “a primeira obra feminina publicada em Psicologia conhecida no Brasil”. Contudo, na visão de Jacó-Vilela (2014, p.241), Maria Brasília Leme Lopes revela “um caso típico de jovem que ocupou cargo em ambiente masculino, com homens mais velhos reconhecidos em suas áreas de atuação, mas mesmo assim não conseguiu perceber as associações de poder subjacentes às relações de gênero”. À primeira vista, isso parece contradizer o perfil de Maria Brasília como uma ativista pela visibilidade feminina no campo científico conforme perfil traçado por Portavales e Jacó-Vilela (2023). No entanto, Maria Brasília Leme Lopes e Idalina de Abreu Fialho (ABHM, 1929) relacionam em nota de rodapé de seu artigo, os “grandes homens” que trabalham com testes brasileiros, entre eles Ernani Lopes, presidente da LBHM, que havia traduzido e adaptado a escala de Terman-Stanford, a qual elas haviam submetido para um pequeno grupo de crianças. Na visão de Jacó-Vilela (2014, p.242) esse relato revela que “para ele era reservado o trabalho intelectual, e para ela, a atividade rotineira e extenuante”.

Configura-se aqui o fenômeno do “Efeito Matilda” na ciência, isto é, a negação do reconhecimento das contribuições das mulheres para as pesquisas, e a repetida atribuição de seus méritos a seus colegas homens. Ou seja, geralmente as mulheres cientistas não são mencionadas, ou então são reduzidas ao papel de meras auxiliares que executam tarefas rotineiras e tediosas que não exigem muito esforço intelectual. Desse modo, subordinadas a postos de auxiliares nos laboratórios científicos, as mulheres ficam excluídas dos círculos de decisão. (ROSSITER, 1982, 1993).

Por sua vez, na seção “Resenhas e Análises” os homens prevalecem nas autorias das resenhas com Ernani Lopes no topo (n=110). Em segundo lugar, com o maior número de resenhas comparece Maria Brasília Leme Lopes (n=13). que juntamente com Consuelo Pinheiro (n=1) são as únicas mulheres que assinam resenhas nos ABHM, conforme mostram os dados do Quadro 3.

Quadro 3 Textos de autoria feminina na seção “Resenhas e Análises” 

Lopes, Maria Brasília Leme ABHM, v.3, p.98-100, 1930. PONZO, Mario. Subsídios para a verificação das aptidões nos jovens. Torino: G.B. Paravia & Cia, 1929.
Pinheiro, Consuelo ABHM, v.1, p. 70-71, 1931. ANTIPOFF, H. Ideais e interesses das crianças de Bello Horizonte e algumas sugestões pedagógicas. Belo Horizonte, 1930. (46p.)
Lopes, Maria Brasília Leme. ABHM, v.1, p. 96-98, 1932. COURTHIAL, A.; VAN DER STADT, I.; CLAPARÈDE, E. Rapidez e qualidade. Archives de Psychologie, v.23, n.91, jan. 1932.
Lopes, Maria Brasília Leme. ABHM, v. 2, p. 167-169, 1932. KASEFF, L. Educação dos supernormais: como formar as elites nas democracias. Rio de Janeiro, 1931.
Lopes, Maria Brasília Leme. ABHM, v. 2, p. 177-178, 1932. WALTHER, L. Alguns capítulos da tecnopsicologia do trabalho industrial. L'Année Psychologique, 1930.
Lopes, Maria Brasília Leme. ABHM, v. 1, p. 65-68, 1931. PIÉRON, Henri. O desenvolvimento mental e a inteligência. Paris: Librairie Félix Alcan, 1929.
Lopes, Maria Brasília Leme. ABHM, v. 1, p. 49-50, 1933. HORINSON, S. Ensaio de aplicação de dois testes de sensibilidade táctil Bulletin de l’Institut National d’Orientation Professionelle, n. 2, 1932.
Lopes, Maria Brasília Leme. ABHM, v. 2, p. 132-133, 1933. BIGELOW, M. A. Como o adolescente encara seus próprios problemas. Boston, 1933.
Lopes, Maria Brasília Leme. ABHM, v. 2, p. 133-134, 1933. MAGALHÃES. L. de A. Psicologia pedagógica da adolescência. Rio de Janeiro: Renascença Editora, 1933.
Lopes, Maria Brasília Leme. ABHM, v. 2, p. 134, 1933. BRIQUET, R. Psicologia Educativa da Adolescência. Revista de Educação, v.1, n.1. 1933.
Lopes, Maria Brasília Leme. ABHM, v. 3, p. 248-250, 1934. ROSS, N.; SCHILDER, P. Experiencias taquitostópicas sobre a percepção da forma humana. The Journal of General Psychology, v. 10, n.1, 1934.
Lopes, Maria Brasília Leme. ABHM, v.4, p. 337-339. CHWEITZER, A. Alguns dados sobre o reaprendizado e o “transfert” de exercício. L'Année Psychologique, v.33, 1932-1933.
Lopes, Maria Brasília Leme. ABHM, v. 1, p. 113-115, 1935.SULLIVAN, M. A. Escala para medida da “Idade do desenvolvimento” nas meninas. Studies in Psychology and Psychiatry from the Catholica University of America, v.3, n.4, 1934.

Fonte: Elaboração das autoras

A seção “Resenha e Análises” foi publicada ininterruptamente desde o primeiro volume, em 1925, até 1935. Os textos publicados nessa seção (n=175) possuíam uma característica singular, pois poderiam conter mais de uma obra resenhada.

Entre as obras resenhadas a maioria era de autoria masculina (n=155) e as autorias femininas representaram 15, 7% (n=29) do total (n=184) resenhado. Vale observar que obras de autores da LBHM eram minoria (n=26) na seção “Resenhas e Análises”. Interessante registrar entre as resenhas a presença de dois artigos de Marie Bonaparte (1882-1962) psicanalista francesa ligada a Sigmund Freud e sobrinha bisneta de Napoleão Bonaparte. Os textos resenhados dessa autora eram “L'homme et son dentiste” e “De la mort e des fleurs”, ambos publicados em 1933 na Revue Française de Psychologie, nos quais ela analisa o fenômeno de “transferência” psicanalítica do paciente para com os dentistas - “não somente entre as damas, mas também entre representantes do sexo forte”, e o hábito de levar flores aos mortos, consideradas símbolos fálicos de negação da morte. A resenha foi assinada por Ernani Lopes, editor dos ABHM. (LOPES, 1933, p. 244-247).

A maioria das resenhas era de artigos (n=140) publicados em periódicos (n=72) prevalecendo aqueles do exterior (60) e os demais do Brasil (n=12). Esses resultados mostram como os membros da LBHM estavam sintonizados com a literatura da época sobre higiene mental e eugenia publicada em periódicos científicos, ao mesmo tempo em que divulgavam entre os leitores dos ABHM as novidades da área. Esses propósitos foram expressos em várias oportunidades nas páginas dos ABHM, conforme registrado na seguinte nota:

Repositório da LBHM e difusor de ensinamentos úteis à população em geral, sobre assuntos concernentes à saúde do espírito, esta revista orgulha-se de poder apresentar a seus inúmeros leitores, desde os primórdios da organização da Liga, uma súmula atualizada de tudo que vai pelo campo da profilaxia das doenças mentais em nosso país e em várias regiões do globo. (ABHM, 1947, p. 3).

Também eram resenhados livros (n=38) e capítulos (n=2), trabalhos em eventos (n=2), dicionário (n=1) e tese de doutorado (n=1). Embora o livro costume ser o alvo principal de uma resenha, os ABHM não seguiram esse padrão, haja vista que as resenhas de artigos superaram com larga margem as outras tipologias documentais. Isso deixa margem para algumas suposições. Em primeiro lugar, a Biblioteca da LBHM recebia como doações diversas publicações, entre elas inúmeras separatas de artigos publicados em periódicos científicos, conforme listagens divulgadas nos ABHM. Outra hipótese é que os membros da Liga também recebiam ou trocavam esse material com colegas e depois doavam à Biblioteca, motivados pelo interesse em divulgar os trabalhos publicados em periódicos científicos.

Além disso, o intercâmbio com revistas científicas de outros países facilitava o acesso dos resenhistas a tais publicações. A permuta de material publicado com a solicitação expressa em vários idiomas era uma prática frequente nas páginas iniciais dos ABHM: “Solicita-se permuta. Exchanges are solicited. Rogamos cange. On demande l’echange. Wir bitten um Ausstausch von Publikationen. Si solicita contra-cambio. Ni petas interasagon”.

Os textos publicados nas seções de “Resenhas e Análises” (n=175) e “Trabalhos Originais” (n=167) tiveram os maiores escores quando comparados com o total de textos de outras seções dos ABHM. Esses resultados mostram que essas duas seções eram valorizadas pelos editores da revista por representar um canal de divulgação das ideias que defendiam sobre higiene mental e eugenia, e também como forma de persuasão do leitor sobre essa causa. Ao cumprir essas finalidades, as resenhas dos ABHM funcionavam como

uma plataforma retórica em que os pesquisadores podem expressar seus pontos de vista, sinalizar sua fidelidade a um grupo específico e participar da conversa em curso de suas disciplinas, argumentando como, por que, e até que ponto os livros frequentemente publicados em seus respectivos campos contribuem para a construção do conhecimento. (HAYASHI, 2020, p. 5).

Os demais textos (n=2) de autoria feminina nos ABHM foram publicados nas seções “Serviços da LBHM”. O primeiro é de autoria de Maria Brasília Leme Lopes (ABMH, 1932, p.99-107) que discorre sobre a organização e a atuação do Laboratório de Psicologia da LBHM. O segundo é a transcrição de uma conferência proferida por Anita Paes Barreto na sede da LBHM sobre as atividades da instituição na intitulada “Assistência a psicopatas”, prestando serviços a outras instituições e estabelecendo um perfil mental para o exame analítico da inteligência, especialmente nas escolas.

O papel educativo das mulheres nos ABHM

Além de analisar a presença feminina na Liga e em sua revista, observamos a visão da LBHM sobre as mulheres que se refletia em alguns textos publicados nos ABHM. O cuidar foi atrelado à identidade feminina e isso se refletia nos discursos dos intelectuais, homens e mulheres, da época (GALVÍNCIO; COSTA, 2021).

No editorial “Apelo à mulher brasileira”, as mulheres eram apresentadas como “aquela metade do gênero humano que os filósofos, pensadores, e o próprio bom senso geral têm considerado, sempre, a detentora do sentimento e da afetividade da espécie” (ABHM 1930, p. 193).

Essa representação social da mulher persistiu, por exemplo, na ata da sessão solene da LBHM, realizada em 21 de junho de 1933, pois ao homenagear os patronos e patronesses da Clínica de Eufrenia e do Patronato dos Egressos dos Manicômios, reserva-se à mulher o papel de guiar “o seu protegido no meio social levando-lhe a coragem, dando-lhes esperança além do consolo de um afeto”. (ABHM, 1933, p. 183). Além disso, a justificação para a atuação feminina baseava-se no fato de que o Patronato era

um concurso verdadeiramente de ordem técnica (...). numa obra que, afinal, nós homens sozinhos, não soubemos ainda realizar, por melhor que tenha sido a nossa boa vontade. Só há uma única explicação para o fato. É que empreendimentos da índole do Patronato em apreço não se fazem somente com ciência e com desejo de acertar. Para levar a termo com real eficiência tais obras de assistência social faz-se mister a intervenção de um fator que existe mais em uma metade do gênero humano do que na outra, o fator afetivo, o fator sentimento. De modo que com a Mulher, patrocinando a Clínica de Eufrenia e o Patronato dos Egressos dos manicômios, vamos, enfim, solucionar o problema, porque confiaremos ao Coração generoso e maternal a tarefa sublime de amparar e assistir o Cérebro enfermo. (ABHM, 1933b, p. 181).

Outro exemplo sobre o tratamento dispensado às mulheres pela Liga aparece nas legendas das fotografias das patronesses da Clínica de Eufrenia e do Patronato dos Egressos dos Manicômios. Na Figura 2, pode-se observar que os nomes das mulheres eram ocultados e estas eram identificadas pelos nomes de seus maridos.

Fonte: ABHM, 1932

Figura 2 Patronesses da Clínica de Eufrenia da LBHM 

Essa forma de tratamento que omitia o nome feminino também se repetiu nos ABHM em outros momentos. Por exemplo, no resumo do artigo (Figura 3) assinado pela médica ginecologista Juana M. Lopes - que também era integrante da LBHM - seu nome foi complementado por “Sra. Ernani Lopes” sinalizando que era casada com o sócio da LBHM e redator da revista (LOPES, 1934, p.122).

Fonte: ABHM, 1934

Figura 3 Resumo do artigo de Juana M. de Lopes 

Também nas atas de sessões da LBHM a presença de mulheres era invisibilizada ao serem registradas como “Sra. Dr. Júlio Porto-Carrero”; “Sra. Dr. Victor Viana”, “Sra. Floriano B. de Mendonça”, “Sra. Dr. Januário Bittencourt” “Sra. Brito e Cunha”, “Sra. Miguel Sales”, e até mesmo quando seus cônjuges já haviam falecido continuavam a ser nomeadas como “Viúva Faustino Esposel”, “Sra. Viúva Juliano Moreira” (ABHM, 1933a, p. 340-341, 352), retirando-lhes novamente o direito de serem tratadas pelos seus nomes. Assim, os textos do ABHM mantinham uma forma de tratamento patriarcal aos se referirem às mulheres, e reforçavam a ideia de submissão e dependência feminina subtraindo sua autonomia perante a família e a sociedade. Repetia-se aqui a norma de subordinação da mulher ao pai, se fossem solteiras, e aos maridos, quando casadas.

Contudo, a LBHM utilizava os textos publicados nos ABHM para convocar as mulheres para atuar na tarefa de higienizar a população. O já citado editorial “Apelo à mulher brasileira” recorre às “coletividades várias, solicitando-lhes a colaboração preciosa na luta contra o flagelo do álcool em nosso país”, embora o alvo desse pedido fossem as mulheres brasileiras e associações de intelectuais femininas7, às quais a Liga apela para que o exemplo de um “núcleo de abnegadas senhoras que mourejam neste setor da profilaxia social seja seguido por muitíssimas outras, de modo que a coletividade inteira venha a sentir o benéfico influxo de tão sadio proselitismo”. (ABHM, 1930, p. 193).

Para esta empreitada, era essencial a imposição dos saberes médicos no cotidiano das famílias e a convocação dos pais e, principalmente, das mães, a aprender os métodos preventivos higienistas, visto que elas poderiam ser responsabilizadas pelas “imoralidades e patologias dos filhos” (SILVA JÚNIOR; ANDRADE, 2007, p. 434-435). Para esses autores,

Baseados na ideia da família como célula nuclear e primária da sociedade, os membros da LBHM tomavam a casa como estabelecimento fundamental para vigilância e execução das exigências higiênicas, postulando uma importância nova para a mulher que deveria trabalhar arduamente e se responsabilizar para que seu lar não fosse contaminado pelos vícios da rua. (SILVA JÚNIOR; ANDRADE, 2007, p. 430).

Nem todos os pais e mães, para Ximenes (1943, p. 43-45), “tem o verdadeiro senso de suas responsabilidades dos seus deveres”, o que seria de extrema importância, visto que o “fracasso dos pais na sua tarefa educativa explica, em grande parte, a causa de certos defeitos de caráter e perturbações na afetividade das crianças e dos jovens”. A autora aponta também que a educação ideal não deveria ser excessivamente severa e nem muito sentimental. A severidade exacerbada prejudicaria o psiquismo infantil, que ficaria permeado pelo medo, pela angústia, pelo ódio e pela inibição. Para além de condições materiais satisfatórias, a criança precisaria de carinho e compreensão. Contudo, a criança mimada, com sentimentalismo exagerado, julga-se um ser privilegiado e torna-se incapaz, de fraca personalidade, exigente e egoísta (XIMENES, 1943, p. 46-47). Recomendações semelhantes foram feitas por Fontenelle (1925, p. 5):

Combater o excesso de sensibilidade dos filhos é obrigação precípua de toda mãe que conhece os seus deveres, para que mais tarde não esperem os indivíduos (em vão) que as outras pessoas se deixem dominar por simples lamuria. Os cuidados excessivos e a tolerância exagerada criam uma atmosfera artificial para a criança, muito diversa daquela que irá o adulto encontrar na vida real, dando causa a desilusões e infelicidade. Educar com severidade e brandura, combinadas em dose conveniente, eis o meio de preparar um justo equilíbrio que permita à criança não ter surpresas na vida futura, para a qual foi perfeitamente preparada.

Para que a tarefa educativa fosse feita corretamente, portanto, as mães precisariam ser ensinadas a formar corretamente os primeiros hábitos dos filhos, “adaptando-os da melhor maneira aos problemas iniciais da vida” (FONTENELLE, 1925, p.8). Por ocasião da inauguração da Clínica de Eufrenia da Liga, Caldas redigiu um folheto em que apelava às mães para que cuidassem não só do organismo físico de seus filhos, mas também “do psiquismo, do espírito, da alma” (ABHM, 1932, p. 80). Apesar de afirmar que “são os pais, não raro, os responsáveis por essas graves anomalias”, era às mães a quem ele se dirigia, esperando que estas vigiassem “racionalmente” e “cientificamente” o desenvolvimento psíquico e cognitivo dos filhos (ABHM, 1932, p. 83).

Fontenelle (ABHM, 1925, p. 194-195) apontou a necessidade de “corrigir a deficiência do ensino das coisas referentes à mentalidade humana”, e para isso seria necessário o estudo da Psicologia nos cursos de medicina, escolas normais, escolas profissionais e superiores e instruir o trabalho educativo das mães, amas e professoras para criar bons hábitos mentais desde o nascimento, “evitando-se as violências emocionais, os excessos de autoritarismo ou de tolerância e os exageros da imaginação”.

Em São Paulo, as educadoras sanitárias escolares realizavam a preparação das futuras mães ainda durante a fase escolar. O curso “Escola das Mãezinhas” foi ofertado de 1926 a 1940 a 22.476 alunas de São Paulo, preparando-as para a maternidade. Na programação do curso, constavam atividades como

inquéritos sobre as causas das mortes das criancinhas das relações da aluna, para o estudo sobre a mortalidade infantil; a pesagem, o banho, o preparo de alimentos dietéticos, etc., quanto possível, praticamente; a confecção de enxovais modelos, com o número de peças e sob os requisitos de higiene indispensáveis, o quarto do bebê, mostruários, etc., etc. (CASTRO, 1941, p. 64).

Esses especialistas sabiam, porém, que muitos pais trabalhavam durante o dia e não poderiam dispensar os cuidados necessários aos filhos, o que caracterizaria um lar incompetente (XIMENES, 1943, p. 45). Para Camargo (1947, p. 26), nos Estados Unidos cada vez mais mulheres passavam a trabalhar fora do lar, o que gerou uma avalanche de “casos de crianças problemas” que em breve atingiria o Brasil. Segundo Fontenelle, (1925, p. 8), muitas mães “abandonam os cuidados educativos iniciais a amas e criadas, sendo necessário desenvolver escolas maternais e jardins de infância, em número e qualidade”. Caberia às escolas, portanto, realizar a tarefa higienista, e nestas, as professoras tinham um papel central.

Para facilitar e preparar a adaptação individual é necessário instituir o trabalho educativo das mães, amas e professoras, no sentido de criar bons hábitos de vida mental, desde o nascimento, já evitando-se as violências emocionais, os excessos de autoritarismo ou de tolerância e os exageros da imaginação já procurando formar nos indivíduos uma personalidade confiante, capaz resistente e devotada à atividade da vida real, que reconheça, desde cedo, as restrições sociais e direitos das outras pessoas. Nas escolas primárias e, também, principalmente, nas escolas maternais e jardim de infância, que é preciso multiplicar, é indispensável fazer esse trabalho educativo (ABHM, 1925, p. 195).

Por sua parte, Porto-Carrero (1929) considera que as professoras recebiam “monstruosidades” nas escolas, se referindo às crianças que eram erroneamente educadas a respeito da vida sexual. Estas deveriam ser “corrigidas” pelas docentes com cuidado e “carinho materno”. Ao se dirigir às educadoras, o autor afirmava:

E que o vosso amor substitua o amor dos pais - o que, se, a princípio pode parecer monstruosidade, em todo caso é melhor do que o caminho errado que levará um dia às perversões, ao crime, à prostituição. O futuro de um homem vale mais do que o apego da criança ao lar perversor. Mas ainda aqui, podeis agir profilaticamente. Á vossa verdade, contraporá, decerto, a criança o erro que trouxe de casa. Cabe-vos amenizar-lhe a impressão: ‘Tua mãe não quis dizer-te o certo, para que aprendesses na escola; porque ela mesma não o sabia bem. A escola é o lugar de aprenderes; assim como aqui aprendestes, a ler, assim aqui aprenderás tudo o mais. Não perguntes sobre essas coisas em casa. Mamãe e papai têm outras ocupações; a minha ocupação é ensinar-te’. E ensinai. Ensinai a verdade; a verdade toda; a verdade tão mais simples quanto mais verdadeira. (PORTO-CARRERO, 1929, p. 125).

Para que a correção na escola fosse possível, as professoras deveriam ter uma boa formação, e nesse sentido houve várias iniciativas, como a Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte que, em um curso de dois anos, capacitava as alunas recrutadas “dentre os elementos mais eficientes do professorado mineiro” por meio de testes de inteligência e exame médico tornando-as “pedagogas especialistas”. (ANTIPOFF, 1930, p 226)

Já em São Paulo, o Instituto de Higiene formava “professoras públicas em higiene”, que atuariam nas escolas com o objetivo de inculcar hábitos de higiene e formar uma “consciência sanitária” nos alunos. Às educadoras sanitárias escolares competia realizar cursos, campanhas e propagandas sobre a higiene; levantar fichas individuais dos alunos e estudar suas condições sociais e sanitárias no lar; auxiliar o médico escolar e encaminhar os alunos para exames especializados quando necessário; aplicar vacinas e injeções na própria escola; velar pela salubridade do ambiente escolar; realizar atividades práticas como a escovação de dentes, corte de unhas e banhos dos alunos e realizar inspeções da prática de hábitos sadios nas classes (CASTRO, 1941).

A LBHM também convocava as mulheres para atuar na frente de combate ao alcoolismo, uma das principais bandeiras da Liga, haja vista as inúmeras campanhas e eventos antialcoolismo realizadas. No texto “O alcoolismo e a mulher” Britto (1930) atribui à mulher um “papel saliente e indispensável na profilaxia do alcoolismo”. Para que ela se tornasse um verdadeiro apóstolo desta cruzada seria necessário desempenhar os seguintes papéis:

Será a mulher-mãe mostrando ao seu filho os perigos e os inconvenientes das bebidas alcoólicas, educando-os na abstinência, e entre carinhos e beijos maternos, será fácil ensinar e mais fácil ainda de aprender; será a mulher-professora que na escola completa a educação materna e fornece a instrução necessária para a boa compreensão dos desastres da intoxicação alcoólica; será a mulher-noiva, que com seus encantos e o ardor de sua paixão conseguirá, farta vez com um simples olhar, o abandono, pelo seu eleito, de um vício adquirido em más companhias, e que viria certamente perturbar a felicidade dos seus róseos sonhos de virgem enamorada; será a mulher-esposa que com seu amor e o seu carinho tudo conseguirá do seu esposo, e, nas horas de adversidade ou nos momentos de tristeza, com o seu conforto, evitará que ele procure afogar as suas dores na alegria fictícia e fantástica do álcool. (BRITTO, 1930, p.205. Grifos nossos).

Inúmeros textos sobre a temática do alcoolismo nas famílias e a necessidade de lutar contra esse mal que a Liga considerava afetar não só os lares, mas que era um instrumento de degeneração dos indivíduos, foram abordados em seções específicas como “Trabalhos de Antialcoolismo” e “Contra o alcoolismo: em favor da higidez mental”. Uma amostra interessante é o texto que informa sobre o encerramento da 3ª. Semana Antialcoólica, ocasião em que foi entregue um prêmio à professora paulista Maria Antonietta de Castro, que venceu o concurso de composições literárias de propaganda antialcoólica organizado pela LBHM. Além disso, professoras da rede municipal assinaram o “livro dos abstêmios” da Liga, se comprometendo a “nunca mais fazer uso de bebidas alcoólicas e se tornarem apóstolas do ensino antialcoólico nas escolas”. (ABHM, 1929, p. 139).

O alcoolismo também foi tratado por Juana M. Lopes (1943, p. 66) sob o prisma das consequências da guerra mundial que “atingem a sociedade inteira, sendo as crianças as maiores vítimas”. Depois de tratar de vários outros aspectos do alcoolismo, a autora apela às mulheres pedindo-lhes que se alistem na legião dos que lutam contra este terrível flagelo, conclamando: “precisamos de senhoras de boa vontade para continuar nosso trilho e chegarmos ao ideal de uma humanidade abstêmia”. (LOPES, 1943, p.67).

Mas não só o combate do alcoolismo era o alvo principal da LBHM. Outras preocupações, como aquelas relacionadas à saúde sexual e reprodutiva das mulheres também eram abordadas no contexto dos ideais eugênicos e na visão médico-higienista que reverberam na Liga e foram externadas nas páginas dos ABHM em vários textos.

Por exemplo, a prostituição era encarada como a principal causa da transmissão das doenças venéreas, e vistas como “deturpadoras da raça, esterilizadoras, criadoras de idiotas e degenerados” (PORTO-CARRERO, 1935, p. 143). Dentre as doenças venéreas a sífilis foi abordada (MOREIRA, 1929) e muito combatida por causar na família “a desunião dos casais, o desmoronamento dos lares, a maternidade decepcionada, a descendência estigmatizada pela tara hereditária e o enfraquecimento da natalidade, o despovoamento, e o abastardamento da raça”. (ARAÚJO, 1935, p. 149).

Como forma de conter o avanço da sífilis e de outras doenças, tais como a lepra, o câncer, a tuberculose, o alcoolismo, as doenças mentais e a epilepsia, a Liga também fazia campanhas para a realização do exame pré-nupcial. Porto-Carrero (1933, p. 94) considerava esse exame como fator de preservação eugênica e pleiteava a criação de postos de saúde para o exame anual gratuito e de baixíssimo custo não só para casamentos legítimos, mas também para os filhos de uniões ilegais, que em sua visão “têm o direito de serem formados eugenicamente, desde que não sejam culpados da união dos pais, além de uma ampla propaganda para a manutenção da saúde sob o controle desse exame anual”.

Juana Maria Lopes, membro da LBHM e ginecologista do Hospital Colônia de Psicopatas (ala feminina) de Engenho de Dentro, também defendia a realização do exame pré-nupcial, pontuando que esta função deveria ser confiada a instituições de responsabilidade, como a LBHM, em vez de médicos estatais. Para a autora,

além de sua dupla importância, como fator de pura eugenia e como medida defensiva da saúde do cônjuge inocente, isto é, do cônjuge são, exposto a adquirir, por contágio, as doenças do seu parceiro, deve ser ainda instantaneamente aconselhado, por uma terceira razão, também ponderosa, que é a de servir como elemento de profilaxia da infelicidade conjugal. (LOPES, 1933, p. 103).

A enfermagem ginecológica das alienadas igualmente preocupava a autora (LOPES, 1934) que tece recomendações sobre esse assunto, além de apresentar um conjunto de cuidados a serem tomados na realização de exames ginecológicos em pacientes internadas em hospitais de psicopatas, tais como: levar as pacientes recém-admitidas ao ginecologista para a realização de exames, além de manter uma caderneta dos dias menstruais de cada paciente, os quais serão registrados em um livro geral sob supervisão direta do ginecologista. Para Galvíncio e Costa (2021, p. 11), “a dedicação à saúde da mulher e das crianças foi um ponto de comunhão das primeiras gerações de médicas brasileiras, em uma tentativa de reabilitação da tradicional figura da mulher cuidadora”.

Considerações Finais

Os artigos publicados nos ABHM possibilitam a reflexão sobre o espaço que mulheres ocupavam na revista e na LBHM e o papel educativo destinado a elas como mães, esposas e educadoras. Ao mesmo tempo em que presença feminina nos quadros de sócios da LBHM e na autoria de artigos publicados nos ABHM era baixa, para a tarefa de higienizar a população brasileira as mulheres eram vistas como essenciais, e receberam diversas recomendações e instruções dos higienistas, conforme expresso nas páginas dos ABHM. As mulheres e os seus diversos papeis educacionais, na vida doméstica e na sociedade, eram a pedra angular da proposta higienista de educar para corrigir e regenerar visando superar o que entendiam ser os males da nação.

Desde seu primeiro volume, em 1925, pode-se observar que a Liga considerava a necessidade de instruir as “mães, amas e professoras” devido ao papel primordial que estas possuíam na educação das crianças e jovens, tarefa vista como essencialmente feminina e associada ao cuidado. No entanto, se, por um lado, a identidade feminina foi engessada na figura daquela que cuida, as mulheres das áreas da saúde remodelaram esse ideal para poder cuidar nos espaços públicos (GALVÍNCIO; COSTA, 2021): nos consultórios médicos, nas escolas, nas revistas científicas, como a ABHM, atuando como produtoras de conhecimento científico.

Na historiografia, existe uma corrente que afirma a ausência de mulheres na ciência, o que não é verdade: vimos, neste trabalho, a existência de mulheres que se destacaram, mas, além de serem minoria, foram invisibilizadas na historiografia e pouco se conhece sobre elas. Contudo, é consenso para todas as correntes historiográficas que a ciência é um campo de poder e que as mulheres têm estado em desvantagem no campo científico (LINO, MAYORGA, 2016).

Além disso, as mulheres que tiveram contato com a LBHM recebiam tratamento patriarcal e conservador, embora fossem convocadas para educar as novas gerações segundo os preceitos do higienismo. Como referem Messias e Jacó-Vilela (2018, p.5):

A fim de educar os filhos e desempenhar seu destino natural como esposa, mãe e dona de casa, era preciso que a mulher fosse, antes, educada, mas sua educação deveria privilegiar a higiene, o caráter e estar baseada nos princípios da moral, dos valores sociais e cívicos, como era corrente no discurso republicano.

Em síntese, a análise da produção científica dos ABHM revelou que cabiam às mulheres - fossem elas mães, esposas e/ou professoras - papeis educacionais e científicos para o fortalecimento do ideário higiênico-eugenista da LBHM. Sendo muitas vezes negado a elas o papel de detentoras e porta-vozes do conhecimento científico-higiênico, seu papel era colocar em prática as instruções oferecidas pelos homens de sciencia.

Referências

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1Tais como a “Gazeta Medica da Bahia” e a “Brazil Medico”, vinculada à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Ambas foram analisadas por Schwarcz (1993).

2Coleção disponível online no site do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre o Higienismo e Eugenia (GEPHE) da Universidade Estadual de Maringá (UEM).

3Também foi secretário-geral da LBHM, editor dos ABHM e diretor da Clínica de Eufrenia da instituição. Apesar das poucas informações disponíveis sobre sua biografia, sabe-se que era médico psiquiatra, e capitão médico da Reserva do Exército Brasileiro convocado a administrar o Posto Avançado de Neuropsiquiatria do Serviço de Saúde da FEB em 1944 (PICCININI, 2023).

4Ernani Lopes (1885-1969), neurologista e psiquiatra, foi médico do Hospital Nacional dos Alienados, diretor da Colônia de Psicopatas do Engenho de Dentro e membro da Academia Nacional de Medicina. (ACCORSI, 2018).

5Henrique de Brito Belford Roxo (1877-1969) doutorou-se pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, e dirigiu o Pavilhão de Observações do Hospital de Alienados e do Instituto de Psiquiatria da Universidade do Brasil. Foi membro de diversas organizações médicas nacionais e internacionais, entre elas a Academia Nacional de Medicina. (ANM, 2023)

6Por “texto” entende-se as diferentes tipologias documentais publicadas nos ABHM, tais como artigos, resenhas, notícias, relatórios, atas, etc.

7Como a Federação Brasileira para o Progresso Feminino (FBPF), fundada por Bertha Lutz, que atuou na defesa do acesso dos direitos políticos, civis e sociais às mulheres, como a educação e o voto. O texto menciona ainda a União Universitária Feminina, fundada pela FBPF em 1929.

Recebido: 11 de Outubro de 2023; Aceito: 19 de Fevereiro de 2024

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