SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.23Visibilidades à historicidade dos Grupos Escolares gaúchos no século XX: em perspectiva regional da História da Educação do Rio Grande do SulA história de Jorge Guimarães e suas contribuições para a educação, ciência e tecnologia no Brasil índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Compartilhar


Cadernos de História da Educação

versão On-line ISSN 1982-7806

Cad. Hist. Educ. vol.23  Uberlândia  2024  Epub 17-Mar-2025

https://doi.org/10.14393/che-v23-e2024-27 

Resenhas

Taborda de Oliveira e suas vivências historicamente provocativas: sobre corpo, trabalho e formação

Taborda de Oliveira and his historically provocative experiences: about body, work and education

Taborda de Oliveira y sus experiencias históricamente provocativas: sobre cuerpo, trabajo y educación

Giovani Ferreira Bezerra1 
http://orcid.org/0000-0002-4710-3897; lattes: 6763847248521843

1Universidade Federal da Grande Dourados (Brasil). gfbezerra@gmail.com

TABORDA DE OLIVEIRA, Marcus Aurelio. Eu cresci na ditadura: memórias do corpo, do trabalho e da formação. Campinas/SP: Mercado de Letras, 2022.


certamente recordar é viver, e narrar é permitir que a vida faça algum sentido como experiência compartilhada, como ensinou Walter Benjamin. Talvez as minhas experiências possam ter algum interesse nesse momento de acentuada regressão, para além do simples e sempre delicado registro autobiográfico. (TABORDA DE OLIVEIRA, 2022, p. 20).

No ano de 2022, após um dos piores momentos vividos internacional e nacionalmente, com a pandemia de COVID-19, além da necropolítica implementada na gestão pública brasileira de 2019 a 2022, com o (des)governo de Jair Bolsonaro, veio à luz o mais recente livro do professor e pesquisador Marcus Taborda. Um livro que é, nesse sentido, não só uma produção crítica situada nesse tempo e espaço, efeito da longa trajetória de vida, formação e atuação do autor, mas também uma lufada de esperança e um ensejo à reflexão para a vivência de uma cultura comum dialógica e polifônica, antídoto possível à barbárie, ao autoritarismo e à despolitização da vida - conquanto se entenda política como o esforço pelo bem comum. Como cita o professor, logo no começo de seu livro, trata-se de

uma narrativa fundada no ato de rememorar, autoral até certo ponto, encharcada de desvãos, escorregadelas, lapsos, recuos, acomodações, inquietação. Ancorado em todo material da experiência que torna a vida fugidia, não previsível, um desafio constante, mas sempre parte de uma cultura comum. (TABORDA DE OLIVEIRA, 2022, p. 16, grifos meus).

Já bastante conhecido no campo da História e Historiografia da Educação, não custa lembrar que Marcus Taborda é graduado em Educação Física pela Universidade Federal do Paraná (1985), com doutorado em História e Filosofia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2001). Além disso, o autor tem vários diálogos travados com pesquisadores e universidades internacionais, como fica patente em seu currículo e no livro ora resenhado, com estudos de pós-doutorado na Universidad de Múrcia, Espanha (2008), e na Università degli Studi di Torino, Itália (2016). Depois de ter atuado de 1995 a 2010 na Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde iniciou sua carreira docente no ensino superior público, tornou-se professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) (2010-atual), onde é titular do Departamento de Ciências Aplicadas à Educação e do Programa de Pós-Graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social. O professor coordena, ainda, o Núcleo de Pesquisas sobre a Educação dos Sentidos e das Sensibilidades (NUPES)1 e é bolsista em produtividade (1B) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

A publicação do livro aqui abordado tem, vale dizer, toda relação com esse destacado currículo de Taborda e seu exercício profissional. Trata-se um texto que, de início, foi produzido para o “[...] processo de progressão [do autor] para o nível de Professor Titular da Faculdade de Educação da UFMG. Foi apresentado e defendido em novembro de 2018” (TABORDA DE OLIVEIRA, 2022, p. 2). Com modificações, acréscimos e adaptações, no pós-banca, o autor organizou o material em livro, substituindo a expressão memorial por memórias, o que possibilitou ao livro uma dimensão ainda mais narrativa, expressiva, subjetiva e menos contaminada pelo jargão acadêmico. Não por acaso, já sob o título Eu cresci na ditadura: memórias do corpo, do trabalho e da formação, a obra foi lançada pela editora Mercado de Letras, em uma série específica sobre Memoriais, “[...] que tem como objetivo publicar relatos memorialísticos de professores e professoras que, ao se submeterem a processos de progressão de carreira do magistério superior, tiveram de escrever textos desse gênero” (A SÉRIE MEMORIAIS..., 2022, p. 2)2. No caso de Taborda, as memórias seguem um fio que é/foi o fio de sua atuação, existência e investigação científica, sem que essas dimensões se separem, a saber: o corpo, o trabalho e a formação. Nas palavras do autor,

Sendo as memórias sempre lacunares, fugidias, procurei cruzar os registros acadêmicos, pressuposto básico da legislação que regula esse gênero, sem deixar de entrelaçá-los com a minha vida para além da Universidade. Simplesmente porque, a despeito da esquizofrenia que às vezes provoca a separação entre o professor-pesquisador e o homem comum, a experiência histórica não é passível de ser cindida ou enquadrada em esquemas facilitadores. Afinal, a experiência alimenta e é alimentada por esse pertencimento institucional, mas não pode ser apartada de outros pertencimentos: de gênero: um homem criado para ser viril, para sempre afirmar a sua masculinidade; étnico-racial: pardo, bisneto de índia, bugres e italianos; de classe: trabalhador de família pobre. Então, se a memória permite falar de identidades, não negligencio o fato de que elas são sempre socialmente construídas, invariavelmente compartilhadas, estão sempre baralhadas. Daí o conceito de formação expresso no título. (TABORDA DE OLIVEIRA, 2022, p. 16).

Por isso, o autor, acompanhando as memórias (ainda em aberto) de sua vida, teoriza e tensiona sobre os impactos desses elementos constitutivos em sua experiência ao mesmo tempo singular e coletiva, entendendo que “A memória só existe em função do encontro do corpo com o mundo” (TABORDA DE OLIVEIRA, 2022, p. 19) e que “ [...] se uma trajetória só faz sentido nos marcos de histórias singulares, a de um professor deveria dizer muito sobre o que foi e o que deveria ser uma sociedade, os seus grandes problemas e a vida de todos que nela coabitam” (TABORDA DE OLIVEIRA, 2022, p. 282). Nessa perspectiva, evidencia como foi crescer e se formar/ser formado com diversos carecimentos materiais, em um país sob os auspícios da ditadura civil-militar (1964-1985), posto que toda a sua formação escolar “ [...] da 1ª série do 1º Grau ao final do curso de Graduação foi realizada no período ditatorial. Ao longo da década de 1970 eu iniciei uma vida de trabalho, que segue ativa” (TABORDA DE OLIVEIRA, 2022, p. 18). Essa mesma vida que, para o leitor - sem qualquer intenção prescritiva por parte do autor - assume uma dimensão provocativa, propositiva e de crítica do mundo e de nós mesmos, de nossa identidade, de nossa relação com o mundo do trabalho e de nossa (con)formação.

Em três partes temáticas, fora o prefácio de Alexandre Fernandez Vaz (UFSC) e a apresentação do próprio autor, Taborda apresenta aspectos de sua infância e família, sua escolarização, o ingresso no mundo do trabalho e sua constituição como professor, a partir de 1982. O autor relata, inclusive, seu trabalho com pessoas com deficiência antes de sua atuação no ensino superior, algo que, dentre outras experiências narradas no livro, marcaria sua relação com a corporalidade e suas teorizações futuras. Ademais, é enfático na análise da dinâmica do mundo universitário e na denúncia da estupidez e da barbárie que rondam os “novos tempos tormentosos”, especialmente aqueles deflagrados desde 2016, com a deposição da presidenta Dilma Roussef e, depois, com a eleição de Jair Bolsonaro (2019-2022), desde quando se nota “[...] um refluxo conservador e reacionário [...], muito motivado pela sua [do Brasil] tradição autoritária e intervencionista [...]” (TABORDA DE OLIVEIRA, 2022, p. 221). Os impactos desse processo na Educação e, em particular, na Universidade são corajosamente esmiuçados por Taborda (2022, p. 259), que, em contrapartida, lembra a necessidade estético-política de “Construir um mundo comum e dele cuidar, [o que] implica em educar para sensibilidades que afetem a nossa subjetividade pela valorização da corporalidade em sua polissemia, em suas muitas formas de ser, estar e compartilhar o mundo”.

Ao longo dessas partes, mais do que acompanhar sua trajetória de vida e formação, pelo livro de Taborda aprendemos e apreendemos conceitos-chave de sua produção intelectual e ação política, tais como (história da) educação do corpo, dos sentidos sensibilidade, o que pode mediar nossas reflexões e a constituição de outras singularidades, em outros tempos e espaços. Com a leitura do seu livro, temos acesso a interessantes aspectos da cultura escolar, da cultura acadêmico-universitária, da crítica estética e política, de modo que, às reflexões e “rememorações” do autor comparecem - e de modo tão oportuno, orgânico e exemplificado- conceitos de Raymond Willians, Edward P. Thompson, autores da Teoria Crítica da Sociedade (ou Escola de Frankfurt), Bakhtin, dentre outros, além das diversas referências do universo artístico-literário que evidenciam tanto a erudição quanto as múltiplas vivências do autor em sua trajetória e seus modos de fazer ensino e pesquisa.

Em que pese a necessidade de uma revisão linguística posterior ainda mais acurada com vistas a uma merecida segunda edição, devido a pequenos equívocos de digitação e ou de aspectos gramaticais - o que não prejudica de modo algum a compreensão dessa obra - ler o livro de Marcus Taborda é, na verdade, deleitar-se com uma escrita literariamente bem construída, polissêmica e potente em seus (e)feitos. E, ao mesmo tempo, atravessada por conceitos historiográficos, políticos, filosóficos e sociológicos, discutidos de modo inseparável de sua vida e formação. Disso resulta uma leitura prazerosa e fluida, em um texto no qual não vemos a apologia de um ego, bem formatado, mas o exercício destemido de seu autoconhecimento para o enfrentamento das (sempre possíveis) ilusões de si.

Assim, revela-se, nas páginas do livro, mais do que o trabalho científico de um intelectual - no pleno sentido do termo -, com atuação longeva no campo da História da Educação, a figura do narrador mesmo, com seu vasto conhecimento, isto é, daquele que, realmente, conta uma história e nos convida, em seu percurso, a acompanhá-la o tempo todo, de modo cativante e reflexivo. Em outros termos, o livro deixa o leitor impactado e, aqui, vale, com adequações, a célebre máxima de Walter Benjamin (1987, p. 201), autor, aliás, citado por Taborda como um dos que marcaram suas próprias leituras: “O narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros. E incorpora as coisas narradas à experiência dos seus ouvintes”.3 De fato, concluímos a leitura repletos dessas incorporações, no sentido de que somos afetados em corpo e mente com o texto de Marcus Taborda, dada a catarse emocional-formativa provocada pelo livro.

Por tudo isso, Eu cresci na ditadura: memórias do corpo, do trabalho e da formação pode ser visto, de um lado, como fonte para quem se interesse por estudos referentes ao Brasil desde a ditadura civil-militar, como fonte sobre cultura escolar e universitária, sobre a docência nesses espaços e sobre como compreender histórias de vida; de outro, pode inspirar novos temas e problemas de pesquisa na graduação e pós-graduação, à medida que o leitor dialogue com o autor sobre os eixos corpo, trabalho e formação em suas tantas interfaces e atravessamentos com a Educação, em particular com a história da educação do corpo, história da educação dos sentidos e das sensibilidades, historiografia, educação política e estética. Ademais, especialmente para as gerações acadêmicas mais jovens, em um tempo ameaçador no qual se ouvem vozes pedindo o retorno das ditaduras e se danifica a ação política, ou se vivencia um excesso de métricas universitárias, o livro é um potente e criativo convite para pensarmos a sociedade e a educação contemporâneas em bases antiautoritárias, estéticas e democráticas. Daí que a leitura dessa obra fica, por certo, como experiência indelével, daquelas que nos acompanharão por toda a vida.

REFERÊNCIAS

TABORDA DE OLIVEIRA, Marcus Aurelio. Eu cresci na ditadura: memórias do corpo, do trabalho e da formação. Campinas/SP: Mercado de Letras, 2022. [ Links ]

1Parágrafo elaborado com informações do currículo Lattes do autor e do próprio livro resenhado. O autor, após a qualificação de mestrado, seguiu diretamente para o doutorado, conforme indicação da banca examinadora (Cf. p. 166).

2A SÉRIE MEMORIAIS... In: TABORDA DE OLIVEIRA, Marcus Aurelio. Eu cresci na ditadura: memórias do corpo, do trabalho e da formação. Campinas: Mercado de Letras, 2022. p. 2. (Série Memoriais).

3BENJAMIN, Walter. Obras escolhidas: magia e técnica, arte e política - ensaios sobre literatura e história da cultura. 3. ed. São Paulo: Brasiliense, 1987. (vol. 1).

Recebido: 06 de Setembro de 2023; Aceito: 20 de Outubro de 2023

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons