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Cadernos de História da Educação

versão On-line ISSN 1982-7806

Cad. Hist. Educ. vol.23  Uberlândia  2024  Epub 17-Mar-2025

https://doi.org/10.14393/che-v23-e2024-28 

Resenhas

A história de Jorge Guimarães e suas contribuições para a educação, ciência e tecnologia no Brasil

The story of Jorge Guimarães and his contributions to education, science and technology in Brazil

La historia de Jorge Guimarães y sus contribuciones a la educación, la ciencia y la tecnología en Brasil

Maria Cristina Mesquita da Silva1 
http://orcid.org/0000-0003-2158-0924; lattes: 7724077808075136

Renato de Oliveira Brito2 
http://orcid.org/0000-0002-9345-2529; lattes: 7692528705135758

1Universidade Católica de Brasília (Brasil). cristina.mesquitas@gmail.com

2Universidade Católica de Brasília (Brasil). renatoorios@gmail.com

CUNHA, Célio da. Jorge Guimarães. Ciência, Desenvolvimento e Visão de Futuro. Brasília/DF: Cidade Editora, 2021. 378 pp.


O Professor Dr. Célio da Cunha, reconhecido acadêmico brasileiro da área de educação, autor de diversas obras relevantes e atualmente professor titular do Programa de Mestrado e Doutorado Stricto Sensu em Educação da Universidade Católica de Brasília (UCB), regala-nos com a obra “Jorge Guimarães: Ciência, Desenvolvimento e Visão de Futuro” publicada em 2021. O livro, além da apresentação, apêndice e anexos, se organiza em cinco partes, os quais encerram dezessete capítulos dedicados a relatar os fatos marcantes da vida e o legado científico, acadêmico e de gestão pública do Professor Dr. Jorge Guimarães, e junto dela destaca marcos da própria história da educação nacional.

A obra em análise tem como elemento central a trajetória de uma instituição nacional cuja relevância para a evolução da pesquisa científica brasileira e da educação superior de alto nível é indiscutível: a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - Capes, fundação pública ligada ao Ministério da Educação (MEC). As narrativas de Jorge Guimarães e da Capes se entremeiam de tal modo, que seria mesmo impossível relatar a vida da pessoa, sem mencionar seu legado para a fundação, assim como destacar a trajetória da Capes, sem considerar o frutífero período em que esteve sob a gestão de Jorge Guimarães, entre os anos de 2004 a 2014.

Merece nota o conjunto de autores responsáveis pelos capítulos do livro, integrado por pesquisadores, políticos e gestores públicos que conviveram e trabalharam com o Dr. Jorge Guimarães, especialmente ao longo de sua gestão como presidente da Capes. Apresenta a obra o ex-ministro da educação e atual ministro da Fazendo do Brasil, Fernando Haddad. Ao Prof. Dr. Célio da Cunha competiram as partes I e II e um capítulo da parte III, respectivamente intituladas “Capes: tempos de Anísio e de gestões continuadas”, “A Gestão Jorge Guimarães: uma visão de futuro” e “Jorge Guimarães gestor e cientista: percepções de cientistas, pesquisadores e familiares”.

Destacando momentos históricos marcantes, afim de contextualizar os setenta anos de história da Capes, desde sua concepção, criação e grandes marcos, nos primeiros capítulos remontam-se inicialmente aos anos trinta do século passado, com ênfase para as circunstâncias políticas da época e para as intensas transformações culturais e educacionais pelas quais passava o país. O autor (p. 21) rememora que datam daquela década acontecimentos como “[...] a reforma da educação superior de Francisco Campos (1931), seguindo-se a divulgação ao povo e ao governo do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932), a fundação da Universidade de São Paulo - USP (1934), a promulgação de uma nova Constituição (1934) [...] a criação da Universidade do Distrito Federal - UDF (1935)

As décadas que sucedem são apresentadas a partir de marcos políticos de expressão, considerando suas repercussões para o contexto da educação, com relevo para a criação da Capes no ano de 1952, cuja primeira direção foi designada a Anísio Teixeira, proeminente pensador da educação no país, signatário do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova e idealizador, dentre outras iniciativas, do projeto da Universidade do Distrito Federal.

A Capes surge na esteira do crescimento econômico e industrial do país, com a missão de induzir a formação de técnicos e cientistas de alto nível, frente a uma demanda patente de profissionais qualificados para atuação nas muitas frentes de desenvolvimento do Brasil. Não obstante sempre tenha cooperado para iniciativas voltadas ao estímulo à formação superior, a fundação não esteve isenta das ingerências e, por vezes, de voluntarismos políticos, sendo, inclusive, extinta em 1990, pelo então governo do Presidente Fernando Affonso Collor de Mello.

Mácula indelével no desenvolvimento da ciência e da educação brasileira, a extinção da Capes foi também a razão pela qual pesquisadores, cientistas e educadores, dentre os quais Jorge Guimarães, se reuniram em prol de uma grande causa, a defesa da fundação e de sua recriação. Ao período conturbado, seguem-se gestões presidenciais no órgão, que, a despeito das orientações políticas dos governantes, primaram tanto quanto possível pela sua recomposição, em termos orçamentários e de pessoal, e pelo seu protagonismo na indução e fomento da pesquisa científica. Nenhum deles, contudo, obteve nesta missão tantos êxitos como Jorge Guimarães, como afirma Cunha (p. 58) ao aludir que: “Durante esse tempo, a Capes atingiu o ponto mais alto de sua história em termos de fomento à pesquisa e à pós-graduação no país”. É sobre tal legado que se dedica o capítulo III do livro.

A gestão de Jorge Guimarães à frente da Capes coincidiu com um período de reconhecido desenvolvimento econômico e social do Brasil, iniciado durante a primeira gestão do governo do Sr. Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2004) e estendendo-se até parte do segundo mandato da Sra. Presidente Dilma Rousseff (2015). Neste período, relevantes estratégias são adotadas, de modo que a atuação da Capes é alçada a um outro patamar.

Dentre inúmeros feitos relevantes de Jorge Guimarães à frente da Capes, destaca-se a nova atribuição assumida pela fundação no ano de 2007, na condução de políticas voltadas à formação docente para a atuação na educação básica, retomando assim, o papel sonhado por Anísio Teixeira para a Fundação. Releva-se também: o protagonismo da Capes na condução do grandioso e ousado programa Ciência sem Fronteiras, cujo projeto inicial previa a concessão de cerca de 100 mil bolsas para estudantes brasileiros realizarem parte de sua formação no exterior; a revisão e aprimoramento do modelo de avaliação da pós-graduação, com ampliação considerável do número de propostas de cursos novos (APCN) e evolução das notas dos programas; a ampliação e qualificação do corpo funcional da Capes; a condução concepção e/ou consolidação dos IV, V e IV Planos Nacionais de Pós-Graduação (PNPG), compreendendo todo o planejamento das ações para o desenvolvimento da pós-graduação brasileira; a expansão do Portal de Periódicos, democratizando o acesso a milhares de bases científicas às instituições de ensino superior do país. Tudo isso viabilizado pelo incremento do orçamento da Fundação que, por mérito da gestão, chegou a R$ 7,1 bilhões no ano de 2015.

Na parte III, nos “Depoimentos sobre a gestão Jorge Guimarães na Capes”, registram-se respectivamente os testemunhos de Carlos Ivan Simonsen Leal, Aldo Malavasi, Marcio de Castro Silva Filho, Robert Verhine, Sandoval Carneiro Júnior e Denise Neddermeyer. Trata-se de breves relatos sobre o protagonista em suas muitas facetas, como cientista e professor, como gestor de entidades científicas relevantes no país e até mesmo em momento de descontração, com seus hábitos simples e sua postura firme ante às necessárias decisões que se lhe apresentaram ao longo de sua trajetória profissional.

Em “Jorge Guimarães por ele mesmo”, parte IV do livro, o próprio personagem central apresenta sua história de vida e trajetória acadêmica e profissional. Os desafios superados em busca da garantia de escolarização, estudos superiores e colocação profissional como professor e pesquisador denotam o brilhantismo de Jorge Guimarães, ao mesmo tempo que revelam as dificuldades da educação enfrentadas à época no contexto histórico do país. Nos primeiros estudos, como morador da zona rural e membro de uma família pobre, o grande obstáculo foram as distâncias a serem percorridas, as poucas escolas disponíveis, a necessidade de conciliar estudos e obrigações com o trabalho para ajudar à família. Ao ingressar em estudos médios e superiores, igualmente escassas as ofertas de cursos e instituições educacionais, de modo que o jovem Jorge precisou adaptar seus sonhos aos cursos possíveis de se realizar. Foi assim que tendo sonhado um dia tornar-se químico, Jorge Guimarães estudou veterinária e bioquímica, aprofundando-se nestas áreas, com o apoio de seus mentores acadêmicos.

Profissionalmente, Jorge Guimarães relata suas passagens como docente e pesquisador por universidades federais no Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e em Porto Alegre, sempre buscando dedicar-se ao desenvolvimento da investigação científica e da educação superior. Às intensas relações profissionais e pessoais estabelecidas ao longo destas passagens, devem-se os feitos da vida de Jorge, suas escolhas e caminhos. A atuação política de Jorge Guimarães ampliou-se gradativamente, à medida que evoluiu sua carreira. Assim, sobrevieram suas muitas indicações como dirigente em associações, conselhos e, posteriormente, como dirigente em órgãos públicos como o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Capes e a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii).

De todas as atuações como gestor público, por certo a mais marcante ao longo desta obra se deu como presidente da Capes e é registrando esse profícuo período de 11 anos e 3 meses que os depoimentos dos profissionais constantes da Parte V, “Textos Sobre a Gestão Jorge Guimarães na Capes” se desenvolvem.

A evolução e expansão do Portal de Periódicos é registrada em “O Portal de Periódicos da Capes e a pós-graduação brasileira”, capítulo escrito por Elenara Chaves Edler de Almeida. A autora demonstra, a partir dos dados do período, extraídos dos sistemas da própria Capes, o crescimento do portal e seu papel fundante enquanto iniciativa economicamente viável para a democratização do acesso às bases científicas do Brasil e do mundo. A aquisição de novas coleções e a implantação de sistema integrado de buscas são algumas das razões apontadas como responsáveis pelo crescimento expressivo do Portal a partir do ano de 2004.

Em “Cooperação internacional na Capes: Ciência sem Fronteiras”, Denise Neddermeyer apresenta um relato sobre a atuação de Jorge Guimarães à frente da expansão dos programas de internacionalização geridos pela Capes. Dentre os principais programas com tal conotação, a autora aponta destaque especial ao Ciência sem Fronteiras (CsF), cuja magnitude e complexidade representou um imenso desafio à Capes. Neddermeyer (p. 243) destaca o quão imprescindível foi a atuação da Capes e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico ( CNPq) para o desenvolvimento do programa, assim como de Jorge Guimarães:

Igualmente relevante foi o engajamento do dirigente da Capes à época, que saiu em campo para divulgar e apresentar o programa aos reitores das melhores universidades no exterior, arregimentando uma rede de entidades idôneas e experientes que facilitaram sobremaneira a travessia de obstáculos burocráticos referentes à alocação de milhares de estudantes em suas universidades de destino os quais, na sua maioria, nunca haviam saído de suas cidades natal, localizadas nas regiões as mais remotas do Brasil.

Conquanto, a capacidade técnica e gerencial da Capes, do CNPq e do próprio Jorge Guimarães, não foram poucas as barreiras para a expansão do programa conforme inicialmente planejado, tampouco os óbices operacionais e até pedagógicos enfrentados ao longo de sua gestão por parte da Capes. Assim também não foram poucas as repercussões do Programa no contexto da educação nacional, daí que inúmeras foram e até hoje são, as produções científicas que se dedicam à sua análise. Nesse sentido, o capítulo “Ciência sem Fronteiras: as primeiras avaliações” relaciona algumas produções acadêmicas finalizadas ou em curso que discorrem sobre o programa, seu desenvolvimento e alguns dos resultados observados.

Retratando o papel da nova Capes, ou seja, as atribuições delegadas à Fundação relativas à formação presencial e a distância de professores da educação básica, os capítulos “Formação de Professores da Educação Básica na Capes: um olhar sobre o período 2009-2014” e “Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB /Capes) e instituições públicas revolucionam formação superior via educação a distância”, respectivamente de Carmen Moreira de Castro Neves e João Carlos Teatini de Souza Clímaco abordam os papéis das duas novas diretorias da Capes, a partir de 2007, a Diretoria de Formação de Professores da Educação Básica (DEB) e a Diretoria de Educação a Distância (DED) na condução dos novos programas sob sua responsabilidade. Ambos os autores convergem para a compreensão da formação do docente da educação básica como medida indispensável para o progresso do sistema educacional nacional de modo geral e apontam a renovação do papel da Capes, com sua atuação nesta seara, como um dos grandes feitos de Jorge Guimarães. Programas como o Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica (Parfor), o Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid), o Prodociência, o Novos Talentos; o Sistema Universidade Aberta do Brasil (UAB) e o Programa de Mestrado Profissional para Professores da Educação Básica - (ProEB) são mencionados como algumas das iniciativas estabelecidas com vistas à melhoria da qualidade da formação do magistério.

Ao final, o apêndice da obra apresenta uma linha do tempo com a descrição da trajetória de vida de Jorge Guimarães. São relacionadas as premiações, distinções e honrarias a ele outorgadas, descritas as suas participações em conselhos e comissões e, por fim, registrado seu discurso quando da sua despedida como presidente da Capes. O anexo I apresenta os breves currículos dos autores e depoentes da obra.

A obra de Cunha (2021) nos remete à reflexão, posto que em tempos de aceleradas transformações, em que as informações circulam de modo tão abundante quanto superficial, em tempos de consumo e descarte instantâneo de informações, não surpreendem as inúmeras biografias, autorizadas ou não, interessantes ou quase sempre nem tanto, acerca de políticos e artistas, celebridades das mais diversas. Ousar registrar, contudo, a história de vida e o legado profissional de um cientista, um pesquisador, cuja trajetória profissional engradece o país por seu legado acadêmico, é digno de reconhecimento. Esse é o mérito da obra, ora apresentada, e grande é o seu legado para a educação brasileira.

Oxalá, possamos seguir conhecendo e reverenciando à vida e obra de nossos pesquisadores, nossos professores, nossos homens e mulheres da educação e ciência. Vida longa ao Prof. Dr, Jorge Guimarães! Vida longa à ciência e à educação brasileira!

REFERÊNCIAS

CUNHA, Célio da (Org). Jorge Guimarães. Ciência, Desenvolvimento e Visão de Futuro. Brasília/DF: Cidade Editora, 2021. 378 p. [ Links ]

Recebido: 29 de Agosto de 2023; Aceito: 14 de Outubro de 2023

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