Introdução
Neste artigo abordaremos o ensino de História da Educação no Curso de Pedagogia das Faculdades Integradas Santo Tomás de Aquino (Fista)2, disciplina que foi ministrada entre os anos de 1951 a 1980, pautada pelo ideário católico, inicialmente, da restauração e, depois, da renovação católica, sendo que, nos anos iniciais, sua oferta era realizada por docentes vinculados à Igreja3. Para tanto, em termos de referenciais teóricos, foram acionados autores tais como, Casali (1995) e Gatti Jr. (2017) como base teórica para apreender o ensino e, sobretudo, os programas da disciplina História da Educação no Curso de Pedagogia da Fista.
Com o intuito de analisar como era o ensino de História da Educação na Fista buscamos fontes, notadamente, documentos históricos, dentre os quais se destacam os relatórios institucionais nos quais foi possível encontrar os programas prescritos e mesmo os planos de aulas para a disciplina de História da Educação. Também foram buscadas e analisadas atas, relação de professores e de discentes4. Salientamos ainda que os históricos escolares5 e o Regimento Integrado da instituição, de 1971, e documentos de arquivos particulares de egressas do curso de Pedagogia também compuseram o corpus documental6.
Para realizar uma interlocução com esses resquícios históricos reportamos também à técnica de História Oral, por meio da qual cinco egressas do Curso de Pedagogia foram entrevistadas, dentre às quais uma também foi docente da disciplina História da Educação, no período compreendido entre 1971 e 19807.
Neste artigo, em um primeiro momento, realizamos uma breve contextualização da criação e do funcionamento inicial da Fista. Em seguida, apresentamos a proposta e o processo de implantação do Curso de Pedagogia, notadamente, sua estrutura curricular e, por fim, abordamos os programas de ensino da disciplina História da Educação.
1. A criação e o funcionamento inicial da Fista8
Em 1944, foi fundado o Instituto Superior de Cultura (ICS), na cidade de Uberaba, em Minas Gerais. Instituição idealizada por Monsenhor Juvenal Arduini9. Inicialmente o ICS atendeu a um público determinado e possuía professores leigos e religiosos. O trecho abaixo contém informações que colaboram para apreender a finalidade da proposta educacional do referido Instituto.
Nós não tínhamos Cursos Superiores na época [...]. Parece que no passado houve um curso de Farmácia, há tempos [...]. Então o primeiro curso foi em [19]48, [...] o de Odontologia e a Escola de Enfermagem Frei Eugênio [...]. Em [19]49 a Faculdade de Filosofia. [...] nós tínhamos [...] vontade de lançar curso[s] [...] de Filosofia, [...] de Literatura [...] e foi o que aconteceu. Nós organizamos então entre intelectuais, alguns professores de cursos secundários, escritores e jornalistas. Nós reunimos esse pessoal e fundamos o Instituto Superior de Cultura, que o próprio nome indica, assim, uma pretensão de se fazer uma reflexão mais ampla, de se trazer uma pessoa de fora, para trazer assim, uma contribuição maior etc. E foi o que nós fizemos! Lançamos então no começo de [19]44 o Instituto Superior de Cultura. Ele cresceu, ele se desenvolveu. Houve o Curso de Filosofia. Eu mesmo trabalhei muito nessa área, o Professor Santino Gomes de Matos apresentou aulas de Português, de Literatura, também nesse curso. [...] Dom Alexandre também ofereceu algumas aulas e houve conferencistas que vinham de fora, que eram convidados para fazer trabalhos aqui. Inclusive nós tivemos aqui pessoas que vieram até do estrangeiro (ARDUINI, 1988, p.26).
Cabe destacar que o ISC funcionou entre 1944 e 1949, tendo sido o caminho inicial para implantação de uma faculdade católica em Uberaba10. O texto que será citado a seguir reporta a pretensão dos indivíduos que compunham como meta tal concretização educacional.
Tivemos também intelectuais do país que fizeram conferências. E ele [o Instituto Superior de Cultura] durou bastante tempo, praticamente até [19]49; Ele foi o germe da Faculdade de Filosofia, porque, eu tenho e até depois posso mostrar, nós temos aqui o Dr. Alceu de Amoroso Lima, que era do Conselho Federal de Educação. Ele veio a Uberaba, em [19]44, e nós estivemos junto com ele [...] - falamos sobre o Instituto Superior de Cultura, então ele falou assim: “Porque vocês não caminham para fundar a Faculdade de Filosofia?” E foi quando [...], a partir disto, [sendo que] já havia certa ideia no ar, as Irmãs Dominicanas e os Irmãos Maristas, mas, sobretudo, as Irmãs Dominicanas, começaram a trabalhar nesta área. [...] e, em [19]49 concretizou-se a ideia (ARDUINI, 1988, p.27).
Percebe-se que a proposta educacional foi obtida com a participação de integrantes do grupo vinculado à religião católica, notadamente, à reação católica, com obtenção de êxito para a concretização de uma faculdade com as finalidades que estes pretendiam para a formação de indivíduos que atuariam na sociedade.
Na Figura 1 é possível constatar a presença de Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, que é o segundo do lado esquerdo, com rosto frontal e, ao lado dele, com traje religioso de cor preta estava o Monsenhor Juvenal Arduini. Apesar de não constar a data do referido encontro, inferimos que seja entre os anos de 1944 a 1948, período de funcionamento do Instituto Superior de Cultura (ISC) em Uberaba11.

Fonte: Arquivo Público de Uberaba
Figura 1 Refeição com a presença de Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde (s/d).
Em 1949 teve início o funcionamento da Fista. Em 1950, foi criado o Curso de Pedagogia, com a oferta da disciplina História da Educação desde 1951, na segunda série do curso. Por meio de consulta à primeira ata da instituição educacional, destacamos o trecho transcrito abaixo no qual constam os integrantes dessa proposta educacional.
no Colégio Nossa Senhora das Dôres, realizou-se a primeira reunião do corpo docente da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras “Santo Tomás de Aquino”, sob a presidência de S. Excia. Revma. D. Alexandre Gonçalves Amaral. Achavam-se presentes, a Ex. Sra. Irmã Diretora, Madre Maria Angela da Eucaristia, a vice diretora, Irmã Maria Virginita do Rosário, o Regente do Departamento masculino, Snr, Irmão Lourenço e bom número de professores. [...]. Marcou-se o início das aulas para o dia Sete de Março, festa de Santo Tomás de Aquino. Foi proposto o seguinte programa: às sete horas, uma Missa festiva celebrada por nosso caríssimo Bispo Diocesano, Presidente de Honra da Faculdade, e às dezenove e meia horas a aula inaugural dada por sua Excia. Revma. Decidiu-se, após discussões, que a Missa seria celebrada no Colégio Diocesano onde funciona o Departamento Masculino e a aula inaugural no Colégio Nossa Senhora das Dôres, onde funcionava o Departamento Feminino. Propôs-se que o convite fosse feito pela Imprensa, bem como a propaganda da Faculdade, sendo para isto encarregados os senhores professores Dr. José Mendonça e o senhor Santino Gomes de Matos, que se prontificaram com a máxima bôa vontade. [...] Antes de terminar a reunião, Sua Excia. Revma. D. Alexandre Gonçalves Amaral tomou a palavra, frisando a necessidade urgente e real da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras nesta cidade. Seu trabalho será lento, mas [...] lá na Capital acreditam que a mentalidade de Uberaba não comporta uma Faculdade de Filosofia, isso é engano, e o futuro encarregará de demostrar com fatos o que prevemos hoje. Contou-nos que o professor Dr. Alceu de Amoroso Lima quando aqui esteve em mil novecentos e quarenta e quatro, por ocasião do Congresso de Ação Católica, lhe dissera dar aula de Sociologia, na Faculdade do Rio a quatro alunos, ao passo que aqui o Revmo. Padre Juvenal tem no Curso de Filosofia, uma frequência média de vinte alunos. Sua Excia falou ainda sobre a fundação das universidades católicas propagadas por sua Eminência o Snr. Cardeal D. Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, em nosso país, salientando já a criação da Universidade Católica de Minas Gerais, e quem sabe, no futuro bem poderemos ter a Universidade Católica do Brasil Central, com séde em Uberaba. (FAFICLSTA, ATA DA PRIMEIRA REUNIÃO DA CONGREGAÇÃO, 11 de fevereiro de 1949).
Além desses participantes que efetivaram a implantação da Faculdade Católica em Uberaba, salientamos as finalidades para a formação de professores que foram evidenciadas por meio da leitura do Art.1º. do primeiro regimento da Fista, o qual foi mencionado na primeira reunião da Congregação das Irmãs Dominicanas.
Artigo 1º. a) formar professores para curso secundário e normal; b) dar aos estudantes ensejo de se especializarem, conforme suas aptidões individuais; c) colaborar com institutos oficiais congêneres para a difusão da educação nacional e generalização da alta cultural intelectual no Brasil. d) realizar pesquisas nos vários domínios da cultura que constituam objeto de seu ensino, frisando, entretanto, que acima de todas, a finalidade máxima, é a maior glória de Deus (FAFICLSTA, ATA DA PRIMEIRA REUNIÃO DA CONGREGAÇÃO, 11 de fevereiro de 1949).
Existia, portanto, um ideário a ser disseminado àqueles que se integrassem e que ingressassem na instituição, sendo que a formação de professores colaboraria para difundir os valores não só no âmbito interno, mas também em termos mais amplos, para a sociedade.
2. A implantação e a estrutura curricular do curso de Pedagogia da FISTA
A Fista tornou-se referência regional na formação de professores. O grupo de idealizadores da instituição era vinculado à Igreja Católica e guardava relação com Alceu Amoroso Lima, o Tristão de Athayde, intelectual com influência na difusão da criação e da expansão de faculdades e mesmo universidades católicas pelo Brasil (CASALI, 1995, p.131). A esse respeito, é importante mencionar o conteúdo de uma ata datada de 7 de fevereiro de 1950, no qual é perceptível o propósito de dar visibilidade à Fista em termos nacionais, por meio da criação de uma revista.
Interessante também foi a ideia do professor Santino Gomes de Matos sôbre a criação de uma revista para a Faculdade. Este assunto ocupou algum tempo, a Assembleia, sendo decidido finalmente: 1º que os membros da Comissão para esta obra seriam: Professor Santino Gomes de Matos, Dr. José Mendonça, Revmo. Pe. Juvenal Arduini, Irmão Lourenço e Irmã Maria Virginita do Rosário. Antes de encerrar a sessão, a professora de espanhol, Irmã Maria Anais, tomando a palavra, propôs que se traduzissem livros nos trabalhos de Seminário para entusiasmar as alunas e também para tornar a Faculdade mais conhecida, pelas publicações das obras traduzidas. Propôs para êste primeiro trabalho, a tradução da vida de “Santo Tomás” do Père Petitot o.p. que poderá ser traduzida do francês e do espanhol (FAFICLSTA, ATA DA 4ª REUNIÃO DA CONGREGAÇÃO, 7 de fevereiro de 1950).
Nesse sentido, Casali (1995) ao analisar o Regimento Interno da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Instituto Sedes Sapientiae, presente no Anuário de 1943, evidencia uma correspondência entre as iniciativas católicas no Ensino Superior, a saber:
O Regimento Interno do Instituto, no Artigo 1º, descreve seus fins: I-Promover a Investigação científica; II-Preparar pra o exercício do magistério secundário; III-Contribuir para o desenvolvimento de uma cultura intelectual informada pelos princípios cristãos e pelas diretrizes pontifícias (CASALI, 1995, p.153).
Existia, portanto, uma cultura específica orientada pelos intelectuais capacitados para nortearem o modelo pedagógico da instituição. Salienta-se que o Curso de Pedagogia na Fista iniciou em 1950 e foi reconhecido pelo Decreto 30344, de 26 de dezembro de 1951, que dispôs sobre habilitações em Inspeção Escolar, Supervisão Escolar, Administração Escolar, Orientação Educacional (FISTA, REGIMENTO INTEGRADO, 1971, p.1) 12.
De acordo com documento intitulado “II - Relação total das cadeiras indicadas, as não providas por catedráticos e as medidas objetivas para o regular provimento”, datado de 1950, verificamos a informação de que “o ano de 1950 é o segundo ano de funcionamento da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras Santo Tomás de Aquino” e as cadeiras lecionadas dispunham de cinco disciplinas, a saber: 1ª Série Curso de Pedagogia: a) Complementos de Matemática; b) História da Filosofia; c) Sociologia; d) Fundamento Biológicos da Educação; e) Psicologia Educacional.
Para compreender sobre o quadro de docentes do curso de Pedagogia e, mais especificamente, daqueles que ministraram o ensino de História da Educação que incidia na formação de professores apresentaremos o Quadro 1, no qual consta a relação de professores que estiveram como docentes do ensino de História da Educação entre 1951 e 1980.
Quadro 1 Relação dos professores de História da Educação na Fista (1951 a 1980)
| Docente | Período | Disciplinas ministradas |
|---|---|---|
| Padre Antonio Tomás Fialho | 1951 a 1952 | História da Educação e História da Filosofia |
| Yvone de C. Rocha (Irmã Virginita Maria do Rosário)13 | 1953 a 1956 | História da Educação e Fundamentos de Sociologia da Educação |
| Elizabeth Castejon14 | 1956 | Fundamentos Sociológicos da Educação Educação Comparada História da Educação |
| Irmã Esther Maria15 | 1957 | História da Educação Educação Comparada |
| Maria Sarah Felippe Villaça | 1961 a 1963 | História da Educação |
| Maria do Rosario Cunha | 1960 a 1966 | História da Educação |
| Selma Amuí16 | 1967 | História da Educação |
| Elsie Barbosa17 | 1963 a 1969 | História da Filosofia História da Educação |
| Padre Thomas de Aquino Prata | 1967 a 1970 | História da Educação História da Filosofia Fundamentos Sociológicos |
| Antonia Teresinha da Silva | 1971 a 1980 | História da Educação |
| Neide Fonseca de Oliveira | 1972 | História da Educação |
Fonte: Elaborado pelos autores, com base nos dados coletados em FFCLSTA. História da Educação. 1950 a 1980.
Com esta variação dos docentes responsáveis pela oferta da disciplina História da Educação é possível antever que houve permanências e mudanças na composição de seus conteúdos programáticos ao longo do tempo, de 1951 a 1980, conforme poderemos analisar adiante.
3. Os programas de ensino da disciplina História da Educação
Os programas de ensino analisados nos quais estavam dispostos os conteúdos de História da Educação no Curso de Pedagogia da Fista no período compreendido entre 1951 e 1980 podem ser percebidos três aspectos18. O primeiro, conservador e tradicional, que corresponde aos anos de 1951 a 1960, durante os quais, temas como matrimônio, divórcio, papel da mulher, feminismo foram apresentadas as futuras professoras, condizentes com um contexto social e cultural e, portanto, com a formação moral e a disseminação de valores católicos que são bem identificados na disciplina. O segundo aspecto, sob uma perspectiva de uma história linear e cronológica no qual pensadores do passado seriam modelos para o presente19. Por fim, percebe-se um terceiro aspecto, no qual a programação está ancorada na perspectiva da evolução dos povos primitivos aos civilizados.
Em 1951, a programação da disciplina de História da Educação dispunha de conteúdos que continham discursos que iniciavam pela evolução dos povos em relação à questão moral, aos valores e a fé, com uma abertura para colocar a Educação em um patamar de cientificidade. A estrutura do ensino de História da Educação, em 1951, denota tratar-se de um conhecimento importante a ser transmitido aos estudantes da instituição. No Quadro 2 consta reproduzido o programa de História de Educação da Fista no ano de 1951.
Quadro 2 Programa de História da Educação do Curso de Pedagogia - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santo Tomás de Aquino - Uberaba (MG) - 1951-1º Semestre.
| Série | 2ª. Série | |
|---|---|---|
| Mês | Março | Abril |
| Programa | História e História da Educação Pedagogia e História da Educação Evolução e Divisão da História da Educação Métodos da História da Educação Educação dos Povos Primitivos (grifo nosso) Educação dos Povos Primitivos (grifo nosso) Psicologia do Primitivo História da Educação na Antiguidade História da Educação Oriental |
História da Educação na India Antiguidade (grifo nosso) História da Educação na India Antiguidade (grifo nosso) História da Educação na India Atualidade (grifo nosso) História da Educação entre os Hebreus - Antiguidade A leitura Hebraica Aula prática - Zilda Tomás - sôbre os Hebreus e métodos educacionais Atualidade da leitura Hebraica Educação Egípcia (grifo nosso) Educação Egípcia (grifo nosso) Aula Paulita Vasconcelos - sôbre Educação Egípcia Grécia - resumo histórico Mitologia Grega A Filosofia grega A Filosofia grega e a Educação Educação grega |
| Mês | Maio | Junho |
| Programa | Finalidade da Educação Grega Métodos da Educação Grega Aula prática “Filósofos gregos” Paulita Vasconcelos A música na Educação grega Religião e Educação na Grécia (grifo nosso) Religião e Educação na Grécia (grifo nosso) As festas religiosas Aula prática: “Ciências e Artes” na Grécia Elizabeth Castejon Escola primária na Grécia A Família Concepções diversas sôbre a Família Origem e evolução da Família O matrimônio (grifo nosso) O matrimônio (grifo nosso) O divórcio Maltusianismo |
Neomaltusianismo Problemas práticos Feminismo (grifo nosso) Feminismo (grifo nosso) Revisão |
| Pontos Selecionados | 1ª Prova Parcial 1º a) A escola primária na Grécia Antiga 2º a)Educação Grega: objetivo: educação moral religiosa 3º a)Educação Hebraica 4º a)Religião e as Artes na educação grega 5º a) Educação Egípcia 6º a) Educação Indú |
7º a) Base do desenvolvimento educacional na Grécia. 8º a) Literatura, Retórica e Teatro gregos como elementos de educação 9º a) A Formação Moral Religiosa entre os gregos. 10º a) O ensino secundário na Grécia Antiga Ponto sorteado nº 7 |
Fonte: Elaborado pelos autores, com base nos dados coletado em FFCLSTA, 1951.
A estrutura do ensino de História da Educação seguia uma cronologia que possibilitava às discentes a apreensão de conteúdos apresentados de maneira linear e formadora de valores e condutas, evidenciando possíveis comparações entre uma cultura e outra na qual existiria um modelo a ser ensinado. Assuntos tais como matrimônio e divórcio faziam parte do programa da disciplina História da Educação. Compreende-se que, naquele contexto, era importante inserir temáticas que prevaleciam na ambiência social e cultural e ressalta a relevância desses conteúdos no ensino da disciplina História da Educação para formação de professores.
Em relação ao perfil programático, verifica-se que houve continuidade do pensamento doutrinário moral cristão20. O perfil programático do ensino História da Educação da Fista pode ser evidenciado por Vasconcelos (2020), que também ressalta no próprio discurso de formatura.
Nossa visão de agora é outra. Não por sabermos que dias sombrios nos esperam pela vida afora; não por julgarem alguns que o nosso otimismo sadio foi corrompido pelo pessimismo que derrota e aniquila o sêr humano. Isto jamais poderia acontecer. O que se verifica, em verdade, é que passamos da ilusão de ontem para a realidade por vêzes chocante de hoje. Um novo horizonte surgiu despido de artifícios, porque e nele descobrimos a Verdade, antes empanada por sofismas venenosos que nosso espírito aceitava, incapaz como era de reagir. Esta nova visão, mais ampla, menos subjetiva, mais real, confere-nos a grande responsabilidade a que há pouco fizemos alusão. O mundo moderno caminha, ou melhor vôa. As maravilhas das ciências, surpreendem-nos. Que o espírito do homem moderno caminhe com igual fervor nas estradas do Bem. Há muita coisa a ser feita, muitos princípios são a serem observados. E na ordem social, o princípio mais negligenciado e mais conculcado pelos homens de hoje é, sem dúvida, o da solidariedade humana universal, com tanta insistência defendido pelo Santo Padre Pio XII (VASCONCELOS, DISCURSO DE FORMATURA, 1953).
Verifica-se pelo excerto que as formandas do Curso de Pedagogia da Fista no ano de 1953 advogavam princípios que estavam concernentes com os defendidos pelo representante institucional da Igreja Católica, o Santo Padre Pio XII. Para colaborar com os apontamentos que realizamos, Vasconcelos (2020) cita os pensadores estudados no ensino História da Educação e ressalta a percepção que possuía em relação aos conteúdos estudados.
Não lembro o ano que a História da Educação foi ministrada, mas estudávamos Montessori, Piaget etc. Passei por Marx. O meu curso teve uma conotação [...] mais religiosa. Mais cuidadoso com esses pensadores [...]. Quando reli meu discurso, achei um tanto piegas [risos]. A minha visão daquele tempo era [...] e delas [dominicanas] [...]. Apesar que dominicanas tem abertura muito grande, mas não tanto assim a esse ponto. Nós erámos pouquíssimas, umas seis ou sete com outros cursos. Não tinha como ser diferente. Partíamos de Pitágoras, Aristóteles e vínhamos caminhando. Acho que paramos na Fista [risos]. Da Idade Média, Antiga, Clássica - até hoje não sei dos Sofistas [risos]. Acho que tive mais aulas com Irmãs e Padres, nem sei formação. Nós éramos três [eu e a Zilma do 2º ano de Pedagogia] e a Vilma [que estava no primeiro ano de Pedagogia], mas quando tínham[os] conteúdos que era[m] condizente[s] com a série dela, [ela] fazia aula conosco. (VASCONCELOS, 2020).
O conteúdo do depoimento de Vasconcelos (2020) aborda suas lembranças do ensino de História da Educação, mas, também, convém salientar que autores da Escola Nova estavam dispostos no programa.
A História da Educação foi ministrada de 1951 até o ano de 1952 pelo Padre Antonio Tomás Fialho21. De 1953 a 1956, a disciplina foi ministrada por Yvone de C. Rocha (Irmã Virginita Maria do Rosário)22, sendo o nome Yvone de C. Rocha de ordem civil e o nome religioso era Irmã Virginita Maria do Rosário. Verifica-se que, em alguns momentos, os programas de História da Educação constavam o nome da referida docente com nome religioso e em outros momentos constava o nome civil.
Cabe destacar que o ensino de História da Educação na Fista nos anos de 1950 evidenciam a incipiente abordagem da História da Educação no Brasil. Nestas análises dos conteúdos programáticos percebe-se que em 1956 foi discorrido, talvez com mais ênfase, alguns aspectos da História da Educação do Brasil.
(15) - Evolucionismo da Educação no Brasil; (16) - Educação no Brasil durante o período Colonial e o período monárquico; (17) - Educação no Brasil - período republicano e período posterior no movimento revolucionário de 1930; (18) - Educação no Brasil. Lei Orgânica do Ensino Secundário. Decreto-lei nº 4244 de 19 de abril de 1942. Reforma e responsabilizações do Ministro Gustavo Capanema. (20) - A Educação atual no Brasil. Posição e tendências. (RELATÓRIO FFCLSTA, 1956).
Infere-se que a palavra “Evolucionismo da Educação no Brasil” considerava o trabalho realizado pelos Jesuítas na Companhia de Jesus durante a colonização do país. O período monárquico seria enfatizado devido ao apoio que existiu entre monarquia e Igreja. Em relação ao período republicano e posterior no movimento revolucionário de 1930, a proposição que elencamos seria a de que as ações de Getúlio Vargas e Francisco Campos eram favoráveis à atuação dos movimentos de implantação do ensino religioso bem como do ensino superior católico no país.
Sobre o ensino da História da Educação na Fista a partir de 1960, sabe-se que a referida disciplina foi ministrada por Maria do Rosário Cunha23. Apesar das mudanças que aconteciam no quadro de docentes, estes possuíam afinidades com a instituição. Esta nossa proposição pode ser evidenciada quando elencamos que a disciplina História da Educação foi ministrada por egressas do Curso de Pedagogia da Fista, respectivamente, por Elizabeth Castejon, Maria do Rosário Cunha, Maria Sarah Felippe Villaça, Selma Amuí, Neide Fonseca de Oliveira e Antonia Teresinha da Silva24.
Em relação ao perfil programático, no período em que as docentes supracitadas ministraram a disciplina História da Educação, verifica-se que houve permanência da continuidade do pensamento doutrinário moral cristão25. Uma característica que também marcou o ensino de História da Educação na Fista foi a designação dada como humanista.
A característica forte da Fista era escola/formação humana - fato de sempre se fazer educativo - Formação Humanista. Foi nessa linha do Humanismo Cristão, da Ética Cristã que a Fista se dedicou com a formação de educadores. Fui indicada pelo Padre Prata que estava com acumulo de disciplinas26. Ajudava ele e quando [ele] aposentou[-se] eu logo assumi as disciplinas. Grande amigo nos momentos bons e difíceis. Ministrava [Padre Prata] aulas de Sociologia Educacional, Sociologia Geral, Filosofia da Educação [e outras que] já até esqueci (PRAIS, 2019).
Neste sentido, para apreendermos qual era o perfil programático do ensino de História da Educação da Fista no ano de 1960 reportamos aos conteúdos que apresentam como objetivo “entrar em contacto com as principais experiências educacionais da humanidade, analisando as idéias que as orientaram” (RELATÓRIO FFCLSTA, 1960). As temáticas abordadas foram: “A Educação Cristã: Apostólica - Patrística - Monástica - Escolástica - Os Árabes e a cultura Ocidental - O Renascimento - A Reforma - A Contra Reforma” (RELATÓRIO FFCLSTA, 1960). No Quadro 3 estão apresentados os conteúdos constantes no Programa História da Educação na Fista em 1960.
Quadro 3 Programa de História da Educação do Curso de Pedagogia - Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santo Tomás de Aquino - Uberaba (MG) - 1960.
| Séries 2ª e 3ª | |||
|---|---|---|---|
| Objetivo do Conteúdo/ Temáticas | Entrar em contacto com as principais experiências educacionais da humanidade, analisando as idéias que as orientaram. A Educação Cristã: - Apostólica - Patrística - - Monástica - Escolástica - Os Árabes e a cultura Ocidental - O Renascimento - A Reforma - A Contra Reforma. |
||
| Mês | Março | ||
| Programa | História da Educação: Os povos primitivos (grifo nosso) Os povos primitivos educação; Os povos primitivos (grifo nosso) - Educação; A educação Oriental; Índia; A educação Oriental - Índia |
||
| Mês | Abril | Maio | Junho |
| Programa | Egito situação geográfica-cultura Egito (educação) Educação hebraica Educação persa (grifo nosso) Educação persa (grifo nosso) Educação persa (grifo nosso) Educação grega (grifo nosso) Educação grega (grifo nosso) Período (Ilíada e Odisséia) Estágio Características essenciais da educação antiga entre os indús, egípcios, hebreus e persas. Esparta (grifo nosso) Esparta (grifo nosso) |
Educação ateniense (grifo nosso) Educação ateniense (grifo nosso) Educação ateniense (grifo nosso) Educação da infância; Educação ateniense (grifo nosso) Educação da juventude; Educação feminina Método da educação Educação grega: período de transição Caratér dêste período Educação grega - período de transição Os sofistas Educação grega (grifo nosso) Os sofistas Educação grega - período de transição Modificações resultantes na educação Educação grega (grifo nosso) Os teóricos da educação na Grécia Educação grega (grifo nosso) Sócrates (grifo nosso) Educação grega (grifo nosso) Sócrates (grifo nosso) |
Sócrates e Platão Platão (grifo nosso) Aristóteles Revisão da matéria Revisão da matéria Educação grega - período cosmopolita Educação Realista - Educação Filantrópica - Educação Humanitária - Educação Moral - Educação Política - Reação Católica - A Nova Pedagogia Científica. |
| Mês | Agosto | Setembro | Outubro |
| Programa | Revisão da matéria Educação grega -Período cosmopolita Educação grega - Universidades Educação grega - Educação romana Educação romana Educação romana Características gerais da Educação romana Educação romana - período primitivos Educação romana período primitivo Período transição |
Educação romana - Período primitivo - Período de transição Educação romana - Período de transição Educação romana - Período de transição e decadência. Educadores romano -Quintiliano Educação cristã - Introdução (grifo nosso) Educação cristão - Introdução (grifo nosso) Educação cristã - Período apostólico Período patrístico (educadores patrísticos) |
Educadores patrísticos; (grifo nosso) Clemente - Orígenes; (grifo nosso) Educadores patrísticos - (grifo nosso) Clemente - Orígenes - (grifo nosso) S.Basílio (grifo nosso) Clemente - Orígenes - S. Basílio(grifo nosso) Educadores patrísticos - Santo Agostinho Período Monástico Estágio Período monástico - Desenvolvimento Educadores: Boécio Cassiodoro - S. Gregório Magno |
| Mês | Novembro | ||
| Programa | S. Bento - Os árabes - civilização e cultura Os árabes - civilização e cultura Revisão da matéria. |
||
Fonte: Elaborado pelos autores, com base nos dados contidos no Relatório FFCLSTA, 1960.
Verifica-se que os conteúdos da disciplina História da Educação enfatizam os valores da educação do passado no qual destacam-se as vivências da Humanidade como exemplo da realidade educacional e evidenciam a ordem cronológica dos fatos históricos. Silva (2019) mencionou que sua professora de História da Educação foi Elsie Barbosa27. Contudo, não encontramos nos documentos analisados o nome de Elsie Barbosa como docente da referida disciplina. Foi verificado apenas um documento administrativo, datado de 1978, no qual ela constava como diretora do Departamento de Educação. Em relação ao conteúdo do ensino de História da Educação, Silva (2019) afirma que nos anos de 1968 a 1971 ele era denso e continha extenso conteúdo.
As disciplinas como Introdução à Filosofia, Filosofia da Educação, Psicologia da Educação, Sociologia da Educação, História da Educação possuíam uma carga horária maior. Os conteúdos eram casados, Filosofia da Educação/História da Educação, mas cada [disciplina] com um professor. As reuniões pedagógicas oportunizavam uma discussão reflexiva sobre as interfaces dos diferentes conteúdos formando uma tessitura harmonizada entre as diferentes disciplinas. A professora Elsie Barbosa que ministrava Filosofia e História da Educação durante todo o curso. Todos os professores eram bastante preparados. O movimento de reciclagem dos mesmos era constante tanto dentro dos muros da Fista como fora. Muitos iam para Europa, em especial para a França, em busca de aprimoramento de suas áreas específicas bem como dos estudos sobre os mais recentes avanços sobre o sentido e significado da Educação e do processo educacional como um todo, sendo a Congregação das Irmãs Dominicanas de raiz e orientação francesa, o intercâmbio com a França e a Europa como um todo era facilitado. Irmã Glycia Maria Barbosa da Silva fez aperfeiçoamento na Bélgica; Irmã Loreto (História Natural) na Sorbonne, Paris (SILVA, 2019).
A informação de que os conteúdos eram articulados é importante, pois foi uma marca no perfil da História da Educação que ocorreu nos anos iniciais na década de 1950 e, também, na década de 1960 até o início da década de 1970. A orientação francesa e a capacitação dos professores são relevantes para entender a relação da instituição com os valores disseminados aos seus alunos. O lugar da História da Educação na Fista e como era o programa desse ensino foi informado também por Fabri (2019)28. De acordo com ela “algumas aulas eram tronco comum e desta maneira, reuniam todos os cursos” (FABRI, 2019).
As aulas eram muito interessantes e a gente participava bastante por que sempre o professor procurava mostrar o hoje e relacionava com o ontem - a História mesmo. Do Jardim de Infância - Porque chamar Jardim de Infância? Estudava[-se] profundamente, cada um dos pensadores e as teorias de cada um. O professor trazia para hoje qual a influência da História de Educação hoje. Não era uma História pela História. Era uma História fundamentada. A carga horária [era] muito pesada! A gente saia bem firme no conteúdo (FABRI, 2019).
De certa forma, o excerto acima evidencia que os conteúdos eram ministrados com embasamento em determinadas teorias, o que colabora para a perspectiva da apresentação do perfil programático da disciplina História da Educação. O Quadro 4 permite compreender as explicações de Fabri (2019) e Silva (2019), assim como o que reportamos nos programas de História da Educação, entre 1967 e 1970 (RELATÓRIO FFCLSTA, 1967 e 1970).
Quadro 4 Programa de História da Educação na Fista (1967 e 1970).
| Série | 1ª | |
|---|---|---|
|
Programa/ Unidades |
I-Considerações Gerais a) Conceito b) Conceito c) Fases, fontes, valor II- A Educação Primitiva: a) Cultura e Sociedade dos Povos Primitivos b) Problema e sentido da Educação Primitiva c) A Educação Primitiva Espontânea d) Consciência Histórica e trânsito para a Educação Intencionada III-A Educação Oriental e a Pedagogia do Tradicionalismo a) A Educação Chinesa b) A Educação Babilônia c) A Educação no Egito d) A Educação na Persia IV- A Educação e Pedagogia dos Povos clássicos: a) A Educação grega mais antiga Homero e Hesídeo b) A Educação Esparta. Licurgo e o Estatismo pedagógico - militar c) A Educação em Atenas e o Estado de Cultura. d) Principais Pedagogos: Pitágoras, os Sofistas, Sócrates, Platão e Aristóteles. |
V-A Idade Média e a Educação Cristocêntrica a) A primeira educação Cristã, e primeiros pedagogos Cristãos. b) A Educação Monástica e Catedral c) A Educação Palatina e Estatal d) A Educação Universitária, Corporativa e Municipal e) A Pedagogia Medieval, a Patristica e a Escolástica. VI- A Educação Humanista: a) O Humanismo Pedagógico nos diversos Países: 1) Itália 2) Alemanha 3) França 4) Espanha 5) Inglaterra VII-A Educação Religiosa Reformada a) A Reforma religiosa protestante - Lutero e Calvino b) A Reforma religiosa católica - Inácio de Loiola e a Companhia de Jesus, o Concílio de Trento e o seu Programa Educativo VIII-A Educação no século XVII a) Desenvolvimento da Educação Pública b) A Educação na América Colonial |
Fonte: Elaborado pelos autores, a partir dos dados coletados nos Relatórios FFCLSTA, 1967 e 1970.
A partir da análise dos conteúdos ministrados na disciplina História da Educação, no período compreendido entre 1967 e 1970, verifica-se certa semelhança com o sumário do manual intitulado Noções de História da Educação, de Theobaldo Miranda Santos, publicado em 1945, pela Companhia Editora Nacional. Esta nossa proposição pode ser evidenciada na sequência do Quadro 5 que apresenta o conteúdo programático do ensino de História da Educação para a segunda série do Curso de Pedagogia.
Quadro 5 Programa de História da Educação na Fista (1967-1970).
| Série | 2ª | |
|---|---|---|
|
Programa/ Unidades |
1-Conceito da unidade histórica. Divisão da História da Educação em unidades. 2-Visão retrospectiva: Primeira unidade histórica (Educação Oriental) Segunda unidade histórica (Educação Clássica); Terceira unidade histórica (Educação Cristocêntrica) 3-Quarta unidade histórica: Pedagogia do Renascimento A nova concepção da vida. As descobertas e as invenções. Conceito de Humanismo O Humanismo Pedagógico na Itália. Precursores (Dante, Petrarca, Boccacio). Bibliotecas.Academias.Institutos. Victorino de Feltre. Humanismo Pedagógico na França Rabelais.Montaigne. 4- Quinta unidade histórica: A Pedagogia da Reforma. O sentido da Reforma. Martinho Lutero. Wekanchton. Calvino. A Pedagogia da Contra Reforma. A Restauração Católica. A Companhia de Jesus. Importância histórica da “Ratio Studiorum”. |
5-Sexta unidade histórica: O Realismo Pedagógico. Movimentos históricos: (intelectuais, científicos, políticos, etc) do séc. XVII. A Filosofia Moderna e a Educação: Bacon e Decartes. Ratke, precursor da didática. Comênio e a nova didática realista. 6-A Educação das classes. A Educação nobiliária: Locke, Bossuet e Fenelon. A Educação dos letrados: Thomasius, Charles Rollin A Educação das classes populares: Os Oratorianos, os Irmãos das Escolas Cristãs. A Pedagogia de Port-Royal O Pietismo 7- Sétima Unidade histórica: O Naturalismo Pedagógico. Conceito. Conceito de Iluminismo. Jean J. Rousseau e o Naturalismo. Basedow e a Pedagogia Filantrópica. 8-Oitava Unidade histórica: A Pedagogia da Revolução Francêsa. A Universidade Napoleônica. O Neo-humanismo Kant, Schiller, Fichte, Hegel, Pestalozzi e o Neo-humanismo social. Pedagogia dos “Excepcionais”: Louis Braille. |
Fonte: Elaborado pelos autores a partir dos dados coletados nos Relatórios FFCLSTA, 1967 e 1970.
Os programas de História da Educação da Fista (1967-1970), apesar de suprimirem alguns tópicos que existiam no sumário de “Noções de História da Educação”, guardavam similaridade com os demais itens. O Quadro 6 reporta a sequência dos temas abordados no Programa da História da Educação da Fista nos anos de 1967 a 1970, no que se refere à terceira série do Curso de Pedagogia.
Quadro 6 Programa de História da Educação na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santo Tomás de Aquino - Uberaba (MG) Curso de Pedagogia 1967 e 1970.
| Série | 3ª |
|---|---|
|
Programa/ Unidades |
I-Nona unidade histórica: A Pedagogia do Século XIX, características dos tempos. Mudanças sociais. II-Herbert e o sistema da Teoria Educativa. Os Post-pestalozianos; Froebel, Girald, Rosmini. III-A Pedagogia Católica no século XIX: características - Champagnat, Dom Bosco, Spalding, Dupanloup. IV-Pedagogia do Positivismo e do Evolucionismo: Augusto Comte e Spencer V-A Pedagogia Experimental: Muller, Helnholtz, Bessel, Fechner, Wundt, Binet Lay, Meumann. Laboratórios de Psicologia Experimental. VI-O Movimento feminista no século XIX VII-A educação pública no século XIX. VIII-Décima unidade histórica: A Pedagogia Contemporânea: Visão de conjunto. Os principais movimentos pedagógicos do século XX. As mudanças sociais, políticas, econômicas, as guerras mundiais. IX-Pedagogia de Ação: precursores-conceito-características X-Willian James e a Pedagogia Pragmática XI-John Dewey e o “Ensino pela Ação”. XII-William Kilpatrick e a Educação Democrática XIII-Kerschensteiner e a “Escola do trabalho”. XIV-Decroly e os “Centros de interesse” XVI-O método dos projetos (Kilpatrick) XVII-Os complexos russos (Blonsky) XVIII-Métodos de diferenciação do ensino. O Sistema de grupos moveis. XIX-Métodos de individualização do ensino: Montessori-Wankinder XX-Métodos psíquico-genéticos XXI-A Educação Pública no séc. XX XXII-A Educação no Brasil: era colonial, imperial, primeira república e em nossos dias. |
Fonte: Elaborado pelos autores a partir dos dados coletados nos Relatórios FFCLSTA, 1967 e 1970
A partir da descrição dos conteúdos realizada no Quadro 6, nossa proposição é de que o referido manual disciplinar foi utilizado pela Fista para o ensino História da Educação. Quanto à História do Brasil eram dedicados tópicos sucintos, sem muito detalhamento dos aspectos a serem tratados. Ainda sobre a disposição de conteúdo disseminado no ensino História da Educação em que enfatiza valores e destaca exemplos para a formação dos alunos numa perspectiva humana, reportamos aos apontamentos realizados por Silva (2019).
O estudo era par e par com as questões humanas e espirituais, não no sentido de doutrinação, não no sentido de dizer que essa religião é certa e aquela religião é errada. Não! Mas, da manutenção de uma Ética de valorização e respeito aos alunos, professores e funcionários e o tempo todo nos convidar a pensar que não estamos aqui por acaso [...]. Nós viemos aqui por um sentido maior, que o nosso compromisso não se limita ao aqui e agora, que nós temos uma ligação com questões de ordem humana e transcendental, de ordem espiritual. Uma das raízes fortes da Fista era trabalhar o sentido de valores (SILVA, 2019).
Entre os anos de 1969 e 1971, quando Silva (2019) foi aluna do Curso de Pedagogia, o perfil programático da História da Educação apresentava conteúdos tais como “Cultura e Sociedade dos povos Primitivos; O Neo-humanismo: Kant, Schiller, Fichte, Hegel, Pestalozzi e o Neo-humanismo social à Educação Religiosa Reformada” (RELATÓRIO FFCLSTA, 1969-1971). Silva (2019) destaca, a importância da História da Educação e enfatiza o estudo de pensadores e saberes que permanecem independente do tempo e espaço em que foram produzidos e apropriados.
A História da Educação é a História da memória daquilo que já foi dito, daquilo que já foi constatado como de muito valor. É um resgate de valores não mais divididos e classificados Clássico, Medieval, Contemporâneo, Pós Moderno. Não importa o período, tempo ou lugar, grandes verdades são aquelas que permanecem. Estudar História da Educação é ter o privilégio de acessar a genialidade dos grandes pensadores e com eles aprender. É saber que verdades essenciais atravessam o tempo e o espaço. Agradeço muito às Irmãs Dominicanas e todos os professores por tudo o que com eles pude aprender e também desaprender (SILVA, 2019).
As explicações de Silva (2019) permitem refletir o quanto os conteúdos disseminados possuíam uma seletividade de saberes oportunos para a formação das discentes29. Aveiro (2019)30 foi egressa do Curso de Pedagogia (1972 a 1974) e cedeu o Histórico Escolar para que pudéssemos analisar quando foi ofertada a disciplina História da Educação. Verificou-se que o ensino da referida disciplina ocorreu em 1972 (2º semestre) e a carga horária para História da Educação I era de 90 horas. No ano subsequente, 1973 (1º semestre) - existiu a História da Educação II com carga horária de 75 horas (HISTÓRICO ESCOLAR, 1972-1973).
Aveiro (2019) salientou que realizou o curso de Pedagogia no período noturno e que o concluiu em três anos. “Depois voltei para fazer Orientação Educacional e, posteriormente Supervisão Educacional” (AVEIRO, 2019). Sobre a História da Educação, Aveiro (2019) explica o quanto a disciplina foi importante para sua formação.
A História da Educação é muito importante, precisamos conhecer a História, os grandes pensadores, uma vez que nós sempre deixamos nossa marca na sociedade e na família. A História da Educação foi importante tanto para vida como para a questão profissional. Conhecer os antepassados é conhecer o presente. A formação humanística era muito forte. A formação dos professores era orientação francesa, todos muito qualificados e sem dúvida de formação Humanística (AVEIRO, 2019).
Cabe destacar que, de acordo com Aveiro (2019), a disciplina História da Educação foi ministrada pela professora Heloisa Seixas31. Entretanto, nos programas de História da Educação o seu nome não foi encontrado como docente. Ainda sobre os programas de História da Educação, reportamos ao datado do ano de 1973, o qual descrevemos no Quadro 7.
Quadro 7 Programa de História da Educação na Fista (1973).
| Objetivo | Programa para I e II Período | Programa para I e II Período |
|---|---|---|
| 1-Colocação da história, das principais doutrinas que embasam o pensamento pedagógico atual. 2-Capacidade de compreender o fato educacional dentro de sua época, favorecendo a aquisição de um espírito crítico frente à várias doutrinas pedagógicas 3-Compreender e utilizar a matéria como ponto de referencia das demais, favorecendo uma unidade ao Curso de Pedagogia. |
1 - Conceito de Educação e Pedagogia 2 - Da Educação primitiva ao Ideal Educativo dos povos clássicos. 2.1 Realidade histórica. 2.2 Ideal Educativo: gregos e romanos 2.3 Representantes 2.4 Consequencias da época e de hoje 3 - Educação Cristocêntrica 3.1 Realidade histórico - cristã 3.2 Educação fundamentada numa posição filosófica - teológica 3.3 Representantes |
4 - Um momento histórico. A Renascença e os problemas de Reforma e Contra Reforma 4.1 Realidade histórica - As grandes invenções 4.2 Ideais propostos pela Reforma e Contra Reforma 4.3 Representantes 5-Realismo. Uma educação moderna para um mundo moderno 5.1 Aspectos históricos 5.1.1 Educação e progresso científico 5.1.2 Uma nova concepção de Homem e Universo 5.1.3 Realismo humanista 5.1.4 Realidade social 5.1.5 Realidade Sensorial 5.1.6 Representantes e suas conseqüências na atualidade 6-Naturalismo 6.1 Rousseau e o naturalismo 6.1.1 Diversas denominações do Naturalismo 6.1.2 Conseqüências na Educação |
Fonte: Elaborado pelos autores, a partir dos dados encontrados no Relatório FISTA, 1973
Salientamos que a sequência de conteúdos constantes no programa do ensino de História da Educação (1973) apresenta nomes de diversos educadores e temáticas que foram prescritas para o I e II período do Curso de Pedagogia. Desta maneira, o Quadro 8 retrata outras informações que consideramos importantes para as análises quanto ao ensino da referida disciplina.
Quadro 8 Programa de História da Educação na Fista (1973).
| Períodos | I e II |
|---|---|
| Programa |
1-Pedagogia da Ação 1.2-Caracteres dessa Pedagogia 1.3-Os grandes teóricos da Pedagogia da Ação - William James: Pragmatismo -John Dewey e o ensino pela ação -Kilpatrick -Kerchensteiner -Eduard Claparèd - Educação functional 2- Psicologia Pedagógica 2.1 Behaviorismo ou indutismo de Watson: Aparecimento 2.2 Psicologia Psicanalística - Freud, Adler, Jung: causa 2.3 Pedagogia dos anormais - Efeitos 2.4 Consequencias na Educação: representantes 3. Pedagogia Socialista 3.1 Educação em Marx 4- Pedagogia Existencial 4.1 Tarefa da Filosofia Existencial 4.2 Características da Existência Humana 4.3 Pedagogia Existencial nos EE.UU (Lipps - Flitner - Bollnow). 5. Pedagogia Cultural dos Valores 5.1 Conceito da Pedagogia da Cultura 5.2 Origens da Pedagogia Axiológica 5.3 Pedagogia dos tipos culturais (Spranger) 5.4 Foerster e o eticismo pedagógico 5.5 Pedagogia da Personalidade: analítica e reconstrucionismo. 5.6 Conseqüências na Educação 6- Cibernética Educacional 6.1 Origens 6.2 Lugar da Pedagogia Cibernética 6.3 Domínio da Pedagogia Cibernética 7- Pedagogia do futuro ou prospectiva 8- História da Educação no Brasil |
Fonte: Elaborado pelos autores, a partir dos dados encontrados no RELATÓRIO FISTA, 1973
Os programas do ensino de História da Educação do ano de 1973 apresentavam algumas marcas que definiríamos como uma de cunho mais tradicional, que destaca “Da Educação primitiva ao Ideal Educativo dos povos clássicos”; outra modernista, em que o Realismo foi exposto como “Uma educação moderna para um mundo moderno” e outra mais cientificista, com inclusão e ou detalhamento de pensadores de teorias da Pedagogia da Ação, Psicologia Pedagógica, Pedagogia Existencial, Pedagogia Cultural dos Valores, Cibernética Educacional, Pedagogia do futuro ou prospectiva. Salienta-se que a Pedagogia Socialista e a História da Educação no Brasil ocuparam um espaço singelo. O Quadro 9 contém os conteúdos do ensino de História da Educação para o III, IV, V e VI períodos do Curso de Pedagogia, no ano de 1973.
Quadro 9 Programa de História da Educação na Fista (1973).
| Objetivo | 1-Colocação da história, das principais doutrinas que embasam o pensamento pedagógico atual. 2-Capacidade de compreender o fato educacional dentro de sua época, favorecendo a aquisição de um espírito crítico frente à várias doutrinas pedagógicas. 3-Compreender e utilizar a matéria como ponto de referência das demais, favorecendo uma unidade ao Curso de Pedagogia. |
|---|---|
| Períodos | III, IV, V e VI |
| Programa |
1-Pedagogia da Ação 1.1Caracteres dessa Pedagogia 1.2Os grandes teóricos da Pedagogia da Ação - William James: Pragmatismo -John Dewey e o ensino pela ação -Kilpatrick -Kerchensteiner -Eduard Claparèd - Educação functional 2-Psicologia Pedagógica 2.1 Behaviorismo ou indutismo de Watson: Aparecimento 2.2 Psicologia Psicanalítica: Freud, Adler, Jung: causas 2.3 Pedagogia dos anormais: Efeitos 2.4 Consequencias na Educação: representantes 3. Pedagogia Socialista 3.1 Educação em Marx 4. Pedagogia Existencial 4.1 Tarefa da Filosofia Existencial 4.2 Características da Existência Humana 4.3 Pedagogia Existencial nos EE.UU. (Lipss - Flitner - Boollnow). |
Fonte: Elaborado pelos autores, a partir dos dados encontrados no RELATÓRIO FISTA, 1973
Percebe-se que nos anos de 1972 a 1980, o ensino História da Educação foi ministrado por Silva (2019)32. Percebe-se nos programas analisados inserções de conteúdos cientificistas, o que difere daqueles apresentados nos primeiros anos da década de 1950 e 1960. Contudo, a partir de 1973, há momentos em que foram interpostos assuntos e autores que apontam para tensões entre concepções com tradição católica e o cientificismo laico e evolucionista dos conteúdos dispersos no ensino de História da Educação. Assim, em 1974, em História da Educação I e II encontraremos apresentação da “Educação Cristocêntrica; Educações fundamentadas numa posição filosófico-teológica; Origens da Pedagogia Axiológica; Pedagogia Socialista - Educação em Marx a Cibernética Educacional” (RELATÓRIO FISTA, 1974).
Em 1977, o programa de História da Educação I e II discorreu sobre “O Homem primitivo e os primórdios da Educação”; a “A família e educação da conduta - Cícero, Sêneca e Quintiliano à John Dewey, Eduard Claparèd, Psicologia Pedagógica - Freud, Adler, Jung” (RELATÓRIO FISTA, 1977). Em 1980, último ano de funcionamento da Fista, encontramos no programa de História da Educação I: “Educação Cristocêntrica; Realidade histórico-cristã; Naturalismo - Jean Jacques Rousseau; Tendências Psicológicas ou neo-Humanismo”; História da Educação III: “Tendência científica ou neo-realismo - Augusto Comte, Herbert Spencer” (RELATÓRIO FISTA, 1980).
Considerações finais
Em Uberaba, em 1944, surgiu o Instituto de Cultura Superior (ICS) que funcionou até 1948, quando um de seus fundadores, Padre Juvenal Arduini, obteve incentivo para transformar esse instituto em uma faculdade. A liderança de Dom Alexandre Gonçalves do Amaral, arcebispo de Uberaba, se fez presente nessa realização e o intelectual Alceu de Amoroso Lima colaborou sobremaneira para que o ICS se transformasse, em 1949, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Santo Tomás de Aquino.
A análise dos programas do ensino de História da Educação no Curso de Pedagogia da Fista, entre os anos de 1951 a 1980, permitiu apreender o lugar e os saberes contidos na disciplina e que fizeram parte da formação de professores. Os conteúdos programáticos da disciplina de História da Educação evidenciam um estudo do passado, que apresenta intelectuais renomados desde a Antiguidade ao período contemporânea. O perfil programático foi permeado por conteúdos dispostos de modo linear, uma cronologia dos fatos, tendo como referência a ideia do passado como exemplo para o presente. Salienta-se que nos programas da disciplina consta carga horária extensa e densidade de conteúdo.
Sobre a identidade da disciplina História da Educação esta foi assim denominada, contudo ressalta-se que verifica nos anos iniciais, entre 1950 e 1960 e estendendo-se até início dos anos de 1970, existiu uma disposição em “tronco” entre História da Educação e História da Filosofia. No início dos anos de 1950 até 1970, a História da Educação foi ministrada por professores religiosos católicos e também por ex-alunas do Curso de Pedagogia da instituição. De 1972 a 1980, anos finais da instituição, a disciplina História da Educação foi ministrada pela ex-aluna do Curso de Pedagogia Antonia Teresinha da Silva.
Ademais, a concepção de História da Educação da Fista foi evidenciada na história dos grandes intelectuais do passado como modelo para outras civilizações, com hierarquização dos conteúdos de formação moral cristã que se sobressaíam em relação àqueles relacionados ao cientificismo laico e evolucionista.
Evidencia-se nos Programas de História da Educação valores concernentes à gênese da cultura institucional da Fista, que permeiam entre 1951 e 1980. Entretanto, inferimos três perspectivas no ensino da História da Educação na referida instituição: uma mais tradicional e conservadora (1951 a 1960); outra de vertente existencialista (1967 a 1971). Percebe-se que a dimensão social da Igreja, posta pelo Concílio Vaticano II, bem como a aproximação com movimentos religiosos e sociais foram impulsionados pelo idealizador da Fista, Monsenhor Juvenal Arduini, o que se evidencia por meio de afinidades com o pensamento de Paulo Freire. A última perspectiva (1972 a 1980) discorreu sobre a ciência e a técnica, diferenciando assim, do pensamento que permeou de 1951 a 1971. Salienta-se que temáticas vinculadas à Pedagogia Católica permearam a disciplina História da Educação entre as décadas de 1950 e 1980, pois houve uma sobreposição desses conteúdos nos programas de ensino quando confrontados com os da Escola Nova.










texto em 



