Introdução
A educação de mulheres foi uma pauta amplamente defendida na imprensa periódica da América do Sul no século XIX. Acreditamos ser esta a primeira demanda que une as mulheres em redes intelectuais e aos posteriores anseios de igualdade política e direitos civis. Ao longo do Oitocentos, mulheres de diversas localidades defendiam a educação de meninas nas páginas de jornais. Dentre as pioneiras dessa defesa, destaca-se Petrona Rosende (1787-1863), que teve uma profícua produção intelectual na Argentina e no Uruguai, circulando entre esses dois espaços. Pensamos essas mulheres como intelectuais que romperam os padrões e contribuíram para o “[…] pensamento de sua época e para a formação de redes intelectuais, principalmente por meio de suas atuações em jornais e revistas” (Ribeiro; Gontijo, 2021, p. 224). Neste texto, enfocamos a atuação de uma mulher na Argentina, que consideramos como personagem de uma ação intelectual às margens da cultura patriarcal da década de 1830.
Pretendemos analisar a defesa da educação feminina, no século XIX, enfocando o jornal La Aljaba, publicado na Argentina em 1830 e 1831. “Tanto a imagem quanto o nome da publicação (a aljava é um receptáculo que armazena flechas) pode estar ligada à figura de Ártemis, a deusa grega da caça, dos nascimentos, da virgindade e donzelas, conhecidas por aliviar doenças femininas” (Vicens, 2022, p. 9, tradução nossa). A escolha desse periódico como fonte e desse período histórico como objeto de estudo leva em consideração que “[…] foi no século XIX que as nações latino-americanas assumiram suas lutas de independência em face às metrópoles espanhola e portuguesa, constituindo assim, ao menos na esfera política, países independentes” (Lima, 2019, p. 30). É também uma forma de expressão intelectual de mulheres em uma sociedade e em um momento histórico marcadamente excludente para o sexo feminino.
Nesse sentido, o presente texto objetiva analisar a defesa da educação de mulheres proposta no La Aljaba, periódico voltado para o público feminino. Foi redigido e dirigido pela uruguaia Petrona Rosende, considerada a primeira jornalista da América do Sul, enquanto esteve exilada em Buenos Aires, na Argentina (Vicens, 2022; Auza, 2004). Petrona Rosende foi poeta, professora, escritora, redatora e jornalista, além de dedicar sua vida à educação das mulheres. As edições do jornal La Aljaba encontram-se disponíveis para consulta on-line no site do projeto “Ahira. Arquivo Histórico de Revistas Argentinas”1.
As mulheres estiveram por muito tempo às margens do acesso amplo e irrestrito à alfabetização e à cultura letrada. Como a historiadora Michelle Perrot (2017, p. 159) afirma, “[o] direito ao saber, não somente à educação, mas à instrução, é certamente a mais antiga, a mais largamente compartilhada das reivindicações” das mulheres organizadas em movimentos, individualmente ou através de redes de intelectuais. A autora ainda complementa que o acesso ao saber é a base para a “[…] emancipação, a promoção, o trabalho, a criação, o prazer. Essa reivindicação se acompanha de um imenso esforço de apropriação: leitura, escrita, acesso à instrução” (Perrot, 2017, p. 159).
Torna-se importante fazer a diferenciação entre os termos instrução e educação. Segundo Mônica Jinzenji (2010, p. 25), a palavra instrução e suas derivações aparecem com certa frequência nos jornais e documentos impressos do século XIX, mas seu uso pode não ser o mesmo encontrado nas definições dos dicionários da época. Os verbetes educação e instrução aparecem relacionados um ao outro, constando a diferenciação apenas na finalidade de uma e de outra ação. Ao consultar o dicionário de Campagne de 1886, a autora informa que “o fim da educação é desenvolver as faculdades morais, enquanto a instrução visa a enriquecer as faculdades intelectivas” (Campagne, apud. Jinzenji, 2010, p. 25). Diante do exposto, podemos salientar que o periódico aqui trabalhado utiliza dos dois termos, tornando importante compreender a distinção entre eles.
Neste artigo, objetivamos ainda contribuir para o rompimento de silêncios sobre a produção intelectual feminina, uma vez que, “durante muito tempo as mulheres não foram consideradas sujeitos da história e, portanto, estiveram excluídas das narrativas dos historiadores” (Wolff; Possas, 2005, p. 545). Ao se debruçar sobre os silêncios das mulheres na história, Michelle Perrot (2017) propõe que a história feminina deva ser debatida cotidianamente nas mais diversas esferas da vida social, como uma forma de posicionamento político por meio do qual não se aceita mais os silêncios da história. Desse modo, “[…] o desenvolvimento da história das mulheres acompanha em surdina o ‘movimento’ em direção à emancipação e à liberação. Trata-se da tradução e do efeito de uma tomada de consciência ainda mais vasta: a da dimensão sexuada da sociedade e da história” (Perrot, 2017, p. 15).
Em consonância com Adriane Lima (2019, p. 31), pretendemos dar visibilidade “aos discursos das próprias mulheres que, no século XIX, com suas concepções de educação, contribuíram para pensar a emancipação e a liberdade”. Romper o silenciamento sobre a atuação da mulher jornalista e escritora é permitir, também, a inserção e a ordenação de sua experiência intelectual nos estudos das relações de gênero, entendendo que as mulheres estiveram muitas vezes “[…] excluídas da narrativa da História e, por muito tempo, estiveram ausentes enquanto sujeitas, já que estão ausentes daqueles que foram, por muito tempo, consideradas como fontes oficiais” (Ribeiro; Gontijo, 2021, p. 226).
Ao longo do século XIX, surgiram as primeiras manifestações organizadas de mulheres que lutavam por seus direitos. Dentre as principais reivindicações, nas primeiras décadas do período, aparecia a luta pelo direito à educação escolar e, posteriormente, nas últimas décadas, pelo direito ao voto. A partir da luta pela escolarização, elas fizeram parte de um dos segmentos que mais se destacou para garantir a universalização dos direitos sociais, civis e políticos (Pinsky; Pedro, 2003, p. 267). Lutaram através da imprensa periódica por seu direito à educação escolarizada, entendido enquanto um direito social, o que podemos considerar como o início de uma pauta feminista.
Zahidé Lupinacci Muzart (2000, 2003) afirma que, como prática, o feminismo preexiste ao emprego da palavra com que é designado, identificando mulheres no século XIX que, por suas pautas e reivindicações, muitas delas ligadas à defesa de educação de mulheres, podem ser consideradas como feministas. Estas se constituíam enquanto poetas, jornalistas, professoras, sendo que, inicialmente, a escrita e a leitura deram consciência a essas mulheres “[…] do estatuto de exceção que ocupavam no universo de mulheres analfabetas, da condição subalterna a que o sexo estava submetido, e propiciou o surgimento de escritos reflexivos e engajados, tal a denúncia e o tom reivindicatório que muitos deles ainda contêm” (Duarte, 2017, p. 14).
A historiadora Gerda Lerner (2019, p. 274), ao analisar mulheres privilegiadas que tiveram acesso à educação e à instrução nos séculos XIX e XX, afirma: “Das fileiras dessas mulheres surgiram as intelectuais, as pensadoras, as escritoras, as artistas. Foram essas mulheres que, ao longo da história, tornaram-se capazes de nos dar uma perspectiva feminina, uma alternativa ao pensamento androcêntrico”. A escrita passou a ser um espaço de resistência e de enfrentamento à condição das mulheres que, na maioria das situações, vivia em posição de subalternidade.
Essa condição de subalternidade colocava as mulheres e, especialmente, as mulheres negras e latinas, como inferiores nas sociedades coloniais e pós-coloniais das Américas, sendo a escrita pública em jornais e a defesa da educação uma possibilidade na qual o “subalterno” pudesse falar. Se “o sujeito subalterno não tem história e não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na obscuridade” (Spivak, 2010, p. 85). Por isso, a importância da escrita feminina em jornais no Oitocentos aparece como uma demarcação de resistência à opressão.
Escrever, do ponto de vista das mulheres, se afirmando enquanto intelectuais, era um ato de ousadia, especialmente para as mulheres latino-americanas. Dessa forma, a “[…] questão da intelectualidade feminina - e feminista - é algo que atravessa grande parte do território e da história latino-americana” (Ribeiro; Gontijo, 2021, p. 225). Pretendemos pensar a produção intelectual de uma mulher oitocentista a partir da lente da colonialidade de gênero (Lugones, 2008), entendendo que Petrona Rosende escreveu em um contexto sociopolítico bastante adverso para a maioria das mulheres latinas, racializadas e pertencentes às diversas classes econômicas.
O uso da categoria gênero, no campo historiográfico, propõe compreensões teóricas sobre os questionamentos que surgem das práticas políticas, uma vez que o “[…] gênero se torna, aliás, uma maneira de indicar as ‘construções sociais’ - a criação inteiramente social das ideias sobre os papéis próprios aos homens e às mulheres” (Scott, 1995, p. 7). As contribuições que os estudos de gênero têm dado à historiografia contemporânea são relevantes, pois possibilitam tirar as mulheres da invisibilidade do passado e colocar um conjunto de problematizações e reflexões metodológicas importantes. As universalidades do discurso historiográfico são então questionadas, possibilitando o crescimento da valorização dos aspectos relacionais na análise.
Imprensa periódica e intelectuais feministas
A imprensa periódica constitui um importante espaço para questionamentos da condição da mulher no século XIX, para desenvolver análises acerca da promoção da educação feminina e das primeiras discussões feministas na América do Sul (Souto, 2019, 2022; Duarte, 2017; Lima, 2019). Salienta-se que a escassez de vestígios relacionada aos passados históricos das mulheres configura-se em um dos grandes enfrentamentos das historiadoras e dos historiadores que se propõem estudar essas histórias. Fontes como jornais, revistas e a produção letrada feminina podem sanar essa lacuna, uma vez que se encontram nelas informações sobre a tradição literária, o trabalho das primeiras jornalistas e a conscientização das mulheres, assim como sobre as possibilidades, os avanços e recuos da política educacional, bem como a formação do novo público leitor (Duarte, 2017).
Pode-se também considerar a imprensa oitocentista como constituidora de uma cultura escrita, na qual se defendia a educação para as mulheres. Pesquisas no campo da história da educação vêm apontando pressupostos teóricos e metodológicos para a análise de periódicos dentro de uma história da cultura escrita em defesa da educação de mulheres (Jinzenji, 2010; Galvão; Melo, 2019). Outras pesquisas já evidenciaram a intrínseca relação entre jornais femininos, a proposta de educação e a luta pelos direitos das mulheres (Duarte, 2017; Buitoni, 2009; Souto, 2019, 2022). Essas pesquisas demonstraram que mulheres utilizavam os jornais buscando defender direito à educação de mulheres, à instrução pública e, posteriormente, direito ao voto. Sobre a relação dos periódicos com a educação, Mônica Jinzenj (2010, p.24-25) aponta que:
apesar de se enfatizar a defesa da instrução, e muitas vezes isso estar relacionado à escolarização da população, seria limitado considerar que tanto os impressos como as instituições escolares se restringissem a essa função - ou a esse objetivo; as qualidades morais e o “cultivo das virtudes”, sobretudo quando se referem à população feminina, aparecem como elementos-chave dos discursos que defendem a instrução, se referindo, portanto, a uma ação educativa.
Escritoras da imprensa periódica do século XIX partilhavam de um projeto comum de emancipação das mulheres, no qual se propunha inicialmente o acesso à educação. O apelo por educação que abarcasse mulheres sistematicamente era uma das premissas da imprensa feminista e “movida por uma mesma força e um mesmo idealismo, esta imprensa terminou por criar - concretamente - uma legítima rede de apoio mútuo e de intercâmbio intelectual, e por configurar-se como instrumento indispensável para a conscientização feminina” (Duarte, 2003, p. 158). Isso é percebido em jornais da América do Sul, da primeira metade do século XIX, como La Aljaba, publicado na Argentina, e O Jornal das Senhoras2, publicado no Brasil.
Quanto à análise de impressos, é necessário considerá-los em sua historicidade, percebendo as conjunturas locais, seus contextos de produções e articulando “[…] a análise de qualquer publicação ou periódico ao campo de lutas sociais no interior do qual se constitui e atua” (Cruz; Peixoto, 2007, p. 257). É importante perguntar “[…] quem fala e com que credenciais, em defesa de que projetos e com quais alianças” (Cruz; Peixoto, 2007, p. 263, grifo do original). Por conseguinte, a análise do jornal La Aljaba precisa se articular aos contextos históricos e sociais de sua produção, como os momentos de tensões políticas, de disputas por projetos de sociedade e de descolonização com relação aos países europeus, além de entender, também, que esses impressos são partes integrantes de um determinado tempo e espaço social. A imprensa periódica, assim, não só incorpora projetos das diversas forças sociais, mas também se constitui em espaço para a articulação e desenvolvimento dessas ideias, ressoando valores e propondo projetos de sociedade, como o jornal aqui analisado.
Considerar um periódico impresso como fonte histórica exige uma “operação de escolha e seleção feita pelo historiador e que supõe seu tratamento teórico e metodológico” (Cruz; Peixoto, 2007, p. 258). Como operação de escolha e seleção feita, também, permeada por subjetividades, propõem-se as análises dos exemplares do jornal La Aljaba, visando analisar o papel das mulheres na história da imprensa periódica e na história da educação de mulheres, fazendo ressoar experiências e projetos de sociedade das mulheres redatoras e escritoras em questão. Nesse sentido, é importante considerar que:
Esta possível combinação entre ensino e imprensa permite-nos pensar o jornal como uma plataforma, não apenas para expressar as próprias ideias (ou seja, como um mecanismo de legitimação autoral) e reivindicar determinados direitos, mas também como forma de dar-se a conhecer na comunidade e atrair estudantes, o que implicava uma renda monetária muito mais certa do que um periódico (Vicens, 2022, p. 5, tradução nossa).
Sobre o projeto editorial e as ideias desenvolvidas no interior da imprensa periódica, na construção de um projeto editorial de um jornal é importante “indagar de que modo o periódico constrói sua perspectiva histórica, propõe um diagnóstico da realidade social em um dado processo e conjuntura, como se posiciona no campo da memória social, isto é, de que forma e com que referências articula passado/presente/futuro” (Cruz; Peixoto, 2007, p. 265).
Pode-se considerar, também, que a imprensa periódica era uma forma de propaganda dos ideais civilizatórios do século XIX, com o intuito de educar as leitoras e os leitores, propagando valores e comportamentos, como a leitura e a escrita. A imprensa permite compreender muito do percurso realizado pelas sociedades da América Latina no início do século XIX, podendo ser concebida como um espaço em que se representa a realidade vivida. Ela se constitui como resultado de uma série de práticas sociais de determinada época, sendo que aqueles que a produzem engendram imagens da sociedade que serão certamente reproduzidas em outras épocas históricas (Capelato, 1994, p. 24).
A imprensa também se relaciona à história intelectual e à formação de redes de intelectuais. Maria Elisa Noronha de Sá (2021) informa que, nas duas últimas décadas, esse campo historiográfico vem se consolidando como importante espaço de interrogação histórica, conectando-se às histórias cruzadas e a outras conexões culturais, com circulação de pessoas letradas, publicistas, cientistas e intelectuais por todo o território americano durante o século XIX. “Circulação esta que implicava não só deslocamentos espaciais, mas também a formação de espaços de sociabilidade nos quais as ideias circulavam, eram apropriadas e ressignificadas, em um contexto muito especial e específico da construção de nações” (Sá, 2021, p. 13).
Entretanto, quando consideramos a categoria das intelectuais mulheres, não podemos perder de vista suas diversas trajetórias, vivências e experiências, para tentar desvelar as complexidades e as diversidades dessas mulheres que atuam na esfera pública e intelectual e em vários espaços, como jornais, escolas e redes de intelectuais. Além dessas questões, é importante considerar as nações em formação na América do Sul, que não asseguraram igualdade entre os sexos, uma vez que os “recursos do Estado e suas ramificações, ou seja, a ideia de poder nacional, ainda que com o fim das amarras coloniais, se baseou em construções prévias do poder de gênero, junto às intersecções de raça, classe, territorialidade, sexualidade” (Ribeiro; Gontijo, 2021, p. 231).
Na Argentina, a imprensa também era considerada como “o principal suporte de produção dirigida ao grande público e o principal arquivo de temas políticos e culturais que marcaram o século XIX” (Freitas Neto, 2021, p. 133). Na década de 1830, o país apresentava-se como um cenário de efervescentes contestações, devido aos acontecimentos políticos que o assassinato de Manuel Dorrego, em 1828, e a nomeação de Juan Manuel de Rosas, em 1829, como governador da província de Buenos Aires, desencadearam local e nacionalmente (Vicens, 2022). Rosas representava “os interesses dos grupos proprietários e detinha o avanço do projeto liberal de concretizar uma unificação nacional pautada num Estado liberal centralizado” (Souto, 2022, p. 30). A imprensa Argentina funcionava como uma caixa de ressonância dessa situação.
Não só porque a ascensão de Rosas ao poder implicou o encerramento dos jornais da oposição e o aparecimento de outros que o apoiavam abertamente (Beltrán, 1943), mas também porque a imprensa foi um dos dispositivos fundamentais através dos quais tanto o rosismo como os seus opositores consolidaram identidades coletivas, ligados às suas respectivas facções políticas durante os anos subsequentes (Vicens, 2022, p. 3, tradução nossa).
Em La Aljaba, Petrona Rosende usou a imprensa periódica para afirmar direitos e reivindicar ações. A análise do periódico argentino ajuda-nos a traçar um caminho que promova a interpretação de uma parte da história da educação da América Latina, “considerando o prisma da diferença de gênero, de cultura e de etnia na construção da escrita da história, e enfatizando as narrativas e concepções depreendidas a partir de escritos de mulheres até então desconsideradas e até mesmo invisibilizadas” (Lima, 2019, p. 25).
Nesse sentido, defendemos que Petrona Rosende era uma intelectual feminista transnacional, escrevendo e editando textos na Argentina, além de publicar poemas e fábulas, como em 1835, quando foi a única mulher a publicar na coletânea El Parnaso Oriental o Guirnalda poética de la República Uruguaya, bem como educando na Argentina e no Uruguai. “Na cidade de Buenos Aires, Petrona instalou uma escola primária para a educação de meninas. A escola funcionou pelo menos entre 1825 e 1829, como se deduz dos anúncios na imprensa periódica de Buenos Aires daqueles anos” (Barcia, 2008, p. 134, tradução nossa). A produção de Petrona Rosende se dedicou amplamente à defesa da docência e da educação de mulheres na Argentina, sendo que se tornou ainda precursora da literatura infantil, ao retornar ao Uruguai, através da escrita de fábulas e textos para crianças (Falcone, 2019).
Em consonância com Bárbara Souto (2022), acreditamos que, ao defender a capacidade intelectual das mulheres, Petrona Rosende teve uma postura feminista e se configurou como intelectual transnacional, atuando em países da América do Sul. Através de sua produção, defendia a educação de mulheres como premissa para a emancipação social e a luta por direitos femininos, principiando ações e demandas feministas, fazendo parte dos primeiros movimentos feministas na Argentina (Falcone, 2019).
É importante ressaltar que era um feminismo com um raio limitado de atuação e circunscrito à defesa da educação de mulheres. Essas primeiras gerações de feministas ainda defendiam a importância do casamento, mas também valorizavam a educação feminina. Além disso, uma mulher - não um homem -, ao vocalizar as suas ideias no espaço público, demonstra a consciência de uma luta tomada para si, inclusive uma luta política de se inserir no espaço público por meio de seus escritos e através de sua atuação intelectual com o intuito de fortalecer a nação.
La Aljaba não é um feminismo que promove a rebelião das mulheres nem uma mudança radical no seu desenvolvimento dentro do espaço público, mas é sim o primeiro passo que leva a uma tomada de plena consciência dos seus direitos e de seus deveres funções e, portanto, é um programa que deve ser realizado através da educação (Auza, 2004, p. 24, tradução nossa).
Para Dora Barrancos (2022, p. 19), “o feminismo é uma corrente de pensamento e ação política cujo objetivo central se sintetiza na conquista da igualdade de direitos para as mulheres e, por consequência, seu propósito é extinguir toda e qualquer tutela masculina subordinante”. Acreditamos que Petrona Rosende era feminista, porque se tratava de uma mulher que alteava sua voz para reivindicar direitos à educação para as mulheres, sendo que o meio mais propício para isto seria dotar as meninas de possibilidades intelectuais para que pudessem se inserir no espaço público. Além disso, era transnacional, porque se tratava de uma intelectual inserida em contextos de duas nações, sensível aos problemas que permeavam a subalternidade feminina nesses espaços.
Petrona Rosende e o pioneirismo de La Aljaba
Invisibilizadas pela narrativa histórica oficial e patriarcal, as mulheres também lutaram pelas suas ideias e propostas, defendendo educação para todas e todos, como pode ser identificado na produção intelectual de Petrona Rosende. Oriunda de uma família tradicional espanhola, nasceu em 18 de outubro de 1787 em Montevidéu e casou-se aos 25 anos com José Agustín Sierra, participante ativo nas lutas pela independência no Uruguai (Sosa de Newton, 1986). Coube a essa classe criolla, de nacionais descendentes de espanhóis, começar a pensar em uma identidade nacional pós-independência. Após a invasão luso-brasileira do Uruguai, em 1815, os dois seguiram para Buenos Aires.
Nada sabemos sobre a sua educação e formação, embora sem dúvida o que recebeu tenha sido sólido, pois permitiu-lhe tornar-se educadora, jornalista e poetisa. Em 1º de março de 1812 casou-se com José Agustín Sierra, que participou da revolução e da Cruzada de Libertação de 1828. Tiveram três filhos: Anastasio, falecido durante a libertação de Montevidéu; Benjamín, que foi soldado e também morreu nas guerras civis; e Máxima, sua única filha mulher que faleceu um mês depois de casada. Não há dúvida de que a perda dos filhos a atingiu moralmente (Barcia, 2008, p. 134, tradução nossa).
O fato de sabermos pouco sobre sua educação, sua família e suas produções relacionam-se ao apagamento dos acervos documentais, dentro de uma epistemologia androcêntrica, que não considerava as mulheres como dignas de serem sujeitos da história à época. Por conta disso, há pouquíssimos dados biográficos e documentais de mulheres, devido ao apagamento deliberado delas na história (Duarte, 2022).
Petrona Rosende fundou La Aljaba em seu período de exílio na Argentina, em novembro de 1830. Em sua página inicial, o jornal informava que era “Dedicada al bello sexo Argentino”. Defendia em suas páginas a educação das mulheres, propondo uma educação também ligada aos aspectos cívico e patrióticos da Argentina. Segundo Maria Vicens (2022, p. 1, tradução nossa), estudar o periódico a La Aljaba nos possibilita analisar debates e temáticas “fundamentais que desafiavam as mulheres da época, bem como os argumentos e as estratégias a que recorreram as primeiras publicistas para intervir na esfera pública, legitimar seu discurso e lidar com ataques que recebiam quando ousavam levantar a voz em público”. Para Rosende, as habilidades de uma mulher devem ser cultivadas pela educação para proporcionar o trabalho em atividades no espaço público.
Já chegou o momento de empregar o tempo com mais utilidade e tratar os seus próprios interesses com maior afinco e esmero; os homens ganharam muito terreno até o lugar dos direitos do belo sexo, sendo necessário fazê-los retroceder em sua marcha, apresentando-lhes as imponderáveis barreiras das virtudes morais, que são as únicas armas que eles temem e respeitam, e muito mais quando estão ligadas com a instrução (La Aljaba, n. 15, 1830, p. 3, tradução nossa).
Como era comum nas publicações de periódicos da época, La Aljaba foi uma publicação efêmera. O historiador José Alves de Freitas Neto (2021, p. 134), ao analisar a construção da Argentina no século XIX, explica que “o caráter fragmentado e efêmero dos periódicos permite outra leitura sobre os acontecimentos: eles são postos em seus momentos de encruzilhada, em suas polêmicas candentes e nas repercussões que alguns textos alcançaram”. O periódico em questão foi produzido entre 16 de novembro de 1830 e 14 de janeiro de 1831, com um total de dezoito números, incluindo o “prospecto”3 de apresentação do jornal, impresso antes do lançamento.
Seu formato é simples, com dimensão de vinte e cinco centímetros de altura, por dezenove de largura (Vincens, 2022). O texto é distribuído em quatro páginas e possui duas colunas de oito centímetros em cada página (Auza, 2004). O jornal era publicado às terças e quintas-feiras. A entrega acontecia por meio de assinatura para garantir o recurso necessário à sua impressão, tendo sido comercializado a três reais argentinos.
A publicação apresenta a Imprenta del Estado como a tipografia responsável pela impressão e edição do periódico. Não é informado o alcance da circulação de La Aljaba, pois sua modalidade de distribuição dependia apenas de assinaturas, condição que, provavelmente, limitava sua circulação.
É provavel que aqui resida a fraqueza da publicação, uma vez que não se aceita cooperação pecuniária nem oferece oportunidades de obter colaborações femininas que assumam a publicação como própria e contribuam para ampliar seu raio de difusão. Ao conferir à publicação o caráter de expressão pessoal, por mais que sua proposta seja compartilhada com suas congêneres, permite que muitas mulheres não a considerem uma representação da comunidade feminina (Auza, 2004, p. 26, tradução nossa).
Nos dezoito números publicados, La Aljaba aborda uma série de temáticas que vão desde a exaltação da nação, como é possível perceber na coluna Amor a la Patria, presente em doze edições; assim como a temática da religião, que está presente também em doze números, sendo explorada nos dez números da coluna Religión e, além disso, em dois números, em uma coluna intitulada Existencia de Dios demostrada por sus obras. Mesmo nesses textos e naqueles outros que não abordam diretamente a temática da educação, a autora sempre aponta a importância da educação das mulheres, como apresenta no primeiro artigo de seu jornal, intitulado A mis lectoras, onde expressa: “A mulher que recebe uma educação moral, e a pratica devidamente, é, digamos assim, um templo onde vivem todas as virtudes” (La Aljaba, n. 1, 1830, p. 1, tradução nossa). Petrona Rosende também insere uma série intitulada Variedades, que contêm poemas, sonetos e cartas das leitoras. Entendemos que o jornal, como um todo, objetiva educar as suas leitoras por meio de seus escritos que, além disso, sempre apresenta a necessidade de fortalecer o discurso da importância da educação feminina.
Petrona Rosende manteve colunas específicas sobre a temática da educação em seu periódico, como aquela intitulada Educación, que esteve presente em sete números.4 Nessas colunas era defendida amplamente a educação de mulheres como, por exemplo, no seguinte questionamento: “Quanto deve ser o infortúnio de um pai, ou a impossibilidade de uma mãe, privar suas filhas do tesouro inestimável de uma educação culta?” (La Aljaba, n. 5, 1830, p. 1, tradução nossa).
Além disso, Petrona Rosende também expressava a sua defesa pela educação das filhas por seus pais em outras colunas de La Aljaba, como Educación de las hijas, presente em três números5; no artigo Educación de la juventude, presente no número 13 do periódico; e na coluna A los que se oponen a la instrucción de las mujeres, que apareceu no número 4, sendo que o número 5 alterou o título para A los que se oponen a la educación de las mujeres, dando ênfase à educação. No número 16, Petrona altera novamente o nome da coluna, chamando de A los opositores a la instrucción de las mujeres.
A temática da educação é transversal no periódico La Aljaba, podendo ser considerada como tema central, visto que perpassa as suas diversas colunas. Também é importante mencionar que a temática da educação é tratada na primeira coluna e na primeira página da edição em oito números de La Aljaba, denotando a relevância que a temática tinha no periódico.
Em suas linhas do La Aljaba, a editora postula o princípio, para aqueles anos, de igualdade de direitos entre homens e mulheres, refletindo sobre a importância da educação de meninas e de ideais de nação e pátria. A proposta de educação que se depreende desses textos está interligada à importância da formação intelectual e profissional das mulheres, ou seja, uma educação integral e igualitária, vinculada à convicção de que as mulheres seriam capazes de exercer atividades intelectuais e profissionais, não mais circunscritas ao âmbito doméstico.
Defender a educação das mulheres em 1830 era uma tarefa difícil, pois este era um momento histórico marcado pelo autoritarismo e por hierarquias sociais de todo tipo, que determinavam as relações desiguais de gênero, de raça e de classe na sociedade portenha. Para a redatora de La Aljaba, as mulheres teriam total condição de desenvolvimento intelectual, que "associado à aplicação, ao estudo contínuo e ao amor à glória sólida, produz os mesmos efeitos nas mulheres e nos homens, porque não existe superioridade em um nem inferioridade no outro, como acreditam aqueles que se opõem à instrução do sexo” (La Aljaba, n. 14, 1830, p. 4, tradução nossa). Assim, Petrona Rosende se afirmou “no jornalismo e no processo cultural do feminismo por ter dado existência ao La Aljaba, o primeiro periódico feminino, e por ser a primeira a postular o explosivo princípio naqueles anos, da igualdade de condição social entre o homem e a mulher” (Auza, 2004, p. 20, tradução nossa).
Quem estuda o fenômeno da evolução do feminismo em nosso meio, tema que se converteu em motivo de atração para historiadores e sociólogos, não poderá prescindir da leitura deste formidável antecedente, embora longe da ideologia expressa por algumas vertentes contemporâneos extremas desse movimento. A igualdade de direitos que reclama sua diretora, especialmente o acesso a uma educação integral que excede em muito a que lhe é atribuída pela tradição, é um capítulo muito interessantíssimo pelo vigor e solvência discursiva com que expressa os seus argumentos, o que a coloca em posições avançadas para a sua época, enquanto que a necessidade de que esta educação se assente em uma sólida religiosidade e princípios morais que conduzam a formar “filhas obedientes, mães respeitáveis e esposas dignas”, nela se situa plenamente (Bohdziewicz, 2004, p. 11, tradução nossa).
A diretora do periódico indagava: “Até quando estará o sexo feminino mergulhado na escuridão em que foi encerrado pelo sistema opressivo daqueles que lhe negaram o conhecimento mais simples? Já não se pode mais culpar a eles pela degradação intelectual em que se encontram, a maior parte as mulheres” (La Aljaba, n. 4, 1830, p. 1, tradução nossa). A autora defendia veementemente a oportunidade de condições às mulheres e que não haveria mais justificativas para mantê-las na ignorância, na escuridão da falta de conhecimento e instrução imposta pelos homens às mulheres. É necessário, portanto, pensar e analisar o “efeito do gênero nas relações sociais e institucionais” (Scott, 1995, p. 75). Nesse sentido, o periódico aqui analisado emerge em defesa também de uma nação letrada, de acesso à educação de parte considerável da sociedade da nação argentina e da construção de um ideal de nação no século XIX.
O estudo cuidadoso do século XIX é importante, pois “[…] contribui para o entendimento de temáticas centrais, que vão da participação política democrática, do papel dos intelectuais, da situação da mulher à construção das identidades nacionais” (Prado, 2004, p. 19). Nas sociedades em transformação no Oitocentos, a imprensa passou a adquirir um importante papel de difusão de ideias e de promoção da educação. Assim, a história dos processos políticos na América Latina e a “história da imprensa caminham juntas, se autoexplicam, alimentam-se reciprocamente, integrando-se num imenso painel” (Martins, 2008, p. 8).
La Aljaba é um importante espaço para compreender a história das mulheres publicistas na América do Sul e da circulação de ideias sobre a educação de mulheres, visto que foi redigido por uma uruguaia, Petrona Rosende, em seu período de exílio na Argentina, em uma possível rede transnacional de intelectuais em trânsito.
Uma intelectual feminista transnacional em defesa da educação de mulheres
O jornal La Aljaba abordou vários temas, como o fomento da instrução educativa das mulheres, seu lugar na sociedade e sua posição frente aos homens, mas também teve espaço para a arte, a religião e a literatura. Em seus escritos, Petrona Rosende defendeu o direito das mulheres à educação e falou duramente contra os homens que se opunham a isso:
Os opressores das mulheres argumentam que, se elas tiverem conhecimento, se tornam arrogantes, muito petulantes, extremamente altivas, orgulhosas e soberbas - tudo isso eles dizem para justificar seu comportamento de otomanos; mas não é disso que eles devem temer - porque está provado que todos esses defeitos que eles afirmam resultar do conhecimento são, na verdade, filhos legítimos da ignorância: a mulher instruída possui todas as qualidades opostas a esses vícios; e quanto mais avançada ela é em conhecimentos úteis, mais humilde ela se torna (La Aljaba, n. 5, 1830, p. 2-3, tradução nossa).
Petrona Rosende chamou suas leitoras de “a bela porção da sociedade”, mas em seus editoriais também se dirigiu aos homens que poderiam apoiar financeiramente e ler o periódico. “É necessário que eles convençam às senhoras de que devem se apresentar para proteger um jornal que pela primeira vez foi dedicado a elas” (La Aljaba, n. 7, 1830, p. 4, tradução nossa).
La Aljaba é a primeira expressão jornalística do Rio da Prata escrita inteiramente por uma mulher (Bohdziewicz, 2004), o que torna seu estudo importante para o entendimento dos processos de descolonização do país em questão, sua formação enquanto Estado Nacional e, também, a defesa de educação de mulheres propostas neste periódico.
na intersecção destes mundos se configurou o da imprensa para mulheres, um universo onde a tensão entre ilustrar e entreter, típica do jornalismo do Oitocentos, se converteu em um aspecto crítico ante a possibilidade de que as mulheres não fossem apenas destinatárias, mas também produtoras desses discursos (Vicens, 2022, p. 6, tradução nossa).
Mulheres como Petrona Rosende buscavam alternativas para se expressarem livremente e romper com os costumes que as confinavam à esfera privada para poder participar e se manifestar na esfera pública. Isso pode ser evidenciado na frase que aparece na capa de todos os números do jornal: “Nos livraremos das injustiças dos outros homens somente quando não existirmos entre eles”.

Fonte: Ahira - Archivo Histórico de Revistas Argentinas. Disponível em: https://ahira.com.ar/ejemplares/la-aljaba-no-1/. Acesso em: 4 set. 2024.
Figura 1 Edição número 1 de La Aljaba, de 16 de novembro de 1830.
A autora buscava questionar leitoras e leitores sobre a formação intelectual da mulher, sua posição e papel social, e ainda sobre as desigualdades de gênero. Havia a defesa de um ideal de mulher para a época: “Boa mãe; esposa terna; e cidadã virtuosa!” (La Aljaba, n. 8, 1830, p. 2, tradução nossa). A mulher ideal combinava o seu papel cívico com o seu papel no lar (Gluzman, 2015, p. 69), especialmente contribuindo para a formação dos filhos como futuros cidadãos.
Uma mulher que recebeu uma educação isolada e sujeita aos costumes de uma rotina cansativa, que não foi além da leitura, escrita e algumas tarefas domésticas mal executadas (e das quais não obterá nenhum proveito, assim como não se obtém de tudo quanto é ensinado superficialmente) poderá com essas luzes tão opacas considerar-se capaz de formar a felicidade de um homem? (La Aljaba, n. 11, 1830, p. 4, tradução nossa).
No excerto acima, publicado na seção Oposición a la instrucción de las mugeres, Petrona Rosende defende que uma mulher com pequeno acesso à educação pouco auxiliaria na construção de uma nação civilizada e questiona ainda como ela poderia contribuir para a felicidade de um homem. Dessa maneira, há uma interligação entre educação, ilustração e participação social das mulheres. A editora do periódico ainda defendia as atividades econômicas que as mulheres poderiam ter, “vinculando-se a um tema explorado ao longo do século XIX e as primeiras décadas do século XX: a necessidade de proporcionar às meninas uma educação capaz para torná-las economicamente independentes em caso de extrema necessidade” (Gluzman, 2015, p. 70).
Na análise de La Aljaba, percebe-se ainda a circulação de ideais liberais e civilizatórios na América. Para Freitas Neto (2021, p. 45) os escritos dos liberais tinham uma função pedagógicoa e política “que estabeleceu como meta definir o que seria a civilização a ser alcançada. Por meio desse intuito civilizador, estabeleciam uma filiação com a história universal, capitaneada pelas discussões europeias que relacionavam civilização e progresso”.
No sentido de vincular a ilustração das mulheres a um progresso civilizatório, na seção Oposición a la instrucción de las mugeres, Petrona Rosende defende que “O homem civilizado, em todo o mundo culto, conhece o mérito onde o encontra; ele não se considera o único capaz de obter progressos nas ciências ou nas artes; não duvida do talento das mulheres” (La Aljaba, n. 14, 1830, p. 4, tradução nossa). Há, assim, uma perspectiva de interligar a defesa da educação das mulheres ao avanço da sociedade e das nações que estão em processo de construção no século XIX, como é o caso da Argentina.
A pesquisadora Maria Vicens (2022) afirma que é possível que Petrona Rosende pensasse em suas leitoras como modelos e visse a possibilidade de formarem potenciais filhas estudantes, especialmente se suas atividades docentes fossem levadas em conta e o lugar central que a educação ocupava (especificamente, a educação das filhas) no jornal. Em sua tese de doutorado, Georgina Gluzman (2015), ao tratar das discussões sobre a educação das mulheres na Argentina oitocentista, afirma que La Aljaba expressava que, entre todos os males derivados da dominação, deve ser contada a oposição dos homens à educação básica das mulheres e que “as discussões em torno da educação feminina estavam na ordem do dia na Buenos Aires oitocentista. A problemática da instrução que deveria ser oferecida às mulheres já aparece em La Aljaba, de onde se refletia a herança colonial no que se dizia respeito à educação feminina” (Gluzman, 2005, p. 69, tradução nossa).
Isso pode ser expresso na seguinte passagem de La Aljaba: “Eles as proibiram até de conhecer as letras do alfabeto” (La Aljaba, n. 3, 1830, p. 1, tradução nossa). Segundo Petrona Rosende, na opinião dos homens, as causas para manter as mulheres sem instrução seriam que “as mulheres que sabiam ler e escrever foram aquelas que se perderam” (La Aljaba, n. 8, 1830, p. 1, tradução nossa).
Para Lily Sosa de Newton (1996, p. 12, tradução nossa), a chamada “‘Safo Oriental’ tem para nós, sem diminuir as suas qualidades literárias, o honroso título de primeira jornalista. La Aljaba tem o significado que lhe dá sua condição de avanço nos meios de comunicação de mulheres”. Petrona Rosende é comparada a Safo de Lesbos, “poeta grega antiga, cuja vida se desenrolou entre os anos de 630 e 580 a.C., com um destino excepcional para uma mulher do contexto histórico em que viveu: compôs poemas que se tornaram incontornáveis no âmbito da tradição literária ocidental” (Anjos; Silva, 2021, p. 2). La Aljaba demarca um campo de lutas e reivindicações femininas e, assim como Safo, abre caminhos para outras importantes escritoras e intelectuais, que vão transitar pelas Américas, defendendo a educação de mulheres. Petrona Rosende analisa a educação no contexto da América:
dEntre os infinitos danos graves que nos causaram nossos tiranos opressores, deve contar-se, sem dúvida alguma, como o maior e de mais transcendência em toda a América, o grande sistema que adotaram com relação à educação de ambos os sexos, em particular e em geral. Mas onde mais se ressaltava sua oposição foi em relação às filhas: proibiam-nas até o conhecimento das letras do alfabeto; diziam, com a eloquência das suas razões mais fortes, que as mulheres que sabiam ler e escrever eram aquelas que se perdiam. Pode um homem manifestar de uma melhor forma a sua estupidez? (La Aljaba, n. 3, 1830, p. 1, tradução nossa).
No trecho acima, Petrona Rosende considera os homens como opressores, responsáveis por causar um dano gravíssimo à nação e à América, ao proibirem a educação às suas filhas. Assim, ela interliga a importância da educação de mulheres com o avanço da sociedade. A “educação foi para Petrona a base da luta. A editora de La Aljaba considera que a educação das mulheres constitui a base fundamental sobre a qual se constrói o edifício social” (Falcone, 2019, p. 33, tradução nossa).
A redatora do periódico La Aljaba afirma que os homens, como forma de controlar as mulheres, proibiam-nas de ter estudos e educação, até de aprender as primeiras letras, considerando aquelas que tiveram acesso à mínima instrução, como “perdidas”. A defesa da educação adquire assim um caráter emancipatório socialmente, uma proposta feminista de libertação das mulheres. A educação das mulheres e sua defesa gerou, posteriormente, a defesa dos direitos políticos. Para Petrona Rosende, a educação era a base de qualquer luta e, pelos seus temas e reivindicações, La Aljaba é considerada uma publicação defensora dos direitos das mulheres, principiando lutas feministas.
Considerações finais
“Tão esclarecida quanto corajosa…”, assim a historiadora Lourdes Peruchena (2012) descreve a personalidade de Petrona Rosende: uma mulher que ousou escrever e romper o espaço do mundo privado comum às mulheres, em um período histórico em que fundar e escrever um jornal, além de dizer o que pensava, eram ações realizadas apenas por homens na América do Sul. Rosende insistiu na importância de que as mulheres tivessem uma educação escolar e lutou por direitos civis, como educação, para as mulheres.
La Aljaba foi um primeiro movimento para difundir as ideias de direitos iguais e propostas educacionais na imprensa periódica argentina, redigido por uma mulher que superou o silêncio imposto tradicionalmente às mulheres e conseguiu um lugar na esfera do espaço público e político, através da atuação como jornalista e editora, defendendo a educação de mulheres e, posteriormente, dirigindo escolas para meninas. “Petrona avança em dois espaços públicos, ao sair do confinamento de casa: seu instituto educacional e o periódico que funda” (Barcia, 2008, p. 134, tradução nossa). Se considerarmos a época em que Petrona Rosende produziu La Aljaba, a primeira metade do século XIX, momento em que o olhar masculino e os ditames patriarcais estavam impregnados nas sociedades latino-americanas, podemos perceber a originalidade e a importância da publicação aqui analisada.
A produção intelectual de Petrona Rosende, não só através do periódico La Aljaba, mas também por sua produção literária e didática, foi extremamente relevante para que sujeitos subalternizados tivessem voz nas sociedades latino-americanas em formação no Oitocentos. Afirmá-la enquanto intelectual feminista é propor um reordenamento da história oficial, que por muitas vezes exclui as mulheres dos cânones oficiais. Afinal, “uma mal explicada humildade recusa à mulher um título que também é seu: intelectual!” (Lima, 2019, p. 13).
Nesse sentido, a produção intelectual de Petrona Rosende é um divisor de águas na primeira metade do século XIX para o início dos movimentos feministas na América do Sul, por propor amplamente em seu periódico a educação das mulheres, aqui entendida como uma primeira pauta de luta feminista. A educação configura-se, assim, como uma estratégia de luta pela libertação social e pela emancipação econômica.










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