Introdução
As professoras aposentadas da rede pública de ensino do município de Portão1/RS, participantes desta pesquisa2, compartilham suas trajetórias de vida e memórias sobre suas práticas pedagógicas, passando por momentos significativos de suas carreiras. Elas nos falam sobre contratos, concursos, experiências em diferentes cargos dentro da escola e a evolução dos setores educacionais por meio de diferentes perspectivas. Ao longo dessa jornada de pesquisa, que transita entre memória, afetividade e história, buscamos além das narrativas individuais, um entrelaçamento de conceitos que vão além da educação formal, incorporando discussões sobre cultura, poder, tecnologias de governo e pesquisa. Essas interseções são fundamentais para a análise que propomos, guiada pela ideia dos triângulos de Nóvoa (1999), que sugerem que a prática educativa não deve ser vista de forma isolada, mas em relação a diferentes esferas que se cruzam e se influenciam mutuamente.
A metodologia etnográfica, com sua capacidade de nos inserir profundamente nas realidades vividas pelos participantes, é essencial para a construção deste estudo. A etnografia, entendida como um processo contínuo de descoberta e reinterpretação, nos permite "escutar" as histórias dessas mulheres, mas também escavar os silêncios, as ausências e os esquecimentos que marcam suas memórias, aspectos invisíveis, mas igualmente significativos. Esta abordagem é inspirada no trabalho de Eckert (2012), que, ao estudar a situação vivida pelos mineiros de carvão na França diante do desaparecimento de seu mundo de trabalho, propôs que a perda de um espaço significativo gera uma reconstrução de identidade e de pertencimento. De maneira semelhante, as professoras aqui investigadas rememoram uma escola que já não existe mais em suas rotinas cotidianas, mas cujas memórias ainda são poderosas e formadoras de suas identidades.
O enfoque desta pesquisa não se limita a uma análise normativa dos dados históricos ou legislativos da profissão. Ao invés disso, buscamos entender como essas educadoras, ao revisitar suas trajetórias, nos revelam as complexidades de suas experiências e de sua relação com a escola. Este estudo não se restringe ao que foi regulamentado pela legislação ou oficializado nos arquivos municipais, mas sim ao que está registrado nas narrativas pessoais dessas professoras. Como destaca Halbwachs (2003), a memória de um grupo é um reflexo das dinâmicas sociais e afetivas que permeiam as interações dos indivíduos em seu contexto, e é através dessa memória que podemos vislumbrar não apenas o “eu” individual, mas as mudanças sociais e as transformações na própria escola. Nesse sentido, as histórias contadas pelas professoras, que emergem dessas conversas, se tornam também a história da educação pública deste município.
O processo de relembrar suas experiências docentes implica, portanto, uma reconstrução contínua das memórias, não apenas do que foi vivido, mas do que foi esquecido ou silenciado. Aqui, utilizamos as contribuições de Chartier (2011) sobre a relação entre história e memória, que nos ensina que o passado não é apenas um conjunto de fatos a ser recordado, mas algo que se constrói ativamente no presente. As falas dessas educadoras3 revelam o quanto a educação é permeada de emoções, afetos e significados sociais que tornam o trabalho pedagógico não apenas uma função técnica ou administrativa, mas uma prática carregada de histórias e memórias vividas. Cada depoimento traz uma imagem única dessa trajetória, mas também se conecta com o coletivo - inclusive com o associativismo docente presente no trabalho nas escolas multisseriadas, com a história da escola e da educação pública local.
A etnografia, além de possibilitar um olhar mais profundo sobre as vivências dessas educadoras, também favorece a narrativa das experiências, colocando a memória como protagonista. Como Mejía (2015, p. 93) afirma, "a etnografia entendida como processo de escritura ativa a fabulação". O ato de escrever, no contexto etnográfico, é também uma maneira de tecer e reconstituir as histórias que foram vividas, interpretadas e agora compartilhadas, tornando-se um processo colaborativo entre o pesquisador e as participantes da pesquisa. Essa escrita visa não só a reconstituição de uma história pessoal, mas também uma melodia que ressoe com as experiências e trajetórias das professoras. Cada conversa e cada narrativa, nesse contexto, é um convite ao leitor para adentrar esse universo, com seus afetos, desafios e realizações.
1. A carreira na educação: “Eu subi no fusca branco e fui conhecer a escola.”
Essa pesquisa, por meio de etnografia, possibilitou encontros com professoras aposentadas que rememoraram episódios da carreira em educação. Vale pontuar que, conforme a legislação, mesmo com as reformas atuais, cada profissional em educação pode ter duas ou três aposentadorias (matrículas4), podendo se aposentar no regime próprio de previdência e no regime geral, conforme consiga cumprir os requisitos em ambos os regimes. Assim, no decorrer das narrativas é possível observar que as professoras tratam de trabalho em dois ou mais lugares, sendo no poder público municipal e estadual, ou mesmo na rede privada de ensino.
Adreane nos conta que recebeu o convite para trabalhar em uma escola da zona rural e que a Diretora de Ensino, na época, Rosina Strieder, levou-a até a escola. “Eu subi no fusca branco e fui conhecer a escola” - lembra. Mas, afinal, o que vem a ser uma carreira? E em educação?
O estudo sobre carreira foi abordado por muitos pesquisadores no século XX. No princípio a carreira era relacionada às estruturas organizacionais e às profissões. Mais tarde, foram observadas as questões socioeconômicas e seus contextos, além do aspecto comportamental do indivíduo, em constante transformação para atender as demandas oriundas da sociedade. O pesquisador americano Everett Hughes, depois de vários estudos, sugere que a carreira seja entendida, objetivamente, como a sequência de papéis, status5 e cargos realizados pelo indivíduo na estrutura da sociedade e, subjetivamente, como “uma perspectiva dinâmica pela qual a pessoa concebe sua vida como um conjunto e interpreta o significado de suas diversas características, das ações e das coisas que lhe ocorrem” (HUGHES, 1937, p. 409-410).
Ao atentar para estas conceituações sobre carreira, que mais tarde foram recontextualizadas, nas aproximações, conflitos e movimentos desta dinâmica, o interacionismo está sempre presente. Os arranjos que se dão no campo do trabalho fazem parte de um “complexo jogo de negociação da realidade” (VELHO, 1986, p. 51), e nos permitem lembrar dos escritos de Simmel (2006), pensando na sociedade como um todo, na mobilidade e no estático, na rítmica (MAFFESOLI, 2005) e na “polaridade entre a vida objetiva e a vida subjetiva” (ROCHA; ECKERT, 2009, p. 108).
Alguns pesquisadores, tanto da história quanto da sociologia da educação, apontam para o fato de que, com o projeto da modernidade, a própria organização da escola colaborou para a hierarquia das profissões (DÁVILA, 2006), além de acentuar as hierarquias sociais e políticas (ROSSI, 2003). Este fato não é o foco deste artigo, mas pode e deve ser observado através das narrativas sobre carreira profissional.
Mirando agora, especificamente, sobre a carreira em educação, no final do século passado, o pesquisador António Nóvoa apresentou um levantamento de dados e alguns percursos sobre a profissão professor, a forma como compreendia a carreira e o que vislumbrava para o futuro. Ele apresenta a história da profissão docente na Europa, com desafios e perspectivas, mas toca em questões que podem se observar em outros países, assim como no Brasil. O apanhado feito pelo autor mostra muitos questionamentos e algumas advertências sobre o papel do professor. Nóvoa afirma que:
No fundo, o que está em causa é a possibilidade de um desenvolvimento profissional (individual e colectivo), que cria as condições para que cada um defina os ritmos e os percursos da sua carreira e para que o conjunto dos professores projecte o futuro desta profissão, que parece reconquistar, neste final de século, novas energias e fontes de prestígio (1999, p.30, grifo do autor).
Para Nóvoa (1999), de forma metafórica como em um jogo de bridge6, existem triângulos com diferentes formações que dão pistas do percurso em educação, de forma simplificada, apresentando dois vértices com “uma relação privilegiada” e o terceiro vértice sendo considerado o “lugar do morto”. Segundo o autor, o triângulo pedagógico é formado por professores, alunos e saber. O triângulo político apresenta os professores, o Estado e a comunidade. Enquanto isso, o triângulo do conhecimento é constituído pelo saber da pedagogia, o saber das disciplinas e o saber da experiência. Todos se movimentando ao mesmo tempo. O autor lembra que o professor está presente em todos eles, mas que nem sempre lhe é dado o direito de fala, sendo assim o vértice que traz o “lugar do morto”, como há no jogo por ele citado (NÓVOA, 1999, p. 7).
2. Contratos e concursos: enfim, o trabalho!
O que um profissional mais deseja ao terminar sua formação? A maioria das respostas para esta pergunta certamente será em torno da palavra “trabalho”. Alguns profissionais conseguem emprego em suas áreas antes mesmo de estarem formados. Outros levam mais tempo até a realização deste feito.
O trabalho na esfera privada pode ser alcançado através de um bom currículo, além de referências de pessoas sobre confiança, competência e compromisso. Na esfera pública, atualmente, em se tratando de Brasil, a admissão no trabalho se dá através de concurso público7. Ainda há algumas entradas por meio dos chamados cargos em comissão, por indicação político partidária, mas que não oferecem nenhuma garantia de permanência a cada eleição que ocorre. Desse modo, desde 1988, o caminho para ingresso no serviço público é através de processo seletivo, mais conhecido como concurso. E isso não se refere apenas à área da educação, mas a todos os postos de trabalho. É importante lembrar que, na história do Brasil, os debates sobre o concurso público tiveram momentos de tensão e que, atualmente, alguns legisladores fazem discursos e planos para retirada desta exigência, o que não parece ser salutar ao Estado8. As tecnologias de governo são meios utilizados para propor novos percursos, seja por programas, projetos, legislação, disponibilização de materiais, entre outros. Com as questões de poder, estas ações são realizadas com vários fins e nem sempre são tidas como garantidoras de direitos à população.
Prosseguindo, como a maioria9 das professoras aposentadas desta pesquisa iniciou a docência em escola pública antes da Legislação10 que exige o concurso público, as narrativas que nos trazem são sobre pessoas que as indicaram para o Prefeito Municipal e/ou o Secretário de Educação de determinados períodos. Algumas professoras foram nomeadas por concurso. De qualquer forma, a principal questão era trabalhar. “Ah, entrar em uma sala de aula que fosse minha! Era meu desejo” - afirma Leila.
Com a legislação, a partir da Constituinte de 1988, o concurso para o quadro de profissionais do serviço público que já estavam atuando foi uma novidade que veio carregada de incertezas. Para professores e professoras era uma prova escrita contendo questões de Português, Matemática, Legislação e Conhecimentos Gerais e, além disso, a prova de títulos que avaliava e pontuava conforme formação inicial e continuada, valorizando por carga horária dos cursos certificados. Aquelas professoras que já estavam trabalhando e reprovaram na prova escrita foram demitidas. Algumas delas tentaram, por meio jurídico, permanecer no ofício, mas não ganharam a causa. Outras novas professoras realizaram a prova e assim foram nomeadas. Não seria mais contrato, e sim nomeação. De lá para cá, muita coisa foi alterada, e, desde 2018, o município de Portão possui, inclusive, seu Sistema Municipal de Educação11.
Adreane foi convidada a trabalhar em uma escola municipal pelos mesmos gestores da época de Rosaura, Leila e Mariângela. Ela também fez concurso para trabalhar como professora em escola pública estadual, lecionando na Escola Estadual Portão Velho e no Instituto Educacional Paulo Freire. Mais tarde, quando teve concurso para supervisão escolar, no regime de 40 horas, no município de Portão, ela fez o concurso e teve de se demitir da rede estadual. “Todas as escolas que eu passei como aluna, eu retornei como professora” - ela relembra com satisfação.
Eoní se recorda que, no quadro de carreira ela era nível dois12 na escola estadual. Depois passou a existir uma lei que retirava a necessidade de concurso para quem já tinha mais de dez anos de trabalho. “Aqui no município também não fez concurso quem tinha mais de dez anos de trabalho. Foi considerado cargo em extinção, e ficaram trabalhando até se aposentar pela CLT13, no INSS14”. Sobre o início do trabalho em educação, Leila conta:
Eu tinha um padrinho que conseguiu um contrato de trabalho pra mim como professora no município. Ele conversou com o prefeito e resolveu tudo. Aí veio uma legislação específica e deu um impacto na vida da gente. A gente teve que se preparar pra fazer o concurso. Teve um curso e eu estudei muito. Estava nervosa com isso. Nossa, teve gente que rodou. Mas eu fui muito bem na prova. Este curso foi importante pra eu ter tranquilidade e realizar o concurso da rede pública estadual depois. Com o tempo eu percebi que isso só me trouxe tranquilidade.
Preponderante aqui ressaltar que a parceira de pesquisa utiliza a palavra impacto para reafirmar o que a legislação provocou naquele momento e, ao mesmo tempo, sobre a forma como, mais tarde, produziu certa segurança para o desempenho da profissão. De forma parecida ao percurso inicial de Leila, Mariângela salienta que, assim que se formou no magistério, conseguiu um contrato e que, em seguida, veio o concurso.
Naquela época o Dolivar15 era vereador, então ele conseguiu um contrato lá na Escola Municipal São Jorge, e eu tive uma segunda série, né? Que bons tempos! Acho que tinha umas 30 professoras aqui no município. Que maravilha! Tenho guardado meu segundo contracheque porque foi muita emoção ter meu próprio dinheiro. Salário não era tão bom, acho que era a metade do que é agora. Mas, como era bom trabalhar naquele período. Pro concurso eu me lembro que eu me preparei. Acho que foi a Marlene16 do sindicato que proporcionou momentos de estudo para nós.
É importante frisar a presença do sindicato nas falas das professoras. Muitas delas contam que obtiveram esclarecimentos e apoio desta representatividade da classe do magistério. Segundo elas, o Sindicato Municipal de Professores de Portão teve importância na elaboração do Plano de Carreira do Magistério, além das conquistas de Plano de Saúde e diálogo com executivo sobre reposição salarial, organização das horas de planejamento e outros benefícios.
A maioria das parceiras desta pesquisa teve primeiramente contrato, intermediado por algum agente municipal ligado à educação ou à política. Marisa e Cândida tiveram contrato pelo PRADEM17 e, na sequência, fizeram o concurso para a rede pública municipal.
“Houve um anúncio, me inscrevi e fui chamada para contrato pelo Pradem. Trabalhei com 3ª série na Escola Estadual Portão Velho” - lembra Marisa. No ano seguinte ela recebeu uma turma de 1ª série e detalha que seu maior desafio foi com a sua própria letra. “Desde o normal, sempre ouvia da Carmen Schimidt18 que para dar aula pra 1ª série eu teria que cuidar mais meu traçado da letra. Até houve um mal-entendido com a mãe de uma aluna por causa da minha letra. Depois tudo se acertou”. Em 1990 Marisa foi chamada para nomeação do concurso que havia feito em 1988. “Fui trabalhar na Escola João Scherer, escola rural multisseriada19. Foi uma linda experiência”.
Cândida também foi contratada pelo Pradem para trabalhar na Escola Estadual Portão Velho e, depois, na Escola Estadual 9 de Outubro. “Naquele tempo o contrato para escola municipal era por indicação, e eu não consegui”. Das sete aposentadas, apenas Eoní e Cândida iniciaram na rede pública municipal diretamente por meio de concurso. Cândida conta:
Quando eu fiz o concurso no município de Portão, eu não fui nomeada no primeiro ano, eu acho que eu fiquei em vigésimo primeiro lugar, mas naquela época eram muito poucas as nomeações, né? Eram poucas pessoas sendo nomeadas, esperei bastante tempo, e eu tinha muito medo de pegar a primeira série. Eu fui nomeada e trabalhei dois anos com 3ª série na Mauá20.
A professora Cândida relembra que ficou animada com a possibilidade de nomeação e fez vários concursos nas cidades próximas, como São Leopoldo e São Sebastião do Caí. Ela foi aprovada em todos, mas não assumiu em função dos horários e deslocamentos que teria de fazer, já que trabalhava em Portão e não tinha carro na época. Ela destaca que o processo seletivo foi um ganho para o magistério. “Enfim, o professor faz o concurso e daí assume o seu espaço”.
Eoní guarda com carinho a Carta de Apresentação emitida pela Secretaria de Educação e Cultura, que ela apresentou na Escola Municipal Antônio José de Fraga, onde assumiu como professora concursada. “Fiquei feliz com a 29ª colocação, eram muitas vagas e eu consegui”. Pode-se pensar nas dificuldades que as professoras que já estavam lecionando tiveram ao enfrentar o processo seletivo para manter o emprego, mas não se pode negar o fato de a estabilidade no emprego ser algo relevante, que possibilitou maior tranquilidade para realização do trabalho. Este fato foi levantado por todas as aposentadas, parceiras desta investigação, de que o concurso veio para que as profissionais pudessem trabalhar pensando em continuidade, realizando formações e projetando futuras ações.
3. Da sala de aula e sobre ensinar: o que amam lembrar
Os encontros que realizamos ao longo de alguns meses foram interessantes, com risadas ao relembrar de acontecimentos engraçados, alguns suspiros ao recordar os momentos tristes, mas todos guardados com muito carinho por estas professoras. Aqui, as memórias de uma conduzem às falas de outra, juntamente com as lembranças da pesquisadora.
Para que a nossa memória se aproveite da memória dos outros, não basta que estes nos apresentem seus testemunhos: também é preciso que ela não tenha deixado de concordar com as memórias deles e que existam muitos pontos de contato entre uma e outras para que a lembrança que nos fazem recordar venha a ser reconstruída sobre uma base comum (HALBWACHS, 2003, p. 39).
Ao pensar nas turmas com as quais trabalhou, Rosaura recorda que o que mais amava era estar junto daquelas crianças. “Eu me realizava com eles, e em pensar que eu estava ensinando, né? É a responsabilidade da gente de estar ensinando, que eles iam aprender a ler”. Ela foi professora alfabetizadora na maior parte do tempo e, em sua fala, demonstra a preocupação sobre o ensinar e a responsabilidade que tinha diante de cada turma. “Amava eles. Então, dentro do que eu tinha, eu fazia assim, sempre, o meu melhor”.
Ela lembra que gostava de planejar e que se sentia realizada fazendo aquilo. “Eu lembro que eu gostava quando estava ensinando a aquisição fonética, de trabalhar o sonzinho das letras, as sílabas, associar com coisas que a gente ouvia”. Rosaura expressa um brilho no olhar quando recorda estes momentos. Demonstra paixão pela alfabetização. Também fala de atividades que envolvem a leitura, de que gostava de criar formas diferentes de ler, como jogral, em que cada grupo da turma lia uma parte do texto, por exemplo. “Cada vez uma dinâmica diferente. Bate uma palma pro outro ler, faz um gesto, cria um som, ou de forma livre. Era o que eu mais gostava. Saudades”. Em sala de aula, Eoní gostava muito da interação com os alunos:
Eu amava o bate-papo, de ouvir o que eles contavam, de seus acertos, de seus erros, de seu modo de viver, como era a vida em casa, suas dificuldades e alegrias. Enfim, eu apreciava ouvir os alunos falarem sobre seus sonhos e suas experiências, sobre o que gostariam de fazer no futuro. Essas conversas que eu fazia com os pequenos também eram muito gostosas com o grupo de alunos adultos do EJA21. Era bom porque eu ensinava e aprendia. Me senti realizada como professora em sala de aula e, também, trabalhando na biblioteca. O mundo dos livros e a leitura até hoje me fascinam.
Adreane apreciava o uso de aparelhos de audiovisual e som, como televisão, aparelho de som, gravador. Ela diz que sempre tinha muitos cartazes, por todas as paredes da sala de aula. E então, dá detalhes sobre alguns momentos:
Alfabeto eu tinha vários. Eu acho que o que eu mais gostava de ensinar era o processo de letramento e, também, a roda de história, né? Na roda de história a gente levava o livro e sorteava dois por dia pra ler. Porque daí aquele que sabe que vai ler, ele vai preparar melhor a sua história [...] E o outro, sorteio na hora porque todo mundo se prepara. A gente mudou essa dinâmica por ideia de um aluno. Eu também era sorteada e lia. A seleção pra eles era com livrinhos menores. E a minha história era maior. Então, era um horário muito aguardado. E a outra questão também que eu gostava muito era de Educação Física em dia de chuva. Eu tinha um repertório de atividades que eu fazia, em sala de aula, a gente mexia nas cadeiras, nas mesas. Mas era uma coisa que nunca foi sofrida [...].
Ao construir atividades com os alunos, Adreane possibilitava que as crianças descobrissem as formas de aprender a que mais se adequavam. “Cada um aprende de uma forma e a gente precisa oferecer oportunidades para que eles se encontrem no aprendizado” - reforça ela. Esta fala de Adreane nos remete a afirmação de Kohan (2013, p. 87) de que “o professor interessante, o que faz escola, não é o que transmite o seu saber, mas o que gera desejo de saber, o que inspira em outros o desejo de saber”.
Quando Leila trabalhava, gostava muito de olhar aqueles rostinhos ansiosos por aprender, de trocar a disposição dos móveis na sala, dos cartazes, dos livros, dos enfeites que colocava, do ambiente com eles, da troca e da conversa.
Gostava muito de ensinar matemática. Às vezes tinha que me policiar para não dar mais importância a essa disciplina do que às outras. Gostava muito de usar material diferente, de fazer desenhos, tudo referente à matemática e acho que o material concreto era essencial para eles aprenderem, principalmente o material dourado. Gostava também de contar história e de ensinar geografia e história.
Mariângela destaca:
Eu amo lembrar da sala com os dois quadros, um de cada lado, daquele movimento que eu precisava fazer para atender todas as turmas. Também dos jogos de futebol na hora do recreio. Das festas que a gente organizava, juntos. Eu gostava muito de dar aula de educação física, né? E na Cachoeira eu encontrei alunos que se saíam muito bem nisso: correr, saltar, jogar futebol. Para a grande maioria deles isso era uma paixão. Isso foi um dos fatores que fez com que a gente tivesse logo muita empatia.
A professora Marisa apreciava fazer uma roda de alunos sentados no chão e conversar com eles, na chamada hora da novidade, “sempre fazendo uma reflexão inicial na aula para entender como o aluno estava chegando naquele dia”. As memórias de Marisa sobre as atividades realizadas em aula trazem momentos de descontração, de leveza e de arte.
Gostava de fazer brincadeiras com eles. A minha aula tinha que ser uma aula divertida assim, que fosse uma manhã ou uma tarde boa pras crianças. Eu ainda carrego até hoje comigo como é que eu me sinto no lugar do outro. Às vezes é bom ter um pouco de autoridade, de disciplina, mas não pra constranger o outro [...]. Na verdade, eu gostava da rotina da escola, da conversa de chegada, da hora da novidade, a hora dos conteúdos, a hora da merenda, dividir a merenda, brincar no recreio. Também gostava muito de conhecer as famílias dos alunos. O que eu mais gostava de lecionar era a questão das artes. [...] eu sempre aproveitei as oportunidades e as novidades, sabe? Nunca quis parar no tempo de só o quadro, o giz e eu. Muitas atividades no Franke22: a gente fazia mural, muita imagem, muito colorido, muita expressão, música, isso que eu mais gosto. Se eu pudesse ainda trabalhar com isso, eu queria trabalhar.
A narrativa sobre disciplina trazida por Marisa se apresenta no sentido da desconstrução da ideia de aprisionamento do corpo (FOUCAULT, 2014), que pensa, fala e se movimenta ao aprender de forma liberta. Que tenta encontrar uma saída para desbravar outras formas de expandir-se, numa tentativa de escapar do regramento, mesmo estando dentro de um sistema de disciplinamento, a escola. Além disso, ela trata com grande ênfase a importância de buscar formação na área que ela mais apreciava trabalhar.
Cândida lembra com carinho do momento da leitura, da questão lúdica de ouvir e contar histórias. Ela gostava de ler para as crianças e ver o olhinho delas brilhando. “O lúdico da poesia, a conversa sobre ela, a brincadeira com o som do corpo, os jogos. Então, isso, eu sempre gostei muito. E independente da disciplina, né?” Ela se empolga ao relembrar alguns momentos em sala de aula:
Eu gostava de criar jogos, de jogar com eles, de criar brincadeiras com eles. Do e no jogo, da poesia, de criar versos com eles e incentivar pra criarem. Eu acho que isso era o que eu mais gostava de fazer. Gostei muito também da questão da matemática, porque no magistério eu gostava muito da professora de matemática e acredito que ela trabalhou bem com a gente a construção do número. Sem trabalhar os teóricos, mas trabalhou isso. Então, eu gostava de trabalhar com os alunos, de usar materiais que existiam pra isso, de ter uma sistemática de trabalho, [...] eu sempre gostei muito de ser professora de criança pequena, né? Eu já tinha trabalhado com adolescente, me dava bem com adolescente, mas o meu objetivo era trabalhar com os pequenos. E, realmente, foi uma ótima escolha, tem muito mais a ver comigo.
Com estas rememorações das experiências pedagógicas destas mulheres, pode-se pensar no espaço da sala de aula como lugar de trocas e de aprendizado, de conhecimento e de afetividade. Da construção da criança como “ser aluno” e da mulher como “ser professora”. Estas vivências remontam espaços e tempos, são marcos constitutivos tanto das professoras quanto dos alunos e da comunidade, são os triângulos citados por Nóvoa (1999), em movimento - uma sincronia em que a matéria vai criando formas, a arte vai se desvelando, arqueologicamente, camada por camada. É possível afirmar que a escola se constitui para além do que se vê.
Contudo, ao olharmos com mais atenção, percebemos que, em meio a tantas expressões de encantamento com o ofício docente, há silêncios que também falam: pouco se menciona o cansaço, as pressões institucionais, a sobrecarga ou os conflitos internos e externos da profissão. Ao mesmo tempo que revelam a paixão pelo ensinar, essas memórias podem também indicar um processo de reconstrução identitária, no qual se privilegiam aspectos positivos como forma de resistência simbólica e de coesão com uma ética profissional centrada no amor, na entrega e no sacrifício. Como aponta Halbwachs (2003), lembrar é sempre lembrar com o outro e em função de um grupo - e esse grupo, neste caso, parece carregar consigo uma narrativa de dedicação silenciosa, muitas vezes romantizada, que naturaliza condições duras de trabalho. Tais lacunas não invalidam os relatos; ao contrário, revelam a complexidade das memórias docentes, atravessadas pelo tempo, pelo afeto e por uma luta contínua para dar sentido à experiência. Afinal, como afirma Ricoeur (2007), toda lembrança é também, em certa medida, uma reinvenção do vivido.
4. Por outros ângulos: a ocupação de cargos e setores na escola
A grande maioria das professoras aposentadas que participa desta pesquisa passou por outros cargos na escola, além do trabalho em docência na sala de aula. O que isso nos mostra? Que a educação tem um campo de possibilidades e que, conforme as oportunidades surgem, ocorrem pontos de virada em suas carreiras. É importante atentar para algumas recusas às oportunidades e seus motivos para que se possa compreender que estas também fazem parte dos arranjos nos espaços escolares, quer sejam pedagógicos ou administrativos.
Eoní conta que, depois que se aposentou na rede pública estadual, fez concurso para trabalhar na rede municipal. Ela foi aprovada e trabalhou com terceira série por alguns anos na Escola Municipal Antônio José de Fraga. Mais tarde ela foi convidada para lecionar na alfabetização de adultos, no noturno. “Trabalhei na EJA23 até que levaram as turmas para a Escola Franke, mas daí eu não quis ir trabalhar no Parque Neto24, preferi ficar lá no Fraga, onde fiquei responsável pela biblioteca da escola”. Ela conta que decidiu fazer mais um concurso, para retornar à rede estadual. Assim, em nova nomeação na Escola Estadual Pedro Schuler, trabalhou com as disciplinas de História e Educação Moral e Cívica25 nas turmas de quinta a oitava série, assumindo as turmas do professor Edgar Strieder26, pois este teve de fazer uma cirurgia de emergência. “Foi um enorme desafio. Naquela época a DE27 me autorizou a trabalhar sem a formação específica porque não tinha professor pra vir”. Eoní pondera que trabalhou em apenas três escolas, mas que passou por turmas diferentes e com atividades diversas. Ela se recorda de que havia movimentação entre as professoras a cada final de ano letivo. “Olha, em certa época até os alunos já sabiam quem era da turma A, já ia direto pra professora ‘x’. Aí depois um tempo foi feito um rodízio das professoras”. Ela relembra que havia certa revolta por parte das professoras que não gostavam de trocar de turma. Quando foi nomeado professor específico para as disciplinas que Eoní estava trabalhando provisoriamente, ela foi convidada para ser professora na sala de informática, e atender os pais na secretaria também. “Eu tive de me atualizar mais uma vez. Cada novo convite, novo desafio, mas eu gostava de assumir estas responsabilidades”.
Leila trabalhou dois anos como diretora, mas não gostou da experiência e pediu para sair. “Prefiro mesmo a sala de aula”. Sobre as transferências, Leila sinaliza que elas foram ocorrendo conforme surgia a oportunidade. “Uma vez eu pedi transferência de escola e não consegui, depois não pedi mais. Só de turma”.
Cândida trabalhou oito anos na orientação escolar na Escola Estadual Portão Velho. Ela fez especialização em gestão, supervisão e orientação na Unisinos. “Uma vantagem que eu tinha era de experimentar isso, né? Foi uma experiência maravilhosa. Só que no Estado eu perco muito financeiramente com isso porque perdia o valor da unidocência28”. Ela salienta que tomou esta decisão, mesmo perdendo em valores financeiros, pois era importante ter um dia livre na semana porque seus pais estavam envelhecendo, e ela precisava ter disponibilidade de tempo para levá-los ao médico e dedicar alguns cuidados a eles. “No município não assumi nenhum cargo deste tipo até porque se exige concurso específico pra orientação e supervisão. E nunca tive vontade também. Eu sempre quis estar em sala de aula”.
Adreane relembra que, desde que iniciou sua carreira no município de Portão, teve cargo de direção. Primeiro na escola rural multisseriada de Bom Jardim. Depois na nova escola da Vila Aparecida, onde dava aula para uma turma de 1ª série, juntamente com o cargo de direção. Quando o número de alunos aumentou ela trabalhou na direção apenas, devido à demanda. Neste período, ela também trabalhava na Escola Estadual Portão Velho, estando 20 horas em cada escola. Também trabalhou na Escola Edmundo Kern e, mais tarde, na Escola Paulo Freire.
Eu saí da Aparecida pra assumir a supervisão da Secretaria de Educação. Lá eu tinha necessidade de que a supervisão fosse de 40 horas, realmente. Então, eu tinha um contrato de cedência do Estado. Eu tinha feito um concurso na área 3 do Estado. Mais tarde, eu me recordo que o Governador era o Brito29 e ele lançou o pedido de demissão voluntária do Estado. Então eu saí. Mas voltando, quando eu estava trabalhando como supervisora na SEMEC30, o Secretário Edmundo31 foi exonerado, por uma discussão política. Nós ficamos na Secretaria de Educação, acho que quase dois meses sem secretário. [...] A gente nem sabia o que tinha que fazer. Daí, pra minha surpresa, um dia eu cheguei pra trabalhar e a minha colega, que era a Simone, me deu um recado: “o prefeito quer falar contigo”. Aí eu fui, eu me recordo que eu cheguei no gabinete do Beto32 e ele disse assim, “senta aqui guria, como é que tá a secretaria?” Então eu disse que a gente tava sem pai lá - e dá uma risada. O nosso trabalho a gente continua fazendo, mas a gente via que tava se aproximando o início do ano letivo, e eu disse assim ó, tem muitas coisas pra encaminhar e não temos um secretário nosso. E daí ele disse “eu quero que tu assuma a secretaria”. Eu perguntei: até o secretário vir? “Não, eu quero que tu seja a secretária”. Aí eu disse pra ele: Como é que tu chegou no meu nome, por quê? Aí ele disse assim, “não, a secretaria da educação é da minha alçada”, que era do domínio do prefeito indicar, não do partido. Aí eu falei pra ele, eu nunca fugi de desafio, não é essa a questão. Mas tem uma questão, né, Beto. Não sou partidária. Ele afirmou “eu tenho uma estima por ti”. Então, até hoje eu nunca assinei ficha em partido nenhum. [...] Até hoje eu não consigo acreditar que o meu país teve um Presidente do PT33 e um Vice do PMDB34. Essa questão ideológica, se for pensar a ideologia de um partido e de outro. [...] Então ele falou “não, eu nunca vou pedir pra tu assinar com meu partido e as questões políticas não nos interessa, né?” Aí eu disse, nessa condição, tudo bem. Foi assim que eu assumi a secretaria.
Neste período, Adreane não sabia, mas este movimento rápido entre convite e aceite seria um ponto de virada em sua carreira. Entre idas e vindas, a professora foi Secretária de Educação do município de Portão por 14 anos. Iniciou comandando uma equipe que organizava o trabalho de cerca de 40 professores. Com as transformações ocorridas na cidade, que provocaram crescimento demográfico e, consequentemente, demanda por escolas, quando deixou a secretaria municipal (2016), o grupo de professores já estava com mais de 300 profissionais.
Nota-se muito fortemente na narrativa de Adreane a presença das questões partidárias e a forma como esta engrenagem funcionava - que é como funciona até os dias de hoje. As relações de poder (FOUCAULT, 2013) dimensionam e redimensionam os espaços, num jogo de escalas, em que as escolhas de quem está no topo alteram e impactam o trabalho de quem está no “chão de escola”, lecionando diretamente com os alunos. Ela conta que até 1991 os secretários municipais de educação eram professores da rede estadual e que, pela primeira vez, uma professora da rede pública municipal foi designada para comandar a pasta.
Uma questão que Adreane aponta é o fato de ela ser, em 1991, a única mulher a comandar uma secretaria. “Nas reuniões dos secretários com o prefeito, no início, todos me olhavam de um modo estranho. Primeiramente, eu ouvia o que eles tinham a dizer e, depois, eu colocava tudo que precisava, sempre com muitos argumentos. E conseguia aprovação do prefeito”. Ela lembra que foi um caminho delicado e cada conquista era comemorada na secretaria. “Aprendemos juntos, eu e minha equipe”.
O fato de Adreane ser a única secretária do governo municipal é um indicativo da falta de representatividade da mulher nos cargos de primeiro escalão da governança pública, seja em nível federal, estadual ou municipal. Para exemplificar a caminhada dos direitos das mulheres no Brasil, a participação na política através do voto foi alcançada pelo Decreto nº 21076, de 24.02.1932, assinado pelo então Presidente Getúlio Vargas, ou seja, dentro da história do país, um fato que demorou a ser retificado pela legislação. Atualmente, depois de debates no Legislativo Federal, há leis35 que indicam cotas de mulheres candidatas para cada partido político, por exemplo. Em relação ao Poder Judiciário temos algumas juízas, especialmente no Supremo Tribunal Federal, mas ainda em número pequeno. Quanto ao Poder Executivo, depende do ‘interesse’ político de cada gestor. Isso sem falar na ocupação das mulheres em cargos de chefia em empresas privadas, que está sempre em desigualdade de espaço e salário em nosso país. Há um longo caminho a ser percorrido para a ocupação e valorização da mulher no trabalho.
É preciso ressaltar que CCs36 e nomeados que recebiam FG37, pelo fato de assumirem cargos superiores na administração, não tinham garantia alguma de permanecerem em seus cargos a cada eleição municipal. Assim, muitos projetos elaborados não saíam do papel em função de constantes trocas nos setores.
Quando trocou a administração, aí foi outra coisa muito curiosa porque daí em final de outubro a gente sabia que não iria continuar. O Homero38 assumiu. Foi logo um dos primeiros momentos que o senhor Dary39 anunciou. Daí o Homero conversou com a gente e disse que a gente não continuaria. E em novembro, antes de terminar o ano letivo, eu tive convite pra ser diretora da APAE40 de Portão. Fiz um diagnóstico muito bom dentro da APAE. Então, a gente fez um projeto que seria pra quatro anos. Aí, é uma das insatisfações que eu tenho na minha carreira, no final do segundo ano, foram retirados os cedidos de dentro da APAE, todos. Aí ficou pela metade um projeto que eu tinha. Que era implantação da escola, que a gente tinha começado, o projeto chamado Projeto Águia, que era ligado à Federação Nacional das APAEs, que era uma institucionalização e vínculo com o SUS41 na área clínica, e com o FNDE42, na área da escola. Isso a gente não conseguiu nem iniciar, íamos iniciar no terceiro ano. Então voltei pra rede e a rede tinha lançado concurso para supervisor.
Processos seletivos para outros cargos em educação foram realizados bem depois do concurso para professor. Assim, em 1994 ocorreu em Portão o concurso para supervisão escolar, com edital próprio e seguindo normas vinculadas aos princípios norteadores da profissão. Adreane relembra:
Teve o processo seletivo e eu passei em primeiro lugar no concurso de supervisão, e eu tive que ser nomeada. porque o Tribunal de Contas43 apontou, e o Homero teria que nomear, primeiro eu, depois a Ivone44, e a gente foi trabalhar na secretaria - e fica em silêncio um tempo. Daí quando eu fui conversar com o seu Dary eu disse, olha, deve ser um destino muito forte que nos liga, né? Porque eu tento me afastar do senhor - e sorri. Aí foi a caminhada de início de supervisão, concursada dentro da rede. Nós fomos um dos primeiros municípios a concursar especialistas, eu tenho muito orgulho de dizer isso. Muito cedo nós tivemos especialistas. Acabava tendo essas trocas a cada administração, a questão política era muito mais forte antes disso. Tenho muito orgulho do Homero por ter comprado esta briga de ter especialistas concursados.
Mais tarde, quando Adreane assumiu novamente a secretaria, ela recorda de ter a implantação do FUNDEB45, de recursos que vieram e do trabalho e cuidado ao destinar as verbas. Ela tem muito orgulho das conquistas em torno de formação para professores, da aquisição de materiais escolares e da implementação de projetos que fizeram a diferença no nível de aprendizado dos alunos e na valorização dos professores e professoras, e da educação como um todo. “O Mente Inovadora46 veio para colocar Portão no mapa educacional do Brasil e ser destaque mundial47, por exemplo. Mas, mais importante que isso, foi a forma como a comunidade passou a olhar para as escolas” - relata Adreane com os braços em movimento, fazendo com que se possa perceber seu entusiasmo e vibração.
A parceira de pesquisa Mariângela conta que, em seu segundo ano como professora, foi transferida para a Escola Municipal Gonçalves Dias, na zona rural, na localidade de Cachoeira. Como todas as outras professoras, ela tinha turma multisseriada, direção, os afazeres da merenda e da limpeza da escola. O tempo passou, e a escola teve um aumento considerável de alunos, o que demandou a necessidade de mais professoras e professores. Mariângela continuava como professora e diretora até que não foi mais possível lecionar e dirigir a escola. Quando foi chamada para conversar sobre assumir apenas a direção, pois havia esta necessidade, ela viu isso com naturalidade.
Era a continuidade do trabalho que eu vinha fazendo. A diferença é que aquele tempo que eu estaria em sala de aula dando aula, eu poderia estar cuidando de outras questões da escola, e sempre tinha. E a gente sempre procurava fazer tudo com muita organização. Então, demandava muito tempo, muito cuidado. Por exemplo, a questão do transporte. Eu tinha de chegar na escola muito cedo para receber os alunos que vinham de ônibus de outras localidades e esperar na saída até o último aluno subir no ônibus. Então, ficava o dia inteiro na escola. Havia exigências para todos os profissionais, e eu tinha muito mais.
Mariângela então conta que teve muitos momentos felizes, que foram anos de intenso trabalho, até que ela recebeu convite para trabalhar na Secretaria de Assistência Social em Portão e aceitou. “Saí de lá com aperto no coração, mas acreditava que era o melhor a fazer”. Depois de quatro anos na Assistência, Mariângela foi convidada para ser Secretária de Assistência Social no município de Lindolfo Collor48, e ela relata que foi uma experiência maravilhosa. Como ela era nomeada em Portão, conseguiu uma permuta49 e trabalhou neste outro município por quatro anos. “Retornei para a escola em Portão quando encerrou o mandato do prefeito em Lindolfo, atuando na Escola Municipal Rosalino Rodrigues Coelho até me aposentar”.
Marisa foi Diretora de uma Creche Municipal, hoje denominada Escola Municipal de Educação Infantil Bem-me-quer, no bairro Rincão do Cascalho, por três anos. Ela conta que teve sua saída da direção em função de um problema relacionado ao Sindicato dos Professores Municipais, do qual era membro ativo e Presidente no período de 1999-2001. “Tive um desacordo com o prefeito na época e não demorou muito para vir o convite a me retirar da direção da escola”. Ela lembra que foi difícil, mas que só aumentou algumas certezas que tinha em relação à administração. O plano de carreira do município de Portão não prevê eleição para o cargo de direção. Logo, é uma escolha, na maioria das vezes, de teor político partidário, o que acaba promovendo trocas em função disso. Marisa se recuperou desta passagem e trabalhou em escolas diferentes porque sempre que não se sentia à vontade na escola, pedia transferência no final do ano. E conseguia.
Depois do meu problema de saúde nas cordas vocais, do afastamento por este motivo, voltei e fui trabalhar na Escola Fraga e no Franke, 20 horas em cada. Então, eu pedi para ficar 40 horas na Escola Franke e lá eu trabalhei num projeto de meio ambiente. Passou um tempo e fui chamada pelo prefeito que naquele momento era Eloi Besson. Ele disse, “vou te indicar pra educação ambiental, a gente precisa ter alguém na educação ambiental”. Neste período houve concurso para biólogo e engenheiro. As gurias que passaram mobilizavam bastante as escolas. Este pessoal já me conhecia dos encontros no Pró-Sinos50, começamos a planejar, trabalhar com todo o município. [...] E desde 2009 então a gente já começou a articular o coletivo educador ambiental, que são as representantes das escolas municipais e, também, de todas as instituições interessadas. Como é o incentivo do consórcio Pró-Sinos que trouxe a ideia que veio do Ministério do Meio Ambiente, com a metodologia e tal, as pessoas aprendem participando. Convidamos pessoas da EMATER51, dos sindicatos, associações, agentes de saúde, das escolas, pra montar esse coletivo que começou em 2009. Em 2012 a gente conseguiu formalizar o grupo e aí um representante tinha o objetivo de aprender, participando, e ensinar a sua comunidade de convivência. Dali surgiram muitas coisas, muitos frutos. [...] Os impostos relacionados ao meio ambiente, tudo era muito mais pelo Caí que pelo Vale do Sinos e a gente conseguiu trazer Portão pro Vale do Sinos, o que gerou mais riqueza e informação. É um mérito, fruto de muito trabalho. Isso é uma coisa que eu acho muito positiva que aconteceu e eu pude participar desse processo.
A professora Marisa aproveitou as oportunidades que surgiram durante o trabalho de coordenação da educação ambiental do município para realizar capacitações e compartilhar com os membros do coletivo, mais um exemplo do empoderamento feminino. “Eu sempre sonhei em estar na UFRGS, estudando”. Marisa é Mestra em Recursos Hídricos, no IPH52, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Sua formação foi essencial para a elaboração e aprovação da Legislação que fundou e regulamentou o Conselho Municipal de Meio Ambiente do município de Portão, bem como nas ações do Coletivo Educador Ambiental53 da cidade.
É importante frisar os cuidados que professoras e professores devem ter ao assumir determinadas funções no setor público porque, conforme a legislação e o plano de carreira específico, isto pode gerar problemas no momento do cálculo para a aposentadoria. O tempo de serviço para um professor se aposentar em Portão, antes da reforma trabalhista de 201754, era de 25 anos em sala de aula e, no mínimo, 50 anos de idade. Cargos como direção, coordenação de setores e funções em biblioteca e laboratórios de informática não contam como trabalho em sala de aula, com regência de classe.
Rosaura lembra que, depois que trabalhou na Visconde de Mauá, sua primeira escola em Portão, foi transferida para a Escola Municipal 9 de Outubro, conforme havia solicitado, em função de ser mais perto de sua casa. “Eu tive 2ª série lá, mas depois ganhei uma 1ª. Como eu tinha colegas com experiência, eu tive de me apegar a elas. Uma delas era a Irene55. Ela foi minha formadora, incentivadora e inspiradora”.
A professora Rosaura recorda que, em certo momento, houve uma problemática com a Escola Municipal 9 de Outubro56 e que, em função disso, a escola foi repassada ao governo estadual. Por este motivo, todas as professoras fizeram um ofício em que solicitavam duas escolas nas quais gostariam de trabalhar ao serem transferidas. Nas férias de verão ela ficou sabendo que não iria para a escola para onde algumas de suas colegas seriam transferidas; ela lecionaria na Escola Municipal Vila São Jorge. Assim, teve a iniciativa de se dirigir até a Diretora de Ensino na época, Maria Helena Lauxen57, e solicitar sua ida para a Escola Municipal Antônio José de Fraga: “Esta sim era a escola aonde algumas amigas minhas tinham ido e era bem perto da minha casa” - relembra com um sorriso largo.
Lá a professora Rosaura recebeu uma turma de 1ª série e continuou com seu trabalho na alfabetização, ao lado da colega Sandra Maria Costa dos Passos Colling, professora parceira desde os tempos da Escola 9 de Outubro. Os anos se passaram, ela trabalhou e buscou aperfeiçoamento contínuo. Muitas trocas de vice-direção ocorreram na escola até que, em 2001, Rosaura recebeu o convite do diretor Edgar Strieder58 para ser a nova vice-diretora. Segundo ela, houve uma votação entre professoras e professores da escola e ela ficou entre as mais votadas pelos colegas. Inclusive, no dia em que daria a resposta do convite, foi visitada pelo Secretário de Educação do período, Marcos Sperb59, para ser Diretora da Creche Gente Miúda, na Vila Rica, hoje denominada escola de educação infantil. “Fiquei dividida, mas meu marido e eu conversamos muito e resolvi não deixar o grupo que apostava em mim. Aceitei ser vice-diretora da Escola Fraga. Agradeci o convite pra direção, pensando que tinha uma missão dentro da escola em que eu estava”. Ela recorda que Lourdes Weber assumiu a direção da Escola Gente Miúda, enquanto ela foi atuar como vice-diretora da Escola Municipal Antônio José de Fraga, de 2001 até a aposentadoria do diretor Edgar, em 2007.
O diretor sempre me dizia, “eu vou te preparar pra ti pegar a direção na escola”. Eu dizia, não, de forma alguma, essa não é a minha pretensão, né? “Daí eu vou te preparar, porque eu vou me aposentar, um dia eu vou parar”. O senhor não vai fazer isso, não vai fazer isso comigo. E aí chegou o dia. Se aposentou.
Assim que ele se aposentou, Rosaura foi chamada pela Secretária de Educação, Adreane Arnecke. Esta queria saber das intenções de Rosaura em relação à direção da escola e pediu para que o desejo da escola fosse formalizado em um ofício. E assim se fez. Mas Rosaura pondera:
Nesse meio tempo, eu senti também que eu tinha que me preparar, não só ali na prática. Me faltava teoria, me faltava esse suporte ali, pra mim poder seguir o trabalho. Aí, eu voltei a estudar, fui fazer a faculdade. Na época, eu queria gestão escolar. Aí na Feevale tinha gestão escolar, era com supervisão escolar. Então, hoje é a nível de pós. Na época a gente conseguia fazer já a graduação com uma habilitação. E aí era gestão escolar com supervisão. Mas eu queria orientação, eu me via mais na área da orientação do que da supervisão. A questão administrativa, burocrática, não era muito meu chão, era mais aquela coisa do diálogo, da conversa, de entender o aluno, aquela proximidade com o professor. [...] Assim, estive diretora no Fraga até me aposentar em 2017.
A necessidade de aprofundamento teórico está presente na fala de todas as parceiras de pesquisa. Conforme os desafios aumentavam, maior necessidade de formação elas sentiam. Segundo Rosaura, ela foi indo degrau por degrau em seu percurso profissional: professora, vice-diretora, diretora. Depois de se aposentar, Rosaura foi convidada a assumir o comando da Secretaria de Educação, pelo prefeito José Renato das Chagas. Como ela teve liberdade para montar sua equipe de trabalho, aceitou o convite e trabalhou à frente da pasta (2017-2020), dando continuidade agora, nos mandatos do prefeito Delmar Hoff (2021-2024) e neste atual que iniciou em 2025.
Bem, eu sempre lembro o que meu diretor falava, “porque quando tu está do outro lado, tem uma outra visão, né, um outro pensamento”. E, às vezes, até uma outra forma de colocar as coisas também. Tanto na cobrança, tu não entende por que isso tu não conseguiu, quando tu faz alguma solicitação pra direção. Tu faz o pré-julgamento sem saber. Depois que tu passa pro outro lado, tu entende muitas coisas. Porque tu age de determinada forma. E ele sempre dizia assim “ó, todo mundo tem que passar por uma experiência de direção de escola, tem que tá aqui do outro lado pra saber como funciona”. [...] No caso do diretor, é preciso entender o professor que solicita, quais os seus anseios e tudo mais. E, também, é importante entender a direção. Mas é muito mais fácil compreender quando tu passou por ali. Eu vejo muito isso agora como secretária. Eu entendo muito mais as diretoras. Entendo que, muitas vezes, não é só o burocrático, nem o pedagógico. Eu entendo quando elas trazem suas questões, a gente não fecha tanto e vamos ouvir, vamos discutir o que a gente pode fazer pra mudar, vamos juntos. [...] Por isso, minha aposta é no diálogo, sempre foi, desde a sala de aula.
O que se pode afirmar com estes percursos é a centralidade do pedagógico entendido como experiência viva e em constante construção. Longe de se limitar a técnicas e prescrições, o pedagógico se manifesta no modo como as professoras fazem escolhas - seja na seleção de turmas, nas metodologias adotadas ou na escuta das singularidades que emergem no cotidiano escolar. Essas escolhas não são neutras nem pré-determinadas, mas produzidas em relação com o contexto, com as oportunidades que surgem, com os afetos que atravessam o trabalho docente. Trata-se de um processo sempre inacabado, em que cada evento (seja uma dificuldade ou uma conquista) exige um gesto ético e criativo de resposta. Da mesma forma, a reação dos alunos também se inscreve nesse movimento de contínua invenção - eles não apenas recebem, mas também co-produzem as situações de aprendizagem, em diálogo com os professores, com a comunidade escolar e com a própria materialidade da escola.
Nesse sentido, é importante retomar a concepção de Kastrup (2001), segundo a qual aprender não é simplesmente apropriar-se de conteúdos, mas produzir novos sentidos a partir da experiência: “a aprendizagem é, sobretudo, invenção de problemas, é experiência de problematização” (KASTRUP, 2001, p. 17). Essa ideia dialoga com a noção de devir em Deleuze e Guattari (1995), em que o conhecimento não se acumula de forma linear, mas se cria em linhas de fuga, em processos rizomáticos e imprevisíveis. Como aponta Larrosa (2018), educar é possibilitar experiências que toquem a vida dos sujeitos, e não simplesmente oferecer saberes organizados. Biesta (2013), por sua vez, nos adverte sobre os riscos de uma educação voltada apenas para resultados, e propõe a aprendizagem como um espaço de interrupção, de exposição ao novo, à alteridade. Assim, o pedagógico está menos nos produtos e mais nos modos de existir que se atualizam nas relações escolares. É uma prática de invenção, de resistência e de abertura ao inesperado, onde se aprende tanto com os acertos quanto com as adversidades.
Considerações finais
O objetivo deste estudo não foi elaborar quadros ou tabelas demonstrativas que oferecessem dados sobre a carreira em educação de forma quantitativa. O campo da educação já conta com vasta produção que aborda tais aspectos, com análises sobre regulamentações, dados históricos e as estruturas que formalizam a carreira docente. Ao contrário, a proposta aqui foi aprofundar-se nos detalhes, nas vivências cotidianas que transcendem o que está formalmente registrado. O foco não esteve no que é regulamentado e acessível publicamente - como legislações ou os históricos dos municípios, amplamente disponibilizados em sites, museus e revistas on-line. Buscamos ir além dessas fontes, dialogando com professoras aposentadas que, ao revisitarem suas trajetórias, nos possibilitaram desvelar o que se esconde por trás das regulamentações. Guiadas pelas suas memórias, suas histórias foram desfolhadas, revelando que suas carreiras não se resumem a números ou registros, mas constituem uma parte vital do legado da educação pública no município de Portão/RS.
No entanto, ao considerar a memória como ponto de partida, é fundamental lembrar que ela está inserida em um campo de lutas e relações de poder, como afirma Geiger (2016). A memória não é um repositório neutro de fatos, mas um espaço de disputas, onde lembranças e esquecimentos se entrelaçam, se articulam e, muitas vezes, se transformam em função das relações que se estabelecem no momento da rememoração. Como nos ensina Foucault (2020), as narrativas não são simples relatos; elas são construções que se inscrevem em dinâmicas de poder e disciplina. Ao narrar suas experiências, essas professoras não apenas nos revelam suas trajetórias pessoais, mas também as implicações dessas trajetórias no contexto maior da educação pública e na dinâmica social e política de seu tempo. Foucault (2020) nos lembra que as relações de poder não se manifestam apenas no discurso, mas se inscrevem nos próprios elementos articulados, em cada palavra e cada silêncio, tecendo o que é lembrado e o que é esquecido.
As memórias que emergem dessa pesquisa não são apenas reflexos de um passado distante, mas manifestações de um contínuo processo de devir, de reconstrução e reinterpretação, em que as professoras, ao relembrar, reinterpretam suas próprias histórias. Elas revelam não só o que vivenciaram, mas também como essas experiências foram ressignificadas ao longo do tempo. Assim, a pesquisa possibilitou acessar o legado de um trabalho que vai além das práticas pedagógicas, adentrando a esfera afetiva, política e social que caracteriza a educação como um campo de disputas e negociações. Os registros sobre a competitividade, situações de mal-estar no ambiente de trabalho, adoecimento, dificuldades em organizar a vida pessoal e profissional, comum nas clivagens de gênero, atestam estas conclusões.
Esse movimento de revisitação das trajetórias revela, ao mesmo tempo, o quanto essas educadoras influenciaram e foram influenciadas pela escola pública, e como suas histórias, embora pessoais, se entrelaçam com as narrativas coletivas da educação no município. Nesse sentido, a pesquisa não se limita a uma análise individualizada das carreiras, mas se inscreve como uma reflexão sobre os mecanismos de constituição da memória coletiva e sobre como as práticas pedagógicas se entrelaçam com as relações de poder na escola pública.
Por fim, ao fazer ecoar as vozes dessas professoras, o estudo reafirma a importância de se olhar para a educação não apenas a partir de dados quantitativos ou normativos, mas também a partir das experiências vividas, das memórias que elas geram e das relações de poder que as atravessam. Em consonância com Foucault (2020), essas narrativas nos convidam a repensar o papel da escola e da profissão docente como espaços não apenas de transmissão de saberes, mas como arenas de produção de subjetividades e de resistência aos mecanismos de normatização.



