Palavras Iniciais
A imprensa pedagógica cumpriu um papel importante na promoção de saberes que contribuíram para a manutenção e/ou apropriação de novas práticas docentes, bem como para a transformação da cultura escolar. Objeto e fonte de estudo para pesquisadores, e também artefato de uma cultura material escolar, os jornais, revistas e boletins que circularam entre os sujeitos da escola (direção, professores, alunos e famílias) promoveram a difusão de representações voltadas à construção de sentido sobre as práticas pedagógicas.
Nessa perspectiva, voltamos o nosso olhar para três produções oriundas de instâncias oficiais do ensino no estado do Rio Grande do Sul, com foco específico nas publicações que circularam entre 1947 e 1954. Nosso objetivo, neste estudo1, é problematizar as representações propagadas e os possíveis sentidos construídos em torno das orientações e práticas preconizadas por essas instâncias de ensino.
Desse modo, propomos analisar as representações propagadas pelos impressos Revista do Ensino do RS, Boletim do CPOE/RS e o jornal Despertar (de Caxias do Sul), com o intuito de compreender os possíveis diálogos estabelecidos com as prescrições e orientações das instâncias produtoras desses meios. Visou-se, assim, compreender como tais materiais colaboraram para a transformação das práticas pedagógicas e para os processos de escolarização no estado do Rio Grande do Sul, particularmente na região de Caxias do Sul. Como recorte temporal, adotamos o período de 1947 a 1954, correspondente aos anos de circulação do jornal Despertar nas escolas do meio rural de Caxias do Sul.
O estudo orienta-se pela perspectiva da História Cultural, estabelecendo também interlocuções com a História da Educação. Essa articulação apoia-se em conceitos como o de representação, prática e cultura material escolar, com o intuito de reconhecer aproximações e/ou semelhanças entre os conteúdos publicados nos três diferentes meios analisados. Para isso, adotamos um percurso metodológico fundamentado na análise documental histórica, considerando os exemplares dos três periódicos localizados e produzidos dentro do recorte temporal da pesquisa: 53 edições do jornal Despertar; 4 edições do Boletim do CPOE/RS2 e 16 exemplares da Revista do Ensino.
A imprensa pedagógica se constituiu em elemento de conexão entre uma realidade já construída e outra em processo de construção, permitindo a elaboração de sentido a partir de um conjunto de códigos aceitos e validados em determinados grupos. Atuando, assim, na propagação de signos que fortaleciam uma dada identidade social, assim como expressa Chartier (1991, p. 169) ao tratar sobre os “[...] os signos que visam a fazer reconhecer uma identidade social, a significar simbolicamente um estatuto, uma ordem, um poder; enfim, as formas institucionalizadas através das quais 'representantes' [...] 'presentificam', a coerência de uma dada comunidade”.
Esse tipo de material fornece indícios relevantes sobre as práticas, suas relações com instruções oficiais, ideologias, reivindicações e outros aspectos que podem ser analisados a partir de seus registros. Além disso, possibilita múltiplas leituras sobre os usos dados a esses impressos (Bastos, 2005, p. 23). O seu estudo permite investigar dimensões da escolarização observando-se não apenas os modos de funcionamento da escola, mas também aspectos que emergem das estratégias políticas para o direcionamento e à normatização do ensino, bem como apreender elementos ligados às práticas pedagógicas e à profissionalização docente (Catani, 1996).
Compreendemos, ainda, que na concepção desses impressos havia a inscrição de representações que atingiam os leitores por meio de um discurso e de uma narrativa que visavam um determinado uso e apropriação. Dessa forma, os impressos buscavam influenciar as práticas pedagógicas produzidas no cotidiano escolar (Chartier, 1991).
Nesse sentido, buscamos caracterizar o contexto de produção desses materiais, objetivando compreender as relações e expectativas dos propositores e organizadores desses meios, apresentando alguns elementos do contexto histórico-político do cenário educativo no Rio Grande do Sul, especialmente na região da Serra, que contribuíssem para compreensões das transformações impulsionadas pelas novas ideias pedagógicas.
No que se refere às publicações, destacamos:
O jornal Despertar foi um impresso editado por profissionais que atuavam junto à Diretoria da Instrução Pública de Caxias do Sul, com colaboração da Diretoria de Fomento e Assistência Rural na coluna dedicada a conhecimentos do meio rural. Teve início em setembro de 1947 e circulou até novembro de 1954, com edições regulares - mensais em alguns anos; com lacunas em determinados meses, em outros. De caráter gratuito, foi distribuído especialmente nas escolas rurais de Caxias do Sul, com tiragem média por edição de 1200 exemplares. As edições, geralmente com oito páginas, apresentavam uma organização editorial abrangente, com temáticas como: práticas rurais, higiene e saúde, orientações para o lar; prescrições voltadas às práticas docentes e notícias diversas. As publicações eram comumente estruturadas nas seguintes colunas: Capa (um texto normalmente da Administração); Educação e Ensino; Conselho sobre Agricultura / Informações Rurais; Colaboração e Boa Vontade (textos de alunos); Higiene; Utilidades Práticas/Conselhos Úteis; Para Você Criança e Noticiário.
A Revista do Ensino foi uma publicação voltada ao magistério gaúcho, editada a partir de 1939, com distribuição dividida em fases e uma interrupção em sua circulação: a primeira fase compreende os anos de 1939 e 1942; a segunda, de 1951 a 1978. A partir de 1956, a Revista do Ensino passou a ser publicada pela Supervisão Técnica do CPOE, divulgando dessa forma as orientações pedagógicas do órgão (Stoll; Bica; Coutinho, 2019). Com periodicidade aparentemente mensal3, as edições tinham, em média, 70 páginas, abordando orientações pedagógicas e sugestões de práticas de sala de aula para dar suporte aos professores. No recorte deste estudo, destacamos, entre os temas apresentados: sugestões de atividades para a educação primária, jogos educativos, dramatizações e trabalhos manuais (por vezes com o tema patriótico), textos sobre educação física e higiene mental, poesias e contos, exercícios para diferentes séries e disciplinas, entre outros.
O Boletim do CPOE/RS iniciou sua publicação em 1947, com conteúdos destinados às escolas vinculadas à Secretaria de Educação. A proposta inicial previa a periodicidade anual, posteriormente alterada para bianual. Seus exemplares apresentavam um formato maior do que as outras publicações analisadas, com variação no número de páginas entre 160 e 600. Os textos incluíam esclarecimentos sobre ações desenvolvidas, planos de atividades para diferentes disciplinas e assuntos variados. Entre os tópicos recorrentes, enfatizamos: comunicados com temáticas variadas (apresentação de atividades desenvolvidas, campanhas, datas comemorativas); informações sobre provas; uma seção sobre pesquisa com textos de diferentes pedagogos brasileiros; diretrizes e normativas do ensino; ofícios destinados a orientar as instituições de ensino e os professores; informações sobre os cursos oferecidos ao corpo docente; entre outras matérias.
Em relação ao contexto que cerca a produção desses impressos, sublinhamos que, entre as décadas de 1930 e 1950, a educação brasileira passou por diferentes momentos de mudanças administrativas e pedagógicas, significativamente para responder às demandas de uma sociedade que se modernizava impulsionada pela industrialização. De acordo com Souza (2009), foi no final da década de 1930 que reformas educacionais foram implementadas em diferentes estados, motivadas pelo movimento Escolanovista no Brasil, o qual defendia a renovação dos métodos de ensino e a construção de uma escola que cumprisse com um papel social. Além disso, houve a apropriação de um novo aparelhamento escolar que colaborou para esse projeto de modernização.
Contudo, essas articulações políticas para a transformação do campo educativo, aconteceram, particularmente durante a gestão de Getúlio Vargas na presidência do país, e estiveram representativamente associadas à ideia de construção de uma identidade nacional pautada pela valorização da pátria, pela exaltação do trabalho e por um espírito cívico-patriótico, como pontuou Bomeny (1999).
Quadros, Tambara e Bastos (2007) compreendem que a reconfiguração do ensino no estado do Rio Grande do Sul, com a consequente reestruturação da função social da escola, esteve associada às políticas de nacionalização, de modo particular por meio da ampliação da rede pública de ensino. Essa expansão incidia sobre a construção de uma nova ordem social, na qual a escola contribuiria com o Estado na formação de uma “consciência nacional”. Além disso, as ideias desse movimento repercutiram com mais intensidade a partir da década de 1940, quando foram promovidas intervenções voltadas à chamada “renovação pedagógica” das escolas (Peres, 2016). Essas ações se deram por meio da instituição de decretos estaduais, da abertura de grupos escolares, da organização de programas a serem adotados pelas escolas primárias e pela criação de órgãos para a orientação da educação, como o Centro de Pesquisas e Orientação Educacionais (CPOE).
A criação do CPOE foi um movimento que dialogou com as pautas nacionalistas, promovendo ressonâncias no planejamento de diretrizes teóricas, técnicas e administrativas, além de contribuir para uma reorganização da Secretaria da Educação (Quadros, 2006, p. 99). Quadros, Tambara e Bastos (2007) explicam que essa articulação para a reforma do sistema de ensino no Rio Grande do Sul aconteceu, particularmente, durante a vigência do mandato do Secretário José Pereira Coelho de Souza, sendo determinante para a ampliação da intervenção do Estado na jurisprudência educacional, para a reestruturação dos quadros técnicos e administrativos da SESP/RS e para a proposição e implementação de políticas no campo educativo.
Entre os marcos dessa transformação do ensino gaúcho, destaca-se a criação do CPOE, em 1943, órgão que desempenhou um papel determinante na gestão do ensino primário, atuando no aperfeiçoamento do magistério, na normatização das práticas pedagógicas, na fiscalização do ensino primário, na promoção de pesquisa técnico-científica e na formulação de projetos educacionais. Foi importante na gestão e no direcionamento do ensino gaúcho, além de cooperar para a disseminação dos ideais da Escola Nova, contando com o apoio de especialistas e técnicos em educação. Entre as pautas trabalhadas pelo órgão, estavam aquelas voltadas à capacitação do corpo docente e de desenvolvimento de competências que atendessem às demandas de uma sociedade em processo de modernização (Quadros, 2006).
Para tratar sobre esses temas e atingir o magistério gaúcho, o CPOE elencou uma série de ações e de artefatos que auxiliaram na propagação de diretrizes, orientações e novos conhecimentos - entre eles, destaca-se o Boletim do CPOE. Catani (1996) explica que os impressos pedagógicos serviam como manuais de conduta para professores e alunos. Nesse contexto, os conteúdos veiculados pelo boletim alinhavam-se às concepções vigentes à época, tratando de temas como civismo, moral, práticas docentes, diretrizes curriculares, e estudos sobre questões naturalistas - como o culto à árvore, à natureza e as atividades agrícolas. Peres (2016) pondera, ainda, que os meios de imprensa pedagógica visavam constituir um senso de nacionalidade e de cooperação, ao orientar sobre hábitos e atitudes a serem adotados nos espaços de convívio social.
Outro impresso pedagógico que também foi coordenado editorialmente pelo órgão responsável pelo ensino no Rio Grande do Sul, e que antecedeu o Boletim do CPOE em sua circulação, foi a Revista do Ensino, a qual exerceu papel relevante na transformação das práticas pedagógicas e na normatização da educação primária no estado. Esse periódico tinha como finalidade ser “um instrumento técnico-pedagógico de atualização permanente dos professores em serviço e dos alunos das escolas normais, através da divulgação de experiências pedagógicas do ensino primário e pré-primário” (Bastos, 2013, p. 1).
Conforme Gervasio (2019), quando a Revista do Ensino passou a ser uma publicação supervisionada pelo CPOE/RS, o órgão realizou a orientação técnica do meio e exerceu maior controle sobre o conteúdo veiculado, particularmente pelas contribuições dos seus técnicos. A publicação também assumiu um caráter público, deixando de ser uma iniciativa de cunho privado. Até o ano de 1965, a revista funcionou como uma iniciativa da professora Maria de Lourdes Gastal4, contando com o apoio de uma equipe especializada, que produzia orientações alinhadas aos interesses dos professores e de caráter eminentemente prático.
A Revista do Ensino foi um espaço para diversos especialistas no campo da educação apresentarem suas concepções e para proporem reflexões tanto em âmbito nacional quanto no estado. Além disso, constituiu-se como um meio de propagação de políticas educativas, normativas, princípios e orientações voltados a práticas reconhecidas à época como renovadoras (Bastos, 2005). Com o foco voltado ao professor, a revista pode ser considerada um dos dispositivos centrais na formulação e disseminação do discurso sobre a educação no estado, sendo adotado de forma ampla e, neste estudo, destacadamente relevante no contexto da cidade de Caxias do Sul. Isso é ratificado por uma matéria do jornal Despertar, de março de 1953: “Por determinação do Prefeito Municipal, a Diretoria da Instrução Pública acaba de assinar a “Revista do Ensino”, publicada pela Editora Globo, da capital, para tôdas as Bibliotecas das escolas mantidas pela Prefeitura”.
A Revista do Ensino foi, portanto, um meio utilizado pela Prefeitura de Caxias do Sul para a atualização do corpo docente, oferecendo acesso a novos e modernos saberes no campo educacional. Contudo, além desse impresso, outro meio da imprensa pedagógica também foi mobilizado pelo órgão público de ensino no contexto escolar caxiense: o jornal Despertar - o terceiro dos impressos que compõem as fontes deste estudo.
Nesse sentido, situamos brevemente o leitor sobre a cidade de Caxias do Sul, apresentando alguns aspectos de contexto que contribuem para compreensões. Localizada na região nordeste do Rio Grande do Sul - na chamada Serra Gaúcha -, Caxias do Sul foi uma das localidades do sul do país que, no final do século XIX, recebeu grande contingente de imigrantes europeus. Constituiu-se, assim, como um importante centro de colonização italiana no estado. Essa colonização imprimiu traços culturais característicos à identidade local e exerceu influência significativa na economia do município, especialmente nos setores da agricultura, do comércio e da indústria (Herédia, 2017).
Nesse mesmo período, o município ocupou um papel relevante de apoio ao governo Vargas durante a política do Estado Novo, especialmente por parte do empresariado local (Paz, 2013). Caxias do Sul também foi alvo de atenção dos governos estadual e federal dentro da empreitada nacionalista, em razão do expressivo número de imigrantes italianos que se estabeleceram na região, o que despertava preocupações com o desenvolvimento de práticas que mantivessem a cultura de origem e, ao mesmo tempo, fortalecessem os laços dessa população com a pátria mãe. Por isso, entre as ações que foram aplicadas, destacam-se a fiscalização e o fechamento de associações e estabelecimentos de ensino, particularmente as escolas étnicas-comunitárias, como forma de controlar o uso da língua estrangeira e limitar influencias fascistas (Gertz, 2005).
No que se refere ao ensino público, o município de Caxias do Sul desenvolvia uma política que estava em sintonia com o movimento de reconfiguração do campo educativo no estado do Rio Grande do Sul. Os investimentos concentravam-se na ampliação da oferta de ensino, tanto na área urbana quanto, de forma significativa, na área rural, onde a Prefeitura Municipal atuou na qualificação dos professores, na promoção da nucleação escolar e na manutenção da infraestrutura das instituições (Benedete Netto, 2014).
Entre as décadas de 1940 e 1950, durante a gestão do prefeito Dante Marcucci, a administração municipal de Caxias do Sul promoveu uma melhor organização do ensino. As escolas passaram a ser acompanhadas de perto pelas inspeções, e houve uma significativa ampliação da oferta de cursos voltados à formação de professores primários. Entre as instituições formadoras de docentes destacam-se: a Escola das Irmãs de São José, de caráter particular (Roso, 2012); a Escola Normal Duque de Caxias, voltada à formação de jovens de classes menos favorecidas; e a Escola Normal Rural “Murialdo”, que, em regime de internato, formava docentes do sexo masculino para a zona rural, em convênio com o governo do estado do Rio Grande do Sul (Werle; Brito, 2006).
No campo de educação pública, no recorte temporal da pesquisa, a gestão do ensino municipal estava sob a responsabilidade da professora Ester Troian Benvenutti, então Diretora da Instrução Pública Municipal. Ela também foi uma das idealizadoras do jornal Despertar, publicação que teve circulação limitada à região de Caxias do Sul, especialmente no contexto rural. O jornal surgiu como um meio de cooperação para a propagação de informações relacionadas às práticas pedagógicas, funcionando igualmente como suporte educativo para a população rural. Suas orientações visavam instruir sobre o trabalho, promover comportamentos voltados à saúde e à higiene, bem como fomentar valores de civilidade (Dewes, 2019).
Nessa perspectiva, entendemos que o jornal Despertar funcionou como um meio de aproximação entre os sujeitos que viviam na área rural e a nova realidade que se configurava com o avanço da modernização. Assim, as prescrições vinculadas à renovação das práticas pedagógicas também serviam ao propósito de constituir uma escola capaz de formar sujeitos aptos a esse novo tempo. Além disso, contribuía para a construção de uma identidade nacional brasileira entre uma população significativamente composta por imigrantes e seus descendentes. Entre os objetivos do Despertar, expressos em relatório assinado pelo então prefeito Demétrio Niederauer e enviado ao governador do Estado do Rio Grande do Sul, destaca-se o seguinte trecho: "o jornal das escolas municipais, destinado não só a fins pedagógicos, como também à difusão de ensinamentos práticos e úteis aos colonos, iniciativa esta que teve entusiástica acolhida entre a população rural” (Caxias do Sul, 1948).
Desse modo, ponderamos que o jornal Despertar, a Revista do Ensino e o Boletim do CPOE foram três impressos pedagógicos que circularam em um período de transformações significativas no ensino, surgindo não apenas como meios de propagação das novas ideias sobre a escola, mas também como representações simbólicas de um novo tempo para a educação no Rio Grande do Sul. Esses materiais integram a História e ajudam a compor novas e/ou diferentes compreensões ao preservarem os indícios das práticas culturais expressas em seus textos e iconografias, das possíveis intenções de seus produtores, bem como dos diálogos possibilitados entre a nova realidade apresentada e o cotidiano de seus leitores. Assim, na próxima seção, realizamos o cotejamento entre os três impressos, analisando algumas das representações propagadas e as prescrições relacionadas ao campo da educação que permearam o período investigado nesta pesquisa.
Os impressos e as novas práticas: modos de sensibilizar os professores
No que se refere às práticas pedagógicas, analisamos os conteúdos que tratavam sobre as novas metodologias de ensino que possibilitavam criar experiências para a aprendizagem, além das proposições sobre novos materiais e para o incentivo ao uso de instituições, espaços ou atividades auxiliares, temas que tangenciavam as propostas de renovação no campo da educação na época. Desse modo, o ensino intuitivo, que apresenta influência internacional, evidencia-se na Revista do Ensino:
- Todo o estudo das ciências deve ser feito sob experiências?
- Diz Henrique Rioja em “Ciencias Naturales en la Escuela Primária”: “O mestre cuidará sempre de coordenar as atividades e evitar que elas degenerem em confusão por falta de orientação e sentido. Fiéis a nosso critério de equilíbrio e ponderação, as experiências na escola serão efetuadas no momento oportuno sem lhes emprestar maiores proporções que as discretas, pois do contrário corre-se o risco de converter a escola em depósito de todo gênero de artefatos, com perigo de afastar-se do rigor e da prudência necessárias para que a atenção dos alunos não se extravie nem distraia por uma série de manifestações brilhantes, simples ou complicadas que inclinem sua atividade em um sentido unilateral (Aveline, 1952b, p. 8).
O excerto da seção do impresso, assinado por Suely Aveline, auxiliar do CPOE, fundamenta-se na articulação com o texto de Henrique Rioja, que reforça a adoção do método intuitivo a partir da perspectiva das experiências didáticas. Uma ideia também trabalhada no texto do prof. Orlando Ferreira de Melo, da Escola Normal Pedro II, de Blumenau, SC, na Revista do Ensino de março de 1953: “[...] em se tratando de uma questão de grande interêsse no currículo primário, - chamamos a atenção de todos os professores para a mesma e para as observações que passaremos a fazer, frutos da experiência cotidiana.” (Melo, 1953a, p. 13). No jornal Despertar, houve a reprodução de texto da professora Maria Josefina Moreira Sampaio, colaboradora da Revista do Ensino, que faz referência ao método intuitivo, orientando o professor a considerar e respeitar as características inerentes às crianças para contribuir com um aperfeiçoamento físico, moral e intelectual (Sampaio, 1954a).
A evidência também indica que os textos da Revista do Ensino repercutiam entre os docentes nesta região, por meio de reproduções feitas no jornal Despertar. A capa da Revista do Ensino do ano de 1939, que apresenta o título do texto reproduzido no jornal Despertar do ano de 1954, colabora para essa reflexão (Figura 1):

Fonte:Revista do Ensino, (1939a); Despertar (1954a).
Figura 1 Contribuição de Maria Josefina Sampaio na Revista do Ensino e no Despertar
De forma semelhante, o Boletim do CPOE/RS também trazia sugestões de atividades pedagógicas e orientações para sensibilizar os professores sobre os novos métodos, dando atenção ao interesse dos alunos e a atividades que possibilitassem experiências construtoras de conhecimentos, proposições que foram defendidas pelo movimento da Escola Nova, como evidenciamos na edição do ano de 1954/1955 do Boletim, em que são indicadas atividades que contribuíssem para o desenvolvimento dos alunos, como, por exemplo, a realização de dramatizações, o uso de projeções de gravuras e fotografias, a realização de exposições e a promoção de excursões que “enriquecem as experiências, revigoram e alegram as crianças, socializando-as e desenvolvendo-lhes a capacidade de observação e de linguagem” (Normas a serem..., 1954/1955, p. 16).
O uso de atividades para a promoção do aprendizado também foi tratado pelo Despertar, na edição de novembro de 1952, em texto de Celestina Rosa e Silva, que sugere a realização de excursões: “Realização da excursão. Durante o passeio, o professor irá chamando a atenção dos alunos para esta ou aquela particularidade, ajudando-os a encontrar solução para os problemas que forem surgindo.” (Silva, 1952, p. 2). Igualmente, a sugestão da atividade ganhou as páginas da Revista do Ensino:
pela necessidade que se evidencia, através da prática das excursões de sair-se do ambiente da escola, vão se fortificando, nos alunos os hábitos de boas maneiras, o respeito pelas coisas públicas, pelas propriedades alheias. As excursões favorecem ainda o aprimoramento do senso artístico do aluno, pelas oportunidades que oferecem de apreciação da natureza ou das criações artísticas do espírito humano. Finalmente as excursões oportunizam ao professor um melhor conhecimento de seus próprios alunos que, em situação natural, se manifestam mais espontaneamente, revelando atitudes que, em classe, dificilmente poderiam ser apreciadas (Aconselha-se..., 1952b, p. 13)
Os conteúdos semelhantes, divulgados em impressos com produções distintas, corroboram para a ideia de que os discursos sobre a renovação das práticas foram assimilados nas diferentes esferas públicas de ensino e eram propagados no sentido de sensibilizar para novos modelos e para a adoção de um novo pensamento sobre a educação entre o corpo docente do RS, cooperando para legitimar os discursos que emergiam dos grupos que idealizavam e planejavam o ensino no Estado, e que faziam a gestão da educação. Ao mesmo tempo, também serviam para fortalecer outras identidades, à medida que conferiam relevância e compartilhavam a ideia de corresponsabilidade, como, por exemplo, com o corpo docente estadual e municipal.
No âmbito da constituição dos conteúdos, destacamos os diálogos realizados com os ideais de pensadores nacionais e influências internacionais, que faziam referência à renovação das práticas pedagógicas, contribuindo para dar “peso” às proposições divulgadas, como, por exemplo, a estratégia utilizada em texto da Revista do Ensino, de outubro de 1953, na seção intitulada Aprendizagem, de Maria Lobato Lisbôa, Orientadora de Educação Primária do CPOE, que aborda concepções sobre a aprendizagem e utiliza referências nacionais e internacionais, citando na bibliografia os materiais utilizados para a escrita. O modo como notabiliza o material de apoio demonstra a relevância conferida para os conteúdos que eram organizados e reforça a proposta de uma construção de sentido a partir de um discurso que se estabelece para estimular a apreensão desses textos no espaço escolar, na perspectiva de que os textos “[...] sob formas impressas possivelmente diferentes - podem ser diversamente aprendidos, manipulados, compreendidos [...]” (Chartier, 1991, p. 181).
No que se refere aos ideais que eram trabalhados sobre o papel da escola na sociedade, um tema frequente nos discursos Escolanovistas, a Revista do Ensino, de agosto de 1954, traz um texto do médico psiquiatra Dr. Alberto A. Lobmann, que aborda sobre um modelo de escola pública com foco na função social (Figura 2):

Fonte: Revista do Ensino, agosto, p. 71 (1954d)
Figura 2 Trecho do texto “A Função social da Escola Pública”
Pautado em aspectos como a materialidade, as práticas, a higiene e as condutas, defende uma proposta de escola com função social, como um espaço de preparação para a vida, ecoando com a proposta escolanovista. Nesse sentido, a escola se constituiria em um espaço de civilidade e de docilidade. Mais do que novos métodos de ensino, essa articulação entre o “cotidiano escolar” e o “cotidiano social” visava à adequação desses sujeitos a um determinado padrão de conduta, que tocava sobre questões compreendidas no tema civilidade. Desse modo, escola e professores se constituíam em agentes para um movimento civilizatório, no aprendizado de saberes que implicariam na transformação desses sujeitos; conteúdos que também emergem no Despertar: “São sempre apreciadas e queridas as crianças dotadas de bons hábitos [...] Destacam-se entre êstes os de ordem, disciplina, obediência, asseio e compostura [...]” (Bons hábitos, 1951b, p. 6). Ou, como em: “A educação tem de ser: natural, progressiva, simultânea e moral [...] Moral: consiste em infundir os princípios que combatem o vício, sem ofender o temperamento da criança” (Caracteres de..., 1954b, p. 2).
Na Revista do Ensino, de maio de 1954, há também conteúdo que reforça o aspecto da civilidade: “Nasce, pois, da sensibilidade, as ações condignas de Civilidade, tão gratas ao próximo porque tornam o ambiente social mais convidativo, dão à vida o encanto e aprimoramento das atitudes, a excelsitude da beleza estética que só a moral pode incutir” (Revista do Ensino, 1954c, p. 43). Nessa conjuntura, de acordo com o que concebe Pesavento (2006), esses temas trabalhavam representações coletivas e sobre um imaginário a ser produzido e legitimado socialmente:
O mundo, tal como o vemos, apropriamo-nos e transformamosȳsempre um mundo qualificado, construído socialmente pelo pensamento. Esseȳo nosso “verdadeiro” mundo, mundo pelo qual vivemos, lutamos e morremos. O imagina?rio existe em func?a?o do real que o produz e do social que o legitima, existe para confirmar, negar, transfigurar ou ultrapassar a realidade. O imagina?rio compõe-se de representac?o?es sobre o mundo do vivido, do visível e do experimentado, mas tambe?m sobre os sonhos, desejos e medos de cada época, sobre o na?o tangível nem visível, mas que passa a existir e ter força de real para aqueles que o vivenciam (Pesavento, 2006, p. 50).
O professor teria o apoio desses impressos, que ofereciam orientações sobre os temas a serem abordados, e com indicações de práticas que poderiam contribuir como suportes educativos, em uma perspectiva de estimular a apreensão de determinados padrões civilizatórios entre os sujeitos em formação. Esses materiais somavam e fortaleciam os conteúdos tratados nos Programas Escolares, nas atividades desenvolvidas em sala de aula, em datas comemorativas e no uso de instituições complementares da escola, cooperando para a construção moral e de conduta que criava a representação do “cidadão brasileiro ideal”, como ficou registrado na edição de 1950/1951 do Boletim do CPOE/RS: “À Escola cabe selecionar cuidadosamente as situações, evitando que o mau exemplo, o vício, o relaxamento dos costumes, a falsa moral venham a ser apreciados por êsses indivíduos em formação [...]” (Educação..., p. 74).
Apesar de não tratarem de forma direta, a análise dos textos permite o entendimento de que estavam articulados às novas propostas pedagógicas e a temas de interesse do Estado, que visavam formatar os sujeitos para condutas que contribuiriam para uma dada ordem social. Essas representações acerca da escola e de condutas esperadas dos alunos, que eram difundidas por meio dos impressos pedagógicos, constituíam uma ordem escolar e social que influenciava a cultura escolar e a transformação das práticas.
Da mesma forma, o Boletim do CPOE de 1950/1951 apresenta evidências a respeito da relação entre as práticas pedagógicas e as condutas de alunos:
Como recursos para uma campanha preventiva indicamos: [...] importância da religião como fator de formação moral, respeitando-se e valorizando-se sentimentos e práticas religiosas dos alunos [...] o emprêgo dos meios de divulgação de fatos e idéias que possam influir beneficamente sôbre o aluno [...] criação e renovação de bibliotecas escolares ou de classe; realização de sessões de auditório (Dramatização) [...]; divulgação de bons jornais e revistas; projeções de filmes de fundo educativo [...] realização de campanhas escolares onde se motivem a prática de atitudes reveladoras de aperfeiçoamento moral [...] Campanha das boas maneiras. Dia do bom companheiro. Dia da criança [...] Dia das mães e do professor [...]" (Educação..., p. 74-75).
As práticas pedagógicas eram propostas no sentido de prevenir condutas tidas como indesejáveis, uma maneira de disciplina e docilização dos alunos; não apenas o espaço da escola vigia e disciplina, como nos diz Foucault (2014), mas as estruturas curriculares, os programas de ensino, as atividades pedagógicas. Os impressos pedagógicos davam acesso, aos professores, a orientações que nos permitem refletir sobre o que diz Chartier (1991, p. 186-187): “[...] a transformação das formas através das quais um texto é proposto autoriza recepções inéditas, logo cria novos públicos e novos usos.” Além de um dispositivo de orientação e aperfeiçoamento, os impressos pedagógicos também serviam como dispositivos de controle do Estado sobre a educação pública.
A Revista do Ensino, de maio de 1954, trata sobre civilidade em textos, como os do excerto: “Nasce, pois, da sensibilidade, as ações condignas de Civilidade, tão gratas ao próximo porque tornam o ambiente social mais convidativo, dão à vida o encanto e aprimoramento das atitudes, a excelsitude da beleza estética que só a moral pode incutir” (Revista do Ensino, 1954c, p. 43). O que contribui com a ideia de que, apesar dos impressos serem produzidos por sujeitos diferentes, por instâncias distintas, as expectativas no uso dos periódicos eram semelhantes, possivelmente porque havia o consentimento dos organizadores/produtores sobre as ideias pedagógicas que circulavam na época; e também uma dada conciliação de interesses dos órgãos públicos de ensino.
A civilidade foi um tema igualmente observado no Boletim do CPOE, de 1950/1951, com referência à adequação de determinados comportamentos para um convívio social:
À Escola cabe selecionar cuidadosamente as situações, evitando que o mau exemplo, o vício, o relaxamento dos costumes, a falsa moral venha a ser apreciados por êsses indivíduos em formação. Concomitantemente a uma ação preventiva, deve a Escola aplicar meios repressivos aos aspectos ou situações desfavoráveis à formação moral. Como recursos para uma campanha preventiva indicamos: [...] importância da religião como fator de formação moral, respeitando-se e valorizando-se sentimentos e práticas religiosas dos alunos [...] o emprêgo dos meios de divulgação de fatos e idéias que possam influir beneficamente sôbre o aluno [...] (Educação, p. 74-75).
Outro aspecto analisado, nos três impressos, relaciona-se às prescrições sobre a adoção de determinadas práticas ou dispositivos de suporte na escolarização, como já mencionamos brevemente, o que emerge no Boletim do CPOE/RS: “[...] divulgação de bons jornais e revistas; projeções de filmes de fundo educativo [...] realização de campanhas escolares onde se motivem a prática de atitudes reveladoras de aperfeiçoamento moral [...] Campanha das boas maneiras. [...]” (Educação, 1950-1951, p. 74-75).
Há coincidências entre as ideias disseminadas pelos impressos e entre as ações divulgadas como realizações das instâncias de ensino, como, por exemplo, as que emergem no jornal Despertar, na indicação do investimento da Prefeitura com as projeções de filmes: “No decorrer do mês findo, o cinema ambulante das escolas municipais visitou as seguintes localidades: S. Pedro da III légua, Sala da Biblioteca Pública Municipal, São Caetano [...]” (Projeções..., 1951, p. 15). E, no Boletim do CPOE do ano de 1947, no comunicado que orienta os professores do Estado a realizarem uma série de atividades durante a Semana da Criança, entre elas, audições musicais, excursões, sessões de auditório e o cinema.
Destacamos, ainda, outra temática abordada em diferentes edições dos três impressos: a da educação rural, com indicações sobre um trabalho específico e orientado dos docentes nas escolas rurais, como aconteceu na edição do Boletim do CPOE de 1952/1953, com direcionamentos acerca do programa adotado e das práticas a serem desenvolvidas:
SUGESTÕES PARA DESENVOLVIMENTO DE ATIVIDADES NAS ESCOLAS PRIMÁRIAS RURAIS.
Ruth Ivoty T. da Silva.
No desenvolvimento dos programas ter-se-á em vista que a escola primária rural dever ser um centro de irradiação de cultura e trabalho para a população da zona a que serve, um centro orientador, por excelência, dos meios rurais. Para atingir êste objetivo, terá o educador de considerar os interêsses e as aspirações da população campesina, compreendê-la, sentir-lhe as dificuldades, sugerindo os meios de solucioná-las o que representará o necessário ajustamento do programa ao meio social, condição fundamental para que possa gozar de confiança e ascendência e exercer influência benéfica sôbre a coletividade (Silva, 1952/1953, p. 9).
Concepções sobre a educação dos sujeitos que viviam nas áreas rurais foram desenvolvidas por diferentes intelectuais brasileiros durante o período da Escola Nova, como por Sud Menucci, pedagogo que apresentou uma proposta sobre o ensino nas áreas rurais destacada em sua atuação no Estado de São Paulo, que compreendia ideias como a de uma formação específica para os professores com atuação rural; a realização de melhorias para a qualidade de vida dos habitantes que viviam nesses espaços; e a elaboração de currículo que incluísse os temas do cotidiano e interesse das comunidades rurais (Souza-Chaloba, 2023).
Nessa conjuntura, as concepções trabalhadas pelo ensino público no Estado se aproximavam das ideias que circulavam em outros territórios nacionais acerca do ensino nas localidades rurais. Os espaços dedicados ao assunto, nos impressos pedagógicos, demonstram que essa era uma preocupação vigente no Estado. Orientações similares às que foram divulgadas no Boletim também foram publicadas pela Revista do Ensino de março de 1954:
As necessidades peculiares ao ensino rural fizeram com que os currículos primários de adaptassem, na escola rural, com o entrosamento entre a parte pedagógica e os conhecimentos mais úteis à agricultura, pecuária e indústria doméstica, propiciando, assim, ao aluno do interior uma fase prática e renovadora, cujos resultados já são vislumbrados com a mudança de atividades bastante acentuadas, notadas nas regiões onde se situam e agem as unidades escolares rurais (Revista do Ensino, 1954b, p. 54).
Na perspectiva municipal, o jornal Despertar foi um material utilizado para reforçar aspectos considerados importantes para a educação nas comunidades rurais, ao mesmo tempo em que criava um meio de dialogar com as famílias dos alunos, visto que a proposta do Despertar era a de também circular fora do ambiente da escola, com orientações que transcendiam a formação escolar. Essa atenção do jornal Despertar aos conteúdos voltados para as escolas rurais se justifica pela essência do próprio impresso, que se denominava como “um órgão das escolas rurais de Caxias do Sul” (Dewes, 2019). Observa-se, por exemplo, orientações sobre a qualificação do professor rural em excertos como:
Não bastam as boas técnicas pedagógicas a quem está investido de responsabilidade educativas nas zonas rurais. Para ser de fato eficiente em sua missão, deve o professor rural conhecer os problemas específicos da região em que exerce o magistério, abrangendo agricultura, higiene, economia, alimentação, pequenas indústrias domésticas. Ensinar a alimentar-se corretamente, a cultivar uma horta, a criar galinhas e abelhas, a defender-se contra endemias e tantas outras noções indispensáveis à vida exige não só conteúdo pedagógico, mas igual dose de conhecimentos técnicos, tão necessários quanto aquele e de valor equivalente na habilitação profissional do mestre. isto porque, professor rural qualificado é aquele que tem domínio sôbre a natureza, os problemas da saúde e da produção, e tudo, enfim, quanto interesse à região. Conhecer a terra é, assim, condição precípua para que possa o professor colaborar, como lhe cabe, na melhoria das condições de vida na comunidade, tornado-a mais agradável sob os pontos de vista da sociabilidade, da economia, da estética, da saúde, da cultura geral (Professores rurais, 1951a, p. 2).
Além dessas temáticas, os impressos apresentaram semelhança no tratamento de outros conteúdos, que consideramos terem tido relevância para as práticas pedagógicas e para a escolarização docente. No entanto, para este estudo selecionamos os que entendemos apresentarem significativa semelhança e relevância para o recorte do estudo e para a aproximação com a publicação produzida em Caxias do Sul.
Palavras finais
A análise e o cotejo dos conteúdos dos três impressos pedagógicos contribuíram para o entendimento de que as orientações e diretrizes que circulavam por meio desses materiais apresentavam significativa similaridade. Evidenciou-se uma dada compatibilidade entre as proposições na publicação da instância estadual e o jornal produzido e coordenado pela gestão municipal de ensino. Isso corrobora para a ideia de que as orientações propagadas pela Secretaria da Educação do Estado, com destino ao corpo docente, adentravam na cidade de Caxias do Sul pelo trânsito e diálogo dos docentes/profissionais do CPOE junto à administração municipal caxiense, mas também pela presença dos impressos orientados pela Secretaria Estadual de Educação nesta região, possivelmente direcionados a uma pessoa ligada à gestão municipal de ensino.
Essa ideia é ratificada pela trajetória da Diretora da Instrução Pública, Ester Troian Benvenutti, durante o exercício de suas funções junto ao órgão de educação em Caxias do Sul, que incluiu um itinerário no magistério estadual, iniciado com a aprovação em concurso prestado no ano de 1942 para o cargo de orientadora do ensino do Estado do RS em Caxias do Sul. A professora ainda desempenhou, durante seu percurso no campo da educação, um importante trabalho como representante do Estado no Conselho Escolar Municipal e na coordenação da descentralização do ensino primário do Estado (Machado; Aguzzoli, 2005).
Essa relação próxima entre a gestão da educação estadual e municipal contribuiu para a ponderação de que havia uma conciliação entre as políticas educativas das duas instâncias, não somente para o cumprimento de exigências impostas por uma dada hierarquia, mas por uma crença semelhante nas ideias que eram trabalhadas e que confluíam para um trabalho colaborativo. O fato de que a sistematização do jornal Despertar tenha acontecido em um período posterior ao início das atividades dos impressos produzidos pelo órgão estadual leva-nos a acreditar que o periódico com circulação local tenha sido uma iniciativa inspirada nas outras publicações. Consideração fortalecida pela observação de textos reproduzidos da Revista do Ensino no jornal Despertar.
No que se refere aos conteúdos destacados para a análise, as orientações sobre as práticas pedagógicas trabalhavam temáticas que foram tratadas pelo movimento da Escola Nova, com referências a textos e bibliografias nacionais e internacionais, demonstrando que os discursos que circulavam o Estado eram coerentes e atualizados com o que se desenvolvia em outras regiões do país. A consultoria prestada por Lourenço Filho para a reorganização do ensino do Rio Grande do Sul, durante a gestão do secretário da Educação José Pereira Coelho de Souza (Peres, 2016), contribui para essa reflexão.
Sobre as temáticas que consideramos surgiram com ênfase nas publicações, a exemplo dos conteúdos sobre civilidade, considerou-se que as representações disseminadas pelos três impressos tratavam sobre condutas morais e comportamentais, sinalizando o que era reconhecido como inapropriado e, no caso de condutas tidas como compatíveis com o esperado, classificando-as como modelo para a constituição do “ideal de cidadão brasileiro”. Essas concepções ultrapassavam a dimensão educativa, adentrando em questões políticas que eram desenvolvidas pelo movimento nacionalista brasileiro. Nesta região, em particular, assumiam uma dupla função: a de civilizar uma parcela representativa da população que vivia no contexto das escolas rurais, isoladas e, portanto, com condutas distantes das desejadas; e a de dotar esses sujeitos, filhos de imigrantes, com os quesitos que identificavam o “bom cidadão brasileiro” e afastavam uma influência cultural estrangeira nociva para o fortalecimento dos ideais da nação brasileira.
Fica evidente, também, a percepção de como a educação rural era entendida e tratada, indicando uma preocupação em adequar uma proposta pedagógica moderna ao meio rural. Os três impressos trazem uma série de recomendações aos professores que lecionavam no contexto rural, com indicação de que o trabalho qualificado era necessário para oferecer um sopro de progresso em meio ao isolamento, um progresso pautado na realidade de vida das comunidades rurais, uma vez que prevalecia a concepção de que era “condição primacial para o avanço das massas de trabalhadores rurais, que a escola lhes estenda os benefícios da educação. Sem isso será difícil às novas gerações vencer o arremesso para diante e para o alto, como aspiram os dirigentes da cultura nacional” (Ochôa, 1939, p. 19).
Nesse sentido, a representação dos sujeitos rurais era associada a uma imagem de atraso, e a educação seria a resposta - uma nova perspectiva, mas uma educação que não só tratava da formação escolar, mas que preparava esses sujeitos, de maneira prática, para a diligência no trabalho realizado naqueles espaços, especialmente objetivando dar manutenção a esse trabalho e evitar o êxodo para as áreas urbanas, de forma particular dos mais jovens. Fato que é ratificado pela coluna do Despertar que tratava sobre o tema e por evidências como o trabalho realizado por gestor municipal da região, durante encontro entre os administrados municipais para tratar sobre esse assunto, e que apresenta entre as propostas a redução dos impostos sobre a terra e de outros encargos, a inserção de novas culturas e orientações que visavam aprimorar o trabalho, o que deveria começar pela educação: “[...] mister se torna difundir as linhas mestras dessa remodelação, a começar pelas crianças nas escolas primárias, preparando convenientemente o respetivo professorado e, até aos jovens das casernas, ministrando-lhes os conhecimentos e estudos adequados […]” (Dal Bó, 1940, p. 4).
Outra ponderação incide sobre as sugestões para o uso de instituições auxiliares da escola, para a instalação de espaços de suporte educativo e para a inserção de novos materiais para modernizar as práticas, recomendações publicadas nos impressos estaduais, que também emergem do periódico local. Destaca-se que a significativa circulação de 53 edições do jornal Despertar evidencia o interesse da gestão pública de ensino pelos novos meios e uma dada apropriação de sucesso desses materiais, pela frequência com que foi produzido. Ainda ressaltamos que o jornal foi um recurso utilizado para a educação no contexto das escolas rurais, fortalecendo a ideia de que esse uso tenha também sido motivado pela representação do moderno associada a essa iniciativa, uma vez que esse tipo de material circulava mais comumente nas áreas urbanas. Desse modo, acreditamos que tenha oferecido outras/diferentes imagens de um cotidiano que não era o vivenciado pelos habitantes das localidades rurais, mas que cooperava para a disseminação de uma ideia sobre as condutas esperadas.
Nesse contexto, compreendemos que as publicações eram produzidas com a finalidade de dar um suporte aos professores do Estado, mas também continham orientações destinadas à educação da população que vivia no entorno da escola, apresentando as concepções desenvolvidas pelo movimento escolanovista que tratavam sobre essa relação entre a escola e o meio social, como uma forma de contribuir para o avanço da educação brasileira. Conjuntura em que o professor, que exercia uma função representativa, particularmente nas áreas rurais, tinha na imprensa pedagógica o suporte para uma preparação e para uma melhor abordagem junto à comunidade.
Ainda ponderamos que os materiais da imprensa pedagógica utilizados como fontes para este estudo, pensados na perspectiva de uma ferramenta para reforçar discursos e representações entre os “personagens” da escola, são vestígios da cultura material escolar, e dialogam com as diferentes esferas da cultura escolar, visto que possuem aspectos de normatização e regulação, possuem conteúdos pedagógicos e sua própria dimensão material pode ser um elemento de investigação da História da Educação, porque, por meio deles, é possível ter acesso às dimensões da cultura escolar: política, científica e empírica (Escolano Benito, 2017).
Ao procurarmos relações entre os três impressos que circulavam no Estado do RS, tencionamos semelhanças e convergências entre os conteúdos desses materiais, que eram produzidos por órgãos relacionados ao governo, para a especialização de docentes do ensino primário. Percebemos relações entre os conteúdos dos Boletins do CPOE, da Revista do Ensino e do jornal Despertar, que tratavam de fortalecer os métodos e renovar as práticas. A representação de escola presente nos três periódicos demonstra um ideário do espaço escolar como um local para que os sujeitos desenvolvessem a civilidade e a sensibilidade, disciplinando o corpo e moldando o caráter dos alunos, no sentido de uma adaptação a uma nova realidade social.
Acreditamos que a apropriação desses meios de imprensa pelos órgãos responsáveis pelo ensino no Estado do Rio Grande do Sul não somente cumpria com a função de modernizar a escola, tanto pela circulação de conteúdos quanto pela representação do moderno associada à materialidade do impresso destinado à área da educação; mas também colaborava com as expectativas de promover uma dada ideologia vinculada às forças políticas que compartilhavam os novos ideais pedagógicos com a intenção de fortalecer a nação brasileira por meio da educação.










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