Introdução
Este artigo aborda os resultados de investigação sobre a Revista Escola Secundária como um artefato pedagógico fundamental para a compreensão dos processos de formação e orientação de professores do ensino secundário no Brasil, durante o período de 1957 a 1963. A escolha deste periódico como principal corpus documental justifica-se por sua importância como dispositivo implementado pela Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário (CADES), órgão que desempenhou um papel importante na tentativa de qualificar o corpo docente dessa etapa educacional em um momento de significativa expansão.
A perspectiva da cultura material impressa, especificamente de periódicos como a Revista Escola Secundária, oferece uma janela privilegiada para examinar as diretrizes pedagógicas, as discussões didáticas e as representações sobre o papel docente que circulavam no cotidiano escolar. Metodologicamente, esta pesquisa está ancorada na análise do conteúdo da própria Revista Escola Secundária. A imersão nas edições publicadas entre 1957 e 1963 permitiu identificar as orientações metodológicas presentes, com especial atenção à seção de Didática, e inferir sua influência na prática e na formação dos professores secundaristas. O diálogo com o referencial teórico, composto por autores como Frangella (2003), Miranda (2019), Pinto (2008) e Silva (1969), auxiliando na contextualização histórica e na interpretação dos achados.
A organização deste artigo prevê, em sua primeira parte, a contextualização da gênese e da atuação da CADES no cenário socioeconômico brasileiro, compreendendo sua estratégia de expansão do ensino secundário e o papel desempenhado na formação de seu corpo docente. A segunda parte aborda a análise da Revista Escola Secundária enquanto um veículo de formação e disseminação de saberes pedagógicos. Por fim, a terceira parte aprofunda a discussão sobre as orientações metodológicas presentes na seção de Didática da revista, buscando compreender suas implicações para a atividade docente da época.
1. Sobre a Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão Do Ensino Secundário (CADES)
A Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário (CADES) foi instituída no o governo Getúlio Vargas, por meio do Decreto nº 34.638, de 17 de novembro de 1953 (Brasil, 1953). O referido decreto estabeleceu os objetivos a serem desenvolvidos pelo órgão, abrangendo ações de apoio a estudantes, professores, técnicos e gestores nos âmbitos pedagógico, administrativo e financeiro.
Segundo Dallabrida (2018), transformações significativas no ensino secundário ocorreram a partir da década de 1950, impulsionadas por experiências pontuais e graduais, com a introdução de ensaios renovadores, notadamente inspirados em modelos pedagógicos norte-americanos e franceses. O autor salienta que, sob a influência de forças internacionais e da abertura democrática brasileira, o ensino secundário progressivamente integrou as prioridades do governo brasileiro, em particular do Ministério da Educação e Cultura (MEC) e de setores a ele vinculados, como o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) e a Diretoria do Ensino Secundário (DES), com o intuito de promover melhorias no sistema educacional desse nível.
Naquele contexto, a educação passou a ser concebida como um instrumento de modernização e transformação nacional. Essa perspectiva contribuiu para o aumento da demanda por instituições escolares, especialmente as de ensino secundário, em virtude da crescente urbanização e da consequente exigência de maior escolaridade para as diversas ocupações características dos centros urbanos. Conforme Pinto (2000, p. 2), naquele período:
o aumento da demanda de educação média, provocando altas taxas de crescimento de todos os ramos desse ensino. As [...] escolas passaram, então, a ser procuradas por todos aqueles que desejavam ascender socialmente, provocando o crescimento explosivo do ensino secundário e levando à improvisação de professores e, consequentemente, à queda da qualidade de ensino (Pinto, 2000, p. 2).
Na perspectiva da autora, a expansão do ensino secundário evidenciou a necessidade de ampliar o número de professores para esse nível, considerando que, predominantemente, profissionais liberais atuavam nesses estabelecimentos. Baraldi (2016) aponta que poucos docentes em exercício nas escolas secundárias brasileiras possuíam formação de nível superior, sendo estes oriundos de Faculdades de Filosofia, escolas politécnicas ou militares, ou de outras áreas de formação.
A CADES ganhou relevância em um momento de conjuntura política e econômica favorável, sob a liderança do presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961) e sua política desenvolvimentista2. Ela tinha como finalidade mitigar os efeitos da escassez de professores e elevar a qualidade da educação secundária, alinhando-a aos interesses e oportunidades dos estudantes e atendendo às necessidades dessa modalidade educacional, de modo a ampliar o acesso ao ensino secundário para um maior número de jovens brasileiros. Posteriormente, em 1956, foi instituída a Campanha Nacional de Material de Ensino (CNME) pelo Decreto nº 38.556, de 12 de janeiro de 1956. A CADES visava promover medidas que ampliassem as atividades relacionadas ao ensino secundário, em consonância com os preceitos desse nível de ensino, conforme detalhado em seu artigo 3º:
a) promover a realização de cursos e estágios de especialização e aperfeiçoamento para professôres, técnicos e administradores de estabelecimentos de ensino secundário;
b) conceder e incentivar a concessão de bôlsas de estudo a professôres secundários a fim de realizarem cursos ou estágios de especialização e aperfeiçoamento promovidos por outras entidades, no país ou no estrangeiro;
c) colaborar com os estabelecimentos de ensino secundário, em fase de implantação ou reorganização, proporcionando-lhes a assistência de técnicos remunerados pela Campanha;
d) promover estudos dos programas do curso secundário e dos métodos de ensino das várias disciplinas, a fim de melhor ajustar o ensino aos interêsses dos alunos e às condições e exigências do meio;
e) elaborar e promover e elaboração de material didático, especialmente áudio-visual, para as escolas secundárias;
f) estudar e adotar providências destinadas à melhoria e ao barateamento do livro didático;
g) organizar missões culturais, técnicas e pedagógicas, para dar assistência a estabelecimentos distantes dos grandes centros;
h) elaborar e aplicar provas objetivas para avaliação do rendimento escolar;
i) incentivar a criação e o desenvolvimento de serviços de orientação educacional nas escolas de ensino secundário;
j) organizar e administrar plano de concessão de bôlsas de estudo a alunos bem dotados e de poucos recursos;
k) cooperar com os estabelecimentos de ensino secundário no estudo de projetos de prédios, instalações, oficinas escolares e laboratórios adaptados às diversas regiões do país, bem como de novos tipos de mobiliário escolar;
l) realizar, diretamente e em cooperação com os órgãos técnicos federais, estaduais e municipais, levantamentos das necessidades e possibilidades das diversas regiões do país quanto à localização da escola secundária;
m) divulgar atos, experiências e iniciativas julgadas de interêsse ao ensino secundário, bem como promover o intercâmbio entre escolas e educadores nacionais e estrangeiros;
n) promover o esclarecimento da opinião pública, quanto às vantagens asseguradas pela boa educação secundária (Brasil, 1953).
Nos primeiros anos, a principal preocupação da CADES residia na qualificação dos professores secundaristas em exercício que não possuíam a habilitação formal. Nesse sentido, a CADES instituiu um curso preparatório intensivo para o exame de suficiência e, fundamentada no tripé Orientação Educacional, Produção Bibliográfica e Curso de Orientação, buscou aconselhar, orientar e capacitar esses professores para a obtenção do registro profissional.
A estruturação da CADES evoluiu em quatro fases distintas (Pinto, 2008): Anúncio e Implantação (1953-1956), marcada pela divulgação da campanha e regulamentação do exame de suficiência para atuação docente em áreas carentes, com cursos preparatórios focados tanto no exame quanto na prática pedagógica; consolidação e expansão (1956-1963) caracterizou-se pela ampliação da capacitação docente, da produção bibliográfica e da Orientação Educacional, destacando-se a criação da Revista Escola Secundária para fomentar uma nova mentalidade docente e a evolução dos cursos de orientação para professores em exercício; renovação administrativo-pedagógica (1963-1964), foi influenciado pela efervescência ideológica e pela aprovação da LDB (4.024/1961); declínio e desaparecimento (1964-1970) ocorreu sob o regime militar, com a manutenção apenas do Curso de Orientação para Exames de Suficiência e o gradual desaparecimento das demais ações. Em síntese, a CADES impulsionou a formação de professores e o crescimento do ensino secundário, tendo a Revista Escola Secundária um papel relevante na disseminação de conhecimentos pedagógicos.
2. A Revista Escola Secundária e sua contribuição para a formação de professores
Nesse contexto, convém ressaltar que as revistas pedagógicas possuíam uma trajetória no Brasil desde o final do século XIX, inicialmente sob a égide de iniciativas privadas. No alvorecer do século XX, surgiram periódicos com um enfoque pedagógico mais explícito, concebidos e articulados por professores com o intuito de divulgar seus trabalhos, aperfeiçoar suas práticas e promover a troca de experiências, visando a melhoria do ensino.
A Revista Escola Secundária emergiu como um instrumento de aprimoramento técnico da prática docente, com a finalidade primordial de orientar os professores nos âmbitos curricular, legal e didático. No que tange à Revista Escola Secundária, a análise de suas edições permite inferir sua relevância como instrumento para a formação continuada dos professores desse nível de ensino e para o desenvolvimento de sua prática pedagógica. Frangella (2003) aponta que uma parcela minoritária do corpo docente, apenas 16% em 1957, possuía licenciatura emitida pelas Faculdades de Filosofia, sendo a maioria constituída por autodidatas. Nesse sentido, a autora, ao discorrer sobre a Revista Escola Secundária, argumenta que,
o processo de construção da revista, estrutura-se como uma instância formadora de professores. Já que lhe cabia a divulgação de experiências e métodos que desenvolvessem o ensino secundário, a prática elaborada no Cap [Colégio de Aplicação da Faculdade Nacional de Filosofia no Rio de Janeiro] é eleita para tal. A revista estrutura-se então a partir da matriz curricular proposta para a formação de professores pela Faculdade Nacional de Filosofia, em seu Colégio de Aplicação (Frangella, 2003, p. 4).
A Revista Escola Secundária constituiu-se como um dispositivo de comunicação direcionado aos professores e demais agentes vinculados ao ensino secundário que demandavam qualificação profissional. O periódico foi concebido como um veículo de assessoria educacional, privilegiando temáticas diretamente relacionadas à prática docente, tais como didática, metodologia de ensino, planejamento, avaliação e relatos de experiências (Vilanova, 2018, p. 26).
O primeiro número da Revista foi publicado em junho de 1957, com periodicidade trimestral, e circulou até o ano de 1963, configurando-se como uma ferramenta de orientação para professores, gestores escolares e outros profissionais desse nível de ensino. É relevante destacar a diversidade de seções presentes na Revista Escola Secundária. A seção de Didática Geral abordava desde a unidade de ensino e suas tendências até estratégias de manejo comportamental em sala de aula, oferecendo subsídios para a elaboração de aulas mais engajadoras, com o intuito de despertar o interesse dos alunos por temas específicos das disciplinas e promover um processo de ensino-aprendizagem mais eficaz e motivador, além de fomentar estratégias de disciplina em sala de aula.
A revista também dedicava uma seção específica à orientação educacional, cujos artigos propunham a compreensão do aluno em suas dificuldades, valores e formas de aconselhamento, visando o sucesso da prática pedagógica.
Ademais, as suas edições, a revista abordava temas pertinentes às diversas disciplinas que compunham o currículo do ensino secundário: línguas, matemática, desenho, história, geografia, física, química, ciências naturais, filosofia, trabalhos manuais e economia doméstica. Os artigos publicados discorriam sobre técnicas e métodos de ensino, abordaram o uso adequado de materiais didáticos e apresentavam planejamentos para o desenvolvimento de conteúdos específicos e programas de disciplinas para algumas séries. Todas as edições continham, no mínimo, um artigo de Matemática e um de Desenho.
A Revista Escola Secundária contou com a colaboração de professores de diferentes áreas, conforme se depreende da análise dos artigos, nos quais era explicitado o nome do professor especialista responsável pelo conteúdo pedagógico, o que sugere o reconhecimento de sua expertise no campo educacional. A revista representava um suporte abrangente para o professor, contemplando o currículo do ensino secundário e oferecendo fundamentos para a organização pedagógica, considerando que:
a insuficiência do curso de formação de professores para embasar de conhecimentos o professor; a dificuldade do professor em frequentar cursos de especialização; o custo elevado dos livros, bem como a dificuldade de tradução de livros estrangeiros; a superação em curto prazo do livro didático pela descoberta de novas técnicas de ensino; a carência de ofertas de cursos de atualização para o professor. [...] seria [a revista técnico-pedagógica] um recurso viável e indispensável para a atualização e aprimoramento do professor [...] por apresentar grande variedade de assuntos em suas diversas seções; por apresentar as diretrizes que regem as mais modernas técnicas de ensino; por conter notícias e comentários sobre cursos de atualização; por traduzir e adaptar artigos estrangeiros de interesse; pelas sugestões de atividades práticas apresentadas de maneira clara e convincente; pela oferta de material didático em forma de cartazes e painéis, auxílio valioso e de grande utilidade; pelas ilustrações apresentadas que facilitam a leitura e compreensão dos conteúdos; pelo custo realmente acessível, dentro, portanto, das possibilidades econômicas do magistério; preenchendo as necessidades não só do professor formado, mas também do aluno de escola normal, que tem necessidade de material farto e variado para as suas pesquisas durante o curso (Miranda, 2019, p. 98).
Cada seção iniciava com um breve resumo do tema a ser abordado, configurando-se como “uma das principais estratégias de divulgação dos preceitos e concepções profissionais compartilhados pelos técnicos da CADES” (Xavier, 2008, p. 153-154).
A revista objetivava divulgar, para o magistério brasileiro de nível médio, experiências de educadores nacionais e estrangeiros, com o propósito de aperfeiçoar o trabalho docente e elevar a qualidade do ensino secundário.
Os artigos da Revista Escola Secundária buscavam articular a teoria e a prática como um elemento crucial para a formação do professor moderno. Havia a intenção de transformar a mentalidade docente, incentivando aulas mais dinâmicas e sinalizando a necessidade de evolução dos processos pedagógicos, de modo a estimular nos alunos uma aprendizagem significativa e alinhada à realidade da época.
Nessa perspectiva, a revista pode ser considerada uma ferramenta pedagógica utilizada pela CADES como forma de reformular a concepção do educador em seu papel humano e social inerente à ação educativa. Buscava-se superar os problemas do ensino secundário, e uma das estratégias centrais era o investimento na formação dos professores, o que parece constituir o objetivo primordial da revista.
A revista também promovia a reflexão sobre a relevância do papel do professor no contexto educacional, enfatizando a importância de avaliar não apenas os conteúdos transmitidos, mas também a linguagem utilizada em sala de aula, a postura e as atitudes, reconhecendo o impacto dessas ações no comportamento dos alunos e a influência do ensino nos condicionamentos operantes dos jovens.
Assim, a revista convocava o magistério secundário a reexaminar a situação da escola secundária brasileira, repensando seus problemas, buscando sugestões construtivas, promovendo a troca de ideias e explorando possíveis alternativas para a melhoria desse nível de ensino, com o objetivo de tornar as instituições educativas mais eficientes e alinhadas às suas novas responsabilidades sociais (Brasil, 1957).
Enfatiza-se que a Revista Escola Secundária representou uma das ações da CADES que reconfigurou a formação docente, ao veicular em suas edições artigos que estabeleciam uma rede de relações e múltiplos sentidos de circulação de ideias, exemplos e práticas, contribuindo para a produção e disseminação de conhecimentos educacionais alinhados à realidade da época, buscando transcender o caráter meramente instrutivo.
Nesse sentido, é pertinente ressaltar que, com a expansão do ensino secundário, a preocupação em criar um periódico coincidia com “[...] tentativas de organização da categoria do magistério que, naquele momento, buscava articular sua luta pela valorização da profissão, condições de trabalho, qualidade do ensino, reivindicações salariais e aperfeiçoamento do sistema” (Catani, 1996, p. 124-125).
O impresso pedagógico foi concebido para inspirar propósitos e ideais educativos que ganhassem visibilidade e ampliassem as possibilidades para novas perspectivas humanas dinamizadoras. Por ser elaborado por professores, a linguagem adotada era mais acessível ao professor-leitor, facilitando a compreensão dos discursos e o entendimento das questões educacionais abordadas.
Desse modo, a análise dos conteúdos veiculados pela revista “[...] permite apreender discursos que articulam práticas e teorias, que se situam no nível macro do sistema, mas também no plano micro da experiência concreta, que exprimem desejos de futuro ao mesmo tempo em que denunciam situações do presente” (Nóvoa, 1997, p. 11).
A Revista Escola Secundária tinha como objetivo abordar temáticas relacionadas à formação de professores secundaristas e, para tanto, suas edições eram organizadas em quatro partes: editoriais com notas introdutórias, conferências, palestras e artigos de reflexão sobre os problemas concernentes ao ensino secundário.
É possível constatar que, em relação às seções de Didática e Orientação Educacional, os artigos visavam levar o professor-leitor a compreender a importância de sua postura em sala de aula, bem como as estratégias de ensino. Na seção de Orientação Educacional, as reflexões em torno da faixa etária do ensino secundário, das normas, leis e ensinamentos voltados para essa modalidade educacional eram aprofundadas. A presença constante dessas duas seções em praticamente todas as edições da revista, com objetivos bem definidos, incentivava os professores a refletirem sobre suas práticas pedagógicas e a organização de seus planejamentos, de modo a atender aos propósitos do ensino secundário.
Os demais artigos presentes nas diferentes seções da revista ofereciam explicações sobre a aplicabilidade de técnicas e métodos de ensino, planejamento de conteúdo, materiais didáticos e avaliação da aprendizagem, todos direcionados às diversas áreas do currículo.
Para Dallabrida e Souza (2016), o periódico buscava divulgar pesquisas educacionais com o intuito de formar uma mentalidade docente mais problematizadora e crítica em relação às legislações vigentes, moldando uma nova identidade docente em sintonia com os ideais da Escola Nova, e a seção Educandários Nacionais frequentemente apresentava relatos de experiências renovadoras.
3. Orientações metodológicas da Seção de Didática da Revista Escola Secundária para a atividade docente
O mapeamento dos itinerários formativos da ação docente revela um complexo imbricamento de possibilidades, ações, expressões, condutas, normas e preceitos que estruturaram a atividade pedagógica. Nessa perspectiva analítica, a Revista Escola Secundária emerge como um artefato cultural significativo, veiculando discussões acerca de técnicas e métodos de ensino, elaboração de material didático, planejamento curricular específico, fundamentos da didática e estratégias de manejo da sala de aula, entre outros aspectos pertinentes à prática docente. Os sujeitos históricos inseridos na dinâmica do ensino secundário internalizavam e reproduziam os vetores políticos e socioeconômicos emanados pelo Estado, atuando de maneira ativa e, por vezes, tensionando as estruturas normativas que buscavam orientar suas práticas.
Em consonância com essa compreensão, a professora Dóris de Brito (1957), na seção de Didática da edição inaugural da revista, estabeleceu premissas basilares para a reflexão sobre o ato educativo:
a) a educação não pode e não deve ser considerada como sinônimo de instrução;
b) educar já não se limita à mera transmissão de conhecimentos estatísticos e sistematizados através de programas e de fórmulas rígidas;
c) que cultura vai perdendo, paulatinamente, o significado de aquisição do saber acumulado pelas gerações anteriores, para ser considerada “um rico manancial de informações e recursos para vencer na batalha hodierna”, tornando-se “um processo eminentemente fluido e efervescente, em constante revisão crítica de seus postulados, seus critérios metodológicos e suas conclusões”;
d) que aprender vai deixando de ser apenas acumular conhecimentos para se tornar o ponto de referência de toda a atividade escola (Brito, 1957, p.24-25).
Em outros termos, infere-se da análise da proposição da professora que a função precípua da educação reside na promoção do desenvolvimento integral do indivíduo, extrapolando a simples veiculação de conteúdos curriculares para fomentar uma postura crítica. Destarte, torna-se imperativo direcionar a atenção não apenas ao conteúdo ensinado, mas também aos processos pelos quais o discente apreende.
Ademais, uma preocupação recorrente na seção de Didática Geral tangia a organização do currículo em torno das disciplinas como campos de saber. Em diálogo com a perspectiva de Veiga-Neto (2008), identificam-se quatro elementos constitutivos dessa organização: o planejamento de objetivos, a seleção de conteúdos, a operacionalização desses conteúdos no contexto escolar e a avaliação. As disciplinas-saber, portanto, operam como formações institucionalizadas que estruturam o que Veiga-Neto denomina “esquemas de inteligibilidade”, possibilitando enquadramentos automáticos da percepção, observação e ação. A estruturação curricular centrada nas disciplinas-saber constituiria um referencial para a atuação docente em sala de aula e, por conseguinte, otimizaria o processo de aprendizagem discente.
A análise das edições da revista revela a presença constante da seção de Didática, com exceção da edição nº 13, e sua partilha com a seção de Orientação Educacional na última edição. As contribuições eram predominantemente de professores atuantes em renomadas instituições de ensino secundário, como o Colégio de Aplicação. Ao longo dos 19 números da revista, foram publicados 51 textos dedicados à Didática e suas especificidades no âmbito do ensino secundário, geralmente distribuídos em agrupamentos de dois a cinco artigos por seção, de autoria diversa, porém com temáticas interconectadas que circunscrevem a prática e a atuação docente. O objetivo primordial dessa seção era apresentar um leque de discussões sobre planejamento, métodos de ensino, objetivos educacionais, currículo, manejo de classe e estratégias visuais para o fomento da aprendizagem, entre outros tópicos relevantes.
Visando a uma apreensão mais detalhada das orientações metodológicas presentes na seção de Didática Geral, a análise subsequente recorre à representação visual.
O primeiro deles consta da Figura 1 e sintetiza as temáticas abordadas pelos autores nas edições iniciais da revista, facilitando a visualização da estrutura das discussões.

Fonte:Moreira, 2024.
Figura 1 Temáticas da Seção “Didática” da Revista Escola Secundária (1957-1958)
A partir da análise da figura 1, infere-se a coexistência de textos com temáticas cujas abordagens, embora distintas em certos aspectos, apresentam complementaridade. Na sua edição inaugural, a seção de Didática Geral dedicou seus artigos à sistematização da relevância da unidade "aula", articulando-a aos preceitos da Psicologia das Relações Humanas, campo que busca a compreensão do comportamento humano e de sua intrínseca relação com o ambiente. A análise do primeiro texto revela a explicitação de como as unidades-aula podem e devem ser estruturadas para otimizar a compreensão discente. Subsequentemente, o artigo seguinte discorre sobre a relevância do estudo dirigido e a imperatividade de os docentes instruírem seus alunos em estratégias de estudo eficazes, fornecendo-lhes direcionamento em relação ao conhecimento apresentado, a fim de promover a apreensão dos saberes trabalhados, conforme salientou a professora Guida Nedda Barata que,
haveria um maior contato entre os mestres e os alunos, os quais permaneceriam sob a orientação daqueles nas horas de estudo, que não seriam muitas, porém valeriam mais que um dia inteiro de leitura distraída, interrompida, aborrecida e, acima de tudo, incompreendida. Para coroar êsse esforço bem orientado, a satisfação das dificuldades superadas o, hábito profícuo do estudo diário, a horas certas e aceito de bom grado, porque se traduziria por mais tempo disponível em casa, E mesmo quando fôsse necessário completar o estudo feito na escola por algumas horas no lar, o aluno bem orientado sentiria o maior rendimento do seu trabalho e já não esmoreceria diante das dificuldades com que antes se debatia em vão, sendo obrigado a prestar contas na escola de coisas que não chegava a assimilar nem conseguia decifrar sozinho (Barata, 1957, p.17).
Concluindo a análise da seção de Didática da edição inaugural da Revista Escola Secundária, o texto intitulado "Manejo de Classe" aborda a condução da turma pelo professor, englobando desde a estruturação do planejamento até a manutenção da disciplina e da ordem no ambiente da sala de aula. O artigo enfatiza que um planejamento docente que propicie aulas engajadoras induz o aluno a uma imersão no conteúdo, minimizando a ocorrência de desordem. Em consonância com essa perspectiva, o professor James Braga Vieira da Fonseca (1957), em artigo publicado na referida revista, assinala que:
ensinar a ‘ver os fatos de dentro da situação’, não deve ser confundido com ‘ver para aquêles que estão dentro da situação’. Ao professor cabe preparar o espírito observador e crítico dos alunos; incutir-lhes a preocupação com pela procura do acertado; a perseverança, a honestidade de atitudes e de princípios e, nos fatos históricos, nos livros dos historiadores que cada um saiba encontrar a fundamentação para as suas conclusões. Não lhes traçamos rumos; abrimos-lhes horizontes. (Fonseca, 1957, p.84).
A partir da citação de Fonseca (1957), depreende-se a pertinência da inferência de que o professor se estabelece como um mediador que potencializa a ampliação dos horizontes intelectuais dos discentes, instigando a exploração das distintas modalidades de saber. Em consonância com essa perspectiva, a análise da segunda edição da Revista Escola Secundária, com particular atenção à seção dedicada à Didática, evidencia a presença de constructos textuais que corroboram a asserção de Fonseca (1957). Tais contribuições discursivas sustentam a premissa de que o corpo docente deve promover a experimentação no contexto das atividades de aprendizagem, fomentando a reflexão crítica acerca dos conhecimentos em estudo e, para tanto, demandando o desenvolvimento da competência de selecionar, com critério apurado, não somente conteúdos que mobilizem o engajamento dos alunos, mas também os recursos didáticos textuais apropriados e as estratégias pedagógicas eficazes para sua implementação no ambiente da sala de aula.
O último texto presente nesta seção, intitulada “Â Medida Objetiva do Aluno”, traz a relevância da avaliação para a verificação da aprendizagem do aluno, e os tipos de avaliações que podemos ter dentro do processo ensino-aprendizagem , “é a fase do ensino cujo objetivo é permitir ao professor verificar, conscienciosamente e em ocasião oportuna, a quantidade de conhecimentos novos adquiridos por seus alunos, bem como os graus de habilidade, as aptidões pessoais e as características de personalidade desses alunos” (Bezerra, 1957, p. 35).
Em consonância com essa perspectiva, a análise da terceira edição da Revista Escola Secundária revela a centralidade da motivação e da compreensão dos objetivos como elementos importantes para o sucesso das atividades de aprendizagem. Nesse contexto, a incorporação do cinema educativo e a diversificação de exercícios e tarefas são apresentadas como estratégias significativas para o ensino secundário, cabendo ao professor o papel de estimular a participação ativa dos alunos nessas atividades, alinhando-se à necessidade de tarefas que transcendam a mera rotina, incorporando aspectos que verdadeiramente mobilizem o interesse discente e demandem seu engajamento ativo (Nerici, 1957).
Podemos afirmar, a partir do apontamento do professor Imídeo Giuseppe Nerici (1957), que também contribuiu para a Revista Escola Secundária, que a tarefa é uma prática escolar importante para que o aluno possa fixar a aprendizagem, pois possui um caráter de solução de dificuldades, exigindo reflexão e integração dos conteúdos ensinados.
Sob essa ótica, emergia a necessidade de uma reavaliação das práticas docentes, mediante a adoção de uma didática inovadora, fundamentada em princípios pedagógicos que considerassem as especificidades da adolescência e se integrassem de forma profícua ao contexto do ensino secundário.
Destarte, na sua quarta edição, a Revista Escola Secundária dedicou a seção de Didática Geral a uma discussão pertinente às demandas daquele contexto histórico: a formação do moderno professor secundário. A própria abertura do artigo de Luiz Alves de Mattos (1958) configura-se como um apelo à responsabilidade inerente à docência, conforme explicita a epígrafe: "o magistério é uma profissão de altas e complexas responsabilidades para com o indivíduo e para com a sociedade" (Mattos, 1958, p. 24).
Ao longo dos artigos que compõem essa edição, os autores enfatizam a importância da figura do professor competente, sua missão e seu propósito no processo de ensino. Evidencia-se a obsolescência da prática educativa quando circunscrita à rotina, à repetição de conteúdos e tarefas e à manutenção de uma postura docente estática. Sublinha-se, portanto, a imperatividade do aperfeiçoamento contínuo e da atualização constante da prática docente, por meio de diferentes modalidades formativas, tais como congressos, reuniões e a leitura de periódicos e livros especializados, que possam corroborar para a efetividade do trabalho pedagógico. Na mesma edição do periódico, identificou-se um estudo dedicado a análise crítica das causas subjacentes ao insucesso no ensino secundário. Em consonância com essa linha de argumentação, a professora Irene Mello Carvalho, colaboradora da Revista Escola Secundária, asseverava que,
Na análise das falhas de nossa escola secundária, observamos que alguns de seus defeitos se relacionam com os meios utilizados para verificar a aprendizagem. Muitos professores, preocupados com provas e exames, ensinam mal, porque tentam ensinar o que não é 'ensinável'. Com os olhos voltados para o exame vestibular das escolas superiores, e desejando preparar os alunos para enfrenta-lo, procuram executar os programas em tal grau de profundidade que os tornam incompatíveis com o nível de maturidade dos jovens aos quais lecionam (Carvalho, 1958, p.33).
Em consonância com a crítica de Carvalho (1958) acerca das práticas pedagógicas distorcidas pela pressão seletiva dos exames vestibulares, Silva (1969) oferece uma perspectiva complementar ao direcionar o foco para a arquitetura curricular do ensino secundário. O autor enfatiza que a sobrecarga de conteúdos, intrínseca ao objetivo de “preparação de individualidades condutoras”, paradoxalmente redunda em uma diminuição da efetividade do processo formativo, dificultando a progressão acadêmica dos discentes.
Desse modo, as análises convergem ao identificar entraves sistêmicos e metodológicos que comprometem a qualidade e a eficácia do ensino secundário, sinalizando a premente necessidade de uma reavaliação das orientações pedagógicas e da própria concepção curricular dessa etapa educacional. Diante da emergente constatação da necessidade de uma reconfiguração das orientações e métodos pedagógicos direcionados ao ensino secundário, a quinta edição da seção de Didática Geral da Revista Escola Secundária demonstrava uma sintonia com essa premente demanda.
Nessa edição, a revista revisitava e aprofundava as discussões concernentes às orientações metodológicas relativas ao estudo dirigido, reconhecendo sua potencialidade para fomentar a autonomia discente. Adicionalmente, conferia-se renovada ênfase à relevância da incorporação de técnicas audiovisuais como instrumentos capazes de otimizar a prática pedagógica e de estimular o engajamento e o interesse intrínseco dos discentes no processo de apreensão do conhecimento.
Essa orientação metodológica, difundida pela Revista Escola Secundária, evidenciava uma convergência com as diretrizes estabelecidas pela CADES e, de forma mais ampla, com os preceitos fundamentais do movimento escolanovista, que preconizava a renovação das práticas educativas e a centralidade do aluno no processo de aprendizagem. Dando sequência à análise das edições da Revista Escola Secundária, apresentamos a Figura 2.

Fonte:Moreira, 2024.
Figura 2 Temáticas da Seção “Didática Geral” da Revista Escola Secundária (1958-1959)
A Revista Escola Secundária, em sua sexta edição e na seção de Didática Geral, intensifica a explicitação das diretrizes metodológicas concernentes à condução eficiente da atividade didática. Os artigos veiculados nesse conjunto editorial postulam a necessidade premente de o corpo docente estabelecer um ambiente de aprendizagem que se distinga pela disciplina e pela organização estruturada, operacionalizada mediante o planejamento rigoroso das tarefas e dos deveres escolares.
Argumenta-se que a efetiva internalização do conteúdo programático demanda a formulação de tarefas caracterizadas pela objetividade e pela congruência com o material examinado no âmbito da sala de aula, visando a estimular o interesse e o envolvimento ativo do discente no processo de apropriação do conhecimento. Em consonância com essa compreensão, a professora Irene Mello Carvalho aduz que:
O aluno interessado acompanha com inteligência e vivacidade o desenrolar da aula, e para isso pergunta, responde às perguntas do professor, toma notas, participa dos trabalhos propostos, comenta mesmo com colegas uma ou outra afirmação do mestre, fugindo conseqüentemente ao velho padrão, que equiparada a uma estátua (Carvalho, 1958, p.13).
Nessa linha de raciocínio, ao abordar a temática do ambiente disciplinar na sala de aula, torna-se imprescindível considerar uma gama de fatores contextuais, tais como a origem social dos discentes, a estrutura organizacional da instituição escolar e a configuração de sua infraestrutura, elementos que exercem influência direta sobre o processo de ensino-aprendizagem. Destarte, emerge a necessidade de conceber atividades pedagógicas que promovam a integração da turma no ambiente da sala de aula, fomentando a interação com o professor e, por conseguinte, estimulando uma participação mais efetiva, que se distancia do modelo da escola tradicional, predominantemente voltado para a memorização. Essa prática pedagógica coaduna-se com os princípios da pedagogia moderna, amplamente enfatizados na Revista Escola Secundária. Corroborando essa perspectiva, Carvalho (2000) assinala que:
A arte de ensinar, tal como a concebia essa pedagogia moderna, é, assim, pedagogia prática. Nessa pedagogia das faculdades da alma, ensinar é prática que se materializa em outras práticas; práticas nas quais a arte de aprender formaliza-se como exercício de competências bem determinadas e observáveis em usos escolarmente determinados. Como artes de saber-fazer-com, ensino e aprendizagem são práticas fortemente atreladas à materialidade dos objetos que lhes servem de suporte. As práticas que se formalizam nos usos desses materiais guardam forte relação com uma pedagogia em que tal arte é prescrita como boa imitação de um modelo. Os incontáveis roteiros de lições divulgados em revistas dirigidas a professores têm as marcas dessa concepção pedagógica. Também a minudência modelarmente prescritiva dos assuntos arrolados nos manuais de pedagogia que compendiam as artes de ensinar as mantém. No âmbito dessa pedagogia, ensinar a ensinar é fornecer esses modelos, seja na forma de roteiros de lições, seja na forma de práticas exemplares cuja visibilidade é assegurada por estratégias de formação docente [...] (Carvalho, 2000, p. 113, grifos da autora).
No contexto delineado pela perspectiva de Carvalho (2000), que caracteriza a pedagogia moderna como eminentemente prática e imbricada com a materialidade dos objetos de ensino e aprendizagem, a Revista Escola Secundária direciona seu enfoque para a relevância de fomentar a motivação intrínseca nos alunos e despertar o interesse pelo estudo. Essa diretriz se manifesta por meio da proposição de atividades de natureza teórico-prática, concebidas como estratégias para promover um engajamento mais ativo dos discentes no processo de construção do conhecimento.
A revista, portanto, busca operacionalizar os princípios da pedagogia moderna ao preconizar práticas pedagógicas que transcendam a mera transmissão passiva, alinhando-se à concepção de ensino como uma "arte de saber-fazer-com" e de aprendizagem como um "exercício de competências bem determinadas e observáveis.
Em prosseguimento à análise sequencial das edições do periódico, a sétima edição da seção de Didática Geral demarca uma significativa inflexão na orientação editorial da Revista Escola Secundária. A partir deste momento, observa-se uma reconfiguração das prioridades temáticas, transcendendo a mera exploração das técnicas e dos meios para a condução eficaz da aula. A revista passa a assumir, como eixo central de suas discussões na referida seção, a valorização do papel multifacetado do professor no complexo cenário do ensino secundário.
Nesse contexto de redefinição discursiva, a pertinente asserção proferida pelo professor Imideo Guiseppe Nerici (1958) acerca da figura docente adquire proeminente relevância, sinalizando a centralidade conferida ao agente pedagógico na nova diretriz editorial, conforme excerto do artigo do referido professor,
O professor, apesar de tôdas as novas concepções pedagógicas, continua sendo elemento indispensável e fundamental no processo educativo, no ato contínuo de substituição das gerações na liderança social, técnica e cultural. Dêle depende, quase sempre, a sucesso ou insucesso do aluno na escola. De nada adiantam instalações magníficas, edifícios modernos e abundância de material didático, se não houver, por de trás de tudo isso, o espírito do professor a animar, a dar vida e sentido ao que seria matéria morta, a fim de levar o educando a realizar-se. O professor é o dínamo que arrasta, entusiasma e contagia, na senda que leva à realização dos altos objetivos da Educação. Assim deveria ser (Nerice, 1958, p.8).
A análise dos constructos textuais presentes nessa seção permite inferir que a revista, para além de propor a formação continuada dos docentes, almejava também fomentar o seu engajamento profissional, explicitando a relevância intrínseca de seu trabalho para a sociedade e o impacto significativo de sua atuação didática na trajetória dos alunos. Cumpre ressaltar que os artigos veiculados igualmente enfatizavam a dinâmica da relação professor-aluno, a interação pedagógica e o estabelecimento do diálogo como elementos importantes para a consecução de uma prática educativa bem-sucedida. Nessa perspectiva, Miranda (2019) assinala que:
A revista aponta a necessidade de o professor conhecer seu aluno para saber como trabalhar com cada um, conhecê-lo em sua fase atual, em sua família, em sociedade, em sua vida escolar, pretendendo com isso que ele considerasse cada estudante como único, singular, percebendo que o adequado para um não o é necessariamente para todos. O aluno deveria deixar sua posição passiva para tornar-se ativo nas aulas, e as abordagens expositivas deveriam ser restritas ao necessário. Também são tecidas considerações acerca da escolha do livro didático, que deveria ser selecionado pelo professor levando-se em conta seus objetivos em suas aulas. Há um incentivo ao uso de provas objetivas, em detrimento das clássicas avaliações dissertativas, até então tidas como norma (Miranda, 2019, p.115).
As orientações veiculadas ao longo das edições da revista convergem para a concepção de um professor como figura central e proativa, condutor de um processo formativo que postula a formar a personalidade integral do adolescente como seu pressuposto fundamental, por intermédio de seus saberes pedagógicos. Nessa perspectiva, o professor capitão Paulo Cavalcanti C. Moura (1959, p. 10) define a educação como um ato de formação integral do ser humano, transcendendo a dicotomia entre espírito e matéria para alcançar uma "síntese vital, que é a unidade psicossomática".
A assertiva do professor capitão Paulo Cavalcanti C. Moura (1959) inscrita na Revista Escola Secundária revela uma concepção de educação que se coaduna com a emergente ênfase na formação holística do indivíduo, em contraposição a modelos puramente intelectuais ou instrucionistas. Ao definir a educação como um "ato de formação integral do ser humano", Moura sublinha a amplitude do processo educativo, que deve abranger todas as dimensões constitutivas do sujeito, extrapolando o domínio cognitivo para englobar aspectos afetivos, sociais e físicos. A proposição de "transcender a dicotomia entre espírito e matéria" denota uma crítica à tradicional separação filosófica que fragmenta a compreensão da natureza humana.
Para Moura (1959), uma educação verdadeiramente integral deve ir além dessa dualidade, reconhecendo a interdependência e a unidade intrínseca entre os aspectos mentais e corporais do ser. Sua visão da constituição humana aponta para a busca de uma "síntese vital, que é a unidade psicossomática". O termo "unidade psicossomática", amplamente utilizado nas ciências da saúde e do comportamento, enfatiza a inseparabilidade e a mútua influência entre a psique (mente, emoções, processos cognitivos) e o soma (corpo, organismo biológico).
Nessa perspectiva, a educação deve operar sob o pressuposto de que o desenvolvimento pleno do indivíduo requer a integração harmoniosa dessas dimensões, reconhecendo que processos mentais afetam o corpo e vice-versa. Em síntese, a definição de educação apresentada pelo autor reflete uma compreensão avançada para a época, alinhada com os princípios da Escola Nova e com uma visão mais complexa e integrada do desenvolvimento humano. A educação, sob essa ótica, não se limita à transmissão de saberes, mas se configura como um processo de formação que visa à totalidade do ser, promovendo a integração de suas dimensões espirituais e materiais em uma unidade funcional e dinâmica.
Enquanto espaço privilegiado de formação, a educação atribui significado à existência, construída mediante as práticas e experiências vivenciadas. Postula-se que todo educador deve assumir a função de liderança e de guia, orientando as ações que convergem para a consecução de um objetivo. A missão de educar transcende o ato de instruir, configurando-se como uma modalidade de orientação, haja vista que o processo educativo não se restringe à transmissão de conteúdos programáticos; a interação estabelecida entre professor e aluno propicia a emergência de saberes que extrapolam o currículo formal. Tais conceitos eram preconizados nos artigos da seção de Didática Geral, ao abordarem a postura docente. Dando prosseguimento à análise da seção de Didática Geral, apresenta-se o bloco temático disposto na Figura 3.

Fonte:Moreira, 2024.
Figura 3 Temáticas da Seção “Didática Geral” da Revista Escola Secundária (1959-1961)
Ao proceder à análise da décima primeira edição da Revista Escola Secundária, constata-se que a seção de Didática Geral é apresentada em uma posição posterior, precedida, nesta edição específica, por artigos que versam sobre a organização administrativa e pedagógica do Ensino Secundário, metas de aperfeiçoamento e planejamento direcionados a essa modalidade de ensino. No âmbito da seção de Didática desta edição, um dos temas centrais abordados concerne às estratégias para auxiliar o aluno no processo de estudo. A partir da análise do texto de Manoel Jairo Bezerra (1959), evidencia-se a importância do estudo dirigido e a relevância do papel docente no ensino e no acompanhamento dessas atividades de aprendizagem, conforme a perspectiva do autor:
Ensinar não significa transmitir conhecimentos programados. O professor não pode se colocar na posição camada de quem nada tem a ver com o estudo dos alunos. Não tem mais sentido essa frase ''a matéria eu ensino bem, porém, estudar é com o aluno''. Cabe ao professor não só ensinar bem sua matéria, mas também ensinar o aluno a estudar de modo certo e eficiente. Ninguém desconhece que um dos grandes males de nosso ensino, talvez o maior, é a falta de estudo. Sabemos que todos os procedimentos didáticos têm, no conjunto, o seu relativo valor e a sua função definida que os tornam indispensáveis à aprendizagem. Contudo, também sabemos que os alunos só aprendem realmente quando estudam com bom método, com esforço e com dedicação. Assim o estudo dirigido seria o meio mais indicado, pensamos nós, para assegurar o aluno o que lhe é indispensável e necessário: um bom método de estudo (Bezerra, 1959, p.33).
Evidencia-se a preocupação em reiterar a necessidade do estudo dirigido e a importância do planejamento docente para o aprimoramento da prática pedagógica e do desenvolvimento discente. A análise acurada de todas as edições da Revista Escola Secundária permitiu constatar que, a partir do décimo segundo número, a formatação dos títulos do impresso adquire um novo layout. Observou-se, outrossim, que a décima terceira edição não contempla a seção de Didática Geral, apresentando apenas os textos editoriais de abertura, seguidos imediatamente pela seção de Orientação Educacional. Contudo, após essa edição específica, todas as demais retomam a seção de Didática Geral, mantendo o mesmo enfoque nas orientações metodológicas direcionadas tanto à prática docente quanto à formação profissional.
A análise dos artigos das três últimas edições revela a manutenção do enfoque da seção na preparação contínua do docente para sua prática cotidiana, fundamentada nos estudos propostos e considerando a dinâmica da relação professor-aluno, as técnicas e metodologias pedagógicas sugeridas e a integração de recursos audiovisuais. Embora esses temas já tenham sido abordados em edições anteriores, a sua retomada parece visar ao reforço de questões consideradas centrais pela revista para a manutenção da qualidade do processo de ensino-aprendizagem. Dando prosseguimento à presente exposição, apresentamos a Figura 4 com as últimas edições da revista.

Fonte:Moreira, 2024.
Figura 4 Temáticas da Seção “Didática Geral” da Revista Escola Secundária (1961-1963)
Na décima oitava edição, convém mencionar a convergência temática entre as seções de Didática e Orientação Educacional, que se dedicaram à análise das teorias e leis da aprendizagem e suas implicações para a prática pedagógica. Essa seção compartilhada, distribuída entre as páginas 21 e 28, apresentava uma organização que contemplava: os caracteres gerais e específicos do processo de aprendizagem; a tipologia e as modalidades da aprendizagem; as principais teorias da aprendizagem (com ênfase no behaviorismo de Watson, na teoria da Gestalt - que investiga as sensações de espaço-forma e tempo-forma, tendo como expoentes Max Wertheimer, Wolfgang Köhler e Kurt Koffka - e na teoria genética de Skinner); as leis da aprendizagem (incluindo as formulações de Thorndike e Watson); e as possibilidades de aplicação desses constructos teóricos no contexto do ensino. Tal abordagem editorial manifesta a preocupação do periódico em promover a atualização do corpo docente no domínio das teorias da aprendizagem, reconhecendo o potencial dessas para a aquisição de conhecimentos, o desenvolvimento de atitudes e o aprimoramento de habilidades que otimizem a consecução dos objetivos educacionais.
Ademais, a análise das edições da Revista Escola Secundária revela a identificação de textos na seção de Didática Geral que apresentavam uma complementaridade discursiva ao longo do tempo, sinalizando aos leitores a viabilidade de operacionalizar as proposições teóricas veiculadas na prática docente.
No decurso da análise e do estudo das edições examinadas, tornou-se perceptível a confluência ideológica entre os princípios do movimento da Escola Nova e as diretrizes da CADES, ambas convergindo para a adoção de metodologias ativas, com o objetivo de promover um aprendizado autônomo e participativo, mediante a proposição de tarefas que estimulassem a construção do conhecimento pelo discente, concomitantemente à interação com o professor. Destarte, sublinha-se a relevância da circulação de ideias inovadoras, transversalmente presentes nas diversas seções da revista.
A Revista Escola Secundária, ao longo de suas publicações, empenhou esforços significativos na formação de um novo perfil de professor secundarista, caracterizado por uma postura pedagógica renovada tanto no domínio técnico quanto na adoção de metodologias diversificadas, visando ao aprimoramento dinâmico do "como ensinar" e estabelecendo uma articulação consistente entre a teoria e a práxis pedagógica. Em face do exposto, infere-se que o periódico buscou fomentar a construção de uma nova identidade docente, em consonância com as concepções dos responsáveis pela CADES, promovendo uma prática pedagógica sintonizada com as demandas da modernidade, marcada pela atividade e pelo dinamismo, e atribuindo um novo significado ao exercício do magistério. Nessa perspectiva, almejava-se que o professor dominasse as novas técnicas de ensino e possuísse um conhecimento aprofundado das teorias da aprendizagem, com o objetivo de implementá-las eficazmente no ambiente da sala de aula, preparando-se, dessa forma, para assumir, de maneira responsável, a orientação das atividades de ensino.
Considerações finais
A análise das ações da Campanha de Aperfeiçoamento e Difusão do Ensino Secundário (CADES) revela a centralidade da produção da Revista Escola Secundária como uma instância formativa que transcende a mera transmissão de conhecimentos técnicos necessários à atuação profissional. Ao invés de se limitar a um repositório de saberes pedagógicos, a revista emerge como um espaço de reflexão sobre a própria prática docente, moldando condutas, valores, normas e sentidos que subjazem o exercício do magistério. Nessa perspectiva, a revista institui uma identidade profissional específica para o professor secundarista, legitimando determinadas formas de atuação e, como a presente investigação demonstrou, alinhada às concepções escolanovistas defendidas pelos profissionais vinculados à CADES.
A presente pesquisa direcionou-se à compreensão da Revista Escola Secundária como um dispositivo pedagógico de relevância para a formação do professor secundarista no período de 1957 a 1963, com especial ênfase na influência dos artigos e textos veiculados nas seções dedicadas à Didática. Constatou-se que o impresso pedagógico, neste caso específico, constituiu um suporte significativo para o aperfeiçoamento das práticas docentes que buscavam a conformação de um professor moderno. Os responsáveis pela concepção e produção do periódico reconheceram seu potencial para a disseminação de novas práticas pedagógicas, consideradas modelares para o contexto da época. Dessa inferência, depreende-se que a revista não se restringiu à produção de conhecimento, mas atuou como um vetor de difusão de ideias que revelavam uma intencionalidade clara por parte de seus idealizadores.
A análise das seções de Didática presentes na Revista Escola Secundária evidencia uma consonância entre as orientações metodológicas propostas e a emergente visão de um novo professor secundarista. As discussões e sugestões veiculadas pela revista incentivavam uma revisão das práticas tradicionais, sinalizando que a adoção de novas abordagens pedagógicas conferiria um novo significado aos estudos do ensino secundário.
Consideramos então que a Revista Escola Secundária transcendeu a condição de mera ação pedagógica voltada à formação de professores. Ela se configurou como um marco significativo que possibilitou a construção de uma nova identidade para o professor secundarista, a partir das orientações e metodologias propostas em todas as edições de seus impressos. Ao promover a reflexão sobre a prática, disseminar novas abordagens e valorizar o papel do professor como agente ativo no processo de ensino-aprendizagem, a revista contribuiu de forma indelével para a reconfiguração do magistério secundário brasileiro em um período de importantes transformações educacionais.



