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Cadernos de História da Educação

versão On-line ISSN 1982-7806

Cad. Hist. Educ. vol.24  Uberlândia  2025  Epub 12-Jan-2026

https://doi.org/10.14393/che-v24-e2025-38 

RESENHAS

“A alegria da casa”: uma união entre o discurso médico e protestante no Segundo Império

"The Joy of the Home": a union between medical and protestant discourses in the Second Empire

"La alegría del hogar": una unión entre el discurso médico y protestante en el Segundo Imperio

Sthefani Bianck Teixeira Ortiz1 
http://orcid.org/0009-0001-8787-8304; lattes: 4819050334344651

Paula Cristina David Guimarães2 
http://orcid.org/0000-0003-4415-2332; lattes: 1800978861801281

Mônica de Ávila Todaro3 
http://orcid.org/0000-0001-7777-925X; lattes: 1425333434856014

1Universidade Federal de São João del-Rei (Brasil), sthefanibtortiz@gmail.com

2Universidade Federal de São João del-Rei (Brasil), pauladavid@ufsj.edu.br

3Universidade Federal de São João del-Rei (Brasil), mavilatodaro@ufsj.edu.br

OLIVEIRA, Iranilson Buriti de. “, A alegria da casa”:, higiene e história dos costumes no Segundo Império. São Paulo: e-Manuscrito Edições, 2022. p. 122


O mais recente livro de Iranilson Buriti, “A alegria da casa”: higiene e história dos costumes no Segundo Império, nos traz reflexões sobre a escrita de discursos moralizadores, doutrinadores, disciplinadores e higienizadores que circularam no segundo Império Brasileiro. Buriti, que é professor da Universidade Federal de Campina Grande e tem pesquisado e desenvolvido projetos na área de história e saberes médicos irá revisitar e analisar a obra “A Alegria da Casa” (edição de 1866), um pequeno livro-texto escrito por Sarah Kalley, uma missionária protestante inglesa.

Logo na introdução, ele nos revela sobre sua escolha em analisar a obra acima citada, ao confidenciar o seu desejo em estudar sobre o corpo feminino educado e proscrito pelo saber médico na metade do século XIX.O autor se depara com o pequeno livro escrito pela missionária Sarah Kalley, o “A Alegria da Casa”, que era voltado para o público feminino, mas especificamente para a mulher-mãe. Além disso, situa o leitor sobre quem era Sarah Kalley, uma missionária inglesa que chegou em missão protestante ao Brasil em 1855, juntamente com o seu esposo, Robert Kalley, que era pastor e médico. Uma das grandes questões que o autor nos faz pensar, e que veremos ao longo do livro, é a especificidade que diferencia os escritos de Sarah. De acordo com sua análise, o casal evangelizava através de outros discursos. Para além de um discurso religioso e puritano, o discurso médico e higienista se encontra presente na obra da missionária.

O livro resenhado é organizado em seis capítulos e se apresenta de forma bem interessante, pois utiliza a liberdade poética nos capítulos, que ele chama de “cômodos”: primeiro cômodo - A alegria da Casa Imperial; segundo cômodo - Curai enfermos, ressuscitai mortos; terceiro cômodo- Arquitetura e arquitetos familiares e por último o quarto capítulo que é intitulado por “este não é um cômodo”. Diante disso, podem surgir indagações por parte do leitor ao visualizar o sumário, mas que ao longo da leitura serão esclarecidas pelo autor, diante da análise que ele realiza da obra de Sarah Kalley.

No capítulo intitulado Primeiro Cômodo - A Alegria da Casa Imperial, há uma contextualização das mudanças e transformações que aconteceram no período do Segundo Império brasileiro (1840-1889). De acordo com o autor, foi um período decisivo para a configuração de novas territorialidades no Brasil. Era um momento que havia a emergência na criação de novas instituições sociais e políticas. E para que tais mudanças pudessem ser realizadas era urgente e necessário “afastar-se de Portugal e aproximar-se do mundo ilustrado e que caminhava a passos largos rumo à industrialização” (p. 18). Ele nos dá como exemplo, o Rio de Janeiro, que era a sede do poder Imperial e que passou por diversas transformações, com o objetivo de adquirir feições de uma cidade europeia. Também neste capítulo, é enfatizado que, no período abordado, houve um intenso tráfico de “boas maneiras” que aconteceu por meio de leitores, viajantes e comerciantes ingleses e franceses. Para além das mudanças na infraestrutura urbana, transporte, comunicação, economia e segurança acreditava-se que era necessário destruir os velhos hábitos e maneiras culturais que eram consideradas um impasse para o desenvolvimento almejado pelo Império.

Iranilson Buriti afirma que novos discursos e espaços foram configurados na cidade. Como forma de mostrar essas mudanças ao seu leitor, ele discorre e aponta sobre diversos aspectos dessas transformações. Por exemplo: na linguagem, na escrita, na arquitetura, na geografia, no cuidado com o corpo e nas questão higiênico-sanitária. Além disso, outro ponto ressaltado neste capítulo é a importância do discurso médico e dos processos de higienização para o desenvolvimento urbano no Segundo Império. De acordo com o autor, houve uma heroicização da figura do médico neste período; ele “torna-se, o engenheiro da saúde, o pedagogo das almas, o destruidor dos micróbios, dos vírus, das doenças e o responsável por restabelecer a cura na cidade e na família” (p. 23).

Ao trazer esse cenário de mudanças e transformações que aconteceram nesse período, o autor faz o movimento de aproximar o seu leitor do contexto que a missionária protestante, Sarah Kalley, encontrou em sua chegada ao Rio de Janeiro em 1855.

Já no capítulo segundo cômodo- Curai enfermos, ressuscitai mortos, é realizada uma análise sobre os escritos de Sarah. Para tanto, Buriti nos traz um breve panorama sobre a atuação da missionária protestante e nos relata quais estratégias ela utilizava para se inserir no cotidiano urbano carioca, juntamente com o seu esposo Robert Kalley, dentre elas como por exemplo a fundação de uma escola dominical. Ele enfatiza que Sarah e Robert eram movidos pelo desejo de evangelizar não apenas pela doutrina protestante, mas também por meio dos preceitos morais e burgueses. Também destaca que foi no Brasil que a missionária desenvolveu de forma mais acentuada o gosto pela música ao compor hinos protestantes, pela leitura e escrita e pela docência.

Sendo assim, a obra analisada, “A alegria da Casa”, teve sua primeira edição em 1866. De acordo com Buriti, o pequeno livro escrito por Sarah Kalley possuía um vocabulário simples e a autora utilizava de exemplos práticos e do cotidiano, característica que facilitava a comunicação com os seus leitores. Na obra, diversos temas eram abordados, como por exemplo: organização dos espaços da casa, os cuidados na alimentação, a higiene do corpo, os cuidados com o vestuário. Buriti frisa que o livro funcionou como um dispositivo pedagógico, pois era como um manual sobre conduta e “boas maneiras, assim como destaca que escritos como o de Sarah contribuíram para a circulação do pensamento higienista nessa época.

Ao longo deste capítulo, diversas questões de como certas práticas higienizadoras eram abordadas nos escritos kalleyanos são colocadas pelo autor “Era necessário educar o tato para não tocar coisas contaminadas; refinar o paladar para selecionar o alimento puro; aguçar o olfato para não ter contato com os cheiros podres, enfim, era urgente sanear as sensibilidades” (p. 43). Como exemplo, nos é dado como Sarah Kalley dava importância aos sentidos do corpo humano (olfato, paladar, visão e o tato) e em sua escrita trazia como cada um deles poderiam ser aliados para os cuidados com a higiene e saúde em questões diárias. Entre eles: diferenciar espaços sujos e limpos através do olfato; evitar o desperdício de alimentos e cuidados com os utensílios utilizados na preparação da comida através do paladar, assim como a falta de higiene percebida também pela visão e o tato. Para além de advertir sobre tais práticas, Sarah também trazia em sua obra recomendações sobre o hábito do banho e limpeza diária, o cuidado com as vestimentas e roupas íntimas e a higiene dos dentes e unhas (intitulado no texto como coisas miúdas) que impediriam que o corpo bem cuidado fosse uma via para penetração de doenças.

Vale ressaltar que, neste capítulo, o autor nos mostra alguns pontos sobre a visão que Sarah tinha e como se dava a sua atuação perante a sociedade, que iria diferenciar e particularizar a sua escrita das que eram produzidas na época. Ele ressalta que ela enxergava as coisas a partir da sua ótica de imigrante e protestante, porém diferente de muitos imigrantes ela não era preconceituosa com os brasileiros. Além disso, escritos dessa natureza geralmente eram produzidos e destinados para a família burguesa, porém, a escrita de Sarah Kalley tinha uma singularidade, pois se destinava também para a população pobre devido a sua atuação na Igreja Evangélica Fluminense que era composta por diversos níveis sociais.

No capítulo terceiro cômodo - Arquitetura e arquitetos familiares, são introduzidas discussões acerca de como Kalley prescrevia a organização da casa e dos sujeitos neste espaço, pela arquitetura e limpeza dos ambientes. Através de trechos de “A alegria da Casa”, o autor nos traz a apropriação de Sarah ao discurso higienista e médico, com relação aos cuidados do interior e exterior da casa, justificado pela influência de seu esposo que era médico. Além disso, mostra que seus escritos também estavam atrelados ao discurso religioso, através de metáforas. Isso é exemplificado por Buriti, quando ele nos traz a comparação que a missionária escreveu sobre as vidraças limpas como o Céu. Porém, o autor aponta que é visível que Sarah Kalley, como escritora protestante, adotava em seus escritos um modelo de prescrição religiosa que é revestido por um vocabulário científico, sendo este mais aceito do que o discurso protestante pela sociedade da época.

No capítulo Este não é um cômodo - educação e controle médico, vemos o movimento em relação ao livro “A alegria da Casa” ser adotado nas escolas públicas do Rio de Janeiro, em 1880, em que os ensinamentos de Sarah ultrapassaram a esfera familiar e individual, e passaram a estar presentes em outros ambientes, ensinando as crianças e os professores regras de civilidade e bom comportamento.

Por fim, o livro “A alegria da casa”: higiene e história dos costumes no Segundo Império é um convite aos leitores que desejam uma visita por novos horizontes e paisagens do passado como o autor nos convida em sua introdução. Ao analisar a obra A alegria do Casa, Iranilson Buriti nos proporciona visualizar de forma fascinante o contexto histórico e as mudanças sociais e estruturais influenciadas pela força do discurso médico e higienista no Segundo Império e nos apresenta a potência dos manuais de boas maneiras para essa época. Ao escolher a obra de Sarah Kalley, que ultrapassou a esfera familiar e se tornou presente nos espaços escolares, ele nos instiga a refletir sobre o diferencial em relação a escrita dessa missionária protestante inglesa, que uniu o discurso médico e protestante com o intuito de instruir condutas e boas maneiras no cotidiano feminino.

Referência

BURITI, Iranilson. “A alegria da casa”: higiene e história dos costumes no segundo Império. São Paulo: e-Manuscrito Edições, 2022. 122p. [ Links ]

Recebido: 19 de Maio de 2025; Aceito: 19 de Junho de 2025

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