As pesquisas em história da educação têm apresentado significativos exemplos, sobretudo nas últimas décadas, da diversificação de temas, fontes e métodos. Ao mesmo tempo, por se tratar de uma prática social que não se reduz à escola ou à escolarização, os diferentes fenômenos educativos não escolares ou vinculados a uma educação não formal também passaram a receber a atenção de pesquisadores e pesquisadoras. Dessa forma, entendemos a história da educação como um campo de investigação abrangente, influenciado por diferentes abordagens e diálogos capazes de produzir explicações sobre as variadas práticas sociais que (trans)formam sujeitos, coletivos e instituições. Nessa perspectiva, o dossiê procurou reunir artigos resultantes de pesquisa e/ou reflexão teórica a respeito de temas, fontes e memórias de práticas sociais escolares e não escolares. As contribuições apresentam diversificada gama de preocupações e problemáticas vinculadas às dimensões culturais, políticas e sociais em âmbito nacional e internacional. Também consideramos importante, em tempos de incertezas e de meta-narrativas revisionistas, apresentar pesquisas que considerem discussões relativas ao campo da memória social, das disputas de memórias, das memórias e das culturas escolares, da história da educação de/em movimentos políticos e sociais, das relações de poder e do cotidiano na história das práticas sociais educacionais. Os artigos reunidos nesse dossiê contemplam essas preocupações buscando contribuir para seu aprofundamento analítico.
O primeiro texto, Fornecimento de materiais escolares às escolas públicas do Rio Grande do Sul (1882-1913), de Eliane Peres e Caroline Braga Michel, insere-se no campo da cultura material escolar e analisa o fornecimento de materiais escolares às escolas públicas gaúchas entre o final do século XIX e início do XX. A investigação identifica os principais fornecedores, as condições dos contratos e a variedade de materiais comprados às escolas no período. No artigo seguinte, Assistência à infância: história de uma educação moralizante e higienista, Giane Lucélia de Oliveira Costa e Maria Irinilda da Silva Bezerra abordam a assistência à infância no Brasil. Destacam práticas moralizantes embasadas em preceitos médicos e higienistas.
A seguir, Michelle Castro Lima, António Gomes Ferreira e Marco Antônio Franco do Amaral, em Memória e identidade docente: o professor primário em Portugal (1964-1974), defendem que a memória, além de contribuir para a reconstituição da experiência dos professores em sua vida profissional, constitui-se como um importante elemento de formação docente. O texto apresenta o estudo de memórias de professores primários de Coimbra/PT, visando a compreender a constituição de sua identidade no período de 1964 a 1974.
No artigo Gestos de guardar de uma professora polivalente: memórias de aulas de História (Colégio de Aplicação/UFRGS - 1978-1986), Doris Bittencourt Almeida analisa cadernos de planejamento de uma professora, produzidos entre 1978 e 1986. Esses artefatos são entendidos como testemunhos da cultura escolar, na perspectiva da singularidade das escritas ordinárias que conservam sua potência como documentos inscritos nos campos da História da Educação em suas interfaces com a História da Cultura Escrita.
Na sequência, Mariana Parise Brandalise Dalsotto e Terciane Ângela Luchese, em Círculos de cultura: história de uma prática de educação popular (déc. de 1950 - 1960) abordam a proposta de educação popular organizada por Paulo Freire, no Brasil do início da década de 1960, discutindo sua historicidade e sua metodologia. O próximo artigo, A produção cultural e literária no movimento estudantil paranaense na década de 1960, de Ana Karine Braggio e Alexandre Felipe Fiuza, analisa a produção cultural realizada pelo movimento estudantil paranaense. Com base no exame da bibliografia sobre o tema e do estudo de documentação produzida pelas Delegacias ou Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), identificam a produção literária dos estudantes contextualizando-a em relação aos principais objetivos e bandeiras do movimento estudantil.
O artigo seguinte, escrito por Eduardo Cristiano Hass da Silva, Ariane dos Reis Duarte e Luciane Sgarbi Santos Grazziotin, intitula-se Um ensaio biográfico: memórias do professor Sven Robert Schulze. Nele são analisadas nuances da vida do indivíduo que esteve à frente da fundação, da gestão e da docência da Escola Técnica de Comércio (ETC), do Colégio Farroupilha de Porto Alegre/RS, no período de 1950 a 1983.
Ainda no âmbito biográfico, o artigo Pedagogia da cura: formação e práticas cotidianas de dona Dionéia, de Marcio Barradas Sousa e Jane Elisa Otomar Buecke, analisa a formação de Odinéia dos Santos Barbosa como educadora e curadora evangélica da Comunidade quilombola de Abacatal/PA. O texto parte da noção de pedagogia do cotidiano e analisa as práticas educativas oriundas dos saberes da experiência que perpassam a trajetória de vida estudada.
Em “Todo desconstruidinho”: jovens líderes do movimento estudantil ocupa tudo - RS, Chantal Medaets, Nadège Mézié e Isabel Cristina de Moura Carvalho, apresentam narrativas e memórias de líderes do movimento de ocupação das escolas ocorrido no Rio Grande do Sul, em 2016. A análise discute as aprendizagens ligadas à prática militante e a importância da presença feminina e feminista neste movimento social. A relação das fontes com a antropologia e a pesquisa etnográfica trazem importante contribuição para a produção de uma história da educação do tempo presente. Fechando o dossiê, o ensaio Marcas [brancas] do escravismo nas políticas públicas de educação no Brasil contemporâneo, de Daniel Dall'Igna Ecker, aborda a construção do direito à educação no país, explicitando os efeitos da influência da cor/raça branca na formulação das políticas educacionais e aponta alguns dos possíveis desdobramentos dessa branquitude nas formas de ingresso à educação enquanto direito e como via de acesso ao poder.
Além dos artigos, o dossiê apresenta uma entrevista com a professora Maria Helena Camara Bastos. Licenciada em História, mestre e doutora em Educação e ex-professora do Colégio de Aplicação, da Faculdade de Educação e do Programa de Pós-graduação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, a entrevistada é uma referência no campo da história da educação. Além da UFRGS, atuou na Universidade de Passo Fundo, na Universidade Luterana do Brasil, no Institut National de Recherche Pedagogique/França, na Università di Macerata/Itália e na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, onde trabalhou nos últimos 17 anos. Além disso, Bastos foi coordenadora do GT História da Educação da ANPEd (2013-2015), é editora da revista História da Educação, da Associação Sul-Rio-Grandense de Pesquisadores em História da Educação (ASPHE) e pesquisadora com bolsa de produtividade em pesquisa do CNPq. Em seu legado à história da educação, destacam-se temas e objetos de pesquisa relativos à cultura escolar, impressos, imprensa periódica, imprensa de educação e ensino.
Além da contribuição ao conhecimento no campo específico da História da Educação, desejamos que as discussões apresentadas nesse dossiê possam participar do esforço acadêmico nacional em sua demanda pelo respeito e pela manutenção do trabalho científico desenvolvido por pesquisadoras e pesquisadores em diferentes níveis de formação. Nesse grave momento de ataque à intelectualidade brasileira, pretendemos reafirmar a importância da produção acadêmica nacional, incentivando sua divulgação como fator fundamental à democracia e ao desenvolvimento da ciência em nosso país.
Agradecemos à Comissão Editorial da Revista Educação e Ação pela acolhida ao dossiê, às autoras e aos autores que nele aceitaram compartilhar seus conhecimentos e aos avaliadores e avaliadoras ad hoc que embasaram as decisões editoriais e ajudaram a qualificar os textos apresentados.
Nossos votos de uma proveitosa leitura!













