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Reflexão e Ação

versão On-line ISSN 1982-9949

Rev. Reflex vol.27 no.3 Santa Cruz do Sul set./dez 2019  Epub 30-Set-2025

https://doi.org/10.17058/rea.v27i3.11313 

Artigos do Fluxo

A fenomenologia existencial: um método de análise, uma epistemologia das possibilidades

Existential phenomenology: a method of analysis, an epistemology of the possibilities

La fenomenología existencial: un método de análisis, una epistemología de las possibilidades

Caroline Lisian Gasparoni1 

Luciane Rocha Ferreira Pielke2 

Luiz Augusto Passos3 

1 Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS - São Leopoldo - Rio Grande do Sul - Brasil

2 Universidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS - São Leopoldo - Rio Grande do Sul - Brasil

3 Universidade Federal do Mato Grosso - UFMT - Cuiaba - Mato Grosso - Brasil


RESUMO

Este ensaio trata da Fenomenologia enquanto abordagem metodológica que articula o engajamento entre existência e prática pesquisante. A discussão nasce do diálogo entre duas experiências: uma Dissertação de Mestrado e uma Tese de Doutorado em Educação[1]. A Fenomenologia em Merleau-Ponty exige uma constante postura hermenêutica, respeitando a constituição do método em constatação, análise-interpretação e proposições. Considera-se que a dialética existencial merleaupontyana se radicaliza nas (inter) relações que estabelece, na percepção da realidade polissêmica que assume, sem receitas, sem sínteses; a intencionalidade encarnada nas totalidades; uma epistemologia das possibilidades.

Palavras-chave: Fenomenologia existencial; Pesquisa (Des) Colonial; Metodologia fenomenológica.

ABSTRACT

This essay deals with Phenomenology as a methodological approach that articulates the engagement between existence and research practice. The discussion arises from the dialogue between two experiences: a Master's Dissertation and a Doctoral Thesis in Education [1]. Merleau-Ponty's Phenomenology requires a constant hermeneutic stance, respecting the constitution of the method in observation, analysis-interpretation and propositions. The merleaupontyana existential dialectic is considered radicalized in the (inter) relationships it establishes, in the perception of the polysemic reality that it assumes, without prescriptions, without syntheses; intentionality embodied in totalities; an epistemology of possibilities.

Keywords: Existential Phenomenology; Research (Des) Colonial; Phenomenological methodology.

RESUMEN

Este ensayo aborda la fenomenología como un enfoque metodológico que articula el compromiso entre la existencia y la práctica de la investigación. La discusión surge del diálogo entre dos experiencias: una disertación de maestría y una tesis doctoral en educación [1]. La Fenomenología de Merleau-Ponty requiere una postura hermenéutica constante, respetando la constitución del método en observación, análisis-interpretación y proposiciones. La dialéctica existencial merleaupontyana se considera radicalizada en las (inter) relaciones que establece, en la percepción de la realidad polisémica que asume, sin prescripciones, sin síntesis; intencionalidad encarnada en totalidades; Una epistemología de posibilidades.

Palabras clave: Fenomenología existencial; Búsqueda (Des) Colonial; Metodología fenomenológica.

INTRODUÇÃO

É importante salientar, que a Fenomenologia é compreendida, neste artigo, como uma filosofia encarnada na existência nua e crua: em suas diversas interconexões e formas de expressão. Considera-se, assim, a polissemia de intenções, (in) verdades, (in) certezas - contradições, limites e possibilidades - que disputam o conceito e a prática de mundo e tudo que lhe implica. O “pai” da fenomenologia, Edmund Husserl (1859-19384), a concebeu como alternativa de superação aos postulados do Psicologismo, predominante em seu tempo (ZILLES, 2007).

A Fenomenologia Transcendental de Husserl sofreu influências e transformações ao longo dos anos, que também teve contribuições de Paul Ricouer, Heidegger, Sartre e Merleau-Ponty (REZENDE, 1990). Estes autores contestaram o idealismo husserliano e trouxeram a base do conhecimento para o terreno da existência, não mais para o da consciência pura (GIOVEDI, 2006, p. 53). No Brasil, além de Paulo Freire, há também pesquisadores como Antônio Muniz Rezende (1990); Fabio Di Clemente (2011) e Luiz Augusto Passos (2014) que, provocados pela lente da Fenomenologia, a atualizam a partir do contexto brasileiro e latino-americano.

Para além de uma corrente filosófica, a Fenomenologia também é considerada um método de análise. Sobre esse aspecto, Rezende (1990, p. 13-14) diz que: “[...] a fenomenologia pretende ser um método adequado ao estudo do fenômeno, entendido da maneira como ela o compreende e não de outra. Isto quer dizer que ela é ao mesmo tempo método e tema”. Esta perspectiva exige, portanto, uma dialogicidade constante entre método, metodologias, pesquisadoras e pesquisadores, as “gentes” e as realidades. Pois estes estão constantemente em situação de reelaboração; de forma coletiva e participativa, entre limites e possibilidades.

A Fenomenologia possui como horizonte, enquanto atitude filosófica, método de análise ou metodologia de ação, que visam problematizar e, ao mesmo tempo, possibilitar (des) encontros dialógicos epistemológicos, entre sentidos e significados, que os fenômenos podem acolher/representar, numa correlação entre perspectivas distintas e até contraditórias. Este movimentovaloriza pontos de vista diversos sobre um mesmo fenômeno de modo complementar, a partir de uma abordagem, que coloca no circuito complexo da construção social da realidade e em um tempo-espaço localizado na existência; perspectivas, tempos e modos de aprender e ensinar que nem sempre foram considerados pelos modos eurocêntricos.

Deste modo, “a essência da percepção, a essência da consciência, por exemplo [...] é também uma filosofia que substitui as essências na existência e não pensa que se pode compreender o homem e o mundo de outra forma senão a partir de sua ’facticidade’” (MERLEAU-PONTY, 1971, p. 05), ou seja, a construção metodológica se dá pela mediação de uma construção fenomenológica comprometida, sobretudo, com a corporeidade de uma filosofia existencial (MERLEAU-PONTY, 1971).

A contribuição da Fenomenologia, enquanto método de análise compreensivo-interpretativa, parte da realidade como ela se manifesta. Além disso, não possui pretensões ‘explicativas’, pois não crê que elas sejam inteiramente possíveis, nem permanece na mera descrição exterior, visto que, a vida flui e se expressa como interioridade-exterior e exterioridade-interior, movimento tensivo, único e inseparável:

A fenomenologia de Maurice Merleau-Ponty nunca será uma filosofia idealista, em seus pressupostos teóricos. Ela bebe, sobretudo, no último Husserl, e encerra toda a possibilidade de ser positivista! Contudo, se houvesse um princípio que identificasse o ato mesmo de conhecimento, ela seria materialista em suas raízes sensistas e da corporalidade. Mas, - e há sempre um mas -, na fenomenologia, há de se ter todo o cuidado de não se poder, jamais, separar ou isolar uma interioridade imaterial arraigada no coração de toda a matéria (PASSOS, 2014, p. 42).

Desse modo, não existe definitivamente aspectos que permanecem dentro ou fora do ser, do contexto, das relações: o que está dentro está fora e o que está fora está dentro, superando a longitude do objeto sociológico que não nos contamina. Ao reconher sua complexidade e ambiguidade, encaramos a Fenomenologia como projeto; uma teoria em franca (re) construção dialética com os tempos e lugares enredados nos modos de ser gente e viver o mundo: nele e com ele. Esse é um dos desafios de tecer fenomenologicamente o conhecer e o ser.

É uma lente, um espelho, em constante diálogo com os mundos conceituais e empíricos dos quais o pesquisador está contaminado; é o vir-a-ser - não linear, reversível - que caracteriza o método fenomenológico, pois este persegue o movimento dinâmico e complexo que o ser humano faz fazendo- se a si e a sua realidade de forma inextricável. É esta a centralidade de nosso tema: compartilhar um olhar sobre a teoria metodológica existencial, não como modelo, mas como reflexão para repensar nossas (in) certezas e as pretensas soberanias paradigmáticas que nos alijam da encarnação por moldes eurocêntricos.

MÉTODO FENOMENOLÓGICO

Edmundo Husserl, filósofo que teve como cenário de vida e obra a Alemanha do século XIX, gestou a Fenomenologia. Husserl estabeleceu, assim, como premissa básica e fundante do método fenomenológico o “avançar para as próprias coisas” (GIL, 2008, p.14). Entendendo-se as “coisas”, como os fenômenos que se apresentavam a si mesmos, reiteradamente, à subjetividade e à consciência humana de forma permanente através da percepção. Não como quem as capta fora de si, mas compreendendo o estofo de mundo e o estofo das pessoas como sendo um só e o mesmo, em movimento.

Merleau-Ponty, filósofo francês, foi seguidor das ideias de Husserl e no século XX, após a Segunda Guerra Mundial, produziu obras filosóficas de maneira intensiva acerca da Fenomenologia.Esse diálogo pretendia expor o contraforte da filosofia moderna, privilegiando o que aquela filosofia, ao apresentar afirmativamente não reconhecia e não negava; ocultando dimensões da relatividade, das contradições, de verbalismo lógico e de positivismo acerca dos objetos, excluindo, assim, imaginário, arte, desconexões, espaços virtuais, que apareciam como dimensões ricas de criação e recriação constante acerca do mundo. Incluiu ainda o diálogo com Einstein, com Bohr, com Prigogine, sem ocultar dimensões dinâmicas de um universo inquieto.

Entendia a necessidade de que se falasse sobre o mundo levando em consideração os avanços da relatividade, da quântica, e da neurociência. É a partir da perspectiva de Merleau-Ponty que propomos, neste artigo, a Fenomenologia enquanto método de análise compreensiva que intenta conciliar dialeticamente a dimensão analítica por partes. Ao final, firmando uma compreensão que restabeleça não apenas certa somatória das partes analisadas, mas submetendo-as ainda a um diálogo com todo o sistema de referência onde este objeto se situe. A noção de totalidade nunca se compreenderá, senão a partir também de sua presença em contexto que lhe confere uma relação inclusiva com o entorno. Há uma multireferencialidade de espaço e tempo que o significam não por si mesmo, isolado, mas lhe conferem uma identidade-na-relação com aquele contexto.

É preciso entender a importância da busca deste filósofo por caminhos que evitem o Idealismo ou o Empirismo científico e filosófico, digamos - isoladamente -, mas identificar o que cada um destes modelos teóricos apreende também como verdade daquele objeto, somando-as àquilo que elas inviabilizam. Ademais não se pode compreender Merleau-Ponty sem realçar as contradições que nós próprios vivemos.

De certa forma, cada abordagem revela aspectos relevantes acerca da realidade, apesar de unilaterais e, por isso, insuficientes em si mesmos. A fenomenologia merleaupontyana propõe ampliar dimensões das tessituras de fios que dialogam com tais bases filosóficas, que mostram um lado e não acolhem o contraponto invisível, do anverso. Isso foi considerado, por Merleau-Ponty, como dimensão visível, que precisaria juntar-se à invisibilidade que os próprios métodos, inspirados nessas correntes filosóficas, ilhavam e ignoravam.

Destarte, Merleau-Ponty defendeu tanto um limite para o conhecimento humano - não acreditava que o pensamento poderia dominar o ser sendo - quanto a impossibilidade da separação entre o mundo pesquisado e o pesquisador, ou entre teoria-prática. Neste sentido, acreditava impossível o conhecimento das essências, como essenciais, sem nós. Para a fenomenologia existencial nós, seres humanos, não somos objetos, coisas, nem apenas sujeitos, consciências para si mesmos. Somos sensíveis e “sentientes”, reconhece, portanto, que:

O mundo não é um objeto no qual possuo em meu íntimo a lei de constituição, ele é o meio natural e o campo de todos os meus pensamentos e de todas as minhas percepções explícitas [...] o homem está no mundo, é no mundo que ele se conhece. Quando volto a mim a partir do dogmatismo do senso comum ou do dogmatismo da ciência, encontro não um foco de verdade intrínseca, mas um sujeito voltado para o mundo. (MERLEAU-PONTY, 1971, p. 08-09).

Somos, neste caso, seres históricos que, participando da constituição de nosso ser e do mundo, o qual nos (des) faz continuamente, (re) construímos a história e a realidade o tempo todo, enquanto sujeitos tocados por nossa própria ação. Ao tocar-nos confundimo-nos com aquilo que tocamos. Ao tocar, por exemplo, minha mão na outra mão, quem é que toca? Quem é que é tocado? A visão interpretativa de um fenômeno não se esgota em modelos simplificadores como se pudéssemos nos livrar das aporias que a linguagem, mas também a experiência sensível gera em nós.

Deste modo, não somos constituídos somente de uma consciência, nem estamos encerrados em nós mesmos. Estamos rigorosamente entrelaçados com o mundo e, é esta dimensão cósmica, material; em nosso corpo próprio, tangível, que mantém uma inerência não tangível que é parte de si própria. No sentido de uma só energia que se funde (quiasma) em uma energia tangencial e uma energia radial.

O Método Fenomenológico merleaupontyano não estabelece um planejamento rígido ou técnicas fixas para a coleta de dados (GIL, 2008). Entretanto, exige da pesquisadora e do pesquisador uma constante postura hermenêutica frente às experiências observadas e vivenciadas no campo empírico (SCHRÖDER, 2004). E, sobretudo, a capacidade de formular a experiência - a SUA - posto que o corpo próprio, de cada uma e cada um, vem de um lugar adquirido pela história da criação do seu corpo singular, que só daquele locus é capaz de ler aspectos de mundo plausíveis, para poder compreendê-lo em suas dimensões próprias.

Neste sentido, conhecer o mundo só é possível no diálogo dos corpos, dos olhares datados de cada um. O que resulta possível aproximarmo-nos de um mundo denso, divisível e em movimento. Cabe salientar que “O inacabamento da fenomenologia não é um defeito, nem um fracasso. Ao contrário, é a razão de sua permanência até hoje como filosofia e método caracterizados, ao mesmo tempo, pelo rigor e flexibilidade” (PAVIANI, 1998, p.23). O inacabamento é realizado, segundo a segundo, por uma complexidade inerente-e-transcendente, sem sínteses.

O Método Fenomenológico, como metodologia, ajuda a ampliar as estratégias argumentativas, interpretativas e compreensivas em diálogo com os objetivos traçados pela pesquisa. A vinculação entre tema, contexto, objetivos, perspectiva teórica e metodológica, com a vida em situação, é um desafio que articula, ao mesmo tempo, limites e possibilidades. É importante reconhecer que nossa visão intelectual colonizada (FANON, 1968) por vezes limitada, condicionada e encaixada pelo paradigma eurocêntrico, que encerrou o ser, o saber e o poder; não nos permite viver a pesquisa em sua pluralidade fenomênica.

Sobre este processo histórico, Grosfoguel (2011), ao discutir sobre La Descolonización del Conocimiento: Diálogo Crítico entre la visíon Descolonial de Frantz Fanon y la Sociología Descolonial de Boaventura de Sousa Santos, reforça a emergência da construção de outro paradigma científico. Entende que, estudos e aprofundamentos teóricos e empíricos baseados noutras lógicas podem ampliar as possibilidades de compreensão sobre a realidade em trânsito em sua polissemia.

O autor retoma, de certa forma, a importância da auto-organização regional entre América Latina, África e Caribe, diálogo em convergência com a reflexão tecida pelo documento da CEPAL/UNESCO (1996). Uma busca autêntica e coerente com os desafios de uma contemporaneidade cada vez mais complexa: transcendendo muros/mundos disciplinares. Este desafio também está presente na Filosofia Existencial da Fenomenologia em Merleau-Ponty: a emergência do diálogo entre diferentes pontos de vista para compreensão de um mundo que é plural.

A reflexão de Grosfoguel é importante porque, ao retomar conceitos fundamentais do diálogo entre os autores Boaventura de Souza Santos e Frantz Fanon, apresenta possibilidades teóricas e metodológicas em que a reflexão de ambos germina. Ao respeitar os contextos em que cada uma nasce, são inegáveis as interconexões entre suas indagações, ideais e propostas. Os processos que marcam suas reflexões são fundamentais, elementos centrais para nossa (re) construção humana, teórica, metodológica e empírica. Destacamos, neste momento, o critério da racialização como instrumento de segregação de mundos culturais:

La racialización ocurre a través de marcar cuerpos. Algunos cuerpos son racializados como superiores y otros cuerpos son racializados como inferiores. El punto importante para Fanon es que aquellos sujetos localizados en el lado superior de la línea de lo humano viven en lo que él llama la “zona del ser”, mientras que aquellos sujetos que viven en el lado inferior de esta línea viven en la zona del “no-ser”. (FANON, 2010 In GROSFOGEL, 2011, p. 98-99).

Repensar o ser, o saber e o poder exige muitos movimentos, muita transpiração e inspiração para transcender de amarras coloniais; estas que Grosfoguel identifica desde Fanon e Boaventura. Para nosso desafio pesquisante e aprendente de viver a pesquisa em Educação, a partir de espaços escolares e não escolares de ensino-aprendizagem, estas reflexões nos tiram do lugar comum. Fornecem subsídios históricos, teóricos e metodológicos convergentes à busca de um jeito autônomo de ser, de estar no e com o mundo; e de caminhar na pesquisa.

Estamos mobilizados desde a vida em sua maior expressividade existencial, da inspiração engajada que transcende de um não-lugar social em busca por ser mais. Fazer da vida conteúdo para a (des) construção contra paradigmática do ser, do saber e do poder é uma estratégia política de participar desde o local, da corporeidade, das necessidades básicas, para avançar de forma qualitativa sobre processos globais.

Essa é uma característica fundamental da fenomenologia, que nos inspira a (re) construir nosso jeito de fazer pesquisa ao mesmo tempo em que nos fazemos: partimos de um lugar para entender o mundo. Na Fenomenologia Existencial, o estudo se opera entre parte-todo (intencionalidade do Micro para o Macro, dialeticamente) e entre a (inter) subjetividade em relações, que é o que dá sentido à existência dos sujeitos. Neste movimento, assumem os significados individuais e coletivos em constante conflito, imersos entre contradições, avanços e retrocessos.

Em contexto de transformação, tomamos a denúncia e o anúncio como estratégias de (re) ver- nos, questionando nossas práticas e as realidades a que pertencemos para que possamos tecer um enfrentamento político engajado:

De Sousa Santos parte del principio de que “la compresión del mundo es mucho más amplia que la comprensión occidental del mundo”. Su sociología es una ruptura con el universalismo eurocéntrico al llamar a la producción de una epistemología del sur por medio de una ecología de saberes que incluya desde científicos sociales hasta epistemologías y saberes Otros producidos desde el Sur. La ecología de saberes es un principio epistémico fundamental en la obra de Sousa Santos que constituye el punto de partida dialógico que permite escapar del monólogo monoculturalista eurocêntrico. (GROSFOGUEL, 2011, p. 97).

Apesar de não ser foco de nossas reflexões, o movimento da desconstrução das hegemonias conceituais do ser, do saber e do poder; qualquer estudo que se pretenda crítico precisa considerar este pano de fundo em que se assenta a realidade. É a partir desta perspectiva que entendemos o estudo fenomenológico, um viés que se situa entre contextos de lutas, uma leitura teórica que faz parte do universo da pesquisa. Ao enfrentaruma neutralidade racional abstrata, de intencionalidade política questionável, que marca um fazer científico que classifica e segregae que legitima um mundo que não nos representa, a metodologia dialógica da fenomenologia existencial em Merleau-Ponty nos coloca em situação de abertura teórica.

Na busca dos sentidos com base nas existencialidades possíveis, na investigação das essências dos fenômenos, a Fenomenologia de Merleau-Ponty propõe uma pesquisa baseada em três passos principais (REZENDE, 1990): o da constatação, o da análise e interpretação e o das proposições construídas.

O primeiro passo, o da constatação, se refere à realização de uma descrição densa ao fenômeno. Rezende (1990), pesquisador brasileiro, que tem valorizado a articulação da fenomenologia com a dialética existencial em Merleau-Ponty, entende que a descrição desempenha um papel fundamental junto à interrogação, como ferramenta à disposição do Método Fenomenológico: para se compreender é preciso ir fundo na origem das simbologias utilizadas pelos indivíduos na sociedade e compreendê-las como características inerentes ao ser humano.

Tal fato pressupõe o entendimento de que o significado se relaciona com o significante, ou seja, com os elementos que o constituem. Assim, a descrição e a compreensão (analisada a partir dos sentidos e intencionalidades), na perspectiva Fenomenológica, ajudam a transcender a lógica racional que busca uma ‘verdade’. Desse modo, podemos dizer que ela se ocupa com o sentido pleno: o sentido dos sentidos (REZENDE, 1990) e, assim, se chega a Epoché:

A Fenomenologia é o estudo das essências e todos os problemas, segundo ela, tornam a definir essências: a essência da percepção, a essência da consciência, por exemplo [...] Mas a fenomenologia é também uma filosofia que substitui as essências na existência e não pensa que se possa compreender o homem e o mundo de outra forma senão a partir de sua ‘facticidade’. (MERLEAU-PONTY, 1994, p.01).

O segundo passo, de análise e interpretação da descrição realizada, envolve um olhar cuidadoso do pesquisador frente ao material descrito. É necessária atenção especial à presença da subjetividade do indivíduo que interpreta outras subjetividades, que não as suas, mas de quem é pesquisado. Surge, então, a intersubjetividade no encontro do eu para o outro e do outro para mim (MERLEAU-PONTY, 1994).

Freire alertou para esses aspectos. Para este autor, a Fenomenologia assumiu um papel primordial no momento em que possibilitou, enquanto filosofia e método de análise, uma descrição e interpretação dos sentidos atribuídos pelos sujeitos. Ou seja, há na fenomenologia muito mais que uma preocupação, mas um objetivo, uma meta; a valorização do modo de pensar, ver e viver o mundo de cada sujeito, sendo ele o pesquisador ou o pesquisado. O lugar de mediação dos diferentes sentidos se constitui fenômeno, onde as ambiguidades emergem (PASSOS, 2010).

O terceiro passo, referente às proposições, é considerado extremamente importante pois, mais do que resultados, representam a responsabilidade do pesquisador frente ao que ou a quem é pesquisado. A Fenomenologia no seu desenvolvimento e evolução, ao longo da história, sofreu severas críticas, em sua maioria, atreladas ao caráter mais ideológico e subjetivo da Fenomenologia Transcendental de Husserl. Em consequência, foi acusada de permanecer somente no plano das ideias, limitando-se a análise dos fenômenos, pouco se aproximando de ações mais efetivas.

Entretanto, Merleau-Ponty desenvolve uma interpretação da teoria fenomenológica que supera tais limitações. Freire, inclusive, se aproximou das convicções de Merleau-Ponty em relação à necessidade de ultrapassar os extremismos entre a subjetividade e a objetividade. “Freire não deixava qualquer dúvida: é preciso vencer o divórcio entre o dito e o feito; o pensado e o vivido; o material e o imaterial” (PASSOS, 2010, p.185).

Assim, inspirado na Fenomenologia de Merleau-Ponty, Freire propagou o diálogo entre mundo e consciência, os quais formam uma coisa só. Afirmou a existência da perspectiva dialética entre o mundo, minha consciência e a consciência do (s) outro (s). A perspectiva da Educação Popular freireana é um exemplo do processo dialógico radical com a fenomenologia merleaupontyana.

Muitas dimensões, processos e movimentos lhes são convergentes: o inacabamento do mundo e do ser; a intencionalidade; a polissemia do ser e do mundo: “Na leitura fenomenológica, o sentido do mundo não converge para nada em específico, na medida em que vários sentidos podem ser reconhecidos, dependendo da perspectiva da qual nós nos aproximamos dos fenômenos” (GIOVEDI, 2006, p. 64).

Isso nos apresenta conceitos fundamentais na Fenomenologia Existencial de Merleau-Ponty e Freire: a questão das perspectivas e horizontes, dimensões centrais no processo de compreensão da realidade. Remete ao legado fenomenológico à filosofia e à ciência que se pretende autêntica ao seu contexto - lugar, pessoas, processos, dinâmicas e intencionalidades - sem pretensões de verdades absolutas ou explicações determinísticas.

Outro diálogo importante acontece com Schröder (2004), o autor entende que o Método Fenomenológico de Merleau-Ponty tem como cerne o mundo vivido pelo (s) sujeito (s). A diferença de sua proposta está na importância que fornece ao ato interrogativo sob fenômenos estudados, ou seja, busca não só compreender, mas ajudar o (s) sujeito (s) a reconhecer suas interpretações do mundo expressas por meio dos sentidos e significados por ele (s) atribuído (s).

Com Simone de Beauvoir (1970), na discussão sobre o Segundo sexo, a Fenomenologia da Existência ganha outros contornos com a releitura feminista da ciência, do conhecimento e do mundo. A filósofa francesa e feminista aborda a construção da liberdade como estratégia para emancipação civil, humana e política da mulher. Para a autora, a realidade ambígua a respeito da existência quer dizer, em linhas gerais, , que não se existe senão se fazendo ser.

Ao problematizar a construção da história social patriarcal sobre a mulher, a natureza e o mundo, questionando sobre quem é a mulher, a autora faz história. Ajuda a produzir instrumentos teóricos, metodológicos e empíricos que podem auxiliar na aproximação e compreensão das realidades que somos, que nos (des) faz, (re) faz e que, contraditória e dialeticamente, (des) fazemos e (re) fazemos. As condições objetivas e (inter) subjetivas necessárias ao enfrentamento daquelas e sua transformação não são dadas, são conquistadas!

Beauvoir onstrói sua argumentação a partir da Fenomenologia Existencial inspirada em Merleau- Ponty e Sartre. Assume o conceito de existência como base de um projeto inacabado, um vir-a-ser; deste modo:

[...] a definição do homem é que ele é um ser que não é dado, que se faz ser o que é. Como o disse muito justamente Merleau-Ponty, o homem não é uma espécie natural: é uma ideia histórica. A mulher não é uma realidade imóvel, e sim um vir-a-ser; é no seu vir-a-ser que se deveria confrontá-la com o homem, isto é, que se deveria definir suas possibilidades [...] quando se considera um ser que é transcendência e superação, não se pode nunca encerrar as contas [...] na perspectiva que adoto - a de Heidegger, Sartre, Merleau-Ponty - se o corpo não é uma coisa, é uma situação: é a nossa tomada de posse do mundo e o esboço de nossos projetos. (BEAUVOIR, 1970, p. 54).

Muito temos a caminhar na relação com o mundo e conosco, enquanto seres de possibilidades. Não encerramos o mundo em um ponto de vista, contudo, é a partir dele que temos condições objetivas de perceber todas as coisas. Ao dizer que a fenomenologia é, ao mesmo tempo, método e tema dizemos que ela é inacabada, que não explica (se) o mundo em suas infinitas manifestações. Sua dialogicidade nos livra dessa pretensão, mas, ao mesmo tempo, nos joga ao mundo sem certezas, sem as receitas que toda vida tiveram espaço nos manuais, nas bulas, nos livros didáticos... nas teorias e na nossa “educação”.

Tomar posse do mundo e ser artesão de nossos próprios projetos não foi um conteúdo programático presente na escola de nossa vida. Este é o nosso maior desafio: (re) inventar-se a partir de dentro, daquilo que nos moldaram a vida toda a esquecer, ou a negar. A existência foi reduzida ao nada e ao absoluto: o nada que fizeram de nós, e o absoluto que é aquilo que não somos e não possuímos. Eis nosso grande dilema e propósito: transcender daquilo a que fomos destinados; projetar (se) para criar um novo ser, um outro mundo possível.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo deste ensaio foi compartilhar algumas considerações a respeito do método fenomenológico como inspiração para construção contra paradigmática de abordagens metodológicas populares. As reflexões tecidas não tiveram a intenção de servir de modelo, mas de provocar uma leitura mais crítica sobre os discursos e as práticas de pesquisa com as quais a comunidade acadêmica, a escola e os Movimentos Sociais Populares estão engajados.

Nessa perspectiva, nossas pesquisas procuraram compartilhar alternativas pedagógicas, dialógicas e dialéticas, para o enfrentamento das dificuldades apontadas ao longo de todo o processo realizado. As conclusões alcançadas acerca dos fenômenos estudados se colocaram como proposições, possibilidades de compreensão que podem colaborar com a formação de um processo de transformação das experiências empíricas.

Como as conclusões foram fruto das análises e interpretações, oriundas, por sua vez, das descrições e compreensões realizadas, constituíram o produto final da pesquisa, revelando todo o trabalho desenvolvido nas etapas anteriores. As temáticas das pesquisas foram específicas, uma relacionada aos espaços da Educação Social e a outra aos da Educação Popular, nestas a questão social e política da educação como estratégia para emancipação/libertação humana foram as bases para nossa construção. A base fenomenológica foi inspiração na elaboração de cada etapa deste processo: fundamentação teórica, metodológica e empírica.

Enquanto método, metodologia ou propriamente temática e estilo de pesquisa, essa abordagem nasce banhada da tradição filosófica que ela questiona e busca transcender. Assim sendo, não está livre das ambiguidades comuns dos prismas que a constituem e com os quais dialoga. Contudo, o giro contra paradigmático efetuado por Merleau-Ponty, e reinventado através das releituras produzidas em diálogo com diversas mediações pedagógicas e educativas, enfrenta estes desafios como toda e qualquer abordagem que assume a tarefa ontológica de valorizar as raízes originais daquilo que nos torna o que somos: seres de possibilidades, inconclusos, singulares e plurais.

Este prisma problematiza as correntes de pensamento que cindiram dimensões inseparáveis, acolhe a impossibilidade das sínteses explicativas e a redução da realidade em perspectivas determinísticas. A intencionalidade encarnada na totalidade, como uma dimensão da corporeidade em infinita relação com outras formas de perceber o mundo, é sua principal característica. É a base da dialética existencial da fenomenologia merleaupontyana.

Entendemos que repensar as fórmulas teóricas (in) questionáveis que limitaram/engessaram o mundo e a humanidade são tarefas ontológicas e epistemológicas de todas e todos que assumem o compromisso de ser mais gente do que aquilo que parece ser possível ser. Nossas pesquisas, nossas vidas, lutas e convicções possuem desafios e limitações que não são dadas, são tão projetos quanto nosso passado, presente e futuro.

Somos corresponsáveis neste processo, saibamos disso ou não; as teorias não garantem nada, não existem garantias; o que há são possibilidades que coexistem entre contradições e conflitos, avanços e retrocessos. É neste campo que se situou a contribuição deste trabalho: sem esquemas, sem receitas, mas com esperança na luta por uma sociedade mais justa; por uma ciência que inclua; por uma tecnologia que acolha; por uma educação que seja de fato para todas e todos.

REFERÊNCIAS

BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo I: fatos e mitos. 4ª ed. São Paulo: Difusão Europeia do Livro. 1970. Disponível em: https://cpalexandria.wordpress.com/2012/04/01/o-segundo-sexo- simone-de-beauvoir/Links ]

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44 Informações disponíveis no endereço eletrônico <pt.m.wikipedia.org/wiki/EDMUND_HUSSERL> Acesso em 16/10/2016

Recebido: 12 de Julho de 2017; Aceito: 10 de Setembro de 2018

Caroline Lisian Gasparoni Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos Mestre pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos.

Luciane Rocha Ferreira Pielke Doutoranda pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos.

Luiz Augusto Passos Professor Doutor no Programa de Pós - Graduação em Educação da Universidade Federal do Mato Grosso - UFMT

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