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Reflexão e Ação

versão On-line ISSN 1982-9949

Rev. Reflex vol.28 no.2 Santa Cruz do Sul maio/ago 2020  Epub 08-Jul-2025

https://doi.org/10.17058/rea.v28i2.15272 

Apresentação

Apresentação do dossiê: deslocamentos na educação contemporânea

Viviane Castro Camozzato1 

Rochele Santaiana2 

1 Universidade Estadual do Rio Grande do Sul - Rio Grande do Sul, Brasil.

2 Universidade Estadual do Rio Grande do Sul - Rio Grande do Sul, Brasil


O campo educacional tem sido atravessado por potentes fragmentos de pensamento: áreas como a filosofia, a sociologia, a história, a antropologia, como também o cinema, a literatura, as artes, têm contribuído para que a marca da pluralidade atravesse, cada vez mais, a educação. Tal condição tem possibilitado pensar que o lugar específico da educação talvez seja algo crescentemente mais plural.

Esperamos que o conjunto de artigos do Dossiê se direcionem, sobretudo, na contramão de discursos homogeneizantes e universalizantes do campo educacional. A nosso ver, a pergunta pelo que difere, pelo que escapa, burla, abre possibilidades para que o próprio campo educacional seja ressignificado e arejado. Substancialmente, menos afirmações generalizantes e mais indagações acerca de como, de que modo, sob quais condições ainda têm sido possível provocar deslocamentos a partir do campo da educação. Afinal, qual seria a função da pesquisa e do conjunto da teorização educacional se dela derivasse apenas a replicação do exaustivamente já pensado e dito?

Assim, o Dossiê pretendeu agrupar trabalhos que evidenciem as movimentações e os deslocamentos intelectuais em temas caros à pesquisa educacional. Esperamos, com isso, conseguir evidenciar alguns dos - muitos - deslocamentos na arena política da educação contemporânea.

Considerando o exposto, abrimos o Dossiê com Sandra Mara Corazza e Marina dos Reis, em Sonho e educação: deslocamentos pela Filosofia da Diferença. As autoras operam produzindo deslocamentos nos entendimentos sobre a função social e a condição de poética do sonho, ao mesmo tempo em que incitam a pensar na interlocução entre os seus componentes individual e social. A abertura para o sonho aparece, a nosso ver, como uma reinvenção urdida por uma poética da docência que forja/cria/recria o que é do seu campo do possível.

Enunciados sobre surdez em portais virtuais informativos brasileiros é de autoria de Indiamaris Pereira, Paulo Roberto Sehnem e George Saliba Manske. O artigo problematiza as marcas textuais da metanarrativa fonocêntrica que podem difundir e perpetuar sentidos colonialmente construídos sobre surdez nos discursos públicos nacionais. O efeito de sentido produzido revela que são os ouvintes que estão autorizados a narrar surdez, evidenciando a permanência da prática metanarrativa nos discursos sobre surdez.

Na análise realizada em Publicidade como pedagogia cultural: representações de gênero nas campanhas de Jean-Paul Gaultier, Alcidesio Oliveira da Silva Junior e Jeane Félix partem da concepção de que os processos educativos ocorrem para além dos espaços institucionais comumente legitimados na esfera social. Assim, tendo os Estudos Culturais e os Estudos de Gênero como mote, analisam imagens de campanhas publicitárias que constituem identidades de gênero a partir de representações que posicionam e educam sujeitos mediante a recorrência a uma naturalização estereotipada de comportamentos de homens e mulheres.

Em seguida, toamos conhecimento do artigo intitulado Quando artefatos culturais se fazem currículo e produzem sujeitos de autoria de Marlécio Maknamara. Este artigo aborda a música como artefacto cultural que interessa ao campo educacional diante das disputas pelo privilégio sobre a educação das pessoas e de suas “vontades de sujeito”. Sugere contribuições metodológicas a quem se lança à tarefa de investigar artefactos culturais segundo o referencial teórico pós-crítico. Conclui que é urgente explicitar as artimanhas que tornam currículos tão eficazes em suas capacidades de recrutar, produzir e regular sujeitos.

No artigo elaborado pela pesquisadora Fabíola Rahde Fernandes e pelo pesquisador Eduardo Guedes Pacheco, intitulado Educação, teatro e invenção: ensaio para uma pós-dramaturgia do encontro na aula, o foco se encontra nas articulações entre arte, docência e vida a fim de possibilitar o arejamento da seguinte problemática: a experimentação de modos outros de ser e estar na escola a partir de uma pós-dramaturgia.

Em A concepção do trabalho docente em documentos prescritivos, Andreia Rezende Garcia- Reis analisa dois documentos da política educacional brasileira sobre o trabalho docente. No artigo, Andreia delineia os processos de resistência presentes nos documentos de 2015 a partir de uma afirmação da docência pela legitimação da formação profissional.

Manoel Valquer Oliveira Melo, Oriowaldo Queda e Vera Lúcia Silveira Botta são autoras do artigo A dicotomia do saber na escola do campo: aportes epistemológicos da sociologia rural. E, analisam a Educação do Campo como uma modalidade educacional difundida como fruto da bandeira de luta pelo direito à terra dos movimentos socioterritoriais do Brasil.

Na sequência, em Cildo Meireles e a Filosofia da diferença: cartografia de um pensar contemporâneo em educação, de Ivone Priscilla Ramalho, por sua vez, trata de arte, filosofia e currículo para debater as possibilidades de provocações de abalos nas cristalizações da educação levando em conta, principalmente, a produção artística do Cildo Meireles.

Marcelo Loures Santos e Diego Gonzaga Duarte da Silva, em Narrativa e trajetória camponesa: estudo de caso em um curso de licenciatura em educação do campo, analisam entrevistas narrativas acerca de territórios educativos a fim de demarcarem o campo, sua identidade e trajetória a partir do percurso formativo construído com a licenciatura em questão.

Em Quando o cotidiano interroga o currículo: outros modos de pensar a docência na educação infantil, Adriana Rorato e Elena Maria Billig Mello entendem que, do enfoque crítico, emergiram elementos da análise textual discursiva em interlocução com o software Atlas.ti, levantando questões como a desnaturalização de concepções de criança e infâncias.

Isabela Dutra e Roseli Belmonte Machado, em Corpos infantis na contemporaneidade: deslocamentos e subjetividades na política nacional de alfabetização refletem sobre os lugares e as subjetividades que vem sendo produzidas sobre os corpos infantis incluídos nas escolas regulares brasileiras. Para tanto, analisam os documentos sobre a infância, além da Política Nacional de Alfabetização. É um estudo inspirado nos Estudos Foucaultianos, com base nos conceitos de governamento e governamentalidade.

Organizações sociais e forma(ta)ção docente, das pesquisadoras Mônica Knöpker e Marisa Cristina Vorraber Costa, parte da análise discursiva foucaultiana para problematizar a pedagogia implicada na formação docente. Para isso, as autoras analisam materiais de organizações sociais disponibilizados na internet e pontuam o múltiplo acionamento, sobretudo, de estratégias e enunciados voltados a preceitos neoliberais para a forma(ta)ção da docência.

Já no artigo Cinema-experiência e os encontros da imagem com a educação, Thiago dos Santos Antunes da Silva, Karina Mirian da Cruz Valença Alves e Maria Thereza Didier de Moraes indagam: “a que tipo de imagens nosso conhecimento pedagógico dá lugar?”. Os autores sinalizam compreender o trabalho com imagens como sendo de cunho político, filosófico e estético e, por isso, transitam com os encontros entre cinema e educação, cinema-experiência.

A análise sobre a colonização do saber em trabalhos investigativos do campo da educação, é o foco do artigo Decolonizar el saber en la investigación en educación: el pensamiento-otro como estrategia epistémica para la producción académica diversificada, de Nicolás Esteban Panotto, Elcio Cechetti e Anderson Luiz Tedesco. Os autores argumentam em torno de uma necessária desconstrução de visões dominantes a fim de que a pluralidade de mundos-possíveis - para além dos paradigmas ocidentais e modernos - contribuam para a diversificação da educação mediante uma necessária articulação de epistemologias diversas. Trata-se, sobretudo, de uma crítica sobre os limites de nossos saberes e o lugar social construído e ocupado pelos sujeitos e suas investigações educativas.

Daniel Brailovsky, em Siete vidas de la teoría pedagógica, traz um debate acerca dos diferentes sentidos conferidos à noção de teoria no pensamento pedagógico. No artigo o autor cria e comenta sete hipóteses que vão da “teoria como um regramento: um guia para a ação” à “teoria como conversação”. Nesta última hipótese, aliás, o autor trata da centralidade do encontro entre professores e estudantes. Por isso, se trata de uma conversação em que a premissa de não sairmos os mesmos está presente, posto que há incitamento à transformação dos sujeitos mediante a partilha e troca de conhecimentos e saberes.

Além dos artigos, o Dossiê conta com Os paradoxos da forma escolar na contemporaneidade, em que Julio Groppa Aquino é entrevistado pela pesquisadora Karla Saraiva. Deste potente encontro temos acesso a um diálogo em que a problematização sobre verdades consideradas consolidas na educação são o cerne. Trata-se, sobretudo, de vermos - nesta fecunda interlocução - a operação de um exercício genuíno de pensamento, em que o foco está no deslocamento e não na reiteração constante de verdades. Um diferir incessante que aparece, afinal, como condição para pensar e operar com deslocamentos na/em direção à educação.

Encerramos o Dossiê, por fim, com uma resenha da obra Psicopolítica: o neoliberalismo e as novas técnicas de poder, de Byung-Chul Han. Elaborada por Adilson Cristiano Habowski (Universidade La Salle), Elaine Conte (Universidade La Salle), a resenha destrincha as discussões que giram em torno de “uma nova forma de exploração e submissão do sujeito em rede digital” a partir de uma crise de sua suposta liberdade. A figura da coerção mediante uma projeção de liberdade e insubmissão atualiza, de tal modo, novas e refinadas técnicas de poder em nosso tempo.

Talvez seja possível dizer que, embora olhares exauridos - os quais sinalizam a existência e permanência dos lugares comuns do pensamento - coexistam com novas abordagens, as movimentações na teorização contemporânea tem atravessado e avançado sobre o cerne da educação. O que tem propiciado, sobretudo, que esta seja questionada em suas pretensões de verdade. Desse modo, ao indagarmos sobre os deslocamentos na educação contemporânea, foi nossa intenção acentuar a produtiva movimentação do pensamento educacional, onde novas questões e problemas tem sido criado e/ou ressignificados, contribuindo para uma fecunda oxigenação do campo.

Difícil não nos furtarmos de salientar que neste exato momento em que sofremos com um sério problema de saúde pública mundial, no qual estamos convocados a permanecer o máximo possível em distanciamento social, a indagação acerca dos deslocamentos possíveis na educação contemporânea se reúne a outros: como enfrentar no cotidiano o dilema da vida e da morte? Como criar estratégias de sobrevivência em meio a práticas fascistas de incitar indivíduos e grupos sociais ao ápice do risco? De que modo é possível reinventarmos a nós mesmos mediante práticas que nos mantenham seguros e, ao mesmo tempo, corporifiquem encontros com os outros? Sem dúvida, há muitos questionamentos a serem elaborados e replicados. E justamente por isso, há também muitas respostas provisórias possíveis. Que o diferir, o indagar, o problematizar e o deslocar possam nos acompanhar na vida e nos processos educacionais que movimentamos.

Agradecemos a colaboração e participação de todos os envolvidos com este Dossiê. Desejamos uma agradável e inquietante leitura e que possamos, cotidianamente, exercitar um trabalho de cuidado político, ético e estético conosco, com os outros e com o mundo

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