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Reflexão e Ação

versão On-line ISSN 1982-9949

Rev. Reflex vol.28 no.3 Santa Cruz do Sul set./dez 2020  Epub 13-Maio-2025

https://doi.org/10.17058/rea.v28i3.15656 

Apresentação

Sobre os destroços e as edificações de 2020 na educação

1 Universidade de Santa Cruz do Sul, Santa Cruz do Sul, RS, Brasil.

2 Universidade de Santa Cruz do Sul, Santa Cruz do Sul, RS, Brasil.


‘Nessa direção’, disse o Gato, girando a pata direita, ‘mora um Chapeleiro’. ‘E nessa direção’, apontando com a pata esquerda, ‘mora uma Lebre de Março. Visite quem você quiser, são ambos loucos’. ‘Mas eu não ando com loucos’, observou Alice. ‘Oh, você não tem como evitar’, disse o Gato, ‘somos todos loucos por aqui. Eu sou louco. Você é louca’. ‘Como é que você sabe que eu sou louca?’, disse Alice. ‘Você deve ser’, disse o Gato, ‘senão não teria vindo para cá.’ Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas, 2002, s/n.

Escolhemos o excerto da obra de Lewis Carroll para iniciar este editorial assumindo que o ano de 2020, até agora, exigiu grandes doses de bravura e cautela, de persistência e desistência, de sorte e resiliência, de humor e seriedade, mas principalmente, de “loucura”.

Sim! Foi fundamental sermos loucos e loucas para vencermos as incertezas, os anseios bem como o isolamento e o distanciamento sociais que marcaram os oito primeiros meses do ano. Da mesma forma, acreditamos que muitos conheçam o fato de que áreas como a Educação, a Saúde, a Economia, as Ciências Sociais e Exatas, entre outras, estejam sendo colocadas à prova, diariamente, enquanto profissionais e quaisquer outras pessoas que dependem delas têm as vidas atravessadas por adaptações que variam, em muitos casos, semanalmente.

Além disso, nos arriscamos a acrescentar na lista dos “desafios de 2020”, os cenários político e econômico brasileiros, marcados por tensões, disputas e descontentamentos que acabaram provocando - ou tornando popular - uma espécie de descrédito e achatamento daquilo que aprendemos a entender como Ciência e pela qual muitos de nós dedicam as vidas e as carreiras.

É neste mesmo contexto que, mais uma vez, as desigualdades relacionadas às raças, às crenças, aos gêneros, às orientações sexuais, aos corpos que não se enquadram nos padrões (enfim, às nossas tão ricas e relevantes diferenças) foram potencializadas e popularizadas como se fossem produtivas. Voltamos a refletir e brigar - pelo óbvio - sobre e por temas que considerávamos em avanço e assistimos, impotentes, a retomada radical de preconceitos que se encontravam disfarçados e silenciados, porém ativos. A Universidade foi chamada de “inimiga da sociedade”. Uma lástima!

Porém, entendemos que tais situações edificaram forças ao mesmo tempo em que ocasionaram destroços - alguns irrecuperáveis, outros contornáveis. Assim, os destroços provenientes das frágeis oportunidades de educação, de trabalho e de qualidade de vida e a edificação de resistências, de aproximações, de fortalecimentos e de emancipações sociais configuram, nos dias atuais, opostos que se complementam e nos impulsionam para alguns lugares, por vezes assustadores, mas em outras promissores.

Talvez seja sobre os destroços e as edificações de 2020 que nos encontrarmos em acordo e nos unimos pela manutenção e sobrevivência daquilo que há anos nos preocupa e guia nossas caminhadas: a Educação. É preciso continuarmos atentos, atuantes e otimistas.

Por isso, agradecemos imensamente às colaboradoras e aos colaboradores da Revista Reflexão e Ação que oportunizaram, por meio de seus artigos, pareceres, trabalhos técnicos de editoração e revisão linguística e normativa a periodicidade e pontualidade das edições deste ano difícil. Assim, o Volume 28, número 3 (Setembro-Dezembro), despede-se do ano, mesmo que com certa antecedência, apresentando um conjunto de artigos instigantes e revigorantes.

No primeiro, intitulado “Integração não-formal de migrantes e refugiados em Portugal - Projeto Integrararte”, Maria João Faria e Clara Costa Oliveira, da Universidade do Minho, discorrem sobre um projeto desenvolvido com duas famílias de refugiados que vivem em Portugal. Conforme destacam, a experiência e a discussão apresentadas baseiam-se na perspectiva emancipatória da educação permanente e comunitária.

Em “El trabajo y el desenvolvimiento laboral por autoconfrontación”, Daisy Moreira Cunha e Daniel Fabián Roca Flores Pinto, ambos da Universidade Federal de Minas Gerais, e Maria Ieda Almeida Muniz, da Universidade Tecnológica Federal do Paraná, apresentam uma discussão relativa aos parâmetros clínicos laborais associados aos estudos que envolvem práticas docentes.

Telmo Adams e Camile Pegoraro, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, no artigo “Educação e Pesquisa: contribuições teórico-metodológicas de Freire à pedagogia crítica na América Latina”, retomam as contribuições de Paulo Freire, a partir da releitura de Pedagogia do Oprimido e Educação como Prática da Liberdade com o objetivo de indicar elementos que contribuem para o fortalecimento de uma pedagogia crítica.

Em “Se nossos filhos estudarem, serão gente na vida?” Maria Ivete Basniak e Antonio Charles Santiago de Almeida, da Universidade Estadual do Paraná abordam os modos como famílias menos abastadas significam o papel da escola na formação de seus filhos e filhas e suas expectativas de ascensão social. Então lançamos mão de pesquisa qualitativa, permeada pela subjetividade do cotidiano, mas capaz de identificar e analisar dados que estão para além da mensuração.

O artigo “A educação no sistema prisional: experiência educacional na Penitenciária Estadual de Francisco Beltrão/PR” é estruturado a partir de um estudo de caso, baseado em história oral e busca evidenciar fatos que envolvem a educação no sistema prisional brasileiro. As autoras Thaís Janaina Wenczenovicz, da Universidade Estadual do Rio Grande do Sul e Camila Tais Menegoto, da Universidade Estadual do Oeste do Paraná, destacam no teto, de modo provocativo, que a educação prisional é tratada como programa eventual de governo ao invés de uma política pública de Estado.

Com o objetivo de apresentar questões relacionadas à cultura escolar, desde a institucionalização da Educação Especial no Brasil, Marcia Torres Neri Soares, da Universidade do Estado da Bahia, apresenta o texto “Cultura escolar e organização curricular: um olhar histórico sobre a deficiência”. Um dos apontamentos apresentados pela autora é a necessidade de o currículo ser tensionado no que se refere às condições de participação de estudantes com deficiência nas atividades e nos ambientes escolares.

“Currículo e formação de professores de inglês em duas Universidades: questões e desdobramentos” é o artigo conduzido por Juliana Reichert Assunção Tonelli, Mariana Furio - Universidade Estadual de Londrina - e Giuliana Castro Brossi - Universidade Estadual de Goiás. Nele, as autoras analisam dois cursos de licenciatura em letras inglês, de duas universidades estaduais, tendo em vista as adequações curriculares para a formação de professores de língua inglesa para crianças (LIC) e professores de português para falantes de outras línguas (PFOL).

Em, “Videoconferência e hipervídeo como propostas interativas na educação online: pensando a formação de professores para a educação contemporânea” são abordados os usos de audiovisuais na educação online a partir de uma prática pedagógica de produção de cibervídeos com estudantes da licenciatura em Pedagogia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. O texto é de autoria de Vivian Martins da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Instituto Federal do Rio de Janeiro, bem como de Edméa Santos da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro.

Luiz Felipe Zago e Aloha Boeck Arruda dos Santos, da Universidade Luterana do Brasil apresentam o artigo “Pedagogias da polarização no Facebook: redes sociais online e urgência opinativa”. Nele, analisam publicações e comentários de seguidores das páginas oficiais de Danilo Gentili e Gregório Duvivier, no Facebook. Já, em “Narrativas de si na visibilidade das telas hiperconectadas: reflexões sobre selfies, Instagram e pedagogias culturais”, Julia da Fonseca Lopes e Dinah Quesada Beck, da Universidade Federal do Rio Grande discutem as práticas de selfie e os usos do aplicativo Instagram, propondo uma reflexão sobre o potencial pedagógico destes artefatos culturais e sociais, enquanto implicados na educação e produção de determinadas formas de ser e atuar no mundo.

No artigo “Deslocamentos, invenção e formação outra - em companhia de Foucault”, as autoras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rosimeri de Oliveira Dias e Heliana de Barros Conde Rodrigues analisam pesquisas-intervenção realizadas na formação de professores na Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Sequencialmente, “Os jogos para o ensino de aritmética no manual ‘Didática da 1ª série’ de Amaral Fontoura”, escrito por Cintia Schneider e David Antonio da Costa, da Universidade Federal de Santa Catarina é um artigo em que se objetiva compreender o papel dos jogos para o ensino de aritmética por meio de aportes da história cultural e da história da educação matemática.

O texto, “O Enem e as práticas de disciplinamento na formação do estudante nota “1000””, de Marilia Dal Moro da Universidade Federal do Rio Grande do Sul apresenta os resultados de uma pesquisa desenvolvida tendo em vista postagens de Facebook endereçadas a candidatos que se preparam para o Exame e fundamentação teórica apoiada pelo pensamento de Michel Foucault.

Silvia Maria Fávero Arend e Aline Fátima Lazarotto, da Universidade do Estado de Santa Catarina e da Universidade Comunitária da Região de Chapecó, respectivamente, analisam estudos sobre História da Educação, produzidos em Programas de Pós-graduação em Educação entre os anos de 2013 e 2018, a partir jornais. Assim, no artigo “História da educação e jornais: em busca de uma infância plural” demonstram que a fonte disponível para a pesquisa no Brasil em arquivos, bibliotecas - públicas ou privadas -, em hemerotecas digitais e em sites/portais pode contribuir para a ampliação do conhecimento da História da Educação.

No último artigo desta edição, “O mapa conceitual como recurso pedagógico de ensino na docência da educação superior”, Ana Carolina de Oliveira Salgueiro de Moura e Camila Aparecida Tolentino Cicuto da Universidade Federal do Pampa discorrem sobre quatro modos diferentes para o uso de mapas conceituais como recurso pedagógico na Educação Superior.

Ainda, antes de encerrar, Adjefferson Vieira Alves Silva, Maria Eulina Pessoa de Carvalho e Jeane Félix da Silva, da Universidade Federal da Paraíba, nos presenteiam com a resenha “Escrita de si e do outro em Impressões de Michel Foucault”, partindo da obra de Roberto Machado, de 2017.

Por fim, desejamos a todas e todos uma excelente leitura, com votos de tempos mais leves, porém produtivos.

REFERÊNCIAS

CARROLL, Lewis. Alice no país das maravilhas. Nicolau Sevcenko (trad.). São Paulo: Cosacnaif, 2002. [ Links ]

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