Introdução
Em março de 2020, quando eclodiu a pandemia do Covid-19, de acordo com a segunda edição da pesquisa “Resposta educacional à pandemia de covid-19 no Brasil”, realizada pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP, 2021), 99,3% das escolas brasileiras suspenderam suas atividades presenciais interrompendo de forma abrupta o processo ensino e aprendizagem. Inaugurou-se, então, um processo de migração para modalidades não presenciais de interação. As escolas privadas que, na sua maioria, já dispunham de tecnologia e suporte técnico, rapidamente adotaram o ensino não presencial por meio de aulas síncronas de forma quase instantânea. Nas escolas públicas (municipais, estaduais e federais), no entanto, a transição se deu em um ritmo mais lento em razão da necessidade de aquisição de novos equipamentos, adaptação técnica e, também, de treinamento dos professores para uso de programas de ensino não presencial.
Com efeito, a pandemia do Covid-19 impactou a realidade educacional brasileira de várias formas em virtude das inúmeras rupturas provocadas pela crise sanitária. Diversos estudos vêm sendo publicados (Silva; Machado, 2020; Lima; Souza, 2021, Senhoras, 2020; Silva, Santos; Soares, 2020; Santos et al., 2020), a crise social e educacional causada pela pandemia, como a exclusão de alunos devido ao baixo poder de aquisição de tecnologias necessárias para aulas remotas, a ampliação da desigualdade latentes. Mas, talvez, o mais contundente tenha sido o afastamento humano impactando a relação entre estudantes e professores com a adoção do ensino remoto ou não presencial. Na medida em que estudantes e professores passaram a interagir, apenas, através de e-mails, videochamadas, redes sociais e/ou aplicativos de mensagens, a brusca mudança no ato de ensinar, trouxe dificuldades aos estudantes na obtenção e compreensão dos conteúdos, implicando prejuízos a aprendizagem.
No caso dos estudantes adolescentes, considerados nativos digitais, poderíamos supor uma fácil adaptação ao novo modelo. De acordo com Lemos (2009, p 39), “os nativos digitais vivem imersos em diferentes comunidades de aprendizagens, abrindo várias janelas ao mesmo tempo”, gastando a maior parte do seu dia trocando mensagens on-line, navegando na internet, fazendo download de músicas, assistindo séries e jogando em streaming.
Contudo, não poderíamos desconsiderar as consequências do uso indiscriminado de tecnologias digitais pelos adolescentes (Silva, 2016). Com efeito, muito antes da pandemia do covid-19 irromper, inúmeros autores já apontavam os impactos do uso excessivo das tecnologias digitais pelos adolescentes, levantando questionamentos sobre os seus benefícios e malefícios para o desenvolvimento social, cognitivo e afetivo.
Ao longo do ano de 2020 e parte de 2021, inúmeras decisões foram sendo tomadas com o intuito “de minimizar o prejuízo em relação à aprendizagem dos conteúdos curriculares” (Pereira; Narduchi; Miranda, 2020, p.232). Não obstante, nesse mesmo ritmo, inúmeros estudos foram publicados demonstrando os prejuízos do isolamento social “no ensino, na socialização e no desenvolvimento educacional de crianças e adolescentes.” (Silva, 2022, p. 02).
Nesse mesmo período, também chegaram anos consultórios de psicólogos e/ou psicopedagogos, casos de estudantes com inúmeras queixas em relação a dificuldades de aprendizagem escolar. Emergiu, assim, um debate envolvendo famílias e educadores, preocupados com o aumento de casos de dificuldades de aprendizagem escolar sob as condições do ensino não presencial, ministrado por meio de aulas online síncronas.
Nesse contexto, passamos a questionar: como ocorreu a experiência de aprendizagem escolar de adolescentes da faixa etária de 14 a 17 anos, durante o isolamento social imposto pela pandemia do Covid-19? O aumento das queixas de dificuldades de aprendizagem que chegaram aos consultórios dos psicólogos e/ou psicopedagogos foi resultado do isolamento social? Os estudantes que chegaram aos consultórios, já apresentavam problemas de aprendizagem escolar antes do isolamento social? Ou suas queixas surgiram a partir da decretação do isolamento social? E os estudantes que muito antes do isolamento social, já enfrentavam dificuldades de aprendizagem escolar; suas dificuldades aumentaram?
O presente artigo é fruto de uma pesquisa de dissertação de mestrado em Psicologia defendida no segundo semestre de 2022, junto a uma Instituição de Ensino Superior (I.E.S.) localizada na região metropolitana de Porto Alegre/RS, cujo objetivo geral era analisar, sob uma perspectiva psicopedagógica, as consequências na aprendizagem escolar e nas
habilidades socioemocionais de adolescentes entre 14 e 17 anos, decorrentes do isolamento social imposto pela pandemia do Covid-19.
Este artigo é um recorte da referida pesquisa de dissertação; apresenta os resultados das análises efetuadas sobre a percepção dos adolescentes entre 14 e 17 anos, sobre a aprendizagem escolar antes da pandemia, durante o isolamento social decorrente da pandemia do Covid-19 e, atualmente.
Método
A pesquisa caracterizou-se como um estudo exploratório-descritivo e transversal, de abordagem quantitativa. A sua realização seguiu os princípios éticos descritos na Resolução 510/2016, do Conselho Nacional de Saúde (CNS) que dispõe sobre os cuidados éticos em investigações com seres humanos. O projeto de pesquisa foi submetido e aprovado, sob protocolo nº CAAE 59419822.5.0000.5348, pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP), da I.E.S. a qual estava vinculada a pesquisa de mestrado.
Contexto empírico da pesquisa
A pesquisa tomou como referência empírica três escolas localizadas em dois municípios da região metropolitana de Porto Alegre/RS: uma escola pública de ensino médio, uma escola pública de ensino médio técnico e uma escola privada de ensino fundamental e médio. As escolas foram intencionalmente escolhidas por atenderem ao principal critério: estudantes adolescentes cujas idades situam-se na faixa etária compreendida entre 14 e 17 anos.
Participantes da pesquisa
Participaram da pesquisa sessenta e quatro (n=64) adolescentes entre 14 e 17 anos, distribuídos da seguinte forma: vinte e dois estudantes matriculados na escola de ensino médio técnico; vinte e um estudantes matriculados na escola privada de ensino fundamental e médio e outros vinte e um estudantes matriculados na escola pública de ensino médio. A seleção dos participantes foi por conveniência seguindo os seguintes critérios de inclusão: ser estudante regularmente matriculado em uma das escolas referência empírica da pesquisa; ter permanecido em isolamento social, assistindo aulas na modalidade online; ter retornado do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido - TCLE assinado pelos responsáveis legais; terem assinado o Termo de Assentimento Livre e Esclarecido - TALE. Como critérios de exclusão: os participantes da pesquisa não podiam possuir deficiência física ou cognitiva, com base na necessidade de garantir a homogeneidade do grupo estudado e minimizar possíveis variáveis que pudessem influenciar nos resultados da pesquisa. Entendemos que deficiências físicas ou cognitivas podem impactar significativamente na forma como os estudantes lidam com o ambiente educacional, especialmente em um contexto de isolamento social e ensino online.
Instrumentos de Coleta de Dados
Foi elaborado um questionário autoaplicável, do tipo Escala Likert, estruturado em duas partes. A primeira parte é composta por questões sociodemográficas visando levantar informações gerais tais como: idade, nível de escolaridade, gênero, com quem e em que cidade reside e o número de escola que já estudou. A segunda parte do questionário contém questões relativas à experiência escolar com enfoque em dificuldades de aprendizagem, frequência, aulas remotas online e assimilação de conteúdo, considerando três diferentes momentos: como ocorriam antes da pandemia, ocorridas durante e como atualmente estão ocorrendo.
Procedimentos de Coleta de Dados
A coleta de dados foi realizada no primeiro semestre de 2022. Foi realizado um contato prévio com as coordenadoras pedagógicas de cada escola, via telefone, seguido de email, sendo que com uma delas, também, realizamos uma reunião on-line. Desse modo, foram apresentados os objetivos da pesquisa, e realizado o convite para a escola participar da pesquisa na condição de coparticipante. Uma vez obtido o consentimento das escolas, procedeu-se ao agendamento de datas para o encaminhamento dos TCLEs aos pais/responsáveis dos estudantes que manifestaram interesse em participar da pesquisa. No dia agendado, antes da aplicação do instrumento, os estudantes que consentiram em participar assinaram o TALE.
Apresentação e discussão dos resultados
Foi realizada uma análise descritiva da distribuição de frequência das variáveis. O Teste de Friedman foi utilizado para comparar dados amostrais vinculados e verificar a existência de diferenças significativas. O nível de significância adotado foi de 5%. Os dados foram digitados em uma planilha eletrônica, no programa Microsoft Excel, e processados no programa Statistical Package for the Social Sciences (SPSS versão 26.0).
Perfil da amostra
A amostra da pesquisa, constituída por sessenta e quatro estudantes (n=64) com idade entre 14 e 17 anos apresentou as seguintes características sociodemográficas. A média de idade dos participantes da pesquisa foi 15 anos e 7 meses (DP=1,04). Com relação à identidade de gênero, 50% da amostra pesquisada se declarou do gênero feminino (n=32); 45,3% do gênero masculino (n=29); 1,6% da amostra se declarou agênero (n=1); 1,6% da amostra declarou-se intersexo (n=1) e, finalmente, 1,6% da amostra declarou-se não-binário (n=1).
Com relação ao nível de escolaridade, a maioria (85,9%) dos participantes da amostra (n=55) estão cursando o Ensino Médio e somente 14,1%, dos participantes da amostra (n=9) estão cursando o Ensino Fundamental. Os 85, 9% da amostra (n=55) que cursa o Ensino Médio estão assim distribuídos: a maior parte (40,6%) está cursando (n=26) 1º ano do ensino médio. Uma outra parte equivalente está assim distribuída: 23,4% dos estudantes da amostra informaram (n=15) cursar o 2º ano; e 20,3% estão cursando (n=13) o 3º ano do ensino médio. Destaca-se um (n=1) estudante da amostra (1,6%) que informou estar cursando o 4º ano do ensino médio, o que nos permite deduzir tratar-se do ensino médio técnico.
Quanto aos estudantes da amostra (14,1%) que cursam o nível de Ensino Fundamental, a maioria (12,5%) deles (n=8) está cursando o 9º ano sendo que apenas um (n=1) estudante da amostra (1,6%) informou estar cursando o 8º ano do ensino fundamental.
Por fim, perguntamos aos participantes da pesquisa: quantas escolas você já frequentou? Os resultados demonstram que vinte e cinco participantes (n=25) da amostra (39,1%) já estudaram em duas escolas. Um número semelhante (n=23) dos estudantes da amostra (35,9%) informaram que já estudaram em três escolas diferentes. Somando os dois escores, teremos quarenta e oito estudantes (n=48) da amostra (75%) que já mudaram de escola. Estes dados chamam atenção posto que, considerando a média de idade (15,7 anos) da amostra, infere-se que 75% dos participantes da pesquisa trocam de escola a cada seis anos de vida. Motivados pela suspeita e observando os dados sob outra perspectiva, nos deparamos um fato ainda mais surpreendente: somente quatro estudantes (n=4) integrantes da amostra (6,3%), até o momento da realização da pesquisa, haviam frequentado uma única escola. Ainda que, apenas três (n=3)
estudantes da amostra (4,7%) tenham estudado em cinco escolas diferentes, se adicionarmos os nove estudantes (n=9) da amostra (14,1%) que já estudaram em quatro escolas diferentes, e somarmos aos 75% que já estudaram em duas ou três escolas, somos forçados a reconhecer que a esmagadora maioria (93,8%) dos estudantes da amostra (n=60) vive uma dinâmica de trocas constantes de escolas sugerindo um padrão de relação com a escola marcado pela inconstância. A Figura nº 1 ilustra esses resultados.
Por outro lado, é amplamente reconhecido que a troca de escolas é frequente durante a mudança do ensino fundamental para o ensino médio, devido a fatores como a oferta de diferentes opções educacionais, mudanças geográficas, preferências familiares e outros aspectos socioeconômicos. Reconhecemos que esse aspecto pode influenciar os resultados da pesquisa de diversas maneiras. Primeiramente, pode levar a uma subestimação das experiências escolares prévias dos participantes antes do período abordado pela pesquisa. Além disso, a frequência de mudanças de escola pode estar correlacionada com variáveis socioeconômicas, culturais e regionais que também podem influenciar as respostas dos participantes.
De qualquer modo, estes dados merecem ser analisado com mais vagar, posto que podem estar expressando a forma como os adolescentes percebem suas dificuldades de aprendizagem escolar independentemente do isolamento social. Nesse sentido, estudos desenvolvidos por Faermann e Rufato (2016) com adolescentes, revelam que suas dificuldades de aprendizagem são multicausais, envolvendo uma série de fatores vinculados a aspectos biológicos, sociais, culturais, cognitivos e emocionais. Antunes e Falcke (2015) também destacam a necessidade de uma compreensão abrangente sobre o fenômeno da dificuldade de aprendizagem. De acordo com os referidos autores, em geral, dificuldades de aprendizagem em adolescentes, “relacionam-se com problemas emocionais e comportamentais, quadros de depressão, desatenção, bloqueio cognitivo, preocupações, medo e ansiedade, abuso de substâncias e envolvimento em situações de conflito com a lei.” (Antunes; Falcke, 2010, p. 54)
Sob outra perspectiva, Simões (2020), aponta a desigualdade social como um importante fator que aparece fortemente relacionado às dificuldades de aprendizagens de crianças e adolescentes.
A percepção de aprendizagem escolar dos adolescentes
A fim de conhecer a percepção dos adolescentes sobre a experiência de isolamento social, as questões do questionário foram elaboradas considerando três diferentes momentos: antes da pandemia, durante o isolamento social e atualmente. As alternativas de respostas ofereciam opções de frequências: (1) nunca, (2) uma vez por semana, (3) duas vezes por semana, (4) de três a quatro vezes por semana e (5) todos os dias. A pergunta número um foi assim formulada: “você tem/tinha alguma dificuldade para aprender? Os resultados obtidos estão apresentados na Tabela nº 1.
TABELA Nº 1: Percepção sobre dificuldades para aprender
| N | Média | Desvio Padrão | Mínimo | Máximo | |
|---|---|---|---|---|---|
| Antes | 64 | 1,80 | ,995 | 1 | 5 |
| Durante | 64 | 3,13 | 1,241 | 1 | 5 |
| Depois | 64 | 2,28 | 1,147 | 1 | 5 |
Fonte: dados da pesquisa
A análise dos dados aponta que há diferença significativa entre os três momentos considerados (antes da pandemia, durante o isolamento social, atualmente) quanto à percepção de dificuldades de aprendizagem dos adolescentes. Ou seja, há uma diferença significativa (χ2 = 58,503; p < 0,01) na percepção dos adolescentes sobre dificuldades de aprendizagem enfrentadas quando comparam os três diferentes momentos.
Dito de outro modo, os participantes da amostra perceberam que enfrentaram mais dificuldades de aprendizagem durante o isolamento social (2,66%) do que costumavam enfrentar antes da pandemia, assim como atualmente estão enfrentando. Ademais, o resultado também indica que atualmente (1,85%) os adolescentes participantes da pesquisa estão enfrentando mais dificuldade para aprender do que enfrentavam (1,49%) antes da pandemia, sugerindo que o isolamento social deixou marcas negativas nos adolescentes da amostra. Estes dados são corroborados por Bittencourt et al (2010) que descrevem um déficit permanente no aprendizado como resultado negativo do impacto da pandemia na aprendizagem de crianças e adolescentes.
Nessa mesma linha, o segundo ponto investigado refere-se à ausência dos adolescentes às aulas. A questão foi assim formulada: “você falta/faltava às aulas?” Os resultados estão apresentados na Tabela nº 2.
TABELA Nº 2: Percepção sobre a ausência às aulas
| N | Média | Desvio Padrão | Mínimo | Máximo | |
|---|---|---|---|---|---|
| Antes | 64 | 1,14 | ,432 | 1 | 3 |
| Durante | 64 | 2,11 | 1,335 | 1 | 5 |
| Depois | 64 | 1,17 | ,456 | 1 | 3 |
Fonte: dados da pesquisa
O resultado do teste de comparações múltiplas indicou uma diferença significativa (χ2 =47,153; p < 0,01) na percepção dos participantes da pesquisa quanto a ausência às aulas, durante o isolamento social (2,46%), comparativamente à percepção de ausências antes da pandemia (1,75%) e comparativamente à percepção de ausência atualmente (1,79%). Além disso, ainda que não seja significativa, a leve diferença na percepção dos adolescentes sobre as ausências atualmente (1,79%) e antes da pandemia (1,75%), quando comparamos à percepção dos adolescentes sobre
dificuldades de aprendizagem indica que, atualmente, os adolescentes estão enfrentando mais dificuldades de aprendizagem e sendo mais ausentes às aulas do que eram antes da pandemia. Estes resultados são corroborados por Antunes e Falcke (2010) que ao investigar as características do contexto familiar e escolar de adolescentes com dificuldades de aprendizagem, demonstrou que os adolescentes tendem a compreender suas dificuldades de aprendizagem relacionadas somente às suas características pessoais e/ou às suas relações com os professores em sala de aula. Nesse contexto, o adolescente passa a ausentar-se das aulas como uma forma de evitar seus problemas.
A percepção dos adolescentes sobre as aulas online
Por fim, a pesquisa buscou conhecer a percepção dos adolescentes com relação à estratégia de ensino não presencial, aulas online síncronas, adotada por suas escolas durante o período de isolamento social, imposto pela pandemia do COVID-19. Neste ponto, os adolescentes foram interrogados quanto a três aspectos: (i) a qualidade das aulas online (ii) a/s contribuição/ções das aulas online para o aprendizado dos estudantes e (iii) a assimilação dos conteúdos ensinados através das aulas online. Para cada aspecto acima discriminado, as alternativas de resposta eram: (i) péssimo, (ii) ruim, (iii) regular, (iv) boa, (v) muito boa. A Tabela 3 apresenta, em conjunto, os dados relativos aos três aspectos investigados sobre as aulas online:
Quanto a qualidade das aulas online síncronas frequentadas pelos adolescentes durante o isolamento social, as respostas se distribuíram de forma quase simétrica, entre as alternativas péssimo (17,2%) e ruim (34,4%). Somados os dois percentuais (51,6%), observamos que metade dos adolescentes considerou as aulas online oferecidas durante o isolamento social de baixa qualidade o que suscita importantes reflexões sobre o impacto do ensino remoto nas experiências educacionais dos estudantes. A percepção de baixa qualidade pode derivar de uma variedade de fatores, incluindo a falta de interação pessoal com os professores e colegas, dificuldades técnicas de acesso à internet e equipamentos adequados, bem como desafios de adaptação ao ambiente virtual de aprendizagem.
Quando comparados com o grupo de respostas com conotação positiva: alternativa boa (12,5%) e a alternativa muito boa (0%), os resultados convergem com os achados de Silva e Machado (2020) que apontaram a qualidade do ensino ruim e o insuficiente suporte dado pelas escolas como um dos impactos negativos da pandemia sobre o processo ensino e aprendizagem na modalidade não presencial.
Quando nos detemos sobre os escores obtidos na questão que interrogava os adolescentes da amostra sobre possíveis contribuições das aulas online para o seu aprendizado, observa-se que os respondentes se distribuíram equilibradamente entre as alternativas péssimo (28,1%), ruim (29,7%), sendo que, quando somados, o grupo de respostas com conotação negativa atingiu o percentual de 57,8% da amostra. A análise conjunta da percepção de baixa qualidade e da avaliação das contribuições das aulas online para o aprendizado confirma uma tendência negativa em relação ao ensino remoto. Estes resultados obtidos na pesquisa são corroborados por Cardoso, Fuhr e Dias (2020) cujo estudo concluiu que a adoção de métodos imperfeitos resultou em aprendizado pobre durante a pandemia.
Finalmente, os resultados relativos ao terceiro aspecto investigado (assimilação) sobre as aulas online, são compatíveis com a linha de raciocínio aqui percorrida. Ou seja, as respostas dos adolescentes sobre a assimilação dos conteúdos nas aulas on-line, reforçam a tendencia negativa observada na análise dos dois aspectos anteriores: a qualidade das aulas online e as contribuições (das aulas online) ao aprendizado dos estudantes.
Nesse sentido, 32,8% da amostra respondeu que teve uma assimilação péssima ou ruim dos conteúdos ministrados nas aulas online, sendo seguida por 25,0% da amostra que considerou sua assimilação boa (20,3%) e dos responderam que sua assimilação dos conteúdos foi muito boa (1,6%), temos que a maioria dos adolescentes apresentou respostas com conotação negativa (péssima = 7,8% + ruim = 25%) sua assimilação dos conteúdos nas aulas on-line. Nesse sentido, Santos et al. (2020) corroboram nossos dados, ao apontarem importantes prejuízos na obtenção e compreensão dos conteúdos de crianças e adolescentes durante as aulas remotas.
Quando analisamos isoladamente os três aspectos averiguados quanto às aulas online, torna-se evidente que a alternativa de resposta regular é predominante na amostra. A neutralidade das respostas pode ser interpretada de várias maneiras. Primeiramente, pode indicar uma falta de forte engajamento emocional ou opiniões extremas em relação ao ensino online. Isso pode ser resultado da natureza ambivalente das experiências educacionais vivenciadas durante o período de isolamento social, com os alunos reconhecendo tanto os desafios quanto os benefícios das aulas remotas.
Além disso, a prevalência de respostas regulares pode refletir uma certa conformidade com a situação de ensino online, com os adolescentes aceitando-a como uma parte temporária e inevitável de suas vidas durante a pandemia. Essa atitude pode ser influenciada pela percepção de que o ensino remoto é uma solução temporária diante das circunstâncias excepcionais, e que era necessário adaptar-se a ela da melhor maneira possível.
Por outro lado, a neutralidade nas respostas também pode indicar uma falta de entusiasmo ou satisfação com o ensino online, sem que os alunos se sintam motivados a expressar críticas significativas ou elogios entusiásticos. Isso pode refletir uma resignação ou desinteresse em relação ao processo educacional durante o isolamento social, especialmente se os alunos estivessem enfrentando dificuldades com a adaptação ao ambiente virtual de aprendizagem.
Não obstante, os resultados agrupados em torno das conotações positiva ou negativa das respostas, explicita a tendência inequivocamente negativa das respostas dos participantes da pesquisa em relação às aulas online. A tabela 4 ilustra a tendência de percepção negativa dos adolescentes em relação aos três aspectos relativos às aulas online investigados.
Trata-se de um resultado preocupante, pois indica que durante o longo período do isolamento social, a principal estratégia de ensino não presencial adotada pela maioria das escolas, foi percebida como negativa, de baixa qualidade, produzindo uma baixa assimilação de conteúdos por parte dos adolescentes da amostra. Estes resultados estão em conformidade com os dados obtidos na questão que investigou a percepção das dificuldades para aprender durante o isolamento social, cujos dados revelam que foi durante o isolamento social que os adolescentes consideram ter enfrentado significativamente mais dificuldades para aprender. Estes argumentos são corroborados por Cardoso, Ferreira, Barbosa (2020), ao concluírem que “o ensino emergencial à distância não tem capacidade para fornecer os mesmos resultados da aprendizagem presencial.” (p. 42).
Nesse sentido, um estudo de revisão sistemática sobre os impactos da pandemia, Silva (2022), analisou vinte e cinco (25) pesquisas que abordam a aprendizagem de crianças e adolescentes. Desse total, a referida autora constatou que vinte e três (23) pesquisas apontaram impactos negativos, sendo que, apenas, duas (02) pesquisas conseguiram apontar impactos positivos da pandemia sobre a aprendizagem escolar.
De forma categórica, Silva (2022), concluiu que as vulnerabilidades trazidas pelo isolamento social fragilizaram o aprendizado de crianças e adolescentes, dificultando a fixação dos conteúdos e comprometendo a continuidade da sua formação educacional e curricular, corroborando os dados da presente pesquisa Tomando por base todos esses resultados, devemos esperar muitos desafios futuros no campo educacional; desafios estes, gestados durante o isolamento social, cujos desdobramentos não se traduziram apenas no incremento das dificuldades para aprender, mas terão efeitos diversos de acordo com as diferentes formas de ensino implementadas durante o isolamento social. Estudo desenvolvido por Cardoso, Ferreira, Barbosa (2020) analisou as adaptações realizadas no âmbito da educação para garantir o ensino durante a pandemia demonstrando que os maiores prejuízos incidiram na parcela dos alunos em piores condições socioeconômicas. Segundo os referidos autores,
Os impactos do período de pandemia na educação serão sentidos a curto e a longo prazo, e se manifestarão de diversas formas, tais como evasão escolar, defasagem de desempenho, reprovação etc. [...] é provável que os níveis de qualidade educacional retroajam e que a disparidade entre as médias verificadas em avaliações externas aumente em relação à determinadas regiões e extratos sociais. Também é possível que as metas previstas no PNE sejam impactadas, dificultando que sejam atingidas no tempo prédeterminado (Cardoso; Ferreira; Barbosa, 2020, p. 42).
Cabe lembrar que a aprendizagem é um processo extremamente complexo e multicausal, que se inicia no nascimento e que, segundo Antunes e Falcke (2010) pode ser sintoma de uma crise maior que o adolescente possa estar vivenciando. Contudo, não devemos perder de vista o que nos ensinam Antunes e Falcke (2010) ao afirmarem que “a dificuldade de aprendizagem do adolescente não se constitui em um fenômeno individual, mas que pode refletir questões específicas da etapa da adolescência e das relações familiares, escolares e sociais.” (p. 54)
Nesse caso, levando em conta o longo período em que os estudantes permaneceram isolados, sem contato com seus colegas, amigos etc. e considerando que, conforme Nardon (2006), é na adolescência que o convívio social se amplia, com a participação nos diferentes grupos, aos quais os adolescentes pertencem, como: escola, esportes, cursinhos, lazer, entre outros, podemos dimensionar os prejuízos futuros da pandemia. Nesse sentido, diversos autores (Silva; Machado, 2020; Lima; Souza, 2021; Senhoras, 2020; Silva et al., 2020; Santos et al., 2020), ao estudarem os principais impactos negativos da crise sócio sanitária sobre o processo ensino e aprendizagem, além das rupturas no processo educacional, apontam a exclusão de alunos como um aspecto que contribui para a ampliação das desigualdades educacionais em nosso país
Neste cenário, serão necessárias inúmeras medidas e reconfigurações do processo educativo. Contudo, conforme Gatti (2022), será impossível abandonar as metodologias e os recursos tecnológicos que foram desenvolvidos e utilizados durante o período de aulas remotas. Isso seria um retrocesso. Mas, do mesmo modo, é preciso reconhecer que a simples aquisição de dados ocorrida no período da pandemia não é o mesmo que aprendizagem. Durante o período de isolamento social, os adolescentes não atingiram a compreensão necessária, a informação não foi processada e nem associada a outras para, assim, gerar um entendimento mais profundo. A utilização da tecnologia da forma como ocorreu durante a pandemia pode ter contribuído para um maior desequilíbrio cognitivo e afetivo dos adolescentes.
De acordo com Moreira, Martins-Reis, Santos (2016), o mau desempenho escolar deve ser visto como um sintoma relacionado a múltiplas etiologias. A partir do advento da pandemia, além das dificuldades pedagógicas, das patologias e dos transtornos associados, impõe-se considerar os impactos da pandemia como causas relacionadas ao mau desempenho escolar.
Considerações de Encerramento
O presente artigo apresentou os resultados de um estudo que visou conhecer a percepção dos adolescentes entre 14 e 17 anos, sobre a aprendizagem escolar antes da pandemia, durante o isolamento social decorrente da pandemia do Covid-19 e, atualmente. Os resultados indicam que o período de isolamento social acarretou mais dificuldades para aprender do que costumavam enfrentar antes da pandemia. Os resultados também indicam que embora menores do que durante o isolamento, atualmente, os adolescentes continuam enfrentando mais dificuldade para aprender do que enfrentavam antes da pandemia.
Ou, dito de outro modo: os adolescentes consideram que o período durante o isolamento social foi, significativamente, diferente do que haviam antes enfrentado em termos de dificuldades para aprender. Contudo, percebem que, atualmente, continuam enfrentando dificuldades para aprender, as quais são mais brandas em relação ao período de isolamento social, mas longe daquelas dificuldades enfrentadas antes da pandemia do Covid-19.
Os resultados do estudo também destacam que os participantes da pesquisa avaliaram as aulas online de forma negativa, entendendo que durante o período de isolamento social as aulas online apresentaram baixa qualidade técnica e pedagógica e que, portanto, não contribuíram para o seu aprendizado, acarretando fraca assimilação dos conteúdos ministrados.
Por fim, na medida em que a maioria dos adolescentes investigados informou já ter trocado de escolas, é preciso considerar a possibilidade de viés na interpretação dos resultados apresentados. Para mitigar esse possível viés, em estudos futuros, pretendemos incluir questões adicionais para capturar as experiências educacionais anteriores dos participantes, incluindo o período do ensino fundamental. Além disso, realizaremos análises mais detalhadas, considerando fatores como o motivo das mudanças de escola, o impacto percebido dessas mudanças na aprendizagem e no desenvolvimento socioemocional dos estudantes, bem como a comparação entre aqueles que mudaram de escola e aqueles que permaneceram na mesma instituição ao longo do tempo.
Entendemos que se impõe uma análise futura mais detalhada à medida em que pode estar, de algum modo, relacionado ao modo como os adolescentes percebem a aprendizagem escolar para além do que viveram durante o período de isolamento social, imposto pela pandemia.










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