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Ensino em Re-Vista

versão On-line ISSN 1983-1730

Ensino em Re-Vista vol.32  Uberlândia  2025  Epub 27-Nov-2025

https://doi.org/10.14393/er-v32e2025-14 

Demanda Contínua

Ensino da Ginástica nas Instituições Públicas de Ensino Superior do Estado de Minas Gerais

Enseñanza de la Gimnasia en las Instituciones Públicas de Educación Superior del estado de Minas Gerais

Michelle Guidi Gargantini Presta1 
http://orcid.org/0000-0002-6675-9461

Laurita Marconi Schiavon2 
http://orcid.org/0000-0003-3568-8311

Marco Antonio Coelho Bortoleto3 
http://orcid.org/0000-0003-4455-6732

1Doutora. Secretaria Municipal de Educação, Monte Mor, São Paulo, Brasi

2Doutora. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, São Paulo, Brasil

3Doutor. Universidade Estadual de Campinas. Campinas, São Paulo, Brasil


RESUMO

Esse artigo faz parte de um estudo de abrangência nacional que analisou o ensino da Ginástica nas Instituições de Ensino Superior (IES) públicas, e o perfil dos(as) docentes responsáveis por essa atividade. Nesse recorte apresentamos os resultados relativos ao estado de Minas Gerais. Por meio de uma pesquisa documental revisamos os sites oficiais das IES e posteriormente, o currículo das/dos docentes. Analisamos os sites das 11 instituições e por meio de uma consulta via o e-mail dos(as) coordenadores(as), elencamos os(as) docentes responsáveis pelo ensino das disciplinas de Ginástica no ano de 2020. Tal levantamento nos permitiu estabelecer uma relação entre quem leciona, estuda, pesquisa e produz conhecimento na área da Ginástica, juntamente com a importância desses especialistas nas disciplinas. Apesar de ser a minoria, o estado de Minas Gerais possui alguns(algumas) docentes com atuação especializada e prolongada, nucleando o desenvolvimento da Ginástica e ofertando uma representatividade significativa no estado.

PALAVRAS-CHAVE: Ginástica; Formação inicial; Educação física.

RESUMEN

Este artículo forma parte de un estudio a nivel nacional que analizó la enseñanza de la Gimnasia en las Instituciones de Educación Superior (IES) públicas, y el perfil de los docentes responsables de esta actividad. Mediante una investigación documental al estado de Minas revisamos los sitios web oficiales de las IES y posteriormente, los currículos de los docentes. Analizamos las 11 instituciones y a través de una consulta por correo electrónico a los coordinadores, enumeramos los docentes responsables de la enseñanza de las disciplinas de Gimnasia en el año 2020. Este levantamiento nos permitió establecer una relación entre quienes enseñan, estudian, investigan y producen conocimiento en el área de la Gimnasia. A pesar de ser la minoría, el estado de Minas Gerais cuenta con algunos docentes con actuación especializada y prolongada, nucleando el desarrollo de la Gimnasia y ofreciendo una representatividad significativa en el estado.

PALABRAS CLAVE: Gimnasia; Formación inicial; Educación física.

ABSTRACT

This article is part of a nationwide study that analyzed the teaching of Gymnastics in public Higher Education Institutions (HEIs) and the profile of the professors responsible for this activity. In this excerpt, we present the results related to the state of Minas Gerais. With a documentary research, we reviewed the official websites of the HEIs and subsequently, the professors’ curricula. We analyzed the websites of the 11 institutions and, through an email consultation with the coordinators, we listed the professors responsible for teaching Gymnastics courses in 2020. This survey enabled us to establish a relationship between those who teach, study, research, and produce knowledge in the area of Gymnastics, along with the importance of these specialists in the disciplines. Although they are a minority, the state of Minas Gerais has some professors with specialized and long-term work, nucleating the development of Gymnastics and offering significant representation in the state.

KEYWORDS: Gymnastics; Initial training; Physical education.

Introdução

A Ginástica, como área do conhecimento, compreende práticas de condicionamento físico, de competição, de demonstração e de conscientização corporal, como melhor argumentam (Rinaldi; Paoliello, 2008; Oliveira et al., 2021). É sobre o conjunto destas práticas corporais que tratamos nesse artigo, enfatizando a presença destes saberes como componente curricular na formação inicial em Educação Física.

Desta forma, cabe iniciar relembrando da consolidada condição do ensino da Ginástica no ensino superior, como salienta a autora:

As disciplinas relacionadas com as manifestações Ginásticas estão presentes nos currículos desde a primeira Escola Superior de Educação Física do Brasil. Com a chegada do método Educação Física Desportiva. Generalizada no Brasil nos anos de 1940, a instituição desporto ganhou cada vez mais incentivo e, por consequência, a Ginástica também, já que vinha passando por um processo de desportivização desde a década de 30, mais precisamente 1938 ou 1939. A manutenção desse conteúdo em forma de disciplina, nas Escolas Superiores de Educação Física, aconteceu, cada vez mais, atendendo apenas a técnica. (Rinaldi, 2004, p.26)

Com efeito, ao longo do tempo e reconhecida como uma área “clássica” da Educação Física (Coletivo de Autores, 1992), a prática da ginástica alcançou para os mais distintos espaços socioeducacionais, incluindo a escola, as academias, (Carbinatto et al., 2016; Toledo, 2010), no setor esportivo - clubístico entre outros (Sarôa, 2005; Peres; Melo, 2014). A formação inicial oferecida pelas instituições de ensino superior nacional (IES), tem, portanto, relevante impacto nesse contexto. A título de exemplo, conforme aponta o estudo de Mariano et al. (2016, p. 12), “[...] a falta de formação adequada dos professores e a dificuldade em ensinar o conteúdo Ginástica, contribuem para que seja minimizada a presença do conteúdo nas aulas de Educação Física”. Vemos, aqui, a vinculação direta da atuação dos/as docentes nos cursos de graduação (formação inicial) com a prática pedagógica realizada posteriormente (Schiavon; Nista-Piccolo, 2007).

De modo geral, há suficientes indicadores que, nesse início do século XXI, a Ginástica continua sendo uma prática representativa para o campo (Bezerra et al., 2014) e que merece atenção contínua, visando desvelar a dinâmica prática e como as IES podem dialogar com as particularidades dos múltiplos contextos em que estão inseridas.

No âmbito da educação física escolar, a Base Nacional Comum Curricular (Brasil, 2017), adota em uma das unidades temáticas o termo Ginásticas, subdividindo-a em ginástica geral, ginásticas de condicionamento físico e ginásticas de conscientização corporal. Esse documento chega nas escolas como orientador do trabalho do(a) professor(a) no ensino fundamental, sendo utilizado para direcionar as aulas de educação física nos anos iniciais e finais. Apesar de apresentar uma diversidade dessas práticas e nas suas características, espera-se que o professor consiga ampliar esse conteúdo por meio das múltiplas aprendizagens na formação inicial e continuada. A unidade temática de ginástica deve respeitar as oito dimensões do conhecimento: experimentação, uso e apropriação, fruição, reflexão e ação, construção de valores, análise, compreensão, protagonismo comunitário, sendo propostas de forma lúdica, relevante e significativa.

Nesse sentido, o ensino da Ginástica nos cursos de licenciatura e bacharelado em Educação Física vem sendo pesquisado regularmente (Mariano et al., 2019), buscando conhecer os profissionais que atuam, bem como compreender os projetos políticos pedagógicos das IES brasileiras (Rinaldi, 2004; Rinaldi; Paoliello, 2008) entre outros aspectos relevantes. De modo geral, há o entendimento de que,

[...] a presença da ginástica no programa se faz legítima na medida em que permite ao aluno a interpretação subjetiva das atividades ginásticas, através de um espaço amplo de liberdade para vivenciar as próprias ações corporais. (Coletivo de Autores, 1992, p. 77)

Dada a importância do assunto, entre 2020-2021, o Grupo de Pesquisa em Ginástica (FEF-Unicamp) realizou um estudo de abrangência nacional, envolvendo distintos grupos de trabalho e a contribuição de pesquisadores(as) de diversas universidades brasileiras, na busca de analisar o ensino da Ginástica nas IES públicas e o perfil dos(as) docentes responsáveis por essa atividade. Paulatinamente, os resultados dessa pesquisa vêm sendo divulgados, explorando as particularidades das diferentes regiões, como no caso da região norte (Menegaldo et al., 2022) e da região Sul (Bento-Soares et al., 2024).

O presente artigo apresenta os resultados relativos ao estado de Minas Gerais, analisando pormenores das IES, das disciplinas oferecidas e do perfil dos docentes responsáveis.

Método

Como já informado, esse estudo faz parte de uma pesquisa desenvolvida pelo Grupo de Pesquisa em Ginástica (FEF-Unicamp), intitulada Regionalização de docentes, disciplinas e produções científicas em Ginástica: estudo sobre as IES públicas no Brasil, e que tem por objetivo geral mapear e analisar docentes em ginástica das IES públicas nas cinco regiões brasileiras, aprofundando nossos saberes sobre o perfil de docentes e atuação na área da Ginástica. A referida pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da Unicamp no parecer nº 4.723.264.

O estudo teve início com uma pesquisa documental, conduzida por diferentes subgrupos de pesquisadores(as) para cada uma das cincos regiões do Brasil. O trabalho desenvolvido pelo subgrupo responsável pela região Sudeste, mostrou ser essa a região que possui o maior número de IES, motivando, a decisão de subdividir a análise dos dados da seguinte maneira: Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro/Espírito Santo.

No que se refere a Minas Gerais, locus desse artigo, cabe recordar que o estado abrange uma área de 586.852,35 km2 constituindo-se no quarto maior estado em extensão territorial do Brasil, com uma população de 19.597.330 habitantes distribuídos em 853 municípios. Foram localizadas 11 Instituições de Ensino Superior (IES) públicas, sendo nove federais e duas estaduais, distribuídas nas 12 mesoregiões do estado, das quais 11 foram selecionadas para o estudo.

Iniciamos as buscas por meio das plataformas do Ministério da Educação, CAPES e CNPQ, analisando, posteriormente, os sites de cada uma das IES. Por fim, foi realizada uma consulta via o e-mail dos(as) coordenadores(as) e os(as) docentes responsáveis pelo ensino das disciplinas de Ginástica no ano de 2020. Nesse contato por e-mail solicitamos aos(às) coordenadores(as) o nome dos(as) docentes de Ginástica, as disciplinas ministradas e o e-mail pessoal para o posterior contato com cada um(a) deles(as). Em alguns casos, foi necessário realizar o contato por meio das redes sociais (facebook, instagram etc.) ou via whatsapp, utilizando o procedimento denominado “Bola de neve”, que, conforme vemos a seguir, consiste em:

O tipo de amostragem nomeado como bola de neve é uma forma de amostra não probabilística, que utiliza cadeias de referência. Ou seja, a partir desse tipo específico de amostragem não é possível determinar a probabilidade de seleção de cada participante na pesquisa, mas torna-se útil para estudar determinados grupos difíceis de serem acessados. (Vinuto, 2014, p. 203)

A partir dessa busca e tratando de ampliar os contatos a partir da ajuda dos(as) próprios(as) participantes já localizados(as), ao final foi possível contatar os(as) coordenadores(as) das 11 instituições previamente encontradas.

Cabe salientar, então, que a população estudada se caracterizou pelo critério de agrupamento social, ou seja, trata-se de um coletivo passível de identificação, estruturado socialmente e que mantém uma relação contínua ao exercer um certo papel social (institucionalização), tal como definem Berger e Luckmann (2004). Especificamente, esse grupo é composto por professores(as), maiores de 18 anos, cujo papel social é determinado pelo exercício profissional da docência de disciplina de “Ginástica” no ensino superior público no Brasil.

Desse modo, foram localizados(as) 26 docentes, sendo possível acessar seus currículos na Plataforma Lattes. Com base nessa fonte documental, estudamos o perfil desses(as) profissionais, incluindo a atuação na formação inicial (graduação), na pós-graduação (Lato Sensu e Stricto Sensu), as orientações de Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC), Iniciação Científica (IC), mestrado e doutorado na temática Ginástica. Foram analisadas ainda, as disciplinas ministradas, o tempo de atuação na IES, a periodicidade de atualização do currículo na plataforma lattes, as publicações de artigos e livros, projetos e cursos de extensão e, ainda, a coordenação de grupos de estudo ou pesquisa.

A organização dos dados se deu por meio de uma tabulação em planilhas eletrônicas (Microsoft Excel), cujos dados foram analisados posteriormente combinando estatística descritiva e análise de conteúdo (Bardin, 2011), com no mínimo a revisão de dois membros do grupo.

Panorama Das Instituições De Ensino Superior Em Minas Gerais

Das 11 Instituições de Ensino Superior (IES) do Estado de Minas Gerais, que oferecem cursos de Educação Física (Bacharelado e/ou Licenciatura), nove são federais (82%) e duas estaduais (18%) (tabela 1). Algumas delas possuem mais de um campus, dado apresentado na tabela abaixo, ampliando o seu alcance regional. Considerando a modalidade dos cursos, encontramos nove IES que oferecem as duas modalidades, uma que oferta somente o bacharelado e outra somente licenciatura, como melhor vemos a seguir:

QUADRO 1 IES públicas do estado de Minas Gerais com cursos de Educação Física. 

Universidades Federais Sigla Campus Região no estado Modalidade
Bacharelado (B)
Licenciatura (L)
Universidade Estadual de Minas Gerais UEMG Divinópolis
Ibirité
Ituiutaba
Passos
Oeste
Região Metropolitana
Triângulo Mineiro
Sul e Sudoeste
B/L
Universidade Estadual de Montes Claros UNIMONTES Montes Claros Norte L
Universidade Federal de Juiz de Fora UFJF Juiz de Fora e
Governador Valadares
Zona da Mata
Vale do Rio Doce
B/L
Universidade Federal de Lavras UFLA Lavras Campo das vertentes B/L
Universidade Federal de Minas Gerais UFMG Belo Horizonte Região Metropolitana B/L
Universidade Federal de Ouro Preto UFOP Ouro Preto Central B/L
Universidade Federal de São João Del-Rei UFSJ São João Del Rei Campo das Vertentes B/L
Universidade Federal de Uberlândia UFU Uberlândia Triângulo Mineiro B/L
Universidade Federal de Viçosa UFV Viçosa
Florestal
Zona da Mata Mineira
Região Metropolitana
B/L
Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri UFVJM Diamantina Jequitinhonha B/L
Universidade Federal Triângulo Mineiro UFTM Uberaba Triângulo Mineiro B

Fonte: elaborada pelos autores

Considerando as disciplinas específicas da área da Ginástica, incluindo todos os campi acima listados, encontramos 35, distribuídas nas Instituições de Ensino Superior (IES) da seguinte forma:

Fonte: elaborado pelos(as) autores(as)

GRÁFICO 1 Quantitativo das disciplinas de ginástica nas IES-MG 

Parece-nos relevante discriminar nominalmente cada uma delas (quadro 2), para conhecer o enfoque dado nos Projetos Políticos Pedagógicos à área da Ginástica, conforme aponta:

Quadro 2 Denominação das disciplinas de Ginástica das universidades públicas de MG 

Universidades Federais Disciplinas de ginástica
Universidade Estadual de Minas Gerais - Divinópolis Ginástica Rítmica
Ginástica Artística
Universidade Estadual de Minas Gerais - Ibirité Ginásticas
Universidade Estadual de Minas Gerais - Ituiutaba Metodologia da Ginástica; Prática de Formação Docente da Ginástica
Universidade Estadual de Minas Gerais - Passos Ginástica
Universidade Estadual de Montes Claros Ginásticas
Ginástica Artística
Universidade Federal de Juiz de Fora - Governador Valadares Fundamentos da Ginastica I, Fundamentos da Ginastica II, Fundamentos da Ginastica III
Universidade Federal de Juiz de Fora - Juiz de Fora Ginástica Para Todos; Ginástica rítmica
Ginástica artística
Ginástica em Academia
Universidade Federal de Lavras Modalidades individuais III
Universidade Federal de Minas Gerais Ginásticas
Ensino da Ginástica Artística
Estágio Treinamento Esportivo em Ginástica Artística
Processos Pedagógicos e Técnicas de Manipulação em Ginástica Artística
Estágios - Treinamento Esportivo em Ginástica
Práticas Monitoradas em Ginásticas
Universidade Federal de Ouro Preto Ginástica de academia
Universidade Federal de São João Del-Rei Metodologia do ensino dos Conteúdos Gímnicos
Universidade Federal de Uberlândia Prática Pedagógica da Ginástica Artística
Ginásticas
Ginástica artística
Prática Pedagógica da Ginástica Rítmica
Ginástica Rítmica
Universidade Federal de Viçosa - Florestal Ginástica I e II
Ginástica artística
Universidade Federal de Viçosa - Viçosa Metodologia do Ensino da Ginástica
Prática Pedagógica X - Ginástica
Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri Ginástica esportivizada e de lazer
Ginástica na educação física escolar
Fundamentos da Ginástica
Ginástica de condicionamento físico
Ginástica Laboral e ergonomia
Universidade Federal Triângulo Mineiro Fundamentos da Ginástica I
Fundamentos da Ginástica II
Fundamentos da Ginástica III

Fonte: elaborado pelos(as) autores(as)

Após a reformulação prevista pela Resolução 03/87, que possibilitou que cada instituição tivesse autonomia para constituir seu currículo de acordo com suas necessidades e características culturais, encontramos, atualmente, diferenças nos currículos com relação às disciplinas Ginásticas. Porém, em sua maioria, as disciplinas encontradas são: a Ginástica (ou Ginástica Geral, que assume variadas características de acordo com a Instituição, inclusive a Ginástica em academia), a Ginástica Rítmica Desportiva e a Ginástica Olímpica (ou artística). E, com certeza, não abarcam o universo de conhecimento próprio à área da Ginástica, estão longe disso. (Rinaldi, 2004, p.100)

Notamos que há uma prevalência de disciplinas que se ocupam das “ginásticas de competição”, destacando modalidades como a Ginástica Artística (GA) e Rítmica (GR). Do mesmo modo, disciplinas que abordam a Ginástica Para Todos (GPT) também apareceram de modo destacado. Aqui é possível estabelecer algum tipo de concordância destes dados com uma “tradição” no Brasil da vertente competitiva e particularmente da GA e GR; bem como um mais recente crescimento da GPT. Há estudos sobre a produção na pós, e nas publicações que mostram uma similaridade “nacional” (Lima et al., 2016; Oliveira et al., 2009).

Apenas uma disciplina aborda de forma exclusiva e declarada as ginásticas de condicionamento físico (academia), e nenhuma aborda outras expressões (ginástica de trampolim, ginástica aeróbica; ginástica laboral, ...). É possível ainda, que estas sejam tratadas no conjunto dos saberes das disciplinas, embora os títulos e ementas não apontem claramente. Por outro lado, várias disciplinas têm denominação genérica (“ginásticas”; “fundamentos da ginástica”, “metodologia da ginástica”) e precisariam de um estudo pormenorizado, como os realizados por Lima et al. (2016) no Paraná, e Razeira et al. (2016) no Rio Grande do Sul. Aliás, esse é um limite do presente estudo.

Perfil dos docentes: atuação na área da Ginástica

A partir da análise dos 26 currículos dos(as) de docentes responsáveis disponíveis, constatamos que 18 realizaram curso de especialização Lato Sensu, em áreas diversas que incluem: atividade física em academia, treinamento esportivo, musculação, personal training, neuropsicologia, fisiologia e biomecânica do movimento/exercício, natação, pedagogia do movimento, didática do ensino superior, aspectos metodológicos e conceituais da pesquisa, psicomotricidade/motricidade humana, entre outras. Não encontramos nenhuma formação em Ginástica no âmbito da pós-graduação Lato sensu, exceto os cursos na área de “Ginásticas de condicionamento físico” (academia, fitness).

Por outro lado, no âmbito da pós-graduação Stricto sensu, identificamos quatro professores(as) que pesquisaram a Ginástica em suas dissertações de mestrado (um/a docente da UFVJM, um/a docente da UFLA e dois/duas da UFMG) e dois(duas) em suas teses de doutorado (UFVJM e UFMG). Em conjunto, a formação em nível de pós-graduação (Lato e Stricto Sensu) mostra uma baixa especificidade com a área da Ginástica e, concordando com Bezerra et. al. (2014), podendo ter relação com a atuação destes nas IES, tendendo a ser generalista.

No que tange à atuação dos(as) docentes como orientadores(as), a UFMG se destacou principalmente nos Trabalhos de Conclusão de Curso (TCC) e estudos no âmbito da pós-graduação, como vemos no gráfico 2. Vemos uma clara concentração das orientações no âmbito da graduação (TCC), uma baixa presença de orientações tanto de iniciação científica, como de mestrado e nenhum registo em nível de doutorado.

Fonte: elaborado pelos(as) autores(as)

GRÁFICO 2 Orientações de trabalhos acadêmicos em Ginástica (2006 a 2020) 

Em relação aos Trabalhos de Conclusão de Curso, aparecem 84 trabalhos identificados, no período de 2006 a 2020, que possuem a Ginástica no tema no Lattes dos(as) docentes que atuam no estado de Minas Gerais, em nove universidades. Podemos fazer um comparativo com as publicações na Faculdade de Educação Física - FEF-Unicamp/SP, Instituição de Ensino Superior da região sudeste, na qual de 1990 a 2014 aparecem 156 trabalhos (Milani; Soares; Bortoleto, 2015) somente em uma universidade. Os(as) autores(as) afirmam que “[...] a atuação junto à FEF de diversos professores da área gímnica ao longo desse período, bem como a existência de várias disciplinas da área, também parece ter contribuído para a produção nesse período” (Milani; Soares; Bortoleto, 2015, p.92).

Mesmo sabendo que existe um fluxo de docentes entrando e saindo das IES e muitos outros fatores que poderiam mostrar uma outra configuração em Minas Gerais, fica evidente nos estudos relacionados à Ginástica não se consubstanciaram nesse Estado como objeto destacado entre os trabalhos acadêmicos de graduação e pós-graduação. Os Trabalhos de Conclusão de Curso que aparecem no gráfico 2, demonstram uma concentração em poucos(as) docentes, principalmente na UFMG, seguido da UFTM e UFVJM, e não um objeto de estudo de todos(as) os(as) docentes que ministram as disciplinas de Ginástica. Ao cruzar com as pesquisas de pós-graduação realizadas na área da Ginástica dos(as) docentes de Ginástica, vemos que tanto na UFMG, como na UFVJM, ambos(as) pesquisaram ginástica no mestrado e doutorado.

Estabelecendo um comparativo em outros estados brasileiros, do mesmo modo, esse cenário está presente na região Norte do Brasil conforme Menegaldo et al. quando afirmam que:

Esse distanciamento entre a área de pesquisa na formação de pós-graduação e a área de atuação nas IES parece impactar a produção de conhecimento, haja vista o número significativamente baixo de publicações encontradas. Não foram encontrados em nenhuma das nove instituições a presença de grupos de pesquisa específicos em Ginástica registrados no Diretório de Grupos de Pesquisa da Plataforma Lattes/Carlos Chagas. (Menegaldo et al., 2022, p.285)

Com relação à atuação dos(as) docentes na Extensão Universitária, encontramos na UEMG um projeto de extensão, na UFJF e UFVJM dois projetos, na UFV e UFTM três projetos e na UFMG 11 projetos, totalizando 22 ações extensionistas. Essas ações relacionadas à extensão universitária têm forte conexão com a prática dos(as) universitários(as) como oportunidade de experimentarem a prática docente e serem instigados a pesquisarem sobre ginástica, fortalecendo a tríade universitária que é ensino, pesquisa e extensão, como aponta Barragán et al. ao dizer:

Observa-se, assim, um entendimento de que a Extensão potencializa a relação entre a Universidade e outros setores da Sociedade, com vistas a uma atuação profissional transformadora, voltada para os interesses e necessidades da população e implementando o desenvolvimento regional na área, bem como para a promoção de políticas públicas efetivas. (Barragán et al., 2016, p.42)

Notamos que oito docentes (32 %) não possuem em seus currículos analisados nenhum projeto de extensão e nem participação em eventos científicos ou esportivos na área da Ginástica, sugerindo que o ensino (disciplinas de graduação) não acontece de modo ampliado e conectado com ações de pesquisa e extensão.

Fonte: elaborado pelos autores

GRÁFICO 3 Projeto de Extensão, Eventos Esportivos e Científicos em Ginástica 

As Universidades públicas devem contemplar os três pilares do ensino superior, oferecendo ensino, pesquisa e extensão no seu trabalho. Nesse tópico observamos no gráfico 3 uma concentração significativa de eventos de Ginástica em apenas duas instituições, sendo a UEMG abarcando na somatória os 4 campus. Apontando-nos mais uma vez que o envolvimento com os estudos e pesquisas relacionados às ginásticas permanecem com os mesmos docentes que pesquisaram ginástica na pós-graduação.

Em relação às universidades que possuem grupos de pesquisa específicos em Ginástica, a análise dos dados com a Plataforma de Grupos de Pesquisa do CNPq, possibilitou encontrar dois grupos: NUPEGIC - Núcleo de Pesquisas em Ginástica e Circo - UFU; e Grupo de Estudos e Práticas das Ginásticas - UFVJM. O que representa 18,8% das IES com grupos de pesquisa na área da Ginástica. Considerando a importância da pesquisa, e, mais particularmente dos grupos de estudo/pesquisa para o desenvolvimento de uma área do conhecimento no contexto universitário, os dados anteriores revelam uma tímida presença da Ginástica nas IES do estado de Minas Gerais.

Por fim, ao analisarmos as publicações científicas em Ginástica dos(as) docentes (gráfico 4), percebemos uma concentração maior na forma de artigos, com ênfase em 12 docentes de seis IES. O restante dos(as) 13 docentes não possuem qualquer publicação sobre ginástica conforme consta nos currículos lattes no período da pesquisa.

Fonte: elaborado pelos(as) autores(as)

GRÁFICO 4 publicações - artigo, capítulo de livro e livro - em ginástica 

Destacamos que cada coluna do gráfico anterior se refere à produção de um(a) docente, de modo que 12 deles possuem produção na área. Logo, os outros 13 docentes (52%) não apresentam publicações na área da Ginástica, reforçando a tese de uma atuação de não-especialistas em cerca de metade do corpo docente das universidades públicas de Minas Gerais.

Podemos articular os dados apresentados nos gráficos 2, 3 e 4 que apresenta o percurso no currículo lattes dos(as) docentes na área da Ginástica, e observar uma concentração em quantidade de publicações na docente 1 (UFVJM). Já na UFMG, os docentes 1, 2 e 3 que ministram as disciplinas de Ginástica, demonstram uma atuação mais significativa, demonstrando uma consistência maior no tripé ensino, pesquisa e extensão da IES.

Estas constatações nos mostram a importância das universidades terem especialistas nas disciplinas de Ginástica para que o desenvolvimento desta área possa ser impulsionado nesta região e não apenas ficar restrito às disciplinas da grade curricular. As universidades que possuem especialistas que também produzem conhecimento na área e possuem extensões universitárias, são aquelas que mais impulsionam seus(suas) estudantes para produções científicas e extensão universitária em Ginástica, proporcionando uma formação em Ginástica mais ampla e efetiva.

Considerações Finais

Esse levantamento nos permitiu estabelecer uma relação entre quem leciona, estuda, pesquisa e produz conhecimento na área da Ginástica, juntamente com a importância desses especialistas nas disciplinas. Por meio desse ato conseguimos identificar aqueles(as) que atuam como pesquisadores(as), conhecer os grupos de pesquisa cadastrados no currículo lattes, analisar as produções científicas dos(as) docentes no campo da ginástica e discriminar as disciplinas de ginásticas lecionadas.

Embora nas análises indiquem que muitos docentes responsáveis pelas disciplinas de ginástica não atuem na extensão e na pesquisa, também vimos que o estado de Minas Gerais possui alguns(algumas) docentes com atuação especializada e prolongada, nucleando o desenvolvimento da Ginástica no estado. Notamos que aqueles que optaram por desenvolver suas dissertações e teses na área da Ginástica permaneceram com uma forte atuação na pesquisa e na extensão, ofertando uma representatividade significativa no estado. Seguindo a mesma tendência observada na região sul do país (Bento-Soares et al., 2024), das 20 IES que participaram do presente estudo, somente duas oferecem atividades de Ensino, Pesquisa e Extensão na área da Ginástica.

Certamente alguns(algumas) deles(as) possuem um significativo impacto para a área, propondo um desafio futuro para a Instituição de Ensino Superior, quando chegue o momento de selecionar novos(as) docentes por razão da aposentadoria ou qualquer outro motivo que leve a saída destes(as). Aliás, o planejamento em longo-prazo e estratégias de contratação por meio de concursos públicos bem desenhados parece ser um importante dispositivo para a preservação, ou não, de uma área do conhecimento.

Os(as) docentes da Universidade Federal de Minas Gerais e Universidade Federal Vale do Jequitinhonha e Mucuri se destacaram nos distintos aspectos estudados (publicações científicas, projetos de extensão etc.) mostrando a relevância dessa instituição para o estado de Minas Gerais, mesmo reconhecendo que há outros docentes/IES que vêm construindo uma atuação consistente na área da Ginástica de forma mais recente. Importante relembrar que, em contrapartida, nove docentes não possuem publicação ou participação em eventos científicos, esportivos ou culturais relacionados à Ginástica. Mesmo não sendo especialistas, a atuação no campo do ensino (disciplinas) precisaria vir acompanhada de outras ações na pesquisa/extensão para um desenvolvimento mínimo da área no contexto da IES. A ausência de um contexto com amplas oportunidades pode, a médio e longo prazo, enfraquecer uma área na formação inicial e, por conseguinte, na atuação posterior dos(as) egressos(as) nos mais distintos campos aplicados.

Parece-nos relevante ressaltar que os sites oficiais de algumas IES, mesmo sendo públicas e com o devido compromisso de transparência que essa condição requer, estão desatualizados ou mesmo inativos. As informações sobre o Projeto Político Pedagógico e a respectiva grade curricular é altamente limitada, dificultando a nossa pesquisa, mas também o amplo acesso da sociedade a essas imprescindíveis informações dos cursos superiores. Em muitos casos não constavam as informações mínimas, como ementas das disciplinas, docentes responsáveis, ou mesmo contato dos(as) coordenadores(as) e docentes. Do mesmo modo, a análise do Currículo Lattes mostrou a falta de atualização e o preenchimento incompleto e, no mínimo, relapso, em muitos casos. Nas regiões norte e sul do Brasil, conforme estudos derivados desse mesma pesquisa e já publicados (Menegaldo et al., 2022; Bento-Soares et al., 2024), a mesma condição foi observada, o que sugere não se tratar de um problema localizado no Estado de Minas Gerais.

Quanto às disciplinas de Ginástica, certamente futuros estudos sobre o conteúdo programático podem ajudar a aprofundar o entendimento aqui pretendido. Igualmente ao dito anteriormente, a atuação de muitos(as) docentes não-especialistas sugere que as disciplinas não estejam refletindo as problemáticas contemporâneas, ou incorporando a produção científica recente. Assim, vemos uma clara possibilidade, a ser estudada futuramente, da defasagem da formação inicial respeito ao “estado da arte” dessa área.

Entendemos que a pesquisa ora relatada teve um recorte temporal e que o quadro docente certamente teve mudanças nos últimos anos, podendo futuramente revelar uma condição distinta. Outro limite do estudo, foi a não inclusão na investigação das IES privadas, as quais possuem importante presença no estado. Temos constância, por meio de pesquisas como a de Marcus Ambrosio et al. (2020) da contribuição do setor privado na área da Ginástica, indicando a necessidade de ampliar o estudo no futuro.

Como previsto no projeto de pesquisa nacional, do qual esse estudo faz parte, a não consideração da produção e da contribuição de docentes que não atuam com o ensino da Ginástica para a área também expõe outro limite da investigação.

Cabe ressaltar que dos dados analisados, observamos que a maior relevância está no número de Trabalhos de Conclusão de Curso orientados, e pouca expressão de pesquisa no âmbito da pós-graduação, condição semelhante ao estudo sobre a região norte (Menegaldo et al., 2022), porém distinta ao da região sul (Bento-Soares et al., 2024). Notamos, portanto, com exceção da UFMG, uma atuação fundamentalmente na formação inicial (graduação), com alguns docentes liderando projetos de pesquisa e de extensão, ainda que em poucas IES.

Almejamos que essa pesquisa, dentro das limitações apresentadas, possa inspirar outros estudos, bem como, reflexões acerca de políticas públicas que possam fortalecer a atuação de docentes especializados no ensino superior, condição que favorece o desenvolvimento da área.

Referências

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Recebido: 01 de Setembro de 2024; Aceito: 01 de Janeiro de 2025

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