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Eccos Revista Científica

versão impressa ISSN 1517-1949versão On-line ISSN 1983-9278

Eccos Rev. Cient.  no.69 São Paulo abr./jun. 2024  Epub 03-Out-2025

https://doi.org/10.5585/eccos.n69.26543 

DOSSIÊ 69 - Educação e Literatura

ESCRITA CRIATIVA E AUTORIA: EDUCAÇÃO E LITERATURA PELAS TRILHAS DO DADAÍSMO

CREATIVE WRITING AND AUTHORSHIP: EDUCATION AND LITERATURE BY THE TRACKS OF DADAISM

ESCRITURA CREATIVA Y AUTORÍA: EDUCACIÓN Y LITERATURA POR LOS SENDEROS DEL DADAÍSMO

Eduarda da Silva Bittencourt1 
http://orcid.org/0000-0002-9835-0820

Juliana Sales Jacques2 
http://orcid.org/0000-0001-8372-1900

Karen Letícia Bueno da Silva3 
http://orcid.org/0009-0009-9692-2248

1Mestranda em Educação, Universidade Federal de Santa Maria, Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Santa Maria, Rio Grande do Sul - Brasil

2Doutora em Educação, Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Santa Maria, Rio Grande do Sul - Brasil

3Mestranda em Estudos Linguísticos, Universidade Federal de Santa Maria - UFSM, Santa Maria, Rio Grande do Sul - Brasil.


Resumo

O presente trabalho aborda o Dadaísmo como uma perspectiva educacional em interlocução com a literatura, considerando-a como mecanismo potencializador de desenvolvimento da escrita criativa e da autoria de professores e estudantes. Nesse contexto, objetiva-se relacionar os pressupostos teóricos básicos do movimento literário Dadaísta com a prática pedagógica de autoria em sala de aula. Para tanto, sob viés metodológico qualitativo, em interlocução com o movimento da vanguarda, analisamos um planejamento didático realizado, no segundo semestre de 2023, com estudantes de mestrado e doutorado de um Programa de Pós-Graduação em Educação de uma universidade pública brasileira. A proposta almejou apresentar uma abordagem lúdica da vanguarda que portou um caráter desconstrutivo do que até então era caracterizada a literatura. Por meio da escrita criativa, potencializada pela orientação disruptiva do movimento dadaísta, trilhamos caminhos de autoria reverberando, nos achados e aglutinados de letras, palavras, sons, frases, sentenças, sentidos produzidos sobre o cotidiano de cada estudante e suas diferentes visões sobre o mundo. Assim, inferimos que atividades dadaístas, na prática pedagógica, potencializam a pluralidade de saberes e fazeres no campo da linguagem, da literatura e da educação, contribuindo para a formação crítica e reflexiva dos estudantes, por meio da autoria no movimento da escrita criativa.

Palavras-chave: dadaísmo; educação; literatura; prática pedagógica.

Abstract

This paper addresses Dadaism as an educational perspective in dialogue with literature, considering it as a potentiating mechanism for the development of creative writing and authorship of teachers and students. In this context, the objective is to relate the basic theoretical assumptions of the Dadaist literary movement with the pedagogical practice of authorship in the classroom. Therefore, under a qualitative methodological bias, in dialogue with the avant-garde movement, we analyzed a didactic planning carried out, in the second semester of 2023, with master’s and doctoral students of a Post-Graduate ProgramGraduation in Education from a Brazilian public university. The proposal aimed to present a playful approach to the avant-garde that carried a deconstructive character of what until then was characterized by literature. Through creative writing, enhanced by the disruptive orientation of the Dadaist movement, we tread paths of authorship reverberating, in the findings and agglutinated letters, words, sounds, phrases, meanings produced about the daily life of each student and their different views on the world. Thus, we infer that Dadaist activities, in pedagogical practice, enhance the plurality of knowledge and doing in the field of language, literature and education, contributing to the critical and reflective training of students through authorship in the movement of creative writing.

Keywords: dadaism; education; literature; pedagogical practice.

Resumén

El presente trabajo aborda el Dadaísmo como una perspectiva educativa en interlocución con la literatura, considerándola como mecanismo potencializador de desarrollo de la escritura creativa y de la autoría de profesores y estudiantes. En este contexto, el objetivo es relacionar los presupuestos teóricos básicos del movimiento literario dadaísta con la práctica pedagógica de autoría en el aula. Para ello, bajo sesgo metodológico cualitativo, en interlocución con el movimiento de la vanguardia, analizamos una planificación didáctica realizada, en el segundo semestre de 2023, con estudiantes de maestría y doctorado de un Programa de PostgradoLicenciado en Educación de una universidad pública brasileña. La propuesta tenía como objetivo presentar un enfoque lúdico de la vanguardia que tenía un carácter deconstructivo de lo que hasta entonces se caracterizaba por la literatura. Por medio de la escritura creativa, potenciada por la orientación disruptiva del movimiento dadaísta, trillamos caminos de autoría reverberando, en los hallazgos y aglutinados de letras, palabras, sonidos, frases, sentencias, sentidos producidos sobre la vida cotidiana de cada estudiante y sus diferentes visiones sobre el mundo. Así, inferimos que las actividades dadaístas, en la práctica pedagógica, potencian la pluralidad de saberes y hacer en el campo del lenguaje, de la literatura y de la educación, contribuyendo para la formación crítica y reflexiva de los estudiantes por medio de la autoría en el movimiento de la escritura creativa.

Palabras clave: dadaísmo; educación; literatura; práctica pedagógica.

Considerações iniciais

O movimento literário Dadaísta é considerado a vanguarda da desconstrução, uma arte que rompe todos os padrões regidos anteriormente no fazer literário. Ainda que não haja uma definição do que seria a palavra que originou o movimento “Dadá” e que o movimento seja pouco discutido tanto em ambientes acadêmicos como em escolas, ele é de suma importância para a construção do que hoje compreendemos como literatura: uma arte que busca a expressão humana. Seus pioneiros, membros do movimento, foram intitulados como principais criadores, mas não há quem, de fato, criou a vanguarda literária. A nosso ver, é possível que tenha sido uma construção coletiva em forma de protesto à Primeira Guerra Mundial.

Diante disso, argumentamos que os movimentos de saberes e fazeres inerentes às práticas dadaístas, em sala de aula, podem potencializar a escrita criativa dentro do ambiente escolar, pois sua forma disruptiva aguça a criatividade e auxilia o estudante a se expressar através da arte. No que tange à criatividade, a escrita criativa tem um papel crucial para o desenvolvimento dessa habilidade, pois através dela os estudantes tornam-se autores do seu fazer artístico.

A questão da autoria, nos preceitos bakhtinianos (Bakhtin, 2011), concretiza-se como um acontecimento único e inalterável no texto. É através da consciência autoral que o autor irá se projetar representativamente como um produtor de signos. Ao pensar em signos, pensamos, também, no sentido que eles proporcionam, sentidos esses que não são isolados de ideologias discursivas.

Assim, no primeiro momento desta pesquisa, apresentamos a contextualização histórica da vanguarda Dadaísta tendo como referencial teórico autores como Kobs (2010), Elger (2010) e Marques (2014), além de abordarmos a poesia de Tristan Tzara, um dos principais membros do movimento. Posteriormente, com arcabouço teórico de pesquisadores como Fuentes e Ferreira (2017), Casson (2009), Carnaz (2013), Torres e Irala (2014) e com uma poesia do Hugo Ball - autor Dadaísta -, propomos uma abordagem voltada à sala de aula, utilizando metodologias ativas que tornam o estudante protagonista no seu próprio processo de aprendizagem. É importante salientar, ademais, que será exposto uma plataforma digital intitulada “padlet”, uma ferramenta que permite não só uma elaboração criativa, como também colaborativa. Ela proporcionou a criação de um mural sobre o tema proposto, possibilitando, a apreensão das contextualizações de forma lúdica. Essa proposta foi aplicada para estudantes de pós graduação, no entanto, nada impede a aplicação em uma escola de ensino médio, pois a atividade é destinada para a apreensão dos pressupostos Dadaístas, como também para a ludicidade do saber, ou melhor, o desenvolver da escrita criativa.

O movimento dadaísta

A escrita literária, até o momento da chegada da Vanguarda Dadaísta, era caracterizada como uma literatura erudita, com sua estrutura semanticamente fechada, formal e com forte rigor estético. A chegada das Vanguardas, juntamente ao Dadaísmo, marcou a desconstrução de regras e qualquer tradição que regia a literatura. O movimento “Dadá” começou a ser formado em 1916, executado por Hugo Ball no cabaré Voltaire na cidade de Zurique na Suíça, lugar esse que abrigava os imigrantes que escapavam da guerra. O intuito do movimento era romper com as tradições literárias e sociais de uma época sombria. Sobre o Dadaísmo, Kobs (2010, p. 10) discorre:

De fato, a relação com o Dadaísmo, estabelecida anteriormente, sustenta-se mais pelo uso da justaposição e pela ruptura das obras com o padrão artístico vigente, exaltando todo o desejo e a necessidade de liberdade que o movimento preconizava. [...] Para o Dadaísmo, não havia regras nem sequência. O desafio era justamente confrontar o todo equilibrado que predominava na maioria das obras de arte tradicionais.

Desse modo, os aventureiros que se uniram ao grupo dadaísta eram considerados parte de um movimento “anti artístico” (Elger, 2010), caracterizado por desconstruir valores artísticos, críticos e por modificar a noção do público sobre a arte feita até então. Conforme Kobs (2010, p. 6), “imperavam o improviso e a aleatoriedade na criação de uma arte que tinha como princípio básico a reorganização de elementos previamente dados”. Em outras palavras, com seu início marcado pela Primeira Guerra Mundial e a destruição inerente a ela, o intuito da Vanguarda era realizar arte disruptiva. Assim, correlacionando com Marques (2014, p.17):

Criaram-se novas formas de expressão, como por exemplo, poemas sonoros fonéticos, em que as palavras eram divididas em sílabas fonéticas individuais, reagrupadas em uma nova ordem e, assim, originando um nova função; e poemas simultâneos, em que os intérpretes liam todos ao mesmo tempo os textos apresentados.

À vista disso, torna-se importante salientarmos como era feita a composição desses poemas, pois ainda que pregassem para si a concepção de uma arte desconstruída, havia uma abordagem peculiar dessa vanguarda em relação à expressão. Mencionamos, a título de ilustração, os “poemas aleatórios”:

Para realizar um poema dadaísta, pegue um jornal. Pegue numa tesoura. Escolha um artigo com o comprimento do poema desejado. Recorte cada palavra que compõe o artigo e coloque-a num saco. Chocalhe ligeiramente o saco. Depois, retire um fragmento de cada vez, sem ordem definida. Escreva tudo conscientemente. O poema será similar a si. (ELGER, 2010, p 13).

A citação supracitada, é um exemplo de poema, construído por meio da aleatoriedade -ponto de partida mais importante para a produção e a escrita dadaísta. O poema acima é de Tristan Tzara, conhecido como um dos fundadores do dadaísmo. A escrita dadaísta de Tzara pode ser interpretada como, também, um poema visual, como visto a seguir:

Fonte: TheArtStory.org Acesso em:26 de abril de 2024.

Figura 1 Poema de Tzara 

Por mais que Tzar também fosse um artista visual, foi com a escrita que ficou mais conhecido; escreveu manifestos dadaístas, organizou apresentações no cabaré Voltaire e foi criador do Dadaglobe, um movimento destinado a catalogar as artes dadaístas. Tzan subverte o que, anteriormente, tinha-se como a noção artística ao brincar, intencionalmente, com as posições dos recortes.

Diante do fato da vanguarda Dadaísta marcar a desconstrução do que, anteriormente, era conhecido como o padrão vigente de se fazer literatura e, levando em consideração que o nosso foco principal é a escrita literária, discutiremos a partir de agora a prática pedagógica, demonstrando um possível modelo de abordagem em sala de aula envolvendo o dadaísmo.

Um modelo de abordagem

Tendo em vista que um plano de aula marcado pela práxis visa a tornar o estudante ativo no seu processo de aprendizagem, caminhamos para uma conscientização do conteúdo no qual é trabalhado. Entretanto, para antes da análise do conteúdo, iremos, primeiramente, caracterizar o trabalho pedagógico executado através da aula ministrada. O trabalho pedagógico é o trabalho feito pelos professores em sala de aula. Para que ele flua é necessário estudo, tempo de aprimoramento, abordagens científicas, o que, rigorosamente, é o esperado desses profissionais. Todavia, para além, o trabalho pedagógico também é considerado uma produção do conhecimento individual e coletivo, dado que o trabalho pedagógico não é somente sobre estar em sala de aula, observe:

O trabalho pedagógico, portanto, é uma prática social munida de forma e conteúdo, expressando dentro das suas possibilidades objetivas as determinações políticas e ideológicas dominantes em uma sociedade ou, ainda, busca a explicitação da superação destas determinações (Frizzo; Ribas; Ferreira, 2013, p. 556 apud Ferreira, 2018, p. 594).

Essa citação nos direciona para uma possível estruturação de um saber crítico em relação ao ato de ensinar, ou melhor, o trabalho pedagógico vai além do ambiente escolar, pois é heterogêneo e flexível em sentidos (Fuentes, Ferreira, 2017).

À luz disso, a proposta de modelo de abordagem em relação ao Dadaísmo que apresentaremos partirá de uma visão didática que leva em consideração as metodologias ativas, que nada mais são do que tornar o estudante ativo no seu próprio aprendizado, levando a um desenvolvimento de um saber para além de uma mera memorização. A literatura possui um papel fundamental nesse processo, pois proporciona um olhar crítico e lúdico para se experienciar o mundo através das letras, palavras, fonemas; para além, a literatura contribui na aglutinação da tríade: história, teoria e crítica. No que concerne a história, encontramos períodos específicos, escolas literárias, datas importantes; para a teoria, a concepção de autores, os livros fundamentais para cada período; e, para a crítica, a capacidade de criação, discernimento e leitura da realidade ao seu redor. Conforme Cosson (2009, p.47), “a literatura é uma prática e um discurso, cujo funcionamento deve ser compreendido criticamente pelo estudante. Cabe ao professor fortalecer essa disposição crítica, levando seus estudantes a ultrapassar o simples consumo de textos literários”. Essa menção nos faz refletir que o papel do professor é de mediador do processo de aprendizagem.

A partir de agora, após a contextualização de como é possível adotar uma abordagem em que os estudantes se tornem ativos no processo, discorremos as etapas de um plano de aula, aplicado por uma das autoras deste artigo, para uma disciplina de um Programa de Pós-Graduação em Educação, de uma universidade pública federal brasileira. É válido salientar que no grupo houve estudantes de mestrado e doutorado, sendo que a regente responsável pela turma, também foi participante da atividade.

A primeira etapa partiu de uma imagem criada pela autora e idealizadora da prática, o intuito era fazer com que os participantes realizassem a ação de inferir possíveis conceitos e características da Vanguarda Dadaísta, de acordo com a figura 2:

Fonte: Autoria própria, 2024.

Figura 2 Dadaísmo 

Como se pode observar na imagem acima, a ideia principal era que os estudantes pudessem inferir suas percepções acerca da imagem: o que é dadaísmo? Por que a imagem contém tantas colagens? Será que essas cores fazem referência ao movimento artístico?, para, assim, terem uma noção inicial que auxiliasse na interpretação do Dadaísmo como uma literatura desconstrutivista que foge dos padrões literários antigos vigentes. Para isso, entendemos que “interpretar é dialogar com o texto tendo como limite o contexto. Esse contexto é de mão dupla: tanto é aquele dado pelo texto quanto o dado pelo leitor; um e outro precisam convergir para que a leitura adquira sentido” (Cosson, 2009, p. 41). Em outras palavras, para além da visão óptica, busca-se um olhar de criticidade do que está sendo exposto, pois “ler é bem mais do que seguir uma linha de letras e palavras. Também não se restringe a uma decodificação, nem depende apenas do texto.” (Cosson, 2009, p.39). Justamente por essa concepção é que foi decidido mostrar a imagem antes de adentrar ao conteúdo, para que os estudantes trouxessem a sua visão de mundo antes de realmente compreenderem o que é o movimento.

Após o primeiro momento, foi apresentado, para a turma, a parte teórica do Dadaísmo; seus autores, vídeos de declamações, músicas dadaístas, imagens de poemas. Para esse momento, foi utilizada a ferramenta padlet. Na ferramenta, é possível a inserção de links, imagens, vídeos que possam contribuir na sua construção. É importante ressaltar que a plataforma é de fácil acesso e, se quisermos uma criação de mural coletiva, apenas é necessário o compartilhamento entre pessoas e a permissão pelo responsável para tornar os convidados editores na construção do padlet. Essa plataforma online possibilita a criação de murais colaborativos, interativos e até mesmo criativos. Há uma gama de possibilidades e ideias para serem desenvolvidas, o mais importante é: o padlet permite reunirmos as principais ideias e características de determinado assunto de forma lúdica, podendo ser feito, também, em tempo real com os estudantes. Na imagem abaixo (Figura 3), podemos observar a criação apresentada aos estudantes como ação explicativa da atividade no padlet:

Fonte: Autoria própria,2024.

Figura 3 Exploração sobre dadaísmo 

Na imagem, é possível perceber os movimentos que se seguiram na articulação da aula. Na primeira publicação1, o intuito era trazer as primeiras considerações da vanguarda, como, por exemplo, quando surgiu e o local. De forma despojada, foi apresentado um poema encenado e recitado por Hugo Ball. Na tentativa de ilustrar para a turma como era reproduzida a literatura, esse poema demonstra a forma como os dadaístas viam a linguagem; palavras que se aglutinam e sonoramente se encaixam, como podemos ver a seguir (Figura 4):

Fonte: DADA. Disponível em: https://www.aklein.vsfd.hoodmuseum.dartmouth.edu/karawane. Data de acesso em: 26 de Abril de 2024

Figura 4 Poema de Ball 

O intuito da exposição do poema Karawane de Hugo Ball foi gerar um desconforto mediante tudo aquilo que já se tem estabelecido como padrão, pois é dessa forma que conseguimos adentrar nas especificidades da vanguarda dadaísta. No que concerne à segunda publicação, o foco deteve-se em apresentar os principais autores da vanguarda, além de trazer as possíveis contextualizações sobre o porquê de o movimento ter sido intitulado “Dadá”. Posteriormente, na terceira, foi exposto o que, na literatura, foi considerado o Dadaísmo, algumas imagens; em relação a quarta e última publicação do padlet, foi destinada a parte prática da atividade, pois, como argumenta Cosson (2009, p.47-48):

Para tanto, é necessário que o ensino da Literatura efetive um movimento contínuo de leitura, partindo do conhecido para o desconhecido, do simples para o complexo, do semelhante para o diferente, com o objetivo de ampliar e consolidar o repertório cultural do aluno. Nesse caso é importante ressaltar que tanto a seleção das obras quanto a prática em sala de aula devem acompanhar esse movimento.

Com base nesses movimentos de continuidade quanto à leitura, movimentos que partem do que já se conhece para o que nunca se viu, de um nível menor de dificuldade para um maior, daquilo que já é conhecido para o que vai vir a ser, são movimentos que se fixam no imaginário do estudante. A atividade que foi desenvolvida, depois desses dados, possibilitou a ida, do que até então era simples, para o complexo, porque foi preciso a construção de um poema dadaísta. Em outras palavras, uma abordagem que possibilite uma participação ativa do estudante faz com que seu aprendizado seja de uma experiência própria, pois o professor apenas faz o papel de mediador do processo.

Essa seleção cuidadosa de materiais iniciais fez com que se pudesse partir para algo mais profundo, fazendo com que os estudantes tivessem noção da parte teórica da vanguarda, até a prática, ou melhor, a construção da arte. À título de ilustração, abaixo faremos a demonstração de como foi o resultado das criações, note:

Fonte: Autoria própria,2024.

Figura 5 Poemas dos estudantes 

Fonte: Autoria própria.

Figura 6 Poema dos estudantes, uma visão sobre Dadaísmo 

A expectativa para a atividade era a percepção dos estudantes acerca de como o Dadaísmo é uma arte que se sente nos dedos, ou seja, uma arte que possibilita enxergar de formas diferentes o fazer literário. Para isso, foram levadas revistas, colas, tesouras, papéis em branco, ferramentas que possibilitaram a produção. A orientação para o desenvolvimento da atividade foi escolher diferentes textos disponíveis nas revistas, recortar palavras aleatórias, embaraçá-las e ver o poema se formando.

A atividade proporciona, também, o desenvolvimento da escrita criativa, pois o movimento de embaraçar as palavras e as aglutinar em um segmento não lógico, somente sentido, aguça a criatividade. Pensando que o planejamento da aula era destinado a estudantes de pós-graduação, acostumados com a linguagem acadêmica e não com atividades dadaístas, essa atividade também seria um desafio. Em concordância com Carnaz (2013, p.29) “a escrita criativa constitui uma das melhores formas de estimular os processos de pensamento, imaginação e divergência”. Relacionando com Figueiredo (2013):

[...] escrita criativa é todo o tipo de texto escrito, exceto o comentário, e que pode ser produzido a partir de textos literários, ou seja, a partir da leitura e da interpretação de outros textos. A escrita é, portanto, um ato de reescrita, que assenta em modelos lidos e /ou interpretados (p.28).

Em relação à referência mencionada acima, constatamos que a escrita criativa nada mais é que habilidade de criação e recriação de textos literários ou não literários. Dessa forma, o trabalho nas escolas, por parte do professor, é de mediador desse processo de construção do conhecimento.

A autoria, no meio escolar, faz com que o sujeito ativo - aqui poderia chamá-lo de autor - se engendre dentro da sua própria estilística. Quando há a percepção dos movimentos enunciativos que atravessam e fixam o fazer autoral, também se percebe a necessidade da mutabilidade documental. Um texto nunca será somente as palavras estáticas, um professor nunca será somente o planejamento da sua aula, uma pesquisa nunca será somente a finalização de um projeto. Se o autor compreende, ou tenta compreender, o tempo presente, ele também compreende, ou deve compreender, a fluidez dessa cronologia.

Desse modo, podemos dizer que a consciência autoral é a própria consciência da totalidade. Por detrás da materialidade do texto perpassa a própria intertextualidade: assim como um texto nunca estará sozinho, um autor nunca será isolado. Suas percepções estéticas, sociais, discursivas são movimentadas pelas interações enunciativas. É através do convívio com o outro que o indivíduo fortalece e aprimora a própria identidade como autor.

De início a atividade confundiu a turma, pois não precisam usar a lógica, e sim a fluidez. Isso nos remete à representação de uma visão já estabelecida do que é a literatura desde a infância; uma ideia de construção regida por regras gramaticais, com estruturas semânticas rígidas e, quando falamos sobre poemas, a criação feita com rimas ricas e bem estruturadas. No entanto, após esse instante, a atividade andou naturalmente e de forma espontânea, fazendo com que os estudantes se tornassem protagonistas do saber. Torres e Irala (2014, p.70) defendem que,

ao deslocar a centralidade do processo educativo do professor para o aluno, este se torna protagonista da ação educativa e a metodologia do professor-transmissor e fonte última do saber não é mais válida. Sua nova postura é de um facilitador da aprendizagem, estabelecendo condições de aprendizagem propícias para que os alunos se desenvolvam naturalmente em busca da criação e recriação de significados a partir de suas próprias experiências e na sua interação com o meio físico e social.

A atividade propôs que os estudantes saíssem de sua zona de conforto, visto que muitos deles também são professores e, dessa forma, planejam e vivenciam as aulas como educadores e não como estudantes. Assim, a atividade experienciou o outro lado de uma sala de aula. A expectativa da autora era que eles conseguissem assimilar as concepções principais do movimento Dadaísta e a importância desse movimento para a literatura contemporânea, visto que essa vanguarda trouxe uma nova roupagem para o fazer literário.

Durante o processo de criação, se pode averiguar que, em alguns momentos, os estudantes escolhiam as palavras e as recortavam de forma pensada e não sentida, em certos períodos foi necessário reforçar a proposta dessa prática, instigando a retomada inicial da aula na qual foram expostos os principais aspectos do Dadaísmo.

Ao final, com intuito de refletir sobre a prática realizada, foi proposto aos participantes uma explanação sobre seus poemas, provocando a turma a refletir sobre a desconstrução que o Dadaísmo trouxe para a literatura, os aspectos principais para a construção dela, incluindo o processo de criação e, assim, proporcionando um diálogo sobre a vanguarda. Os estudantes puderam ressaltar as concepções principais apreendidas desde o início do trabalho feito, afinal o nosso principal objetivo era a percepção da ruptura do, até então, considerado fazer tradicional literário, a visão desconstrutivista das regras e a concepção ou estruturação de uma nova arte.

O ser professor está envolvido em conceitos previamente estabelecidos pela própria profissão; deve-se planejar aulas, ser criativo, lúdico, ter múltiplas ferramentas de ensino para que possa estimular o processo de aprendizagem ativa por parte do aluno.

A autoria está imbricada no trabalho do professor, pois esta exerce uma função similar para o texto, assim sendo, a autoria pode ser descrita por várias formas, dentre várias noções categóricas e estéticas, por diferentes pensadores. Ao escolhermos dar voz a autoria pela noção bakhtiniana (Bakhtin, 2011), escolhemos abordar a autoria como um acontecimento único e irreparável na vida do texto (Pampa, 2014). A marca do autor estará eternamente fixada ao texto; seu estilo, sua forma de ler o presente, ou seja, o seu próprio tempo, dão voz ao seu fazer autoral e ao seu discurso.

Assim, todo esse processo de autoria, construção e expressividade é desenvolvido, principalmente, na escola, pois é quando os estudantes têm contato com os períodos literários, gêneros textuais diversos. Isso nos remete ao papel do professor como um sujeito ímpar no desenvolvimento do pensamento crítico do estudante

Considerações finais

Em suma, neste artigo, analisamos a importância do movimento literário Dadaísta para a construção de uma literatura voltada ao sentir e não apenas pela busca da escrita perfeita, visto que desempenhou um papel significativo na disseminação da literatura não erudita, porquanto sabemos que, naquele período, a arte era destinada, principalmente, à elite que obtinha maior capital, e não àqueles de classe baixa nem àqueles afetados com a guerra. Pensar em literatura, atualmente, é pensar em uma literatura mais leve e mais sentida, legado esse deixado pelos dadaístas.

É necessário, pontuarmos, ademais, que o diálogo acerca desse tema faz com que os estudantes se familiarizem com o fazer artístico e literário, sendo esse fazer caracterizado pela criatividade e pela desconstrução, sendo capaz de torna-lo protagonista do seu aprendizado. Em outras palavras, o professor torna-se o mediador desse processo, por isso vimos a necessidade de um olhar voltado ao debate e ao desenvolvimento de uma abordagem em sala de aula, abrindo o espaço para a escrita criativa, que nada mais é do que a ampliação da imaginação sobre a escrita o que, no mundo acadêmico, é pouco falado ou feito.

Como nosso intuito era relacionar os pressupostos teóricos do movimento dadaísta com a prática em sala de aula, propomos uma abordagem lúdica que pode ser aplicada tanto para estudantes da graduação, da pós-graduação quanto do ensino médio. Os resultados obtidos com a atividade realizada foram satisfatórios, dado que os estudantes entregaram-se para o desenvolvimento de uma arte não erudita. Mesmo notando uma certa dificuldade, esta foi superada através do sentir, da escrita criativa e da construção de uma autoria. A importância da escrita criativa para a formação da autoria se dá através da busca pela expressão, não só do mundo ao seu redor, mas daquilo que se passa na subjetividade do ser. E o Dadaísmo possui um caráter autêntico em relação a expressividade, visto que a forma como se faz a arte é por meio de um sentir disruptivo.

Para citar - (ABNT NBR 6023:2018)

BITTENCOURT, Eduarda da Silva; JACQUES, Juliana Sales; SILVA, Karen Letícia Bueno da. Escrita criativa e autoria: educação e literatura pelas trilhas do dadaísmo. Eccos - Revista Científica, São Paulo, n. 69, p. 1-14, e26543 abr./jun. 2024. DOI: https://doi.org/10.5585/eccos.n69.26543

1Publicação é um termo utilizado no site padlet.com para os segmentos que se aglutinam no mural - outro termo utilizado na plataforma.

ReferênciaS

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Recebido: 27 de Abril de 2024; Aceito: 09 de Maio de 2024

Editoras: Profa. Dra. Ana Maria Haddad Baptista e Profa. Dra. Marcia Fusaro

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