SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.20colonialidade da educação infantil: análise crítica das práticas pedagógicas em uma instituição em contexto periféricoquem está cansado de michel foucault? pensando a relação entre a produção da infância e a decolonialidade a partir da perspectiva foucaultiana índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Compartilhar


Childhood & Philosophy

versão impressa ISSN 2525-5061versão On-line ISSN 1984-5987

child.philo vol.20  Rio de Janeiro jan./dez 2024  Epub 31-Maio-2024

https://doi.org/10.12957/childphilo.2024.81050 

dossier: "confronting adultcentrism in educational philosophies and institutions"

o lugar dos bebês no confronto com o adultocentrismo: possibilidades a partir da cartografia e da filosofia da diferença

the place of babies in confronting adult-centrism: possibilities based on cartography and the philosophy of difference

el lugar de los bebés frente al adultocentrismo: posibilidades basadas en la cartografía y la filosofía de la diferencia

vanessa vanin chavesI 
http://orcid.org/0000-0002-7946-5702

vinicius bertoncini vicenziII 
http://orcid.org/0000-0001-8208-2131

1universidade do planalto catarinense, brasil - E-mail: vanessavanin@uniplaclages.edu.br

2universidade do planalto catarinense, brasil - E-mail: viniciusvicenzi@uniplaclages.edu.br


resumo

Este artigo constitui-se como um ensaio para pensar práticas pedagógicas com bebês a partir de uma filosofia da infância que não esteja moldada por discursos adultocêntricos. O debate em torno do enfrentamento do adultocentrismo tem historicamente se concentrado mais sobre as crianças do que sobre os bebês. O presente artigo busca lançar questões a respeito de se pensar os bebês não a partir da visibilidade dos seus rótulos, marcados por uma visão cronológica, mas a partir de uma concepção que permita perceber as suas ações e os seus desenvolvimentos desde a sua diferença imanente. Subdividido em seções que envolvem a perspectiva do devir-criança de Gilles Deleuze e a concepção de cartografia de Gabriela Tebet, também nos permite imaginar outros cenários para a infância e uma possibilidade de perceber os bebês como protagonistas. Buscamos, assim, a compreensão de novas percepções com os bebês, buscando repensar a relação que travamos com eles. Pensar os bebês a partir de um discurso devir-criança é estudar as redes que constituem a infância a fim de compreender os movimentos entre os planos de imanência e de organização dos bebês. Não é estudar o indivíduo, assim como não é estudar nenhuma verdade objetiva dada a priori. Desse modo, o pesquisador processa os novos espaços e percorre caminhos em busca de conhecer quem são esses sujeitos que surgem como forma de ruptura. Propomos colocar em questão as ideias que envolvem a infância explorando os ideais pedagógicos modernos que a marcaram, na busca de vivenciar a infância e na compreensão de uma prática pedagógica com bebês capaz de ser um tempo de alegria e de intensidade da vida.

palavras-chave: filosofia da infância; bebês; adultocentrismo; cartografia; devir-criança.

abstract

This article is an essay to think about pedagogical practices with babies from a philosophy of childhood that is not shaped by adult-centric discourses. The debate around coping with adultcentrism has historically focused more on children than on babies. This article seeks to raise questions about thinking this age not from the visible labels, marked by a chronological view, but from a conception that allows one to perceive their actions and their developments from their imminent difference. Subdivided into sections that involve the perspective of the child-becoming of Gilles Deleuze and the conception of cartography of Gabriela Tebet, this article allows us to imagine other scenarios for childhood and a possibility of perceiving babies as protagonists. Thus, we seek to understand new perceptions with babies, seeking to rethink the relationship we have with them. Thinking babies from a becoming-child discourse is to study the networks that constitute them in order to understand the movements between the immanence and organizational plans of babies. It is not to study the individual, as it is not just to study any objective truth given a priori. Thus, the researcher processes the new spaces and walks paths in search of knowing who these subjects are that arise as a form of rupture. We propose to question the ideas that involve childhood exploring the modern pedagogical ideals that marked it, in the pursuit of experiencing childhood and in the understanding of a pedagogical practice with babies capable of being a time of joy and intensity of life.

keywords: philosophy of childhood; babies; adult-centrism; cartography; becoming-child

resumen

Este artículo se constituye como un ensayo para pensar prácticas pedagógicas con bebés a partir de una filosofía de la infancia que no esté enmarcada por discursos adulto-céntricos. El debate en torno al enfrentamiento del adultocentrismo se ha concentrado históricamente más en los niños que en los bebés. El presente artículo busca pensar a los bebés no a partir de la visibilidad de sus etiquetas, marcados por una visión cronológica, sino a partir de una concepción que permita percibir sus acciones y su desarrollo desde su diferencia inmanente. Subdividido en secciones que envuelven la perspectiva del devenir-niño de Gilles Deleuze y la concepción de cartografía de Gabriela Tebet, este artículo nos permite imaginar otros escenarios para la infancia y una posibilidad de percibir a los bebés como protagonistas. Buscamos, así, la comprensión de nuevas percepciones con los bebés, repensando la relación con la que trabajamos con ellos. Pensar los bebés a partir de un discurso devir-niño es estudiar las redes que constituyen la infancia a fin de comprender los movimientos entre los planos de inmanencia y de organización de los bebés. No es estudiar al individuo, así como no es estudiar ninguna verdad objetiva dada a priori. De ese modo, el investigador procesa los nuevos espacios y recorre caminos en busca de conocer quiénes son esos sujetos que surgen como forma de ruptura. Proponiendo poner en cuestión las ideas que envuelven la infancia, explorando los ideales pedagógicos modernos que la marcaron, en la búsqueda de vivenciar la infancia y en la comprensión de una práctica pedagógica con bebés capaz de ser un tiempo de alegría y de intensidad de la vida.

palabras-clave: filosofía de la infancia; bebés; adultocentrismo; cartografía; devinir-niño

o lugar dos bebês no confronto com o adultocentrismo: possibilidades a partir da cartografia e da filosofia da diferença

Quiçá consigamos deixar de nos preocupar tanto em transformar as crianças em algo distinto do que são […] Quem sabe possamos encontrar um novo início para outra ontologia naquela que já não busca normatizar o tipo ideal ao qual uma criança deva se conformar, ou o tipo de sociedade que uma criança tem que construir, mas que busca promover, desencadear, estimular nas crianças, e também em nós mesmos, essas intensidades criadoras […] Walter Kohan

introdução

O debate em torno do enfrentamento ao adultocentrismo tem historicamente se concentrado mais sobre as crianças do que sobre os bebês. O presente artigo busca lançar questões a respeito de se pensar os bebês não a partir da visibilidade dos seus rótulos, marcados por uma visão cronológica, mas a partir de uma concepção que permita perceber as suas ações e os seus desenvolvimentos desde a sua diferença imanente.

No contexto social em que estamos inseridos, a infância equilibra-se entre uma ideologia arcaica, que a concebe ainda em termos de seu tempo cronológico, desenvolvimentista, e ensaios de uma leitura mais contemporânea, que a pensa à luz do que se convencionou chamar de uma filosofia da infância. Se o impacto do adultocentrismo sobre a infância é determinante em uma série de práticas pedagógicas com as crianças, ele é ainda mais forte na prática pedagógica com os bebês. Esses, por de fato ainda não possuírem fala, são pensados a partir de sua ausência. Essa relação que travamos com os bebês é, certamente, o resultado de um conceito histórico, e compreendê-lo é fundamental para o estudo das novas percepções.

Fontanel e D’Harcourt (2010) esclarecem que as vivências dos bebês antes do século XVIII eram compostas por obstáculos que os incapacitavam de explorar seu corpo e o ambiente em que estavam inseridos. Propagou-se essa concepção acreditando-se que os bebês eram inferiores aos adultos devido à sua falta de maturidade. Buscava-se um modelo ideal de criança e seu comportamento perfeito numa abordagem mecanizada. As ideias que prevaleciam eram de que a infância fazia parte de uma cronologia, uma fase pela qual todos passavam.

Tratava-se de uma infância como etapa da vida num tempo contínuo, desconsiderando a existência de bebês com características expressivas distintas. No lugar de procurar entender e aceitar as diferenças e semelhanças da infância, atribuíam-se aos bebês modos de pensar moldados a partir das idealizações dos adultos sob o conceito genérico de criar e nutrir.

Esse pensamento passou a reger a sociedade estabelecendo valores e práticas educacionais que uniformizavam a singularidade dos bebês. Repleto de mitos e ideais, buscava um modelo preparatório que pensasse a infância a partir do desenvolvimento de habilidades, talentos e princípios, desconsiderando suas diferenças. A preocupação era em proporcionar uma criação adequada, priorizando a quantidade de tempo, sem levar em consideração os devires.

Os estudos da infância vieram a ocupar uma centralidade somente em épocas recentes, quando então se reconheceria que os bebês precisavam de um tratamento especial, uma percepção de que são diferentes e, portanto, dignos de serem ouvidos, respeitados. Tebet (2018) discute a ideia de uma infância que não se relaciona com uma idade específica, mas, sim, a uma experiência da diferença, da inventividade, como um devir-criança, de acordo com Deleuze (1992)

Tanto Deleuze (1992) quanto Kohan (2005b) nos direcionam para pensar a infância como experiência, sendo os bebês protagonistas das vivências e dos afetos para além dos paradigmas adultistas. Tebet (2018) dialoga que a infância como experiência é um fluxo de intensidade e de desejo, que desterritorializa o território em que se habita.

A ideia da infância carrega possibilidades de acontecimento, inusitado, disruptivo, escape que nos interessa para pensar a diferença. O que se quer dizer é que a experiência da infância não está vinculada unicamente à idade, à cronologia, a uma etapa psicológica ou a uma temporalidade linear, cumulativa e gradativa, já que ligada ao acontecimento; vincula-se à arte, à inventividade, ao intempestivo, ao ocasional, vinculando-se, portanto, a uma des-idade. Dessa forma, como experiência, pode também atravessar, ou não, os adultos (Barros; Munari; Abramowicz, 2017, p. 122).

Isso permite-nos pensar a infância como um espaço que permanece fora dos nossos esquemas por demais interpretativos, questionando o que ainda não entendemos. Persiste a ideia de encontrar um novo início e uma outra política da infância, afastando os bebês de maus-tratos e descuidos, imaginando outros cenários com a possibilidade de percebê-los como protagonistas.

olhares outros: os bebês e o adultocentrismo

A maneira como observamos a infância nos dias atuais decorre das inúmeras mudanças pelas quais passamos. É crucial reconhecermos essas transformações para compreendermos as buscas que têm sido feitas por diferentes teóricos para poder pensar os bebês a partir de novos referenciais, sobretudo a partir de um desenvolvimento da filosofia da diferença de Gilles Deleuze e Félix Guattari (1997a, 1997b), mas também dos estudos de Deligny e, entre nós, de Gabriela Tebet e Anete Abramowicz (2021). Essa perspectiva pensa os bebês como sujeitos ativos e comunicativos, marcados pela potência positiva, trazendo singularidade e diferença.

Falar de bebês a partir das noções de diferença e singularidade significa reconhecer que o bebê interage e realiza encontros de um modo singular e livre de modelos, e é esta condição que torna um bebê um ser tão potente e singular (Abramowicz; Tebet, 2021, p. 380).

O estudo pautado em uma perspectiva pós-estruturalista implica conhecer um modo de existência único e que não se relaciona com modelos, entendendo-o como um acontecimento que foge do usual e do previsto, um viver que prioriza a vida e suas diferentes manifestações e situações. Conceber um bebê como imanência e singularidade no campo da experiência é percebê-lo como possibilidade de ruptura com o mundo já existente. Os bebês se comunicam, se expressam e se movimentam de formas singulares em relação aos adultos e às crianças porém, por não terem desenvolvido a capacidade da linguagem verbal, ficam à mercê das interpretações adultocêntricas. E, nesse sentido, a cartografia1 apresenta uma perspectiva rica, na medida em que não assume a linguagem como central, pois trata de movimentos e relações, expondo um olhar crítico que acompanha e descreve trajetórias. Desse modo, assistimos com profundidade às vivências e experiências dos bebês.

Os bebês ultrapassam e experimentam os espaços por meio de seus corpos, de suas ações, sua arte, sua filosofia e seus movimentos. Trata-se de existir, movimentar, agenciar, agir, relacionando-se de modo singular com o mundo, as coisas e as pessoas (Abramowicz; Tebet, 2021, p. 384).

As autoras buscam, através da cartografia dos espaços infantis, refletir as ações que permeiam os bebês, considerando-os sujeitos ativos interligados com o seu ambiente, na aspiração de desvendar as linhas que os compõem, no intuito de serem abraçados pela sociedade em vez de terem seus corpos moldados.

Em vista disso, o estudo de um novo olhar para os bebês implica na construção de novas concepções e de rupturas com o antigo. Trata-se, ainda, de compreender a maneira que os bebês enxergam e interagem com o mundo, respeitando seus passos e aprendizados. É a forma com a qual interagimos, pautada no afeto e respeito. Um olhar filosófico que viabiliza os sentimentos dos bebês, preparando um ambiente para receber suas necessidades. Neste pretexto, pautamo-nos no ouvir, olhar e cuidar, permitindo que o bebê sinta-se importante. Na concepção de Bernardina Leal, um novo olhar concerne em

valorar como uma virtude ou um bem o ato infantil. Retirar do termo “infantil” o tom subestimado da adjetivação. Buscar a infância em nós mesmos a fim de que possamos aprender de novo, esquecer o que já sabemos e permitirmo-nos voltar a aprender como já o fizemos um dia (Leal, 2018, p. 21).

Não se trata aqui, nesse tópico, da produção de novas palavras ou de “transformar” a sociedade. O objetivo é caminhar em busca de sairmos dos modelos tradicionais e arcaicos que fortificam uma sociedade adultista. Essa problematização pretende diminuir os atos que inferiorizam os bebês, diminuindo-os, excluindo-os e inviabilizando seus sentimentos e linguagens. Tratamos de alcançar as experiências que os bebês trazem em potência, possibilitando seu protagonismo. Ou seja, compreender os bebês como um mistério que vem a romper narrativas, sendo assim, liberdade e vigor.

Deixamos nessa discussão uma provocação de Abramowicz e Tebet (2021), para pensarmos os bebês de outra forma:

Propomos que eles possam experimentar e possamos segui-los, sem sabermos para onde. Quem sabe aprendemos com eles habitar neste tempo aion - brincante e da arte e libertamo-nos um pouco das amarras do cronos impostas pelas rotinas enrijecidas. Quem sabe ao seguir os bebês nos permitimos reencontrar-mo-nos com a infância? (Abramowicz; Tebet, 2021, p. 388).

um devir-criança: possibilidades de um novo pensamento sobre os bebês

Permanecemos, contudo, contemporaneamente em uma sociedade ainda moderna, moldada pela idealização e pela falta de pertencimento, com uma infância privada de direitos. Nossos centros de Educação Infantil ainda são muito escolarizados, arquitetonicamente definidos em termos de uma escola moderna que ainda nos espreita em salas compartimentadas, subdivididas de forma etária. A hierarquização em termos de um adultismo são resultados deste problema.

Nessa visão os bebês são uma projeção com o dever de vivenciar o tempo, pensando em suas ações futuras. Prevalece, ainda, o pensamento de que os bebês são sujeitos que precisam de uma normatização, calcada em rotinas e cuidados. Não negligenciamos o fato de que tais aspectos compõem a interação entre adultos e bebês nos espaços da Educação Infantil, contudo é preciso pensar de que modo se estabelecem essas rotinas e cuidados, a partir de que ritmos, de que intensidades de tempos, de qual controle dos tempos.

A intervenção educacional tem um papel preponderante nessa linha contínua. Ela se torna desejável e necessária na medida em que as crianças não têm um ser definido: elas são o que devem ser. Assim, a educação terá a marca de uma normativa estética, ética e política instaurada pelos legisladores, para o bem dos que atualmente habitam a infância, para assegurar seu futuro, para fazê-los partícipes de um mundo mais belo, melhor (Leal, 2018, p. 55).

Mas, então, como reverter essa corrente adultocêntrica? Como fomentar práticas pedagógicas calcadas em uma filosofia pensada a partir da infância? De que modo encontrar um novo olhar para os bebês? Como percebê-los? Como fomentar uma formação de professores de Educação Infantil que respeitem uma visão não-adultocêntrica?

A perspectiva de Deleuze, a partir de suas discussões sobre um devir-criança, nos permite imaginar outros cenários. “O devir-criança é uma forma de encontro que marca uma linha de fuga a transitar, aberta, intensa. As crianças obtêm suas forças do devir molecular que fazem passar entre as idades” (Deleuze; Guattari, 1997, p. 70).

O filósofo explicita que um devir é colocar o bebê no centro, entendê-lo como uma não posse e um não molde da sociedade. Essa interessante discussão de Deleuze opõe-se ao tempo concebido como chrónos, a uma infância pensada como majoritária, da continuidade cronológica, das etapas e do desenvolvimento. Defende, assim, uma infância como experiência. Desse modo, em Deleuze (1992, p. 210-211), o devir-criança é entendido como

o descontínuo: o devir, aión, as linhas de fuga e as minorias. Uma experiência, um acontecimento, interrompem a história, a revolucionam, criam uma nova história, um novo início. […] não têm modelo, estão sempre em processo […] um certo fugir do controle, da pretensão unificadora, totalizadora; é uma força de resistência.

Devir é a resistência que pondera sob o pensamento arcaico, fomenta forças que quebram as correntes adultocêntricas. A discussão acerca de um devir nos possibilita repensar a condição na qual julgamos a infância, na busca de não a colocarmos em “caixinhas” e moldá-la de acordo com nossas aspirações. O trabalho nas creches tem muito a ganhar se conseguirmos enxergar esse devir-criança também nos bebês.

É um novo caminho a ser “abraçado” pela comunidade escolar. Trata-se de encontrar um novo início e uma outra política que não busque normatizar o tipo ideal de bebê, ou o tipo de sociedade na qual se pretenda um certo tipo de formação de bebês e de crianças. Trata-se, em um primeiro momento, de não silenciá-los, de não querer “enquadrar” os seus choros a partir de dispositivos castradores como “chupetas” ou anestesiadores como jogos, vídeos ou outros recursos audiovisuais. Defender uma pedagogia capaz de dar voz aos bebês, de poder ver os seus agenciamentos a partir de cartografias, de mapas de ações, é assim poder dar tempo, som, espaço à menoridade. Deleuze e Guattari ([1980] 1997, p. 19) “preferem então chamar de ‘involução’ essa forma de evolução que se faz entre heterogêneos, sobretudo com a condição que não se confunda involução com regressão.”

Seguindo essa perspectiva, podemos avançar um pouco mais diretamente na busca de um novo olhar para os bebês, e explorar as concepções que permeiam esse discurso, abrangendo um estudo interessante, indicando a infância como a capacidade de transformação. “É preciso avançar na ideia de que o devir-criança da cognição é uma atividade que não é guiada por um programa, que não é controlada por regras prévias que determinariam a ação futura” (Kastrup, 2000, p. 379). Assim, um devir-criança concebe novos ares para as concepções que transpassam o sujeito bebê, compreendendo-o pela potência positiva, singular e pela diferença.

Deleuze, por sua vez, destaca a singularidade dos recém-nascidos, que não se confunde com uma individualidade, algo comum nas interpretações mais psicologizantes dos bebês, de modo geral:

As singularidades ou os acontecimentos constitutivos de uma vida coexistem com os acidentes da vida correspondente, mas não se agrupam nem se dividem da mesma maneira. Eles se comunicam entre si de uma maneira completamente diferente da dos indivíduos. Parece mesmo que uma vida singular pode passar sem qualquer individualidade ou sem qualquer outro concomitante que individualize. Por exemplo, os recém-nascidos são todos parecidos e não têm nenhuma individualidade; mas eles têm singularidades, um sorriso, um gesto, uma careta, acontecimentos, que não são características subjetivas. Os recém-nascidos em meio a todos os sofrimentos e fraquezas, são atravessados por uma vida imanente que é pura potência, e até mesmo beatitude (Deleuze, 1995).

Ao reconhecer, assim, a vida que atravessa os bebês, a pura potência da vida torna-se revolucionária para práticas pedagógicas que preferem ver ali sinais de individualidades. Pensar em novas práticas, portanto, a partir de um discurso devir-criança, é estudar as redes que constituem a infância, a fim de compreender os movimentos entre os planos de imanência e organização dos bebês. Não é estudar o indivíduo, assim como não é estudar nenhuma verdade objetiva dada a priori. De acordo com Deleuze e Guattari ([1980] 1997) , é estudar o devir. “É o devir que faz, do mínimo trajeto ou mesmo de uma imobilidade no mesmo lugar, uma viagem; e é o trajeto que faz do imaginário, um devir. Os dois mapas, dos trajetos e dos afetos, remetem um ao outro” (Deleuze, 1997, p. 77). Devir implica a construção de novas concepções e rupturas com o antigo, tratando-se de entender a infância como peça fundamental da sociedade.

Deleuze abre caminhos para pensar a infância como um “outro mundo”, conhecendo as suas particularidades e possibilidades. Provoca-nos a repensar as relações com os bebês, mostrando-nos caminhos possíveis para chegarmos ao encontro com o devir-criança. Inspira-nos, assim, a tentar romper as correntes dessas estruturas que transpassam gerações de cuidadores.

cartografia e infâncias: um novo método para confrontar o adultocentrismo nas instituições de Educação Infantil

A maneira como percebemos as ações dos bebês é fundamental para buscarmos uma prática educativa com bebês que ultrapasse o adultocentrismo com o qual vem sendo marcada desde a sua origem como disciplina, como saber, como “ciência”. Assim como o devir-criança, que busca repensar as relações que travamos com eles, a cartografia surge como uma nova forma de acompanhar as interações e experiências da infância, rompendo com a corrente adultocêntrica.

A cartografia vem se desenvolvendo como uma potente ferramenta de pesquisa social nas ciências humanas, em especial na educação, por tratar de movimentos e relações, expondo um olhar crítico que acompanha e descreve trajetórias. Coloca-se o desafio de conduzir novos olhares, espaços outros, novos mundos e novas relações. Interessa à cartografia o desenvolvimento de um olhar crítico e a produção de análises e descrições que mostrem os agenciamentos frente aos dispositivos normatizadores da Educação, as resistências dos bebês em suas linhas de fuga, propiciando-nos a pensar nas práticas de liberdade que permeiam as relações pedagógicas. Relações pedagógicas não mais pensadas a partir de uma visão adultocêntrica, mas fortemente imbricadas em um devir-criança e na experiência da infância, permitindo novos processos de individuação, livres de modelos de desenvolvimento, da escola e de docência. Experiências singulares produzidas a partir dos afetos que emergem dos encontros e agenciamento entre bebês-docentes. Implica, assim, a desterritorialização de espaços fixos, demarcados, de reprodução, envolvendo reterritorialização e abertura para o novo e para a diferença.

A estratégia cartográfica permite escapar ao decalque, à cópia, à reprodução e à repetição de si mesmo, tornando possível a singularização, a produção de si mesmo a partir de novas estéticas da existência (Prado Filho; Teti, 2013, p. 57).

A cartografia, nesse caso, conforme Rolnik (1989), acompanha e faz desmanchar certos mundos que fazem aparecer os afetos. Cartografar é, assim, método e instrumento ligado à problematização de uma história do presente, na medida em que possibilita uma crítica de como olhamos o sujeito, “permitindo também enfrentar enunciações, modos de sujeição e resistir a jogos de objetivação x subjetivação que fazem de nós aquilo que somos” (Prado Filho; Teti, 2013, p. 51). Nesse sentido, cartografar permite adentrar no espaço, respeitando as particularidades dos sujeitos, mesmo os bebês em sua pura vida imanente.

Faz-se necessário, portanto, identificar os discursos que têm produzido a infância e, mais especificamente, os bebês, cartografando as linhas de visibilidade, de enunciação, linhas de força, de subjetivação e de ruptura que compõem esse dispositivo. Essas linhas podem ser constituídas como espaço das produções infantis e das individuações, pensando a infância como experiência e traçando o plano de organização, compreendendo os bebês como imanência, vida em sua máxima potência e singularidade.

Nesse movimento de cartografar as linhas da infância, faz-se necessário observar também os planos traçados por tais linhas e compreender qual o papel dos planos de consistência, organização e imanência que compõem essa trama que estamos buscando cartografar (Tebet et al., 2019, p. 144).

Inspirada em Deligny, a cartografia pretende seguir os movimentos e as emoções dos bebês, sendo uma forma de evitar o excesso de interpretação, trocando, assim, a ideia de compreender por traçar, permitindo a observação de algo antes ignorado. “É compreendida como ferramenta epistemológica e metodológica que permite ultrapassar a imagem de que bebês apenas dormem, mamam e evacuam, ou a perspectiva de que nada fazem” (Abramowicz; Tebet, 2021, p. 385).

Estudar o bebê utilizando as potencialidades da cartografia permite a percepção do movimento e da representação de suas ações, objetivando se desvencilhar das interpretações do olhar adultocêntrico. Como possibilidade de metodologia de pesquisa no campo da educação, considerando os bebês como protagonistas, a cartografia provoca um deslocamento e uma mudança de perspectiva no olhar e, consequentemente, no trato para com os bebês, como também para com o espaço e seus diversos elementos.

Tebet et al. (2019) conclui que o método cartográfico e o estudo de bebês ainda têm grande espaço para ser ocupado, sendo necessário superar a barreira das inseguranças em cartografar as intensidades e as pequenas reações dos bebês, com o intuito de explorar a cartografia e as possibilidades que ela permite como metodologia. A autora afirma também que experienciar a cartografia propicia ajustar o olhar do adulto perante as ações dos bebês e suas formas de linguagem, podendo contribuir como importante estratégia na formação de profissionais para atuarem com bebês.

Nossa pesquisa, a partir da cartografia, objetiva mostrar as relações afetivas da Educação Infantil com os bebês, buscando repensar a relação que travamos com eles nos diferentes espaços pedagógicos.

Sendo assim, a totalidade de componentes no espaço da creche pode se tornar elemento da experiência dos bebês, sendo vital que o espaço seja intencionalmente planejado com base nos encontros e afetos que podem ser proporcionados (Tebet, 2015, p. 8).

A abordagem cartográfica se mostra promissora, permitindo que os pesquisadores sigam de forma mais eficaz os gestos e eventos que compõem a vida dos bebês, contribuindo, então, para uma melhor compreensão a partir de sua perspectiva.

Desse modo, os pesquisadores, no processo cartográfico, processam os novos espaços e percorrem caminhos em busca de conhecer quem são esses bebês que surgem como forma de ruptura. Assim, a cartografia se mostra de grande importância para a pesquisa, pois não se espera apenas uma coleta de dados, mas a possibilidade de produzir novas visões e possibilidades reflexivas. Compreende-se, por fim, que cartografar os bebês é desmistificar correntes e ideais prontos, integrando-se ao fenômeno com atenção, percebendo suas ações nos espaços da interação pedagógica.

considerações parciais

Não temos intenção de terminar, obviamente, essa discussão nesse pequeno ensaio, mas gostaríamos de aproveitar esta oportunidade para voltar aos processos de pensamento envolvidos na discussão e à necessidade urgente de repensar os bebês como forma de um devir.

Percebe-se que o tema “bebês” ainda provoca reflexões necessárias por tratar de um assunto que vem a quebrar paradigmas impostos por uma sociedade adultista. Com o auxílio das leituras e dos estudos, é perceptível a produção de imagens dos bebês por meio das práticas adultistas, pensando-os como frágeis, que demandam de um cuidado extremo. Os bebês, nessa abrangente discussão, não são “levados a sério” propriamente, porque na visão dos adultos estes representam uma experiência de incômodo e de ingenuidade.

As referências que utilizamos foram fundamentais na estruturação e desenvolvimento deste estudo. Isto ajuda a romper a ideologia da sociedade adulta que nega os bebês. Compreender a perspectiva de Gilles Deleuze e sua potente influência sobre Tebet e outros(as) nos conduz a pensar em novas ideias e a questionar os discursos que permeiam as práticas pedagógicas de nossa sociedade. Ajuda-nos a buscar ressituar uma prática de Educação Infantil, dando visibilidade a novas abordagens, a uma nova política dos bebês. Esperamos que esta discussão, calcada em uma filosofia da infância, represente um esforço para garantir que o assunto não seja dominado por paradigmas e ilusões que são muitas vezes opressivos, enfraquecedores e silenciadores dos bebês. Que a prática educativa com os bebês também “nos permita encontros nunca antes vividos e nos impacte de modo muito particular. Nesse sentido, a infância é uma experiência. É o que nos atravessa, nos modifica. E isso independe da idade de quem vive a experiência” (Tebet, 2018, p. 1023).

referências

ABRAMOWICZ, A.; TEBET, G. Afinal, o que querem os bebês? Debates em Educação, v. 13, n. 33, p. 377-390, 2021. [ Links ]

BARROS, G.; MUNARI, S. R.; ABRAMOWICZ, A. Educação, Cultura e Subjetividade: Deleuze e a Diferença. Reveduc, v. 11, n. 1, p. 108-124, 2017. [ Links ]

DELEUZE, G. O que é a filosofia? Tradução de Bento Prado Jr. e Alberto Alonzo Muñoz. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. [ Links ]

DELEUZE, G. A imanência: uma vida… Publicado originalmente em Philosophie, n. 47, p. 3-7, 1995. Tradução de Tomaz Tadeu da Silva. [ Links ]

DELEUZE, G. O que as crianças dizem. In: DELEUZE, G. Crítica e Clínica. Tradução de Peter Pelbart. São Paulo: Ed. 34, 1997. p. 73-79. [ Links ]

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Félix. Mil Platôs. Capitalismo e Esquizofrenia. São Paulo: Editora 34, 1997. v. 4. [ Links ]

FONTANEL, B.; D'HARCOURT, C. L'épopée des bébés: une histoire des petits d'hommes. Paris: Ed. de La Martinière, 2010. [ Links ]

KASTRUP, V. O devir-criança e a cognição contemporânea. Psicologia: reflexão e crítica, v. 13, p. 373-382, 2000. [ Links ]

KOHAN, W. Infância. Entre educação e filosofia. Belo Horizonte: Autêntica, 2005a. [ Links ]

KOHAN, W.. A infância da Educação: o conceito devir-criança. Revista Educação Pública, v. 2, n. 1, 2005b. [ Links ]

LEAL, B. Leituras da infância na poesia de Manoel de Barros. In: KOHAN, W. (org.). Lugares da infância: filosofia. Rio de Janeiro: Lamparina, 2018. [ Links ]

PRADO FILHO, K.; TETI, M. M. A cartografia como método para as ciências humanas e sociais. Barbarói, n. 38, p. 45-49, 2013. [ Links ]

ROLNIK, S. Cartografia Sentimental contemporâneas do desejo. São Paulo: Estação Liberdade, 1989. [ Links ]

TEBET, G. Bebês, Cartografia e Máquinas de Individuações. Alegrar, n. 16, 2015. [ Links ]

TEBET, G. Territórios de infância e o lugar dos bebês. Educação em foco, p. 1007-1030, 2018. [ Links ]

TEBET, G.; MORAES, K.; COSTA, J. Entre errâncias e afe(c)tos: o desafio de cartografar bebês. In: Galoá. (org.). 6ª Conferência Internacional sobre Geografias das Crianças, da Juventude e das Famílias. 1. ed. Campinas: Galoá, 2019, v. 1, p. 1-10. [ Links ]

1

Recebido: 26 de Dezembro de 2023; Aceito: 22 de Abril de 2024

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto sob uma licença Creative Commons