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Contrapontos

versão On-line ISSN 1984-7114

Contrapontos vol.25 no.1 Florianopolis jan./dez 2025  Epub 21-Jul-2025

https://doi.org/10.14210/contrapontos.v25n1.p122-138 

Dossiê Educação Inclusiva

PROJETO DE VIDA, TRAJETÓRIA PROFISSIONAL E SURDEZ: PESQUISA-DOCUMENTÁRIO MEDIADA POR TECNOLOGIAS DIGITAIS, EDUCATIVAS E INCLUSIVAS

LIFE PROJECT, PROFESSIONAL TRAJECTORY AND DEAFNESS: DOCUMENTARY RESEARCH MEDIATED BY DIGITAL, EDUCATIONAL AND INCLUSIVE TECHNOLOGIES

PROYECTO DE VIDA, TRAYECTORIA PROFESIONAL Y SORDERA: INVESTIGACIÓN DOCUMENTAL MEDIADA POR TECNOLOGÍAS DIGITALES, EDUCATIVAS E INCLUSIVAS

Gisele Pereira da Silva1 

Ronaldo Gomes Souza1 

Gisele Cristina Resende1 

1Universidade Federal do Amazonas, Manaus, AM, Brasil.


Resumo:

O objetivo deste estudo é propor avanços teórico-metodológicos e ético-políticos de se fazer e divulgar ciência com a pesquisa-documentário, mediado por tecnologias digitais, educacionais e inclusivas, ressaltando ações coletivas, democráticas e transdisciplinares, atravessando as trajetórias acadêmico-profissionais e projeto de vida de uma professora surda do curso de Libras. Seguimos a estrutura metodológica do relato de experiência, embasada cientificamente, objetivando a promoção de uma escrita reflexiva e crítica sobre as atividades realizadas em uma disciplina de um programa de pós-graduação em psicologia. Os resultados evidenciam que o material visual promove sensibilização dos ouvintes frente aos desafios de pessoas com deficiência auditiva, ressaltando autonomia e reconhecimento para a professora surda que, na sua narrativa de projeto de vida e carreira, destacou a potência didática e ético-política da disciplina. Trata-se de uma experiência exitosa, na qual por meio de tecnologias digitais e educacionais, possibilitou avanços na formação e atuação em psicologia da turma.

Palavras-chave: Orientação profissional; inclusão; tecnologias digitais

Abstract:

The study sought to propose theoretical-methodological and ethical-political advances in the production and dissemination of science through documentary research, mediated by digital, educational and inclusive technologies, highlighting collective, democratic and transdisciplinary actions, covering the academic-professional trajectories and life project of a deaf teacher in the Libras course. The methodological structure was an experience report, scientifically based, aiming to promote reflective and critical writing about the activities carried out in a discipline of a graduate program in psychology. The results show that the visual material promotes awareness of hearing people regarding the challenges of people with hearing impairment, highlighting autonomy and recognition for the deaf teacher who, in her narrative of life and career project, highlighted the didactic and ethical-political power of the discipline. This is a successful experience, in which, through digital and educational technologies, it enabled advances in the training and performance in psychology of the class.

Keywords: Professional guidance; inclusion; digital technologies

Resumen:

Este estudio buscó proponer avances teórico-metodológicos y ético-políticos en la realización y difusión de ciencia con investigación documental, mediada por tecnologías digitales, educativas y inclusivas, resaltando acciones colectivas, democráticas y transdisciplinarias, cruzando las trayectorias académico-profesionales y proyecto de vida de una docente sorda del curso Libras. La estructura metodológica de relato de experiencia, con base científica, buscó promover la escritura reflexiva y crítica sobre las actividades realizadas en una disciplina de un programa de posgrado en psicología. Los resultados muestran que el material visual promueve la conciencia de los oyentes sobre los desafíos que enfrentan las personas con discapacidad auditiva, resaltando la autonomía y el reconocimiento de la docente, su narrativa de proyecto de vida y carrera, destacó el poder didáctico y ético-político de la disciplina. Resultó ser una experiencia exitosa, que usando tecnologías digitales y educativas posibilitó avances en la formación y desempeño en la classe de psicología.

Palabras clave: Orientación profesional; inclusión; tecnologías digitales

INTRODUÇÃO

Constituir a comunidade e cultura surda no Brasil, é adentrar em um contexto de várias camadas de complexidade de inclusão que atravessam tanto a trajetória da educação formal, quanto a trajetória profissional que, muitas vezes, nem as legislações vigentes conseguem acompanhar suas devidas singularidades e demandas político-econômicas e psicossociais. O que nos leva a reflexão e mobilização de ações criativas e contra-hegemônicas para lidar com tamanho desafio. Para tanto, compartilhamos uma perspectiva de defender a linguagem audiovisual enquanto método (Gomes-Souza; Sampaio; Tramontano, 2024), a partir de uma abordagem qualitativa, democrática, coletiva e transdisciplinar, capaz de dar visibilidade ético-política, autonomia e reconhecimento aos participantes (Gomes; Costa; Reis, 2024). Trata-se da pesquisa-documentário, mediada por Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC) e Tecnologias Educacionais e Sociais (TES), que é uma nova forma de se fazer e divulgar ciência que, adaptado para as pessoas surdas e/ou com deficiência auditiva, é ressaltado o estímulo/língua visual, através dos materiais em vídeo. É, também, uma nova possibilidade de investigação, interação e intervenção, ancorada nas práticas de ensino, pesquisa e extensão (Silva; Gomes-Souza; Oliveira, 2025), sensíveis às particularidades do universo das políticas, fundamentos e dinâmicas de inclusão no contexto brasileiro (Macedo, 2022).

No que concerne à Educação Inclusiva (ID) no Brasil espaços têm sido conquistados por meio de marcos regulatórios como a criação da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (PNEEPEI) (Brasil, 2008), bem como a Lei nº 13.146, Lei Brasileira de Inclusão (LBI) (Brasil, 2015). Porém, ainda encontra desafios e barreiras estruturais que resultam em impactos significativos nas esferas do acesso até a permanência da população de pessoas com deficiência na formação regular em todos os seus níveis, assim como em sua inserção do mercado de trabalho, impactando diretamente na construção de trajetórias profissionais e projetos de vida mais diversos e dignos. No âmbito educacional, as informações divulgadas pelo censo escolar e publicadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (INEP) (BRASIL, 2024), apontam que 95% dessa população inserida no sistema de educação está matriculada em turmas regulares. Estes dados evidenciam a conquista de espaço e a implementação de avanços na garantia de direitos de pessoas com deficiência em comparação a décadas anteriores. Por outro lado, ainda tem muito a avançar nas estratégias de inclusão e socialização em outros espaços para além do escolar, como o do trabalho, por exemplo.

Além disso, é possível identificar lacunas significativas na realidade contemporânea brasileira visto que somente 42% dos estudantes com deficiência têm acesso e/ou recebem suporte através do Atendimento Educacional Especializado (AEE). Outro dado preocupante diz respeito às taxas de evasão escolar e o índice de reprovações dessa população que se mostraram superiores à média da população sem deficiência. Para mais, essas discrepâncias e desigualdades podem ser agravadas por atravessamentos interseccionais materializados por marcadores sociais e identitários tais como: raça, classe, gênero, orientação sexual, entre outros, dificultando e/ou impedindo o acesso dessas pessoas a outras vantagens de formação educacional, interpessoais, técnicas e profissionais, desdobrando-se em prejuízos político-econômicos e psicossociais como aspectos negativos em relação à autoestima, ao sentimento de pertença, às questões financeiras, de consumo e ao sentido e projeto de vida (Brasil, 2024; Paiva, 2024; Silva; Danza, 2022).

Ademais, os desafios postos diante do processo de efetivação e garantia de qualidade da Educação Inclusiva apresentam-se de igual modo no que concerne à formação de profissionais docentes ainda evidenciar insuficiências consideráveis, além da excessiva judicialização dos procedimentos educativos e pedagógicos amplamente baseados em concepções biomédicas da deficiência, bem como a escassez de recursos didático-pedagógicos de fato acessíveis. Dessa maneira, pode-se perceber a urgência de intervenções práticas intersetoriais direcionadas à flexibilidade na metodologia de construção curricular, como também a adoção de uma compreensão de ensino contextualizada, posicionada histórica e politicamente, com viés crítico e comprometido em conformidade com perspectivas teóricas as quais reconhecem a diferença como intrínseca à manifestação da diversidade de experiências e vivências humanas (Pletsch; Mendes, 2024; Santos et al., 2024).

Ressaltando o contexto das pessoas surdas, diante da realidade educacional e de acesso ao mercado de trabalho no Brasil, Macedo (2022) argumenta que, apesar de cerca de 9 milhões de pessoas brasileiras apresentarem algum grau de perda auditiva e/ou surdez, a implementação dos processos de inclusão e acessibilidade, tanto no contexto formativo, quanto na inserção no mercado de trabalho formal, ainda se defrontam com múltiplas barreiras e desafios. Dentre eles, cabe o destaque a uma das principais que diz respeito ao aspecto comunicacional o qual desencadeia prejuízos para o desenvolvimento cognitivo e social de pessoas surdas. Este cenário faz-se presente apesar do reconhecimento legal da Língua Brasileira de Sinais (Libras) como língua oficial e veículo de comunicação e expressão mediante a promulgação da Lei 10.436 (Brasil, 2002) amplamente conhecida como Lei de Libras.

A Educação Inclusiva na conjuntura da comunidade surda é fundamentada neste reconhecimento manifesto na legislação, assim como compreende a Libras como norteadora e como componente substancial para a construção de conhecimento e igualmente para a constituição identitária das pessoas que a utilizam. Para mais, o Decreto nº 5.626 (BRASIL, 2005), que regulamenta a Lei 10.436 (Lei de Libras) e o artigo 18 da Lei nº 10.098 (BRASIL, 2000) que estabelece normas e critérios para a promoção de acessibilidade, figura como instrumento de pormenorização da tradução das garantias em ações práticas para a implementação das legislações anteriores ao determinar a inclusão da disciplina de Língua Brasileira de Sinais na matriz curricular obrigatória dos cursos direcionados à formação docente como: os magistérios (nível médio e superior), Pedagogia, Educação Especial e Fonoaudiologia. Além disso, o decreto ainda dispõe sobre a inserção da disciplina na matriz optativa de todos os demais cursos superiores.

Este instrumento legal estabelece como prioritários a contratação de professores surdos, a criação de escolas bilíngues, bem como a formação de profissionais de tradução/interpretação em Libras através de cursos técnicos e superiores para assim garantir a acessibilidade linguística e comunicacional para essa população. Ademais, seu texto apresenta a exigência de que as instituições de ensino devam assegurar que recursos sejam direcionados à contratação de intérpretes para atuar em sala de aula, provimento de tecnologias assistivas bem como avaliações adaptadas ao contexto da surdez e/ou deficiência auditiva. Tais pressupostos reforçam o papel estruturante da Libras para além de seu caráter de língua para a compreensão de conteúdos formativos, mas também como direcionamento para políticas públicas educacionais mais equitativas e comprometidas com a promoção da diversidade linguística e do respeito às diferenças inerentes a natureza humana (Campelo; Oliveira; Holanda, 2020).

Apesar dos marcos legais estabelecerem o processo de inclusão como prioridade urgente, no contexto da comunidade surda ainda são vivenciados cenários desafiadores e permeados por barreiras que influenciam e dificultam o desenvolvimento adequado de seu processo de ensino e aprendizagem, do mesmo modo que compromete sua socialização e participação nas mais diversas esferas de convívio. Nos contextos educacionais, estes desafios figuram como principal entrave para a progressão e conclusão dos estudos de pessoas surdas, em específico pelo caráter excludente adotado por uma estrutura de ensino pautada na norma linguística da língua portuguesa oral e escrita, impactando negativamente, outrossim, nas oportunidades de emprego (Alves; Pedrosa, 2023).

Para mais, embora tenham-se alcançado conquistas no que diz respeito às possibilidades de acesso ao ensino superior refletidas na inauguração da modalidade de provas traduzidas em Libras e sinalizadas através de recursos de vídeo no Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) em 2017, os estudantes ainda encontram dificuldades para ampliar suas alternativas de escolhas de formação profissional (Junqueira; Lacerda, 2019; Rocha; Pasian, 2023). Dessa maneira, este panorama é refletido na conjuntura de acesso à profissionalização, na permanência no mercado de trabalho, bem como nas possibilidades de progressão de carreira a qual ainda delega às pessoas surdas cargos nos quais haja pouco ou nenhum contato grupal e que não exijam altos níveis de escolaridade e qualificação (Silva; Bordas, 2020).

Relacionando as reflexões sobre o processo educacional e mercado de trabalho ao panorama da Orientação Profissional e de Carreira (OPC), debruçamo-nos sobre a perspectiva da vivência de pessoas surdas no âmbito das decisões de carreira e trajetórias de formação ao longo da vida. Visto que, faz-se necessário e urgente pensar intervenções e reflexões nesta seara que compreendam sua íntima relação com a construção de um projeto de vida. Projeto este que engloba diversos aspectos, atravessamentos e dimensões da vivência humana imbricados na busca pela realização profissional e pessoal de cada pessoa. Ao compreender e apropriar-se da concepção de projeto de vida a pessoa passa a nutrir novas estratégias para a elaboração do planejamento e organização de sua trajetória de carreira refletida em metas e objetivos a serem alcançados ao longo de sua jornada (Andrade Nascimento; Konzen, 2020).

Ademais, destaca-se a função primordial de expressão identitária do projeto de vida individual por sua constituição ocorrer a partir da junção de ideais, compromissos e valores pessoais com vistas à realização pessoal não somente no âmbito profissional, como também em outras dimensões e em seu senso de propósito (Bundick, 2011; Mandelli; Soares; Lisboa, 2011). No que concerne à vivência de pessoas com deficiência, com o destaque específico ao contexto de pessoas surdas, ainda são encontrados entraves para desenvolver o processo de OPC e a construção de um planejamento de carreira inclusivo e acessível que leve em consideração as especificidades de cada pessoa e de seu contexto (Santos; Santos, 2023).

Além da compreensão sobre o papel do projeto de vida, faz-se necessário considerar movimentos e escolhas profissionais norteados pelo contexto socioeconômico e de metas pessoais. Neste seguimento, fatores relacionados ao modelo capitalista, bem como às mudanças no mercado de trabalho e da própria realidade individual de cada pessoa, exigem ações estratégicas, transições e escolhas imprescindíveis no decorrer de sua trajetória profissional (Forcione; Neves; Prata, 2021). Dessa maneira, compreende-se que - na atualidade - tal trajetória é marcada por um caráter experimental, flexível e instável, demandando deslocamentos e reorganização de decisões em conformidade com o cenário apresentado (Savickas et al., 2009).

O presente estudo contribui na compreensão das especificidades da trajetória profissional e construção de projeto de vida no âmbito da surdez visto que possibilita a narrativa registrada através de recursos técnicos e metodológicos da pesquisa-documentário. Com vistas a democratizar o acesso aos achados construídos de forma a subsidiar a prática profissional bem como ampliar a comunicação sobre a temática para a própria comunidade surda e de pessoas que vivenciam a surdez e/ou a deficiência auditiva, mediado pelas TDIC, com possibilidade de potencializar a proposta inclusiva enquanto TES, detalhados na seção metodológica.

Considerando que, nos últimos anos, a literatura científica relacionada tanto à educação inclusiva quanto à Orientação profissional em Psicologia, tem sugerido a necessidade de ampliar investigações em outros estágios do desenvolvimento que não somente o período escolar e da adolescência de forma a contemplar as perspectivas da fase adulta e do envelhecer (Colby et al., 2020; Bundick et al., 2021). De igual modo, é importante destacar que estudos e reflexões sobre este contexto relacionado à vivência de pessoas surdas ainda se mostram insuficientes indicando a pertinência do incentivo e fomento para a realização de estudos pautados na compreensão e promoção de acessibilidade, inclusão e diversidade, repetindo procedimentos tradicionais de investigar, interagir e intervir juntamente com as pessoas surdas.

O objetivo deste estudo é propor avanços teórico-metodológicos e ético-políticos do fazer e divulgar ciência com a pesquisa-documentário, mediado por tecnologias digitais, educacionais e inclusivas, ressaltando ações coletivas, democráticas e transdisciplinares, atravessando as trajetórias acadêmico-profissionais e projeto de vida de uma professora surda de Letras Libras no ensino superior.

Método

O presente estudo apresenta um relato de experiência. Estruturamos a escrita do manuscrito segundo Mussi, Flores e Almeida (2021). Além de oferecerem diretrizes para sua construção, os autores (2021) destacam o reconhecimento da escrita de relatos de experiência como imprescindível para difusão de vivências no âmbito do tripé da universidade - ensino, pesquisa e extensão - bem como para a ampliação do conhecimento científico e dos subsídios para a prática profissional. Dessa maneira, sua organização deve estar embasada cientificamente e objetivar a promoção de uma reflexão crítica sobre as atividades realizadas, seguindo o seguinte formato: introdução (campo teórico e objetivo), materiais e método (tempo, local, instrumentos, eixo, tipo, público, recursos, procedimentos, critérios e ações da experiência), resultados, discussão (diálogo entre o relato e a literatura, dificuldades, potencialidades), considerações finais (finalidade, proposições) e referências.

A experiência aqui relatada advém de uma disciplina ofertada como optativa em um Programa de Pós-Graduação em Psicologia, localizado no Norte do Brasil, a qual aborda aspectos da subjetividade, afetividade através de uma perspectiva coletiva (todos interagem, dialogam, correalizam os projetos e ações uns dos outros), democrática (horizontalização de poder, todos têm vez e voz/expressão) e transdisciplinar (articulação sistêmica, dinâmica e complexa de saberes, práticas e métodos).

A pesquisa-documentário, que pode ser acessada gratuitamente no Youtube, a partir do link a seguir: https://www.youtube.com/watch?v=uSo16gZM3Iw&t=1s, articula projetos, práticas e princípios de ensino - capacitação teórico-metodológica, técnica, estética, tecnologia, ético-política e formação na própria disciplina -, pesquisa - por ser um método criativo e inovador de se fazer e divulgar investigação científica - e extensão - implica em, necessariamente, sair dos muros da universidade, transformando diferentes comunidades e sendo, por elas, transformados, com interações ativas e intencionais de ambas as partes (Gomes; Costa; Reis, 2024; Silva; Gomes-Souza; Oliveira, 2025).

A disciplina teve duração de um semestre e foi composta por encontros presenciais, semanais, de 4 horas de duração, totalizando uma carga horária de 60 horas, resultando na produção de 9 pesquisas-documentários, com temas diversos. Sendo que 1 delas gerou presente relato de experiência, proposta por uma estudante da disciplina (pesquisadora-documentarista), psicóloga, do gênero feminino, 29 anos, que correalizou, junto a turma, sob a supervisão do professor. Participaram da pesquisa-documentário 12 pesquisadores-documentaristas (sendo um deles o professor e supervisor das pesquisas), isto é, pesquisadores acadêmicos que se apropriaram da linguagem e técnicas audiovisuais enquanto ferramenta para o estudo e 1 sujeito-personagem, isto é, o sujeito de pesquisa que, ao adentrar no universo audiovisual, nas telas, se torna personagem devido às edições e montagens que remetem a representação do sujeito filmado, totalizando, 13 participantes. O critério de inclusão para os sujeitos-personagens era realizar alguma atividade laborativa no munícipio da pesquisa, a partir de 18, e que tinha alguma questão política/de visibilidade, aceitando e demandando que fosse videogravada/filmada. O critério de exclusão era o sujeito aparentar estar sob efeitos de psicoativos que impossibilitasse/inviabilizasse a qualidade das respostas e/ou interações.

A proposta apresentada pela disciplina teve como objetivo ampliar as reflexões sobre a construção de alternativas para a produção e divulgação acadêmica de forma coletiva, democrática e transdisciplinar, na seara da Psicologia, através do uso da linguagem audiovisual da pesquisa-documentário. Conforme destacado anteriormente, trata-se de uma inovação de se fazer e divulgar ciência em psicologia, de abordagem qualitativa, na qual assumimos uma não neutralidade entre os participantes. Para mais, existe uma conexão intersubjetiva entre pesquisadores e sujeitos, na qual as subjetividades deles se constituem mutuamente, se atravessam de forma contraditória, dialógica e dinâmica (Gonzalez Rey, 2011).

Além disso, a escolha metodológica adotada envolve a filmagem - com uma preocupação ético-política inserida em camadas de proteção e anuência - no planejamento, execução e proposta final (divulgação) das filmagens dos sujeitos que querem, enquanto cidadãos, serem filmados, ressaltando, portanto, um ato político, de visibilidade. Aqui a ética ganha contornos diferentes e não tradicionais, que vão além da assinatura dos termos de consentimento e cessão de uso da imagem em pesquisa. Durante o processo todo, há uma horizontalização (democratização) das relações, na qual os sujeitos-personagens acompanham a produção, podendo interagir, filmar, editar, solicitar modificações, acréscimos, retirada de materiais (fotos, vídeos, textos...) no processo e no resultado final. Assim, além de garantir autonomia, de forma conjunta/coletiva, o consentimento deles não se resume em um momento de assinatura, extravasando outras fronteiras, tendo mais controle e interação durante e após a construção e na divulgação do produto técnico e tecnológico audiovisual gerado, para fins didático-pedagógicos, de reflexão e mobilizações de melhorias públicas (Carrijo; Rasera; Teixeira, 2021; Silva; Gomes-Souza; Oliveira, 2025; Gomes; Costa; Reis, 2024; Gonzalez Rey, 2011).

Mediadas pelas TDIC, as filmagens foram realizadas por câmera semiprofissional ou, na sua grande maioria, por smartphones (de diferentes marcas e modelos). Foram utilizados plataformas e aplicativos diversos para o planejamento, comunicação, armazenamento e compartilhamento dos materiais gravados (dados), como Whatsapp, Google Drive, Google Classroom, Instagram e outros. Para as edições e montagens, foi utilizado o software gratuito Capcut e, ao final, o material foi divulgado em plataforma de vídeo gratuita e, também, em dois eventos: um acadêmico local, na área de psicologia e outro em parceria com a Secretaria de Cultura do Estado da pesquisa, aberto ao público, no qual todos os participantes, convidados e comunidade em geral compareceram para validar a proposta, após os sujeitos-personagens terem aprovado e participado de todas as etapas.

O tempo de filmagem para cada projeto variou consideravelmente, contudo todos os materiais posicionaram-se dentro de uma perspectiva democrática e coletiva, seguindo o seguinte fluxo: planejamento teórico-prático da pesquisa, comunicação e agendamento com os sujeitos-personagens, filmagem, armazenamento das filmagens e/ou outros materiais (fotos, áudios, textos) no drive da disciplina, compartilhamento das filmagens a partir de um link disponibilizado para todos os pesquisadores-documentaristas e sujeitos-personagens da pesquisa em questão (via Whatsapp, Instagram, ...); sugestão de uma primeira montagem e edição de todo o material filmado e compartilhado/negociado com os envolvidos no projeto, mostra interna do material, supervisionada pelo professor da disciplina, discussão dialogada com os pesquisadores-documentaristas, avaliação ético-política, técnica e tecnológica da primeira proposta de edição e montagem, devolução para os sujeitos-participantes. O ciclo se refaz até acordarem uma proposta final do material audiovisual.

A disciplina foi organizada em cinco unidades sendo a primeira etapa dedicada à apresentação e discussão de materiais e teorias sobre o campo da pesquisa-documentário e seus aspectos transdisciplinares, ou seja, sobre a articulação e atravessamentos de vários saberes (teorias, práticas, métodos) formais, como acadêmicos, científicos e informações diversas, para além de áreas de conhecimento e de instituições (Fleury; Behrens, 2022). A segunda unidade teceu reflexões sobre os conceitos de sujeito e subjetividade bem como o papel das pessoas pesquisadoras-documentaristas e dos sujeitos-personagens envolvidas na documentação de afetos constituinte das produções audiovisuais em questão. Em seguida foram discutidos os aspectos metodológicos e éticos envolvidos no processo de construção coletiva das produções. Além disso, também foram abordados os recursos e ferramentas necessários para a elaboração dos estudos. Como sequência foram realizadas oficinas de produção audiovisual dirigidas para os projetos desenvolvidos na disciplina. Por fim, foi realizada a avaliação dialógica e coletiva sobre os materiais e propostas audiovisuais produzidas ao longo do semestre, no qual todas as 9 pesquisas-documentários foram exibidas e comentadas, com uma interação de confraternização de encerramento da turma, seguida de uma avaliação videogravada pelo professor/supervisor sobre as vivências/experiências na disciplina, pelos estudantes (pesquisadores-documentaristas).

Dessa maneira, a construção do material foi realizada no âmbito de uma instituição de ensino superior do norte do país com a participação de uma docente do curso de Licenciatura em Letras Língua Brasileira de Sinais como sujeito-personagem central da produção/correalização. Sua participação foi possível a partir da explicação do projeto de pesquisa-documentário bem como os aspectos ético-políticos subsidiados pela aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa registrado através do CAAE n° 78536124.7.0000.5020 pós a compreensão dos objetivos da pesquisa, houve o aceite e assinatura do Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e Termo de Cessão do Uso de Imagem (TCUI) bem como disponibilidade horário agendado para o registro do diálogo através de gravação em vídeo com utilização de câmera fotográfica semiprofissional.

O sujeito-personagem, com o nome fictício de Clara, é uma mulher cisgênero, nascida surda, oralizada durante a infância, fluente em Língua Brasileira de Sinais (Libras). Possui 48 anos e é professora em um curso de Licenciatura em Letras Libras há 14 anos e foi a primeira professora surda a ser aprovada em concurso público na instituição de ensino. Faz-se importante destacar que o fato de Clara ter a possibilidade de realizar leitura labial e ser surda oralizada pode facilitar seu acesso e permanência em espaços formativos, bem como seu ingresso e desenvolvimento no âmbito do trabalho. Além da participação central de Clara, houve a participação direta na construção e execução do material analisado dos estudantes da disciplina.

A pesquisa-documentário gerada com Clara, propositalmente, é sem áudio. A ideia foi causar um suposto desconforto nos telespectadores ouvintes, no sentido de causar um estranhamento, em um silêncio profundo, no qual nossa interação com o material se dá, necessariamente, de maneira visual. Toda a comunicação na videoentrevista filmada, editada e montada, no processo e em sua versão final, se deu em Libras, com legendas em português (tradução nossa). A Pesquisa-documentário foi organizada dentro do escopo de um curta-metragem (até 15 minutos). O propósito foi dar destaque, visibilidade política das vivências, experiências, trajetória profissional e projeto de vida de Clara, de forma inclusiva, reconhecendo, ilustrando e documento seus afetos e subjetividade, dando autonomia e protagonismo a ela por meio de sua língua e meio de expressão e construção de identidade, a Libras.

A construção dos dados foi norteada pela metodologia transdisciplinar da pesquisa-documentário a qual tem como premissa a condução da pesquisa através do registro e narrativa de um recorte da realidade utilizando ferramentas e recursos do audiovisual (Gomes-Souza; Sampaio; Tramontano, 2024). Dessarte, faz-se necessário destacar que o compromisso e os desafios ético-políticos e metodológicos encontrados pela pessoa pesquisadora-documentarista nesta seara não se dissociam da construção de uma comunicação acessível e significativa que respeita a subjetividade e a trajetória do sujeito-personagem (Carrijo et al., 2020; Carrijo; Rasera; Teixeira, 2021; Gomes; Costa; Reis, 2024). Ademais, faz-se importante destacar de igual modo o comprometimento ético-político do presente estudo para com o uso da Libras como meio de comunicação, expressão e construção identitária próprio de pessoas surdas e/ou com deficiência auditiva de modo a promover acessibilidade e ampliação das discussões e contribuições no âmbito da OPC, tanto para o contexto de atuação de pessoas profissionais de Psicologia quanto para a vivência da população surda.

Para a construção do conteúdo registrado na pesquisa-documentário foi elaborado roteiro contendo perguntas norteadoras para o diálogo com a sujeito-personagem com o objetivo de possibilitar a narrativa sobre sua trajetória profissional, em paralelo com seu projeto de vida. Todo o material videogravado foi traduzido e transcrito de Libras para o português.

Para a análise dos dados construídos foi utilizada Análise Temática (Braun; Clarke, 2017; Souza, 2019; Dias; Mishima, 2023) a qual é estruturada em seis etapas: 1) familiarização com os dados (transcrição, revisão e anotação de propostas iniciais); 2) geração de códigos iniciais (codificação de pontos importantes dos dados e destaque para trechos significativos); 3) busca por temas (formação de potenciais temas a partir da união de códigos); 4) revisão de temas (verificar a coerência dos temas construídos em relação aos dados totais); 5) definição e nomeação de temas (processo de refinamento dos temas e definição de nomes coerentes com o conteúdo proposto); 6) produção de relatório (relacionar os conteúdos à pergunta de pesquisa bem como à literatura com a utilização de exemplos e trechos da narrativa para a construção da comunicação científica dos achados do estudo).

Após realização da análise dos dados construídos foram evidenciadas duas categorias temáticas pormenorizadas a seguir as quais são: transições profissionais e de ensino necessárias durante a trajetória de amadurecimento e constituição da identidade profissional; projeto de vida ligado à transformação social e relevância na luta da comunidade surda.

RESULTADOS E DISCUSSÃO

Apresenta-se como principais resultados da experiência relatada a construção coletiva dos conteúdos explorados a partir do espaço de discussão e elaboração dos projetos de pesquisa-documentário que basearam a formulação das perguntas norteadoras, bem como a construção narrativa do sujeito-personagem principal sobre sua trajetória profissional atrelada ao desenrolar de seu projeto de vida e percursos educacionais e formativos tecendo um olhar crítico sobre os avanços e desafios da educação e profissionalização de pessoas surdas no norte do país.

Forcione, Neves e Prata (2021) ressaltam que as circunstâncias e significados atribuídos pela pessoa às experiências e perspectivas profissionais e de carreira no presente refletem em decisões e ações futuras. Podendo gerar movimentos e escolhas diferentes conforme as expectativas e atualização de valores pessoais de sua atuação no mundo do trabalho. No relato de Clara é possível observar sua movimentação e relação entre os significados do momento presente e das vivências pregressas para a escolha de estudar medicina veterinária em determinado período de sua trajetória profissional e acadêmica bem como destaca a presença do interesse em atividades de docência desde a infância conforme relato:

Na verdade, quando eu era pequena não pensava muito sobre isso. Só que eu gostava de duas profissões. A primeira era ser professora e a outra era medicina veterinária porque eu amo muito animais. [...] Também comecei a observar que na Pedagogia tinham muitos desenhos porque eu amava desenhar, recortar, colar e ensinar. Eu lembro que há muito tempo, quando eu era pequena eu brincava na casa da minha avó. Eu tinha muitos primos. O que eu fazia?! Eu chamava todos os primos e ensinava coisas básicas, simples. (Clara, 25/06/2024)

Em outro recorte da pesquisa-documentário, Clara compartilha que seu primeiro contato com o mercado de trabalho se deu quando trabalhou como vendedora em loja de terceiros e em momento posterior no empreendimento familiar administrado por sua genitora. Ademais, relata que também chegou a iniciar o curso superior em Administração, porém não concluiu por ter enfrentado dificuldades nos estudos. Nesse aspecto, é possível que a modalidade de ensino e as barreiras encontradas para o desenvolvimento dos processos de ensino aprendizagem tenham atravessado a caminhada de Clara e dificultado sua conclusão do curso de Administração.

Alves e Pedrosa (2023), buscaram compreender a trajetória formativa de estudantes surdos através de entrevistas e destacam as dificuldades vivenciadas para o acesso a cursos superiores e os desdobramentos desse cenário no panorama de possíveis escolhas de carreira. Além disso, pode-se agregar essa perspectiva à discussão apresentada pelo estudo de Campelo, Oliveira e Holanda (2020) que versa sobre a criação da formação superior de Letras Libras na Universidade Federal Rural da Amazônia (UFRA) e seus atravessamentos e desafios mesmo após a regulamentação da Lei nº 10.436/2002 (Brasil, 2002) por meio do Decreto nº 5.626/2005 (Brasil, 2005). Nessa tônica, Souza e Souza (2022) destacam a importância de um espaço educacional preocupado com o oferecimento de condições de ensino e aprendizagem que levem em conta as especificidades linguísticas e comunicacionais com vistas a promover uma atmosfera acolhedora e prazerosa.

Dessa forma, é possível verificar nas vivências de Clara a interferência de diversas dimensões da organização humana, da estrutura formativa, do próprio processo de desenvolvimento de autonomia nos processos e decisões de carreira ao longo da vida, como também das dificuldades para a conclusão do ensino superior conforme a narrativa apresentada:

Depois que eu cresci comecei a trabalhar como vendedora. Eu trabalhava como vendedora em uma loja. Depois eu trabalhei na loja da minha mãe. Vendia doces, bolos. [...] Depois de um tempo eu comecei a ter mais autonomia e fui aprovada em Administração. Estudei na faculdade de Administração. Estudei bastante. Mas tranquei o curso porque não me sentia bem. Era difícil pra mim. (Clara, 25/06/2024)

O processo de tomada de decisões e escolhas na trajetória de Clara mostra-se presente e significativo em sua narrativa ao relatar que após trancar o curso de Administração iniciou a faculdade de Medicina Veterinária movida pelo seu interesse e aproximação pelos cuidados com a vida animal. De igual modo, é destacado que os motivos pelo abandono do curso foram mobilizados por situação de natureza financeira que exigiram mudança de percurso e um processo de reconfiguração da formação profissional conforme trecho a seguir: “Eu adorava estudar Medicina Veterinária. Faltavam dois anos e meio para terminar. O curso de Veterinária dura cinco anos. Mas era muito caro. [...] tive que trancar por isso” (Clara, 25/06/2024).

Este movimento de mudanças e interferências de diversos fatores é contínuo ao longo de toda trajetória e mobiliza a pessoa para realizar alterações e novas tomadas de decisões de carreira bem como corrobora para a constituição identitária profissional (Forcione; Neves; Prata, 2021).

Além disso, o processo de identificação com os pares figura como fator de incentivo a busca pela formação superior em Letras Libras é destacado pelo estudo realizado por Souza e Souza (2022) cujos participantes foram estudantes surdos em processo de ingresso na universidade. Essas perspectivas podem ser observadas na narrativa de Clara ao relatar que após iniciar seus movimentos de atuação no mercado de trabalho e passar por dois trancamentos de cursos de formação superior decidiu iniciar duas graduações simultâneas, Pedagogia e Licenciatura em Letras Libras, encontrando sua realização pessoal atrelada ao significado social de sua atuação profissional e pode ser fonte de inspiração para outros estudantes, conforme trecho em destaque: “Eu escolhi ser professora porque eu gosto de ensinar Libras e também é um bom exemplo para a comunidade surda” (Clara, 25/06/2024).

No que concerne à categoria de projeto de vida ligado à transformação social e relevância na luta da comunidade surda, foi utilizada a reflexão de Silva e Danza (2022) ao destacar ser possível observar a influência da formação identitária no processo de construção do projeto de vida de cada pessoa. Conforme identificado no trecho do relato de Clara, destacado anteriormente, no qual afirma que desde pequena gostava de reunir os primos para ensinar “Eu chamava todos os primos, distribuía papeis e ensinava coisas básicas, simples”. Em outro trecho de sua narrativa, Clara afirma que seu trabalho é significativo pois pode mostrar à comunidade surda e ouvinte que pessoas surdas são capazes de se profissionalizar e romper com a lógica capacitista:

[...] é um bom exemplo para a comunidade surda ver que a pessoa surda é capaz. Também é um exemplo para os ouvintes que surdos são capazes e que podem fazer tudo. Às vezes as pessoas pensam que o surdo não é capaz de fazer nada. Por isso eu gosto de ser professora. Para mostrar a luta da comunidade surda por um futuro melhor. Também a luta por mais escolas bilíngues. A luta também para mostrar que o surdo pode ter uma profissão. (Clara, 25/06/2024)

Além disso, Clara destaca a importância da sua atuação profissional para a promoção de transformação e ampliação e possibilidades para seus pares surdos ao relatar: “Eu sou a primeira professora surda aprovada em concurso público (na instituição onde leciona)” (Clara, 25/06/2024). De igual modo, Campelo, Oliveira e Holanda (2020) destaca que a garantia de uma educação norteada pelos pilares da acessibilidade e da inclusão proporciona um ambiente propício para essa ampliação de forma que pessoas com deficiência possam construir trajetórias de formação e carreira diversas, conforme relato da docente sobre “No futuro eu quero que os surdos possam trabalhar em áreas como Administração, professor de Geografia. Ou em várias outras áreas como, por exemplo, Psicologia, Medicina, Medicina Veterinária” (Clara, 25/06/2024).

Para mais, Clara diz ser importante mostrar exemplos positivos para outros surdos que estão buscando romper as barreiras comunicacionais para progredir em sua trajetória de carreira ao afirmar que “Meu desafio é romper com barreiras de comunicação com os ouvintes porque eu quero que os ouvintes respeitem os surdos. Quero romper as barreiras para mostrar que a Libras é uma forma de comunicação. Porque a Libras é uma língua importante” (Clara, 25/06/2024).

Além disso, pelo conceito de projeto de vida ser compreendido como uma forma de expressão da identidade a qual possibilita a realização de objetivos para o futuro pautados em valores, convicções e compromissos pessoais e sociais centrais para cada pessoa (Silva; Danza, 2022), destaca-se a narrativa de Tatyana ao relatar sua trajetória sempre em aproximação com atividades de ensino e ampliação do conhecimento. Esse aspecto é observado na fala em destaque: “Meu trabalho tem um significado importante para mim porque eu tenho essa troca com meus alunos. Os alunos me ensinam e eu ensino os alunos e assim aumentamos nosso conhecimento” (Clara, 25/06/2024).

Através da contribuição e narrativa de Clara foi possível elaborar a reflexão apresentada no presente relato de experiência. Para a proposta inicial foi pensada a construção de material audiovisual de narrativas plurais de pessoas surdas diante de suas trajetórias de carreira e desenvolvimento de projeto de vida. Por conta do tempo limitado da disciplina não houve possibilidade de execução do plano inicial, contudo o material construído através da pesquisa-documentário com a sujeito-personagem possibilitou a ampliação de reflexões sobre a trajetória profissional e projeto de vida de pessoas surdas no norte do país. A disponibilidade e abertura de Clara foi essencial para que o material hoje apresentado pudesse figurar como contribuição para a expansão de discussões e estudos desta natureza no campo das vivências de pessoas surdas.

Algumas das principais dificuldades encontradas durante a execução da proposta de produção de conhecimento apresentada pela disciplina foi reunir em tempo hábil pessoas surdas para participar como sujeitos-personagens visto que a discente/pesquisadora-documentarista não possui vasta inserção na comunidade surda, assim como ainda está em processo de estudos básicos para a aprendizagem da Libras para comunicação. Dessa maneira, foi necessário solicitar o auxílio de um tradutor/intérprete de Libras que pudesse realizar a conexão entre a comunidade e a proposta de pesquisa. Contudo, mesmo com auxílio profissional apenas Clara mostrou-se disponível em tempo hábil para a construção coletiva do material final da disciplina.

Além disso, encontrar materiais para o registro das imagens que pudessem oferecer a qualidade necessária também figuraram como desafio nessa empreitada. Porém, após acionar colegas e amigos, a discente conseguiu o empréstimo de uma câmera fotográfica e filmadora semiprofissional para produzir os materiais e concretizar a entrevista elaborada.

As maiores dificuldades encontradas nessa experiência foram técnicas, no sentido de se apropriar das tecnologias e dos softwares de edição e montagem dos materiais videogravados, que foi novidade para grande parte da turma. O professor/supervisor e os colegas com mais expertise tecnológica compartilharam seus conhecimentos, deixando o processo esteticamente, qualitativamente e cientificamente mais robusto e todos conseguiram entregar suas propostas. Outro desafio técnico foi a dificuldade de conseguir agendamento e interação com mais pessoas da comunidade surda, devido a barreira da língua, de conseguir intérpretes e as disponibilidades divergentes entre a pesquisadora-documentarista e a comunidade. Foram feitos contatos com ouvintes que trabalhavam em centros especializados para pessoas surdas na cidade da pesquisa, para complementar o material gravado, mas não foi possível dentro da carga horária de formação da disciplina.

Apesar dos desafios encontrados, os ganhos e ampliação de reflexões e conhecimentos foram significativamente maiores. A começar pela proposta de construção coletiva utilizada pelo grupo de estudantes durante a disciplina que possibilitou o enriquecimento dos projetos e compartilhamento de vivências. Em diversas aulas foi possível realizar trocas e sugestões na forma de elaborar o roteiro de entrevista justamente pelas contribuições apresentadas pelos colegas e pelo professor responsável. Cabe destacar ainda que a escolha pelo material ser integralmente voltado para o relato de uma pessoa que utiliza Libras como meio de comunicação possibilitou a todos os envolvidos no projeto a ampliação dos interesses e reflexões sobre a real inclusão e acessibilidade oferecida pela formação e atuação profissional no campo da Psicologia e demais áreas.

No que concerne à prática e acesso a intervenções no campo da OPC, as inquietações da pesquisadora-documentarista - desde sua graduação em psicologia - estiveram norteadas pelas lentes da inclusão e da democratização dos espaços de construção de recursos e conhecimento em especial no âmbito da construção de trajetórias de carreira. Dessa forma, contribuir com a produção científica utilizando as ferramentas visuais da metodologia adotada tem impacto significativo da difusão e alcance dessas mesmas inquietações para outros pares que se encontram nos espaços de atuação e pesquisa com vistas a fomentar o aumento de ações, investigações e intervenções inclusivas, acessíveis e construídas juntamente com populações minoritárias e socialmente menos favorecidas. Essa transformação premente requer ações que integrem as mais diversas áreas do saber, desde a base educacional até as tecnologias e conhecimentos socioculturais, que levem em consideração todos os aspectos intrínsecos à diversidade humana para a construção de uma sociedade mais equitativa e justa.

O método da pesquisa-documentário se mostrou eficaz para avançar na compreensão teórica e crítica sobre aspectos educacionais e profissionais de uma pessoa surda. Possibilitou, também, avanço metodológico que, mediado pelas TDIC, criou condições de protagonismo e visibilidade para questões de inclusão sobre a comunidade surda. Por mais que a interação tenha sido estabelecida com apenas uma professora, ressaltamos o poder da linguagem audiovisual de mobilizar reflexões e ações para conscientizar e sensibilizar, de forma criativa, as pessoas ouvintes sobre reais desafios e outras singularidades que demarcam os afetos e subjetividade de uma pessoa surda. Ainda, o material criou condições da abertura de espaço para diálogos entre os pesquisadores-documentaristas, articulando discussões importantes sobre inclusão para a formação dos estudantes em psicologia e, também, serviu de motivação para a comunidade surda seguir diferentes caminhos nas suas trajetórias escolares e profissionais, dando esperança de um futuro mais digno, a partir do seu exemplo e representatividade da cultura surda.

Essa experiência também possibilitou a interação com Clara de outras formas, assim como planejado para a devolutiva da pesquisa-documentário. Ela foi convidada para os dois eventos: o acadêmico local de psicologia e o da parceria entre a universidade e a Secretaria de Cultura. Ela pôde participar somente do primeiro. No dia, após se ver, na presença de intérpretes que nos auxiliaram na tradução, agradeceu pela oportunidade de poder compartilhar sua vivência e história de resistência, parabenizando a iniciativa da disciplina de produção e divulgação não tradicional de um tema tão sensível e que requer mudanças urgentes.

Em um espaço privado, via Whatsapp, reforçou o agradecimento e parabenização ao professor/supervisor, lamentando não poder ir ao segundo evento. Dessa vez, enfatizou, por escrito, o potencial didático e inclusivo do método, para outros conteúdos e propostas, para diferentes reflexões e ações de mudanças para a comunidade surda no Brasil. Portanto, a pesquisa-documentário, oportunizando a formação técnica, tecnológica e ético-política, foi reconhecida enquanto uma TES (Bava, 2004), concebendo que a TES se dá a partir do ensino e aprendizagem, na qual todo um processo pedagógico de construção e intercâmbio de práticas, valoriza, reconhece e usa os saberes da própria comunidade para lidar com demandas e/ou problemas sociais diversos que enfrentam.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Trata-se de uma experiência exitosa, na qual por meio das TDIC, a partir da apropriação da linguagem audiovisual, ancorada na pesquisa-documentário, possibilitou avanços teórico-metodológico, técnico, tecnológico e ético-político singulares para a experiência foco deste estudo, contribuindo para a formação e atuação em pesquisa e psicologia, ao adentrar nas camadas de complexidade do contexto de inclusão, mais especificamente sobre a trajetória educacional e profissional e projeto de vida de uma professora surda.

Desta maneira, o presente relato teve como finalidade ampliar as reflexões sobre trajetórias profissionais e projeto de vida no âmbito da surdez através do uso de ferramentas metodológicas da pesquisa-documentário. Pode-se observar que as técnicas e produções audiovisuais neste contexto figuram como possibilidade de expansão das formas de comunicação e compartilhamento de achados de estudos e análises científicas no campo da Psicologia, em específico relacionada ao desenvolvimento de carreira na seara da OPC perpassados pela trajetória educacional desde o nível básico até o superior. A presente proposta dedicou-se a compartilhar o relato de uma pessoa surda em formato de documentário tornando possível a compreensão da diversidade de experiências no contexto do mundo do trabalho e percursos de projeto de vida individual.

Além disso, faz-se necessário destacar a importância e premência de estudos relacionados à vivência de pessoas com deficiência e suas especificidades para que as intervenções e ações junto a essa população ofereçam olhar crítico, inclusivo e acessível para a adoção de uma postura anticapacitista com vistas a romper com a lógica assistencialista e segregatória dominante na organização social vigente. Para isso, torna-se urgente o incentivo a produções que explorem e busquem a compreensão das experiências de pessoas surdas na perspectiva de construção de carreira ao longo das fases do desenvolvimento humano atravessadas pela perspectiva da Educação Inclusiva.

APOIO/AGRADECIMENTOS

À Universidade Federal do Amazonas (UFAM), à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Amazonas (FAPEAM).

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Recebido: 31 de Março de 2025; Aceito: 25 de Junho de 2025

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