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Psicologia da Educação

versão impressa ISSN 1414-6975versão On-line ISSN 2175-3520

Psic. da Ed.  no.57 São Paulo  2024  Epub 05-Mar-2025

https://doi.org/10.23925/2175-3520.2024i57p1-2 

Editorial

DESAFIOS E RESISTÊNCIAS NA CONSTRUÇÃO DE UMA EDUCAÇÃO DEMOCRÁTICA E INCLUSIVA EM TEMPOS SOMBRIOS: UM OLHAR PARA ALÉM DA ESCOLA - À GUISA DE EDITORIAL

Mitsuko Aparecida Makino Antunes1 
http://orcid.org/0000-0003-2793-7410

Luciana Szymanski2 
http://orcid.org/0000-0002-1863-025X

Carolina Telis Garcia3 
http://orcid.org/0000-0003-0169-908X

1 Gerente da Revista Psicologia da Educação PUC-SP, professora do PEPG em Educação: Psicologia da Educação - Faculdade de Educação; http://lattes.cnpq.br/1548595071478367; miantunes@pucsp.br;

2 Professora, pesquisadora e psicóloga clínica. Mestra pela Universidade de São Paulo e Doutora pelo Programa de Pós-graduação Psicologia da Educação - PUC/SP. Docente do Curso de Psicologia - PUC-SP e vice-coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Educação. Coordenadora do grupo de pesquisa “Escola, comunidade e família” (ECOFAM), que produz trabalhos de cunho participante e dialógico em parceria com equipamentos educacionais, principalmente no território da Brasilândia - SP; http://lattes.cnpq.br/3949476670405833; lucianaszymanski@gmail.com;

3 Psicóloga, Mestra e Doutoranda no PEPG em Educação: Psicologia da Educação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP, docente no curso de Psicologia da Universidade Santo Amaro (UNISA) e da Universidade Paulista (UNIP); http://lattes.cnpq.br/1651509266917558; carolinatelisgarcia@gmail.com.


Este número especial temático de nossa Revista aborda as relações entre a Educação e as diferenças e as desigualdades, historicamente construídas pela humanidade e com fortes matizes na sociedade brasileira.

Estamos assistindo, atônitos, ao recrudescimento não apenas de ideias, mas de ações autoritárias em todo o mundo, fundadas em raízes extremistas e violentas, que emerge com muita força, com seus velhos motes e alguns novos que desafiam a razão e a memória, espalhando retrocessos, intensificando desigualdades e minando direitos duramente conquistados.

A Educação não é refratária à ascensão desses ideais totalitários que nela penetram e, contraditoriamente, tem nela uma das possibilidades de negação e superação. A responsabilidade histórica posta em nossas mãos não pode ficar como complemento ou aporte teórico de nossas produções, mas tem que tomar o primeiro plano para gestar ações efetivas de enfrentamento.

Assistimos, no Brasil (e no mundo), uma situação bastante complexa, que exige um esforço teórico e ético-político urgente para ser compreendida e combatida: para além da histórica crise da educação dos filhos da classe trabalhadora, para os quais a aprendizagem e o desenvolvimento tendem a passar ao largo de interesses imediatos e instrumentais, depara-se hoje com uma guerra (não tão) oculta que conta com a desinformação, a produção de alienação e a ilusão (no sentido espinosano). Quando combatemos a ideia de privatização da escola pública, encontramos como nossa mais forte opositora a família, que acredita que seus filhos ingressarão na fantasiosa escola privada, como se, por um passe de mágica, no dia seguinte os estudantes tivessem acesso aos privilégios das escolas da elite. De maneira análoga, o desejo de seus filhos ingressarem numa escola cívico-militar vem com a ideia do rigor, disciplina e moral que os tornarão “iguais” àqueles que têm (esses) méritos e por isso “vencem na vida”! É necessário que nos dediquemos a estudar esse complexo processo para que possamos seguir adiante e coletivamente na direção de uma escola democrática, igualitária, inclusiva e, como síntese, uma escola emancipatória. Em um panorama Estatal, o projeto Novo Ensino Médio (NEM) parece utilizar sua sigla de forma a comunicar o resumo da reforma: nem qualidade nem pensamento crítico, retirando do ensino público disciplinas que historicamente possuíam o papel de ensinar aos alunos o funcionamento da sociedade e a refletir sobre as estruturas desiguais.

Ainda, consideramos fundamental que a Psicologia, alinhada à outras ciências, tais como a Educação, se debruce sobre esse fenômeno de maneira crítica, considerando sua responsabilidade social, pontuando como formas de pensamento conservadoras e autoritárias geram intenso sofrimento psíquico em indivíduos com os mais diversos históricos, como é o caso da população brasileira, e colocando-se em um lugar de enfrentamento.

Este número traz um conjunto de artigos que vêm ao encontro da necessidade de aprofundamento e de reflexão para o enfrentamento dessa crise estrutural da educação a partir de questões que atravessam a sociedade como um todo e que penetram no cotidiano da escola.

Assim, voltando à ascensão desse ideário conservador, profundamente arraigado em valores tradicionalistas e autoritários, sustentado por narrativas moralistas e excludentes, que reforçam desigualdades e limitam a construção de uma sociedade democrática e plural, é importante ressaltar que ele se constrói na produção de uma massa obediente a comandos “viris”, amalgamada pelo ódio e pela necessidade de eliminar o inimigo, aquele que, em cada momento da história, é o eleito como o causador de todos os males. Mas quem é, historicamente, o inimigo? Aquele que é diferente! Esse ideário penetra em todas as instâncias e vai sendo incorporado, introjetado, entranhado... também nos vários protagonistas da educação e da escola.

Esta é a inestimável contribuição das pesquisas e ensaios teóricos apresentados neste número, que abordam as várias manifestações de diferença e a produção de consequente desigualdade, a partir de abordagens teóricas e metodológicas diversas, que contribuem para ampliar o escopo do olhar para questões mais e menos visíveis da dialética exclusão-inclusão, geradoras de sofrimento ético-político, segundo formulação de Bader Burian Sawaia.

Questões de gênero e identidade sexual, raça-etnia, imigração, classe, entre outras, são tratadas nos artigos deste número; acreditamos que essa mirada ampla e multifacetada pela complexidade da vida na contemporaneidade é necessária para todos aqueles que se dedicam ao campo da Educação, mas particularmente para aqueles que se dedicam cotidianamente à labuta docente!

A possibilidade de publicar este número deu-se pela rica parceria entre um grupo de professoras e professores da Faculdade de Educação da UNICAMP - FE-UNICAMP, especialmente aqueles e aquelas que compõem o Grupo de Estudos e Pesquisas “Diferenças e Subjetividades em Educação” (DiS), e de outras Universidades brasileiras e estrangeiras, dentre as quais, Universidade Estadual de Maringá - UEM, Universidade Estadual Paulista - UNESP, Universidade de São Paulo - USP, Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS, Universidad Nacional de Rosario e a Universidad de Salamanca.

Este número contou com a preciosa colaboração de Elisabete Figueroa dos Santos e de Ronaldo Alexandrino, ambos da FE-UNICAMP, que organizaram esta publicação, assim como de Luciana Szymanski, editora convidada para este número, e da insubstituível Carolina Telis Garcia que tem ocupado a função de gerente editorial, e é fundamental em cada passo e em cada elemento desse processo. Não poderíamos deixar de fazer referência ao cuidadoso e rigoroso trabalho de editoração eletrônica realizado por Waldir Alves, da EDUC - Editora da PUC. Por fim, é preciso reiterar que esta Revista não teria condições de ser produzida sem o apoio da Reitoria da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP, por sua Assessoria de Pesquisa, com o fomento proporcionado pelo PIPEq.

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