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Psicologia da Educação

versão impressa ISSN 1414-6975versão On-line ISSN 2175-3520

Psic. da Ed.  no.57 São Paulo  2024  Epub 05-Mar-2025

https://doi.org/10.23925/2175-3520.2024i57p7-12 

Artigos: Eixo Psicologia e subjetividades

A PSICOLOGIA NA DIFERENÇA: MIRADAS LATINO-AMERICANAS E AFROBRASILEIRAS

Psychology In Difference: Latin America And Afro-Brazilian Perspectives

La Psicología En La Diferencia: Miradas Latinoamericanas Y Afrobrasileñas

Ângela Fátima Soligo1 
http://orcid.org/0000-0001-7056-6649

Edgar Barrero Cuellar2 
http://orcid.org/0000-0002-6475-9820

1 Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - Campinas - SP - Brasil; soligo@unicamp.br

2 Universidade de Salamanca - USAL - Salamanca - Espanha; ebacue@gmail.com


Resumo

Este artigo parte da crítica aos saberes tradicionalmente difundidos e ensinados nos cursos de Psicologia, que se baseiam nos conhecimentos produzidos no ocidente europeu e estadunidenses e traduzem a visão de humano cunhada na modernidade ocidental, de natureza individualista, pretensamente universal, objetiva e neutra. Nessa perspectiva, foram historicamente negados ou apagados os saberes produzidos em África e na América Latina. Para compreender a conexão entre os saberes tradicionais da ciência psicológica e a visão de homem que carregam, realiza-se um resgate histórico da constituição do “Outro” universal, o branco, em oposição aos “outros” desumanizados, a partir das invasões europeias nos continentes africano e americano. A partir da crítica aos saberes psicológicos colonizados, que carregam uma perspectiva eugenista e excludente, apontam-se outras possibilidades de compreensão do humano, em especial na perspectiva africana e afrobrasileira, apresentando como alternativa ao sujeito individual, o sujeito coletivo e a conectividade comunitária como princípios organizadores dos conhecimentos. São apresentados alguns aportes afrocentrados em Psicologia e dois exemplos de produção de saber-fazer em perspectiva decolonial e afroreferenciada.

Palavras-chave: Psicologia; Conhecimentos; Decolonial; Afrocentrada; América Latina

Abstract

This article is based on a critique of the knowledge traditionally disseminated and taught in Psychology courses, which is based on knowledge produced in Western Europe and the United States and reflects the vision of the human coined in Western modernity, of an individualistic nature, supposedly universal, objective and neutral. From this perspective, the knowledge produced in Africa and Latin America has been historically denied or erased. To understand the connection between the traditional knowledge of psychological science and the vision of man that it carries, a historical recovery of the constitution of the universal “Other”, the white man, in opposition to the dehumanized “others”, is carried out, starting from the European invasions of the African and American continents. Based on the critique of colonized psychological knowledge, which carries a eugenicist and exclusionary perspective, other possibilities for understanding the human being are pointed out, especially from the African and Afro-Brazilian perspective, presenting as an alternative to the individual subject, the collective subject and community connectivity as organizing principles of knowledge. Some Afrocentric contributions to Psychology and two examples of the production of know-how from a decolonial and Afro-referenced perspective are presented.

Keywords: Psychology; Knowledge; Decolonial; Afrocentric; Latin America

Resumen

Este artículo parte de una crítica al conocimiento tradicionalmente difundido y enseñado en las carreras de Psicología, que se basa en conocimientos producidos en Europa Occidental y Estados Unidos y traduce la visión del ser humano acuñada en la modernidad occidental, de una visión individualista, supuestamente universal, objetiva y neutra. Desde esta perspectiva, el conocimiento producido en África y América Latina ha sido históricamente negado o borrado. Para comprender la conexión entre los conocimientos tradicionales de las ciencias psicológicas y la visión del hombre que conllevan, se hace una revisión histórica de la constitución del “Otro” universal, el blanco, frente a los “otros” deshumanizados, a partir de las invasiones europeas en el Continentes africano y americano. Desde la crítica al conocimiento psicológico colonizado, que conlleva una perspectiva eugenésica y excluyente, se señalan otras posibilidades de comprensión de lo humano, especialmente desde la perspectiva africana y afrobrasileña, presentándose como alternativa al sujeto individual, el sujeto colectivo y comunitario e la conectividad como principio organizador del conocimiento. Se presentan algunas contribuciones afrocéntricas a la Psicología y dos ejemplos de producción de saber hacer desde una perspectiva descolonial y afrorreferenciada.

Palabras clave: Psicología; Conocimiento; Decolonial; Afrocéntrico; América Latina

Rosa, uma estudante negra de Psicologia, constatou logo de chegada à sua universidade, que jovens como ela, negras, eram poucas entre os estudantes; entre os professores, todos brancos. No decorrer do curso, foi dando conta de que todos os autores de referência do curso eram europeus ou estadunidenses, brancos, em sua maioria homens. Rosa não se via representada não apenas pelos corpos que circulavam pela universidade, mas também pelos referenciais e autores que falavam de um lugar que não lhe pertencia. Ao final do curso, ela e seu grupo decidiram realizar o Trabalho de Conclusão de Curso sobre autoras e autores negros da Psicologia. A resposta do corpo docente de seu curso foi uma negativa, afinal “não há racismo no Brasil”, diziam os professores. Rosa e seu grupo foram então em busca de docentes fora de sua universidade que pudessem ajudá-los. Foi com ajuda externa que puderam concluir seu trabalho e trazer para sua instituição os conhecimentos que com tanta força era negado e apagado.1

A história de Rosa não é apenas de Rosa, ela representa a experiência de muitas (os) estudantes negras (os) dos cursos de Psicologia do Brasil, e tem suscitado debates, pesquisas, propostas (Soligo, Urt, 2024; Espinha, 2017), e nos convoca a pensar: afinal, quem é o sujeito da Psicologia? A resposta a essa pergunta aparentemente simples é complexa e impõe retomar a história da Psicologia no Ocidente e no viés colonialista que marca a Psicologia na América Latina.

A história da Psicologia que tradicionalmente se ensina nos cursos de graduação remonta à Filosofia, Biologia, Fisiologia desenvolvidas no norte ocidental, nos países europeus.

Aprendem-se os filósofos gregos da Antiguidade e seus aportes filosóficos, que buscavam explicar o homem e seus modos de existir; estuda-se a construção da Psicologia a partir do iluminismo, do racionalismo, do experimentalismo, da dialética, em busca dos modos de compreender o humano e suas vicissitudes (Figueiredo & Santi, 2008).

Os manuais de história da Psicologia localizam na modernidade o marco da constituição da Psicologia como ciência, com a criação do Laboratório de Psicologia Experimental em 1879, por Wilhem Wundt. (Patto, 1984). Com a modernidade ocidental, a Psicologia ganha os contornos da ciência positiva, a partir de fundamentos da biologia e da fisiologia. Objetividade, verificabilidade, neutralidade, são adotados como exigências para a constituição da Psicologia como ciência.

Paralelamente, Freud desenvolve os princípios basilares da Psicanálise, a partir do conceito de inconsciente, das estruturas da mente e suas funções, assim como apresenta a libido como força motriz do desenvolvimento da personalidade e da humanidade (Freud, 1969/1997; Molina, 2022).

A tensão sujeito-mundo, exterior-interior, simbólico-material, está presente na produção moderna em Psicologia, como nos aponta (Rouanet, 1985). Segundo a filósofa Manimba Ani2, a ciência ocidental, baseada no conceito de objetividade, fragmenta o sujeito, estabelece hierarquia entre o pensar e o sentir, separa o que é o indivíduo de suas relações com o mundo, com o ambiente e com a espiritualidade. O controle das emoções, da conduta, dos modos de pensar garante o controle do ser humano.

Sendo assim, ao falarmos da ciência psicológica a partir da modernidade, é imperioso pensar de que se trata a modernidade. A modernidade definida a partir da Europa consolida-se não apenas na configuração de um modo de existir espelhado na experiência europeia, mas se instala a partir das grandes viagens e “descobrimentos”, ou melhor dizendo, nas invasões europeias aos continentes americano e africano (Dussel, 2012). É no confronto com o “outro” distinto, na constatação de modos de existir, de éticas e poéticas que não se enquadram no modo europeu, que se instala um padrão de modernidade que elege a Europa como modelo de civilização e o europeu como o humano absoluto, em relação a quem todos os demais povos serão os “outros”.

Mas nessa relação, esse “outro”, nomeado diferente, primitivo, selvagem, não se configura como possibilidade de humanidade, mas como inferior, infra-humano, coisificado, desumanizado, encoberto - esse outro “descoberto” transforma-se no outro encoberto, já que dele se retira a humanidade e, contra ele, toda forma de violência é impetrada - genocídio dos povos indígenas, sequestro e escravização dos povos africanos. Dos sujeitos e povos vitimizados pela colonização predatória, portanto, não se reconhece a condição de um “Outro” humano possível, com seus modos de existir próprios, com suas culturas, filosofias, existência plena, portanto, a sua “Outredade” (Cuellar, 2022)

A diferença, nessa perspectiva, é marcada como ausência, como falta em relação aos que se autodenominaram os humanos, os civilizados, os racionais, os produtores “da cultura”, no singular absoluto - os europeus. A perspectiva da falta, ao mesmo tempo em que encobre as existências possíveis para além do continente europeu, encobre a violência do processo colonizador, já que este não se baseia no confronto entre humanos, mas entre “humanos”, civilizados, e “não-humanos”, selvagens, peças, como eram denominados os africanos escravizados (Fraginals, 2017). Nas palavras de Dussel (1973, p. 14), “Não se pode matar um “Tu”, senão a um degradado ele”.

Como pontua o psicanalista antilhano Frantz Fanon (2008), o negro africano sequer é visto como o outro, já que sua condição humana lhe é negada; o negro luta para ser o outro, para ser reconhecido e tratado como humano, em suas singularidades - o Outro humano.

Fraginals (2017) chama de deculturação os processos de desumanização dos povos escravizados na América e Caribe. Segundo o autor, a consolidação do escravismo e a legitimação das práticas de superexploração e violência foi operada por meio de uma tecnologia social que denomina deculturação - não se trata de aculturação, na perspectiva da incorporação de uma cultura por outra, mas de de-culturação, no sentido de tirar, extirpar, destruir.

Em sua análise, aponta elementos pelos quais se processa a deculturação, entre eles: a perda dos vínculos familiares e culturais, por meio da separação das famílias e grupos de mesma etnia; a separação implicava também a imposição de obstáculos à comunicação, já que agregava grupos linguísticos distintos; a perda do nome, pois ao aportarem nas colônias, os escravizados recebiam o sobrenome de seus “proprietários”; a perda de referências culturais, por meio da imposição de vestimenta neutra, parca3, e proibição de uso de elementos da cultura originária dos povos, bem como de expressão de crenças e símbolos religiosos; a imposição de condição animalizada, impetrada no tipo de habitação - a senzala, que confinava os escravizados em espaços coletivos sem as condições mínimas de habitação, assim como os açoites e castigos físicos, semelhantes aos destinados aos animais de carga e de trabalho e até mais cruéis, que deixavam evidente que, ali, não se tratava de homens, mulheres e crianças, mas de peças para uso e abuso dos seus senhores.

Em interessante estudo sobre a construção da cidade de São Paulo, Santos (1998; 2017) mostra como foi sendo forjada a imagem de uma São Paulo continental, onde predominaria a origem italiana da cidade, por meio da arquitetura, da reserva de trabalho assalariado para imigrantes e do apagamento do trabalho não assalariado, marginal, ocupado pelos negros no período pós-abolição que, embora fossem serviços essenciais à sobrevivência da cidade, não eram retratados como trabalho e eram sistematicamente apagados das imagens representativas da cidade. Esta foi uma forma de suprimir da história as contribuições do povo negro para o desenvolvimento da cidade - apagamento, subalternização, impedimentos.

É dessa visão de humanidade no singular, definida pelo padrão europeu, que se vale a Psicologia que tradicionalmente se aprende, se pratica e se ensina nos cursos de graduação no Brasil e demais países da América Latina (Cuellar, 2017).

Assim, nossa Psicologia colonizada reproduz-se em uma perspectiva que descarta a pluralidade de vidas, experiências, culturas, em nome de uma ciência que se instala nas bases do individualismo, da competitividade, da meritocracia, de uma suposta neutralidade, suportada pela ideologia neoliberal.

Uma Psicologia construída por homens brancos, europeus, que não tem cor, gênero, sexualidade - embora fale sobre ela, porém a partir da visão masculina ocidental (Soligo, 2015; Molina, 2011).

A pesquisa de Espinha (2017) percorre a história da Psicologia no Brasil, identificando as bases europeias eugenistas que influenciam o pensamento científico do país nos séculos XIX e XX, mostrando a penetração da crença na superioridade racial branca, do efeito degenerescente da negritude na constituição do país, que gera a adoção de padrões de normalidade, de desenvolvimento, aprendizagem e desempenho excludentes.

A autora, analisando projetos pedagógicos de cursos de graduação em Psicologia de distintas regiões do país, mostra que esses vieses se perpetuam nos cursos de Psicologia, que seguem ensinando a partir de uma visão de humano universal, que nega a pluralidade racial, de gênero, de classe, que mal trata das questões atinentes aos direitos humanos e, quando o faz, parte de uma visão que descarta e desconsidera as desigualdades. Esta é a Psicologia a que esteve submetida a estudante protagonista da história que dá início a este texto.

Encontramos também em Ani (acesso em 2024) e Santos e Oliveira (2023) críticas profundas aos métodos tradicionalmente adotados por essa Psicologia hegemônica, colonizada. Seus textos trazem a crítica aos conhecimentos que tomam o sujeito individual como unidade de análise e produção, fragmentado em categorias isoladas, que se podem descrever e generalizar a despeito de seus contextos históricos e culturais.

Não se trata, aqui, de ignorar ou suprimir os conhecimentos produzidos a partir da Europa e mais tarde, dos Estados Unidos. Trata-se, por outro lado, de colocá-los em discussão sob outras lentes, que tomem como parâmetro nossas realidades, nossas referências culturais herdadas de ancestrais indígenas e africanos, de nossos modos de produzir a vida, como bem fizeram Fanon (2008) e Grada Kilomba (2024). A perspectiva decolonial aqui proposta implica também a produção de novos saberes, com base nas culturas africana e afrobrasileira, latino-americana, indígena.

Em busca de outras Psicologias

Produzir outras Psicologias, a partir do humano plural, do reconhecimento da diferença como constituinte do humano, não como obstáculo, mas como premissa, da ruptura com os modelos padronizados, implica a adoção de um princípio fundamental: o sujeito em perspectiva decolonial é coletivo. Assim, não pode ser isolado dos outros com os quais convive e o constituem, de sua cultura, de seu espaçotempo.

Na perspectiva das africanidades expressa por Ani (acesso em 2024), o ponto de partida não se encerra no indivíduo, mas na conectividade; no que liga, alia, no que constitui o sujeito coletivo. Ou como propõem Santos e Oliveira (2023), a partir das escrevivências de Conceição Evaristo, que é preciso desintoxicar a ciência dessa visão colonial isolada de sujeito e buscar na experiência africana e afrodiaspórica do coletivo, da comunidade, os Outros humanos possíveis.

Em outas histórias de nossa Psicologia, é preciso conhecer Neusa Santos Souza (1990/1921), que traz, a partir de uma releitura psicanalítica, a ideia de tornar-se negro. Falando sobre a experiência do racismo, Souza nos apresenta os obstáculos que o racismo impõe às pessoas negras desde a infância, para o autorreconhecimento e identificação positiva, pois a cultura hegemônica entrega às pessoas negras o sentimento da falta, da vergonha e do medo. É tocante o relato que apresenta em seu livro, sobre a menina que, diante da experiência de discriminação vivida na escola, passa a ter medo do espelho, da imagem que nele se reflete; da impossibilidade da identificação com um ideal de ego inatingível. Interessante notar que essa vivência do temor do espelho repete-se ao longo de décadas, por várias gerações, como mostra o relato de Silva, Soligo e Ribeiro (2024), que narra o encontro entre uma estagiária de pedagogia e uma aluna do ensino fundamental, na mesma experiência - a recusa da imagem refletida no espelho.

Também tomando como referência a psicanálise, mas submetendo-a a uma leitura a partir da experiência do racismo e da constituição da identidade negra, Nogueira (2021) trata da cor do inconsciente, trazendo as díspares experiências de subjetivação de brancos e negros, em que ser branco corresponde ao padrão, ao que define um “nós” de referência, do qual se afastam as pessoas negras, já que “o corpo negro [que] expressa, escatologicamente, o repertório do execrável que a cultura afasta pela negativização” (p. 66). Assim, o negro traz em seu corpo a marca da suposta inferioridade social. A autora trata, ao longo do seu texto, dos interditos que a experiência racista impõe à identificação do sujeito com um corpo que aprende a amar uma imagem da qual jamais poderá se aproximar.

Relevante contribuição para o campo da Psicologia são os estudos de Bento (2021). A autora discute os processos de racialização das pessoas negras, ao passo que as pessoas brancas, seus modos de existir, seus privilégios, são considerados universais. Analisa o que chama de pacto narcísico da branquitude, por meio do qual opera um sistema institucional e relacional de proteção das pessoas brancas, manutenção de seus privilégios e minimização de seus delitos racistas. Propõe a racialização do branco, na direção de contestar sua suposta universalidade.

Em perspectiva decolonial, merecem destaque dois aportes desenvolvidos, um na Colômbia, outro no Brasil. Ambos partem da experiência coletiva como núcleo central, afastando-se da ideia de sujeito individual fragmentado e isolado.

Na Colômbia, a Clínica Psicopolítica desenvolvida por Cuellar (2020) traz como perspectiva um aporte e uma proposta decolonial e libertária. A Clínica Psicopolítica só é possível a partir da experiência coletiva e do conhecimento e reconhecimento das práticas e saberes cotidianos dos povos que habitam as comunidades, periferias, o campo. Não há recusa ou rechaço desses saberes, mas incorporação, aprendizagem, troca. Nessa perspectiva, toda a clínica tem caráter político, na medida em que, no diálogo, no partilhamento de vivências, práticas, saberes, memórias, constrói-se consciência de si, do “nós”, da vida e se podem produzir transformações - perspectivas libertárias de apoio e organização.

No Brasil, o estudo desenvolvido por Alves, que resultou na publicação do livro “Malungas numa tese” (2024), traz um original e criador processo de produção de conhecimento acadêmico, a partir da escrevivência das memórias da autora e seu entrelaçamento com as vidas de outras mulheres que residem no mocambo onde a autora vive e é agbá (mais velha) da comunidade. É no partilhamento de histórias, na construção e compreensão coletiva das necessidades do grupo e na organização das ações promotoras do bem-viver da comunidade, que vão sendo tecidos os saberes produzidos pelo coletivo. A tese não se configura apenas como um conhecimento a ser referendado, ela é processo, caminho, mudança.

Pode-se afirmar que a Psicologia na diferença é um caminho em construção, uma trilha de muitas obstáculos e saídas possíveis, que implica o reconhecimento de que os saberes produzidos no ocidente europeu e estadunidense, reproduzidos em nossa formação e práticas, não representam a pluralidade de existências humanas nem promovem o reconhecimento dos muitos “Outros” que somos; que durante séculos, os saberes africanos, latino-americanos, orientais, indígenas, foram ocultados, negados, afastados da nossa ciência colonizada; que buscar a humanidade no plural e uma Psicologia na diferença, implica superar a perspectiva individualizante, em direção ao sujeito coletivo, ao que nos conecta como humanos em distintas experiências; que o positivismo não pode ser a régua metodológica a que deve estar submetida toda ciência; que fazer ciência é produzir novos caminhos metodológicos.

E, por fim, assumir que toda Psicologia é política, naquilo que nega e naquilo que afirma, nos devires que assume e nas práticas que engendra.

Referências

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1 Essa é uma história verídica, relatada pela estudante, a quem optamos por atribuir um pseudônimo. Narrar essa história foi autorizado por sua protagonista.

2 Em entrevista publicada no youtube: https://www.youtube.com/watch?v=zEpavqcubyo, acesso em 15/11/2024

3 Há que se destacar que o uso de calçados era também proibido, já que os mesmos deveriam ser utilizados apenas por seres humanos livres, categoria à qual, por imposição, não pertenciam os escravizados.

Recebido: 08 de Dezembro de 2024; Aceito: 16 de Dezembro de 2024

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