Memorável Abigail Alvarenga Mahoney. De longas vivências profissionais que facilmente também se tornaram pessoais, resolvemos escrever memórias de nossa relação com Abigail e compartilhá-las com os leitores desta revista.
Abigail tinha uma delicadeza que podia parecer timidez, e essa delicadeza onde estivesse - nas aulas, nos relacionamentos com alunos e orientandos, nas arguições, nos grupos de estudos - podia esconder o tanto que Abigail fez no mundo da Educação e da Psicologia da Educação.
Saudades nos movem, na esperança e na certeza de que nossas palavras e memórias mantenham viva a presença de Abigail.
Abigail: professora e pesquisadora à frente do seu tempo
Laurinda Ramalho de Almeida
Tive o privilégio de conviver com a professora Abigail Alvarenga Mahoney em vários tempos: como aluna, como orientanda, como colega, como parceira de escritos em artigos e comunicação para congressos e na organização de livros, e também como companheira nas reuniões da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação (Anped), em Caxambu. Em todos esses momentos, o prestígio da professora Abigail respingava em mim. Somando tudo, foram 40 anos de convivência, pois ingressei no mestrado do Programa de Estudos Pós-graduados em Psicologia da Educação (PED) em 1974 e já fui me aproximando da professora recém-chegada dos Estados Unidos que estudava Rogers, questões da afetividade e das relações interpessoais. Terminando o mestrado, veio o doutorado; nos dois, a professora Abigail Mahoney foi a orientadora. Titulada em 1992, em 1993 comecei a trabalhar no PED.
De um baú recheado de memórias, o que retirar para ser divulgado, sem sua presença tanto afetuosa como severa para autorizar? Precisava de um critério. O dicionário de Filosofia de Abbagnamo afirma que critério é “uma regra para decidir o que é verdadeiro ou falso, o que se deve fazer ou não”. Como não afirma a quem compete estabelecer a regra, coube a mim fazê-lo. Dado que fui sua observadora participante em muitas situações, estabeleci minha regra: quais atitudes, comportamentos, ações, que percebi em Abigail Mahoney, professora e pesquisadora, estavam à frente de seu tempo, na vida acadêmica?
Tentarei ser o mais objetiva possível, a partir de minha subjetividade.
Grupos de estudo como estratégia formativa
A professora Abigail (vou passar a chamá-la assim) chegou ao PED da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) em 1970, sendo uma de suas primeiras professoras (o Programa foi criado em 1969), a convite do professor Joel Martins, que fora seu professor na Universidade de São Paulo (USP) (onde ela cursou Pedagogia) e a incentivou a fazer o mestrado nos Estados Unidos. Permaneceu como docente, trabalhando apenas nesse Programa (apesar dos convites recebidos de outras instituições), do qual se aposentou em 2006. No PED, em 1970 e 1980 dedicou-se ao ensino e à pesquisa da Abordagem Centrada na Pessoa, de Carl Rogers. O autor teve significativa importância em sua vida pessoal e profissional ao evidenciar o papel das relações interpessoais como facilitadoras da aprendizagem.
Por que minha atração por Rogers? Uma das coisas de que me lembro é que durante minha formação toda eu implicava bastante com a ênfase exagerada no cognitivo. Achava que faltava alguma coisa, que eu não sabia o que era. [...] Lendo Rogers pensei: Encontrei alguém que, além do cognitivo, pensa no afetivo e dá recursos ao professor para trabalhar com o lado afetivo, que não pode ser ignorado (Almeida, 2007, p. 71)1.
A temática que mais a desafiava era a das relações interpessoais, tanto é que no mestrado, que cursou em 1963-1964, na Indiana University, sua pesquisa foi Conditions to facilitate interpersonal relationships e, posteriormente, com a orientação do professor Joel Martins, na PUC-SP, sua pesquisa de doutorado foi Análise lógico-formal da Teoria de Aprendizagem de Carl Rogers.
Vale lembrar que sempre esteve ligada à área educacional; terminado o curso de Pedagogia, na USP, prestou concurso para atuar na rede estadual de ensino de São Paulo e trabalhou dando aulas no curso Normal, em escolas da capital e do interior, antes de ir para os Estados Unidos.
O grupo que se acercou dela no mestrado em Psicologia da Educação, em 1974, tinha por interesse a questão das relações interpessoais no contexto escolar. A abordagem rogeriana, denominada por Rogers Abordagem Centrada na Pessoa (ACP) era, naquele momento histórico, a única proposta que se apresentava. Estudar a ACP fazia sentido para o grupo, pois representava fundamentar teoricamente sua prática educacional.
Que fez a professora Abigail para estudar uma abordagem recém-chegada às universidades brasileiras? Constituiu um grupo de estudos. Desse grupo, que se reunia quinzenalmente, fizeram parte, no seu início, as professoras Bernardete Gatti - do PED e da Fundação Carlos Chagas - e Teresa Marini - da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Presidente Prudente - e as orientandas da professora Abigail: Ana Maria Brandt de Carvalho, Laurinda Ramalho de Almeida e Vera Maria Nigro de Souza Placco. Aos poucos, outros estudantes foram incorporados ao grupo. Estudávamos, com rigor acadêmico, os fundamentos teóricos da ACP a partir de obras e artigos trazidos pela professora Abigail dos Estados Unidos, bem como alguns indicados pela professora Raquel Rosenberg que, na USP, junto com o professor Oswaldo de Barros Santos, dirigia o Serviço de Aconselhamento Psicológico (SAP), integrado ao Instituto de Psicologia, com suas ações fundamentadas na abordagem rogeriana.
O grupo tinha clareza de que, nas atividades educacionais, não era só o cognitivo que deveria ser considerado, pois o investimento no afetivo favoreceria as relações interpessoais e, portanto, o acesso ao conhecimento. Rogers oferecia recursos para analisar a questão da afetividade, fora e dentro da sala de aula.
Os estudos do grupo Rogers reverberaram em várias dissertações, e os primeiros estudos teóricos das apregoadas condições facilitadoras para a criação de um clima favorável ao desenvolvimento da pessoa, no Estado de São Paulo, foram realizados no PED-PUC-SP, por orientandas da professora Abigail:
Um estudo teórico do conceito de congruência em Carl Rogers - por Vera Maria Nigro de Souza Placco (1978).
Um estudo do construto consideração positiva incondicional em Carl Rogers - por Laurinda Ramalho de Almeida (1980).
Um estudo teórico do conceito compreensão empática na obra de Carl Rogers - por Ana Maria Brandt de Carvalho (1980).
Porém, outras questões começaram a surgir: o que mais oferecer ao professor para lidar com o conteúdo, para planejar um bom ensino? Um autor que oferecia suporte para isso foi encontrado pela professora Abigail: David Ausubel, com sua proposta de aprendizagem significativa, em uma perspectiva cognitivista. Porém, trabalhar com Rogers e Ausubel implicava dicotomia razão-emoção, pois embora os dois autores considerassem a existência de um elo entre razão e emoção, essa questão não fazia parte de sua discussão teórica. Ainda assim, a professora Abigail ofereceu cursos sobre a abordagem de Ausubel alguns semestres.
A procura de um autor que satisfizesse teoricamente o que considerava importante e necessário continuou. Mas, mesmo quando o encontrou, não esqueceu os princípios da abordagem rogeriana.
Em um depoimento oral a propósito da importância dessa abordagem para a formação de orientadores educacionais, em 2016, assim se manifestou:
O que chamou minha atenção e do público em geral foi a ênfase dada por Rogers à parte emocional, o que não era feito antes. Foi um autor importante que deixou marcas nas pessoas que conheceram sua obra. No meu caso, mesmo quando fui para outros autores, ele estava presente, para comparações, para discussões. (Mahoney, in Almeida, 2018, p. 321)2
A professora Abigail, em uma das reuniões anuais da Sociedade de Psicologia de Ribeirão Preto (hoje Sociedade Brasileira de Psicologia) assistiu a uma mesa-redonda, cujos participantes discutiram as teorias de Piaget, Vigotski e Wallon. Heloysa Dantas apresentou a teoria de desenvolvimento do médico, psicólogo e educador francês Henri Wallon. Na exposição dessa professora da USP, campus de São Paulo, a professora Abigail encontrou um autor que apresentava solidez na integração cognição-afetividade. A convite da expositora, passou a participar de seu grupo de estudo sobre Wallon. Quando o grupo se desfez, a professora Abigail deu continuidade às leituras e discussões com alunos interessados nas questões discutidas pelo autor, agora na PUC-SP.
Com o Grupo Wallon, a professora Abigail foi a introdutora, na PUC-SP, da teoria de Henri Wallon, um clássico da Psicologia do Desenvolvimento, tal como introduzira a abordagem rogeriana, com um grupo de estudos sobre Rogers.
O Grupo Wallon foi um celeiro para produção de dissertações e teses que, com fundamento teórico nos postulados wallonianos, discutiam questões desde a creche até o ensino superior. As pesquisas indicaram a necessidade, na formação de professores, de que formas apropriadas para compreensão e conceituação de emoções e sentimentos fossem discutidas para evitar a visão ingênua de considerá-los como agrados, carícias, laissez-faire, ou seja, a necessidade de apresentar a dimensão afetiva como aspecto constituinte da pessoa, junto aos domínios da cognição e do movimento; necessidade de discutir também as inevitáveis consequências da dimensão afetiva no processo de ensino-aprendizagem, em seu papel de aproximação-distanciamento dos conteúdos escolares.
Por solicitação dos alunos, participantes do Grupo Wallon, muitos vindos de outros estados, o Grupo transformou-se em uma disciplina eletiva (valendo créditos, portanto) e continuou gerando pesquisas de mestrado e doutorado, esclarecendo e aprofundando questões da teoria walloniana para o desempenho docente.
Um acréscimo desnecessário: criar, coordenar e participar de grupos de estudos foi uma característica da professora Abigail, em um período no qual a pós-graduação era marcada particularmente por disciplinas, sem existência de grupos e linhas de pesquisa. Vale lembrar uma frase que usava sempre no Grupo Wallon: “um espaço para partilhar o saber e o não saber; não sei tudo, quero aprender junto com vocês”.
A elaboração de coletâneas
O Grupo Wallon priorizava a leitura de textos do próprio autor e enfrentava dificuldades, tanto de acesso ao material quanto de compreensão dos textos. Devido a essa dificuldade de acesso às obras de Wallon em edições brasileiras, na década de 1990, a professora Abigail disponibilizava seus originais ao Grupo, muitos deles já cópia-xerox, contribuição particularmente de Heloysa Dantas e Izabel Galvão, da USP.
Surgiu daí a proposta de alguns participantes do Grupo para elaboração de uma coletânea, com as propostas teóricas de Wallon. A professora Abigail concordou, relutante, dada sua preocupação em trazer a público questões que estavam ainda sendo estudadas e que deixassem de apresentar a precisão teórico-conceitual desejada. Combinou-se, então, que cada capítulo seria elaborado por um dos elementos do grupo e socializado ao grupo todo para discussão e acertos. Surgiu, assim, a primeira coletânea, organizada pelas professoras Abigail e Laurinda, em 2000: Henri Wallon: Psicologia e Educação (com foco nos estágios de desenvolvimento).
Surgiu logo a segunda coletânea, organizada pelas mesmas professoras, em 2004: A constituição da pessoa na proposta de Henri Wallon (com foco nos domínios ou conjuntos funcionais).
Lembro-me de nossa ida (professora Abigail e eu) à sede das Edições Loyola falar com o Padre Danilo Mondoni, diretor geral e editor das Edições Loyola, sobre a possibilidade da publicação da primeira coletânea. Ouviu com atenção nossa exposição e dado seu entusiasmo pelo teórico Henri Wallon e pelo trabalho da professora Abigail e seu Grupo, autorizou a publicação da coletânea, sem exigir parecer prévio para publicação. O mesmo ocorreu com as demais coletâneas, pois, com a transformação do Grupo Wallon em disciplina eletiva, outra coletânea surgiu, agora com foco na dimensão afetiva, em 2007: Afetividade e aprendizagem: contribuições de Henri Wallon (organizado por Laurinda e Abigail).
Essas coletâneas foram responsáveis pela divulgação da psicogenética walloniana em cursos de licenciatura e de pós-graduação.
Relação teoria-prática
A partir de sua adesão à proposta teórica de Wallon, seus cursos e orientação de pesquisas se concentraram na psicogenética walloniana, sem descuidar da relação teoria-prática.
A discussão dos conceitos densos, complexos, da teoria era sempre precedida por uma explicação: uma teoria de desenvolvimento assume três funções complementares: dá previsibilidade à rotina; oferece subsídios para o questionamento e enriquecimento da prática e da própria teoria; e possibilita alternativas de ação com maior autonomia e segurança.
Seus cursos concentravam-se na leitura e discussão de textos do próprio autor. Dentre as estratégias empregadas, uma era constante: ao final de cada encontro, solicitava a escrita individual de um pequeno texto de, no máximo, uma lauda, sobre o conteúdo estudado, relacionando-o com questões do cotidiano profissional. Os textos eram lidos e comentados por ela na aula seguinte. Nesses comentários, ficava sempre explicitada sua compreensão do papel da escola:
A escola, ao se organizar, deve ser a expressão concreta dessa unidade indissolúvel adulto-criança-sociedade, encontrando o ponto de equilíbrio entre o atendimento das necessidades do desenvolvimento da criança e o atendimento das necessidades de desenvolvimento da sociedade, sem perder de vista que sua maior solidariedade é com a criança. A criança traz para a escola as características de seu ser biopsicológico e as consequências das condições materiais e sociais da sua existência impostas pela sociedade que vive.
É importante que a escola tome consciência do que ela oferece às crianças como modo de existência, como modo de sentir, como modo de se relacionar com a cultura e com as pessoas: enfim, ela é uma oficina de relacionamentos, de conhecimentos e de movimentos. Participar desse espaço escolar exige das crianças vários ajustamentos: motores, afetivos, cognitivos. A sua movimentação, a sua tonicidade vão estar submetidas à organização da rotina da escola como atividades distribuídas no tempo, que não é necessariamente o tempo da criança. (Mahoney, 2007, p. 18)3
Quanto às pesquisas, discutia com seus orientandos que o objetivo deveria partir, preferencialmente, de um questionamento sobre a prática, sobre seu fazer cotidiano.
O respeito pelo outro
O respeito pelo outro e a manifestação desse respeito faziam parte do cotidiano da professora Abigail na sala de aula, nos corredores, nos elevadores, no ponto de táxi, onde todos a conheciam e perguntavam por ela.
Narro apenas um fato, acontecido comigo, como exemplo.
Eu já era sua colega. Terminada a aula, que muitas vezes acontecia em duplas, estávamos vagarosamente descendo a rampa do “prédio novo” da PUC.
Ela, com voz suave, continuando a descer, começou a falar sobre como ocorrera a aula: “Laurinda, foi bom você falar aos alunos sobre como percebe os fatos, mas é mais adequado deixar de dizer ‘tenho um bom faro’ para isto ou aquilo. Fica melhor dizer insight ou intuição, pois estamos no meio acadêmico”.
Entre as muitas marcas de nosso convívio, a lembrança da descida pela rampa me ajuda a não deixar passar um fato que julgo merecer reparo, mas fazê-lo no momento certo, com o devido respeito.
A imagem que ficou
Estávamos em 2016. A professora Abigail já estava aposentada desde 2006, porém, continuava participando de atividades acadêmicas em bancas e na presidência da Fundação Aniela e Tadeusz Ginsberg, que incentiva pesquisa em Psicologia por estudantes de graduação.
Seus 36 anos de atuação no PED como professora, coordenadora do Programa, orientadora de teses e dissertações, participante de eventos, granjeou-lhe admiradores em praticamente todos os estados do Brasil. Afinal, o PED, criado em 1969, foi o primeiro Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Educação no Brasil e o segundo em Educação, e a professora Abigail teve nele atuação desde 1970. Mesmo aposentada, mantinha contato com alguns de seus orientandos.
Uma dupla, em especial, manteve contato com ela: Laurinda Ramalho e Regina Prandini, para discutir pontos da teoria walloniana e planejar a elaboração de um pequeno livro com a temática de uma das obras de Wallon - Do ato ao pensamento. Mesmo debilitada, no físico e no espírito, concordou com a proposta. Perdera o filho que voltara ao Brasil para ficar com a mãe e, vítima de um câncer agressivo, fora antes que ela.
Discutido o plano, Regina e eu elaboramos um primeiro esboço, cerca de três laudas digitadas. Sabendo que ela estava hospitalizada, resolvemos visitá-la e mostrar nossos primeiros escritos. Frágil, serena, recebeu-nos com um sorriso. Estava sozinha, deitada em seu leito de hospital.
Lemos para a professora Abigail nossa primeira versão da introdução que ela ouviu atenta, pedindo para repetir algumas frases.
Ao final da leitura, presenciamos uma transformação: era nossa mestra que estava à nossa frente, exigente na reflexão teórico-conceitual de um grande autor da Psicologia do Desenvolvimento, que exigia respeito na apresentação de suas ideias. Era a professora, orientadora, pesquisadora, que tínhamos à frente, cama de hospital transformada em cátedra, vibrante de entusiasmo, afirmando, com voz fraca, porém firme: “Não, não é isso que é importante destacar. Os pontos são outros”.
Regina Prandini e eu tivemos o privilégio de receber a última aula de Abigail Alvarenga Mahoney. Essa é a imagem que guardamos dela - uma grande, inesquecível, inquebrantável Mestra.
Lembrando Abigail Mahoney: um depoimento
Maria do Carmo Guedes
Ao criar um Setor de Pós-Graduação na PUC-SP em 1969, Professor Joel Martins aproveitava exigência expressa na Reforma Universitária imposta pela Ditadura em 1964. Segundo Darcy Ribeiro (1985), a única coisa boa na Lei 5540 de 1968.
Na oportunidade, instalou imediatamente um sistema para aproximar Professores de Metodologia da Graduação, algo que vinha fazendo já quando era Professor na USP. Uma relação indispensável, dizia. Chegou a conseguir do MEC uma autorização para que, com apenas Mestrado, pudessem trabalhar como Auxiliares de Ensino junto a pessoal que trazia do Exterior ou de outras universidades, aproximando ainda as diversas áreas de conhecimento, num protesto claro ao fechamento das Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras.
Adicionalmente, incentivou estes Auxiliares a fazerem imediatamente seus doutorados, antes da Regulamentação da Lei, que instituiu o Mestrado como condição para o doutorado.
Trabalhando na PUC desde 1962, foi neste contexto promissor que tive oportunidade, ao início dos anos 1970, de começar a lecionar na pós-graduação, num dos primeiros programas criados: o de Psicologia da Educação. Ao mesmo tempo, incentivada (entre outros por Joel Martins), comecei meu Doutorado na USP, onde fizera nos anos 1950 minha licenciatura em Filosofia.
No PED, eu me sentia um pouco estranha entre tantas vertentes teóricas então ensinadas por colegas (advindos de egressos da Educação ou da Psicologia).
Mas logo reconheci como companheiras principais Bernardete Gatti, que enfatizava a relação ensino-aprendizagem e Abigail Mahoney, competente indiscutível em relações interpessoais, destreza que exercitava a cada discussão mais acirrada. Entretanto, ao mesmo tempo eu era chamada por Aniela Ginsberg para um novo Programa que Professor Joel incentivava: o de Psicologia Social. Saí do PED para trabalhar diretamente com Silvia Lane, que conhecia desde o tempo em que trabalhei no CRPE de São Paulo (de 1957 até sua extinção em 1964 pela Ditadura - como tudo que havia sido criado por Anísio Teixeira).
Ainda no PED, pude viver uma experiência muito especial, quando Abigail, agora Coordenadora do Programa, propôs uma forma bem diferente (a meu ver) de comemorar o aniversário do Programa: abriu um tesouro para interessados em material de Arquivo, como eu. Sugeriu usar o Arquivo Administrativo do Programa para preparar o vigésimo aniversário do PED.
Quando a proposta foi apresentada ao Colegiado, muitos professores e alunos se interessaram e pudemos conhecer documentos preciosos, como Atas de reuniões que mostravam a relação entre propostas discutidas e decisões tomadas. Como aprendi com Josef Fontana (na ANPUH brasileira em meados dos anos 1990), para fazer A História de Todosé preciso saber o que pensavam e faziam as pessoas quando tomavam suas decisões. Achei maravilhosa a proposta.
E fizemos, professores e alunos (estes ainda em férias) reunidos durante um mês, uma pesquisa cujo maior mérito foi, a meu ver, irmanar professores de diversas disciplinas com seus respectivos alunos, num trabalho que só mesmo quem entendia e, principalmente, inspirava afeto, como Abigail, saberia coordenar. Não bastasse isso, de quebra, a Coordenadora bancou esse semestre como valendo um semestre letivo.
Penso que Abigail Mahoney merece ser para sempre lembrada. E esta Revista é apenas um dos veículos que devem colaborar para isso. Daí, nosso empenho em participar, com este Depoimento, deste conjunto de textos em Compartilhando.
De professora à amiga - uma grata surpresa da vida!
Melania Moroz
Gabriel Garcia Marques em seu livro Viver para contar, no qual narra memórias de sua infância e adolescência, afirma na epígrafe A vida não é a que a gente viveu, e sim a que a gente recorda, e como recorda para contá-la. Essas recordações são parte do que vivi com minha amiga Abigail.
Eu não tinha a menor ideia de que ela se transformaria em uma grande amiga. Conheci a professora Abigail Alvarenga Mahoney, nos idos anos 1970, quando fazia meu mestrado em Psicologia da Educação, na PUC-SP,
Lembro-me de sua imagem delicada, sempre falando baixo, vestindo roupas clássicas, combinadas com sapatos de salto médio confortáveis. Tinha cabelos curtos, levemente ondulados, com poucos fios brancos que se transformaram, ao longo dos anos, em uma cabeleira branca que se tornou uma de suas características físicas marcantes: ela nunca os tingiu!
Os alunos podiam se enganar, inicialmente, com sua fala mansa e seu modo delicado, supondo que o curso poderia ser feito sem dedicação e esforço em relação à compreensão do referencial teórico rogeriano, objeto do curso que na ocasião ministrava. Ledo engano: Abigail era uma profissional de grande competência e compromisso com a atividade docente, apresentando elevado rigor conceitual em relação à abordagem rogeriana, exigindo de seus alunos empenho e qualidade na execução das atividades por ela propostas.
Essa seriedade e compromisso com a atividade docente foram por mim constatados anos depois, quando em 1990 me tornei sua colega no Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação - Psicologia da Educação (PED). Como sua parceira profissional, pude acompanhar não apenas sua atividade docente, mas também sua ação como Coordenadora do PED, em cuja última gestão fui vice-coordenadora, no período de 11/1992 a 06/1997. Devo testemunhar que Abigail me inseriu na coordenação não como uma vice pro forma, mas como sua parceira em todas as decisões que envolviam projetos e/ou consequências para o PED; foi durante essa parceria constante nesses anos que, de colega de trabalho, ela se transformou em minha amiga.
Muitos desafios foram enfrentados durante essa gestão. Nesse período, ocorreram mudanças nas orientações de CAPES, sendo uma das mais difíceis de enfrentar a limitação de tempo para a titulação, especialmente do Mestrado, que passou a ter 30 meses como prazo máximo. Até então, não havia limite temporal para se obter o título de mestre; era comum que os mestrandos realizassem uma disciplina por semestre e, só ao final do conjunto de disciplinas, iniciassem o período de orientação para a realização da pesquisa a ser apresentada na defesa. Como consequência, os alunos levavam muitos anos para terminar o mestrado e, aos que dariam continuidade, para obter o título de Doutor. Lembro-me do quanto foi difícil essa alteração, tanto para os docentes quanto para os alunos, pois envolveu grande mudança no ritmo de realização do Mestrado.
A propósito, relacionada a essa mudança houve a revisão curricular do PED pelo colegiado: as disciplinas deixaram de ser o eixo da formação dos pós-graduandos, como ocorria anteriormente, passando a formação do aluno a se apoiar também no desenvolvimento de projetos de pesquisa, usualmente sob coordenação do orientador, que passou a ser atribuído ao iniciar o curso, e não após a realização das disciplinas como era usual anteriormente.
Outro desafio foi a criação da revista Psicologia da Educação. O Programa teve uma publicação que apresentava artigos do próprio grupo docente, mas que teve existência curta. Durante essa gestão, consideramos fundamental ter um periódico científico que focalizasse, especificamente, a Psicologia da Educação. Nessa ocasião, contamos com o apoio essencial da professora Maria do Carmo Guedes, então diretora da EDUC, editora da PUC-SP. A revista Psicologia da Educação teve seu primeiro número publicado em novembro de 1995, e até o momento continua sem interrupções, atingindo, no próximo ano de 2025, 30 anos de existência.
Lembro-me também que, durante essa gestão, fiz a proposta de trazer para o PED o professor Marc Richelle, da Universidade de Liège, reconhecido pesquisador behaviorista radical. Abigail deu todo apoio a sua vinda, que foi financiada pelo INEP, e à possibilidade de ampliarmos os efeitos desse evento, permitindo a participação de alunos e professores, tanto de outros cursos da PUC quanto de outras universidades.
Pude também acompanhar até a sua aposentadoria, que ocorreu em 2006, sua atuação como pesquisadora. Durante o início de sua gestão como coordenadora, Abigail participou de um grupo de reflexão proposto pelo recém-empossado reitor da PUC, Joel Martins - a Universidade do Futuro; lembro-me que ela trazia informações de aspectos que eram ali discutidos e, nesse período, passamos a ter um grupo de pesquisa registrado no CNPq como Universidade em Foco, do qual participou a professora Laurinda Ramalho de Almeida.
O recorte que focalizávamos era especificamente o nosso Programa de Psicologia da Educação. Passamos a estudar que tipo de fundamentação era dada aos pós-graduandos, seja na Psicologia da Educação como área de conhecimento, seja na sua formação como pesquisadores e, nos surpreendemos, quando emergiu um dado até então desconhecido - a evasão no PED, que passou a ser alvo de pesquisa.
Foi o primeiro contato que tive com Abigail como pesquisadora, cuja atividade acompanhei posteriormente no Grupo de Pesquisa do CNPq - Bases da Psicologia na Educação, do qual foi coordenadora e do qual participei com uma das linhas de pesquisa. Nesse grupo de pesquisa, as contribuições de diferentes abordagens teóricas para a Educação passaram a ser o foco. Eram três linhas de pesquisa: Contribuições do behaviorismo radical, Contribuições da abordagem walloniana e Contribuições da abordagem vigotskiana. Abigail era responsável por pesquisas que estudavam as contribuições de Henri Wallon, de cujas ideias foi estudiosa e importante divulgadora em nosso país.
Em sua tripartite atuação profissional - como professora, coordenadora e pesquisadora -, pude constatar a seriedade com que executava suas funções, com dedicação total, estando sempre presente para tomar decisões que favorecessem o desenvolvimento, seja do aluno, seja da pesquisa, seja do PED. Foram esse compromisso e sua postura ilibada, não apenas do ponto de vista profissional, mas também pessoal, que constatei e passei a admirar na minha grande amiga.
O trabalho de pesquisadora se intensificou e inúmeras participações em eventos científicos da área da Educação e da Psicologia, nacionais e internacionais, ocorreram. Sempre estive com Abigail nesses eventos, com exceção daqueles que focalizavam especificamente as concepções wallonianas. Conviver em contextos outros, que não do PED, foi me aproximando cada vez mais dela e, dia a dia, nossa amizade se consolidou, permanecendo constante ao longo dos anos.
Foram inúmeras as viagens que fizemos durante nosso convívio. Inicialmente, elas eram profissionais, pois relativas aos eventos científicos dos quais participávamos. No entanto, a elas foram acrescidas as de lazer. E às viagens nacionais, acrescentamos as internacionais, caso de Barcelona, Buenos Aires, Bruxelas, Havana, Ilha da Madeira, Lisboa, Madri, Nova Iorque, Paris e Porto Rico.
A primeira viagem que fizemos ao exterior foi para Porto Rico, para a reunião da Sociedade Interamericana de Psicologia; isso ocorreu quando iniciei minha atuação no PED, portanto meu convívio com Abigail era basicamente profissional. Nessa viagem, participamos de todas as atividades possíveis oferecidas pela SIP e, para tanto, saíamos cedo de nosso hotel e íamos a pé por longo trajeto até chegar ao local das atividades, onde permanecíamos longas horas, antes de novamente fazermos nosso trajeto de retorno ao hotel. Foram vários dias com essa característica, sem que houvesse, por parte dela, qualquer indicação de fadiga, fato que foi por mim constatado posteriormente.
Nas viagens internacionais, mesmo as profissionais, sempre deixávamos alguns dias para conhecer os locais e, para tanto, optávamos pelo uso de transporte coletivo e por realizar caminhadas. Abigail tinha uma disposição invejável; saíamos pela manhã e retornávamos ao hotel à noite, caminhando por horas todos os dias. Com o seu andar pausado, ia a todos os lugares sem indicar cansaço; apreciava cada aspecto da viagem, seja do local e sua população, seja da cultura e da história do país.
Fatos pitorescos aconteciam. Nas viagens aéreas, uma característica da Abigail era levar uma mala pequena, que era despachada, tendo as mãos ocupadas com bolsa, sacola, pacote etc., além do passaporte e passagem que deveriam ser apresentados para o embarque. Logicamente, ficava difícil tomar conta de tudo antes de nos acomodarmos no avião; eu me afligia quando precisávamos nos deslocar, com toda nossa bagagem, pelo aeroporto ou quando, já tendo chegado, íamos à busca de um transporte para ir ao hotel.
Claro que eu procurava dar dicas de que seria melhor ficar com menos objetos na mão, colocando-os na mala despachada, mas não tive muito sucesso. Como era habitual, ela concordava comigo - você tem razão, Melania, era o que eu ouvia -, mas continuava fazendo da forma que estava acostumada. Esta era minha amiga Abigail - ela tomava as decisões que julgava adequadas, mesmo que contrárias ao que se esperava que ela fizesse; isto tanto do ponto de vista pessoal como profissional.
Outra situação inusitada ocorreu em uma das viagens. Ficaríamos alguns dias em Madri e iríamos a Paris, continuando nosso roteiro que foi feito a três - ela, eu e meu marido. No trajeto aéreo para Paris, Abigail resolveu comprar um presente para sua filha; na hora de pagar a aeromoça, a surpresa - ela havia se esquecido de retirar seus pertences do cofre! Resultado, nosso retorno, em vez de ser Paris - São Paulo, foi ampliado para Paris - Madri - São Paulo.
Aliás, foi nessa viagem que, devido aos laços que fizemos com o professor Richelle quando esteve no PED, fomos visitá-lo em Bruxelas; durante o almoço, no qual também sua esposa participou, ouvimos relatos de situações que ele vivenciou conosco e que demonstravam o quanto apreciou sua estadia. Creio que Abigail ficou muito feliz em ter ouvido o quanto o PED, por ela representado na coordenação, foi cuidadoso em criar condições para a vinda dele ao Brasil.
Lembro-me de um fato ocorrido quando passamos em Lisboa, após um evento na Ilha da Madeira. Foi num fim de semana em que, depois de passear, fomos almoçar: Abigail, eu e uma aluna. Não acostumadas com a quantidade de comida servida, pedimos o que julgamos seria suficiente para nós três. Comemos tudo o que quisemos, porém não consumimos tudo o que nos foi servido. Estávamos a conversar quando um senhor se dirigiu a nós, perguntando se não tínhamos gostado da comida. Depois da surpresa, conseguimos explicar - por sorte estávamos em Portugal e não na Rússia - que a comida estava excelente, que havíamos comido muito bem, que apenas não tínhamos ideia da quantidade. Claro que, depois disso, aprendemos a dosar nossos pedidos durante almoços e jantares!
E longas caminhadas também fizemos, Abigail, Maria do Carmo e eu, quando estivemos em Cuba para um evento, pois era a forma que usávamos para conhecer Havana. Nessa viagem, estivemos na casa de Hélio Dutra, um brasileiro que testemunhou a revolução cubana, em 1959, e que lá permaneceu. Passamos a tarde conversando com ele e sua esposa Ella. Ainda em Cuba, fomos a Cayo Largo, um dos locais em que a beleza das cores do mar é indescritível. Lembro-me que um avião bimotor, parecido com os utilizados na 2ª guerra mundial, nos levou e que, na ocasião, me deixou apreensiva, diferentemente do que observava com Abigail, que aparentava estar muito tranquila. Desses momentos tenho fotos que me fazem relembrar de minha amiga Abigail com muitas saudades.
Admirável Abigail. Você, que tinha uma imagem de delicadeza e até mesmo de fragilidade, foi uma fortaleza que conseguiu não apenas agir com total independência, mas também superar situações que lhe foram tremendamente difíceis, como a precoce morte de seu filho Denis. Participei de grande parte de sua vida, tendo muitas recordações; fico com os momentos felizes que compartilhamos, para guardá-la sempre comigo - minha querida amiga Abigail.
Carta a Abigail
Eveline Bouteiller
Aqui estou a lembrar e conversar com você nessa voz interior que é a saudade.
Pena que não consegui ir vê-la depois que você deixou a PUC-SP. Coisas corridas da vida. Falávamos algumas vezes ao telefone, e isso nos mantinha em contato.
Desculpe, agora, passados trinta e tantos anos, tenho que relembrar o porquê de você estar na minha banca de defesa de mestrado. Você foi indicação de minha orientadora, Maria do Carmo Guedes. Hoje, lembro-me e entendo a escolha acertada.
Ser estudante de psicologia: narrativa de um processo, essa era a minha dissertação. Narrar o percurso de um estudante de psicologia não poderia ser apenas uma “avaliação” teórica deste momento na formação de um psicólogo.
Tratava-se de dar voz aos aspectos subjetivos de um aluno. Dar voz ao aluno como pessoa, não apenas às constatações objetivas da graduação e às suas reflexões. Portanto, ninguém melhor do que você para ser a leitora de uma dissertação que expunha os aspectos pessoais de uma formação acadêmica. Uma narrativa que abria a dimensão subjetiva, afetiva e de experiência, a mim e aos estudantes de psicologia que se fizeram ouvir na pesquisa.
Lembro que, tendo eu escrito muito sobre a pessoa, você me perguntou o que eu entendia por pessoa. Ora, sabia de seus estudos de Rogers e de Wallon em que o conceito de pessoa é parte integrante dessas teorias. Respondi-lhe que eu usava a palavra pessoa no seu sentido mais etimológico possível. Mais fácil é entender a palavra pessoa na suas formas francesa - personne - ou inglesa - person. No português por evoluções que competem à gramática histórica explicar, temos pes-soa. Per-sonare: soar totalmente, como as máscaras do teatro grego que originalmente eram usadas para fazer com que as vozes pudessem soar no alto dos anfiteatros abertos e incrustados na natureza. As máscaras eram artefatos sonoros, não dissimuladores.
A explicação etimológica serviu para contentá-la, penso eu, porque a expressão da subjetividade, da afetividade, da singularidade e dos processos em direção à pessoa estão contemplados na palavra pessoa a partir da compreensão de sua etimologia. Era uma pergunta muito pontual, muito precisa, uma pergunta de leitora e não de arguidora. Bastou. Você aceitou sem que eu precisasse fazer toda uma sustentação que voltasse para a teoria. Falávamos e falamos a mesma língua com o entendimento muito preciso do que é uma pessoa! Não só. Você entendeu minha narrativa e também validou o lugar - senão a necessidade - de dar no discurso acadêmico a voz do aluno, de sua pessoa.
Alguns anos depois, com minha formação prévia de Letras e tendo trabalhado na editora da PUC-SP, passei a revisar teses e dissertações.
Então penso em você como aquela que me deu muitas oportunidades de trabalho, um trabalho especial. Ao receber seus e suas orientandas, você permitiu não só que eu fizesse um trabalho de revisão, mas também um trabalho de leitora de textos acadêmicos e leitora/psicóloga de dissertações e teses na área de Psicologia da Educação. Assim, unia minhas duas profissões: revisora de português e psicóloga.
Você se lembra das reuniões de devolutiva de revisão que fazíamos? Eram formas diferentes de estudar e aprender. Lembro-me de duas em especial.
Depois de comentários gerais sobre o texto de R., de sua maneira de redigir, a conversa diferente começou. Perguntei à autora o porquê de tantos comentários entre parênteses e colchetes.
R. não soube responder. Você não disse nada. E eu ali vi a possibilidade de eu dizer que aquilo se parecia muito com insegurança em afirmar a análise que estava sendo feita. Parênteses por parênteses, colchetes por colchetes, fomos percebendo que tudo aquilo que acanhadamente se resguardava entre aqueles sinais de pontuação podia perfeitamente ser afirmado e liberto. Percebemos que nesses escondidos estava a análise que precisava apenas se afirmar. R. entendeu que seu medo estava retratado no texto.
Talvez essa fosse a primeira vez em que, para além da professora de português, falou a psicóloga. Pode parecer pouco, mas não foi. Penso que tudo o que foi dito era o que você esperava de mim. Para mim, essa foi uma forma nova de trabalhar, de estudar e ensinar. Foi a porta aberta para permitir uma leitura que passou a ir além da esperada revisão gramatical e ortográfica de português, das padronizações segundo a ABNT.
Foi você que inaugurou minha nova forma de trabalhar.
E houve aquele feriado de Carnaval. Como parece ser de praxe, o dia de depositar a dissertação se aproximava, e H. ainda não tinha terminado sua dissertação. Você pediu então que H. viesse falar comigo. Não tinha outra coisa a fazer além de pensar, sentar e escrever. H. foi passar o Carnaval comigo, no sítio de umas amigas que haviam não só concordado, mas também ajeitado um dos quartos para H. trabalhar.
H. acordava às 8h30 e tomava café. Às 9h00, começava a estudar e escrever. Horários de almoço, de um cafezinho da tarde, de janta. Muitas vezes H. apagou a luz às 23h00. “Intensivo dissertação”. Num primeiro momento, precisamos entender como era feita uma análise. Esta foi a “aula” principal. Quadros foram construídos com textos analíticos acompanhando. Trabalho de interpretação de texto aos modos da teoria literária. Houve choro de desespero, de medo de não conseguir, de insegurança diante do texto escrito. Mas a dissertação saiu da mão de uma pesquisadora apavorada com deitar o pensamento e a análise: medo da própria escrita deitada nas folhas de papel. Muito diferente do medo da folha em branco! Uma questão também de conseguir ser pessoa de si mesmo. Na defesa, ouvi que aquele era um texto de uma pesquisadora.
Vale aqui relembrar os agradecimentos que H. faz a você na dissertação de mestrado.
À minha querida orientadora, pela sabedoria e experiência da geração que nos separa, pela delicadeza, pelo crescimento proporcionado pelos inúmeros n.c. [não compreendi], q.q.q.d. [que que quer dizer?] ou ?, entre alguns bom.
Abigail, você nunca fez sentir as diferenças de gerações! Mas na troca, a riqueza do muito saber.
Não há dúvida que você precisou estar na minha banca de doutorado. Nada mais certo que, numa tese que tratava da escrita de pós-graduandos em psicologia, você deveria estar comigo a discutir mais uma questão do mundo da educação. Sim, você conhecia meu trabalho.
Agradeço por ter continuado a me chamar para este trabalho que não era mais só de revisão.
Uma vez também, você me chamou para falar com seus doutorandos sobre escrita e leitura. E foi bastante interessante, pois o texto sobre o qual trabalhamos era uma prova de um aluno de sua orientanda veterinária. Era uma prova sobre cicatrização de tecidos em animais. E foi muito interessante, pois para as pedagogas e psicólogas o texto estava perfeito. A não ser a veterinária, ninguém lá entendia de processos inflamatórios na cicatrização de tecidos. E assim pudemos também entender que um texto bem escrito pode enganar e muito!
E então você me honrou muito quando pediu que eu lesse um texto seu que seria publicado em um livro. E juntas tivemos a famosa devolutiva, aquela conversa para pensar sobre pequeninas sugestões que ampliariam e muito o que lá estava escrito. Talvez, na sua vez, ampliariam a sua voz! Lembro-me muito bem que naquela conversa eu esqueci da Abigail professora-orientadora, membro da minha banca. E foi muito bom! Aliás, ao entrar na sua casa, deparei-me com os ovos ucranianos que pintei e que havia lhe dado em uma Páscoa, o que me deixou também bastante honrada! Um carinho a mais.
Abigail, agora é hora de poder dizer que seu carinho era profundo: você sabia ser gentil nas perguntas mais difíceis e acertadas, ao questionar seus alunos, orientandos e aqueles que a chamavam para suas bancas de defesa. Perguntas que não eram provocação para testar. Perguntas para saber, para entender e aprender junto com aquele que era questionado. De pesquisadora para pesquisadores. E tudo isso com uma delicadeza talvez sem igual. Confesso que sua tranquilidade e maneira pausada muitas vezes me desconcertaram, eu com minha celeridade e ansiedade.
Infelizmente, há coisas que deixamos de fazer na vida, coisas importantes que deveriam ser ditas a seu tempo. Se antes eu não lhe agradeci ou talvez nem mesmo tenha me dado conta de tudo aquilo que você me proporcionou, agradeço-lhe agora por ter me permitido iniciar um percurso que muito me enriquece e até hoje é o caminho que percorro. Também lhe sou grata por me sentir acompanhada, pois você sempre esteve por perto no meu trabalho.
Abigail, deixo aqui a melhor versão de uma mesóclise: ver-nos-emos novamente, em uma vida de luz!













