1. Introdução
Este trabalho é resultado do acompanhamento de uma atividade de extensão1 desenvolvida pelo grupo de pesquisa “Educação, Mídias e Comunidade Surda”2 do Departamento de Ensino Superior (DESU) do Instituto Nacional de Educação de Surdos (INES). O grupo de pesquisa é composto por bolsistas, professores de outros departamentos do INES e de fora da instituição, colaboradores eventuais internos e externos, alunos surdos e ouvintes, sendo liderado por dois professores que também são os co-autores deste artigo. O grupo realiza debates sobre pedagogia surda, letramento visual e gramática visual (ROSADO; TAVEIRA, 2019), desenvolve trabalhos na área de produção de mídias, faz análise de produções de vídeos feitos por surdos ou por ouvintes sinalizantes e orienta a produção de vídeos acadêmicos (monografias). O grupo oferta, eventualmente, cursos de extensão, tais como o curso Criação e Produção de Mídia, com módulos que abordam roteirização, produção e edição de vídeos, princípios de design e fotografia; e também o curso sobre Conto e reconto de histórias e produção de materiais didáticos.
No ano de 2018, o grupo de pesquisa deu continuidade à etapa empírica de sua pesquisa, seguindo o projeto previsto para os anos 2015 a 2019 (TAVEIRA; ROSADO, 2015)3. Concomitantemente, no segundo semestre de 2018, iniciamos um projeto de extensão, foco deste artigo, cujo objetivo é oferecer, em formato novelístico, acesso às normatizações de trabalhos monográficos em Libras do nosso departamento4. Participaram quatro bolsistas, sendo que dois deles tiveram aula nas disciplinas TICs I e II, ofertada na grade curricular do nosso curso de Pedagogia, e aprenderam técnicas de elaboração de roteiro e produção de vídeo, sendo estas técnicas utilizadas na produção do material novelístico. Tivemos contribuições de um pai de professora surda do nosso departamento, além de tradutores-intérpretes de Libras que estiveram presentes como colaboradores.
A gravação de vídeos acadêmicos (monografias) em Libras é um processo longo e que exige o acesso a equipamentos de elevado custo financeiro, como teleprompter, softwares de edição, chroma-key, iluminação adequada, hard disk de alta capacidade para armazenagem dos arquivos gerados e auxílio de equipe técnica. Para que os alunos produzam a versão final de seus materiais acadêmicos em vídeo é necessário que possuam equipamentos próprios ou façam empréstimos destes com colegas, com orientadores ou reservem tempo em estúdio em outros departamentos do INES5. O aluno que deseja produzir a versão final de sua monografia em Libras deve reservar um horário em estúdio e, algumas vezes, enfrentar longo deslocamento, visto que muitos alunos moram em regiões afastadas do centro.
Apesar desse cenário ainda pouco afeito à produção contínua de vídeos, vale ressaltar que em 2018 os gestores Departamento de Ensino Superior (DESU) do INES organizaram uma equipe de profissionais tradutores-intérpretes de Libras (TILS) e viabilizaram uma sala para que pudesse ser usada como estúdio, fixando em espaço apropriado à equipe de tradução. Importante refletir que mesmo havendo limitações materiais e espaciais para a fase inicial de produção de uma monografia em Libras, em que há a construção de rascunhos em Libras (v. TAVEIRA e ROSADO, 2018), estes podem ser confeccionados através de smartphones, cada vez mais habilitados a gravar vídeos e fazer pequenas edições. São condições que podem tornar mais estimulante esta produção e auxiliar esta modalidade de texto acadêmico, visto que o “estúdio” pode estar no próprio bolso do aluno. Dito isto, a seguir detalharemos o que significa “monografar” em Libras.
1.1. A monografia em Libras e sua normatização
A monografia em Libras é uma conquista de surdos que durante muito tempo questionavam e solicitavam às sucessivas direções e coordenações do DESU/INES a necessidade de normatização e consequente autorização de aceite desta modalidade no curso superior de Pedagogia. Apesar da Libras já ser oficialmente reconhecida no Brasil como língua desde 2002 e o curso bilíngue de Pedagogia do INES existir desde 2006 (DESU/INES, 2006), foi em 2015 que um manual de normatização para esta modalidade foi publicado (DESU/INES, 2015)6, reafirmando a aceitação da Libras como língua também dentro da comunidade acadêmica para fins de produção de material de conclusão de curso. Esta é uma luta da comunidade surda pelos seus direitos linguísticos (BRASIL, 2002; 2005).
Foi em 2015, com a implantação da nova matriz curricular em sistema de créditos, que se iniciou a oferta das disciplinas TICs I e II (1º e 2º períodos), fundamentais para ambientação do aluno em processos necessários à confecção de vídeos, roteiros, uso de tecnologias para filmagem, edição, composição de imagens e letramento visual. Estas disciplinas tornaram-se importantes no curso, principalmente para os alunos que vão fazer monografias em Libras ou produzir outros tipos de vídeos acadêmicos, tornando-se peça-chave para a formação de pedagogos surdos e ouvintes bilíngues. Estes profissionais poderão atuar na área da Educação de Surdos como pesquisadores em temáticas que demandam argumentação em língua de sinais filmada, ou seja, com registro em vídeo, a título de documentar cientificamente uma discussão na área.
A necessidade da normatização de monografias em Libras, desse modo, foi uma demanda tanto dos próprios alunos do curso de graduação em Pedagogia do DESU, como também de seus professores. No DESU/INES, como Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), atualmente pode ser apresentado artigo, material didático acompanhado de um relatório, material monográfico em Português ou em Libras7. A maioria dos alunos surdos produziam (e ainda produzem) as suas monografias em língua portuguesa8 - apesar desta não ser a sua primeira língua ou língua de conforto, preferencial ou patrimonial da comunidade surda (FELIPE, 2012). Muitas das necessidades do TCC em Libras encontravam-se represadas pelo longo período em que o alunado aguardou, desde a criação do Curso, pela construção de regras para a feitura desse material em vídeo e pela criação de uma estrutura mínima necessária para a orientação.
Desde 2014 foram produzidas nove monografias em Libras9, sendo cinco de alunos orientados pela professora líder do nosso grupo de pesquisa, duas pela professora e líder surda Ana Regina Campello (CAMPELLO; MEDEIROS, 2017) e duas orientadas por outros dois professores do DESU. Todas as monografias orientadas pelas duas primeiras professoras foram disponibilizadas em artigos científicos da Revista Espaço nos números 45 em diante10 e com QR Code para acesso; as outras duas monografias que não foram publicadas ainda necessitam de gravação de sua versão final.
Embora o Manual para Normalização de Trabalhos Monográficos em Libras e Língua Portuguesa (DESU/INES, 2015) esteja disponível em português e a sua redação envolva características visuais (ícones para diferentes partes do produto, fotografias ilustrativas e capturas de tela como exemplos), não há uma versão traduzida em Libras. Realizou-se entre 2018 e 2020, em nosso projeto de extensão, o processo de roteirização, filmagem, edição e divulgação do primeiro episódio que deve servir de guia para feitura de monografia em Língua de Sinais. Ele será disponibilizado em vídeo, com uma história sendo desenvolvida (novela) a partir de um personagem que está enfrentando o problema de produzir sua monografia em Libras. Foram mobilizados atores em ambientes reais da faculdade de Pedagogia (DESU) e do INES, procurando explicar o processo de construção de uma monografia em Libras.
Nosso grupo de pesquisa espera que a novela auxilie no entendimento e adesão de novos orientandos a esta modalidade de texto acadêmico. Muitos alunos e professores querem fazer os TCCs nesta modalidade, mas esbarram na compreensão de normas e também no processo cotidiano de roteirização, gravação e edição de um vídeo em Libras. Compreender esse processo e auxiliar a traduzi-lo em linguagem cotidiana, novelística, participando e documentando o percurso, é a contribuição que este relato de experiência pretende alcançar.
1.2. Os precursores e os novos percursos de monografar em Libras
Importante aqui revisarmos a trajetória de iniciativas que envolveram normatização de trabalhos acadêmicos em Libras no Brasil. Rodrigo Marques e Janine de Oliveira (2012) descrevem os processos de normatização das produções acadêmicas em Libras feitas na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em especial na Revista Brasileira de Vídeo Registro em Libras. No artigo os autores apontam as normas utilizadas na universidade para a produção de um trabalho acadêmico em vídeo, tais como vestuário, mudança de fundo (uso do chroma-key), iluminação, posição do autor/tradutor durante a filmagem, localização do título, organização de resumo, glossário com sinais principais, citações, rodapé, temporização do artigo e as regras que eles utilizam para padronizar esta produção.
A partir de reflexões sobre a pesquisa liderada por Marques11 e análise do material da UFSC12, obtivemos boa parte de influências para parametrização da monografia em Libras no DESU-INES. O foco central da proposta de criação de normas acadêmicas para registros em Libras é, além da padronização, a garantia da autonomia do estudante para confeccionar seu material em Libras de maneira formal (MARQUES, 2012; MARQUES; OLIVEIRA, 2012).
Taveira e Rosado (2018) demonstram, a partir do relato de experiências feitas como orientadores de monografias em Libras no DESU, a necessidade de uso de glosas (SOUZA, 2010a, 2010b; CASTRO 2012) e glossinais (CAMPELLO; CASTRO, 2013), rascunhos que serão também fundamentais na etapa de filmagem da monografia. Reforçamos que para a feitura da monografia em Libras são necessários alguns rigores como da criação de glosas para a filmagem-rascunho e, para isso, é necessário que o aluno seja ambientado e aconselhado em todo esse processo. De acordo com Taveira e Rosado (2018) é importante que o rascunho em vídeo seja filmado em todas as discussões a cada encontro com o orientador. Sendo assim, o orientando surdo ou ouvinte bilíngue, junto com professores e tradutores-intérpretes, pode exercitar o uso da linguagem formal, treinando-a durante o registro do seu TCC.
A glosa é uma maneira de escrever o que está sendo sinalizado em Libras utilizando a Língua Portuguesa. Pode ou não possuir a estrutura sintática do Português e não necessariamente precisa possuir uma tradução literal, desde que mantenha o sentido na língua-alvo. Segundo Souza (2010a, 2010b), a glosa é caracterizada como uma escrita do Português feita de um modo aproximado à língua de sinais, podendo haver substituições de palavras desde que não comprometam o valor semântico. Desse modo, a glosa é exterioridade fundamental para a roteirização durante todo o processo de tradução e enriquecimento dos textos da língua-fonte para a língua-alvo (TAVEIRA; ROSADO, 2018). Ainda, segundo os autores, para que haja um afastamento da linguagem coloquial é necessário que as discussões de orientação da monografia, preferencialmente, sejam gravadas do início ao fim.
Os glossinais acontecem como em um espelho, por trás da câmera, onde o intérprete-tradutor sinaliza enquanto um ator ou autor “reinterpreta o texto” em frente à câmera. Campello e Castro (2013) explicitam as técnicas do uso de glossinais para diferentes aspectos do uso da língua de sinais. Isso ocorre em textos muito longos, com sinais acadêmicos desconhecidos ou diante de conceitos ainda não completamente reelaborados em uma primeira leitura de um artigo pelo autor.
Para a produção da monografia são necessárias etapas de construção de acordo com o que o manual do DESU-INES delimita:
A monografia em Libras requer a roteirização, direção e edição de vídeo com rigores apropriados à esfera formal e científica [...] acompanhando o produto final em vídeo, um folder em Língua Portuguesa escrita torna o material acessível em ambas as línguas. (2015, p. 12).
Contrastamos o Manual para Normalização de Trabalhos Monográficos em Libras e Língua Portuguesa, sua visualidade e normas baseadas na ABNT, com a experiência obtida com gravações de vídeo-registro em Libras pela UFSC e, paralelo a esse esforço, analisamos o vídeo do manual de TCC disponibilizado pela Universidade Federal de Pernambuco13 (UFPE), com o objetivo de decidirmos sobre: 1. A necessidade de somente traduzir o manual do DESU para a Libras ou; 2. Desenvolver um tutorial de uso do manual existente ou; 3. Realizar uma novela que não esgotasse o tema, mas que fosse mais abrangente que o próprio manual, não tão técnica, que criasse, no entanto, uma ambientação para quem desejasse entender como é feita a monografia em Libras. Essas etapas decisórias, após a análise dos prós e crontras de cada opção em nosso grupos de pesquisa, resultaram na escolha do gênero novela para que este abordasse o processo de construção de uma monografia em Libras.

Fonte : Capturas de tela de vídeo disponibilizado no Youtube.
Figura 2 Mosaico de capturas de tela do Manual de TCC em Libras produzido pela UFPE.
A partir do vídeo disponibilizado pela UFPE pudemos verificar a semelhança, em relação ao DESU, dos elementos que os alunos apresentam mais dúvidas, como o uso de adornos e variação da aparência, envolvendo maquiagem leve ou marcante, cabelo preso ou solto, com ou sem bigode e barba, óculos ou lente de contato, boné, cordões e brincos. Outras partes mais fundamentais de uma monografia também são fruto das mesmas preocupações nos espaços (de faculdade, Universidade) em que há produção de trabalhos científicos em Libras: separação de capítulos e títulos, escolha de figurino, cores de fundo e de roupas, testes de iluminação, entre outros. São elementos que fomos incorporando na narrativa da novela.
2. Um diálogo entre os gêneros acadêmico e novelístico
Experiências de produção de vídeos no DESU têm demonstrado que o formato novelístico é um gênero frequentemente escolhido pelos alunos porque é uma linguagem que parte de situações cotidianas, o que contrasta com o formato expositivo e ilustrativo típicos adotados tradicionalmente nos vídeos instrucionais (ROSADO et al., 2017). Tal escolha ocorre, provavelmente, por ser um gênero narrativo orientado por aspectos culturais da comunidade surda e também característico da ecologia midiática contemporânea, predominantemente visual (RAROT; ŚNIADKOWSKI, 2014), em que o consumo cultural é composto por seriados em pacotes de episódios por temporadas, novelas em horário nobre e contações de história para crianças a partir dos canais TV abertos e pagos, dos sites de hospedagem de vídeos na Internet (YouTube, Vimeo, Facebook) e do cinema14.
Na comunidade surda há a publicação importante do livro de Karnopp, Klein e Lunardi-Lazzarin (2011) em que entendemos que os produtos culturais surdos não consistem somente no uso de ilustrações da língua de sinais, mas também contam com a participação de usuários da língua de sinais na feitura destes materiais para a comunidade, levando em consideração o estilo ou gênero que melhor se encaixe ao tema trabalhado e aos objetivos que se pretende alcançar. Soma-se a isso as técnicas orientadas por professores e alunos pesquisadores que tenham participado, efetivamente, de pesquisas e projetos nas áreas de mídia-educação, educação bilíngue de surdos, estudos surdos e pedagogia surda.
Pretendemos, com esta pesquisa-ação (THIOLLENT, 2011) e o relato de experiência gerado pelo terceiro autor do artigo através da observação participante do processo, nos aproximarmos dos usuários da língua de sinais (surdos e ouvintes) e refletir com eles sobre o gênero acadêmico e as regras específicas que regem o seu formato em Libras e a forma como estas podem ser melhor apreendidas. Este formato abrange o entendimento de sua gramática visual específica e leva em consideração o conforto linguístico e o fortalecimento da ideia de cultura surda, conforme definem Perlin e Miranda (2003):
Se vocês nos perguntarem aqui: o que é ser surdo? Temos uma resposta: ser surdo é uma questão de vida. Não se trata de uma deficiência, mas de uma experiência visual. Experiência visual significa a utilização da visão, (em substituição total à audição), como meio de comunicação. Desta experiência visual, surge a cultura surda representada pela língua de sinais, pelo modo diferente de ser, de se expressar, de conhecer o mundo, de entrar nas artes, no conhecimento científico e acadêmico. A cultura surda comporta a língua de sinais, a necessidade do intérprete, de tecnologia de leitura (PERLIN; MIRANDA, 2003, p. 218).
A monografia em Libras, assim como diversas produções visuais, é uma reivindicação por muito tempo feita nas lutas políticas da comunidade surda no Brasil. A linguagem visual possui uma estrutura denominada de sintaxe visual em que várias categorias podem harmonizar, funcionar melhor, caso o usuário tenha conhecimento linguístico do que foi chamado de letramento/alfabetismo visual por Dondis (1973); essa gramaticalidade é estabelecida em comum acordo com um grupo, neste caso a comunidade surda acadêmica. Esse pensamento é corroborado nos objetivos das disciplinas TICs I e TICs II e é reafirmado nos estudos teórico-práticos de mídia-educação.
Sabemos que gravar um conteúdo didático (produzir um vídeo) requer um conjunto diverso de habilidades comunicacionais e técnicas que não estão ao alcance de todos, especialmente de pedagogos. Entretanto, o vídeo em Libras continua sendo a principal forma de registro linguístico e, consequentemente, educacional, social e cultural, para os alunos surdos (ROSADO; SOUZA; NEJM, 2017, p. 199)
3. Descrição e justificativa da pesquisa
Justificamos o produto gerado e analisado nesta pesquisa (a videonovela) pela necessidade da comunidade surda acessar produtos visuais que permitam a seus membros alcançar maior autonomia na hora de produzir seus trabalhos de conclusão de curso (TCC) em Libras. Já fora realizado um esforço grande em oficinas de produção e edição de vídeos abertas a toda comunidade acadêmica pelo nosso grupo de pesquisa (iniciativas para promoção do alfabetismo visual), ainda restando um caminho árduo e longo de sustentação, revisão e registro de argumentações acadêmicas em Libras. O hábito de leitura de vídeos acadêmicos e da formalização de um discurso científico em sua própria língua, como pleiteado na comunidade surda, demanda esses pequenos passos e exercícios de reflexão.
Conforme podemos observar em vídeos acadêmicos postados no YouTube, sejam trabalhos realizados em disciplinas ou trabalhos de conclusão de curso, boa parte dos alunos que produzem seus trabalhos acadêmicos em Libras não obedecem padrões ao longo de todo o vídeo; alguns atores sinalizantes se apresentam de maneira informal, com falta de regularidade na inserção de títulos, postura inadequada diante da câmera, falta de padronização de cores utilizadas, desatenção de partes obrigatórias em trabalhos acadêmicos, entre outros. Alunos de graduação estão pouco habituados a fazerem resenhas de textos acadêmicos e avaliações (provas) em Libras, sendo que, ao confeccionarem um TCC em Libras, não possuem a compreensão das normas básicas que todo trabalho científico possui (glossário, bibliografia, citações, notas de rodapé, entre outros), mesmo quando confeccionada em língua de sinais. O exercício de construção de materiais científicos em Libras (gênero acadêmico) é recente. Nesta pesquisa objetivamos relatar a experiência de construção de um produto diferente do usual, uma novela no lugar de uma tradução literal do manual em língua portuguesa, que visa auxiliar o amadurecimento deste processo.
A necessidade de uma videonovela sobre a produção de uma monografia em Libras envolveu o acúmulo de experiência com esta modalidade de texto acadêmico ao longo dos últimos cinco anos, em monografias já produzidas em nosso grupo de pesquisa, tais como: o uso de determinados tipos e constância de vestimentas, a postura do autor-ator-intérprete surdo ou ouvinte na ambiência do estúdio, as técnicas principais de edição em um editor de vídeo e diversos outros tipos de detalhamentos (gramática visual) que estão se consolidando ao longo do tempo de existência do departamento e de produção de novas monografias em língua de sinais.
Dentro do grupo de pesquisa estivemos envolvidos com a necessidade de demonstrar os processos de pesquisa, produção e análise de TCC em Libras, para que futuramente outras faculdades, grupos de pesquisa e pessoas interessadas compreendam os passos percorridos pelo grupo.
3.1. Metodologia da pesquisa
Este artigo constitui-se um relato de experiência (pesquisa participante) sobre o processo de confecção de um vídeo em Libras, em gênero novelístico, que contará em seu conjunto, a princípio, com três episódios (seriado). Trataremos somente da produção do primeiro episódio juntamente com a análise dos procedimentos adotados antes e durante a produção, nos anos 2018, 2019 e início de 2020. A videonovela produzida tem como objetivo explicar ao público-alvo surdo e ouvinte bilíngue as etapas de produção de uma monografia em Libras no DESU, sendo estas etapas anteriormente mapeadas por Taveira e Rosado (2018).
A videonovela foi planejada para explicar, em sua narrativa, a rotina de uma aluna surda, personagem principal, ao passar pelas etapas de pré e pós-produção de uma monografia em Libras, tais como: escolha do orientador, busca e revisão de literatura, confecção de vídeo-rascunho, feitura do roteiro, análise do material coletado, mapeamento dos termos do glossário, transcrição do texto-base para glosa, gravação em estúdio profissional, edição do material, entre outros.
A partir do grupo de pesquisa, foi apresentado um projeto de extensão ao DESU/INES visando a construção de material em vídeo no formato novelístico para instrução de alunos do Departamento de Ensino Superior do INES; logo, este relato de experiência está vinculado a este projeto de extensão submetido ao departamento. Delimitamos então, em conjunto com o projeto de extensão, uma pesquisa-ação (THIOLLENT, 2011) com a produção de uma videonovela, sendo conduzida durante as ações de feitura do manual/videonovela uma observação participante (ALVES-MAZZOTTI e GEWANDSZNAJEDER, 2004) onde o aluno realizador da pesquisa (terceiro co-autor deste artigo) atua ao mesmo tempo em que observa e relata, através de anotações em caderno de campo, o desenvolvimento do projeto de extensão.
Os participantes do grupo de pesquisa têm experiências na área de categorização de vídeo, o que permitiu opinar sobre composição, atuação e assuntos pertinentes ao trabalho desenvolvido. Destacamos que o aluno Renan Aprigio, por ser liderança surda, YouTuber e aluno do DESU-INES, teve forte contribuição nessa pesquisa em sua etapa inicial, em 2018. Além dele, contamos diretamente com os atores e bolsistas Matheus Gomes e Liliane Bastos, alunos surdos que já cursaram as disciplinas de TICs I e TICs II e ingressaram no projeto em 2019. Junto ao grupo, os professores-líderes mais experientes e com formação na área (os dois primeiros co-autores deste artigo), aplicaram conhecimentos sobre composição de imagem, criação de argumento, roteirização e suporte na produção da videonovela. Tivemos também o apoio de intérpretes do INES que oferecem suporte teórico-prático e apoio técnico para tradução, tendo vasta experiência no tema. Contamos também com a colaboração de Alexandre Albuquerque, membro do grupo de pesquisa desde o seu início, fluente em Libras, pai e avô de surdos.
O processo de confecção foi feito com encontros semanais para brainstorms, construção de argumento, roteiro, ensaios, filmagens e edição em que todos os membros do grupo de pesquisa trabalham em conjunto na elaboração. A partir das observações realizadas realizadas pelo terceiro autor deste artigo durante o processo de feitura da novela sobre a monografia em Libras e também dos relatos dos membros do grupo de pesquisa contribuintes na elaboração deste material, foi redigido este relato de experiência. O material bruto (cardeno de campo) foi constituído pela descrição dos encontros para produção da videonovela, o detalhamento dos rascunhos dos argumentos, etapas de escrita do roteiro, seleção dos atores, escolha dos cenários (ambientes), preferência do formato da linguagem do material proposto e recursos utilizados para edição do vídeo, montagem e finalização.
4. Relato e análise de experiência
A didática proposta pelos dois primeiros autores deste artigo nas aulas de graduação (curso de Pedagogia) envolve o uso de novas tecnologias (TICs I e II) e a confecção de curtas-metragens que, em geral, emergem de assuntos cotidianos dos alunos15. Esses assuntos tendem a envolver temáticas sensíveis e que geram tensionamentos tanto no universo dos alunos surdos quanto na sociedade em geral (preconceito, bullying, relações homoafetivas, DSTs, abuso sexual, violência familiar, suicídio). Tais tensionamentos objetivam provocar, em algum grau, a reflexão em seus espectadores, desde a elaboração do argumento, sendo escolhida na maioria dos casos a contação dessas histórias em Libras (língua prioritária do curta-metragem). Nesse processo, o professor orienta e instrui os alunos a se familiarizarem com os aspectos e as etapas necessárias para a criação de vídeos. Esse eixo de trabalho teórico-prático de nosso grupo de pesquisa e da disciplina TICs foi aplicado também no desenvolvimento do projeto de extensão aqui descrito e analisado.
Este relato de experiência foi construído a partir da vivência dos autores na criação de um vídeo em que um aluno do DESU (fictício) começa sua jornada de produção de uma monografia em Libras, nos moldes da jornada do herói definida por Cambell (2007). Para isso, os personagens do vídeo instruem o espectador desde a procura por um orientador de monografia no DESU, passando por visita à Biblioteca, ao estúdio, à sala dos intérpretes, o conhecimento das partes que compõem o TCC sempre com a leveza de quem conversa com um amigo da faculdade. Desse modo, o formato ou gênero escolhido foi o novelístico, sendo comum que surdos e ouvintes membros da comunidade surda tenham acesso a materiais com esse gênero em plataformas como TV INES e YouTube, com atores e influenciadores digitais surdos.
A escolha do formato. É comum observarmos relatos de professores do DESU-INES descontentes perante a pouca dedicação dos alunos à leitura de materiais fornecidos tanto em Português escrito quanto em Libras, onde a principal queixa é a estrutura do material - linguagem muito formal ou materiais muito extensos. O que move a trama da novela produzida por nós, dividida em três episódios, é a experiência relatada por orientadores e alunos, colegas de faculdade, em que muitos graduandos não conseguem iniciar a construção de sua monografia em Libras, apesar do manual já existente disponível. Os impasses vividos entre a diferença da argumentação informal (coloquial) e formal (acadêmica) ainda persistem, predominando a ideia de que para construir um texto científico, bastaria somente ligar a câmera e desenvolver o pensamento, um registro sem consulta a roteiro ou esquemas visuais. Os problemas mais comuns vão desde a escolha do orientador até o acesso a outros departamentos para pesquisa bibliográfica (revisão de literatura) e a filmagem da monografia em sua versão definitiva em estúdio.
A elaboração do argumento. O argumento é um resumo das ações que acontecerão na filmagem ainda sem a construção de seus diálogos. É uma pré-visualização, uma síntese onde estarão os personagens, as ações principais sem detalhamentos. O objetivo de um argumento ser construído é que a consistência da narrativa seja verificada antes, através de uma folha escrita apenas, e não depois da confecção de todo roteiro, o que demandaria retrabalhos longos e desgastantes.
No texto inicial do argumento foi descrito, em um conjunto narrado de ações, o que acontece com o aluno na preparação de sua monografia em Libras. Para a elaboração dos três argumentos foram feitos encontros semanais em que o grupo se reunia e discutia os principais impasses observados. Sendo assim, foram feitos apontamentos como a dificuldade dos alunos em escolher seus orientadores, pois, muitas vezes, escolhem por afinidade e por não compreenderem a temática de estudo de um professor. Outro fato apontado é o desconhecimento de recursos e dos espaços que o INES oferece, tais como equipe de tradução, biblioteca e estúdio. Assim, foi discutido como se ambientar no INES, escolher o orientador, criar seu rascunho, como começar a escrever glosa ou registro de filmagem-rascunho, arrumar o figurino, como se cadastrar na biblioteca do INES, como reservar um espaço para filmagem.
Apresentamos abaixo um trecho resumido do argumento o primeiro episódio da trama:
O vídeo se inicia com uma aluna (Liliane) com dúvidas como fazer sua monografia, e logo é ajudada por Matheus. Liliane está em dúvida como iniciar a monografia e não consegue encontrar muita coisa na internet. Em seguida Matheus oferece ajuda dizendo que como sua monografia está quase pronta, ele já sabe a maioria dos passos a serem tomados, e que ela precisa primeiramente de um orientador. [...] No dia seguinte Liliane encontra Matheus e conta a ele a boa notícia, ela conseguiu um orientador, mas ainda precisa estudar mais sobre seu tema pergunta se ele conhece um lugar para buscar mais sobre o assunto. [...] Na terceira parte, Liliane vai conhecer o que é uma monografia em Libras. No vídeo é apresentada a monografia de um ex-aluno do Departamento de Ensino Superior - DESU, Áulio Nobrega. Enquanto a monografia é exibida Matheus explica as etapas de agradecimento, resumo e glossário. [...] Posteriormente, Liliane, após ser orientada, vai ter uma conversa com um intérprete, o que mostra ao espectador a possibilidade de tirar dúvidas quanto a sinais e receber dicas de pessoas que já tem familiaridade com produções de vídeos em Libras. As etapas seguintes mostram os ajustes de gravação que serão feitas pelos alunos: ajuste de tripé, posicionamento de câmera, iluminação, fundo.
Após a elaboração dos três argumentos para os três episódios, passamos a desmembrar o argumento do episódio 1 em cenas roteirizadas.
A criação do roteiro. Após a criação do argumento foram marcados encontros semanais com o grupo de pesquisa para a criação do roteiro no primeiro semestre de 2019. Todo argumento, como aquele exemplificado anteriormente, é detalhado em cenas de filmagem onde aparecerão os diálogos dos personagens. Cada cena recebe um cabeçalho com o número da cena, o ambiente (locação) e o período do dia (manhã, tarde ou noite). O episódio 1 recebeu o seguinte título: “Decidi fazer a minha Monografia em Libras, e agora?”
Foram desenvolvidas 16 cenas somente para o argumento 1. Ficou definido que filmaríamos estas cenas no ano de 2019 e começo de 2020 para o lançamento do episódio 1 desta novela. As 16 cenas foram distribuídas em oito datas de filmagem, sendo devidamente gravadas e editadas treze cenas de outubro a dezembro de 2019, ficando três cenas para março de 2020, com estreia prevista para abril de 2020.
Para a montagem de cada diálogo, fizemos rodadas de debates entre os participantes do grupo de pesquisa, basicamente aqueles que atuariam como atores, dois surdos e dois ouvintes, e os líderes do grupo. Para a melhor adequação, os colegas surdos sugeriam ideias e os ouvintes registravam. O contrário também acontecia, só que mais raramente. Havia a necessidade de rever o registro escrito dos diálogos para que ficassem mais próximos da coloquialidade de uma conversa própria de usuários de Libras. No entanto, o inverso do trabalho que ocorre na monografia em Libras fora enfrentado: tornar o texto informal, usual e não-acadêmico. Abaixo, um trecho do roteiro construído a partir do argumento do primeiro episódio.

Fonte: Acervo do grupo de pesquisa.
Figura 3 Duas páginas contendo as cenas 1 e 2 do roteiro do Episódio 1.
As etapas de filmagem foram realizadas com agendamento da equipe de estúdio do Departamento de Desenvolvimento Humano, Científico e Tecnológico (DDHCT) e o envio prévio do roteiro completo do episódio 1. Os encontros eram marcados a partir da oferta de espaços para locação devidamente combinados com os funcionários que precisassem trabalhar onde aconteceriam as filmagens, de modo a não obstruir ou atrapalhar o cotidiano do INES. Foram discutidos os passos a serem seguidos: 1. Quem ocuparia a direção das cenas; 2. Quem atuaria em determinadas datas como ator e as substituições necessárias; 3. A distribuição do tempo para receber instruções da filmagem, realizar os treinos e fazer a filmagem definitiva; 4. A fotografia dos atores para continuidade do penteado e da mesma vestimenta, em caso de cenas que se passam no mesmo dia.
As filmagens foram feitas em encontros com duração média de quatro horas. A primeira hora era reservada para um ensaio prévio dos atores e montagem de equipamentos pela equipe do DDHCT (tripés de iluminação e câmera). Os atores, mesmo recebendo os textos com antecedência e sendo eles mesmos coautores, eram orientados a ensaiar uma hora antes utilizando os objetos do cenário e do figurino, assim como prevendo as marcações de cena e posição das câmeras. A construção de glosas, se necessária, era feita de acordo com a complexidade de cada diálogo. A feitura das glosas obtinha a revisão de um intérprete de Libras, dos professores envolvidos nos treinos ou direção de cena, ou então pelos próprios membros-participantes do grupo de pesquisa.
Após isso, a iluminação, composta por dois tripés, e a câmera eram posicionadas, sendo realizado primeiramente um “ensaio-filmado” para observar e combinar a iluminação e o enquadramento. Os profissionais do DDHCT nos deram suporte profissional, sendo eles: um câmera que chefia a filmagem, conduz o set de filmagem e pensa a cena junto com o líder do grupo de pesquisa, mais dois assistentes para luz, cabos e claquete. O material é revisado durante a filmagem, direto na câmera, por um dos professores pesquisadores do grupo de pesquisa (diretor), que orienta os planos de câmera e os atores em cena.
A técnica de espelho feita com os glossinais foi aproveitada em alguns momentos da filmagem, principalmente em diálogos com uma linguagem mais acadêmica, que tratavam da exemplificação de partes que compõem a monografia em Libras, ou quando existiam entradas e saídas do ator diante do fundo com chroma-key. A atuação em chroma exigia contracenar com efeitos que seriam inseridos posteriormente, como na cena que simulava uma miniaturização do ator para interação com os elementos da monografia em Libras. Era também necessário o uso de elementos de expressão facial e corporal para gerar surpresa, admiração, cansaço e uma série de outras interações com o público que assistirá a novela.
Após os ensaios e tomadas feitas como teste, para cada enquadramento é feita uma tomada “pra valer”. Nela, é filmada a cena sem a interferência dos pesquisadores visando seu uso como material final. As filmagens são feitas em diferentes ângulos (tomadas) para que seja possível a aplicação de cortes, promovendo a sensação de existência de múltiplas câmeras (multicâmera), enfatizando detalhes do ambiente (transições) e a expressão dos personagens (primeiro plano e plano detalhe), assim como objetos que precisem ser destacados (close). Um exemplo de ênfase (close) é aquele que vemos na Figura 4 onde o profissional que opera a câmera destaca a glosa que está sendo feita pelo aluno em uma das cenas da novela em que o personagem está explicando a técnica para a outra personagem.

Fonte: Acervo do grupo de pesquisa.
Figura 4 Tomada para validação (cena na sala de estudos do DESU).
Para dar maior destaque sobre o que se está sendo trabalhado, o profissional aplica um plano detalhe na folha de papel. Diferentes ângulos em que se está gravando a cena requerem que os personagens utilizem os mesmos movimentos para que não haja um erro de continuidade na aplicação dos cortes multicâmera.
As locações para filmagens incluíram diversos ambientes do DESU e do prédio principal do INES, de modo a percorrer todos os espaços por onde circulam os alunos graduandos e onde encontram serviços necessários à feitura da monografia. Ressaltamos que era enviado, previamente, um ofício com o pedido e uma autorização do responsável para cada ambiente a ser utilizado.

Fonte: Acervo do grupo de pesquisa.
Figura 5 Filmagens em diversos lugares do INES (cenas na biblioteca, escada, secretaria, corredor, sala dos professores e estúdio).
Além da biblioteca e da Divisão de Registro Acadêmico (DIRA), as filmagens também ocorreram em locais de grande circulação de alunos e professores, como as escadas, corredores, sala de estudos, sala dos professores, sala dos intérpretes. Para essa etapa foi necessário um apoio de pessoas da equipe para orientar os funcionários e alunos sobre a gravação, evitando o aparecimento de vazamentos de objetos e pessoas no enquadramento e consequentes erros de continuidade. Graças à experiência dos profissionais de filmagem, o trabalho foi feito de maneira rápida e eficaz, o que não descartou a necessidade de avisar previamente os colegas de turma, professores e funcionários sobre a realização do trabalho.
5. Considerações conclusivas
A observação participante do desenvolvimento de um projeto de extensão do nosso grupo de pesquisa resultou no detalhamento, apresentado neste artigo, da experiência de “tradução” de um manual convencional, em Língua Portuguesa, voltado à elaboração de textos acadêmicos, em um novo material fílmico em Libras usando o gênero novelístico.
Iniciamos este projeto de extensão apresentando o próprio acervo de monografias em Libras aos membros do grupo e alunos-atores participantes para, lentamente, debatemos sobre as partes que compõem este material científico tanto em Português quanto em Libras. Conseguimos analisar materiais científicos dentro dos itens catalogados em nosso grupo de pesquisa (ROSADO; TAVEIRA, 2019), observando semelhanças e, por fim, partimos para a construção de um material em vídeo tendo como objetivo despertar o interesse pela produção de monografias em Libras, evitando-se o formato tutorial em que somente realiza-se a tradução literal do conteúdo em língua portuguesa de um manual.
É esperado que com o formato novelístico os alunos possam, além de interessarem-se na produção de suas monografias em Libras, entender os fatores envolvidos na escolha de orientadores, compreender os trâmites envolvidos no contato com diferentes setores da instituição e aumentar sua autonomia na elaboração de rascunhos e glosas. Esperamos que as dicas, orientações e conselhos contidos nos episódios da novela gerem mais liberdade aos alunos na escolha e confeção de seu trabalho final de curso, principalmente os alunos surdos e usuários de Libras. Interessa-nos o aumento da produção de monografias em Libras no DESU, principalmente por sujeitos surdos, visto que essa foi uma demanda dos próprios surdos militantes que cursaram ou ministraram disciplinas no Departamento de Ensino Superior do INES ao longo dos últimos 14 anos.
Aprendemos nesta experiência que, para uma filmagem, é preciso uma equipe consciente sobre a existência de glosas ou glossinais, que saiba trabalhar coletivamente, que respeite os aspectos autorais e a orientação pelo par mais experiente. Materiais de qualidade são indispensáveis e, por isso, a elaboração atenta de um bom argumento e roteiro, uma iluminação bem distribuída e posicionada, o entendimento sobre o melhor enquadramento e posição de câmera, assim como a direção dos atores no espaço cênico faz toda a diferença.
As câmeras com grande capacidade de memória e captação de vídeo não substituem a boa roteirização. O planejamento e a organização do aluno influenciam diretamente na qualidade do material, além de economizar o tempo. A etapa de edição não foi alvo desse relato de experiência, pois mesmo que o terceiro autor deste artigo tenha aprendido anteriormente em aulas e oficinas como fazer cortes de filmagens (montagem) e aplicação de efeitos na edição, esta etapa final está a cargo de outros membros que continuarão este projeto - com a finalização do episódio 1 prevista para abril de 2020 e gravação dos episódios 2 e 3 nos anos posteriores.
Vale ressaltar que uma equipe que saiba o básico de Libras, como a equipe que fez parte da produção novelística, é essencial para a comunicação entre os alunos-atores surdos e os profissionais de operação de câmera e iluminação. O uso de glosa e glossinais e a filmagem dos encontros são reafirmados neste relato de experiência e sobre a própria vivência de monografar, pois a linguagem de vídeo e a Libras dependem de uma adequação nos argumentos para que prendam seus leitores (de vídeo) a cada gênero que nos dispormos a produzir.
O processo de gravação de uma novela em Libras, assim como o processo de criação de uma monografia em Libras, não se tornam difíceis se forem seguidas e respeitadas as regras, dicas e experiência dos que já percorreram essa trajetória, principalmente os pesquisadores que também são orientadores e se interessam pelo registro fílmico e a gramática visual. A construção de um argumento, de roteiro, dos diálogos da cena, das glosas, a seleção de ambiente, a separação das cenas para filmagens e sua posterior edição são etapas a serem enfrentadas de maneira paciente porque demandam tempo e esforço, semelhante a outros processos de produção acadêmica em línguas escritas, mas guardando suas devidas especificidades no que tange ao uso de técnicas da cinematografia.
Os textos devem ser estudados com antecedência, pois a leitura de roteiros é essencial ao debate, mesmo que se escreva usando uma construção textual em língua portuguesa própria dos surdos. Já na argumentação em Libras, a exigência será a mesma que em um texto acadêmico em Português escrito. Portanto, independente da língua, cada gênero e trabalho de registro possui um tempo de dedicação que não é curto ou mais fácil se a escolha for por uma ou outra língua.
É importante lembrar que o material produzido pelo grupo de pesquisa não é uma tradução de um manual em Português para a Libras, pois caso seja necessário, o próprio Departamento de Ensino Superior (DESU) possui uma equipe de tradução especializada para fazer a tradução-interpretação do texto. O objeto, ao contruir este projeto de extensão, é ofertar uma videonovela que ambiente o aluno que queira produzir sua própria monografia em Libras, percorrendo seus primeiros passos de maneira independente, buscando, pesquisando e conhecendo o departamento em que estuda.















