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Revista Práxis Educacional

versão On-line ISSN 2178-2679

Práx. Educ. vol.19 no.50 Vitória da Conquista  2023  Epub 03-Jul-2024

https://doi.org/10.22481/praxisedu.v19i50.12220 

Artigos

CINEMA/FILME NO CONTEXTO EDUCACIONAL PARA PROBLEMATIZAR QUESTÕES RELACIONADAS AO ESTIGMA DO CORPO GORDO1

CINEMA/MOVIES IN THE EDUCATIONAL CONTEXT TO PROBLEMATIZE ISSUES RELATED TO FAT BODY STIGMA

CINE/PELÍCULAS EN EL CONTEXTO EDUCATIVO PARA PROBLEMATIZAR CUESTIONES RELACIONADAS CON EL ESTIGMA DEL CUERPO GORDO

Maria Edivania Alves dos Santos1 
http://orcid.org/0000-0001-6850-0472

Cristiano Mezzaroba2 
http://orcid.org/0000-0003-4214-0629

1Universidade Federal de Sergipe - São Cristóvão, Sergipe, Brasil; mariaedivania22@hotmail.com

2Universidade Federal de Sergipe - São Cristóvão, Sergipe, Brasil; cristiano_mezzaroba@yahoo.com.br


RESUMO:

O presente estudo apresenta as limitações e consequências (violências) impostas a um corpo gordo na sociedade ocidental contemporânea. Compreendendo a escola como lugar para ampliar o olhar para as diferenças, buscamos responder a seguinte pergunta: Como o cinema/filme pode contribuir para problematizar questões referentes ao corpo gordo e estigma no contexto educacional? Metodologicamente, tratou-se de um estudo qualitativo de cunho descritivo-exploratório, por meio de análise fílmica, utilizando como corpus de análise a produção cinematográfica “Preciosa - Uma História de Esperança” (IMDB, 2009). A película nos permitiu perceber que o estigma ao corpo gordo é naturalizado em todos os espaços sociais em que Preciosa convive estimulando a violência simbólica e física. Compreendemos que o uso do cinema/filme no contexto educacional, com a mediação do professor, possibilita (re)pensar de forma crítica e reflexiva questões relacionadas ao corpo gordo e sua exclusão social, para fomentar a desconstrução de preconceitos e uma formação mais humana.

Palavras-chave: educação; corpo; estigma; filme

ABSTRACT:

This study presents the limitations and consequences (violence) imposed on a fat body in contemporary Western society. Understanding the school as a place to broaden the perspective of differences, we sought to answer the following question: How can the cinema/movies contribute to problematize issues related to the fat body and stigma in the educational context? Methodologically, this was a qualitative study of descriptive-exploratory nature, through film analysis, using as corpus of analysis the movie "Precious" (IMDB, 2009). The movie allowed us to realize that the stigma of the fat body is naturalized in all social spaces where Precious is present, stimulating symbolic and physical violence. We understand that the use of cinema/movies in the educational context, with the mediation of the teacher, makes it possible to (re)think critically and reflectively about issues related to the fat body and its social exclusion, in order to foster the deconstruction of prejudice and a more human education.

Keywords: education; body; stigma; movie

RESUMEN:

Este estudio presenta las limitaciones y consecuencias (actos de violencia) impuestas a un cuerpo gordo en la sociedad occidental contemporánea. Entendiendo la escuela como un lugar para ampliar la busqueda de diferencias, buscamos responder a la siguiente pregunta: ¿Cómo puede el cine/película contribuir para problematizar cuestiones relacionadas al cuerpo gordo y al estigma en el contexto educacional? Metodológicamente, se trató de un estudio cualitativo de carácter descriptivo-exploratorio, por medio de análisis de películas, utilizando como corpus de análisis la película "Precious" (IMDB, 2009). La película nos permitió darnos cuenta de que el estigma al cuerpo gordo está naturalizado en todos los espacios sociales en los que Precious convive, estimulando la violencia simbólica y física. Entendemos que el uso del cine/película en el contexto educativo, con la mediación del profesor, posibilita (re)pensar crítica y reflexivamente cuestiones relacionadas al cuerpo gordo y su exclusión social, para fomentar la deconstrucción de prejuicios y una formación más humana.

Palabras claves: educación; cuerpo; estigma; película

Introdução

Problematizar questões relacionadas ao corpo estigmatizado na contemporaneidade é fundamental para (re)pensar possibilidades de desconstrução de discursos preconceituosos. Diante disso, compreendemos que é no contexto educacional, lugar de encontro das diferenças, que as marcas sociais ganham destaque: primeiro, pelo estranhamento que corpos com atributos diferentes causam ao olhar comum e, posteriormente, na grande maioria das vezes, pela não aceitação do outro, do formato do seu corpo e sua subjetividade. Além disso, neste espaço institucional podemos promover experiências que ampliem o olhar dos alunos para além de suas realidades, principalmente no Ensino Fundamental II e Médio, pois este é o período de grandes transformações corporais e psíquicas, descobertas e contato com as mais variadas culturas.

A instituição escolar historicamente assume um papel de formadora (do futuro cidadão) e normalizadora de padrões (a serviço do Estado), (re)produzindo um saber-poder. Em qualquer instituição panóptica, como a educacional, os corpos/sujeitos estão presos “[...] no interior de poderes muito apertados, que lhes impõe limitações, proibições ou obrigações” (Foucault, 2009, p. 132), para que os indivíduos sejam cuidadosamente fabricados. Dessa forma, a função primordial da instituição escolar seria desenvolver no “[...] indivíduo a apropriação de determinados regimes de verdade carregando o mesmo de sentidos e significados objetivando/subjetivando a forma desse sujeito interagir consigo mesmo, com o outro e com o mundo, pautando assim o seu comportamento” (Zoboli, 2007, p. 25). Ou seja, problematizar o estigma na escola, significa refletir sobre as práticas de poder-saber e sobre os discursos de verdade veiculados na sociedade (espaços e meios).

Como é de conhecimento, a educação do sujeito acontece nos mais variados espaços (formal, não-formal e informal) e pelos mais variados meios (analógicos ou digitais). No entanto, o ambiente educacional, por meio da mediação do professor e seus mais variados recursos, é o espaço apropriado para estimular a reflexão e problematização das questões relacionadas ao corpo e estigma - apesar de suas inúmeras limitações, não somente de material humano e didático, mas também de modelo de instituição a serviço do Estado, que delimita padrões de comportamentos e identidades. Incitar reflexões sobre o corpo, poderia/pode, quem sabe, estimular uma resistência às normalizações impostas pela modernidade de “corpo ideal”. Permitir o questionamento, a fala, as comparações e também os tensionaemntos no espaço escolar/formativo possibilita compreender as percepções dos discursos como forma de poder que oprimem o(s) corpo(s).

O uso do cinema/filme na sala de aula possibilita a construção de espaços para a experiência, desde que não seja visto único e exclusivamente como um meio (Barbosa; Schulze, 2018). Nesse escrito, utilizamos os termos “cinema” e “filme” como sinônimos, levando em consideração os três aspectos subjetivos propostos por Santos (2016; 2021): evitar as excessivas repetições do termo; pelo uso recorrente dos vocábulos “cinema” e “filme” nas pesquisas em Educação; e relacionado ao “[...] aspecto metodológico peculiar [...]” (Santos, 2021, p. 68) que envolve o uso de filmes no espaço escolar para nos aproximar da experiência cinematográfica, pois é o mais próximo de uma sala de cinema que muitas crianças e jovens podem chegar devido às circunstâncias socioeconômicas, regionais e culturais. De modo mais restrito, o cinema é compreendido como algo mais amplo (dispositivo/sala escura), sendo o filme “[...] uma pequena parte desse aparato, uma amostra, um produto construído a partir de uma determinada configuração de montagem que podemos identificar como cinematográfica” (Duarte, 2002, p. 98).

Fantin (2011) salienta as várias possibilidades de pensar o cinema, entre elas se destacam o cinema enquanto arte, indústria, dispositivo e linguagem. Neste texto, aproximamo-nos dos estudos relacionados ao cinema e educação (Fantin, 2011; Almeida, 2017; Fischer, 2009; 2020) pensando “[...] o cinema como ‘objeto plural’ que possui “dimensões estéticas, cognitivas, sociais e psicológicas e que envolve a produção cultural, prática social e reflexão teórica” (Fantin, 2011, p. 74). Assim, o filme é entendido “[...] como texto, linguagem, lugar de representação, momento de narração que, com seus múltiplos significados, é uma das formas como nossa cultura dá sentido a si própria” (Fantin, 2011, p. 74).

A legislação educacional brasileira tenta garantir o uso do cinema/filme no contexto educacional, para tanto, foi sancionada a Lei 13.006, de 26 de junho de 2014 (Brasil, 2014), dispondo a obrigatoriedade de exibição de filmes nacionais na instituição escolar. O filme deve ser integrado à proposta pedagógica da escola como componente curricular complementar, com exibição de, no mínimo, 02 (duas) horas mensais, garantindo o acesso à cultura no âmbito institucional. Em que pesem as críticas a tal lei, como por exemplo, fixar um mínimo de duas horas mensais de produção nacional, é inegável que se constitui um avanço em relação à valorização da cultura nacional no contexto escolar, bem como, das relações entre a estética cinematográfica em relação com contextos pedagógicos.

A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) define em suas competências gerais da educação básica (Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio), a valorização e fruição das “[...] diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-cultural” (Brasil, 2018, p. 9), o uso de diferentes linguagens (verbal, corporal, visual, sonora e digital) e o trabalho educativo (compreender, utilizar e criar) com as tecnologias digitais de informação e comunicação para a formação de um educando crítico em suas práticas sociais (Brasil, 2018). Assim, compreendemos que a arte cinematográfica está incluída na instituição educacional como possibilidade para se aprimorar a atividade pedagógica e/ou ser experimentada enquanto arte, como já sinalizam algumas experiências e pesquisas, como de Costa e Wiggers (2019), Santos e Mualaca (2021) e Shin Fu et al. (2022).

Amparado legalmente para sua inserção no contexto educacional, é possível, depois da fruição, a discussão da obra. Promovendo reflexões que englobem os temas contemporâneos transversais (Brasil, 2019) como o multiculturalismo, que tratam da diversidade cultural e Educação para valorização das matrizes históricas e culturais brasileiras. Vale destacar, que a Lei nº 11.645, de 2008, torna obrigatório no ensino fundamental e médio, público e privado, o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena. Temas caros ao atual cenário brasileiro2 (Brasil, 2008).

Nessa perspectiva, o cinema/filme se configura como estratégia de acesso à arte, enquanto artefato cultural e possibilidade de reflexão sobre os mais variados temas (Santos, 2022). Assim, temos como foco problematizar questões relacionadas ao corpo e estigma, tendo como categoria de análise o corpo gordo. Os sujeitos estão imbricados na busca pelo chamado “corpo ideal” e no seu constante aperfeiçoamento e controle do comportamento, pois isso lhes confere um certo poder e aceitação social. Todavia, mais significativo é perceber no ambiente escolar como a relação com o corpo pode adoecer a criança e o jovem e privá-los de experiências importantes para ampliar sua visão de mundo (Jimenez, 2020; Ramos-Soares, 2021; Souza; Gonçalves, 2022).

A violência promovida ao corpo gordo é classificada como gordofobia, uma forma de discriminação violenta, que se caracterizada pela aversão e ódio ao corpo volumoso (Jimenez, 2020), que passa a ser compreendido como um corpo doente, patologizado. Uma estigmatização estrutural e cultural justificada pelo discurso médico e patriarcal, tornando o corpo gordo alvo de controle social disfarçado de “opinião construtiva” (Roveda Pilger, 2021, p. 129), com imposição de mudanças na aparência física e nas formas de vida. Quando as mudanças não ocorrem de forma satisfatória, culpa-se o sujeito fora do padrão corporal pelo “fracasso” em sua tentativa de ser alguém “normal”, pois entende-se que ele não esforçou-se o suficiente, foi desleixado/preguiçoso, e não ofereceu a importância devida a seu autocuidado, um corpo que aos olhos dos saberes biomédicos é patologizado e recebe a denominação de “corpo obeso”.

Sobre essa questão, indicamos duas obras de referência nos estudos sociológicos franceses: “Sociologia da Obesidade”, de Jean Pierre Poulain (2013), e “As metamorfoses do gordo: história da obesidade no ocidente da idade média ao século XX”, de Georges Vigarello (2012). Na articulação dos dois trabalhos compreendemos os fatores sociológicos e históricos que envolvem as configurações e transformações que o corpo gordo vem passando ao longo da história. A recente pesquisa de dissertação de mestrado de Jádisson Gois da Silva (2023) - "Corpo gordo, discursividades midiáticas e o fenômeno da gordofobia: uma análise crítico-reflexiva e problematizadora" - ajuda a perceber o cenário atual no contexto do fenômeno na internet.

O corpo gordo torna-se um estigma, um atributo profundamente depreciativo, construído socialmente com objetivo de classificar moralmente os sujeitos em categorias socialmente previstas, normalizando indivíduos e grupos sociais e lhes conferindo uma “identidade social” (Goffman, 2008). O estigma é considerado um defeito, uma desvantagem ou sinal de fraqueza, tendo por função predizer o que se espera do comportamento do estigmatizado e, de certa forma, qual a conduta a ser tomada diante do outro considerado “normal”. Ou seja, o estigmatizado é aquele que aceita os estereótipos negativos aferidos a seus atributos, desenvolvendo um sentimento de autodepreciação.

O estigma do corpo gordo é uma construção social e histórica para categorizar o “normal” e o “anormal/patológico”. Associado à condição de patologia (obesidade), mesmo não tendo nenhuma condição de “doença”, seu volume corporal permite, na sociedade contemporânea, uma vigilância constante dos corpos gordos e a disseminação de discursos de verdades sobre as identidades desses sujeitos (Paim; Kovaleski, 2020). Aqueles que fogem ao padrão do “corpo ideal” são desprezados, vigiados, subjugados, marginalizados e, em alguns casos, são agredidos verbal e fisicamente.

Diante dessa contextualização, a relevância desta pesquisa parte do pressuposto de que por meio do uso do cinema/filme no ambiente escolar, com a mediação do professor, é possível ampliar o olhar dos jovens para problematizar questões referentes ao corpo gordo estigmatizado, possibilitando espaços de reflexão, diálogo, trocas de experiências, acolhimento e de respeito às diferenças. Assim, o objetivo do estudo foi problematizar as relações entre corpo gordo e estigma a partir da análise do filme “Preciosa - Uma história de esperança” (IMDB, 2009), com o intuito de responder a seguinte questão de pesquisa: Como o cinema/filme pode contribuir para problematizar questões referentes ao corpo e estigma no contexto educacional?

Para uma melhor organização e compreensão deste texto, organizamos o escrito a partir de três outras partes (procedimentos metodológicos da pesquisa, potencialidades educativas com o filme “Preciosa” e considerações finais) para além dessa contextualização introdutória. Nos procedimentos metodológicos da pesquisa, delimitamos como foi realizada a triagem da obra selecionada, apresentamos aspectos técnicos e a sinopse da obra. Na seção seguinte, “Potencialidades educativas com o filme Preciosa”, estabelecemos relações entre a narrativa e as consequências relacionadas ao estigma do corpo gordo, destacando estudos que evidenciam a violência da gordofobia no contexto educacional. Nas considerações finais, buscamos responder a nossa questão de pesquisa, que envolve a questão estética na educação.

Procedimentos metodológicos da pesquisa

Trata-se de um estudo qualitativo de cunho descritivo-exploratório, a partir de análise fílmica. O instrumento utilizado para auxiliar no processo de análise, trazendo dados relevantes sobre a obra, foi realizado por meio do roteiro de diálogo cinematográfico, tendo como referência os estudos de Dantas Junior (2012). O roteiro possibilita organizar as informações sobre as características gerais do filme (título, ano, direção, gênero, duração, sinopse, entre outros); subtemas relacionados à temática e outras informações relevantes para a análise.

Assim, foram utilizados como critérios de escolha: 1) filmes que dialogassem com o público jovem; 2) relacionados ao contexto educacional; 3) que possibilitassem problematizar as questões referentes ao corpo e estigma e seus efeitos na vida dos(as) personagens. Compreendemos que qualquer filme que narre a vida humana, permite dialogar sobre o corpo e estigma. Primeiro, porque o corpo está presente em cena com suas marcas (estigmas) socialmente construídas. Segundo, porque vamos perceber como esse corpo se relaciona com o mundo, com o outro e consigo mesmo em relação aos significados sociais que as relações de poder do contexto social, cultural e histórico apresentados pelo cineasta. No entanto, alguns apresentam determinados estigmas como tema central para o desenrolar da narrativa.

Tendo em vista os vários os tipos de estigmas e suas subcategorias, foi necessário especificar sobre qual marca social o estudo iria aprofundar a discussão, facilitando também o processo de seleção da obra. Assim, tendo o estigma como tema central, elegemos a gordofobia como subtema, visto ser recorrente nos casos de bullying no contexto educacional (Souza; Gonçalves, 2022). A triagem para seleção da obra foi realizada no blog “lista de 10” (Martins, 2009), espaço criado por Armando B. Martins, dedicado a categorizar os filmes por temas específicos. Disponível desde 2009 o blog é um ambiente rico em possibilidades para curiosos, cinéfilos e pesquisadores, pois apresenta um grande leque de seleções de filmes por temáticas específicas.

A busca foi realizada na categoria “doença/saúde” em virtude da relação simétrica entre estigma e patologia na sociedade ocidental. Essa categoria apresenta nove subcategorias (cegueira, Alzheimer, surdez, amnésia, paralisia, velhice, obesidade, AIDS e gravidez). Tendo como enfoque a gordofobia, o subtema escolhido foi “obesidade”, resultando nas seguintes produções: Super Size Me, a Dieta do Palhaço; Wall-E; O Amor é Cego; A Matter of Size; O Professor Aloprado; Preciosa - Uma história de Esperança; O Sentido da Vida; The Hanging Garden; Paixão Muda - Heavy; O Gorducho.

Levando em consideração os critérios de escolha da obra, o filme selecionado foi “Preciosa - Uma História de Esperança” (IMDB, 2009). Este, além de expor e dramatizar aspectos relacionados à gordofobia, apresenta uma série de outras marcas sociais que podem ser problematizadas no contexto educacional, pois se assemelha à realidade de muitos(as) estudantes de escolas públicas no Brasil.

Descrição da obra fílmica: “Preciosa - Uma história de Esperança”

A película “Preciosa - Uma história de Esperança” (Preciosa, 2009), dirigida por Lee Daniels, é uma adaptação do livro Push, escrito por Sapphire (2014), nome artístico de Ramona Lofton, professora, escritora e artista performática. Em sua trajetória, foi na vivência da prática pedagógica como educadora do encontro com várias jovens em uma escola no bairro do Harlem, em Nova York (EUA), entre 1987 e 1993, onde surgiu a protagonista da obra. Preciosa é um plural, nela estão relatos de vida de muitas mulheres e jovens afetadas por suas realidades, vítimas de diversos tipos de violência (Sampaio, 2015).

O filme foi gravado pela Filmax, nos Estados Unidos da América (EUA), lançado em 2009, com duração de 109 minutos e faz parte do gênero drama. Além de Lee Daniels na direção, a obra teve produção de Oprah Winfrey, roteiro de Damien Paul, fotografia de Andrew Dunn, música de Mario Grigorov e contou com a interpretação de Gaborey Sidibe (Clareece Precious Jones) no papel da protagonista; Mo´Nique (Mary) mãe da protagonista; Paula Patton (Senhora Rain), a personagem que trabalha na escola onde Preciosa estuda; Mariah Carey (senhora Weiss) como assistente social; Lenny Kravitz (John) no papel de enfermeiro; Stephanie Andújar (Rita); Sherri Shepherd (cornows).

Sinopse da obra

A obra fílmica narra a vida de Claireece Preciosa Jones, uma jovem de 16 anos, estudante do ensino regular, sem amigos(as), sonhadora, silenciosa, de comportamento arredio e agressivo. Mora no Harlem, em Nova York, com sua mãe (uma mulher desempregada que sobrevive de auxílios recebidos do governo, tendo como critério a permanência da filha na instituição escolar). Durante o desenvolvimento do filme, observamos que a protagonista vivencia vários conflitos pessoais, familiares e sociais que inscrevem em seu corpo as mais diversas marcas sociais negativas, as quais compreendemos como sendo os estigmas.

Preciosa é uma jovem preta, analfabeta, mãe (resultado de violência sexual praticada pelo próprio pai), periférica, que está em situação de vulnerabilidade social, obesa e portadora do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV)3. Todos os atributos de descrédito citados conferem à protagonista estereótipos negativos como feia, burra, gorda, mãe de uma “aberração” (seu filho mais velho apresenta Síndrome de Down, e é apelidado de “mongo” por sua mãe, Mary), como pode ser observado durante a fruição da película. No entanto, nem todos os estigmas são visíveis, sendo seu volume corporal a marca que mais lhe confere sofrimento na escola (decorrente do bullying por ela sofrido em todos os momentos), na família e comunidade com xingamentos, zombarias e agressões físicas.

Quando a diretora descobre a segunda gravidez da Preciosa, ela tenta coagi-la a contar o que está acontecendo, sem sucesso ela informa que a jovem será retirada da escola. Seu professor de matemática interpela, pois apesar de ser analfabeta, consegue se sair bem nas aulas com cálculos. Assim, a diretora transfere-a para uma instituição de ensino que atende jovens em situação de vulnerabilidade e com diversos problemas sociais. A protagonista permanece com os estudos mesmo contra a vontade da mãe, e será nesse ambiente que ela vai conseguir falar, ser ouvida e buscar estratégias para mudar seu destino, lidando em um contexto diário em que tudo parece se voltar contra qualquer possibilidade de um ser humano poder se desenvolver e viver humanamente e dignamente.

Potencialidades educativas com o filme Preciosa

Após apresentar como foi realizada a seleção da obra, a descrição dos dados técnicos e sua sinopse, passamos agora a discutir o tema proposto sob as lentes do campo da Educação. Subdividimos esta seção trazendo no início uma reflexão sobre questões que envolvem o corpo gordo estigmatizado e suas consequências nos mais variados contextos sociais, incluindo o educativo; em seguida damos ênfase a relatos pessoais do impacto da gordofobia no chão da escola, com o intuito de demonstrar a necessidade de buscar estratégias para problematizar tais questões no contexto educacional; finalizamos destacando a potencialidade do cinema/filme como estratégia para problematizar tais questões no contexto educacional.

Corpo gordo estigmatizado e suas consequências

Preciosa é uma jovem que carrega inscrito em seu corpo inúmeros atributos depreciativos para o seu atual contexto social. Quando mencionamos a palavra “carrega”, não queremos dar a entender algo feito de bom grado, mas vindo exteriormente contra sua vontade, sem condições de dizer “não” ou pedir ajuda para se livrar do fardo e atributos negativos sobre sua identidade e autoestima. Na película, observamos os atributos depreciativos impondo limites à vida da jovem, a exemplo, no que concerne ao acesso aos direitos básicos, como educação e a convivência com outros jovens. Esse cenário destaca o quanto suas marcas sociais são profundas e interferem sobre a forma de olhar e interagir consigo mesma, com o mundo e com o outro.

De acordo com Goffman (2008), o indivíduo é considerado estigmatizado quando aceita os atributos negativos a ele conferidos. A sociedade cria os atributos e suas categorias de normalidade (aceitável, adequado, belo, saudável) e anormalidade (condenável, inadequado, feio, doente) e as define como as regras - a serem aceitas - e os padrões - a serem seguidos e copiados-, mesmo que não agrade a todos e todas, ou exclua a maioria. No entanto, alguns indivíduos possuem “crença de identidade própria”, não aceitam as imposições dos padrões nem os olhares e comentários da sociedade, o que não é o caso da protagonista do filme em questão.

Nesse sentido, a protagonista é estigmatizada, pois aceita e sofre as consequências dos diversos estigmas construídos e referidos à ela. Jovem, mulher, preta, em situação de vulnerabilidade social, mãe na adolescência em decorrência de estupro, grávida pela segunda vez, mãe de uma criança com Síndrome de Down, solteira, “impura” (não é mais virgem), obesa, moradora do Harlem (periferia de Nova York), portadora do Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV) e analfabeta. São muitos os estigmas, e cada um deles possui características singulares, muitas vezes, apresentam consequências que se inter-relacionam, como exemplo, além de mãe na adolescência, seu filho tem Síndrome de Down, potencializando o estigma.

Todos os estigmas apresentados são perversos em um corpo jovem e a soma deles desenham um corpo indesejável, inútil, errado, mal exemplo, inaceitável etc. Mas, não invisível, pelo contrário, seu corpo não passa despercebido, é alvo de críticas e insultos, principalmente, em relação ao seu volume corporal, pois não é possível manipular a informação sobre o atributo “defeituoso/anormal”, o que a torna uma pessoa estigmatizada desacreditada, quando suas características distintivas são evidentes/conhecidas (Goffman, 2008), impedindo-a de poder se desviar dos olhares avaliativos e punitivos da sociedade.

Apesar do volume corporal ser a característica de maior desvalorização em seu contexto social, Preciosa apresenta outros atributos negativos não identificados de imediato durante os contatos mistos. Quando estes são imperceptíveis, inevidentes ou desconhecidos, é possível manipular a informação sobre a identidade social, ou seja, mentir ou omitir que possui o atributo de descrédito, sendo considerado um estigmatizado desacreditável. Dessa forma, a jovem pode esconder, em um primeiro momento, ser analfabeta, mãe, portadora do HIV, bem como o fato de ser violentada em casa, entre outras questões.

Esconder esses atributos da comunidade (vizinhos, amigos, colegas, professores etc.) é uma estratégia eficaz para evitar que sua identidade seja reduzida às suas vulnerabilidades, o olhar de pena (“coitadinha”), a curiosidade da sociedade, os pré-julgamentos e preconceitos. Nesse sentido, cabe somente aos órgãos competentes de apoio à manutenção dos direitos sociais4 conhecer a situação de vulnerabilidade das vítimas para prestar a ajuda necessária garantindo a equidade na conquista dos direitos sociais. Todas as unidades e órgãos que trabalham com a Assistência Social zelam pela privacidade dos seus usuários para evitar, principalmente, o estigma social e o preconceito.

O volume corporal da jovem por si só já é suficiente para sua exclusão. Tornar os outros atributos conhecidos, só diminuirá seu valor simbólico. Dessa forma, manipular as informações sobre os outros atributos seria uma forma de escapar das atitudes e atos dos considerados “normais”, embasadas em teorias e ideologias construídas socialmente (discursos sobre o corpo, como o corpo saudável, o corpo belo, o corpo performático etc.) para legitimar a inferioridade e justificar o “perigo social” que o estigmatizado representa. Assim, o sujeito que sofre as implicações das mais diversas estigmatizações tende a esquematizar a vida para evitar tais encontros ou encontrar formas de esconder seus atributos.

Apesar do contato misto ser angustiante para ambos (considerados “normais” e “estigmatizados”), pois terão que enfrentar diretamente as causas e efeitos do estigma, certamente, ele é mais complexo para Preciosa, pois possui o atributo de descrédito. Como não sabe em que categoria será colocada, a protagonista pode passar por inúmeras situações, desencadeando uma série de reações. Por exemplo, no início do filme, quando a jovem caminha pelo corredor da escola em direção à sala de aula, é observada pelos outros alunos que também circulam pelo mesmo espaço. Nessa cena, percebemos olhares irônicos e risos. Dentro da sala de aula é ofendida verbalmente pelos colegas e, enquanto caminha pelo bairro, voltando da escola para casa, é agredida verbal e fisicamente por jovens rapazes por conta do seu volume corporal.

Em todas essas situações Preciosa não reage, passa em silêncio com olhar raivoso e insatisfeito. No entanto, na escola alternativa, quando uma de suas colegas a chama de feia, ela responde com agressividade. Goffman (2008) afirma que o retraimento ou agressividade são respostas antecipadas para as atitudes e atos dos “normais”, uma espécie de “capa defensiva” (Goffman, 2008, p. 26) para enfrentar a situação social mista e evitar invasões de privacidade, com perguntas curiosas e/ou comentários desagradáveis. Preciosa usa seu tamanho e força para intimidar os sujeitos, passa um tipo de recado, para impedir outras pessoas de ter o mesmo comportamento.

Somente na escola alternativa, a professora começa a visualizar a protagonista em sua integralidade. Até então a jovem sempre foi reduzida a seu estigma, ou seja, não existe uma jovem sonhadora, existe um corpo volumoso, e com base no atributo de descrédito apresentado lhes são conferidas outras “imperfeições”, outros estigmas com estereótipos negativos. Se é volumosa, é gorda, pesada, gulosa, feia, doente, preguiçosa, descuidada, imprestável etc. Nessa perspectiva, vai sendo construído o sujeito, o corpo e sua identidade - Preciosa (Figura 1).

Fonte: Santos (2022)

Figura 1 - Estereótipos relacionados ao volume corporal da personagem Preciosa 

Na contemporaneidade, o discurso científico trata o corpo como um simples suporte do sujeito, uma “matéria-prima” a ser moldada para chegar a sua melhor forma, de acordo com os parâmetros sociais vigentes. Assim, o corpo é visto como um “rascunho”, desprovido de caráter simbólico e valor, induzido a se submeter a todos os procedimentos estéticos necessários para garantir sua aceitação (Le Breton, 2013). Ao mesmo tempo que o corpo é esvaziado, o estigma, marca inscrita nesse corpo, destaca-se como uma informação valiosa para identificar o sujeito que precisa buscar a “correção/cura/adequação”.

Preciosa não aceita de sua aparência física, isso fica nítido em várias passagens do filme. A película demonstra que sua rotina alimentar é extremamente calórica, com muita fritura, gordura, e sua mãe, como forma de castigo, obriga a jovem a comer mesmo sem sentir fome e demonstra satisfação com o perfil corporal da filha - o motivo está associado à possibilidade de sempre destratá-la tendo no excesso de gordura uma forma de inferiorizá-la. Assim, a mãe contribui para fortalecer a autodepreciação da jovem.

Machado e Ferrari (2019) utilizam o filme aqui abordado para problematizar as relações entre os artefatos culturais, discursos e modos de subjetivação dos sujeitos. Os autores refletem sobre como os discursos interferem na constituição dos sujeitos, em especial na vida de mulheres obesas, delimitando modos de ser e estimulando o isolamento social, tendo os artefatos culturais como meios para disseminar padrões ideais de corpo, influenciando de forma direta e indireta em todos os contextos sociais, entre eles, o familiar e escolar. Assim, desde a infância, passando pela juventude, os corpos femininos são cobrados a sempre estarem dentro dos padrões.

Um estudo de revisão bibliográfica, realizado por Mezzaroba, Zoboli e Correia (2018), também corrobora com o trabalho de Machado e Ferrari (2019). Com o objetivo de identificar a produção relacionada à temática sobre o corpo, comunicação e mídia em periódicos da Educação Física brasileira, os autores constatam que o foco dos artefatos culturais é o corpo feminino na maioria das produções avaliadas. Os estudos demonstram que as linguagens das mídias delimitam modos de ser feminino, padrões estéticos corporais, estimulam o consumo feminino e tratam o corpo obeso com algo a ser combatido.

Define-se a métrica universal de porcentagem da gordura corporal, cria-se a “fôrma” ideal para todos os sujeitos, aqueles(as) que não estão dentro dos padrões podem encontrar no mercado de consumo várias alternativas possíveis de alcançar o corpo ideal. Entre cintas, dietas e exercícios físicos “milagrosos”, tratamentos farmacológicos, remédios “naturais”, cirurgias etc.

Diante de tantas possibilidades, é simplesmente inaceitável para a sociedade contemporânea ocidental aceitar a existência de pessoas acima do peso, mesmo que, para essa mesma sociedade, sob os ditames do neoliberalismo, a todo momento estimula-se o consumo de alimentos não saudáveis (fast food), do consumo de bebidas alcóolicas (cerveja e chop, por exemplo) ou super calóricas (sucos industrializados e refrigerantes), além do acesso facilitado a drogas “lícitas” (para enfrentar as dores musculares decorrentes das implicações e cobranças pela produtividade), sem contar as cobranças para “ter tempo” de se exercitar (algo que deixa de ser uma busca prazerosa com o corpo e passa a ser outra obrigação).

Assim, no século XXI são feitos investimentos para tentar estimular os hábitos de vida saudáveis da população brasileira e mundial. Dentre eles, alguns programas televisivos passam a expor o sofrimento e as dificuldades de viver com obesidade. Os programas passam a imagem de uma existência cheia de obstáculos, constrangimentos, tristeza e exclusão. A exposição televisiva gera a espetacularização de como as atividades cotidianas são desenvolvidas pelos corpos volumosos, aguçando a curiosidade da sociedade e revestindo os sujeitos de estereótipos negativos para estimular o emagrecimento e a manutenção do peso “ideal” (Roveda Pilger, 2021). Alguns exemplos desses programas são os reality shows:

The Biggest Loser, ou, ‘O Grande Perdedor’, criado em 2004 originalmente pelo canal de televisão paga, NBC. O programa já teve 17 edições. Sua versão brasileira foi transmitida pelo SBT, com duas edições, uma em 2005 e outra em 2007. Neste programa os participantes competem para ver quem perde mais peso em determinado tempo, o campeão de emagrecimento leva um prêmio em dinheiro. Outro exemplo é o programa Quilos Mortais, do canal TLC, mas também transmitido pela Discovery e Discovery Home and Health, todos canais pagos. Criado em 2012, retrata o cotidiano da vida de um obeso mórbido, geralmente pessoas com mais de 200kg que estão se preparando para realizar a cirurgia bariátrica. Em cada episódio o programa acompanha um ano da vida dessas pessoas. Esses programas também geram outros. O Skin Tight, ou ‘Emagreci, e agora?’, criado em 2016, também pelo canal TLC, é um programa que acompanha pessoas que perderam muito peso e estão prestes a realizar uma cirurgia de remoção de pele. (Roveda Pilger, 2021, p. 102-103)

Esses programas, como descreve (Roveda Pilger, 2021, p. 102-103), querem demonstrar que é possível ser incluído novamente na sociedade e se livrar do fardo de ser quem é (com o corpo indesejado que se tem), evidenciando, de maneira clara, o traço do estigma corporal. Como se o excesso de peso fosse o único “problema” possível na vida de uma pessoa, o emagrecimento seria a solução para uma vida feliz e de sucesso. Toda a exposição do indivíduo fora da norma, com o foco centrado no atributo de descrédito e seus estereótipos negativos torna o corpo gordo um “corpo abjeto” (Roveda Pilger, 2021). Materialmente exagerado, em excesso, essa característica é suficiente para retirá-lo da categoria de sujeito. Desumanizado, dele são retirados os direitos sociais de ir e vir5 e o olhar empático de outros humanos.

São corpos “deslegitimados” (Roveda Pilger, 2021, p. 91) e a partir dessa informação se justificam as ofensas e violências, a punição, sua exclusão e o julgamento constante de qualquer pessoa da sociedade (Roveda Pilger, 2021). Todos olham, medem, fazem perguntas, prescrevem dietas e exercícios no intuito de tentar “curar” o sujeito de sua “doença”. Assim, percebemos a personagem Preciosa ser constantemente agredida verbal e fisicamente com naturalidade em seu contexto social. Como um “corpo abjeto”, que ainda não é sujeito, não causa compaixão, remorso ou sequer se observa a violência presente nessas práticas - pois elas servem para (re)afirmar a necessidade de adequação de um estado patológico e esteticamente inaceitável a um estado de saúde e normalidade vinculado a uma forma corporal magra.

Gordofobia no contexto educacional

Jimenez (2020, p. 144) apresenta em seu artigo um depoimento da infância sobre como a gordofobia foi cruel para construção de experiências sociais e corporais e como o sentimento de culpa já estava inculcado em seu ser:

Meu lugar social sempre foi o da ‘gordinha’ da sala, da rua, do grupo, da brincadeira e assim por diante. Lembro que, com uns sete anos, minha mãe me colocou no ballet e, quando tive que colocar aquele collant rosa, saia rodada de véu, coque no cabelo e me olhei no espelho, na aula com outras meninas, me senti muito mal, e pior ainda foi quando tive que usar sapatilha de ponta, já que as coleguinhas riam, porque eu não conseguia ficar na ponta, e as que conseguiam riam e sussurravam que era porque eu era muito gorda e a ponta podia quebrar. A professora não fez absolutamente nada sobre aquele constrangimento e humilhação, pois era o preço que eu, criança gorda, deveria passar por estar daquele tamanho, ou seja, eu merecia aquilo, e é assim que a sociedade vem se comportando com pessoas gordas.

Mesmo com apenas sete anos de idade, a autora do depoimento acima compreende que não tem como enfrentar os efeitos de um corpo estigmatizado, pois todo o ritual de humilhação era considerado natural, inclusive entre adultos. Essa situação, infelizmente, é muito comum no ambiente escolar, como observado nos outros depoimentos presentes no texto. O que demonstra a importância de discutir questões relacionadas ao corpo no contexto educacional para desconstruir os signos sociais que autorizam inferiorizar e desumanizar o outro.

Outro estudo, realizado por Souza e Gonçalves (2022), sinaliza que os profissionais da educação não estão preparados para agir em situações relacionadas à gordofobia. Mais que isso, os autores percebem que os profissionais não estão preparados para lidar com nenhum tipo de preconceito. A falta de ação torna o estigmatizado mais vulnerável, legitima o discurso de ódio e as violências. Nesse sentido, percebe-se a importância de buscar formas e maneiras de atualizar os diálogos e intervenções sobre a temática, como defendemos, neste caso, a partir da utilização do cinema/filme em contexto formativo para dialogar/refletir/atuar em relação aos estigmas corporais e sociais.

No contexto da produção do conhecimento no campo da Educação e das Humanidades, há um conjunto de argumentos e estudos em relação às estratégias de enfrentamento a partir do que se convencionou chamar de “educação para/com/através” das mídias (Belloni, 2001), ou da “mídia-educação” (Fantin, 2006; Rivoltella, 2009), ou mesmo, “educação para os meios” (Buckingham, 2012). E nesse sentido, o trabalho pedagógico - em qualquer componente curricular escolar - articulado com o uso do cinema/filme pode ser ampliado e potencializado no enfrentamento das questões que envolvem o contemporâneo e suas complexidades que estão presentes nos contextos escolares (racismo, machismo, misoginia, preconceitos em relação a gênero e a pertencimento a classes sociais, individualismo exacerbado etc.).

A alta concentração de distúrbios emocionais em pessoas acima do peso não está relacionada ao peso corporal, ou seja, ser gordo não significa “naturalmente” indicar algum padrão biológico correlacionado a distúrbios emocionais. O que ocorre é a maneira como as pessoas gordas são tratadas na sociedade em virtude da discrepância com os padrões de normalidade. Não é o peso, mas o significado social a ele concernente hoje em nossa sociedade: precisamos focar no peso do estigma. Não é a pessoa volumosa que precisa emagrecer e se adequar aos padrões corporais, é a nossa construção social e cultural de signos e significados a qual estimulam a discriminação, exclusão e violências (físicas, psicológicas, simbólicas) que precisam ser problematizadas, enfrentadas e transformadas.

Assim, conforme a própria obra fílmica trouxe, é necessário que pensemos quanto às funções e responsabilidades pedagógicas e sociais da mediação docente nos processos que ocorrem em contextos escolares e formativos: no filme, foi a professora quem identificou o sofrimento de Preciosa decorrente da sua situação de vulnerabilidade social e pressões psicológicas que o seu entorno lhe causava. No exercício docente, é importante e necessário que professores e professoras sejam instrumentalizados quanto a tornarem-se sensíveis e capacitados a lidar com situações parecidas em sala de aula, evitando repetir ações simplistas muitas vezes baseadas no senso comum.

Uma pesquisa bibliográfica realizada por Alves, Guilherme e Santos (2021) apresenta as contribuições de estudos qualitativos para o entendimento da violência associada ao corpo gordo. Os autores analisaram 14 artigos e identificaram seis temas e núcleos de sentido relacionados à gordofobia: trabalho, educação, saúde, relações sociais, corpo e mídia. Desse modo, os resultados demonstraram que as violências ocorrem de forma cotidiana, sutil ou violenta nos mais variados contextos sociais, comprovando que é praticamente impossível se livrar das agressões.

A seguir descrevemos os temas e núcleos de sentido quanto à violência e obesidade apresentada pelos autores: 1 - trabalho (descrédito, sentimento de menos valia e diminuição de oportunidades); 2 - educação (exclusão, bullying, preconceito, baixa autoestima); 3 - saúde (impactos na saúde mental, limitações físicas e doença curável); 4 - social (relações íntimas e de parentesco comprometidas e desigualdade); 5 - corpo (hostilidade, cárcere, vergonha, isolamento e ocultação); 6 - mídia (discriminação, exclusão laboral, medicalização, preconceito e estudos) (Alves; Guilherme; Santos, 2021).

Em especial na temática “educação”, destacando a perspectiva de alunos (crianças, adolescentes e professores desse mesmo público), foram identificados três estudos com as seguintes observações: a vivência da violência acontece por meio de apelidos, provocações e xingamentos; ocorrem em todos os lugares, indo/vindo para/da escola, dentro da escola e no ambiente familiar; as aulas de Educação Física são momentos de rejeição e exclusão; os professores fazem avaliações negativas de alunos com corpos gordos, atribuindo estereótipos de descrédito como: “[...] apáticos, desanimados, cansados, lentos, distraídos, preguiçosos, indispostos, etc.” (Alves; Guilherme; Santos, 2021, p. 171). Atravessados pelo bullying, os autores concluem que as crianças e adolescentes vivenciam sentimentos de “[...] tristeza, raiva, medo e mágoa” (Alves; Guilherme; Santos, 2021, p. 171).

Ramos-Soares (2021), em seu trabalho autoetnográfico, utiliza uma narrativa biográfica para relatar episódios de violência gordofóbica sofridos em diversas situações, inclusive no contexto escolar. O autor considera que na pré-adolescência e adolescência a escola era o local mais tóxico para seu corpo transitar, pois passava por diversas chacotas e humilhações por parte de alunos, professores e coordenadores, desencadeando transtorno alimentar (bulimia) e de imagem corporal. Ele relata que sentia um ódio intenso sobre seu corpo e olhar-se no espelho era um sofrimento, pois sentia nojo/repugnância. Sempre se culpou por não corresponder aos padrões ao ponto de autoflagelar-se (com socos e beliscos contra seu próprio corpo).

Os relatos pessoais de Jimenez (2020) e Ramos-Soares (2021) evidenciam a gravidade da violência decorrente da gordofobia, como situações que são cotidianas e recorrentes. Já o filme, “Preciosa - Uma história de esperança”, embora sendo uma ficção dramática, permite-nos olhar para a personagem e seus dilemas cotidianos referentes ao preconceito e sensibilizarmo-nos com questões que são cada vez mais necessárias para serem pautadas, discutidas e problematizadas àqueles(as) que atuam em contextos educacionais.

Assim, é possível extrairmos a possibilidade da potencialidade da obra cinematográfica para problematizar questões relacionadas ao estigma da gordofobia no contexto educacional, o que nos permite defender a estratégia do uso do cinema/filme em escolas, universidades e contextos educacionais e formativos (Napolitano, 2003; Almeida, 2017) como exercício de enfrentamento às diversas questões relacionadas às várias formas de estigmas que envolvem o corpo.

Segundo Almeida (2017), há uma diversidade de perspectivas que envolvem cinema e educação, seja em relação à defesa do uso de filmes como ferramentas para fins educacionais, seja pela perspectiva do cinema como dispositivo cultural revelador de realidades e produtor de sentidos, ou mesmo, a partir de abordagens sociológicas em que o cinema apresenta-se como uma forma de conhecimento sobre as questões do mundo; passando também por uma dimensão mais superficial em que o cinema/filme é utilizado como uma disposição didática. De acordo com o autor, “[...] o cinema realiza, no século XX [XXI], o que a literatura realizou no XIX, isto é, fornece narrativas simbólicas que orientam a experiência humana no mundo de modo equivalente ao que faziam os mitos nas sociedades antigas” (Almeida, 2017, p. 8).

Ainda considerando-se as mais diversas perspectivas metodológicas que envolvem cinema e educação, o conteúdo dos filmes e as formas de tematização e sensibilização dos mesmos configuram-se, conforme Santos e Mualaca (2021, p. 477), “[...] como modos de expressão e representação culturais, que nos possibilitam ver o outro na perspectiva de objeto e sujeito de conhecimento”, contribuindo “[...] para uma compreensão das diferentes culturas e sociedades”.

Tem-se, com o cinema/filme na educação, o que os referidos autores denominam como sendo uma “posição de relevo”, isto é, todas as questões que envolvem o estigma corporal e suas consequências podem/devem ser problematizadas na escola considerando-se que os filmes assumem um papel de destaque no contexto sociocultural do contemporâneo (atuam no desenvolvimento dos sujeitos; exercem senso de alteridade e provocam emoções) (Santo; Mualaca, 2021).

Por meio da experiência estética com o cinema/filme passamos a refletir sobre nós mesmos, buscamos compreender “[...] como nos tornamos o que somos, que discursos nos subjetivam, a que verdade nos amarramos (ou: que verdades nos amarram?)” (Fischer, 2009, p. 95). Essa atividade reflexiva, que parte da imersão nas linguagens audiovisuais, possibilita um trabalho interno para pensar o tempo presente, sendo caracterizada por Fischer (2009) como um exercício genealógico com indagações para a transformação ética de si mesmo. O que caracteriza a potência desse artefato cultural no processo formativo, tanto para a formação de professores quanto para a educação de crianças e jovens.

Considerações finais

A película analisada, “Preciosa - Uma história de esperança”, permitiu-nos ampliar o olhar para os problemas sociais inferidos em um corpo gordo jovem em determinado contexto social. Por meio da análise da obra fílmica foi possível descrever quem era a personagem e a rede de relações estabelecidas nos mais variados ambientes (família, escola, bairro, comunidade). Também foi possível pensar sobre os modos como o estigma no corpo da jovem favoreciam as discriminações e as violências.

Nessa perspectiva, buscar estratégias para promover espaços de fruição e diálogo no contexto educacional podem surtir efeitos significativos, pois permitem que os estudantes compartilhem suas inquietações, estabeleçam relações com os conflitos do cotidiano, sintam-se representados, entre outras possibilidades. Ademias, pensar sobre o estigma na escola, com a medição do(a) professor(a), favorece a desconstrução da normalização de regras de conduta e de um suposto modelo “ideal” de sujeito pautado na dicotomia “normal/anormal”, evitando, assim, o olhar de descrédito, o bullying e/ou o ciberbullying.

Essa pesquisa possibilitou pensar nos seus atravessamentos em direção a novas investigações. Dentre elas, estar no “chão da escola” com os jovens em formação com propostas de experiência nas atividades pedagógicas, tendo como objetivo evidenciar a potencialidade do cinema/filme para pensar as relações de poder estabelecidas pelos discursos de verdades construídos pela sociedade ocidental neoliberal ao longo dos processos históricos, e perceber o papel social e cultural significativo da/na escola para uma educação mais humanizada.

De que maneira, então, como o cinema/filme pode contribuir para problematizar questões referentes ao corpo gordo e estigma no contexto educacional? A partir de um olhar atento, sensível, responsável e cidadão, por parte dos professores/educadores, em relação às questões cotidianas que de forma recorrente ocorrem na escola, mas que neste espaço institucional, apenas ampliam-se, porque são produzidas na dinâmica da vida familiar, das redes de amizades, da imersão na vida digital etc. Os recursos imagéticos e culturais que a vasta produção audiovisual nos apresenta (e hoje bastante facilitada com a internet) podem ser excelentes meios de sensibilização e tematização, focando na reflexão, no diálogo, na recepção coletiva e na resolução de conflitos - estratégias que, de forma conjunta, auxiliam no trabalho pedagógico para entender, colocar-se no lugar do outro/diferente e respeitá-lo

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SOBRE O/AS AUTOR/AS

1Este texto é resultado da pesquisa de dissertação “Corpo e estigma: cinema como potencializador de reflexões para uma educação estética”, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe em 28 de julho de 2022.

2As populações pretas e indígenas sofrem ataques constantes de racismo e violências promovida por uma cultura de ódio, estimulada pelo (des)governo de Jair Messias Bolsonaro (2019-2022).

3Vírus causador da Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Sida/Aids).

4No Brasil os órgãos competentes de apoio à manutenção dos direitos sociais, são: Conselho Tutelar; Centro de Referência de Assistência Social (CRAS); Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) e Ministério Público (MP).

5Roveda Pilger (2021) cita como exemplo a gordofobia estrutural que impossibilita e/ou dificulta a pessoa gorda de usufruir dos espaços públicos, pois não são pensados para atender a seus corpos como macas, aparelhos par exames médicos, catracas e acentos.

SOBRE O/AS AUTOR/AS

8SANTOS, Maria Edivania Alves dos; MEZZAROBA, Cristiano. Cinema/filme no contexto educacional para problematizar questões relacionadas ao estigma do corpo gordo. Revista Práxis Educacional, Vitória da Conquista, v. 19, n. 50, e12220, 2023. DOI: 10.22481/praxisedu.v19i50.12220

Recebido: 11 de Março de 2023; Aceito: 12 de Dezembro de 2023

Maria Edivania Alves dos Santos. Doutoranda em Educação pela UFS. Membro do grupo de pesquisa GEPESCEF. Contribuição de autoria: Redação - revisão e edição - https://lattes.cnpq.br/2050184953056297

Cristiano Mezzaroba. Doutor em Educação pela UFSC. Docente na UFS. Coordenador do GEPESCEF. Contribuição de autoria: Redação - revisão e edição - https://lattes.cnpq.br/1835801891069733

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