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Revista Práxis Educacional

versão On-line ISSN 2178-2679

Práx. Educ. vol.20 no.51 Vitória da Conquista  2024  Epub 23-Maio-2025

https://doi.org/10.22481/praxisedu.v20i51.15541 

Artigos

UM OLHAR PARA O ESTÁGIO SUPERVISIONADO A PARTIR DE NARRATIVAS DOCENTES

A LOOK AT THE SUPERVISED INTERNSHIP BASED ON TEACHERS' NARRATIVES

UNA MIRADA A LAS PRÁCTICAS SUPERVISADAS A PARTIR DE LOS RELATOS DE LOS PROFESORES

Cícera Maria Mamede Santos1 
http://orcid.org/0000-0002-5150-3789

Maria Julieta Fai Serpa e Sales2 
http://orcid.org/0000-0002-1786-1339

Maria Marina Dias Cavalcante3 
http://orcid.org/0000-0003-4443-4778

1Universidade Federal do Cariri, Juazeiro do Norte, Ceará, Brasil; cicera.mamede@ufca.edu.br

2Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, Ceará, Brasil; maria.julieta@uece.br

2Universidade Estadual do Ceará, Fortaleza, Ceará, Brasil; maria.marina@uece.br


RESUMO:

Esta pesquisa tratou a respeito do Estágio Supervisionado, que se constitui como campo teórico-prático de conhecimento que faz parte da formação inicial da carreira docente, também inserido na matriz curricular dos cursos de Licenciatura do país. O estudo teve como objetivo geral compreender o Estágio Supervisionado a partir de narrativas docentes. Tratou-se de uma investigação qualitativa, cujo método foi a pesquisa narrativa, oportunidade em que foram entrevistados quatro professores de cursos de Licenciatura em Filosofia e Música de uma universidade pública do Sul do Ceará. Outrossim, recorreu-se à Análise Textual Discursiva para analisar os dados produzidos. A partir das narrativas, foi possível reconhecer a essencialidade de uma formação pautada pelo diálogo, pela atitude de escuta e convite ao saber, aspectos estes relacionados à racionalidade crítica. Desse modo, a formação dialógica marcou presença em todo o percurso formativo da graduação, sobretudo no Estágio, até a concepção e atuação docente atual dos participantes.

Palavras-chave: estágio supervisionado; formação de professores; formação inicial do professor

ABSTRACT:

This research dealt with the Supervised Internship, which is a theoretical-practical field of knowledge that is part of the initial training of teachers, also included in the curriculum matrix of the country's degree courses. The general aim of the study was to understand the Supervised Internship based on teachers' narratives. It was a qualitative investigation, whose method was narrative research, in which four teachers from the Philosophy and Music degree courses at a public university in the south of Ceará were interviewed. Textual Discourse Analysis was also used to analyze the data produced. Based on the narratives, it was possible to recognize the essentiality of an education based on dialogue, an attitude of listening and an invitation to know, aspects which are related to critical rationality. In this way, dialogic training was present throughout the undergraduate course, especially in the internship, right up to the participants' current conception and teaching activities.

Keywords: supervised internship; teacher training; initial teacher training

RESUMEN:

Esta investigación se centró en la Pasantía Supervisada, que es un campo de conocimiento teórico-práctico que forma parte de la formación inicial de los docentes, y también está incluida en el plan de estudios de las carreras de grado del país. El objetivo general del estudio fue comprender la Pasantía Supervisada a partir de las narrativas de los docentes. Se trató de una investigación cualitativa, cuyo método fue la investigación narrativa, en la que se entrevistó a cuatro profesores de las carreras de Filosofía y Música de una universidad pública del sur de Ceará. También se utilizó el Análisis Textual del Discurso para analizar los datos producidos. A partir de las narrativas, fue posible reconocer la esencialidad de una formación basada en el diálogo, en la actitud de escucha y en la invitación a conocer, aspectos relacionados con la racionalidad crítica. De esta forma, la formación dialógica estuvo presente a lo largo del curso de licenciatura, especialmente en las prácticas, hasta la actual concepción y actividad docente de los participantes.

Palabras clave: prácticas supervisadas; formación del profesorado; formación inicial del profesorado

Introdução

Nossa escrita versa a respeito do Estágio Supervisionado, aqui tratado como campo teórico-prático de conhecimento que faz parte da matriz curricular da formação inicial da carreira docente, também inserido na matriz curricular dos cursos de Licenciatura de todo o país.

Tomamos esta definição de Pimenta e Lima (2017), para quem o Estágio supera a pretensa dicotomia entre teoria e prática e por essa razão promove aos professores em formação uma apropriação da realidade, e por isso defendem uma nova configuração do estágio, de modo que seja validado como caminho de encontro com a reflexão por meio dessa aproximação com a realidade concreta.

Elaboramos um trabalho de abordagem qualitativa que enveredou pelo método da pesquisa narrativa. Ademais, entrevistamos três professores de cursos de Licenciatura em Filosofia e Música de uma universidade pública do Sul do Ceará e fizemos uso da Análise Textual Discursiva para sua análise.

As narrativas produzidas convidam-nos a olhar, perceber o trabalho docente por meio do Estágio Supervisionado, nos cursos de Licenciatura em Filosofia e Música, os quais têm seus objetivos voltados para a formação inicial de professores na educação básica. Neste contexto, o referencial teórico (Pimenta; Lima, 2017; Ghedin; Oliveira; Almeida, 2015), dialoga com aspectos referentes à formação nos cursos de Licenciatura, com destaque para o Estágio Supervisionado. Logo, o pesquisador que trabalha com narrações ou com biografias encontra elementos para sua própria formação.

Destacamos que esta pesquisa de cunho narrativo tem como objetivo geral compreender o Estágio Supervisionado a partir de narrativas docentes. A relevância desta pesquisa consiste no potencial de suscitar reflexões, partilhas afetivas e pedagógicas, com o vislumbre de que esta leitura, para além de trazer aspectos oriundos de uma pesquisa científica, possa ser percebida como uma chama que arde e palpita em cada um de nós que acredita, luta e almeja por condições humanistas a todos nós e à natureza da qual somos parte.

No que tange à organização deste texto, após esta seção introdutória que apresenta o tema de pesquisa e seu objetivo, detalhes acerca da metodologia na seção ‘Percurso metodológico’. Posteriormente, dispomos de um tópico intitulado ‘A pesquisa narrativa’, seguido de uma discussão acerca das ‘Contribuições do Estágio Supervisionado para a Formação Inicial de Professores’. A seguir, a seção ‘Análise Textual Discursiva’ que realiza um exame minucioso das entrevistas, os ‘Resultados e Discussões’, as ‘Considerações Finais’ e as ‘Referências’.

Percurso metodológico

O artigo, de foco educacional, ancora-se em uma abordagem qualitativa. O foco da pesquisa qualitativa é o aspecto social, são as relações intersubjetivas que se apresentam na investigação, sobretudo no processo de interpretação dos fenômenos estudados. Neste sentido, o “[...] elemento humano continua sendo fundamental” (Gil, 2022, p. 177).

O desenvolvimento do estudo ocorreu por meio do método pesquisa narrativa, com aporte em Clandinin e Connelly (2015). Nossa fundamentação teórica amparou-se em pesquisadores como Melo (2023), Fernández et al. (2020), Sousa e Cabral (2015), Mello (2013) e Cunha (1997), que desenvolvem pesquisas na qual o aperfeiçoamento acadêmico e profissional possui o entrelaçamento narrativo enquanto fio condutor de suas atividades. Desse modo, a expressão narrativa se faz, refaz e aponta caminhos para o aprimoramento, em especial no que diz respeito ao desenvolvimento profissional docente.

É importante mencionar também que este tipo de pesquisa traz como suporte a investigação sobre a sua experiência: é o pensar sobre aquilo que se faz, na sala de aula, enquanto docente. Este procedimento torna a pesquisa mais particular, pois percebe que o conteúdo narrado advém da atividade diária e serve como base para a própria análise.

No que diz respeito aos procedimentos para a produção de dados, além do levantamento teórico feito para subsidiar a escrita, realizamos entrevista narrativa com três professores de cursos de Licenciatura em Filosofia e Música de uma universidade pública no Sul do Ceará, e para isso, respaldamo-nos em e Bauer e Gaskell (2015).

A entrevista enquanto procedimento de pesquisa possui o intuito de compreender as relações e os fundamentos teóricos que norteiam as práticas docentes dos professores que acompanham o Estágio Supervisionado.

Nesse contexto, empregamos as quatro fases propostas por Bauer e Gaskell (2015, p. 95), quais sejam: “ [...] iniciação, narração central, fase de perguntas e fala conclusiva”. Assim, a entrevista foi capaz de trazer à tona recordações como trajetória de vida, principalmente com foco acadêmico e profissional. Isto se deu em especial acerca da formação em graduação via Estágio Supervisionado, que despertou interesse na constituição de material amplo e diversificado que faz parte do corpus de análise.

O lócus da pesquisa foi uma universidade pública do Sul do Ceará, que na conjuntura de desenvolvimento deste estudo contemplava três cursos de Licenciatura, e desses três, apenas Filosofia e Música ofertavam o estágio em sua matriz curricular. Nosso critério era de entrevistar professores que trabalham a disciplina de Estágio Supervisionado e esses três professores que foram por nós entrevistados eram os únicos da instituição que trabalhavam com essa disciplina. Além disso, também tivemos como critério de inclusão o tempo de exercício na profissão, em torno de dez anos (experiência no ensino superior).

Outrossim, no que diz respeito aos aspectos éticos, entregamos a cada docente um Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e garantimos seu anonimato, mediante uso de nomes fictícios1. Cumpre salientar que estávamos em período de pandemia, e por este motivo tais entrevistas foram realizadas de modo virtual e gravadas com auxílio da plataforma de reuniões e videoconferências da empresa Google (Google Meet)2, nos meses de março e abril de 20213.

No que diz respeito à análise das narrativas, utilizamos a Análise Textual Discursiva - ATD. Assim, buscamos amparo em seu método de análise que proporciona criatividade seguindo o rigor metodológico, de acordo com os passos apontados por Moraes e Galiazzi (2016). É importante mencionar que, segundo esses autores, a ATD compreende as seguintes fases: unitarização (que leva às unidades de análise), categorização (em torno de categorias a priori ou emergentes), novo emergente (metatexto). Acerca da ATD, Moraes e Galiazzi (2016, p. 34) afirmam que:

a análise textual discursiva pode ser compreendida como um processo auto-organizado de construção de compreensão em que os entendimentos emergem a partir de uma sequência recursiva de três componentes: a desconstrução dos textos do ‘corpus’, a unitarização; o estabelecimento de relações entre os elementos unitários, a categorização; o captar o emergente em que a nova compreensão é comunicada e validada.

Consoante Moraes e Galiazzi (2016, p. 134), “pesquisas qualitativas, seguidamente, trabalham com informações apresentadas em forma de textos. Origina-se daí a denominação de análise textual, em que o sentido do texto, aproxima-se do discurso”. A escolha do método de análise indicado tem por base as possibilidades ampliadas e apoiadas na forma diversificada e criativa do agir.

Nesse contexto, a análise costuma superar a fragmentação ou a busca por respostas de forma mecânica. Portanto, cada etapa vivenciada possibilita a autoria criativa e o respeito às narrativas apresentadas. Desse modo, é possível alcançar a percepção de tais aspectos enquanto um todo integrado às vivências, além dos significados que seus interlocutores trazem.

Contribuições do Estágio para a Formação Inicial de Professores

Atualmente, a formação inicial para a formação de professores tem seus normativos expressos na Resolução CNE/CP nº 2, de 20 de dezembro de 2019 (Brasil, 2020), abrangendo a carga horária de 400 horas de Estágio Supervisionado e 400 horas para a prática de componentes curriculares.

A formação inicial docente via Estágio Supervisionado pode apresentar possibilidades formativas nas quais o ‘desejo’ por ser um futuro professor pode caminhar com passos seguros para o formar-se professor, observando com atenção as representações presentes na profissão, percebendo os processos históricos e a busca por superação das condições objetivas advindas do neoliberalismo, que reforçam a desvalorização da docência (Nóvoa, 2022).

Por isto a importância de momentos diversificados nesta formação inicial, via Estágio Supervisionado. Assim sendo, reiteramos a relevância do Estágio Supervisionado enquanto momento oportuno de pesquisa, para que as dúvidas e os anseios possam ser revisitados e refletidos criticamente.

Ampliando a percepção do Estágio para a formação inicial, apontamos aspectos ligados à criatividade em que através de ações do cotidiano devem ser desenvolvidas de forma conjunta. Muitas vezes, o estagiário nem percebe que aquela situação vivenciada no Estágio Supervisionado pode ser uma abertura para um insight, uma ação que desabrocha na sala de aula, tendo repercussão também nos momentos criativos que serão percebidos no cotidiano. De acordo com Ostrower (2014, p. 69), “[...] seja qual for a área de atuação, a criatividade se elabora em nossa capacidade de selecionar, de relacionar e integrar os dados do mundo externo e interno, de transformá-los com o propósito de encaminhá-los para um sentido mais completo”.

Por isso, o Estágio Supervisionado também é momento de abertura para novas situações criativas, visto que o fazer criativo estará presente tanto nas ações de cunho pedagógico quanto nas ações pessoais e/ou interpessoais. Agir criativamente é compreender a escola, especialmente a sala de aula, como um amplo espaço para vivenciar as possibilidades de criatividade, aquecendo o desejo de formação permanente.

A forma como o estagiário olha e percebe tanto a escola quanto a sala de aula, entre outras ações, é permeada por um desabrochar criativo de conhecimento e vivências. Esse movimento se interliga às demais disciplinas, ao contato com o professor orientador do estágio, bem como ao núcleo gestor da escola, aos pais/mães e a comunidade em geral. Então, perceber o Estágio Supervisionado enquanto espaço criativo também corrobora para que esse momento seja propiciador de ações criativas e engajadas na formação docente, proporcionando que os elementos imprescindíveis ao Estágio Supervisionado sejam também oportunidade de criação e inovação.

Nos momentos de Estágio Supervisionado na escola-campo, encontra-se a oportunidade para dialogar, à luz das teorias educacionais, sobre o que se presencia em sala de aula e isso auxilia o aluno a dar um passo adiante na sua formação, a partir de quando colocam-se todos esses temas em constante reflexão (Belletati, Pimenta, Lima, 2021).

Em âmbito macro, pensemos nas situações encontradas na carreira docente: a luta por melhores condições de trabalho, o dia a dia na escola, lidando com diferentes pessoas, cada uma com suas peculiaridades; o diálogo com o núcleo gestor, em especial com o coordenador pedagógico, com quem se mantém contato mais próximo; a interlocução com os demais colegas de profissão, suas ações, suas posturas e sua afirmação social e pessoal diante da profissão.

E por trabalhar o humano, o professor é o profissional do desenvolvimento humano (Formosinho, 2014), que atua com responsabilidade, criatividade, com vistas à expansão dos diversos conhecimentos e inteligências de que dispomos, seja no campo pessoal, interpessoal, intrapessoal (Gardner, 1995), vislumbrando ampliar percepções, trazendo para o espaço da sala de aula uma gama de possibilidades que se fazem presentes através dos vários conhecimentos e aprendizagens que têm o seu valor para a disseminação de saberes que serão vivenciados na escola e também na sociedade.

Desse modo, o desenvolvimento humano, alicerçado em valores que condizem com a emancipação do ser humano, de forma consciente, crítica e questionadora (Freire,2020c), pode conduzir à democratização do ensino. Ao mencionarmos democratização, colocamos como fator de importância para a formação de professores a consciência de classe, sua valorização profissional, com melhores condições de trabalho e dignidade para lecionar (Charlot, 2020). Quando o professor encontra-se com seus pares e luta pela autonomia da dinâmica da sala de aula, bem como por condições de acesso, permanência e sucesso na aprendizagem, ele está agindo de forma política e cidadã (Freire, 2020b).

Agir com responsabilidade e atuação profissional requer que a formação de professores, a começar no Estágio Supervisionado, seja revisitada pela práxis constante, que busca na formação o alicerce para as lutas que serão travadas no decorrer da profissão, compreendendo que a batalha não se restringe apenas ao salário, ao trabalho docente, mas tem a ver também com o acesso de todos e todas que têm o direito de obter conhecimento. Um legado de gerações passadas e atuais (Libâneo, 2018), as quais enfrentaram, na história desse país, tantas dificuldades, muitas delas propositais, que fizeram com que o acesso fosse restrito a uma minoria da população, com vistas à sua opressão (Freire, 2020c).

Por isso, o Estágio Supervisionado, desde o primeiro instante, deve realizar este movimento dialógico e pedagógico de mostrar, por meio da práxis, a necessidade de pensar ‘para quê’, ‘para quem’, ‘por quê’ e ‘por quais’ motivos a formação inicial tem importância, ampliando-se, assim, suas conexões e fazendo perceber, de forma crítica e ampliada, as diversas situações e realidades da sala de aula.

Desse modo, na sala de aula, o estagiário registra essas percepções e pode fazer desse espaço momento oportuno para a pesquisa e constatação de situações que porventura possam ocorrer no período de Estágio, com propostas para reflexões conjuntas, que serão amadurecidas na escuta ativa e refletidas na vivência da sala de aula. Imbuídos pelo dever que esse momento de pesquisa lhes dá para juntos, professor da escola-campo, professor que acompanha o Estágio e estagiários, compreendam a dimensão das situações sociais que envolvem a profissão e todas as suas demandas, sobretudo a principal demanda que é a da abertura da escola para receber as classes menos favorecidas (Arroyo, 2014).

O fato de o professor acolher conscientemente o estagiário, mostrar-lhe o plano de aula, possibilitar-lhe conviver, dialogar com os alunos, apresentando-lhe o cotidiano da escola, amadurece o docente e o faz crescer na profissão. O estagiário é um parceiro nessa caminhada rumo ao conhecimento e precisa de apoio. Essas ações de apoio e de incentivo também favorecem e ampliam a função social da escola, do conhecimento, enquanto impulsionadores de ações diárias para aprendizagens e fortalecimento político.

Estas ações que deveriam realizar-se de forma corriqueira e amigável, será que acontecem sem percalços? Como ampliar o diálogo, as possibilidades de crescimento na profissão? Que estas inquietações possam favorecer a caminhada na profissão docente.

É importante enfatizar que o ato político é também pedagógico, por isso o estagiário em seu trabalho de conhecer a realidade escolar deve primar por compreender e conhecer o Projeto Político Pedagógico da escola. Nesse documento encontram-se várias informações que são basilares para a pesquisa a partir dos questionamentos: quem participou da construção? Como foi gerado? A comunidade foi ouvida? Dentre tantas outras indagações que o estagiário pode suscitar ao ter contato com o documento. No tocante aos docentes, o Projeto Político Pedagógico (PPP) também deixa claro quais são os aportes pedagógicos que estarão presentes naquela comunidade, com suas escolhas e tendências que serão presenciadas com maior frequência, ou que serão os alicerces para a aprendizagem.

É preciso mencionar também que a formação de professores deve ser percebida de forma ampliada e contextualizada. Deve ser compreendida como um contínuo dentro de uma formação mais ampla, que acontece por meio da formação cultural, acadêmica e familiar e que não se realiza de maneira dissociada dessas realidades, uma vez que ocorre inserida em um encadeamento social amplo, contraditório e incerto (Garcia; Cunha 2021; Marcelo Garcia, 2009).

Análise e discussões

Um aspecto relevante para nossa reflexão diz respeito aos desafios percebidos no momento do estágio, bem como a complexidade que envolve as experiências vividas, as quais podem ser exitosas ou não. Por isso, o acompanhamento deve ser realizado de forma conjunta entre a universidade e a escola. Este elo ainda deve ser intermediado especialmente pelo núcleo gestor e o professor regente, que deve acompanhar e colaborar com este momento formativo.

Nesse sentido, o participante denominado Raimundo Aniceto4 relatou os seguintes fatos:

mas às vezes a atividade ela é desestimulante, então por exemplo, se no primeiro semestre de Estágio o aluno vai pra escola e passa por situações muito complicadas ele fica traumatizado, então por isso que é importante as nossas reuniões, porque às vezes no mesmo semestre a gente tem um outro grupo de alunos que traz um outro relato, diz assim ‘oh professor lá foi muito bacana, a professora era genial com a gente assim, os alunos eram ótimos, a escola oferecia isso e isso e isso’, mas aí chega outro aluno que diz assim que a professora não tava nem aí, quando ele chegava na sala de aula ela saia, ia fumar no pátio entendeu, quando ela voltava, quando tinha algum aluno ela gritava com os alunos, é...desse jeito, ‘a professora que vivia perguntando o meu nome, eu tava lá há 04 meses a professora não sabia nem meu nome ainda, toda vez ela ‘ah, eu esqueci teu nome, como é’’, sabe?! (Informação verbal; grifo nosso)5

A partir deste excerto, ratificamos a importância do acompanhamento constante dos professores orientadores nos períodos de Estágio Supervisionado. É patente a necessidade de que tal componente curricular seja integrado às disciplinas que compõem a Matriz Curricular, pois estamos preparando futuros professores e esta formação inicial ressoa no desenvolvimento da profissão. Clemilda também apresentou relatos semelhantes ao que foi exposto por Raimundo Aniceto:

eu penso que o diálogo com os professores do Ensino Básico e essa disponibilidade deles de estarem também coorientando e enfim recebendo os estudantes e enfim eu acho que isso é muito importante, a gente tem, faz muita diferença quando a gente tem um professor aberto que recebe os estagiários né? E quando a gente tem o professor que fica ressabiado com os estagiários, que as vezes quer exercer um poder também e tudo ou quando fica dizendo que é um horror aquele trabalho ((risos)), só falando mal de tudo, eu acho que isso faz muita diferença (Informação verbal)6.

Nesse contexto, é necessário que a docência represente profissão de escolha para o trabalho consciente, e tal decisão não pode ser realizada de forma “ingênua” (grifo nosso), discrepante do que se passa na sociedade. Logo, destacamos a urgência de compreensão defendida por Freire (2020b). O mestre questionava a favor de quem e com quais intenções as opções curriculares e a ação pedagógica costumam ser realizadas - estes questionamentos são imprescindíveis para que o educador desempenhe sua função social.

Neste aspecto, como forma de embasar a fala da participante Clemilda, citamos Pimenta e Lima (2017, p. 98), ao afirmarem que: “o estagiário vai se deparar com muitos professores insatisfeitos, desgastados pela vida que levam, pelo trabalho que desenvolvem e pela perda dos direitos historicamente conquistados, além dos problemas do contexto econômico-social que os afeta”. É importante compreendermos esta formação inicial enquanto um ciclo: tem início nos períodos de estágio e atualmente equivale a 400 (quatrocentas) horas que, no decorrer da trajetória profissional, tende a compor a identidade docente dos participantes. Os momentos formativos posteriores devem ser alicerçados na reflexão, além de amparados na pesquisa sobre sua prática. Esses momentos podem beneficiar a comunidade escolar e extraescolar se organizados a partir de compromisso e ações reflexivas (Nóvoa, 2022).

Em seu depoimento, a participante Clemilda afirmou considerar importante o fator reflexivo. De fato, o elemento apresenta perspectivas de ação sobre a prática, além de ampliar as possibilidades de crescimento para o docente e para a comunidade acadêmica como um todo. O entrevistado Jackson do Pandeiro7 relatou percepção semelhante e mencionou que o pensamento reflexivo permitiu o agir de forma interdisciplinar em situações consideradas por ele desafiadoras. Assim, as adversidades vivenciadas no contexto escolar podem ser superadas a partir da ação refletida e colaborativa.

Neste aspecto, Marinês também mencionou que, em sua atuação docente, busca ampliar seus conhecimentos sobre a necessidade da reflexão. Tal movimento deve ser endossado por práticas colaborativas com o diálogo, além de vivências que superem fatores como repetição, alienação e relações verticalizadas na sala de aula. Nesse sentido, Raimundo Aniceto participou com sua ação reflexiva para a formação inicial, bem como nas atividades que englobam ações na comunidade.

Outro fator que merece destaque refere-se à Didática. A partir das narrativas, observamos a centralidade que ela apresenta ao subsidiar a prática docente. Este é um aspecto peculiar, pois inserir a Didática enquanto núcleo da formação faz com que percebamos sua relevância, seu significado e destaque nos momentos formativos. Nesse sentido, Libâneo (2018) define que a Didática perpassa todo o processo de ensino e possui componentes múltiplos e interligados.

Por sua vez, a narrativa de Marinês transparece a força presente em sua atuação pedagógica, bem como o lugar de destaque para a Didática:

eu acho que eu sempre considerei a Didática tipo assim como uma sedução e de repente quando você seduz uma turma você faz com a turma o que você quiser, é mais ou menos isso, desde o começo eu sempre faço, e desde o começo eu faço essas experiências continuamente (Informação verbal)8.

A imagem da Didática como poder de sedução mencionada pela professora identificada como Marinês também se fez presente na fala da participante Clemilda, que recordou o desempenho de uma antiga professora que considera atuante. Segundo o relato da entrevistada, as ações da referida professora em sala de aula costumavam demandar a participação dos alunos presentes:

e ela era muito boa também, porque ela fazia uma coisa muito diferente, falava pouco, e ficava fazendo muitas perguntas pra gente, demandando muito a participação assim e tudo e aí tinham pessoas que ficavam muito nervosas com isso, achando que ela estava enrolando e não sei o quê, mas eu ficava instigada e aí teve uma troca bem legal entre a gente e enfim com outras pessoas também, outros estudantes (Informação verbal).

O trecho acima transcrito revela-se verdadeiramente interessante, pois instigou a professora Clemilda em sua atuação docente. A exemplo de sua ex-professora, a entrevistada relatou que também costuma realizar atividades ‘diferentes’ e contextualizadas, elaboradas para que os alunos participem, opinem, troquem ideias. A esse respeito, a professora relatou:

olha, é...deixa ver, eu acho que tem tantas coisas boas né? Mais coisas boas, mas também tem coisas não tão boas né? Assim, por exemplo: eu sempre tive vontade de experimentar metodologias alternativas, integrativas, enfim e aí eu faço isso, assim, muito difícil eu repetir uma mesma dinâmica de avaliação ou mesmo, assim, mesmo os textos que eu vou trabalhar, eu repito às vezes, mas sempre acrescento mais alguma coisa, tiro outra e às vezes até a dinâmica, a metodologia mesmo de ensino assim, eu vou variando né?! E tem algumas experiências muito legais (Informação verbal).

Tal esmero demonstrado em relação à Didática faz toda a diferença na formação, bem como fomenta o engajamento nas atividades de estágio. Isto ocorre principalmente quando observamos uma prática educativa diversificada e equilibrada. Essa práxis destaca-se quanto ao trato para com os conteúdos conceituais, procedimentais e atitudinais, além de colaborar com a formação integral (Zabala, 1998).

Desse modo, são amplificam as possibilidades de aprendizagem. Assim, diante da percepção de que a hierarquia e a imposição costumam privilegiar determinados conteúdos e formas de serem trabalhados, o sujeito docente aproxima-se da racionalidade técnica, a qual é excludente, verticalizada e impositiva. Corroborando com este pensamento que amplia, congrega e apresenta possibilidade de investigação e pesquisa nas ações da sala de aula, o participante denominado como Jackson do Pandeiro relatou a seguinte dificuldade inicial em sua experiência de estágio e mencionou sua opção por trabalhar com a ideia de ‘comunidades investigativas’.

O profissional relatou apresentar metodologias capazes de favorecer um despertar do aluno para sua atuação, participação e encontro com o saber. Estas atividades são fundamentais para o trabalho de imersão na escola-campo de estágio, uma vez que preparam o estagiário para perceber o campo de atuação profissional em perspectiva colaborativa e dialógica.

Nesse contexto, é imprescindível a valorização docente e sua atuação no reconhecimento da diversidade, além da riqueza presente em seu trabalho, o qual deve ser percebido enquanto lócus de pesquisa. Para corroborar com estas reflexões, citamos Ghedin, Oliveira e Almeida (2015, p. 40), que assim mencionam:

o estágio como instrumento do processo de formação do professor-pesquisador implica formação de uma comunidade investigativa que, no coletivo, buscam investigar as problemáticas que mais atingem a escola e exigem uma alternativa que pode ser elaborada em conjunto com a universidade. Isto quer dizer que não há como vincular um processo de estágio a uma dinâmica de pesquisa se os docentes da universidade, os estagiários e os professores das escolas não se tornarem parceiros no processo desta prática, que implica olhares teóricos e epistemológicos, que os dois segmentos devem esforçar-se para compreender.

Portanto, perceber as interações proporcionadas pelo estágio enquanto momento colaborativo é essencial para que o futuro docente não seja ‘tragado’ pelas circunstâncias do cotidiano. Ademais, nesse contexto, é possível que este sujeito torne-se apto a compreender e refletir sobre as pressões constantemente presentes na dinâmica escolar (Ghedin; Oliveira; Almeida, 2015). Na abordagem dos conteúdos conceituais, o docente deve atuar como âncora e passagem para as demais formas de trabalhar e proporcionar aprendizagens.

Neste aspecto, a participante Marinês afirma que lecionar envolve ensinar a pensar sobre o conteúdo (ou mesmo além dele), Marinês ressaltou a importância de fazer inferências e conexões entre o conteúdo estudado e a realidade. Sua fala expressa uma atuação pautada na racionalidade crítica, a qual amplia as possibilidades de escuta, ação e percepção da realidade.

Esta postura é imprescindível para que o futuro docente compreenda as relações estabelecidas numa sociedade capitalista, neoliberal e desigual. Por esta razão, movimentos sócio-políticos como o intitulado ‘Escola sem Partido’ precisam ser estudados e compreendidos para que sejam repudiados e superados. De fato, não existe neutralidade curricular, muito menos ingenuidade de quem prega e aciona este e outros movimentos similares (Frigotto, 2017).

Outro aspecto importante abordado pelos professores participantes da pesquisa referiu-se à necessidade da formação e continuação ampliada. Tal menção traz à tona a urgência e o desejo de que o desenvolvimento profissional docente seja realizado levando em consideração as reais necessidades da atuação docente. As contribuições de Nóvoa (2022, p. 64) são pertinentes neste sentido:

a formação de professores ganharia muito se se organizasse, preferentemente, em torno de situações concretas, de insucesso escolar, de problemas escolares ou de programas de acção educativa. E se inspirasse junto dos futuros professores a mesma obstinação e persistência que os médicos revelam na procura das melhores soluções para cada caso.

Nesse contexto, destacamos as colaborações do participante Raimundo Aniceto. Sua ponderação revela-se importante na construção de reflexões sobre este aspecto. Assim, a respeito do tema da formação de professores, Aniceto destacou momentos de formação para além dos ambientes formais. De fato, tal desenvolvimento pode ser realizado em diversos ambientes, os quais proporcionam trocas de experiências, além da ampliação das suas práticas e extensão da profissão.

Para Marinês, o diálogo significa fator fundamental na ampliação dos conhecimentos e escuta ativa. Assim, a participação dos estagiários em ações de desenvolvimento profissional possui fundamental importância para a formação da identidade docente. Logo, é essencial a compreensão de que as dimensões da formação inicial representam processo contínuo em andamento no decorrer da carreira. O despertar de tal consciência permite que os futuros professores reconheçam e descubram seu campo de atuação profissional. Ao dialogar com a identidade docente, Pimenta e Lima (2017, p. 55) afirmam que:

o curso, o estágio, as aprendizagens das demais disciplinas e experiências e vivências dentro e fora da universidade ajudam a construir a identidade docente. O estágio, ao promover a presença do aluno estagiário no cotidiano da escola, abre espaço para a realidade e para a vida e o trabalho do professor na sociedade.

Nesse cenário, é necessário refletirmos sobre as concepções do estágio no tocante à práxis e às implicações para com este período de formação. Acerca do tema, Magalhães (2021, p. 55) salienta que “a consciência socioprofissional dos professores é, portanto, o conjunto de saberes e representações que, ativa e dialeticamente articulados, conformam sua identidade docente e orientam sua práxis ao nível existencial, profissional e ético-político”.

Na reflexão sobre o referido pensamento, torna-se possível compreender a práxis enquanto núcleo que endossa e agrega conhecimentos. De fato, para que tais saberes possam transitar entre os campos teórico e prático, é fundamental que a formação docente inicial por meio do estágio encontre ampliação e consolidação amparadas pela práxis. Nesse sentido, Pimenta e Lima (2017, p. 33) ressaltam que:

de acordo com o conceito de ação docente, a profissão de educador é uma prática social. Como tantas outras, é uma forma de se intervir na realidade social, no caso por meio da educação que ocorre não só, mas essencialmente, nas instituições de ensino. Isso porque a atividade docente é ao mesmo tempo prática e ação.

No entanto, a partir das narrativas, observamos que a referida concepção de práxis nem sempre está presente de forma clara e organizada durante a realização do Estágio Supervisionado. Para que isto se concretize, é importante que a instituição conte com uma política de formação que contemple a temática. Dessa maneira, é possível subsidiar o trabalho realizado pelos docentes que lecionam e acompanham o Estágio Supervisionado.

Acerca do tema, salientamos a necessidade expressa por nossos colaboradores, em especial, os docentes que realizaram sua formação por meio de curso de Bacharelado. Tal necessidade é evidenciada a partir da fala de Raimundo Aniceto, registrada a seguir:

e do ponto de vista do Estágio, da minha parte né? A gente acaba utilizando documentos mais técnicos né? Da minha parte, esses documentos, as resoluções, as portarias né? Os documentos emitidos pelo MEC, pelos Conselhos, a gente tem textos que são de Associações, como a ABEM, Associação Brasileira de Educação Musical, que tem uma responsabilidade né? Nessa área, inclusive com o avanço aí da lei de ensino de Música nas escolas, então eu creio que assim da minha parte né? É com esse material que eu trabalho né? Eu realmente não utilizo muita coisa assim de Estágio, textos de Estágio, até tentei, sabe?! (Informação verbal).

De fato, o excerto transcrito evidencia a necessidade de fortalecimento da formação docente por meio de ações continuadas para o desenvolvimento profissional. Logo, é imprescindível o foco no Estágio Supervisionado para o fortalecimento deste componente curricular. Todas as ações mencionadas reverberam no acompanhamento discente quando da realização dos estágios supervisionados.

Por outro lado, merece destaque uma fala da professora Marinês que exaltou a compreensão do estágio na busca de conhecimentos, teorização e ação. Sobre estes aspectos, que organizam as atividades realizadas na escola-campo de estágio, assim a professora expressou:

acredito que é o momento mais significativo porque é o momento de aliar um pouquinho a teoria com a prática né? Que é exatamente isso, se você pergunta aqui quais esses desafios que o Estágio apresenta na formação, é exatamente isso, porque é um complemento e um complemento importantíssimo, porque vem aliado já a prática né? Quer dizer, em tese até começar o Estágio você está só pegando, você está utilizando as teorias, você está pegando uma bagagem, mas quando chega no Estágio realmente é o momento em que o aluno tem..., ele vai ter a primeira oportunidade de tentar aliar uma coisa a outra, a teoria à prática, porque afinal vai ser o ofício dele, né? Quando terminar o curso, então por isso a importância do Estágio. (...) A importância principal é essa de unir realmente teoria e prática (Informação verbal).

Na verdade, o sentimento expresso na narrativa da professora Marinês pode ser percebido na fala da professora Clemilda. Portanto, ambas profissionais exteriorizam a necessidade da realização de atividades e estudos, bem como que os conhecimentos teóricos sejam capazes de subsidiar a prática de estágio. Em síntese, este metatexto apresentou a percepção dos nossos colaboradores no que se refere aos fundamentos e práticas presentes na sua formação inicial. Os profissionais entrevistados encontram-se em processo de maturação docente e de aprendizado a partir de suas atividades em sala de aula.

Merece realce o relato de Raimundo Aniceto, corroborado pelos demais colaboradores. Todos ressaltaram uma carência em nível institucional da realização de eventos que abordem especificamente o componente de Estágio Supervisionado. Nesse sentido, a preparação pedagógica do I Encontro de Estágio Supervisionado na UFCA mostrou ser de grande valia para os participantes. A atividade representa um fruto da presente dissertação de Mestrado, a qual busca colaborar para o desenvolvimento profissional docente.

Tal colaboração visa ao desenvolvimento de uma perspectiva dialógica e inclusiva, com vistas ao aperfeiçoamento para acompanhamento do Estágio Supervisionado. Por fim, a iniciativa busca aprimorar-se na formação e capacitação de novos profissionais na docência com decência (Freire, 2020a).

Considerações finais

O objetivo geral deste estudo consistiu em compreender o Estágio Supervisionado a partir de narrativas docentes. Por meio de uma pesquisa de natureza qualitativa desenvolvida por meio de pesquisa narrativa, cujos procedimentos envolveram levantamento teórico e entrevista narrativa, emergiram achados oriundos das entrevistas feitas, as quais foram analisadas por meio de ATD.

O trabalho apontou que a formação deve perpassar por uma perspectiva humanística, dialógica e includente. Assim, a atuação profissional docente ideal permeia as falas e ações dos professores que participaram da pesquisa, em prol da educação pública e do respeito à vida.

A compreensão sobre a pesquisa ampliou-se sobremaneira, e registramos que pesquisa se faz, refaz e amplia-se à medida que o pesquisador se mantém aberto ao diálogo e ao aprendizado diário. Percebemos o quanto a experiência docente e as leituras realizadas sobre o Estágio Supervisionado foram basilares para o progresso e conclusão da pesquisa. Compreendemos que, diante do novo e de situações incomuns, o medo de falhar atrapalha e, muitas vezes, faz-nos recuar.

O referencial teórico permitiu-nos constatar que a formação de professores sofre as interferências de uma educação em que a racionalidade técnica apresenta-se forçosamente inserida nos contextos de formação. Tais momentos de formação mostram-se indispensáveis, seja no Estágio Supervisionado seja no percurso do desenvolvimento profissional docente. Estas interferências manifestam-se neste sistema opressor, o qual negligencia a formação, distorce a profissão docente e, consequentemente, causa desconforto e desequilíbrio, além de dificultar a mobilização.

A partir das narrativas foi possível reconhecer aspectos inerentes aos fundamentos teóricos relacionados à racionalidade crítica. Essa compreensão adveio de uma formação pautada por fatores como diálogo, escuta e convite ao saber.

Muito embora reconheçamos a amplitude desta temática e a impossibilidade de esgotar nestas linhas sua discussão, ensejamos com esta pesquisa suscitar meios de conscientizar a sociedade acerca da importância da formação de professores e do Estágio Supervisionado o qual, na condição de unidade teórico-prática, revela-se uma proposta formativa genuinamente comprometida com a possibilidade de uma educação popular, que é cidadã e humanizadora

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SOBRE O/A(S) AUTOR/A(S)

1Os participantes da pesquisa foram denominados pelos seguintes nomes: Marinês, Jackson do Pandeiro, Clemilda e Mestre Raimundo Aniceto.

2Em virtude da pandemia da Covid-19 (doença causada pelo coronavírus, denominado SARS-CoV-2.), seguindo os protocolos de biossegurança, com o intuito de prevenção, redução de contágio e para o resguardo da saúde da pesquisadora e participantes da pesquisa.

3Esta pesquisa foi submetida à Plataforma Brasil e direcionada ao Comitê de Ética da Universidade Regional do Cariri (URCA) e foi aprovada mediante Parecer nº 4.573.363, em 04 de março de 2021.

4Os participantes da pesquisa foram denominados pelos seguintes nomes: Marinês, Jackson do Pandeiro, Clemilda e Mestre Raimundo Aniceto. Como forma de homenagear estes artistas (in memoriam), da região Nordeste.

5Entrevista concedidas em sistema virtual, por meio da plataforma Google Meet em sessão individual e gravada, com início às 14:00 h e concluída às 15:30, no dia 29 de julho de 2021.

6Entrevista concedidas em sistema virtual, por meio da plataforma Google Meet em sessão individual e gravada, com início às 14:30 h e concluída às 16:00 h, no dia 12 de agosto de 2021.

7Entrevista concedidas em sistema virtual, por meio da plataforma Google Meet em sessão individual e gravada, com início às 14:00 h e concluída às 16:00 h, no dia 24 de julho de 2021.

8Entrevista concedidas em sistema virtual, por meio da plataforma Google Meet em sessão individual e gravada, com início às 09:00 h e concluída às 11:00 h, no dia 24 de julho de 2021.

SOBRE O/A(S) AUTOR/A(S)

9SANTOS, Cícera Maria Mamede; SALES, Maria Julieta Fai Serpa e; CAVALCANTE, Maria Marina Dias. Um olhar para o Estágio Supervisionado a partir de narrativas docentes. Revista Práxis Educacional, Vitória da Conquista, v. 20, n. 51, e15541, 2024. DOI: 10.22481/praxisedu.v20i51.15541

Recebido: 07 de Agosto de 2024; Aceito: 03 de Novembro de 2024

Cícera Maria Mamede Santos. Doutoranda em Educação (PPGE/Universidade Estadual do Ceará-UECE). Mestra em Educação (MPEDU/URCA). Técnica-Pedagoga da Universidade Federal do Cariri (UFCA). Membro do Grupo de Pesquisa Didática no Ensino Superior e na Educação Básica. Bolsista de Doutorado do CNPq. Contribuição de autoria: concepção, aquisição de dados, análise e interpretação dos dados, redação do artigo e aprovação final da versão a ser publicada. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/0000902999017567

Maria Julieta Fai Serpa e Sales. Doutoranda e Mestra em Educação (PPGE/Universidade Estadual do Ceará-UECE). Professora vinculada ao Centro de Educação da Universidade Estadual do Ceará (CED/UECE). Membro do Grupo de Pesquisa Didática no Ensino Superior e na Educação Básica. Bolsista de Doutorado do CNPq. Contribuição de autoria: revisão crítica de conteúdo intelectual e aprovação final da versão a ser publicada. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/2607513877849906

Maria Marina Dias Cavalcante. Doutora e Mestra em Educação Brasileira pela Universidade Federal do Ceará (UFC). Professora Permanente do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual do Ceará (PPGE/UECE). Líder do Grupo de Pesquisa Didática no Ensino Superior e na Educação Básica. Contribuição de autoria: revisão crítica de conteúdo intelectual e aprovação final da versão a ser publicada. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/5282528331075940

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