Introdução
Nos últimos anos, um conjunto significativo de pesquisas tem sido produzido sob as denominações de Estado da Arte e Estado do Conhecimento. No entanto, ainda existem entre os pesquisadores algumas dúvidas relacionadas às diferenças existentes entre esses dois tipos de pesquisa. Essas dúvidas podem ser exemplificadas a partir dos seguintes questionamentos: Estado da Arte e Estado do Conhecimento são o mesmo tipo de pesquisa? São pesquisas com a mesma finalidade? São realizadas apenas na área da educação? Esses e outros questionamentos são feitos por muitos pesquisadores e estudantes da área das Ciências Humanas e Sociais, em especial da área da educação.
As pesquisas Estado da Arte e Estado do Conhecimento têm em comum o desafio de mapear e discutir a produção acadêmica em diferentes áreas do saber, tentando analisar que aspectos vêm sendo destacados e privilegiados em determinado período histórico ao se observarem as pesquisas já existentes, principalmente em cursos de pós-graduação nos níveis de mestrado e doutorado (Cruz; Ferreira, 2023; Ferreira, 2002, 2021; Morosini, 2015; Morosini; Fernandes, 2014; Morosini; Nascimento; Nez, 2021; Romanowski; Ens, 2006).
As pesquisas denominadas Estado da Arte e Estado do Conhecimento têm se mostrado uma ferramenta valiosa para potencializar a reflexão sobre o estágio da produção científica em diferentes áreas do conhecimento, considerando o volume de investigações realizadas na linearidade histórica. Albuquerque e Portilho (2022, p. 10) destacam que essas pesquisas “[...] podem ser considerados termômetros e um recurso fundamental para o desenvolvimento e validação da pesquisa acadêmico-científica e mesmo da ciência”. Além disso, elas são relevantes para que os pesquisadores possam identificar lacunas, problemas e potencialidades para pensar o ineditismo, a originalidade e a relevância do tema da pesquisa para o avanço da ciência.
Em face de suas contribuições e da premente necessidade de compreender o movimento constitutivo das pesquisas do campo educacional, percebe-se que essas pesquisas vêm sendo utilizadas desde a década de 1970 no cenário internacional (Gómes Vargas; Galeano Higuita; Jaramillo Muños, 2015; Palacio; Granados; Villafàñez, 2016; Patiño, 2016).
No Brasil, as pesquisas do tipo Estado da Arte e Estado do Conhecimento passam a fazer parte do repertório acadêmico em fins da década de 1980 e ganham notoriedade com as produções divulgadas a partir da segunda metade da década de 1990. À época, como ainda hoje é possível identificar, essas nomenclaturas eram utilizadas como sinônimos em pesquisas na área da educação (Ferreira, 2002; Romanowski; Ens, 2006). Porém, isso não é consenso entre os pesquisadores, indicando a importância de refletir sobre as diferenças e similaridades entre elas de modo a contribuir para as pesquisas em educação (Albuquerque; Portilho, 2022; Araujo; Ferst; Vilela, 2021; Jacomini et al., 2023; Teixeira, 2023; Vasconcellos; Nascimento da Silva; Souza, 2020).
A partir dessa perspectiva, este artigo apresenta como problema de pesquisa a seguinte indagação: quais são as diferenças entre as pesquisas Estado da Arte e Estado do Conhecimento? Para responder a essa indagação, este artigo objetiva descrever e caracterizar as diferenças entre essas duas abordagens.
A pesquisa foi conduzida com uma abordagem qualitativa, de caráter bibliográfico e de natureza interpretativa, tendo como objetivo analisar e comparar as diferenças entre as pesquisas do tipo Estado da Arte e Estado do Conhecimento. Para garantir rigor metodológico, foram empregadas estratégias sistemáticas de busca, seleção e análise dos materiais.
Foram consultadas bibliotecas físicas e digitais, incluindo a Biblioteca da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Biblioteca da Universidade do Oeste de Santa Catarina (UNOESC). No meio digital, utilizaram-se bases de dados e portais acadêmicos reconhecidos, como o Portal de Periódicos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e o Google Acadêmico. A seleção dessas fontes baseou-se em sua credibilidade e na ampla cobertura de publicações científicas na área educacional.
A estratégia de busca envolveu a combinação de palavras-chave, permitindo a identificação dos estudos mais relevantes para a temática. As expressões utilizadas incluíram “estado da arte” AND “educação”, “estado do conhecimento” AND “pesquisa educacional”, “revisão bibliográfica em educação”, “estudo de revisão” AND “pesquisa acadêmica” e “mapeamento do conhecimento” AND “revisão de literatura”. As buscas foram realizadas nos títulos, resumos e palavras-chave dos artigos indexados, garantindo um levantamento abrangente da literatura sobre o tema.
Para assegurar a qualidade dos materiais analisados, foram adotados critérios rigorosos de inclusão e exclusão: os estudos selecionados deveriam ter sido publicados entre 2015 e 2024, ser revisados por pares, ter foco na área educacional e estar disponíveis em acesso aberto ou adquiridos via instituições de ensino. Foram excluídos trabalhos sem acesso ao texto completo, artigos que não abordassem diretamente Estado da Arte ou Estado do Conhecimento, estudos duplicados e publicações em idiomas não acessíveis à equipe de pesquisa. A síntese desses critérios é apresentada no Quadro 1.
Quadro 1 Critérios de seleção de estudos
| Critério | Descrição |
| Critérios de Inclusão | Estudos publicados entre 2015 e 2024, artigos revisados por pares, foco na área educacional, trabalhos disponíveis em acesso aberto ou adquiridos via instituições de ensino. |
| Critérios de Exclusão | Trabalhos sem acesso ao texto completo, artigos que não abordam diretamente Estado da Arte ou Estado do Conhecimento, estudos duplicados ou em idiomas não acessíveis à equipe de pesquisa. |
Fonte: Elaborado pelos autores.
Para garantir maior clareza metodológica, as categorias de análise foram organizadas conforme descrito a seguir. No Estado da Arte, analisou-se o mapeamento amplo da produção científica, com identificação de temas recorrentes e levantamento de abordagens metodológicas. No Estado do Conhecimento, a ênfase esteve na análise interpretativa das produções, com identificação de lacunas e tendências dentro da área específica de estudo.
Após a seleção dos materiais, os estudos foram organizados em categorias temáticas, facilitando a análise comparativa e a identificação de lacunas na literatura. Foram consideradas três grandes categorias:
Estudos de revisão, subdivididos em revisão narrativa, revisão sistemática e revisão integrativa;
Estado da Arte, abordando sua caracterização, metodologia e aplicação na educação; e
Estado do Conhecimento, contemplando sua definição, métodos empregados e diferenças em relação ao Estado da Arte
A organização dos dados foi realizada separadamente para cada tipo de revisão, destacando as principais características e tendências identificadas. Dessa forma, garantiu-se uma distinção clara entre os elementos analisados em cada abordagem, permitindo evidenciar de maneira mais objetiva os aspectos que diferenciam Estado da Arte e Estado do Conhecimento.
A análise dos dados foi conduzida com base em uma abordagem interpretativa, possibilitando a identificação de padrões, tendências e lacunas na literatura existente. A leitura integral dos materiais selecionados permitiu o registro de pontos relevantes, descobertas-chave e perspectivas discutidas pelos autores. Posteriormente, os dados foram confrontados e sintetizados, ressaltando convergências e divergências nos estudos revisados. Esse processo favoreceu uma compreensão aprofundada das especificidades metodológicas e conceituais de cada tipo de pesquisa analisada.
Para reforçar a distinção entre os conceitos teóricos e as análises realizadas, apresenta-se no Quadro 2 a comparação entre as categorias de análise utilizadas em cada abordagem.
Quadro 2 Comparação entre Estado da Arte e Estado do Conhecimento
| Categoria | Estado da Arte | Estado do Conhecimento |
| Amplitude | Abrangente, diversas áreas | Específico, área delimitada |
| Foco | Identificação de tendências e produção existente | Análise aprofundada de um campo específico |
| Método de Análise | Descritivo, comparativo | Interpretativo, analítico |
Fonte: Elaborado pelos autores.
Os resultados da investigação foram organizados de maneira sistemática e apresentados por meio de quadros, facilitando a visualização das principais diferenças entre Estado da Arte e Estado do Conhecimento. Essa estruturação contribuiu para uma exposição clara e objetiva das contribuições da pesquisa, além de subsidiar futuras investigações sobre a temática.
Para a área da Educação, esta investigação pode contribuir para uma melhor compreensão sobre as pesquisas Estado da Arte e Estado do Conhecimento, assim como para a formação e o desenvolvimento de pesquisadores. Dessa forma, este artigo visa abordar, de forma clara, as diferenças entre esses dois tipos de Estudos de Revisão, assim como suas respectivas etapas, permitindo que os pesquisadores compreendam essas distinções para aplicá-las em seus estudos. Além disso, busca destacar a importância de distinguir esses conceitos na produção acadêmica, contribuindo para uma aplicação mais eficaz dessas metodologias em contextos educacionais específicos e para o avanço do conhecimento na área.
O artigo está estruturado da seguinte forma: além da introdução, em que são enunciados o tema, os objetivos, a justificativa e o problema, apresentam-se na sequência os tipos de estudo/revisão que fazem parte da construção do Estado da Arte e/ou Estado do Conhecimento. Em seguida, discorre-se acerca dos dois tipos de pesquisa, refletindo sobre os conceitos e as etapas para sua construção. Na terceira seção, apresenta-se uma discussão sobre as diferenças entre Estado da Arte e Estado do Conhecimento a partir da literatura especializada e do processo analítico interpretativo. Por fim, tecem-se as considerações finais derivadas do processo interpretativo.
Estudos de revisão
Um estudo de revisão é uma pesquisa que busca identificar, avaliar e sintetizar os resultados de outros estudos já realizados sobre um determinado assunto. Ele é conduzido com o objetivo de fornecer uma visão geral dos conhecimentos atuais sobre o tema e identificar lacunas que ainda precisam ser preenchidas. Estudos de revisão são frequentemente realizados antes de novas pesquisas serem iniciadas, a fim de fornecer uma base sólida de conhecimento e direcionar as futuras investigações.
Trata-se de uma revisão planejada que procura desenvolver a busca, o mapeamento, a análise e a apresentação do conhecimento produzido por pesquisadores de diferentes áreas do conhecimento, com o objetivo de encontrar respostas para um problema de pesquisa. Pode utilizar métodos sistemáticos para identificar e analisar tendências, sintetizar resultados, reconhecer, selecionar e avaliar não só estudos primários como também outros tipos de pesquisas. Os instrumentos de coleta de dados utilizados para realizar esse tipo de pesquisa são: livros, artigos de periódicos, artigos de jornais, registros históricos, livros, teses e dissertações, bases de dados, entre outros, que tratam da temática da investigação. Vosgerau e Romanowski (2014, p. 168) enfatizam que:
As revisões são necessárias para pesquisadores iniciantes em uma determinada área do conhecimento. Estes estudos podem conter análises destinadas a comparar pesquisas sobre temas semelhantes ou relacionados, apontar a evolução das teorias, dos aspectos teórico metodológicos e sua compreensão em diferentes contextos, indicar as tendências e procedimentos metodológicos utilizados na área, apontar tendências das abordagens das práticas educativas.
Dentre os diversos tipos de estudos de revisão utilizados na pesquisa educacional, destacam-se a revisão narrativa, a revisão sistemática e a revisão integrativa. Essas abordagens são amplamente utilizadas por pesquisadores para estruturar o conhecimento já produzido, sendo fundamentais para compreender as diferentes formas de mapeamento da literatura. A apresentação dessas revisões no presente estudo visa esclarecer suas características, metodologias e finalidades, permitindo compará-las com as abordagens do Estado da Arte e do Estado do Conhecimento.
Na área da educação são identificados diferentes tipos e denominações para os estudos de revisão, tais como: revisão de literatura, revisão bibliográfica, estudo bibliométrico, revisão narrativa, revisão integrativa, revisão sistemática, estado da arte e estado do conhecimento, entre outras. Esses estudos são importantes para a pesquisa educacional pois auxiliam “[...] na compreensão dos fenômenos educacionais” e na proposição de “soluções para problemas ainda persistentes, com um olhar voltado para o que já foi publicado dentro daquela área temática, baseado na observação e análise do pesquisador” (Cruz; Ferreira, 2023, p. 3).
Nesse sentido, com o objetivo de contribuir para a diferenciação de alguns tipos de revisão comumente utilizados nas pesquisas educacionais, será feita uma breve descrição das revisões narrativa, sistemática e integrativa nesta seção, uma vez que esses tipos de estudo de revisão vêm sendo frequentemente realizados por pesquisadores. Por sua vez, as pesquisas do tipo Estado da Arte e Estado do Conhecimento serão detalhadas na seção seguinte, com suas características, os caminhos para sua construção, suas interfaces e as diferenças entre ambas.
A revisão narrativa
A revisão narrativa tem como objetivo descrever ou discutir o estado atual do tema investigado, caracterizando-se como uma revisão não sistemática. Trata-se de um tipo de revisão bibliográfica que apresenta uma síntese narrativa da literatura em uma determinada área de pesquisa. Ao contrário de uma revisão sistemática, que segue um protocolo bem definido e rigoroso para a seleção e avaliação dos estudos incluídos, a revisão narrativa é de natureza qualitativa. Ela não segue um protocolo estrito e pode incluir uma ampla gama de fontes, incluindo artigos de pesquisa, livros, relatórios governamentais, entre outros.
Na revisão narrativa, o pesquisador pode utilizar uma abordagem mais subjetiva para a análise dos estudos, selecionando aqueles que parecem mais relevantes e interessantes para a sua pesquisa e apresentando uma síntese narrativa dos resultados. Essa abordagem pode ser útil quando a área de pesquisa é nova e ainda não existem muitos estudos sistemáticos disponíveis, ou quando o objetivo da revisão é explorar conceitos ou teorias de forma mais generalizada.
No entanto, é importante ressaltar que a revisão narrativa pode ser menos objetiva e suscetível a vieses em comparação com a revisão sistemática, uma vez que a seleção dos estudos e a síntese dos resultados dependem da interpretação do pesquisador. Por isso, é importante que o pesquisador seja transparente em relação aos métodos utilizados na revisão e às fontes de evidência incluídas, para que os leitores possam avaliar a validade e a confiabilidade dos resultados apresentados.
Esse tipo de revisão consiste na análise da literatura que foi publicada em artigos, livros e demais materiais científicos, realizada a partir da interpretação e análise do pesquisador. As revisões narrativas permitem “[...] estabelecer relações com produções anteriores, identificando temáticas recorrentes, apontando novas perspectivas e consolidando a área do conhecimento (Vilelas, 2022, p. 101).
A abordagem da revisão narrativa insere-se no enfoque qualitativo, com discussões mais amplas; ou seja, não há um detalhamento metodológico, e o pesquisador não escreve e nem explica os critérios de inclusão e exclusão do material selecionado para a pesquisa. A revisão narrativa pode ser utilizada em várias áreas do conhecimento, incluindo a educação, para ajudar a entender melhor a complexidade dos fenômenos educacionais, sociais e pessoais. Apresenta, como características essenciais, o fato de a interpretação dos dados ser baseada na subjetividade do pesquisador; não existir a necessidade de esgotar as fontes de informações; poder integrar informações de diferentes fontes; não apresentar rigor metodológico ou protocolo; e realizar um mapeamento da literatura existente.
A revisão sistemática
A revisão sistemática é uma abordagem rigorosa e metódica, cujo propósito é coletar e avaliar toda a evidência disponível em torno de uma questão de pesquisa específica. Ela envolve a identificação de todos os estudos relevantes, a seleção de estudos qualificados, a extração de dados e a avaliação da qualidade dos estudos. Tem por objetivo produzir uma compilação coerente e atualizada da literatura sobre a temática investigada, para melhor compreender o estado atual do conhecimento e as conclusões que podem ser tiradas a partir da evidência disponível.
As revisões sistemáticas são amplamente utilizadas em pesquisas médicas, mas também são aplicadas em muitas outras áreas, incluindo educação, psicologia e negócios, pois elas buscam “[...] sintetizar as evidências encontradas em pesquisas, como artigos, teses e dissertações e interpretar os dados colhidos de forma analítica, sistematizando-os de maneira a encontrar amostras confiáveis e precisas” (Cruz; Ferreira, 2023, p. 4).
Muitas vezes, essa abordagem é utilizada para suprir a lacuna deixada pelas pesquisas de revisões narrativas ou mesmo para prover dados complementares. A revisão sistemática pode analisar os dados a partir da abordagem qualitativa ou quantitativa, havendo possiblidade de seguir um protocolo claro para garantir a consistência e a objetividade na coleta e análise de dados. Além disso, envolve uma busca ampla e detalhada em várias fontes de dados, como bases de dados de periódicos, fornecendo conclusões claras e embasadas em evidências para apoiar os pesquisadores. Além disso, concentra-se na precisão e na objetividade dos dados coletados e analisados, ajudando a minimizar a influência da subjetividade do pesquisador. Permite ainda que outros pesquisadores repliquem seus resultados, fortalecendo a confiança na validade de suas conclusões.
“Esse tipo de investigação disponibiliza um resumo das evidências relacionadas a uma estratégia de intervenção específica, mediante a aplicação de métodos explícitos e sistematizados de busca, apreciação crítica e síntese da informação selecionada” (Sampaio; Mancini, 2007, p. 84). Dessa maneira, os estudos de revisão sistemática vão muito além de uma simples revisão da literatura existente, pois procuram analisar os dados encontrados e sintetizá-los de forma consistente para que possam apontar lacunas existentes e promover futuras pesquisas.
A revisão integrativa
A revisão integrativa é uma metodologia de pesquisa que visa identificar, sistematizar e integrar evidências obtidas a partir de vários estudos sobre um determinado assunto ou tema. O objetivo da revisão integrativa é fornecer uma compreensão mais ampla e completa sobre o assunto em questão, além de identificar lacunas e direções futuras para a pesquisa. Pode ser realizada com diferentes tipos de estudos, incluindo estudos quantitativos, qualitativos ou mistos, sendo amplamente utilizada em áreas como a saúde, a psicologia e a educação.
Realizada de forma rigorosa e sistemática, a revisão integrativa tem o objetivo de promover um profundo estudo relacionado às pesquisas encontradas, seguindo padrões e rigor metodológico. Nessa abordagem, utilizam-se protocolos definidos para a seleção, a análise e a integração de pesquisas, combinando resultados de vários estudos sobre o mesmo assunto. A organização da revisão integrativa possibilita a combinação de dados das literaturas que podem identificar lacunas nas áreas pesquisadas.
Dentro dos estudos de revisão, essa é a pesquisa mais ampla, permitindo a inclusão simultânea de estudos com diferentes objetivos. A revisão integrativa busca manter uma abordagem objetiva, evitando julgamentos subjetivos e opiniões pessoais; requer transparência na seleção e na análise dos estudos, para garantir a confiabilidade e a validade dos resultados. Além disso, ajuda a identificar lacunas nas evidências existentes, orientando futuras pesquisas; deve ser claramente comunicada, o que demanda uma descrição detalhada do processo de seleção e análise dos estudos, além dos resultados e das conclusões.
Esses estudos [como a revisão integrativa] partem do princípio de que uma visão interpretativa das evidências seria mais adequada ao campo educacional, visto que os achados, os instrumentos de coletas e sujeitos participantes normalmente são variados, o que torna difícil a agregação ou contabilização de resultados. Dessa forma, os resultados qualitativos e as condições de aquisição desses resultados necessitam ser agrupados e reagrupados de forma interpretativa, por semelhanças, para que possam responder à questão central de pesquisa proposta (Vosgerau; Romanowski, 2014, p. 179).
As principais vantagens desse tipo de estudo de revisão são: fornece uma visão mais completa e abrangente do assunto em questão, integrando resultados de vários estudos; ajuda a identificar lacunas nas evidências existentes; orienta futuras pesquisas; aumenta a confiabilidade e a robustez dos resultados obtidos; fornece uma base sólida de evidências para tomadas de decisões em áreas como saúde, educação e políticas públicas; permite a redução de viés subjetivos e a manutenção de uma abordagem objetiva, aumentando a validade dos resultados; e pode ajudar a melhorar a qualidade da pesquisa, fornecendo diretrizes claras e rigorosas para futuras investigações. Entre esses tipos de estudo de revisão, encontram-se também o Estado da Arte e o Estado do Conhecimento, objeto de investigação deste artigo e que serão detalhados a seguir.
O estado da arte
Segundo Lüdke e André (1986, p. 12), “O Estado da Arte teve como marco histórico o século XIX nos Estados Unidos da América, surgiu com o objetivo de analisar as especificidades teórico-metodológicas no que se trata de produção do conhecimento na atualidade”.
A expansão de estudos de revisões bibliográficas tidos como Estado da Arte ocorreu de maneira mais significativa entre as décadas de 70 e 80, neste período houve um agravamento da situação da educação na América Latina, o que ocasionou o surgimento e estabelecimento da modalidade de pesquisa em Estado da Arte na área da educação (Puentes; Aquino; Faquim, 2005, p. 53).
Segundo Brandão, Baeta e Rocha (1983, p. 7), “[...] o termo Estado da Arte é originário da literatura científica americana e tem por meta realizar levantamentos do que se conhece sobre um determinado assunto a partir de pesquisas realizadas em uma determinada área”.
Pesquisas do tipo estado da arte podem significar uma contribuição importante na constituição do campo teórico de uma área de conhecimento, pois procuram identificar os aportes significativos da construção da teoria e prática pedagógica, apontar as restrições sobre o campo em que se move a pesquisa, as suas lacunas de disseminação, identificar experiências inovadoras investigadas que apontem alternativas de solução para os problemas da prática e reconhecer as contribuições da pesquisa na constituição de propostas na área focalizada (Romanowski; Ens, 2006, p. 11).
Nesse contexto, as pesquisas denominadas Estado da Arte passaram a ser mais comumente empregadas no Brasil em diferentes áreas do conhecimento, principalmente na área da educação. O Estado da Arte é um estudo de revisão que se caracteriza como um mapeamento abrangente da literatura científica sobre um determinado assunto ou tema. O objetivo do Estado da Arte é fornecer uma visão geral da literatura existente, identificando tendências, avanços e lacunas na pesquisa. É utilizado como uma ferramenta para planejar e orientar futuras pesquisas, bem como para compreender o contexto mais amplo de um assunto específico.
O Estado da Arte pode ser baseado em uma revisão narrativa que apresenta uma descrição sucinta da literatura existente sem uma abordagem sistemática. É amplamente utilizado também em áreas como a saúde, a psicologia, a tecnologia e a ciência da computação, entre outras. Ele é uma ferramenta importante para orientar futuras pesquisas, aumentando a qualidade e a eficiência a partir de uma visão ampla da produção do conhecimento existente sobre o tema ou área de estudo.
Esse tipo de estudo de revisão deve ser compreendido como um processo de reflexão que requer uma análise aprofundada dos estudos existentes, distinguindo-os em categorias e estabelecendo relações entre eles. Essa atividade analítica visa construir uma narrativa em torno dos resultados encontrados, permitindo o entendimento aprofundado das pesquisas já realizadas e sugerindo novas abordagens e ideias. Conceitualmente, encontram-se diversas interpretações sobre esse tipo de pesquisa, algumas das quais estão sistematizadas no Quadro 3 a seguir.
Quadro 3 Conceitos para o Estado da Arte
| “[...] o termo Estado da Arte tem por meta realizar levantamentos do que se conhece sobre um determinado assunto a partir de pesquisas realizadas em uma determinada área” (Brandão; Baeta; Rocha, 1983, p. 7). |
| “O estado da arte tem por objetivo o desafio de mapear e discutir uma certa produção acadêmica em diferentes campos do conhecimento, tentando responder que aspectos e dimensões vêm sendo destacados e privilegiados em diferentes épocas e lugares, de que formas e em que condições tem sido produzidas certas dissertações e teses, publicações em periódicos e comunicações em anais de congresso e seminários” (Ferreira, 2002, p. 79). |
| “[...] o estado da arte envolve metodologicamente toda uma área do conhecimento nos diferentes aspectos que geraram as produções como dissertações, teses, publicações em congressos e em periódicos” (Romanowski; Ens, 2006, p. 33). |
| “[...] as pesquisas do tipo estado da arte focam sua análise na problematização e metodologia, sua finalidade central é o mapeamento, principalmente servindo ao pesquisador como uma referência para a justificativa, lacuna que a investigação que pretende realizar poderá preencher” (Vosgerau; Romanowski, 2014, p. 173). |
| “[...] o estado da arte é uma pesquisa documental sobre um objeto em estudo que nos permite construir novos contextos geradores de investigação e mostra abordagens e tendências em diferentes domínios de estudo (político, epistemológico, metodológico e pedagógico). Ele examina a importância de análise e de novas alternativas de investigação que conduzem a novas interpretações e compreensões do conhecimento como elemento fundamental para investigação” (Patiño, 2016, p. 178, tradução nossa). |
| “[...] o Estado da Arte resulta de um vasto acervo de diferentes tipos de pesquisas, com ênfases, graus de aprofundamento e registros diversos. Essa modalidade de revisão bibliográfica nos permite um diálogo com os demais pesquisadores de áreas afins e nos revela a riqueza de dados produzidos em suas pesquisas” (Vasconcellos; Nascimento da Silva; Souza, 2020, p. 2). |
| “O estado da arte busca inventariar, fazer um balanço, descrever, mas o sujeito (pesquisador) opera com as informações e dados coletados, recorta e identifica, cruza e une fios, questiona e interpreta por um ponto de partida escolhido por ele, cria uma narrativa plausível e coerente, mutável e inacabada, buscando dar uma organicidade compreensível aos leitores” (Ferreira, 2021, p. 9). |
| “[...] o Estado da Arte consiste em identificar o que há de produções naquele dado momento sobre um tema, o estado em que se encontra a ciência sobre determinado conhecimento. E tem como objetivo maior levantar/pesquisar em diversas fontes críveis de produção e divulgação do saber, através de pesquisa bibliográfica para mapeamento, a fim de organização dos estudos” ( Albuquerque; Portilho, 2022, p. 4). |
| “As pesquisas que são feitas por meio do Estado da Arte são pertinentes às necessidades de retomar tudo o que já foi publicado e mapear - palavra muito usada por autores dentro desse tipo de estudo de revisão - conceitos, entendimentos e publicações, traçando um panorama geral do conteúdo destas publicações” (Cruz; Ferreira, 2023, p. 9). |
| “[...] são trabalhos dedicados a identificar, mapear, descrever e analisar - sobre múltiplas dimensões e aspectos, conforme o interesse da investigação -, o conjunto das pesquisas desenvolvidas em determinada área de conhecimento. Portanto, são estudos dedicados a investigar a dinâmica evolutiva das pesquisas dentro de uma área, em uma determinada região (país, continente etc.), conforme o recorte temporal definido para o levantamento dos trabalhos pertencentes ao escopo de interesse” (Teixeira, 2023, p. 6). |
| “[...] investigações que adotam a temática como principal critério de inclusão e que a ela são combinadas as dimensões temporal, espacial e institucional na seleção do corpus das pesquisas” (Jacomini et al., 2023, p. 14). |
Fonte: Os autores.
De modo geral, a realização de um Estado da Arte envolve o detalhamento de diferentes perspectivas sobre um tema em questão. Além disso, esse tipo de pesquisa também tem a importante função de fornecer um referencial de qualidade para a produção acadêmica, por meio do qual é possível avaliar os principais trabalhos que fundamentaram a temática e as contribuições realizadas. As principais etapas para a realização de um Estado da Arte estão elencadas no Quadro 4 a seguir:
Quadro 4 Etapas para realização do Estado da Arte
| 1. Definição clara do objetivo e do escopo da revisão, incluindo as perguntas de pesquisa. |
| 2. Definição da fonte de produção científica e dos descritores para direcionar as buscas a serem realizadas. |
| 3. Estabelecimento de critérios de inclusão e exclusão para a seleção do material que compõe o corpus de análise do Estado da Arte. |
| 4. Realização de uma busca sistemática da literatura científica relevante, utilizando fontes confiáveis e atualizadas, como bases de dados, revistas especializadas e conferências. |
| 5. Seleção de estudos relevantes para o objetivo da revisão, de acordo com os critérios de inclusão e exclusão definidos. |
| 6. Análise dos estudos selecionados, avaliando a qualidade dos estudos e identificando resultados e tendências comuns. Podem-se utilizar diferentes técnicas de análise de dados qualitativos para verificar os dados, como análise de conteúdo, análise temática, análise de conceito, entre outras. |
| 7. Síntese dos resultados dos estudos, incluindo tabelas, gráficos e descrições textuais, para fornecer uma visão clara e objetiva do Estado da Arte. |
| 8. Conclusão da revisão, identificando lacunas na literatura existente, destacando tendências e avanços na pesquisa e fornecendo recomendações para futuras pesquisas. |
| 9. Revisão e aperfeiçoamento do Estado da Arte antes da submissão ou publicação, garantindo a precisão e a qualidade dos resultados. |
| 10. Organização e compartilhamento do apêndice do corpus de análise utilizado na investigação ou sua disponibilização através de recursos tecnológicos como drive, nuvem, link. |
Fonte: Os autores.
A partir dessas etapas, pode-se ter uma visão ampla de todo o processo investigativo, de modo que se torna possível a análise dos dados obtidos na pesquisa em determinada área do conhecimento. É importante garantir a transparência e a objetividade na seleção e análise dos estudos, para maximizar a confiabilidade dos resultados. No Brasil, esse tipo de estudo de revisão tem sido amplamente realizado nos últimos anos, principalmente na área da educação. O uso das tecnologias tem facilitado a aproximação e a identificação dos pesquisadores com as publicações disponíveis na internet, agilizando assim o processo de mapeamento.
O estado do conhecimento
Uma pesquisa do tipo Estado do Conhecimento é um estudo de revisão da literatura existente sobre um determinado tema. Seu objetivo é identificar e sintetizar as principais tendências, lacunas, avanços e desafios na área de estudo. Essa pesquisa é utilizada em diversas áreas do conhecimento, como ciências sociais, saúde, educação, entre outras. Seu objetivo é mapear e analisar criticamente as publicações existentes, incluindo artigos, livros, teses, dissertações e relatórios técnicos, entre outros, a fim de oferecer uma visão abrangente sobre o que já se sabe e o que ainda precisa ser explorado sobre o tema em questão. Dessa forma, busca-se olhar para o tema/objeto como um horizonte a ser desbravado, analisando suas interlocuções, interfaces e o potencial para gerar novas e profícuas investigações. A construção do Estado do Conhecimento tem como foco uma análise reflexiva do tema como ponto de partida, considerando suas interfaces e interlocuções com o contexto em que se insere. A partir disso, buscam-se novos horizontes a serem explorados, ampliando o potencial para a produção do conhecimento.
A pesquisa do tipo Estado do Conhecimento geralmente segue uma metodologia bem definida, que inclui a seleção de fontes, a avaliação dos estudos incluídos e a análise dos resultados encontrados. Além disso, pode ser usada para identificar possíveis lacunas no conhecimento, apontar para áreas de pesquisas futuras e informar decisões políticas e práticas no campo em questão. No que concerne ao seu conceito, as definições apresentadas na literatura especializada sobre esse tipo de pesquisa são elencadas no Quadro 5.
Quadro 5 Conceitos para o Estado do Conhecimento
| “[...] estado do conhecimento é a identificação, registro, categorização que levem à reflexão e síntese sobre a produção científica de uma determinada área, em um determinado espaço de tempo, congregando periódicos, teses, dissertações e livros sobre uma temática específica” (Morosini; Fernandes, 2014, p. 155). |
| “[...] o estado do conhecimento contribui na identificação de padrões de pesquisa, no levantamento de tendências dominantes e na exploração de desafios e orientações para abordagens futuras” (Torres; Palhares, 2014, p. 15). |
| “[...] o estado do conhecimento é uma metodologia mais restrita, definindo-a como um estudo que aborda apenas um setor das publicações sobre um determinado tema” (Soares; Maciel, 2000, p. 2). |
| “[...] as pesquisas do tipo estado do conhecimento abarcam apenas um setor de publicações” (Romanowski; Ens, 2006, p. 33). |
| “Um estado do conhecimento não se restringe a identificar a produção, mas analisá-la, categorizá-la e revelar os múltiplos enfoques e perspectivas” (Vosgerau; Romanowski, 2014, p. 172). |
| “[...] o EC é um tipo de pesquisa bibliográfica, baseada, principalmente, em teses, dissertações e artigos científicos, pois neste rol de pesquisas é possível conhecer o que está sendo pesquisado em nível de pós-graduação stricto sensu de determinada área, sobre determinado tema” (Kohls-Santos; Morosini, 2021, p. 125). |
| “[...] o Estado do Conhecimento será um mapeamento mais específico, focal, com delimitações de pesquisas” (Albuquerque; Portilho, 2022, p. 5). |
| “[...] a especificação do trabalho voltado a um Estado do Conhecimento intenta preencher lacunas em uma determinada área e tema a partir de produções já realizadas em determinado recorte temporal, como também, em apenas uma esfera de publicações e, portanto, o inventário de produções deste método segue em instância mais restritiva [...] (Michel Junior; Costa, 2024, p. 544). |
Fonte: Os autores.
A partir dos conceitos apresentados no Quadro 5, é possível perceber que o Estado do Conhecimento descreve o nível mais avançado de compreensão em relação a um assunto ou a um campo de estudo específico no que tange à sua constituição epistemológica e ao seu lugar na produção acadêmica como objeto de estudo. Para tanto, pode incluir estudos realizados, experiência acumulada e teorias que explicam as abordagens e o conhecimento produzido, bem como os potenciais caminhos que se abrem a partir da produção existente e as lacunas encontradas, servindo de base para definir metas e diretrizes para as pesquisas futuras.
De acordo com Soares e Maciel (2000), o Estado do Conhecimento, o levantamento e a avaliação da produção acadêmica e científica sobre o tema se entrelaçam de forma fundamental. Primeiramente, o levantamento fornece um quadro das principais obras existentes na área, permitindo ao pesquisador uma visão mais ampla sobre o tema e oferecendo um material a ser avaliado. A avaliação da produção acadêmica e científica, por sua vez, permite ao pesquisador estabelecer uma hierarquia de obras de acordo com os critérios de qualidade, relevância e pertinência para o tema em questão. Assim, a avaliação é um instrumento fundamental para que o resultado do levantamento - ou seja, o diagnóstico da área - seja o mais completo e preciso possível.
Podem significar uma contribuição importante na constituição do campo teórico de uma área de conhecimento, pois procuram identificar os aportes significativos da construção da teoria e prática pedagógica, apontar as restrições sobre o campo em que se move a pesquisa, as suas lacunas de disseminação, identificar experiências inovadoras investigadas que apontem alternativas de solução para os problemas da prática e reconhecer as contribuições da pesquisa na constituição de propostas na área focalizada (Romanowski; Ens, 2006, p. 39).
Com base nos estudos de Morosini (2015), Morosini e Fernandes (2014) e de Morosini, Nascimento e Nez (2021), as etapas constituintes do Estado do Conhecimento, representando a mobilidade realizada pelo investigador, estruturam-se nas fases metodológicas especificadas no Quadro 6 a seguir.
Quadro 6 Etapas para construção do Estado do Conhecimento
| 1. Escolha das fontes de produção científica (nacional e/ou internacional). |
| 2. Definição do objetivo da pesquisa. |
| 3. Seleção dos descritores de busca. |
| 4. Organização do corpus de análise. |
| 5. Seleção dos primeiros achados na bibliografia anotada. |
| 6. Identificação e seleção de fontes que constituirão a bibliografia sistematizada, ou seja, o corpus de análise. |
| 7. Construção das categorias analíticas do corpus. |
| 8. Análise das fontes selecionadas. |
| 9. Organização da bibliografia categorizada. |
Fonte: Os autores.
É fundamental seguir todas as etapas apresentadas no Quadro 6 para alcançar com êxito o rigor científico da pesquisa, lembrando sempre do objetivo a ser alcançado e do problema a ser resolvido.
Observados o rigor e as contribuições das pesquisas do tipo Estado do Conhecimento, é evidente que elas são amplamente utilizadas na área da educação e que constituem um importante tipo de pesquisa. Além de se basearem em uma metodologia mais restrita, elas podem ser desenvolvidas a partir de um tipo específico de publicações sobre determinado assunto, constituindo-se em uma importante base de dados para o pesquisador, contribuindo, assim, para a compreensão do percurso histórico das pesquisas de uma área ou um tema a ser consolidado (Vosgerau; Romanowski, 2014).
As diferenças entre Estado da Arte e Estado do Conhecimento
O Estado da Arte e o Estado do Conhecimento podem ser compreendidos, então, como estudos que organizam o que foi produzido durante um determinado período e área de abrangência, sendo essas expressões comumente utilizadas como sinônimas. No entanto, é necessário esclarecer que o Estado da Arte e o Estado do Conhecimento são estudos distintos, que têm em comum o “[...] ato de levantar e analisar o conhecimento produzido sobre um determinado tema, a partir do estudo crítico e reflexivo de um número significativo de pesquisas realizadas na área de interesse” (Araujo; Ferst; Vilela, 2021, p. 72), mas que apresentam diferenças entre si.
No Quadro 7, são apresentadas algumas contribuições que permitem vislumbrar essas diferenças a partir de contribuições de diferentes autores da literatura especializada no tema.
Quadro 7 Diferenças entre pesquisas do tipo Estado da Arte e Estado do Conhecimento
| Estado da Arte | Estado do Conhecimento |
|---|---|
| Foco da análise: problematiza e mapeia a produção científica existente sobre um tema, destacando aspectos metodológicos (Vosgerau; Romanowski, 2014). | Foco da análise: avalia e sintetiza conhecimentos acumulados, identificando avanços e lacunas na pesquisa (Vosgerau; Romanowski, 2014). |
| Objetivo: levantar e descrever o que já se sabe sobre um tema em determinada área (Brandão; Baeta; Rocha, 1983). | Objetivo: sistematizar a produção acadêmica para compreender tendências, limitações e inovações no campo de estudo (Romanowski; Ens, 2006). |
| Natureza da pesquisa: revisão descritiva e analítica de documentos científicos para fundamentar teoricamente o estudo (Ferreira, 2021). | Natureza da pesquisa: inventário reflexivo, estruturado para organizar e interpretar a produção acadêmica existente (Ferreira, 2002). |
| Amplitude do levantamento: considera diversas fontes de produção científica, incluindo teses, dissertações, artigos e anais de eventos (Silva; Malfitano, 2017). | Amplitude do levantamento: realiza um recorte específico, analisando um setor delimitado da produção acadêmica (Morosini; Nascimento; Nez, 2021). |
| Método de levantamento: pesquisa ampla e abrangente, sem restrição de fontes (Araujo; Ferst; Vilela, 2021). | Método de levantamento: foca em um setor específico, permitindo uma análise mais detalhada (Araujo; Ferst; Vilela, 2021). |
| Questões investigadas: busca responder “o quê, por quem, onde, como, quanto, por quê, para quê” (Albuquerque; Portilho, 2022). | Questões investigadas: enfatiza um recorte mais delimitado, aprofundando aspectos qualitativos da produção acadêmica (Albuquerque; Portilho, 2022). |
| Uso na pesquisa: construção de um inventário extenso sobre um tema (Medeiros; Fortunato; Araújo, 2023). | Uso na pesquisa: análise crítica e qualitativa de um conjunto específico de estudos acadêmicos (Medeiros; Fortunato; Araújo, 2023). |
| Importância da pesquisa: ajuda a identificar lacunas na produção acadêmica, impulsionando novos estudos e a difusão do conhecimento (Silva; Malfitano, 2017). | Importância da pesquisa: subsidia dissertações e teses ao delimitar um tema e indicar caminhos metodológicos adequados (Morosini; Nascimento; Nez, 2021). |
Fonte: Os autores.
Observam-se, no Quadro 7, aspectos que caracterizam os dois tipos de pesquisa, permitindo estabelecer alguns indícios sobre suas diferenças, analisadas a seguir.
O Estado da Arte apresenta-se, portanto, como uma metodologia de pesquisa que tem caráter inventariante, analítico e crítico acerca da produção do conhecimento de determinado tema, contemplando aspectos que se relacionam com o interesse do pesquisador, para que ele possa compreender, entre outros elementos, as condições em que foram produzidos os estudos que compõem o corpus de análise. Além disso, proporciona uma maior visibilidade aos aspectos teóricos e metodológicos, aos conceitos e aos temas emergentes, bem como às suas contribuições para o avanço na área, situando-as historicamente. O Estado da Arte constitui-se, portanto, como uma oportunidade de olhar para o que foi produzido, buscando compreendê-lo e contextualizá-lo em relação à realidade, de modo a qualificar outras investigações a partir de uma pesquisa, contemplando de modo abrangente as produções.
Por sua vez, o Estado do Conhecimento busca refletir com maior ênfase sobre o objeto de estudo em seus aspectos teóricos, identificando as interlocuções que se estabelecem em diferentes contextos e espaços. No processo constitutivo do Estado do Conhecimento, o foco está em compreender o tema em sua constituição enquanto objeto da pesquisa, identificando as potencialidades, fragilidades e os horizontes investigativos, transpondo o mapeamento das produções e qualificando analiticamente o que foi produzido.
Desse modo, compreende-se que o Estado da Arte é um estudo amplo e abrangente e que tem o compromisso de explorar o universo delimitado pela pesquisa, com profundidade e rigor, de modo a fornecer um panorama que representa dados mais próximos da realidade. Logo, o Estado do Conhecimento cumpre o papel de analisar aspectos teóricos que sustentam essas produções, subsidiando, assim, novos debates a partir daquilo que já foi produzido, como também das lacunas encontradas.
Entre os aspectos que diferem Estado da Arte de Estado do Conhecimento, sobressai o universo a ser contemplado na análise da produção sobre o tema. Isso pode ser explicado pelas próprias expressões que compõem o conceito de Estado da Arte, tais como: “[...] levantamento do que se conhece sobre um determinado assunto” (Brandão; Baeta; Rocha, 1983, p. 7); “[...] toda uma área do conhecimento” (Romanowski; Ens, 2006, p. 33); “[...] vasto acervo de diferentes tipos de pesquisas, [...] pesquisas de áreas afins” (Vasconcellos; Nascimento da Silva; Souza, 2020, p. 2); “[...] enfoque amplo da produção científica existente acerca da temática para a construção do inventário [...]” e “[...] recorre a inúmeras fontes bibliográficas de consulta [...]” (Medeiros; Fortunato; Araújo, 2023, p. 7); “[...] Estado da Arte busca inventariar [...]” (Ferreira, 2021, p. 21) .
Evidenciam-se, por esses excertos, a dimensão da totalidade e a abrangência que o Estado da Arte deve buscar. Assim, ao inventariar a produção para posterior análise, o pesquisador deve apropriar-se do maior número de produções possíveis sobre o tema de pesquisa, possibilitando-lhe uma compreensão mais global sobre a questão.
Por conseguinte, os conceitos propostos sobre o Estado do Conhecimento permitem caracterizá-lo como uma pesquisa mais restrita quanto à abrangência daquilo que o pesquisador pretende conhecer. Ou seja, se no Estado da Arte o pesquisador busca compreender o todo ou o máximo sobre a temática em questão, no Estado do Conhecimento ele se detém a aprofundar aquilo que definiu como seu objeto de investigação.
Alguns autores corroboram essa distinção, destacando que o Estado do Conhecimento “[...] [é] a produção científica de uma determinada área” (Morosini; Fernandes, 2014, p. 155); “[...] [é] um estudo que aborda apenas um setor das publicações” (Soares; Maciel, 2000, p. 2); “[...] [é o] inventário descritivo da produção acadêmica” e o reconhecimento de que não há “conhecimento da totalidade de produções em determinada área” (Ferreira, 2002, p. 78).
Além disso, esses pesquisadores reconhecem a relação com a ação de “[...] analisar a produção do campo científico sobre determinada temática” (Morosini; Nascimento; Nez, 2021, p. 71) e de “[...] inventariar a produção acadêmica existente em determinada área, [...] a partir de um setor específico” (Medeiros; Fortunato; Araújo, 2023, p. 1). Evidencia-se, com isso, que a análise de uma determinada área e setor de publicação é fator relevante para caracterizar a construção do Estado do Conhecimento.
Nesse sentido, a construção do Estado do Conhecimento caracteriza-se por ser uma produção a partir de um recorte temporal, congregando periódicos, teses, dissertações e livros (Kohls-Santos; Morosini, 2021; Morosini; Fernandes, 2014). Desse modo, essa abordagem volta-se a uma área específica do conhecimento.
O Estado da Arte, por sua vez, representa o espraiamento por diferentes áreas do conhecimento, funcionando como um movimento inicial da produção existente. Enquanto o Estado do Conhecimento se dedica a uma análise detalhada da produção acadêmica, funcionando como um dispositivo potencializador da investigação, pois percorre os meandros da produção sobre um objeto/tema específico, o Estado da Arte tem um caráter mais amplo, identificando a capilaridade da produção de forma panorâmica.
Notadamente, o ponto essencial que diferencia ambos os Estados a partir da análise da literatura especializada é a compreensão da intencionalidade, da complexidade subjacente ao processo e dos setores que cada um abarca para de sua construção. Infere-se, assim, que o Estado da Arte é uma pesquisa que intenciona contemplar a totalidade da produção existente sobre um tema, enquanto o Estado do Conhecimento se incumbe da responsabilidade de explorar a produção como parte do movimento de uma nova produção. Essas constatações convergem com outras reflexões produzidas que buscaram identificar as diferenças existentes, embora reconheçam a existência de pontos comuns entre os dois tipos de pesquisa (Albuquerque; Portilho, 2022; Araujo; Ferst; Vilela, 2021; Ferreira, 2002; Jacomini et al., 2023; Medeiros; Fortunato; Araújo, 2023; Teixeira, 2023;Vasconcellos; Nascimento da Silva; Souza, 2020).
Assim, o Estado da Arte busca analisar o objeto/tema das produções em uma determinada área, utilizando fontes que ofereçam o maior número de subsídios. Além disso, possibilita olhar para a temática a partir da seleção e da sistematização dos dados, o que reforça a importância de inventariar e mapear o maior número de produções. A partir desse levantamento, é possível extrair subsídios que contribuem para a compreensão de como o Estado da Arte tem se constituído e transitado historicamente como objeto de estudo.
Por sua vez, o Estado do Conhecimento, ao se aprofundar na análise mais teórica e compreensiva do tema investigado, envolve mais de uma fonte de dados. Isso possibilita um espraiamento das produções e proporciona um tratamento do objeto sob diferentes perspectivas teórico-epistemológicas.
Em que pesem as diferenças, Palacio, Granados e Villafáñez (2016, p. 30) convergem ao destacar que “[...] os Estados da Arte visam a formulação e justificação de problemas de pesquisa; os estados do conhecimento são destinados a um público mais amplo de estudantes, acadêmicos e tomadores de decisões interessados no campo educacional”. Nota-se, dessa forma, que o Estado da Arte está mais próximo de situar o tema no contexto da produção existente, enquanto o Estado do Conhecimento busca a compreensão sobre como temas/objetos de pesquisa fazem parte do debate acadêmico, fornecendo subsídios para sanar as lacunas, apresentar o aporte teórico, compreender aspectos metodológicos e garantir o ineditismo e a relevância da pesquisa.
Em face das diferentes percepções, conforme identificadas no aporte teórico que potencializa a interpretação e a construção de novas concepções e reinterpretações, e diante das análises realizadas, compreende-se que as diferenças entre Estado da Arte e Estado do Conhecimento transcendem o paradigma da construção teórica, de modo que se assentam na abrangência e na intencionalidade quando da sua realização. Tais constatações encontram ressonância em Araujo, Ferst e Vilela (2021) ao destacarem que,
[...] apesar de terem finalidades semelhantes, constituem métodos de pesquisa diferentes. Entendemos que a opção por uma delas dependerá do campo de estudo a ser pesquisado, da amplitude do mapeamento do conhecimento necessário para se delimitar o objetivo de estudo e também das condições de trabalho e do tempo disponível do pesquisador para a realização da investigação (Araujo; Ferst; Vilela, 2021, p. 83).
Nesse sentido, é pertinente destacar que o Estado da Arte é uma pesquisa voltada para o inventariamento da produção existente em diferentes áreas do conhecimento. Para isso, apropria-se das diferentes formas de registros que reúnem as informações necessárias para que o pesquisador analise e entenda como determinado tema está inserido na produção e veiculação do conhecimento. Dito de outro modo, trata-se de uma visão geral do tema, sem a preocupação de aprofundar os pormenores das produções, identificando as diferentes perspectivas e interfaces a partir das quais um mesmo tema é tratado.
O Estado do Conhecimento, por suas características, é uma pesquisa que analisa a produção mapeada e inventariada com base em um objetivo, tema ou problema específico, buscando explorar as interfaces dessas produções. Assim, a partir de uma visão macro, procura descortinar os cenários existentes e compreender os pormenores dos estudos realizados, identificando dados que esclareçam o tema em suas especificidades e ponham em evidência lacunas de investigação, contribuindo para justificar o seu ineditismo e a sua originalidade.
Contextualizando essas análises e visando contribuir para a compreensão acadêmica sobre as diferenças na construção da pesquisa, depreende-se que o Estado da Arte é o movimento inicial do pesquisador para entender o tema. Em outras palavras, trata-se do momento em que ele parte de uma ideia daquilo que deseja investigar e, a partir disso, busca vislumbrar como esse tema vem sendo produzido em linhas gerais. Entende-se, dessa forma, que essa pesquisa é mais adequada quando o pesquisador ainda não definiu o objeto ou não tem um problema de pesquisa definido. Nesse caso, ela contribui para a identificação de subtemas correlacionados ao tema central, permitindo ao pesquisador analisar se a sua perspectiva de investigação já foi abordada ou não.
Por outro lado, quando o pesquisador já definiu o objeto/problema de pesquisa, é mais adequado realizar o Estado do Conhecimento. Essa abordagem permite uma compreensão mais específica das discussões já existentes, aproximando-se das questões elementares que sustentam a pesquisa, como o aporte teórico, os encaminhamentos metodológicos e as lacunas do tema e subtemas.
Em uma leitura mais didática, o Estado da Arte é a investigação das pesquisas e demais produtos que veiculam o conhecimento produzido, indicando como o tema vem sendo discutido na linearidade histórica, dando pistas e abrindo janelas para outras investigações. Uma vez ocorrida essa identificação, o Estado do Conhecimento pode justificar a escolha do tema, o problema, as lacunas.
É relevante pontuar que, nesse processo de identificação das diferentes pesquisas, não se pretende polarizar, valorar ou sobrepor as intencionalidades do Estado da Arte ou do Estado do Conhecimento. A intenção, aqui, é sinalizar, a partir do movimento de análise, que as intencionalidades dessas pesquisas, no âmbito da produção do conhecimento na academia, são diferentes. Contudo, identifica-se a intersecção entre elas no sentido de que o Estado da Arte, como primeiro movimento, favorece a construção do Estado do Conhecimento; e o Estado do Conhecimento, presente e identificado, favorece uma nova produção que passará a fazer parte de um futuro Estado da Arte. Como destaca Ferreira (2021), a intencionalidade e o significado presentes no termo “Estado” indicam a condição da produção do conhecimento no momento em que se faz a pesquisa, o que implica que esse “Estado” pode ser superado ou modificado com novas produções.
Conclusões
Analisando os conceitos e os caminhos para a construção de pesquisas do tipo Estado da Arte e Estado do Conhecimento, percebe-se que há muito mais semelhanças entre elas do que diferenças. Esse cenário faz com que lhes seja atribuído um caráter de complementariedade, de modo que sejam tratadas como importantes instrumentos que contribuem no rastreamento histórico da produção acadêmica, favorecendo e potencializando a produção do conhecimento a partir de lacunas, silenciamentos, fragilidades e distanciamentos nas pesquisas já realizadas.
Face ao objetivo de identificar as diferenças entre os dois tipos de pesquisa, as análises indicam que o Estado da Arte se preocupa em mapear, sistematizar e discutir o produzido a respeito de um tema, abrangendo diferentes áreas do conhecimento e inúmeras fontes para produção dos dados. O Estado do Conhecimento busca analisar as produções de modo a abstrair delas subsídios para compreender o emaranhado teórico que as sustenta, verificando suas contribuições epistemológicas e identificando como o tema vem sendo debatido e produzido, em um cenário que transcende os aspectos quantificados e percebidos no Estado da Arte. Trata-se, assim, de uma pesquisa que apresenta abertura para ser realizada em apenas uma área e com a redução de fontes para coleta dos dados.
Outro elemento que contribui para essa diferença é que, no Estado da Arte, a busca é ampla e abrangente, englobando todo o acervo existente sobre o tema, mesmo que definida uma temporalidade para a sua constituição. Já o Estado do Conhecimento se refere ao nível de investigação mais detalhado das interfaces de um tema em uma área de estudo. Ele possibilita apresentar dados categorizados das investigações já realizadas, indicando aportes para justificar as escolhas do pesquisador na construção da sua investigação. Também procura realizar uma revisão crítica da literatura e do conhecimento produzido, favorecendo outras tessituras constitutivas, explorando lacunas, configurando-se como um exercício crítico-reflexivo que questiona a impressão de terminalidade e o esgotamento das investigações.
Diante dos resultados do presente estudo, é possível destacar como pontos fundamentais que diferenciam o Estado da Arte do Estado do Conhecimento: i) a delimitação e a abrangência dos setores e das áreas do conhecimento que os compõem; ii) a noção de amplitude/totalidade e o campo mais restrito; iii) as fontes de pesquisa; e iv) o inventariamento/mapeamento/descrição e o processo analítico interpretativo da produção. Esses elementos interseccionam-se com as intencionalidades e os objetivos propostos na sua construção dentro da atividade acadêmica.
Isso significa dizer que, na construção de uma dissertação ou tese, o Estado da Arte permite uma visão abrangente sobre o tema, em diferentes áreas e recursos de divulgação, possibilitando ao pesquisador identificar o movimento da produção e possíveis lacunas. O Estado do Conhecimento, por seu turno, representa o estudo exploratório, analítico e interpretativo do recorte do tema de estudo, por meio do qual o pesquisador consegue identificar as interfaces das pesquisas realizadas. Reconhece-se, contudo, a relevância de ambos para a compreensão e a produção do conhecimento, promovendo o avanço científico e a necessidade de um movimento de discussão epistemológica e metodológica que possa qualificá-los, respeitando suas especificidades, seus limites e as dificuldades para sua realização.
Dessa forma, a presente investigação contribui para a área da Educação ao oferecer uma compreensão detalhada sobre as diferenças entre Estado da Arte e Estado do Conhecimento, permitindo que pesquisadores adotem abordagens mais adequadas às suas investigações. Além disso, ao esclarecer as especificidades metodológicas e conceituais desses tipos de revisão, este estudo auxilia na qualificação da produção acadêmica, promovendo análises mais rigorosas e bem fundamentadas. Isso se justifica pela necessidade de desnaturalizar as semelhanças e evidenciar as particularidades, o que é imprescindível para o aperfeiçoamento da construção do Estado da Arte e do Estado do Conhecimento como base para a produção do conhecimento e o avanço da ciência. Assim, espera-se que os achados aqui apresentados possam subsidiar futuras pesquisas e fortalecer as discussões metodológicas na área educacional














