Hugo de São Vítor e o contexto de Didascalicon
Vivenciando transformações econômicas e sociais significativas, o Ocidente Medieval assistiu, entre os séculos XI e XII, as cidades entrarem na cena medieval, exibindo um novo modo de organização coletiva. Nesse período, a Igreja também iniciava um processo de mudanças em seu funcionamento, as quais implicaram alterações políticas; a economia alterava-se estruturalmente, adquirindo suas primeiras características mercadológicas e acompanhando essa urbanização. O conhecimento, por sua vez, necessário a essa (re)organização social, colaborou para que uma Revolução Intelectual iniciasse (ILLICH, 2002).
Com uma particular relevância para a compreensão dessas temáticas, a obra pedagógica Didascalicon de Studio Legendi, de Hugo de São Vítor, sugeriu métodos de estudos que buscavam colaborar com a formação do homem medieval. Ela também tornou seu autor um dos principais mentores da pedagogia do século XII (MUÑOZ GAMERO, 2011). Dentre os assuntos pertinentes, encontrados na obra e em quem a escreveu, buscamos, neste trabalho, compreender o uso da leitura como meio de desenvolvimento do intelecto humano a partir das indicações do mestre vitorino, em Didascalicon.
Hugo de São Vítor viveu em uma comunidade que seguia as regras de Santo Agostinho e, não diferente de alguns intelectuais de seu período, buscava aperfeiçoar os seus ensinamentos e a formação de seus alunos. Com título sugestivo, o Didascalicon (que, em grego, significa “coisas concernentes à escola”3) concedeu destaque à leitura e inaugurou sua proposta didática. A escolha desse termo grego remete à relevância que as ideias aristotélicas tiveram em sua formação.
A classe em ascensão nesse período – a burguesia – refutava o comportamento inerte dos senhores feudais ante às injustiças. Le Goff (1998) argumenta que, no movimento de luta pela libertação comunal, a injustiça causava, nos pobres e nos reformadores, mais indignação do que corrupção. Destarte, os estudiosos desse período cogitavam encontrar nos estudos novos ares, já que seus contemporâneos aspiravam a uma nova cultura e respostas às problemáticas sociais (MUÑOZ GAMERO, 2011).
O trabalho monástico de copiar mecanicamente os textos remetia à reprodução fiel de tradições e ideias. Entretanto, em decorrência da movimentação urbana do século XII, a mera repetição do passado já não atendia às demandas do homem medieval. A obra hugoniana, à qual nos referimos, demarcou um período de embate entre a fé e a razão. Nela, ele “elaborou uma teoria pedagógica com um recorte pré-humanista da imagem divina no homem, por meio da combinação do conhecimento, virtude e da graça divina”4 (MUÑOZ GAMERO, 2011, p. 13, tradução nossa). Nessa visão humanista, o conhecimento seria o caminho para a formação de um homem sensato e justo. Ler seria indispensável para a aquisição dos saberes que levariam a humanidade a esse patamar, além de ser inerente ao desenvolvimento das atividades que floresciam naquele tempo e, também, meio de acesso à virtude e à graça divina.
Didascalicon tem um caráter educativo inédito ao seu tempo, uma vez que transcendeu a mera recopilação de conteúdos (comum entre os monges medievais) e expressou, em seus textos, interpretações sobre os escritos com que teve contato. À vista disso, tratou a leitura e a escrita como ações diferentes, colaborando com a transição do método de leitura monástico para o escolástico. Desse modo, a obra revelou, mais uma vez, sua intencionalidade pedagógica ao estruturar a educação como saber prático (e não apenas teórico). De maneira metódica, o seu autor apresentou os pré-requisitos necessários ao estudante que busca a sabedoria: quais conteúdos estudar e como deveriam ser estudados.
Descrevemos, a seguir, o porquê de a Sapientia ter sido considerada, pelo método hugoniano, a meta principal do estudo. Em seguida, elucidaremos os elementos que, segundo o autor, são fundamentais para levar o estudante à sabedoria.
Elementos fundamentais para a concepção educativa de Hugo de São Vítor
Hugo de São Vítor propôs, em sua obra pedagógica Didascalicon de Studio Legendi, uma metodologia de estudo firmada na leitura e na escrita. Com o seu uso, considerou possível a elevação intelectual e espiritual do homem. Escrita em meados de 11305, em um ambiente de efervescente transformação, a obra abordou, de maneira didática, a formação humana relevante aos seus contemporâneos, os quais buscavam, em uma nova organização econômica, a igualdade social que se opunha ao modelo vigente, o feudal.
Os intelectuais desse período consideraram o conhecimento um meio de dignificar o comportamento humano. O mestre vitorino pressupunha que, ao alcançar a sabedoria, o sujeito tornar-se-ia alguém melhor. “E como é que o homem chega a conhecer esta Sapiência? Hugo responde que, tudo começa com o ato de ler, seguido pelo ato de refletir e, enfim, pelo ato de contemplar” (MARCHIONNI, 2001, p. 11).
Na concepção hugoniana, Sapientia não se referia apenas a “um estágio do conhecimento ou uma sabedoria qualquer” (MARCHIONNI, 2001, p. 10), mas, sim, a uma pessoa da trindade, especificamente o Filho, que seria um elo entre o homem, após a sua queda (ou o pecado original), e Deus Pai. Desse modo, considerou a busca pela sabedoria algo tão primordial que, em seus escritos, indicou-a como meta existencial.
Instigando seus seguidores, São Vítor sugeriu que se buscasse primeiro a sabedoria, “na qual reside a forma do bem perfeito” (HUGO DE SÃO VÍTOR, 2011, L. I, C. 1, §1), pois, assim, exercitariam a amizade com sua Divindade, que é boa e perfeita. Ao encontrá-la, voltariam à forma inicial: à imagem e semelhança Dele. A Sapientia sucedida do estudo seria proporcionada por intercessão da segunda pessoa da trindade, o Filho (ou o Verbo de Deus feito carne), que tem sua vida terrena marcada por comportamentos justos e retos. Cristo seria o paradigma de conduta, a luz que iluminaria os olhos da humanidade.
Exercitar a amizade com Deus se assemelha a uma das quatro definições de Filosofia expostas em Didascalicon. Entre elas, está a etimologia da palavra. Ele comenta que o primeiro a utilizar o termo foi Pitágoras, que chamou de “filosofia” a atitude de busca pela sabedoria. Ele próprio “preferiu ser chamado ‘filósofo’, enquanto antes se falava simplesmente de sóphoi, ou seja, sábios” (HUGO DE SÃO VÍTOR, 2011, L. I, C. 2, § 1º, grifos do autor). Em seguida, fez uma descrição entre os termos “filósofo” e “sábio”. Em suas palavras, “a filosofia é, portanto, o amor, a procura, e uma certa amizade para com a Sapiência” (HUGO DE SÃO VÍTOR, 2011, L. I, C. 2, § 2º, grifos do autor). E, reconhecendo a importância dessa distinção, asseverou que
[...] com efeito, é bonito que ele chame os pesquisadores da verdade não sábios, mas amantes da sabedoria, pois a verdade total está tão escondida, que, por mais que a mente arda do seu amor, por mais que se empenhe na sua inquirição, é difícil chegar a entender a verdade como ela realmente é [...]
(HUGO DE SÃO VÍTOR, 2011, L. I, C. 2, § 1º).
O mestre vitorino considerou presunção afirmar conhecer a verdade por completo, e com tal descrição assumiu a postura humilde de considerar-se alguém que procura a sabedoria – e não que já a obteve. Na obra, um dos elementos destacados como imperativos ao bom estudante foi justamente a humildade, considerada a virtude necessária para o homem reconhecer a própria ignorância e, humildemente, buscar pelo conhecimento que lhe falta.
Ele também comenta que Pitágoras definiu a Filosofia por doutrina do que é verdadeiro e de valor imutável (imutável como Deus). Ela não se refere a bens materiais ou atividades que resultam em produtos palpáveis que estão sujeitos a mudanças. Por isso, não depende de tecnologias ou matérias-primas para alcançar seus fins. Na interpretação hugoniana, “Este amor da Sapiência é uma iluminação do espírito inteligente por aquela pura Sapiência” (HUGO DE SÃO VÍTOR, 2011, L. I, C. 2, § 2º, grifos do autor).
Adão e Eva tinham o privilégio de contemplar constantemente a amizade e a imagem de Deus. Mas o que seria a luz a ser restituída pela leitura? Quando o primeiro casal (no paraíso, relatado no livro bíblico de Gênesis, capítulo 3) cometeu o primeiro pecado, foi expulso do Éden e colocado em um lugar de trevas. Por consequência do primeiro pecado, para que hoje essa Luz seja restituída no ser humano, há de se percorrer penosamente o caminho da leitura. Ele sugere que essa rota seja feita pela via do amor à Sapientia, pois é nela que se encontra o remédio que retira dos olhos de uma espécie caída a sombra e a escuridão (HUGO DE SÃO VÍTOR, 2001).
Buscar a Sapientia seria como empenhar-se para encontrar a verdade, e uma maneira de aproximar o ser humano do seu Criador. Esse foi um dos temas fundamentais de Didascalicon. O assunto também foi abordado como solução para o que ocorreu no relacionamento entre Criador e criatura no Éden. Além dessa função vertical (homem e Deus), esse intento fomentaria, no ser humano, o autoconhecimento, um exercício de introspecção rumo à amizade com Deus. Em suas palavras, “a procura da Sapiência é uma amizade com a divindade e com a sua mente pura. E esta Sapiência transfere para todo tipo de almas o primor de sua divindade e as traz de volta para a sua própria força e pureza natural” (HUGO DE SÃO VÍTOR, 2011, L. I, C. 2, § 3º, grifo do autor).
Se o homem, enquanto está circunstanciado pelo pecado, encontra-se na escuridão e confuso, a Mente Divina, por intermédio da Graça, o ilumina. Enquanto busca a Sapientia, ele é levado de volta à dimensão original. Esse é o momento em que o homem encontra a ação Divina que o faz recuperar a sua semelhança e integridade, já que a debilidade da razão e a ignorância foram penas dadas após a queda6. Essa recuperação é intrínseca à formação idealizada pelo mestre vitorino para os homens de seu período.
Viana e Oliveira (2020, p. 14) corroboram a nossa interpretação sobre essa formação quando nos explicam que a ordenação dos estudos, sugerida pelo cônego, seria baseada em um “caminho teórico mapeado pela Trindade, que, sendo trino, simboliza a perfeição do conhecimento (Deus é Pai, Filho e Espírito Santo); outro, que põe em prática os ensinamentos aprendidos, de lapidar as ações humanas”. No século XII a sociedade em que Hugo de São Vítor estava inserido iniciava sua disposição citadina, e compreendemos que o comportamento dos que nela viviam necessitava de ajustes.
Inferimos sobre a utilidade de um método de estudo/ensino que propusesse formar, naquele período, homens virtuosos. Era urgente o desabrochar de sujeitos que soubessem conviver em uma organização social em que a proximidade com um número (e diversificação) maior de pessoas era iminente.
Nas entrelinhas do que foi proposto na obra hugoniana que analisamos, percebemos a germinação de um pensamento que, no século XIII, foi defendido por Santo Tomás de Aquino: a ideia de o homem ser “sujeito singular pelo seu pensar e agir [...] o único ser responsável pelos seus atos” (OLIVEIRA, 2012, p. 101). O uso do intelecto traria uma saída ao caos social, pois o homem que tem a imagem Divina recuperada em si é bom e virtuoso, e suas escolhas apontam para o bem comum.
O pensamento de que cada sujeito é responsável por suas atitudes, embebido de influências aristotélicas, foi oportuno à organização urbana. A vida citadina trouxe consigo a ideia revolucionária de que os homens “são iguais no direito”, remetendo, assim, à responsabilidade deles pelo cumprimento do ideal (LE GOFF, 1998, p. 91)7. A vontade individual, para Aristóteles, deve ser guiada pelo uso apropriado da virtude. Ele esclarece que as decisões são controladas pela sensação, pela razão e pelo desejo. Considerando a sensação algo que não pode ser utilizado como parâmetro para as escolhas, a ideia aristotélica nos traz que “tanto deve ser verdadeiro o raciocínio como reto o desejo para que a escolha seja acertada” (Aristóteles, 2011, VI, C. 2, § 3º). Portanto, racionalizar os desejos seria o meio ideal para o homem trilhar seu caminho de modo digno.
A composição da alma é advento da Bondade Divina transferida ao homem e a todo o mundo no momento da criação. Hugo de São Vítor (2011, L. I, C. 1, § 4º) mostra-nos que é por ser a “alma racional [...] composta por todas as formas” que somos “capazes de compreender todas as coisas”. O espírito também é semelhante a todas as coisas do universo, como o próprio assevera citando Pitágoras: “os semelhantes são compreendidos por meio de outros semelhantes” (HUGO DE SÃO VÍTOR, 2011, L. I, C. 1, § 7º). É, assim, que o ser humano se forma e se percebe como um ser superior, criado à imagem e à semelhança de Deus.
Além de criatura, para o mestre vitorino, o homem é um ser superior que obteve a dádiva de ser feito à imagem e à semelhança de seu Criador. Conforme afirmou Marchionni (2001, p. 11), ele incentivou seus seguidores ao interesse pela leitura e pelo saber, pois “estudar, lendo, significa conhecer a Sapiência. Por isso, a Filosofia, que começa com a leitura, nada mais é que um exercício de amizade com Deus”. Em função disso, ainda comenta que, para o cônego:
A Sapiência é a forma do bem perfeito. Ela é, antes de tudo, a forma do próprio Deus, que é bom e perfeito. Em segundo lugar, é a forma do mundo. O mundo e o homem estiveram dentro daquela forma e foram moldados por ela antes de serem criados, como a massa de areia e cimento é posta numa fôrma ou molde antes de transpô-la para a prancheta. Como forma causal que cria o mundo, esta forma transfere a sua bondade perfeita para todo o universo. O mundo é bom. O homem é, originariamente, bom
(MARCHIONNI, 2001, p. 11, grifos do autor).
A leitura seria o meio para aquisição dos conhecimentos filosóficos que levariam o homem a retomar o seu relacionamento com Deus. A obra considerou que esse relacionamento proporcionaria o encontro do ser humano com sua essência original, que para ele é a bondade divina projetada no momento da criação. Nos comentários feitos por Marchionni (2001) como notas de rodapé, encontramos algumas considerações sobre o ato de filosofar, ação que seria
[...] um ato do homem, mas é também um ato de Deus. O homem olha para a Sapiência e recupera a sua semelhança com Ela, a Sapiência ilumina o homem e recupera a integridade divina que tinha infundido nele, o chamando-o para si. Deus ganha e o homem ganha. Por isso, a filosofia é um exercício de amizade entre a mente humana e a Sapiência
(HUGO DE SÃO VÍTOR, 2011, L. I, C. 3, p.53 – rodapé, grifos do autor).
A Sapientia (descrita acima como expressão do bem perfeito) também foi posta no ser humano quando ele foi criado. Ela se refere ao relacionamento do homem consigo e com os demais seres existentes em seu meio antes de sua queda, quando seu relacionamento com o Criador ainda estava intacto. Tal funcionamento original da humanidade revela o efeito da bondade divina no ato da gênese, relatado no primeiro capítulo do livro bíblico de Gênesis, quando a bondade perfeita e divina é transferida ao universo. Em consequência do pecado cometido por Adão e Eva, houve prejuízos não apenas para a amizade entre o homem e o seu Criador, mas para todo o funcionamento da criação.
O vitorino compreendeu que o espírito humano esqueceu ou passou a desconhecer sua composição, acreditando mais no que é visível e material. Isso, devido à distração causada pelas paixões e pelos desejos carnais, que o afastam de sua natureza e dignidade planejadas pelo Criador no ato da criação – natureza que é “constituída pela semelhança com a Sapiência”, em suas palavras.
O espírito, de fato, quando é adormecido sob o efeito das paixões corporais e arrastado para fora de si por obra das formas sensíveis, esquece o que ele foi, e, não lembrando de ter sido outra coisa, se acha como sendo apenas aquilo que ele parece ser
(HUGO DE SÃO VÍTOR, 2011, L. I, C. 1, § 9º, grifos do autor).
A maneira de reconquistar a estrutura espiritual original ao homem seria por meio do estudo (lectio) e da utilização da doutrina. Pela Filosofia, o homem seria capaz de recuperar “sua pureza e força originária”, o que garantiria os principais objetivos do filosofar, que são: “a verdade nos pensamentos e a ética nos atos” (HUGO DE SÃO VÍTOR, 2011, L. I, C. 2, § 2º). Esse recurso possibilitaria conhecer a verdadeira natureza humana, tornando-se desnecessária a busca externa daquilo que pode ser encontrado na essência do existir, já que, para o autor, a capacidade existencial natural da alma humana é algo que não depende de condições externas.
Ler e meditar sobre o que se leu é um modo de o homem examinar a si mesmo. Assim, compreendemos o que Marchionni (2001, p. 11) comenta: “Em vão – diz Hugo – o homem procura conhecer fora de si aquilo que é. Basta olhar para dentro de si, descobrindo em si os traços da Sapiência, da mesma forma que o filho se autoconhece descobrindo em si a fôrma genética do seu genitor”.
Implícitas à necessidade de se ter a sabedoria como solução estavam as necessidades postas aos homens do século XII. Esse foi um período com muitas mudanças no Ocidente Medieval. Uma nova organização social instalou-se, exigindo novas dimensões de pensamento. Em Didascalicon, vemos os saberes tradicionais versados de maneira peculiar. De modo otimista, o autor reconheceu a importância do intelecto na busca pela sabedoria, como uma necessidade social, independente das limitações impostas pelas circunstâncias materiais: tratava-se da busca pelo bem comum. Além de uma decisão pelo esforço pessoal na erudição, era a busca humana pela capacidade natural da benevolência.
Formar o ser humano que faz e procura o bem coletivo parece ser também, para o vitorino, a meta de organização da comunidade: “a cidade recupera também o ideal antigo do bem comum, mas o adapta às novas condições” (LE GOFF, 1998, p. 91). Isso deve-se ao fato de as ideias aristotélicas estarem se difundindo entre ilustres e clérigos. Para alcançar o objetivo proposto, Didascalicon tratou da Filosofia enquanto organizadora das Artes (que, para ele, deveriam ser estudadas, pois são condição para chegar à sabedoria) e da Ciência, como o caminho até a sua meta.
Nesse momento, buscamos entender as questões da Filosofia, que, além de ser considerada por Hugo de São Vítor “o amor e a procura da Sapiência” (HUGO DE SÃO VÍTOR, 2011, L. I, C. 4, § 2º, grifo do autor), é também a responsável pelos assuntos teóricos das Artes. Comentamos que a Filosofia surgiu a partir da necessidade do homem de encontrar respostas para a origem das coisas. Diante dessa condição, acreditou-se que filosofar tem a função de expressar e sustentar a totalidade dos conhecimentos que podem ser adquiridos, além de se considerar a Filosofia um objeto de ensino e aprendizado (MUÑOZ GAMERO, 2008).
Posto que o estudo foi tratado em Didascalicon como meio de sobrevivência terrena e cultivo da vida espiritual, entendemos que seu autor considerou a Filosofia essencial para o homem. Por isso, dividiu-a em: teórica, prática, mecânica e lógica. A primeira ramificação tem caráter especulativo; a segunda (que também pode ser chamada de ética ou moral) consiste na boa ação; a terceira trata-se dos trabalhos humanos; e a última – ou ciência dos discursos – diz respeito à palavra e ao seu uso (HUGO DE SÃO VÍTOR, 2011).
Essas quatro ramificações da Filosofia englobariam todas as outras menores. Na obra, elas foram definidas como: “1) a teórica, que trata da investigação da verdade, 2) a prática, que estuda a disciplina dos costumes, 3) a mecânica, que ordena as ações desta vida, e enfim 4) a lógica, que ensina a falar corretamente e a disputar agudamente” (HUGO DE SÃO VÍTOR, 2011, L. I, C. 11, § 8º). Partindo do pressuposto das ideias aristotélicas, as ações não podem ser conduzidas pelas sensações: “a sensação não é princípio de nenhuma ação: bem o mostra o fato de os animais inferiores possuírem sensação, mas não participarem da ação” (Aristóteles, 2001, L. VI, C. 2. § 2º). Para Hugo de São Vítor, a forma de o homem não se deixar dominar pelas coisas sensíveis (e, em consequência, pelas paixões carnais) seria por seu esforço e disciplina, e para isso deveria usar a razão (o que o torna superior entre toda a Criação).
A razão, com o uso da Filosofia prática, mecânica e lógica, orientaria a sua conduta. Essas três ramificações filosóficas, juntas, parecem possuir “uma espécie de aparato que proporciona ao homem uma base disciplinar que vai desde a manutenção e preservação de seu corpo, sua postura perante a família e a sociedade, o desenvolvimento do trabalho e o bom uso da palavra” (ATHAYDE, 2007, p. 3).
Sendo assim, a razão orientando a ação do homem na aquisição dos conhecimentos filosóficos (por meio da leitura) o prepararia para uma vida de virtudes, proporcionando melhorias em sua sociedade. Em seguida, o sujeito estaria apto a receber o conhecimento da Ciência teórica, que o conduziria ao saber divino e à doce Sapientia (ATHAYDE, 2007).
Hugo de São Vítor, conforme Marchionni (2001, p. 59, nota de rodapé) afirma, é quem considera, pela primeira vez na história, “o trabalho humano como parte da filosofia”, por entender que tudo que é elaborado pelas mãos do homem, “com os olhos voltados para os modelos divinos”, é resultado do relacionamento entre ele e Deus, com a natureza Divina existente na essência humana. Sendo assim, os trabalhos humanos nada mais são do que uma espécie de imitação da natureza. Dessa mesma forma, não apenas os conhecimentos sobre a natureza e os costumes são considerados para a Filosofia, nos pressupostos hugonianos, mas também todos os atos humanos ou os seus desejos (MUÑOZ GAMERO, 2008).
Segundo Munõz Gamero (2008, p. 189, tradução nossa) “no esquema hugoniano engloba-se tanto o teórico e especulativo quanto a mecânica e a lógica”8. Assim, o autor da obra deixa evidente que todos os saberes (das Ciências principais) são necessários ao homem, mas somente a Ciência teórica (somada às outras três) seria a responsável por levar o sujeito até a Sapientia.
Se a Sapientia é a moderadora das atitudes do homem, torna-o diferente dos demais seres criados, pois a natureza destes, oposta à do ser humano, “não é regida por nenhum juízo da razão” (HUGO DE SÃO VÍTOR, 2011, L. I, C. 4, § 1º). Ele continua:
[...] afirmamos que propriamente pertencem à filosofia não somente aqueles estudos nos quais se discute ou a natureza das coisas ou a disciplina dos costumes, mas também as razões de todos os atos e esforços humanos [...] a filosofia é a disciplina que investiga exaustivamente as razões de todas as coisas humanas e divinas
(HUGO DE SÃO VÍTOR, 2011, L. I, C. 4, § 1º).
Com a moderação proporcionada pelas capacidades intelectivas, o homem alcançaria a reflexão sobre as suas ações e as de seus semelhantes.
Considerações finais
Observando os ensinamentos de Hugo de São Vítor sobre a leitura e a reflexão dos temas das Ciências colaborarem para que o homem seja guiado para/pela Sapientia, entendemos que, para o autor, quando o ser humano adquire o conhecimento, suas ações tornam-se mais humanizadas, no sentido de acalentarem o sofrimento terreno, que pode ter sido causado pelo desequilíbrio humano desde o pecado original. Essa instabilidade é tratada por ele como causadora de toda a escolha maldosa e corrupta da humanidade, e gera dissabor não somente às suas vítimas, mas também àqueles que as praticam.
O vitorino expressou acreditar que, no íntimo de cada ser humano, existe o bem e o mal, sendo o primeiro a natureza inerente a ele, planejada por Deus, que deve ser reestabelecida pelo empenho pessoal, enquanto segundo é tratado como depravação da essência do homem e deve “ser extirpado pela raiz” ou, pelo menos, “reprimido com a aplicação de um remédio” (HUGO DE SÃO VÍTOR, 2011, L. I, C. 5, § 1º). O remédio, como já comentado, pode ser encontrado por meio da lectio, na busca pela sabedoria. Na perspectiva do autor sobre as Ciências, a Sapientia é, acima de tudo, encontrada no exercício de investigação sobre a verdade, ou seja, por meio da Ciência teórica.
Ressalta-se, ainda, na obra, a importância do bom estudo para o desenvolvimento espiritual do homem, e acredita-se na possibilidade de redenção por meio da busca pela Sapientia. Nela, lemos que “Somos reerguidos pelo estudo, para que conheçamos a nossa natureza” (HUGO DE SÃO VÍTOR, 2011, L. I, C. 1, § 9º). Para isso, o autor sugeriu não somente estudar o que é mutável (passageiro), mas também aprender conceitos imutáveis (sagrados, eternos). Assim, no decorrer de toda a obra Didascalicon, entende-se que as Ciências estão relacionadas com a capacidade humana de adquirir sabedoria, proporcionada pela essência do Eterno, existente dentro da alma do homem desde a sua criação. Essa habilidade é o que torna o homem a imagem e a semelhança Divina, por isso não seria necessário “procurar fora de nós aquilo que podemos encontrar dentro de nós” (HUGO DE SÃO VÍTOR, 2011, L. I, C. 1, § 9º).
O termo Ciência, de acordo com Muñoz Gamero (2008), é utilizado pelo mestre vitorino em dois sentidos: para referir-se às disciplinas (ou artes) de estudo e para fazer alusão aos conhecimentos obtidos (ao que se tem ciência). A Ciência, sob qualquer dessas perspectivas, é considerada, por ele, um mecanismo da restauração do relacionamento entre Deus e o homem. Ela não é um instrumento voltado apenas para munir a humanidade de conhecimentos, mas, sim, para formar “cristãos cujas vidas verdadeiramente voltem-se a Deus 9” (MUÑOZ GAMERO, 2008, p. 192, tradução nossa).
Ainda que permeado de espiritualidade, notamos que, no método hugoniano, não há desprezo pelo conhecimento científico, pelo contrário, ele é considerado requisito fundamental para a vida cristã, desde que a busca seja feita com a devida intenção. As recomendações da obra analisada indicam-nos que a inteligência não foi considerada sinônimo de sabedoria. Mesmo configurando-se essencial para a promoção da sabedoria, o intelecto não pode ser o único agente dessa empreita; faz-se necessário, acima de tudo, a vontade do sujeito de seguir esse caminho.
Conhecendo o método hugoniano, entendemos que ler de modo superficial é imprudente e decifrar códigos linguísticos não pode, por si só, tornar alguém sábio. São Vítor sugeriu aos seus discípulos que, para sê-lo, seria necessário que eles buscassem o bom comportamento, refletissem sobre o que aprenderam, tivessem bom senso na análise dos conteúdos adquiridos por meio da leitura – ou por meio de exposições orais – e tomassem cuidado na escolha dos escritos que seriam lidos. Com esse movimento de estudo e introspecção, o estudante seria formado integralmente. Suas ações lapidadas refletiriam uma espiritualidade que foi aperfeiçoada por meio da aquisição de conhecimentos.













