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Conjectura: Filosofia e Educação

versão impressa ISSN 0103-1457versão On-line ISSN 2178-4612

Conjectura: filos. e Educ. vol.28  Caxias do Sul  2023

https://doi.org/10.18226/21784612.v28.e023017 

Artigos

Tempo, governamentalidade e autorresponsabilização na docência

Time, Governmentalityand Self-responsibilization in Education

Luciana Aparecida Silva de Azeredo1 

Marcia Aparecida Amador Mascia2 

Carlos Roberto da Silveira3 

1Pós-doutoramento pelo Programa de Pós-Graduação em Estudos de Linguagens (POSLING) do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais, instituição na qual é servidoraefetiva, atuando como professora e pesquisadora no Departamento de Linguagem e Tecnologia (DELTEC) e no Programa de Pós-Graduação em Educação Tecnológica (PPGET). Doutora em Educação e Mestre em Linguística Aplicada. Foi pesquisadora visitante na University of Sheffield, na Inglaterra. Realiza pesquisas a partir de ferramentas teórico-metodológicas pêcheutianas e oucaultianas em sua interface com a Educação e coordena o Grupo de Estudos Discurso e Subjetividade na Educação Profissional e Tecnológica (GEDS-EPT).

2Pós-Doutoramento pela Universidade de Wisconsin-Madison, no departamento de Curriculum and Instruction, com bolsa FAPESP. Doutora em Linguística Aplicada pela UNICAMP. Professora do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação, na linha de Educação, Sociedade e Processos Formativos, da Universidade São Francisco. Atua na área de Educação, Linguística Aplicada, Linguagem e Discurso. Líder do Grupo de Pesquisa Estudos Foucaultianos e Educação, certificado pelo CNPq. Editora da série de livros (Post)Critical Global Studies, da editora Peter Lang. Bolsa PQ 2. CNPq. 2020-2023.

3Pós-Doutor pela Universidade São Francisco (USF-SP), através do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu (CAPES) em Educação, em 2015. Doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP - CAPES), em 2010. Mestre em Filosofia (concentração em Ética) pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-CAMP), em 2003. Pós-graduado Lato Sensu em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela Universidade do Vale do Sapucaí (UNIVÁS-MG), em 1999. Bacharel em Administração de Empresas pela Faculdade de Administração Informática Santa Rita do Sapucaí (FAI-MG), em 1997. Trabalhou na função de Professor na FAI-MG, na UNIVÁS-MG, no UNIS-MG, na Escola Técnica de Eletrônica de Santa Rita do Sapucaí (ETE-MG), na Faculdade Católica de Pouso Alegre (FACAPA-MG), nos Cursos de Graduação e Pós-graduação Lato Sensu em Filosofia e no Curso de Graduação na Faculdade de Enfermagem Wenceslau Braz (FWB-MG), em Itajubá. Trabalhou como Membro do Comitê de Ética e Pesquisa na Faculdade de Ciências da Saúde - (UNIVÁS) e na Faculdade de Enfermagem Wenceslau Braz (FWB-MG). Participou como Coordenador e Pesquisador Convidado na confecção do Projeto Piloto sobre o Programa de Educação e Responsabilização para Homens Autores de Violência Doméstica contra a Mulher na Comarca de Pouso Alegre-MG, Período (2012-2013). Devido ao Projeto Piloto citado acima, trabalha com o Enfrentamento à Violência Doméstica, o que faz parte do processo de Educação/Aprendizagem Não-Formal e Formal, em conformidade com as Políticas Públicas nas esferas da Justiça, Segurança, Cidadania e Direitos Humanos, em escolas e comunidades, isso também, através de pesquisas de Iniciação Científica. Tem desenvolvido pesquisas voltadas para Filosofia da Educação, Fundamentos da Educação e Tópicos Específicos da Educação, com ênfase na Filosofia Clássica Ocidental (especialmente Platão), Moderna, Contemporânea, juntamente com as Teorias Críticas Latino-Americanas e Epistemologias do Sul, Personalismo, dentre outras, na promoção de debates e ações para a área da Educação, o que envolve questões sobre ética, bioética, constituição do sujeito contemporâneo, decolonialidade, tecnologias, dentre outros. Trabalha na função de professor do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Educação e de Graduação, com atuação na linha de pesquisa Educação, Linguagens e Processos Interativos, da Universidade São Francisco (USF-Itatiba-SP). Atua como Editor da Revista Horizontes em Educação USF. Atua como membro do Comitê Institucional de Iniciação Científica, Iniciação Tecnológica e de Extensão da Universidade São Francisco, USF. Membro da Comissão Própria de Avaliação-USF. Participa como Líder do Grupo de Pesquisa sobre Educação e Teorias Críticas Latino-Americanas (GPETECLA), do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Educação USF (Certificado pelo CNPQ). Participa como Vice-líder do Grupo de Pesquisa sobre Estudos Foucaultianos na Educação (GPEFE), do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Educação USF (Certificado pelo CNPQ). Atua como membro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação (ANPED). Participa do Grupo Interinstitucional de Pesquisa em Educação, Linguagem e Práticas Culturais (PHALA - UNICAMP).


Resumo

No contexto neoliberal, no qual imperam a cultura da auditoria e da meritocracia, a lógica do empreender a si mesmo e a visão de educação como mercadoria, convivemos com o mal-estar dentro e fora da docência. Nesse panorama, este artigo objetiva problematizar a racionalidade neoliberal vigente dentro e fora das salas de aula. Trata-se de uma análise discursiva de depoimentos de três professores de Ensino Superior sobre o cuidado (de si), a partir de ferramentas teórico-analíticas de Foucault, com o intuito de apontar em que medida os efeitos de sentido da responsabilização do sujeito por suas escolhas emergem em seus depoimentos. A análise remete-nos à presença dos modos de objetivação, por exemplo, às técnicas (pós-)modernas de gestão do tempo, qualidade muito apreciada no contexto neoliberal, na incessante busca da produtividade, da eficácia/eficiência e do empreendedorismo de si. Porém, a análise também sinalizou o desejo de cuidar(-se) mais e melhor, sendo a boa gestão do tempo vista pelos professores como uma das formas de realizá-lo. Embora tais estratégias estejam permeadas de/por técnicas neoliberais de governamentalidade, visando, de diversas maneiras, a conduzir nossas condutas, não objetivamos criticá-las, apenas descortinar de que maneira o uso de técnicas de gestão do tempo, paradoxalmente necessárias para (con/sobre)viver no mundo contemporâneo, nos conduzem de forma sub-reptícia. Nesse contexto, o cuidado de si, como entendido por Michel Foucault, no sentido de invenção de novas formas de vida poderia emergir como possibilidade de produzir contracondutas, apostando na relação consigo como uma alternativa, uma forma de resistência diante do poder, cuidado este, por vezes, sufocado pela competitividade generalizada que nos governa.

Palavras-chave Docência; Governamentalidade; Neoliberalismo; Cuidado de si; Contraconduta; Tempo

Abstract

In the neoliberal context, in which the culture of auditing and meritocracy and the logic of self-entrepreneurship prevail and in which education is understood as a commodity, there is malaise inside and outside teaching. In this scenario, this article aims to problematize the current neoliberal rationality inside and outside the classroom. This is a discursive analysis of the sayings by three higher education professors about care (of the self), based on Foucault's theoretical-analytical tools, with the aim of pointing out to what extent the effects of meaning of the subject's (self-)responsabilization for their choices emerge in their testimonies. The analysis leads us to the presence of modes of objectification, for example, to (post-) modern time management techniques, a very appreciated asset in the neoliberal context, in the endless pursuit of productivity, effectiveness/efficiency and self-entrepreneurship. However, the analysis also signaled the desire to take care of oneself more and better, with good time management being seen by the professors as one of the ways to achieve this. Although such strategies are permeated by neoliberal techniques of governmentality, aiming, in different ways, to conduct our conduct, we do not aim to criticize them, but only to reveal how the use of time management techniques, paradoxically necessary for surviving/living in the contemporary world, lead us surreptitiously. In this context, care of the self, as understood by Michel Foucault, in the sense of inventing new ways of life, could emerge as a possibility of producing counter-conducts, betting on the relationship with oneself as an alternative, a form of resistance in the face of power. This care which is sometimes suffocated by the generalized competitiveness that governs us.

Keywords Teaching; Governmentality; Neoliberalism; Care of yourself; Counter-conduct; Time

Introdução

Vivemos, hoje em dia, “como se alguém tivesse gritado ‘ação’ em um set de filmagem” (SAROLDI, 2011, p. 149). Para o sujeito contemporâneo, não há tempo a perder, pois “time is money”, e a solução ou resposta para suas dores e angústias deve ser rápida para que ele possa prontamente voltar à sua atuação, esvaindo-se o sujeito “progressivamente da possibilidade de dominar livremente seu tempo, engolido que é pelas montagens quantificantes do social” (BIRMAN, 1999, p. 267).

No contexto neoliberal, no qual imperam a cultura da auditoria e da meritocracia, a lógica do empreender a si mesmo e a visão de educação como mercadoria, convivemos com o mal-estar dentro e fora da docência. Impelidos a fazer parte da roda do mercado, muitos docentes, na busca por condições financeiras para o seu “conforto” e o dos familiares, aumentam a carga horária de trabalho, lecionando em duas ou mais instituições. No caso dos professores do Ensino Superior, aflige-os/nos também demandas acadêmicas: “publique ou pereça”. Falta-lhes/nos, muitas vezes, tempo para o SER. Há tempo apenas para sobreviver e não para (con)viver, como nos aponta Azeredo (2019).

Essa grande carga de trabalho docente, dentro e fora de sala, tem levado uma parte dos professores a enfrentar problemas tanto físicos quanto psicológicos.

Diante do exposto, este trabalho visa empreender uma análise discursiva de depoimentos de três professores do Ensino Superior sobre o cuidado (de si), com base em Foucault, e tem por objetivo apontar alguns efeitos de sentido da responsabilização do sujeito por suas escolhas, uma técnica neoliberal de governamentalidade.

Importante pontuar que adotamos “cuidado (de si)”, usando entre parênteses o “de si”, para referir-nos tanto ao conceito de cuidado tido pelo senso comum quanto ao cuidado de si filosófico, como proposto por Foucault, duas conotações diferentes, mas imbricadas, sendo, por vezes, difícil distingui-las nas respostas concedidas pelos sujeitos-professores-participantes.

Do ponto de vista estrutural, este artigo está organizado em três partes. Iniciaremos discutindo as noções de neoliberalismo, governamentalidade, contraconduta e cuidado de si em Foucault. Depois, passaremos para a análise dos depoimentos sob o enfoque da análise do discurso de linha francesa, esboçando algumas considerações em seguida.

Neoliberalismo, contraconduta e cuidado de si

A política neoliberal “se instituiu nos Estados Unidos da América, desde o início da década de 1960, particularmente sob a influência das análises econômicas empreendidas pela Escola de Chicago” (COSTA, 2009, p. 172), tendo como um dos principais representantes o economista Theodore Schultz e como eixo principal o conceito de Capital Humano, tomando por base a economia de mercado. Segundo Costa (2009, p. 174), há duas novidades importantes nesse novo tipo de economia política:

Em primeiro lugar, observa-se um deslocamento mediante o qual o objeto de análise (e de governo) já não se restringe apenas ao Estado e aos processos econômicos, passando a ser propriamente a sociedade, quer dizer, as relações sociais, as sociabilidades, os comportamentos dos indivíduos etc.; em segundo, além de o mercado funcionar como chave de decifração (princípio de inteligibilidade) do que sucede à sociedade e ao comportamento dos indivíduos, ele mesmo generaliza-se em meio a ambos, constituindo-se como (se fosse a) substância ontológica do “ser” social, a forma (e a lógica) mesma desde a qual, com a qual e na qual deveriam funcionar, desenvolver-se e transformar-se as relações e os fenômenos sociais, assim como os comportamentos de cada grupo e de cada indivíduo.

Não se trata apenas de uma ideologia e uma política econômica nela baseada, tampouco da simples reabilitação do laissez-faire, mas de uma racionalidade cuja característica principal é “a generalização da concorrência como norma de conduta e da empresa como modelo de subjetivação” (DARDOT; LAVAL, 2016, p. 17), que põe em jogo “a forma de nossa existência, isto é, a forma como somos levados a nos comportar, a nos relacionar como os outros e com nós mesmos” (DARDOT; LAVAL, 2016, p. 16), ou seja, o neoliberalismo “produz certos tipos de relações sociais, certas maneiras de viver, certas subjetividades” (DARDOT; LAVAL, 2016, p. 16), uma nova subjetividade, que Dardot e Laval (2016, p. 31) chamam de subjetivação contábil e financeira, “uma forma mais bem-acabada da subjetivação capitalista”, que produz “uma relação do sujeito com ele mesmo como um ‘capital humano’ que deve crescer indefinidamente [...]”.

Nessa perspectiva, Foucault, como apontam Dardot e Laval (2016), entendia governo não como instituição, mas atividade, e cria o neologismo “governamentalidade” “para significar as múltiplas formas dessa atividade pela qual homens, que podem ou não pertencer a um governo, buscam conduzir a conduta de outros homens, isto é, governá-los” (DARDOT; LAVAL, 2016, p. 18). Desse modo, na perspectiva foucaultiana, governar quer dizer

[...] conduzir a conduta dos homens, desde que se especifique que essa conduta é tanto aquela que se tem para consigo mesmo quanto aquela que se tem para com os outros. É nisso que o governo requer liberdade como condição de possibilidade: governar não é governar contra a liberdade ou a despeito da liberdade, mas governar pela liberdade, isto é, agir ativamente no espaço de liberdade dado aos indivíduos para que estes venham a conformar-se por si mesmos a certas normas

(DARDOT; LAVAL, 2016, p. 18-19).

No contexto neoliberal, desobrigando-se o governo do bem-estar social, encoraja-se a cultura da empresa no âmbito pessoal e educacional, motivando cada indivíduo, por meios tanto diretos quanto indiretos, a ser um empreendedor de si, incutindo-lhe a ideia de que sua prosperidade e felicidade dependem apenas dele e de sua suposta liberdade de escolha. São tempos do homo economicus (autogovernado e autointeressado), do lema “time is money”, de uma cultura/mentalidade individualista, narcisista e espetacular, nos quais, muitas vezes, são sufocadas as pequenas possibilidades de existência individual, de ordem ética e estética, de fuga das amarras das relações poder-saber, da biopolítica, das tramas dos micropoderes.

A exploração é feita por meio da liberdade e da autorrealização, não mais como alienação e autodesrealização. “Eu próprio exploro a mim mesmo de boa vontade na fé de que posso me realizar [...]. A liberdade das habilidades gera até mais coações do que o dever disciplinar” (HAN, 2017, p. 116-117), pois este tem um limite, diferentemente da habilidade que está, segundo Han (2017, p. 117), “aberta para elevar-se e crescer” constante e incessantemente. O sujeito atual, do desempenho, está em plena concorrência com os outros, mas principalmente consigo mesmo, e “se vê forçado a superar constantemente a si próprio” (HAN, 2017, p. 99), ou seja, os sujeitos são levados a pensar que são livres, mas, na verdade, são moldados a pensar dessa maneira para fazer certos tipos de escolha. Nessa “nova” forma de governo/governamentalidade, governar humanos “não é esmagar sua capacidade de agir, mas admiti-la e utilizá-la para seus próprios objetivos” (ROSE, 2010, p. 4).

Uma das formas de resistência apontada pelos estudos (pós-) foucaultianos é a vontade de descobrir uma nova forma de governar a si próprio por meio de uma maneira diferente de separar verdadeiro e falso, o que implica entender o presente como um projeto com fim aberto e a liberdade como um processo de luta. Refere-se a pensar COMO resistir ao poder e, ainda, COMO se conduzir sob tais regras, enfim, ter a ética como prática. A essas formas de resistência ao poder, Foucault (2008) denomina contracondutas, tendo particularmente desenvolvido tal noção na obra Segurança, Território e População, na qual o autor desenvolve uma genealogia da forma de saber político centrado nos mecanismos que possibilitam a regulação da população, por meio das condutas dos homens. As formas de controle da população são indissociáveis, em Foucault, da análise das formas de resistência, ou das contracondutas, que lhes correspondem. O autor faz um inventário das principais contracondutas de cada época: da Idade Média e da Idade Moderna, sendo o ascetismo e o cuidado de si formas de contraconduta. Foucault descreveu “a maneira pela qual o indivíduo singular, por meio de um procedimento, [...] conseguiu, de maneira voluntária ou fortuita, ‘escapar’ dos dispositivos de identificação, de classificação e de normalização do discurso” (REVEL, 2005, p. 74).

Em suma, o cuidado de si é concebido como “o ponto de resistência preferencial e útil contra o poder político, e localiza o objetivo político no fomento de novas formas e subjetividade” (ORTEGA, 1999, p. 153) por Foucault, que também defende “a criação de novos esboços de si mesmo que não tenham obrigatoriamente como resultado a formação de um sujeito dócil” (ORTEGA, 1999, p. 154).

Sobre o cuidado de si, convém lembrarmos que, ao longo da História Ocidental, tal prática sofreu variações, por meio de diversas filosofias, exercícios, práticas espirituais e filosóficas, adquirindo outras nuances a cada contexto histórico. Foucault (2010, p. 9) esteve atento a essas transformações, pois “o cuidado de si é uma espécie de aguilhão que deve ser implantado na carne dos homens, cravado na sua existência, e constitui um princípio de agitação, um princípio de movimento, um princípio de permanente inquietude no curso da existência”.

A respeito das transformações sofridas no conceito de cuidado de si, destaca-se a ascensão do ethos mercadológico, associado à figura do homo economicus, tendo foco, atualmente,

[...] na busca pelas necessidades universalizantes de mercado que passam a traduzir a boa existência por meio de critérios como efetividade e produtividade. Por um olhar voltado ao exterior, que retoma o sentido de preparo cristão voltado a uma Verdade que é agora a do Mercado, surgem tempos de profunda individualização – mesmo que a partir de supostas coletividades –, pelos quais a existência laboralmente aceitável se materializa em uma jornada individual, mas de atenção às moralidades neoliberais que devem referenciar o olhar do sujeito sobre si mesmo

(Bocchetti; Bueno, 2019, p. 19).

Inclusive são essas transformações que podemos utilizar para pensar o aqui-agora, no sentido de operarmos de forma crítica (enquanto docentes), para se pensar e, quem sabe, desenvolver subjetividades outras.

Tempo, tempo, tempo, tempo4: materialidade linguística da racionalidade neoliberal

Antes de tecermos a análise, vale mencionar que, do ponto de vista teórico-analítico, situamo-nos na Análise do Discurso francesa (AD) e em ferramentas foucaultianas. Nessa perspectiva, analisar o discurso implica levar em conta o homem na sua história e considerar tanto os processos quanto as condições de produção da linguagem, uma vez que há uma ligação, via língua, entre os sujeitos que falam essa língua e as situações nas quais os depoimentos são produzidos (ORLANDI, 2009).

O corpus5é oriundo de uma tese de doutorado e consiste em entrevistas com 3 (três) participantes, professores de Ensino Superior, do sexo masculino: Gusmão6, professor de 33 anos, licenciado em Física, mestre em Ensino de Ciências, cursando Doutorado também em Ensino de Ciências, que leciona desde 2005 e atua no ensino Superior desde 2013, em uma instituição privada; Tadeu, professor, ex-militar, de 31 anos, graduado em Administração de Empresas, MBA em Gestão de Recursos Humanos e mestrado em Gestão e Desenvolvimento Regional, que leciona no Ensino Superior desde 2010, coordena os cursos de Administração em uma instituição privada, na qual também leciona, atua como consultor em treinamento e desenvolvimento e apoia voluntariamente uma ONG; e Conrado, professor de 62 anos, graduado em Medicina Veterinária, especialista em Biologia Molecular, Mestre e Doutor em Reprodução Animal, que leciona no Ensino Superior há 20 anos e é coordenador de pesquisa, pós-graduação e extensão desde 2007, presidente da comissão de TCC desde 2005 e Editor-chefe das revistas on-line na faculdade privada, na qual leciona há 13 anos.

Passemos, então, à análise de excertos dos depoimentos7.

A administração do tempo é tida como uma grande qualidade/habilidade estreitamente relacionada à eficiência, à eficácia e à produtividade, tão apreciadas no contexto neoliberal. Antes, a pessoa batia o cartão e trabalhava no intervalo do cartão, hoje, com as tecnologias de comunicação e informação, trabalhamos em qualquer lugar, a qualquer hora, por isso precisamos nós mesmos administrar nossa agenda, pois já não contamos mais com o cartão de ponto. Ademais, fala-se muito em empresa de si mesmo, que significa que o próprio sujeito é quem deve decidir como vai distribuir suas atividades. A decisão que antes vinha de fora, estabelecida pelo patrão, pelo relógio de ponto, por exemplo, agora é responsabilidade exclusiva do sujeito.

Quando Gusmão é questionado sobre como cuida de si, a questão do tempo e de sua gestão, diz:

É... eu procuro ter uma... disciplina com o tempo... tenho tempo pra TUDO... então... eu tenho tempo pra fazer exercício... eu tenho tempo pra pra minha família... eu tenho tempo pra estudar... eu tenho tempo pra trabalhar... e isso é muito BEM determinado... e:: a partir do momento que eu falo... bom... das duas da tarde às cinco da tarde eu VOU estudar... eu desligo o CELULAR... eu me FOCO... me CONCENTRO NAQUILO e falo... oh agora é hora de fazer ISSO... e eu não acho que... o... por exemplo... fazer exercício é menos importante que isso... por exemplo... não acho que é... porque muitas vezes a gente TROCA as coisas... não a prioridade agora é essa... eu deixo isso de lado e eu vou fazer isso... a coisa acaba que uma coisa atropelando a outra... então... a partir... esse é a primeira coisa que eu faço é organizar...8

No excerto acima, uma das formas pelas quais Gusmão entende o cuidado (de si) é como administração/esquartejamento do tempo, estratégia que nos remete às técnicas de governamentalidade modernas, ou seja, a vida das pessoas deve ser cronometrada como em uma fábrica e a produtividade deve ser a meta. Tal efeito de sentido emerge da palavra “tempo”, utilizada 6 (seis) vezes, associada ao verbo “ter”, e do uso dos vocábulos “disciplina” e “prioridade” e dos verbos conjugados na primeira pessoa do singular “foco”, “concentro”, ambos acompanhados do pronome reflexivo “me” e do verbo no infinitivo “organizar”. Tal efeito se corporifica também no uso do adjetivo “determinado” enfatizado pelo advérbio “bem” falado com destaque.

Eis a grande novidade da racionalidade neoliberal: “vincular diretamente a maneira como um homem ‘é governado’ à maneira como ele próprio ‘se governa’”, o que é observável não apenas nos depoimentos acima, mas nos demais excertos (DARDOT; LAVAVAL, 2016, p. 332).

Dentro do pensamento neoliberal são construídas teorias e ferramentas de administração do tempo, como a roda da vida9, presente na resposta de Tadeu sobre o cuidado (de si), nas quais o sujeito, que deseja ser eficaz e eficiente, deve fiar-se de modo que todas as atividades que ele precisa realizar estejam supostamente equilibradas, construindo uma roda da vida ponderada e produtiva.

A resposta mais completa que eu encontrei até hoje em relação ao cuidado de si vem de uma vertente de coaching... que...eles usam uma ferramenta chamada a roda da vida... em que... aí cada vertente tem um número diferente de itens pra essa roda da vida... eu já vi com 5 com 7 e até 13... mas que são diferentes aspectos da vida em que você deve manter equilibrados assim como uma roda porque senão ela deixa de ser roda e passa a ser quadrada retangular outra figura geométrica que não gira de maneira fluídica e tranquila... então... o cuidado de si mesmo no meu entendimento é conseguir atentar pra cada um desses pontos dessa roda da vida e tentar na medida do que é possível como humano manter essa roda equilibrada... ela tende a naturalmente se desequilibrar e o nosso esforço tem que ser buscar manter esse equilíbrio... dizendo alguns nãos... pra coisas que às vezes a gente deseja ou que o MUNDO precisa e diz... lutando por alguns sins que são mais difíceis pra gente executar do que alguns não que a gente vai ter que dar... enfim... é manter essa roda girando de maneira saudável...

Nesse trecho, o substantivo “resposta” atrelado ao adjetivo “completa” em sua forma superlativa “mais completa” aponta para a eterna busca, mencionada por Birman (1999), por uma resposta para a pergunta “o que devo fazer?”, confiando na existência de uma fórmula mágica, aqui personificada pela “roda da vida” que amenize todo o mal-estar vivenciado pela “obrigação” de dar conta das múltiplas tarefas que nos impomos/são impostas.

Daí decorre o “surto de aconselhamento” (BAUMAN, 1998), observável no excerto devido à presença da palavra “coaching”, que nos remete à busca por opções que apontem soluções ou “ferramentas” eficientes para as fraquezas e imperfeições humanas, que auxiliem a “manter essa roda [da vida] girando de maneira saudável”, pois ela deve girar de forma “fluídica e tranquila”. A incessante busca por dar conta de tudo, materializada aqui pela repetição da palavra “equilíbrio” e suas derivadas, em especial, no verbo “se desequilibrar” seguido do substantivo “esforço” no trecho “nosso esforço tem de ser buscar manter esse equilíbrio”, é, paradoxalmente, geradora ou intensificadora do mal-estar, pois nos impele a gerir por nós mesmos o mal-estar provocado pelos ISMOS, o que pode chegar a deixar-nos irreconhecíveis a nós mesmos (BALL, 2016). Tal pressão exercida por esse mal-estar vivenciado por Tadeu e por todos nós emerge no desejo de dizer “não” ao “que o MUNDO precisa e diz...”, seguido de uma pausa e sem maiores esclarecimentos sobre o que o mundo precisa e dita. Ainda que usando uma “ferramenta” neoliberal que impõe o modo como usar bem seu tempo, a roda da vida, Tadeu parece tentar afrouxar as amarras “lutando por alguns sins que são mais difíceis pra gente executar”, mas as amarras são fortes e o/nos prendem sem que note(mos) o aprisionamento, afinal, “temos que manter essa roda girando de forma saudável” para que a empresa, o país e o mundo girem também, ou seja, o excerto remete-nos à autorresponsabilização neoliberal.

Tadeu é da área de Administração, e fica evidenciado em seus depoimentos, não só no excerto acima, o quanto sua formação ecoa em sua fala, ou seja, o quanto sua profissão passou por seu corpo e constituiu sua subjetividade. Parece-nos ainda que tal atravessamento faz com que o trabalho seja visto de uma ótica “mais prazerosa” por Tadeu e as questões como a cobrança por produtividade pareçam ser, às vezes, até amenizadas, naturalizadas.

A esse respeito, Dardot e Laval (2016, p. 354) mencionam que foi o modelo de relação social advindo do esporte, o coaching, “talvez mais do que o discurso econômico sobre a competitividade, que permitiu ‘naturalizar’ esse dever de bom desempenho e difundiu nas massas certa normatividade centrada na competitividade generalizada”. Para os autores, o sujeito neoliberal é produzido pelo dispositivo “desempenho/gozo”, o que alguns sociólogos denominam autonomia controlada ou comprometimento coagido, que visa levar o sujeito para um eterno além de si mesmo.

Procurando explorar mais o conceito de “roda da vida”, foi-lhe feita a seguinte pergunta: “você falou que tem alguns elementos essa roda... poderia citar alguns... dessa roda BÁSICA pelo menos?”.

Sim... eu vou citar... eu não vou tendo de cabeça... mas eu posso citar alguns elementos que fazem parte dessa roda da vida do geral e das diferentes que eu já vi até hoje... um deles... trabalho... o segundo... é... família... o terceiro... é:: lazer... aí alguns juntam família com lazer outros separam... é que é um momento se... aí cê tem um momento PESSOAL do seu hobby... cê tem um momento de estudo... cê tem um momento de relacionamento AMOROSO... então... essa roda da vida... as diferentes linhas de roda da vida que existem... cada uma vai fazendo a sua separação pra mostrar essas diferentes faces do indivíduo com a sociedade com ele mesmo com seu tempo pra ver se ele tá dedicando de maneira saudável o tempo a cada uma dessas coisas... DESCANSO... SAÚDE... EXERCÍCIOS... né... é... ALIMENTAÇÃO... então... quer dizer...essa roda da vida cada um compõe da sua forma mas acaba sendo algo que responde a essas diversas faces do ser humano vivendo de maneira plena...

O primeiro aspecto para o qual nos atentamos na lista de elementos citados por Tadeu como componentes da roda da vida é o fato de ele citar o “trabalho” em primeiro lugar. Outro dado interessante é que “alguns juntam família com lazer”, o que nos remete à oposição, à dicotomia entre trabalho, de um lado, e lazer/família/hobby/exercícios, de outro. O tempo aqui deve ser dividido de forma “saudável”, tendo cada “face do ser humano” um “momento” específico para que o ser humano viva “de maneira plena”.

Há uma suposta “liberdade” de escolha na composição dos elementos da roda da vida apontada por Tadeu ao dizer “essa roda da vida cada um compõe da sua forma”. Porém, a conjunção adversativa “mas” seguida por “acaba sendo algo que responde a essas diversas faces do ser humano vivendo de maneira plena...” nos remete, entre outros, a dois aspectos teóricos, à (auto)responsabilização dos sujeitos pelas escolhas feitas (BAUMAN, 1998) e ao homo economicus (PETERS, 2011), estimulado ao autogoverno, a comportamentos autointeressados, trabalhando por seu próprio bem-estar e saúde, mantendo-se produtivo, uma vez que o governo desde a Modernidade terceirizou essa responsabilidade aos cidadãos, de forma nem sempre explícita, por meio de micropoderes. A questão da autorresponsabilização do sujeito também emerge no excerto abaixo, ainda sobre o cuidado (de si), proferido por Tadeu, em especial em “eu vivo um desafio pessoal”.

Ações... Hoje... eu vivo um desafio pessoal de melhorar minha própria... gestão do tempo... tomar decisões mais sábias... eu por muitas vezes tendo a falhar nisso porque eu resolvo fazer mais coisas que o tempo me permite... Na prática... eu preciso aprender a dizer alguns nãos pra mim mesmo e para as outras pessoas pra fazer de pleno coração aquilo que eu me proponho a fazer.... é:: o que são as ações que eu faço que eu me dedico mais hoje...

Observa-se novamente a questão da “gestão do tempo”, ou melhor, da má gestão materializada em “melhorar minha própria gestão do tempo” e “fazer mais coisas que o tempo me permite”, associada ao (não) cuidado (de si). O vocábulo “gestão”, advindo do discurso econômico, é comumente adaptado à vida cotidiana, na qual devemos aprender por nós mesmos a gerir nossas finanças, nossos estudos, nossa saúde, enfim, ser bem-sucedido parece estar atrelado a uma boa gestão do tempo ou, ainda, à sua divisão de forma igualitária a todos os aspectos da vida humana. Nota-se que, uma vez que o indivíduo concorda, inconscientemente, em “entrar na lógica da avaliação e da responsabilidade, não pode mais haver contestação legítima, pelo próprio fato de que é por autocoerção que o sujeito realiza o que se espera dele” (DURANT, 2004, p. 309 apudDARDOT; LAVAL, 2016, p. 363).

O depoimento acima aponta também para a suposta liberdade de escolhas delegada aos sujeitos, sua responsabilização por elas e pelos sucessos e fracassos decorrentes, impostos aos sujeitos pela racionalidade neoliberal, ou seja, a governamentalidade neoliberal “escora-se num quadro normativo global que, em nome da liberdade e apoiando-se nas margens de manobra concedidas aos indivíduos, orienta de maneira nova as condutas, as escolhas e as práticas desses indivíduos” (Dardot; Laval, 2016, p. 21). Aqui esse escoramento é corporificado em “tomar decisões mais sábias”, remetendo-nos ao não dito de que “as decisões atuais não são muito sábias” e em “tendo a falhar”, “eu preciso aprender a dizer alguns nãos para mim mesmo e para as outras pessoas pra fazer de pleno coração aquilo que me proponho a fazer”, que nos conduzem ao não dito de que o sujeito em questão não sabe dizer não, não sabe gerir bem seu tempo e, por isso, não cuida bem (de si).

Os depoimentos de Conrado sobre a vida acadêmica e o cuidado (de si) estão atravessados pela cultura da auditoria e pela autorresponsabilização neoliberal na forma de preocupação com seu currículo ao dizer “tenho publicado, rotineiramente, um artigo internacional e um ou dois nacionais por ano”. Na entrevista, quando questionado sobre as cobranças acadêmicas no Ensino Superior, Conrado respirou fundo, pausou e respondeu:

... eu sempre me cobro mais do que qualquer superior meu pode me cobrar... eu sempre fui muito atento a isso... cobro meus colegas... você mesmo sabe disso (risos)... eu vivo instigando todo mundo... que precisa publicar... que precisa... é:: continuar participando de congressos porque se não... você fica naquele seu mundinho ali... e emburrece no resto... né... ih... então... eu acho que as cobranças são feitas como elas devem ser feitas... precisam ser feitas... estão sendo feitas... mas eu me cobro muito... ah... até porque... eu tenho ORGULHO do que eu faço... orgulho no sentido assim não pejorativo... eu sou VAIDOSO das minhas conquistas na profissão... eu tenho PRAZER de ver que eu consigo crescer a cada ano... né... então... eu acho que a cobrança tem que ter mesmo e se ela não tiver por parte dos nossos superiores... ela tem que existir da nossa parte mesmo...

O excerto acima faz-nos lembrar de que, no regime neoliberal no qual vivemos, a exploração é feita via liberdade e autorrealização, já não mais como alienação e autodesrealização. O sujeito atual, do desempenho, concorre com os outros, mas sobretudo e principalmente consigo mesmo, e “se vê forçado a superar constantemente a si próprio” (HAN, 2017, p. 99). No recorte discursivo acima, tal efeito se materializa nos trechos “eu sempre me cobro mais do que qualquer superior meu pode me cobrar” e “mas eu me cobro muito”, com destaque aos pronomes referentes à 1ª pessoa do singular – eu, me e meu – e à conjunção “mas” usada para enfatizar na linguagem oral.

Em síntese, observa-se nos excertos apresentados a materialização da racionalidade neoliberal nos depoimentos, aquela da produtividade, da eficácia e eficiência, da autorresponsabilização dos sujeitos por seus êxitos e fracassos, eximindo o Estado, as condições sócio-históricas de sua porção de contribuição (ou não) para tais sucessos e falhas, como expandiremos na seção final a seguir.

Algumas considerações: o cuidado de si como possibilidade de produção de contracondutas

A grande questão (da falta) do tempo consistiu em uma regularidade discursiva muito presente ao longo do corpus. Uma das formas de operacionalizar o cuidado (de si) para os entrevistados é o bom gerenciamento do tempo, estratégia neoliberal de controle da conduta dos sujeitos via micropoderes. O sujeito é estimulado/impelido a impor a si mesmo a responsabilidade de gerir bem o seu tempo e arcar com as consequências de seu bom ou mau gerenciamento, em uma época de cultura da auditoria, na qual a produtividade está em voga e o valor das pessoas é medido pelo quanto podem produzir.

Ademais, há a materialização da “ilusão” da busca por equilíbrio, felicidade, prosperidade e perfeição em todas as áreas de nossas vidas, o que ora intensifica o mal-estar daquele que se vê/sente incompetente para dar conta de todas as demandas, ora anestesia outros pela crença de que saber dividir bem seu tempo, por exemplo, utilizando ferramentas de coaching à disposição basta para ser feliz e próspero.

Há o desejo de cuidar(-se) mais e melhor, sendo a boa gestão do tempo vista pelos professores como uma das formas de realizá-lo. Embora tais estratégias estejam permeadas de/por técnicas neoliberais de governamentalidade, visando, de diversas maneiras, conduzir nossas condutas, não objetivamos criticá-las, mas apenas problematizar COMO o uso de técnicas de gestão do tempo, paradoxalmente necessárias para (con/sobre)viver no mundo contemporâneo, nos conduzem de forma sub-reptícia. Nesse contexto, o cuidado de si, no sentido proposto por Foucault, de invenção de novas formas de vida poderia emergir como possibilidade de produzir contracondutas, apostando na relação consigo como uma alternativa, uma forma de resistência diante do poder, cuidado esse, por vezes, sufocado pela competitividade generalizada que nos governa.

Afinal, para Foucault, “as possibilidades reais de resistência começam quando deixamos de perguntar se o poder é bom ou ruim, legítimo ou ilegítimo e o interrogamos ao nível de suas condições de existência” (CASTRO, 2016, p. 387).

4Referência à “Oração ao tempo”, de Caetano Veloso, letra disponível em: https://www.letras.com.br/caetano-veloso/oracao-ao-tempo. Acesso em: jan. 2023.

5Coletado para tese de doutorado de Luciana Aparecida Silva de Azeredo (2018), vinculada à linha de “Educação, linguagens e processos interativos” do Programa de Pós-graduação em Educação da Universidade São Francisco tendo sua coleta sido autorizada por seu Comitê de Ética em Pesquisa da instituição em 12 de novembro de 2015, sob o parecer número 1.322 . Este artigo surgiu das discussões sobre a leitura do livro de Dardot e Laval (2016), realizadas em 2019 no Grupo de Pesquisa Estudos Foucaultianos e Educação (GPEFE).

6Nomes fictícios.

7As entrevistas foram transcritas na íntegra, sem alterações e/ou correções nos dizeres, utilizando a tabela com as “Normas para transcrição de entrevistas gravadas”, disponível ao final do artigo para consulta (Anexo A), proposta pelo Professor Pedro S. Rossi, elaborada com base em PRETI D. (org.) O discurso oral culto 2. ed. São Paulo: Humanitas Publicações – FFLCH/USP, 1999. (Projetos Paralelos. v. 2). Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/1539982/mod_folder/content/0/Regras%20de%20Transcri%C3%A7%C3%A3o.pdf?forcedownload=1. Acesso em: jan. 2016.

8Para diferenciar os excertos analisados das citações diretas com recuo, optamos por trazer os excertos em itálico.

9Sistema de autoavaliação, originalmente desenvolvido pelos hindus, uma ferramenta simples, comumente usada por coaches profissionais para mapear como estão as principais áreas da vida de uma pessoa em um determinado momento. É composta por um círculo com diversas divisões, que se referem a uma esfera da vida considerada fundamental para a conquista do equilíbrio pessoal. Cada esfera deve ser avaliada, atribuindo-lhe uma pontuação de 0 a 10 ou de 0 a 100% que reflita o quanto a pessoa está satisfeita. Depois de mapeadas todas as áreas, analisa-se a roda da vida resultante, com o objetivo de detectar em que área a pessoa precisa focar mais, visando a mudanças na vida como um todo (Adaptado de: http://www.mrcoach.com.br/roda-da-vida.php. Acesso em: jan. 2023).

Referencias

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Anexo A

Normas para transcrição de entrevistas gravadas

Fonte: PRETI D. (org.) O discurso oral culto 2. ed. São Paulo: Humanitas Publicações – FFLCH/USP, 1999. (Projetos Paralelos. v. 2). Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/1539982/mod_folder/content/0/Regras%20de%20Transcri%C3%A7%C3%A3o.pdf ?forcedownload=1. Acesso em: jan. 2016.

Recebido: 24 de Março de 2023; Aceito: 12 de Julho de 2023

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