Introdução
A grandeza da literatura russa está certamente presente na obra de Fiódor Mikhailovitch Dostoiévski. Sua obra ultrapassa o âmbito da literatura e alcança o pensar filosófico. Não se pode ler Dostoiévski sem fazer relações com reflexões filosóficas, pois a sua obra revela com profundidade a condição humana em toda sua dimensão existencial. Conforme explica Kaufmann: “Não vejo razão para chamar Dostoiévski de existencialista, mas acho que a primeira parte de Memórias do subsolo é a melhor abertura já escrita para o existencialismo” (KAUFMANN, 1956, p. 14). Esta citação só reforça o valor filosófico da obra do literato russo, o que motiva desbravar essa obra em especial, ao ponto de tornar mais evidente sua força filosófica.
O tradutor e ensaísta Boris Schnaiderman afirma no prefácio da tradução brasileira de Memórias do subsolo que: “Se Dostoiévski é considerado geralmente como o romancista-filósofo por excelência, Memórias do subsolo é o escrito em que isto se manifesta de modo particularmente intenso” (SCHNAIDEMAN, 2009, p. 7). A intensidade filosófica da obra desperta inúmeras interpretações possíveis para compreender todas as nuances de suas verdades. Apesar da classificação mundial de Dostoiévski como romancista, o seu escrito Memórias do subsolo, o distancia de uma versão romantizada da literatura. Segundo Kaufmann: “O preconceito contra a ciência pode nos lembrar do romantismo; mas as Notas do subsolo são profundamente pouco românticas” (KAUFMANN, 1956, p. 13). O romantismo se caracteriza pela fuga do presente em direção a um mundo de sonho (KAUFMANN, 1956), mas o texto do autor russo demostra toda miséria humana do presente, ele não se furta em descrever com detalhes os males da vida humana.
A grande maioria dos comentadores vê na obra dostoievskiana apenas uma descrição do lado sombrio da vida humana, um pessimismo que vangloria o sofrimento, contudo pretende-se evidenciar o aspecto “psicológico”, existencial e fenomenológico do homem do subsolo. Este artigo tem por objetivo apresentar uma leitura fenomenológica de Memórias do subsolo, para tanto se utiliza da filosofia de Edmund Husserl. O termo psicológico, destacado acima, foi colocado entre aspas intencionalmente, pois há inúmeras discussões sobre a presença da Psicologia na literatura de Dostoiévski. Há também uma relação conflituosa de Edmund Husserl com a Psicologia, o que se expressa em sua crítica ao psicologismo efetuada detalhadamente nos Prolegômenos à Lógica pura das Investigações Lógicas de 1900.
A aproximação entre Dostoiévski e Husserl é reforçada pela leitura de Mikhail Bakhtin ao tratar da subjetividade e suas vivências intencionais descritas principalmente na obra Problemas da poética de Dostoiévski. Embora Bakhtin não cite Husserl nessa obra específica, que teve sua primeira edição em 1929, sob o título de Problemas da obra de Dostoiévski e, a segunda edição, publicada em 1963, a sua análise da literatura do russo se enquadra muito bem na perspectiva fenomenológica. Bakhtin cita Husserl em outra obra, no mesmo ano de publicação do texto citado acima, ou seja, em 1929, na obra Marxismo e filosofia da linguagem.
Primeiramente, Bakhtin reconhece a importância de Husserl como crítico da Psicologia. Ele diz: “No curso dos dois primeiros decênios do século, pudemos assistir a eventos filosóficos e metodológicos da mais alta importância: os trabalhos fundamentais de Husserl, principal representante do antipsicologismo contemporâneo [...]” (BAKHTIN, 2006, p. 55). A leitura de Bakhtin não é propriamente fenomenológica, embora tenha uma influência forte e semelhanças marcantes, ele avança para uma interpretação da consciência individual compreendida como fato socioideológico somente explicável por uma linguística dialógica dada na relação intersubjetiva (OLIVEIRA, 2011).
A metodologia dialógica como base à linguística bakhtiniana significa pensar uma subjetividade voltada ao mundo e ao outro. Conforme explica Oliveira (2011, p. 163):
Emerge desse contexto epistemológico do dialogismo bakhtiniano, portanto, a questão do sujeito, o ser pensante, ora tomado como consciência, autoconsciência, individualidade, psiquismo, Eu, Self, questão que vai ser ampliada por Bakhtin para a noção dialógica do Eu-Outro.
Têm-se aqui dois pontos de aproximação com a fenomenologia de Husserl: primeiro, a lógica, apresentada na obra Investigações Lógicas, é teoria da significação, ou seja, a linguagem também perpassa a filosofia de Husserl e não somente nesse texto, mas mesmo nas Ideias I e na Crise das ciências europeias.
A tradição da discussão filosófica da obra de Dostoiévski parte da relação com a filosofia de Nietzsche e se concentra numa análise moral. Esta relação tem sua razão de ser, pois o próprio Nietzsche cita a obra do russo, aqui estudada, numa carta a Overbeck, de acordo com Schnaiderman: “Um achado fortuito numa livraria: Memórias do subsolo de Dostoiévski (...) A voz do sangue (como denominá-lo de outro modo?) Fez-se ouvir de imediato e minha alegria não teve limites” (DOSTOIÉVSKI, 2009, p. 9, apud Tzevetan Todorov, 1972). Temas como a psicologia, o niilismo, tragédia, moral e Deus (crítica ao cristianismo) perpassam os dois gênios e aparecem em vários comentários que relacionam esses dois autores.
Embora tenha grande relevância o estudo filosófico entre Nietzsche e Dostoiévski, descarta-se aqui a moral, a religião e a tragédia para dar lugar ao aspecto humano, por meio dos temas da consciência, da intersubjetividade, da memória, da razão e da ciência que aproximam e distanciam as visões filosóficas dos pensadores Husserl e Dostoiévski. A maioria dos comentadores, dos filósofos e dos intelectuais concordam com a forte presença da filosofia na literatura de Dostoiévski, e mesmo que a sua literatura possui um pensamento filosófico próprio e original. Todavia o russo se coloca numa posição de modéstia diante da sua literatura filosófica. O filósofo Nicolai Berdiaeff em seu livro L’Esprit de Dostoïevski publicado em 1921 cita a autoanálise despretensiosa de Dostoiévski diante da filosofia: “Sou muito fraco em filosofia (mas não no meu amor por ela, no meu amor por ela, sou forte)” (BERDIAEFF, 1974, p. 37).
Destaca-se uma importante observação, apesar de ver a consciência como olhares diferentes, a consciência e o ser humano nunca deixam de ser o grande ponto de referência de Husserl e de Dostoiévski. A consciência para Dostoiévski é produtora de tormentos e males, já para Husserl, a consciência é produtora de significações intencionais, ela é o campo das vivências puras, uma remete ao lado sombrio e emotivo da existência, o outro quer mostrar o aspecto fundante, filosófico-racional-científico, da vida humana. Não se trata de um distanciamento total entre as visões de mundo aqui brevemente expostas, mas de uma possível aproximação já que consciência, sentimentos, emoções, razão perpassam as duas visões de mundo.
O artigo apresentado pretende fazer um percurso diferente acerca da interpretação filosófica do literato russo, em que o caminho percorrido é o da fenomenologia, em especial, a fenomenologia de Edmund Husserl. Tal empreitada se assemelha aos versos de Camões no sentido de sua novidade, ou seja, as ideais aqui expostas vão “Por mares nunca2 dantes navegados [...]” (CAMÕES, s.d.). Apesar de toda uma tradição de comentários, ter-se-á de abraçar a própria interpretação.
Perspectiva fenomenológico-existencial
A primeira tarefa que aparece ao relacionar neste artigo Husserl e Dostoiévski é a preocupação com o método, afinal a fenomenologia husserliana tem um método bem delineado para tratar dos fenômenos do mundo e da consciência. É preciso definir e diferenciar duas questões de método: primeiro, fazer uma leitura fenomenológica existencial não é tornar o objeto Dostoiévski mira da redução fenomenológica, a fenomenologia já apontou que não podemos tornar a relação com o mundo uma relação objetificante. Segundo, a leitura fenomenológica exige sim um olhar neutralizado que permita ver as coisas tais quais elas são, ver aproximação onde há distanciamento, como é o caso da relação dicotômica sujeito e objeto. Por último, fazer uma leitura fenomenológica não quer dizer aqui criar uma nova filosofia ou trata a literatura como um paciente procurando conselhos. Husserl diz, nas Ideias I, que é mais fácil uma pessoa do senso comum fazer fenomenologia, do que uma pessoa que possui uma ciência. Logo, a pretensão aqui é bem modesta ao deixar apenas transparecer algumas associações.
A fenomenologia de Edmund Husserl não é um existencialismo, tal como apareceu na França com a filosofia de Sartre, Camus e Beauvoir. Não tem a pretensão de explicar o ser-para-a-morte como faz seu aluno Martin Heidegger em sua analítica existencial. Contudo, a filosofia de Husserl é a base para todas essas concepções existencialista, o que por si só já instiga uma análise acerca das origens da preocupação existencial na filosofia contemporânea. Apesar dessas indicações contrárias ao movimento existencialista clássico, a fenomenologia em sua origem é sem dúvidas uma filosofia que pretende explicar a existência. Falar da existência para Husserl é falar da vida da consciência, ou seja, fazer uma descrição transcendental de como o eu se estrutura diante do mundo. A busca em desvendar as vivências intencionais da consciência aparece desde as Investigações Lógicas publicadas em 1900 e vão até seus últimos escritos, como é o caso da obra A crise das ciências europeias e a fenomenologia transcendental de 1936.
Apesar das muitas críticas recebidas de seus discípulos e de comentadores a respeito da redução fenomenológica excluir o mundo fático, Husserl, na obra Krisis3, se aproxima mais do mundo e da existência prática ao tentar mostrar a importância da fenomenologia para uma compreensão ontológica e universal da vida humana. Na esteira dos comentadores que criticam Husserl está Sokolowski que o situa como um racionalista e o distancia da filosofia existencial ao compará-lo com Heidegger: “[...] Husserl é muito mais um racionalista no estilo e no conteúdo de sua obra, enquanto o estilo e o conteúdo dos escritos e ensinamentos de Heidegger engajam o leitor e põem questões existências para ele” (SOKOLOWSKI, 2014, p. 226). Taxar Husserl de racionalista é uma perspectiva muito redutora de sua fenomenologia, seria como dizer que a sua filosofia se aproxima do pensamento moderno, o qual ele se afasta completamente ao inaugurar uma nova ciência, a assim chamada por ele, fenomenologia transcendental.
Na obra Krisis Husserl se preocupa com a crise das ciências e em especial com o ceticismo em relação à Filosofia. Sobre isto ele diz:
Assim, a crise da filosofia significa a crise de todas as ciências modernas enquanto elos da universalidade filosófica, uma crise inicialmente latente, mas que emerge depois cada vez mais à luz do dia, crise da própria humanidade europeia em todo o sentido da sua vida cultural, em toda sua ‘existência’
(HUSSERL, 2008, p. 28).
Torna-se evidente a preocupação existencial da fenomenologia de Husserl, pois muito mais do que uma filosofia voltada ao conhecimento, é uma filosofia voltada pra vida, e apesar de privilegiar o aspecto universal e absoluto da existência, não significa que a vida humana fora deixada de lado, mas significa antes que a pretensão é “ir às coisas mesmas”, o que motiva sua filosofia e a torna uma fenomenologia transcendental ontológica. A fenomenologia de Husserl não descarta o mundo. Ela:
Olha para o ser ‘humano’ como o lugar em que a verdade ocorre. Terminadas todas as investigações-cartesianas anotadas sobre os modos de redução, a fenomenologia está apta a recuperar a antiga questão do ser, que é sempre nova
(SOKOLOWSKI, 2014, p. 73).
Esta citação enfatiza o caráter ontológico da fenomenologia de Husserl, o qual se perdeu com alguns comentadores por causa das críticas de Heidegger. A análise das essências como fundamento ontológico dos fatos é tema tratado na obra Ideen I de 1913, bem antes do retorno ao mundo da vida expresso na obra Krisis. Nesta última, o filósofo se pergunta sobre a incansável objetificação feita pelas ciências positivas em relação a toda existência do mundo dos fatos, ou seja, do mundo espaço-temporal real, como é possível pensar o mundo quando este se encontra perdido em suas constatações aparentes? Husserl indaga: “Será que nos podemos satisfazer com isso, será que podemos viver neste mundo, cujo acontecer histórico não é outra coisa senão um encadeamento interminável de ímpetos ilusórios e amargas decepções?” (HUSSERL, 2008, p. 22). É neste ponto que se insere a perspectiva trágica de Dostoiévski, pois ele mergulha no absurdo da existência, nas suas ilusões e nas decepções. Para o literato, a existência deve ser esquartejada, isto é, descrita, como se diz em fenomenologia. A descrição husserliana tem outra causa, ela concentra-se em descrever o âmbito fundante da consciência transcendental, suas vivências puras, e tornar claras as verdades eidéticas, ou melhor, o sentido (Sinn) do mundo e da consciência.
Se por um lado Dostoiévski mergulha na existência com todas as suas visões negativas da vida prática e teórica, Husserl pensa a existência seja com a faceta trágica ou alegre como vivências fenomenológicas. O que Husserl faz, apesar de citar os maus feitos da guerra e de citar a vida desumanizada imposta pelas ciências, na Krisis, ele tenta ser otimista e construir a fenomenologia como ponto fundante para uma existência esperançosa, ele não aprofunda o pessimismo, ele o ultrapassa para alcançar um otimismo científico e racional. Trata-se de mostrar que são duas soluções diferentes diante do peso da existência, mas que ambas as interpretações de mundo requerem o mesmo ponto em comum: a consciência.
Diante da verdade nua e cruel apontada por Dostoiévski, não se pode negar a sua análise existencial da vida e do humano. “Neste sentido, a busca de Dostoiévski contém o lado, por assim dizer, ‘existencialista’ do seu pensamento, porque está voltado para sustentar e reivindicar a singularidade e existencialidade do homem” (PAREYSON, 2012, p. 42). Destaca-se a existência, a consciência e as vivências como pontos de encontro entre os dois pensadores aqui estudados, mas sem perder de vista as peculiares interpretações de mundo. Dostoiévski com sua interpretação pessimista e obscura da vida humana, e Husserl como sua visão otimista ao direcionar a vida humana à fenomenologia como ciência transcendental.
A perspectiva fenomenológico-existencial da filosofia husserliana não termina com a aplicação do método da redução fenomenológica, a epoché, porque colocar o mundo factual entre parênteses, o mundo psicológico, não implica perder a existência, mas antes ganhar uma nova atitude frente à existência. A epoché seria como uma saída da existência desesperançosa rumo a uma vida otimista e racionalizada. Husserl diz:
Mostrar-se-á talvez mesmo que a atitude fenomenológica total e a epoché que dela faz parte está vocacionada essencialmente, em primeiro lugar, para uma transformação pessoal completa, que seria de comparar principalmente com uma conversão religiosa4, mas que traz em si além disso o significado da maior transformação existencial que incumbe à humanidade como humanidade
(HUSSERL, 2008, p. 151-152).
A redução faz o papel de uma transformação existencial, pois modifica o olhar ingênuo do sujeito perdido no mundo das complicações emocionais e práticas da vida cotidiana para um olhar ontológico-existencial e fundante. Na perspectiva existencial de Dostoiévski, o olhar fenomenológico perante a vida é otimista demais, seria como uma fuga das questões realmente atormentadoras da consciência humana. Por isso, é correto afirmar o caráter trágico de sua literatura:
Contra o fácil otimismo idealista e positivista do Oitocentos, para o qual o mal é apenas um elemento dialético destinado à superação ou um episódio passageiro do triunfal progresso da humanidade, ele recorda que a realidade do mal e da dor, do pecado e do sofrimento, da culpa e da pena, do crime e do castigo, é uma realidade por demais efetiva e iniludível, que confere à condição do homem um caráter eminentemente trágico
(PAREYSON, 2012, p. 41).
A visão de Dostoiévski acerca do positivismo da ciência é a mesma de Husserl, ambos negam tal posição relacionada às ciências. Este ponto em comum entre o filósofo e o literato não significa que tenham o mesmo objetivo como mote, pois para Husserl negar o positivismo é negar a via da ciência da atitude natural, a ciência meramente factual, aquela que “recusa de fato o conhecimento de essências” (HUSSERL, 2006, p. 69). Para Dostoiévski negar o positivismo da ciência é asseverar a possibilidade de algo além da racionalidade, algo como um sentimento trágico da vida que na obra Memórias do subsolo é a única esperança existente para um sujeito em negação à sua fé. O plano geral da obra Memórias do subsolo não está na luta entre ateísmo e fé, mas antes na confrontação da consciência consigo mesma e do sofrimento gratuito e inútil. O que mais importa na obra estudada é ver como a relação consciência, mundo e sofrimento se desenrolam muito mais que buscar uma explicação teológica. Sobre o tema do ateísmo na obra de Dostoiévski, o autor Luigi Pareyson faz uma exposição ao tratar especificamente da obra Os irmãos Karamázov, em especial da personagem Ivan que representa o ateu5.
Para validar a perspectiva fenomenológico-existencial da filosofia de Husserl e encontrar pontos de intersecção desta com o pensamento literário de Dostoiévski torna-se crucial averiguar na obra do literato algum vestígio da visão existencial que se aproxime da fenomenologia. Numa parte do texto o personagem principal diz: “Algo havia em meu íntimo, no fundo do meu coração e da minha consciência, que não queria morrer e se expressava numa angústia abrasadora” (DOSTOIÉVSKI, 2009, p. 124). O tema da consciência é o que aproxima os dois pensadores, pois a vida da consciência e sua autorreflexão constante fazem com que o existencialismo presente em ambos se choque. A espera de algo além da morte, de algo transcendental ou infinito, mostra como o pensamento do literato anseia por um ideal, que no olhar fenomenológico é o de uma consciência pura (transcendental) com seu infinito campo de vivências a serem descrito.
A perspectiva existencial-fenomenológica da obra Memórias do subsolo está pautada na dimensão da consciência e de suas vivências, de suas memórias, fantasias e desejos. Contudo, a essa interpretação deve-se acrescentar a vertente trágica, que pretende desnudar as vivências ruins do indivíduo e de suas relações sociais. Sobre o existencialismo trágico pode-se destacar um trecho do diálogo do personagem principal com Liza:
E entre os ricos será acaso melhor? As pessoas honestas são felizes até mesmo na pobreza. Hum... sim. Pode ser. Mas acontece também o seguinte, Liza: o homem gosta de levar em conta unicamente a sua aflição; não pensa na sua felicidade
(DOSTOIÉVSKI, 2009, p. 111).
Certamente a negação, o mal e o sofrimento preenchem a vida do torturado homem do subsolo, contudo tais experiências também fazem parte das vivências da consciência. Segundo a interpretação apresentada por Luigi Pareyson a tragédia é a verdadeira concepção filosófica de Dostoiévski, contudo discorda-se da relevância da religião na para pensar a obra Memórias do Subsolo. Para Pareyson:
A concepção filosófica de Dostoiévski não é otimista, porque não minimiza a realidade do mal, nem é pessimista, porque não afirma a insuperabilidade do mal: na verdade, ela é trágica, porque, mesmo afirmando a insubsistência ontológica do mal e a vitória final do bem sobre ele, coloca, todavia, a vida do homem sob a insígnia da luta entre bem e mal, a ponto de não restar ao homem outro caminho para o bem a não ser uma dolorosa e sofrida passagem através do mal
(PAREYSON, 2012, p. 73).
Assegura-se a forte relação da fenomenologia de Husserl com a literatura russa representada por Dostoiévski. Esta relação está intrinsecamente pautada no conceito de consciência, seja por seu aspecto otimista ou pessimista, mas ambos se deparam com ela. Ver-se-á como se concretiza esta relação alicerçada na consciência e suas intencionalidades.
A consciência
O tema da consciência é a base fundamental sob a qual se sustenta todo arcabouço conceitual da fenomenologia de Husserl. Mesmo nas Investigações Lógicas de 1900 trata-se de pensar a consciência e seus atos intencionais. Apesar de nessa obra Husserl ainda não ter pensado, ao menos na primeira edição, sobre o ponto de unidade da consciência, denominado, Eu puro6. Não é difícil mostrar a importância da consciência na fenomenologia husserliana, ainda mais por sua dimensão otimista, ou seja, a consciência é a resposta para todos os problemas das ciências e da filosofia. A confiança na consciência é total, e é sobre esta perspectiva que a existência tem salvação, pois é pensada como a chave de acesso para a solução da crise que caminha a humanidade. Segundo Husserl na obra Krisis:
No tempo em que sou fenomenólogo puro ou transcendental, estou exclusivamente na auto-consciência transcendental, e sou o meu tema exclusivamente como ego transcendental, segundo tudo o que nisso está intencionalmente implicado
(HUSSERL, 2008, p. 269).
Fica evidente o papel central da consciência, também chamada nesta obra de autoconsciência transcendental, para designar o âmbito da subjetividade pura do ego. Contrariamente ao pensamento fenomenológico de Husserl, a menção da consciência na literatura de Dostoiévski trás consigo um caráter trágico. Como ele deixa claro em sua primeira menção: “Apesar de tudo, estou firmemente convencido de que não só uma dose muito grande de consciência, mas qualquer consciência, é uma doença” (DOSTOIÉVSKI, 2009, p. 19). Mesmo com essa perspectiva negativa da consciência, porque para o literato a consciência pensada na modernidade é uma exaltação do conhecimento racional e científico, do conhecimento que quer negar a maldade, o erro, e o sofrimento. Trata-se do conflito existente na consciência de todo sujeito que é ser atormentado e parar o tormento. Logo, a consciência do sujeito do literato está negando a consciência moderna racional e científica.
Em outra passagem Dostoiévski diz: “E o principal, o fim derradeiro, está em que tudo isto ocorre segundo leis normais e básicas da consciência hipertrofiada...” (DOSTOIÉVSKI, 2009, p. 20). Uma consciência excessiva, pois subjugada a parte emocional da existência. A consciência interpretada pela visão moderna tenta evitar as emoções, o que Dostoiévski prova ser impossível. A consciência tenta obrigar o sujeito a cumprir regras, condutas morais, como se o ser humano fosse perfeito e nunca pudesse errar. Segundo Pareyson:
Vista nesta sua hipertrofia, a consciência é verdadeiramente uma doença, uma tragédia da personalidade, porque reprime os impulsos e mata a ação, gerando dúvida, a incerteza, a hesitação e, portanto, a infelicidade; provoca a duplicação pois, sobrepondo-se às ações, evoca as possibilidades contrárias e, por isso, ameaça a identidade pessoal
(PAREYSON, 2012, p. 161).
A consciência descrita na literatura de Dostoiévski tem um enfoque moral, contudo ela também é pensada no seu aspecto existencial-ontológico. Para Pareyson: “As Memórias do subsolo apresentam-se, conforme é sabido, como uma análise da consciência, mais precisamente, da consciência solitária e fantasiosa” (PAREYSON, 2012, p. 161). Esta consciência solitária nada mais é do que o voltar-se para si, o voltar-se para sua consciência, num tentativa de autorreflexão. O caráter intencional da consciência é criticado por Dostoiévski (2009, p. 30-31) que diz:
Ah, senhores, é possível, é possível que me considere um homem inteligente apenas porque, em toda vida, não pude começar nem acabar coisa alguma. Admitamos que eu seja um tagarela, um tagarela inofensivo, magoado, como todos nós. Mas que fazer, se a destinação única e direta de todo homem inteligente é apenas a tagarelice, uma intencional transferência do oco ao vazio?
A consciência e sua intencionalidade para o outro, ou a relação do sujeito com ele mesma é conflitante e vazia, como que desesperada por nada avançar. De qualquer forma, a visão nebulosa de Dostoiévski que vê como tagarelice os diálogos intencionais, traz à tona a característica da consciência que reflete, mesmo que o vazio dessa relação seja algo ruim. Em Husserl a consciência também é vazia7 de conteúdo, mas no sentido de não ser uma consciência que acumula imagens ou vivências tal qual pensa a filosofia moderna e algumas vertentes da psicologia que Husserl criticava.
A questão da autorreflexão do eu é explicada por Husserl nas Meditações cartesianas: “γνῶθι σεαυτόν8 – eis que estas palavras délficas ganharam uma nova significação. Ciência positiva é ciência perdida no mundo. Deve-se primeiro perder o mundo, pela epoché, para o ganhar de novo numa auto-reflexão universal” (HUSSERL, 2010, p. 192). A referência ao conhece-te a ti mesmo implica na fenomenologia husserliana um voltar-se sobre si puro, ou seja, um voltar-se para reduzido e aberto ao campo da consciência transcendental.
A consciência pura, como conceito fundante do conhecimento transcendental fenomenológico, também abarca algumas considerações éticas. Husserl escreve à revista Kaizo (1923-1924) um pequeno ensaio no qual inclui o tema da renovação do homem como problema ético-individual. Apesar de não ser a intenção aqui enfatizar o tema moral, este texto acrescenta uma interessante compreensão ao problema da consciência e sua reflexão:
Como ponto de partida, tomamos a capacidade, que pertence à essência do homem, de autoconsciência, no sentido pleno de autoexame (inspectio sui), e a capacidade, nela fundada, de tomar posição retrorreferindo-se reflexivamente à sua vida e, correspondentemente, aos atos pessoais: o autoconhecimento, a autovaloração e a autodeterminação prática (o querer próprio e a autoformação)
(HUSSERL, 2014a, p. 27).
O homem individual tem a possibilidade de se retroreferir a si mesmo, isto quer dizer se autoconhecer através da autoconsciência de si, e mesmo seus atos práticos tem a possibilidade de serem pensados antecipadamente com a autovaloração, ou seja, a capacidade subjetiva de ajuizar entre o bem e o mal. Qualquer pessoa pode passar de uma atitude natural (dada no mundo factual ou pré-fenomenológico) à uma atitude fenomenológica (passar aos estudos da consciência pura) basta estar motivado a fazê-lo. A autoconsciência também é descrita por Dostoiévski, exemplifica-se num diálogo entre o homem do subsolo e Liza, ele a questiona:
Mas o que pensa você? Que está no bom caminho, hem?
Não penso nada.
O ruim justamente é que você não pensa. Volte a si, enquanto é tempo. Pois ainda há tempo. (DOSTOIÉVSKI, 2009, p. 107, grifo nosso)
A concepção de Dostoiévski sobre a consciência na obra Memórias do subsolo aproxima-a de um ato do pensar, ato este que faz o sujeito se indagar acerca dos fundamentos do mundo, e o impões inúmeras dúvidas acerca da existência. É como se a consciência trágica guiasse o sujeito ao plano mais recôndito da vida do eu, o lugar onde se encontram as infinitas incertezas plantadas por um ser de ciência. Ele diz:
Para começar a agir, é preciso, de antemão, estar de todo tranquilo, não conservando quaisquer dúvidas. E como é que eu, por exemplo, me tranquilizarei? Onde estão as minhas causas primeiras, em que me apoie? Onde estão os fundamentos? Onde irei buscá-los? Faço exercício mental e, por conseguinte, em mim, cada causa primeira arrasta imediatamente atrás de si outra, ainda anterior, e assim por diante, até o infinito. Tal é de fato, a essência de toda consciência, do próprio ato de pensar
(DOSTOIÉVSKI, 2009, p. 30).
Nesta concepção a consciência trágica é pensada como consciência refletindo sobre os problemas existências mais diversos e mais obscuros. Dostoiévski pensa ser a consciência a formadora das questões filosóficas mais profundas ao mesmo tempo em que deixa a existência mais enigmática e menos prática. Em outra passagem ele diz: “Vangloria-se da sua consciência, mas, na realidade, apenas vacila, pois embora o seu cérebro funcione, o seu coração está obscurecido pela perversão, e, sem um coração puro, não pode haver consciência plena, correta” (DOSTOIÉVSKI, 2009, p. 52). Na interpretação de Pareyson existe uma cisão da personalidade, diz haver na consciência do humano uma ambiguidade.9 De um lado, há uma consciência ou personalidade boa, e de outro, os aspectos piores do próprio eu. Ele denomina de ego e alter ego (PAREYSON, 2012). Essa visão trágica da própria subjetividade aguça uma vertente moral, contudo, evidencia-se a presença de vivências boas e más na consciência, é isso que a fenomenologia trás de novo, a possibilidade de abarcar em si todas as vivências da existência, sejam elas boas ou ruins, certas ou erradas, claras ou obscuras, e ainda assim pensar um conhecimento transcendental.
Na investigação acerca da natureza da consciência em Husserl e Dostoiévski, apesar das discrepâncias, tem-se algo em comum, trata-se da crítica à psicologia desenvolvida em seus respectivos tempos históricos. Apesar da distancia temporal entre os dois, Dostoiévski nasceu antes de Husserl em 1821 enquanto Husserl nasceu em 1859, 22 anos antes da morte do russo em 1881, a crítica dirigida à psicologia sustentam a mesma argumentação, ou seja, ambos criticam a psicologia fisiologista ou a chamada por Husserl de psicologia descritiva e positiva. No artigo de Robson Santos de Oliveira há uma explicação pertinente ao tema da psicologia que abrange a questão da consciência. Ele diz: “Segundo Bakhtin ainda (2004b, p. 94), Dostoiévski tinha um posicionamento avesso à Psicologia de sua época, segundo a qual a psique humana era coisificada, objetivada numa perspectiva mecanicista, ora pragmática ora fisiologista” (OLIVEIRA, 2011, p. 165). A psicologia positivista é critica por Dostoiévski, o mesmo fará Husserl anos depois, na sua obra filosófica inaugural Investigações Lógicas de 1900.
Nos Prolegômenos à Logica pura texto que antecede as Investigações Lógicas há uma longa crítica às teorias lógicas que usam a psicologia como base. Husserl chama as teorias que usam a psicologia como base de psicologismos. Segundo Husserl no § 38: “Com efeito, o psicologismo, em todas as suas subespécies e formações individuais não é nada mais do que um relativismo, nem sempre reconhecido e expressamente assumido” (HUSSERL, 2014, p. 92). Toda tentativa de associar a lógica à uma consciência psicológica é considerado um relativismo, isto é, uma teoria que tem a verdade por relativa10. Husserl (2014, p. 93) inclui não só a psicologia, mas as filosofias também como formas de psicologismos, como é o caso de parte dos investigadores kantianos, os empiristas ingleses e os autores da nova lógica alemã.
Em resumo, a consciência não pode ser limitada à um processo fisiológico, não pode ser reduzida à pesquisa psicofísica.11 Tanto para Husserl, quanto para Dostoiévski a psicologia positivista (fisiológica e psicofísica) não consegue explanar com consistência todas as esferas da subjetividade. A fenomenologia criada por Husserl deve ser segundo ele a fundamentação metodológica e teórica para todas as ciências: “Ou seja, a fenomenologia é a instância suprema para as questões metodológicas fundamentais da psicologia” (HUSSERL, 2006, p. 181). A consciência para a fenomenologia é muito mais que simplesmente uma experiência interior, é o campo fundante do processo de instauração do sentido do mundo, por isso é denominada consciência pura ou transcendental. Já na visão de Dostoiévski a consciência vai além da física, ou seja, da concepção que exalta a realidade corporal da mente. Ele não se considerava um psicólogo, mas um desbravador da alma humana:
Em defesa do particular estilo dostoievskiano, Bakhtin (2004b, p. 93), revisando a biografia contendo as cartas e notas no caderno de notas de Dostoiévski, extraiu-lhe a seguinte confissão: “Com um realismo pleno, descobrir o homem no homem... Chamam-me de psicólogo: não é verdade, sou apensa um realista no mais alto sentido, ou seja, retrato todas as profundezas da alma humana
(OLIVEIRA, 2011, p. 165).
A chamada ‘alma humana’ para o literato esconde muitas facetas, muitas contradições, contradições reais e perfeitamente aceitáveis ao propósito de toda e qualquer existência humana. A luta da consciência consigo mesma aponta muito mais que uma ambiguidade, como diz Pareyson, não é interessante aqui cindir a consciência em duas partes, mas antes enfatizar, através de uma leitura fenomenológica, as muitas intencionalidades da consciência, que são possíveis atos bons e atos maus, e que todos são verdades de uma consciência que pensa a si mesma. Ele diz logo no começo da obra:
Menti a respeito de mim mesmo quando disse, ainda há pouco, que era funcionário maldoso. Menti de raiva. Eu apenas me divertia, quer com os solicitantes, quer como oficial, mas, na realidade, nunca pude tornar-me mau. A todo momento constatava em mim a existência de muitos e muitos elementos contrários a isso. Sentia que esses elementos contraditórios realmente fervilhavam em mim. Sabia que eles haviam fervilhado a vida toda e que pediam para sair, mas eu não deixava
(DOSTOIÉVSKI, 2009, p. 16).
Como disse o homem do subsolo, ele nunca foi mau, mas antes um sujeito atormentado pelas contradições de sua consciência. Essas contradições podem ser descritas como os muitos sentimentos componentes dos atos da consciência, os chamados por Husserl de dados hyléticos ou materiais da consciência (HUSSERL, 2006). No limite, mostra-se que o homem malvado de Memórias do subsolo não passa de um homem ultrassensível, um existencialista. Um ser humano atormentado pela complexidade da consciência e pela infinidade de vivências intencionais sejam elas vividas de fato, sejam elas sonhadas ou fantasiadas. A interpretação cristã dessa ‘maldade’ não convence numa leitura atenta à obra Memórias do subsolo, também está longe de convencer a ideia psicológica da consciência. Sobre a psicologia diz Pareyson:
Se Dostoiévski se tivesse detido nesta altura, ele teria sido apenas o finíssimo e incomparável psicólogo que todos reconhecem nele. Mas a sua indagação vai além, e é em virtude desse aprofundamento ulterior que ele se tornou um dos cumes da filosofia contemporânea e um imprescindível ponto de referência no debate especulativo do mundo de hoje
(PAREYSON, 2012, p. 169, grifo nosso).
Ao enfatizar o tema da consciência em Husserl e Dostoiévski pode-se averiguar que existem muitos tópicos de convergência, principalmente ao pensar ambos numa consciência que responda as questões fundamentais da existência. Destaca-se o tópico da autoconsciência, como esse voltar-se sobre si e suas vivências, e ainda a crítica à concepção psicológica positivista da consciência. Todos esses tópicos manifestam claramente o inegável mérito da filosofia presente na obra de Dostoiévski, e também de como a obra desse autor merece ser comparada com grandes nomes da filosofia.
A razão
O conhecimento racional no período moderno da filosofia é pautado por uma separação entre empiristas e racionalistas. Evidentemente, em filosofia nada é tão simples e reduzir as filosofias à uma postura única é algo um pouco forçado. Contudo, no geral tais distinções são bem aceitas, a ponto de se entender a filosofia empirista como filosofia que valoriza a experiência e critica a razão. Já a filosofia racionalista, que tem como pai o filósofo Descartes, afirma a razão como conceito importante na compreensão do mundo. Contudo, a filosofia cartesiana não foi tão a fundo, pois afirma Deus como fundamento último da subjetividade. O principal responsável por dar a razão a liberdade filosófica para pensar o sujeito e o mundo de forma crítica foi Kant. Segundo Chatelet: “Se coloquei este título – "Kant, pensador da modernidade" –, é precisamente porque na minha opinião ele fundou o pensamento experimental e, conseqüentemente, o racionalismo crítico” (CHATELET, 1992, p. 118). Depois de Kant, surgiram dois filósofos que negam e criticam o conhecimento racional, o primeiro Schopenhauer foi o mestre intelectual do grande filósofo Nietzsche. Ambos fazem duras críticas à razão, ao conhecimento teórico e à Kant. Neste resgate histórico da filosofia, a fenomenologia de Husserl, que é pensada já como filosofia contemporânea, traça um rumo diferenciado de outros filósofos dessa tradição. Husserl resgata o valor da razão na filosofia, e quer mesmo pensá-la como pensaram os gregos12.
Para Husserl a razão é o ideal do conhecimento filosófico teórico, e por isso, o ideal da ciência fenomenológica transcendental. Ele diz:
A humanidade em geral é, segundo a sua essência, ser homem em humanidades ligadas generativa e socialmente, e, se o homem é ser racional (animal rationale), ele só o é a medida em que toda a humanidade é uma humanidade racional – quer orientada de forma latente para a razão, quer abertamente orientada para a enteléquia que chegou a si mesma, que se tornou manifesta para si mesma e que, doravante, conduzirá conscientemente, numa necessidade essencial, o devir da humanidade. A filosofia, a ciência seria então o movimento histórico da revelação da razão universal, ‘inata’ como tal à humanidade
(HUSSERL, 2008, p. 31).
Husserl acredita que a filosofia é a revelação da razão universal, e que a fenomenologia, como retomada do ideal racional na contemporaneidade é a representante dessa racionalidade na história da filosofia recente. Esse foco de Husserl na razão como solução da crise da humanidade aparece no final da sua vida, antes, ele pensava o conhecimento racional, mas numa vertente mais lógica e não com uma finalidade restauradora do sentido da própria humanidade. Esta retomada da razão como guia da filosofia, não se trata de uma simples retomada do antigo racionalismo (HUSSERL, 2008). A retomada da razão pela fenomenologia é pensada como:
A ratio que está agora em questão não é outra senão a autocompreensão efectivamente universal e efetivamente radical do espírito, na forma da Ciência Universal auto-responsável, em que um modo completamente novo de cientificidade se põe ao caminho e no qual todas as perguntas pensáveis encontram o seu lugar: as perguntas pelo ser e as perguntas pela norma, bem como as perguntas acerca da chamada existência
(HUSSERL, 2008, p. 348).
Para Dostoiévski em Memórias do subsolo, a razão é vista, a princípio, como inimiga, na verdade, há um embate entre a valorização do conhecimento racional e a negação da racionalidade entendida como um menosprezo aos sentimentos e a vida prática. A razão é vista como útil, mas entra em combate com os sentimentos do sujeito. Diz:
Pensai no seguinte: a razão, meus senhores, é coisa boa, não há dúvidas, mas razão é só razão e satisfaz apenas a capacidade racional do homem, enquanto o ato de querer constitui a manifestação de toda a vida, isto é, de toda vida humana, com a razão e com todo coçar-se
(DOSTOIÉVSKI, 2009, p. 41).
O que determina a crítica à razão é a dicotomia entre razão de um lado e sentimentos de outro. A consciência está ligada com evitar os próprios sentimentos e mentir a si mesmo, como nesta passagem:
Mas experimenta apaixonar-te cegamente pelo teu sentimento, sem discussão, sem uma causa primeira, repetindo a consciência ao menos durante esse período. Odeia ou ama, apenas para não ficares sentado de braços cruzados. Depois de amanhã, o mais tardar, começarás a odiar-te, porque ludibriaste a ti mesmo, conscientemente. Resultado: uma bolha de sabão e a inércia
(DOSTOIÉVSKI, 2009, p. 30).
Este abismo entre as emoções e razão faz com que as emoções sejam escravizadas pela racionalidade, qualquer sentimento como apaixonar, amar, odiar deve ser contido para conviver cordialmente na sociedade moderna. Este pensamento que eleva a razão faz parte de todo pensamento filosófico desde Platão. A questão das emoções serem deixadas de lado, mas apesar da razão ser o parâmetro ideal, o homem (e a mulher): “[...] está longe de ter-se acostumado a agir do modo que lhe é indicado pela razão e pelas ciências, mas está convicto de que ele há de se acostumar [...]” (DOSTOIÉVSKI, 2009, p. 37). Diante da dificuldade em viver uma vida social formal e cordial, diante do conflito da consciência que se autopune, a razão é algo que desperta no sujeito ódio de si, por quer que seguir um padrão racional inatingível e ideal.
O pensamento fenomenológico, mesmo o de Husserl, que é caracterizado desejar a razão, não repete o erro da dicotomia razão/emoções. As emoções fazem parte da relação ato-correlato intencional, ela faz parte do ato intencional como conteúdo hylético. O artigo de Natalie Depraz explica bem que as emoções como conteúdos irreais, como aparecem na obra Ideias I, e são vistas a partir da intuição nas Investigações lógicas, ela diz:
As Erlebniss são, portanto, a pedra angular dos atos, em ser ela mesma os atos em si. Tais vivências são primeiramente determinadas como Empfindugsdata, como sensações ou dados sensíveis que formam o conteúdo material do ato primeiramente perceptivo
(DEPRAZ, 2012, p. 51).
O conteúdo material do ato intencional pode ser tanto emoções, como juízos de valor ético e estético, a especialista na fenomenologia de Husserl explora as várias acepções de emoções, pathos e sensações em comparação com diferentes pensadores para mostar que a fenomenologia não distancia razão e sentimentos, porque nenhum ato intencional é desprovido de conteúdo sensível. Depraz ainda menciona que Husserl introduz o conceito de Stimmung nos manuscritos do grupo M ‘Estudos sobre a estrutura da consciência’ (1900-1910). Neles a Stimmung é: “uma mescla de sentimentos variados no interior do fluxo da consciência (M, 90, 90) ou, também, como o escuro plano de fundo (dunkler Hintergrund) de tais sentimentos (M, 95) [...]” (DEPRAZ, 2012, p. 53) Disso pode-se dizer serem os sentimentos em Husserl também um plano que acresce a todo ato racional, pois toda vivência é racionalizada enquanto aparição significativa e transcendental.
Por último, os sentimentos em parte bons em parte maus para Husserl têm uma divisão muito mais fixa e separadas nas Memórias do subsolo de Dostoiévski. Falar em sentimentos é falar necessariamente contra a razão, como ele diz no trecho: “[...] tudo porque o homem, seja ele quem for, sempre e em toda parte gostou de agir a seu bel-prazer e nunca segundo lhe ordena a razão e o interesse [...]” (DOSTOIÉVSKI, 2009, p. 39). Neste trecho fica clara a diferença entre querer e racionalizar, o que implica na consequência de que o querer não está nos atos racionais que nos são impostos para viver como seres sociáveis e pacíficos como exige a vida moderna.
Contudo, fica o questionamento acerca de um trecho que é sequencia deste acima: O querer, a vontade, os sentimentos, depende diabos sabe do que? (DOSTOIÉVSKI, 2009). Talvez a resposta dele seria que depende dessa confusão e dessa luta constante entre razão e vontade. Segue o que talvez responda essa questão e ao mesmo tempo seja um desejo secreto de Dostoiévski (2009, p. 39): “Uma vontade que seja nossa, livre, um capricho nosso, ainda que nos mais absurdos, nossa própria imaginação, mesmo quando excitada até a loucura [...]”. A mistura de sentimentos, a ideia de uma vontade livre e não guiada pela razão e ao mesmo tempo um ato de uma consciência fantástica ou até louca, mostra a complexidade que chegou Dostoiévski para fugir da compreensão de consciência moderna e limitada. Com a fenomenologia de Husserl a consciência e os sentimentos sobrevivem no mesmo campo de vivências transcendentais e que constituem todos os nossos atos noéticos como atos somados aos sentimentos.
Conclui-se que a razão é um conhecimento favorável para a evolução do ser humano, mas ao mesmo tempo prejudicial ao aspecto sensível da existência humana. Para Dostoiévski não se vive só de razão, mas para Husserl a razão é determinante. A fenomenologia de Husserl antes de desprezar as emoções e sentimentos, resgata sua importância para toda apreensão intencional, e para todos os modos da consciência, a razão não se limita à lógica, e a razão não é mais o aspecto dominante da consciência, o ego puro para Husserl é muito mais um caminho de abertura ao vários modos de vivenciar o mundo. Uma consciência racional fenomenológica é também emocional, pois nenhuma consciência transcendental vive sem ser também sujeito que sente. A angústia de Dostoiévski está em não poder ainda desfrutar de uma subjetividade que ultrapassou esse racionalismo moderno. A aproximação com Husserl é que a fenomenologia abre também essa perspectiva existencial, tão preciosa aos herdeiros da tradição fenomenológica e injustamente renegada à Husserl.













