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Conjectura: Filosofia e Educação

versão impressa ISSN 0103-1457versão On-line ISSN 2178-4612

Conjectura: filos. e Educ. vol.28  Caxias do Sul  2023

https://doi.org/10.18226/21784612.v28.e023039 

Entrevistas

Espiritualidade e Educação – a formação continuada e permanente do professor

José Antunes de Souza Pomiecinski1 

Geraldo Antonio Rosa2 

1Licenciado em Filosofia e Pedagogia, Mestre em Educação. Doutorando em Educação pela UCS, pesquisa: Espiritualidade e Educação - a formação continuada e permanente do Professor.

2Doutorado em Teologia - EST (Escola Superior de Teologia). Mestrado em Educação - UNESC. Graduação em Estudos Sociais - UNIFEBE. Desenvolve estudos e pesquisas com temas relacionados ao campo da Filosofia da Educação, interessando-se pela formação de professores, educação popular, movimentos sociais e, também, pelas relações entre religião e educação.


Genézio Darci Boff é o nome civil e de batismo de Leonardo Boff, reconhecido teólogo, professor e escritor de mais de 60 livros na área de Espiritualidade. É brasileiro, catarinense, nascido na cidade de Concórdia em 14 de dezembro de 1938.

No ano de 1959 ingressou na Ordem dos Frades Menores, na qual desenvolveu a formação de Filosofia em Curitiba/PR e Teologia em Petrópolis/RJ. Fez Doutorado em Filosofia e Teologia na Universidade de Munique na Alemanha em 1970.

Na década de 1970 torna-se uma das principais referências na denominada “Teologia da Libertação” no Brasil. A partir de uma ótica teológica que se configurava alinhada com a justiça social, a promoção dos direitos humanos e a libertação de toda forma de opressão. Com sua obra Igreja: Carisma e Poder (1981), Boff passou a ser investigado pela Congregação para a Doutrina da Fé, que na época era coordenada pelo Cardeal Joseph Ratzinger (Papa Bento XVI futuramente), e foi condenado a um ano de silêncio obsequioso3 no ano de 1985. Em 1986, após grande apelo de variados órgãos ao redor do mundo, o silêncio foi revogado, porém em 1992, sob nova ameaça de punição obsequiosa por meio do Vaticano, o então Frei Leonardo Boff renunciou à sua função como padre, tornou-se leigo e continuou seu frutuoso trabalho, também denominado de luta, agora em auditórios do Brasil e do mundo bem como na escrita.

Em 1993 tornou-se professor de Ética, Filosofia da Religião e Ecologia na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) por meio de concurso público.

O presente trabalho tem a intenção de aprofundar a pesquisa, discussão e reflexão sobre o processo de formação do professor no que tange ao seu desenvolvimento conceitual sobre si, aqui denominado espiritualidade. Indo além da versão trabalhada pelas religiões, mas alcançando uma compreensão de um estado de sentir-se bem, trabalhar-se, avaliar-se, em busca e vivência de realização pessoal e profissional. Assim, a problemática parte de: qual possível proposta de formação de professores que traga em seu eixo norteador aspectos relacionados à Espiritualidade e à Educação pode ser construída?

Na sequência apresentamos a entrevista concedida por Leonardo Boff no ano de 2023.

1. Professor Leonardo Boff, qual a sua análise sobre a importância da espiritualidade na educação e na formação docente e como ela se relaciona com a religião, a ética e a cidadania?

Resposta: A espiritualidade é o que dá um sentido maior à vida que vai além desta vida. Ela é anterior à religião, pois esta nasce de uma profunda experiência espiritual. Ela prescreve um modo de viver adequado a esta experiência, é o que a ética pretende. O resultado é a humanização da pessoa e a responsabilidade pela vida em comum que é a cidadania.

2. Quais são os principais desafios e oportunidades para integrar a educação nos diferentes níveis de ensino, ou seja, da Educação Infantil à Superior, e como articulá-la na promoção de uma cultura de paz, justiça e sustentabilidade?

Resposta: A espiritualidade, normalmente, está presente na cultura coletiva. Mas nos tempos modernos predomina a secularização que relegou a espiritualidade para a subjetividade de cada um. O normal seria que em todas as fases da vida, consoante os desafios próprios da idade, estivesse presente a espiritualidade que surge com essas questões que demandam uma resposta: que sentido essa situação que estou vivendo está me proporcionando? Como posso aprender mais dela e fazer-me mais humano?

3. Quais são as principais referências existenciais e teóricometodológicas que inspiram o seu pensamento sobre a espiritualidade e a educação numa perspectiva libertadora?

Resposta: Uma das fontes principais da espiritualidade, e isso é um dado universal, é a compaixão para com quem sofre. A perspectiva de libertação nasceu e nasce dessa experiência. Ela, em primeiro lugar, revela-se como indignação contra a situação sofredora e, em seguida, como vontade de fazer alguma coisa. Pode ser como assistencialismo, doando algo de si, ou de forma libertadora, confiando que a pessoa possui energia e força em si mesma para sair dessa situação, seja individualmente, seja coletivamente. A formulação da Teologia da Libertação na linha de Paulo Freire se resume a esta afirmação: a força histórica dos pobres.

4. Como você vê o futuro e o papel da Igreja e das Universidades num mundo globalizado e pluralista?

Resposta: A Igreja é portadora do legado humanístico de Jesus de Nazaré, aceito como a suprema manifestação de Deus em nossa carne quente e mortal. Considera a prática de Jesus, que foi sempre estar do lado da vida e daqueles que menos vida têm. A Universidade não pode fechar-se na sua bolha. Ela expressa a sociedade na qual está inserida com suas contradições, mas possui também uma dimensão ética de fazer com que o saber acumulado seja benéfico para todos e impedir que se feche nos espaços meramente acadêmicos. O ideal é a troca de saberes: o saber acadêmico escuta o saber popular. Ambos se enriquecem e todos são valorizados em seus respectivos saberes.

5. Quais os desafios de inclusão de debates acerca do fenômeno religioso nas Instituições nos diferentes níveis de ensino?

Resposta: Em primeiro lugar, caberia uma informação, a mais objetiva possível (sem confessionalíssimo), sobre as principais religiões em presença na respectiva sociedade e como se inserem dentro dela.

Mas importante é criar condições para que as pessoas possam ter uma experiência espiritual que se realiza pelo amor ao outro mais outro, pela solidariedade, pela compaixão e pela vontade permanente de sempre melhorar. Por fim, deve-se manter aberta a possibilidade para um futuro maior de nossa história que não encontra nela mesma as respostas que cada ser humano coloca, como: por que estou aqui? Qual o sentido de minha vida? O que posso esperar para além desta vida e semelhantes?

6. Qual a sua análise sobre um certo recuar da Teologia da Libertação e uma certa “apara” de grupos conservadores nas confissões religiosas culminando na Teologia da Prosperidade e no aumento de confissões religiosas neopentecostais?

Resposta: O recuo é só aparente. A Teologia da Libertação se ramificou muito e trocou de lugar social. Nos inícios, era entre professores de Teologia. Hoje ela é vivida e pensada mais nas bases, nos grupos sociais por justiça, por direitos, por preservação da natureza, por cuidado pelas grandes maiorias pobres. Existem várias expressões da Teologia da Libertação: a clássica que discutia a pobreza econômica, depois se deu conta de que a pobreza tem muitas faces e assim surgiu a Teologia da Libertação feminista, dos negros, dos indígenas, dos LGBTI+ etc. Enquanto persistir pobreza como opressão e agressão à vida haverá sempre um movimento de libertação, inspirado em várias fontes, uma delas é a experiência cristã, de fundo profético e orientada pela prática do Jesus histórico e das grandes figuras humanitárias, como Dom Oscar Romero, Dom Helder Câmara, o Papa Francisco e, no passado, a figura do pobre de Assis, São Francisco, o irmão universal.

7. Qual o espaço da religião no século XXI e como você a analisa num cenário de turbulências políticas, sociais e econômicas?

Resposta: As formas religiosas mudam, mas não muda a religião, como todos os grandes estudiosos desse fenômeno atestam. Cada cultura cria sua religião, que é uma espécie de aura que dá um sentido maior à sociedade e ao mundo. Apenas o mundo moderno não criou uma religião que seja religiosa: criou o deus capital, o deus dinheiro com seus sumos sacerdotes e acólitos. Por isso oferece um sentido pequeno e mesquinho para a vida humana: enriquecer, acumular, desfrutar o máximo possível, sem a consciência de que nada disso leva para uma vida além desta vida, caso exista. O que realmente permanece é o amor, a bondade, a solidariedade e o espírito humanitário para com todas as diferentes formas de organizar a vida, pessoal e coletiva. Isso confere dignidade e relevância social às várias religiões, embora muitas delas caiam no fundamentalismo, que é uma doença e não uma sanidade, pois afirma que só a sua verdade é válida e que todas as demais estão no erro e, por isso, devem ser combatidas.

8. Qual a sua mensagem para as Instituições de Ensino, em especial às Universidades, em termos de cumprimento de sua missão e enfrentamento a um paradoxismo do mundo contemporâneo?

Resposta: As Instituições de Ensino não devem se restringir a apenas informar e passar adiante o saber acumulado pelos séculos. Importa, por meio do saber, colocar o desafio de como viver humanamente melhor, como conviver com as diferenças e como ajudar a todos a viver e conviver com sentido, pois passamos uma única vez por este mundo.

3Destituído das funções de magistério e editorial no campo religioso.

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