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Conjectura: Filosofia e Educação

versão impressa ISSN 0103-1457versão On-line ISSN 2178-4612

Conjectura: filos. e Educ. vol.28  Caxias do Sul  2023

https://doi.org/10.18226/21784612.v28.e023001 

Resenhas

HAIDT, Jonathan. A mente moralista: por que pessoas boas são segregadas por política e religião. Rio de Janeiro: Alta Books, 2020.

Walter Valdevino Oliveira Silva1 

Iago Pereira da Silva2 

1Possui Bacharelado em Filosofia pela UNICAMP (1999-2003), Licenciatura em CiênciasBiológicaspelaUniversidade Cruzeiro do Sul(2018-2021), Mestrado em Ética e Filosofia Política pela PUCRS (2003-2005) e Doutorado em Ética e Filosofia pela PUCRS (20052009), com Estágio de Doutorando (bolsa CAPES) na École Normale Supérieure, Paris, França (2006-2007). Foi bolsista CAPES-PNPD no Pós-Doutorado em Filosofia da PU-CRS (2010-2011). É Professor Associado no Departamento de Filosofia da UniversidadeFederal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). É membro do corpo docente do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFRRJ (PPGFIL-UFRRJ), na Linha de Pesquisa Subjetividade, Ética e Política. É líder do Grupo de Pesquisa Contratualismo Moral e Político (CNPq) edo Grupo de Pesquisa Evolução,Moralidadee Política (CNPq).

2Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFRRJ (PPGFil-UFRRJ)

HAIDT, Jonathan. A mente moralista:, por que pessoas boas são segregadas por política e religião. Rio de Janeiro: Alta Books, 2020.


Jonathan David Haidt nasceu em Nova Iorque em 19 de outubro de 1963, em uma família de imigrantes judeus vindos da Rússia e da Polônia. Em 1985, com 22 anos, graduou-se em Filosofia pela Universidade de Yale e, em 1992, com 29 anos, obteve seu Doutorado em Psicologia pela Universidade da Pensilvânia. Em seguida, realizou estudos de Pós-Doutorado na Universidade de Chicago, sob orientação do psicólogo Jonathan Baron e dos antropólogos Alan Fiske e Richard Shweder. Nessa época, realizou estudos de campo no estado de Orissa, na Índia, o que impactou profundamente sua visão sobre como culturas e até mesmo classes sociais distintas enxergam diferentemente a moralidade. Depois de atuar como professor nas universidades de Virgínia e Princeton, atualmente ocupa a cátedra Thomas Cooley Professor de Ethical Leadership na Stern School of Business da Universidade de Nova Iorque.

Haidt é um psicólogo social que está interessado especificamente na psicologia moral, no funcionamento das emoções e em suas implicações para a moralidade e a ideologia política. Haidt desenvolveu a Teoria das Fundações Morais, que pretende explicar o comportamento moral por meio da perspectiva evolutiva. Esta, como veremos, coloca em xeque tanto a visão pedagógica da tradição de Jean Piaget e Lawrence Kohlberg quanto a visão racionalista sobre a moralidade e a política que dominavam o pano de fundo dos debates acadêmicos a partir da década de 1960.

A mente moralista: por que pessoas boas são segregadas por política e religião, livro originalmente publicado em 2012 e lançado e traduzido no Brasil em 2020 pela editora Alta Books, está dividido em três partes, cada uma destinada a apresentar um dos três princípios da psicologia moral: as intuições vêm primeiro, depois o raciocínio estratégico; a moralidade envolve mais do que dano e justiça; e a moralidade agrega e cega.

Para estruturar esses três princípios da psicologia moral, Haidt inspirou-se filosoficamente em David Hume, que propôs que a razão é escrava das paixões, no sentido de que nossas emoções têm primazia frente à nossa razão. Assim, ao longo de sua trajetória acadêmica, realizou inúmeras pesquisas de campo, com entrevistas cujos resultados contrastavam frontalmente com a tradição racionalista filosófica iniciada em Platão e estabelecida por Immanuel Kant, passando pela tradição racionalista na psicologia, com Jean Piaget e Lawrence Kohlberg.

Kohlberg teve influência determinante tanto em diversas teorias políticas, notoriamente as de John Rawls e Jürgen Habermas,3 quanto para as teorias construtivistas e desenvolvimentais de Educação. Ampliando, com algumas pequenas modificações, a teoria do desenvolvimento cognitivo – e, consequentemente, do aprendizado – de Piaget e aplicando-a mais especificamente para o desenvolvimento da moralidade, Kohlberg estabeleceu o que chamou de três níveis do desenvolvimento moral. Primeiro, haveria o nível pré-convencional, no qual as crianças estão submetidas à autoridade externa; depois, o nível convencional, no qual predominam os interesses de grupo e já se iniciam os processos de entendimento de normas sociais; por fim, o nível pós-convencional, no qual “a interação assume a forma de discurso, seja na tentativa de testar ou justificar normas por meio de princípios”.4

Contra essa tradição, Haidt apresenta o que chama de primeiro princípio da psicologia moral: as intuições vêm primeiro, depois o raciocínio estratégico. Para chegar a esse princípio, Haidt diagnosticou que, no geral, os entrevistados de suas pesquisas de campo utilizavam a sua razão, no que concerne aos juízos morais, como post hoc. A função da razão não seria buscar, de maneira imparcial, a verdade moral, mas justificar as nossas intuições morais prévias, que seriam produzidas de forma imediata e automática.

A fim de ilustrar de que forma a nossa vida moral funciona, Haidt fez uso do seguinte raciocínio: nossa forma de pensar moralmente seria como se, cognitivamente, funcionássemos como um elefante, que seria o pensamento “ver-isso”, sendo conduzido por um ginete, o nosso pensamento “pensar-porque”. Como se percebe, o elefante é proporcionalmente muito maior do que o ginete. Se o elefante quiser tomar as rédeas do caminho que quer seguir, não há nada que o ginete possa fazer, a não ser tentar guiar o elefante para que ele não pise nos buracos do caminho que ele já concluiu que irá trilhar.

Notando os aspectos emocionais da nossa moralidade, Haidt saiu do contexto ocidentalizado e universitário de elite dos Estados Unidos e viajou para a Índia com a finalidade de entender melhor como a moral funciona em outros contextos culturais. Ele percebeu que, como as pesquisas de Shweder ao redor do globo haviam previsto, existiriam três tipos de éticas em torno de algumas sociedades: ética da autonomia, ética da comunidade e ética da divindade. A ética, nesse sentido, estende-se para além das questões relacionadas à autonomia do indivíduo.

Assim, Haidt hipotetizou, valendo-se fortemente de elementos da psicologia evolutiva, que existem seis fundações morais originais que funcionam por meio de “gatilhos”. Elas não são inatas em um sentido estrito da palavra. Todos nós as temos, mas elas dependem de grupos, culturas e circunstâncias que despertem esses afetos e sinalizem que algumas fundações têm mais importância do que outras dentro de uma mesma sociedade. Grupos mais conservadores, por exemplo, valorizam mais a bandeira nacional do que grupos progressistas. Progressistas são mais universalistas, no sentido de que se preocupam com coisas que estão mais “fora do próprio grupo” (aceitação de imigrantes, efeitos climáticos) do que conservadores.

As seis fundações traçadas por Haidt são: 1) Cuidado/ Dano, que tem como gatilhos o sofrimento e a angústia, está mais presente em pessoas progressistas e teria aflorado na nossa espécie a partir do desafio adaptativo de cuidar de crianças; 2) Equidade/ Trapaça, que tem como gatilhos originais a trapaça, a cooperação e a decepção, está, também, mais presente em pessoas progressistas e teria surgido na espécie humana a partir dos desafios adaptativos de colher benefícios recíprocos em parcerias; 3) Lealdade/Traição, cujos gatilhos originais são ameaçar ou desafiar um grupo, está mais presente em pessoas mais conservadoras, que geralmente dão um peso maior às “fronteiras” do círculo social restrito em que estão inseridas, e teria surgido a partir do desafio adaptativo de formar coalizões harmoniosas; 4) Autoridade/Subversão, cujos gatilhos originais são os sinais de dominação e submissão, mais presentes em conservadores, como fica evidente se colocarmos em ótica os seus desafios adaptativos, como forjar relacionamentos benéficos dentro de hierarquias; 5) Liberdade/Opressão, cujo gatilho original é a percepção da necessidade de união para impedir ou derrotar tiranias, está mais presente em pessoas progressistas, já que elas se preocupam mais com possíveis opressões e restrições de liberdade, não dando peso maior às fundações de autoridade/subversão, pois a opressão e a coibição da liberdade vêm, geralmente, de figuras que detêm o poder, e o desafio adaptativo dessa fundação é a percepção de sinais de dominação e/ou de supressão; por último, mas não menos importante, a fundação 6) Santidade/Degradação, cujo gatilho original é a percepção de desperdício de produtos e a necessidade de distanciamento de pessoas com doenças transmissíveis e o desafio adaptativo se resume em se afastar de agentes contaminadores.

Haidt, assim, na segunda parte do livro, formulou o segundo princípio da psicologia moral, que se dissocia do racionalismo psicológico de Kohlberg: a moral não se resume ao dano e à justiça. Reduzir as teorias políticas e de desenvolvimento cognitivo e moral à questão da justiça torna muito difícil a compreensão do peso que os comportamentos morais tribais e gregários humanos possuem para alcançarmos consensos e promovermos práticas deliberativas que legitimem sistemas políticos.

Para explicar como se desenvolve o comportamento gregário, Haidt assentou-se na ideia fundamentada nas ciências evolutivas de que o laço moral permitiu o surgimento de grupos que perduraram na história da humanidade e apenas a partir disso foi possível o surgimento de civilizações e nações. O que teria nos motivado a nos alocarmos em grupos teriam sido os desafios adaptativos que tivemos que enfrentar ao longo de milhares de anos do processo evolutivo. Somos fruto da seleção natural individual e em multinível, ou seja, da seleção tanto de indivíduo “contra” indivíduo quanto de grupo “contra” grupo, que, portanto, atuaria não apenas em escala de um para um, mas também em escala grupal. Aqueles grupos que teriam um laço moral mais resistente, que o autor denomina de “capital moral”, seriam os que prosperariam, expulsando indivíduos que não cooperam com o grupo, derrotando, assim, grupos adversários.

Tendo em vista o seu sentido adaptativo, a moral “cola”, porque grupos mais unidos sobrevivem por mais tempo, e “cega”, porque fomos selecionados exatamente por ajuizarmos intuições e inferirmos raciocínios post hoc, com o intuito de proteger o nosso grupo. A partir dessa perspectiva, Haidt define, na terceira parte da obra, o seu terceiro princípio da psicologia moral: a moralidade agrega e cega.

Ao final de A mente moralista, é possível entender melhor os aspectos emocionais da psicologia humana. Com as evidências mostradas nessa obra, é possível inferir que a nossa natureza moral é moralista, não racionalista. Isso significa que nós, como indivíduos, na maioria das vezes, tendemos a defender emocionalmente, com o auxílio da nossa razão, os nossos próprios juízos morais, com o objetivo de defendermos o próprio status individual dentro do grupo e o status desse mesmo grupo. Fica claro, a partir das seis fundações morais, que nossa natureza moral não envolve apenas questões acerca de dano e justiça. A moralidade agrega, porque, pelo ímpeto da sua força, é aceita intersubjetivamente, reunindo pessoas em grupos. A moralidade cega, porque indivíduos que defendiam si mesmos e os seus grupos quase que cegamente foram os que, pelo curso da seleção natural individual e em multinível, se mostraram, dentro do contexto grupal que a nossa espécie viveu e vive, os mais adaptados para lidar com os desafios postos pelo ambiente.

A mente moralista: por que pessoas boas são segregadas por política e religião, sobretudo pela clareza da escrita e pela profusão de fontes citadas para fundamentar os argumentos, é uma leitura essencial tanto para interessados nas áreas da pedagogia, da ética e da filosofia política que se preocupam com a incapacidade interpretativa das teorias políticas normativas quanto para qualquer cidadão que se interesse em entender melhor os conflitos morais e políticos contemporâneos.

Referencias

FINLAYSON, James Gordon. The Habermas – Rawls Debate. New York: Columbia University Press, 2019. [ Links ]

HAIDT, Jonathan. The righteous mind: why good people are divided by politics and religion. New York: Pantheon Books, 2012. [ Links ]

HAIDT, Jonathan. A mente moralista: por que pessoas boas são segregadas por política e religião. Rio de Janeiro: Alta Books, 2020. [ Links ]

Habermas, Jürgen. Lawrence Kohlberg and Neo-Aristotelianism. In: HABERMAS, Jürgen. Habermas, Justification and Application:Remarks on Discourse Ethics. Cambridge: Polity, 1995. [ Links ]

HABERMAS, Jürgen. Desenvolvimento da moral e Identidade do Eu. In: HABERMAS, Jürgen. Para a reconstrução do materialismo histórico. São Paulo: UNESP, 2016 [ Links ]

HABERMAS, Jürgen. Five Approaches to Communicative Reason. Medford: Polity, 2018. [ Links ]

JØRGENSEN, S. (ed.). Moral Development. In: ALLEN, A.; MENDIETA, E. (Eds.). The Cambridge Habermas Lexicon. Cambridge: Cambridge University Press, 2019, p. 275-278. [ Links ]

KOHLBERG, Lawrence. From Is to Ought. In: MISCHEL, T. (Ed.). Cognitive Development and Epistemology. New York: Academic Press, 1971, p. 151-236. [ Links ]

RAWLS, John. Uma teoria da justiça. São Paulo: Martins Fontes, 2016. [ Links ]

Recebido: 27 de Setembro de 2022; Aceito: 29 de Setembro de 2022

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