Introdução
O presente texto é resultado do projeto realizado com uma turma de 15 crianças3 matriculadas na educação infantil de uma escola da rede pública federal de ensino da cidade de Uberlândia, Minas Gerais. As ações desenvolvidas foram construídas com o objetivo de proporcionar para a turma momentos de aprendizagem significativa, de forma prática e lúdica, bem como promover a transformação social a partir do ambiente em que vivemos, modificando hábitos e atitudes em relação à vida humana e à natureza, especialmente no que se refere aos animais que fazem parte da vida cotidiana dos estudantes.
A escola da rede pública federal onde o projeto foi desenvolvido oferece as seguintes etapas de ensino: educação infantil, alfabetização inicial (1º a 3º ano), ensino fundamental (4º a 9º ano) e a modalidade de Educação de Jovens e Adultos (EJA). A educação infantil atende crianças dos quatro aos seis anos de idade. O espaço escolar da educação infantil é composto por sala de aula, biblioteca, brinquedoteca, espaço cultural, sala de atendimento educacional especializado (AEE), anfiteatro e uma área verde, com um gramado e árvores. Na educação infantil, os ambientes e a sala de aula são organizados de maneira acolhedora, sendo que os materiais pedagógicos, brinquedos e livros estão acessíveis às crianças e aos estudantes que realizam o estágio curricular na instituição4.
Levando em consideração as especificidades da instituição em que o projeto foi efetivado e as orientações apresentadas nas diretrizes curriculares nacionais para a educação infantil (Brasil, 2010), que orientam como deve ser realizado o trabalho junto às crianças – de sempre manter a atenção, com acuidade, às suas diferentes manifestações –, no início do ano de 2023, observamos, durante os diálogos, que a turma apresentou, de modo recorrente, interesse pela temática “animais domésticos”. Os estudantes que compõem a turma gostam muito de animais e expressaram o desejo de trazer seu bicho de estimação para participar de um dos momentos da nossa rotina.
Nesse sentido, organizamos um projeto com o intuito de materializar esse desejo dos estudantes no cotidiano escolar. Inicialmente, fizemos um bilhete e enviamos para os responsáveis das crianças, relatando a escuta realizada na turma e o interesse manifestado pelo grupo. Nesse bilhete, convidamos as famílias a participarem conosco do desenvolvimento do projeto e especificamos como os momentos de participação familiar e seu animal doméstico seriam organizados. Enfatizamos a importância do respeito ao horário e ao tempo definido para a participação da família junto com seu animal na escola. Explicamos que os responsáveis só poderiam levar aqueles bichos que não oferecessem risco para os outros estudantes e que seria elaborado um cronograma, de acordo com o interesse das famílias em participarem da ação proposta.
Após o envio do bilhete e da devolutiva das famílias, foram organizados encontros semanais, de acordo com o interesse e disponibilidade apontados pelos responsáveis das crianças. Salientamos que, no decorrer do trabalho, tivemos 11 encontros5 relacionados especificamente à temática. O Quadro 1 apresenta a data em que os momentos foram realizados junto às famílias, a espécie e o nome do animal que participou e o local onde ocorreu cada ação relacionada ao projeto.
Quadro 1 Síntese dos encontros efetivados com as famílias e seus animais domésticos
| Data do encontro com as famílias e seus animais domésticos | Espécie e nome do animal doméstico | Local |
|---|---|---|
| 31/05/2023 | Cachorra: Diana | Escola |
| 02/06/2023 | Jabuti: Pérola | Escola |
| 08/06/2023 | Peixe: Blu Blu | Escola |
| 14/06/2023 | Gato: Dudu | Escola |
| 30/06/2023. | Calopsita: Pavão | Escola |
| 05/07/2023 | Galinha: Cocota | Escola |
| 23/08/2023 | Abelhas da espécie Mandaçaia | Escola |
| 06/09/2023 | Visita técnica | Fazendinha do Camaru em Uberlândia |
| 15/09/2023. | Cachorra: Lilica | Escola |
| 20/09/2023 | Passeio na fazenda | Fazenda Sobradinho |
| Outubro e novembro | Ação realizada pela criança e sua família: construção de maquete acerca do tema do projeto para apresentar na Mostra Pedagógica da educação infantil. | Casa da criança |
| 09/12/23 | Mostra Pedagógica da educação infantil. | Escola |
Fonte: As autoras
O Quadro 1 possibilita visualizar as datas dos encontros e quais as espécies e o nome dos animais que visitaram o espaço escolar. Também exemplifica os locais que visitamos fora da instituição, como a Fazendinha Camaru e a Fazenda Sobradinho (ambas na região de Uberlândia), com intuito de ampliar a vivência das crianças em relação à temática estudada, ou seja, mostrar para a turma como ocorre a manutenção e o cuidado com outros animais, diferentes dos que pudemos conhecer na rotina escolar, durante o desenvolvimento do projeto.
É importante ressaltar que as propostas desenvolvidas dentro da escola ocorreram sempre após o lanche dos estudantes, às 15h. Nesse horário, nos organizávamos para recebermos a visita da família, sentávamos em roda, conversávamos sobre a importância de criarmos hábitos e atitudes responsivas em relação às pessoas e à natureza, ou seja, refletíamos junto com o grupo sobre ações que melhoram o lugar onde vivemos. Discorremos acerca da importância do respeito e cuidado com a vida animal (aprendemos sobre a alimentação, moradia e alguns cuidados básicos com os animais domésticos). Durante a roda também conversamos acerca do nome do animal, sua espécie, o que ele/a gosta de comer e quais são os cuidados com a higiene para mantê-lo/a saudável. Aproveitamos para incentivar as famílias e, especialmente, a criança a contar sobre os cuidados que têm em casa no que se refere à manutenção do seu animal de estimação. Foram momentos de aprendermos juntos, de forma lúdica, prática e transformadora.
O projeto valorizou o engajamento das crianças, mostrando que elas podem participar e contribuir ativamente em um processo de aprendizado coletivo, pois foram proporcionados para a turma momentos de aprendizagem prática, de forma descontraída, que dialogassem com o brincar e o lúdico e impulsionassem a curiosidade, criando um ambiente estimulante e seguro para que as crianças se expressassem, questionassem e fizessem suas próprias conexões.
Assim, mediante o objetivo adotado, utilizamos como abordagem teórica para respaldar nossas ações a Psicologia Histórico-Cultural, alinhando-se, especialmente, às ideias de Lev Vigotski (1987, 2009, 2010, 2012), conforme será apresentado a seguir, pois, em sua teoria sociocultural do desenvolvimento, o autor nos auxilia a efetivar um trabalho na educação infantil de maneira mais coerente, especialmente ao defender que o aprendizado ocorre por meio da interação social; ou seja, o desenvolvimento do indivíduo é resultado das experiências vivenciadas na relação com o outro e com o mundo que o cerca: pressuposto importante para os profissionais que atuam com as crianças.
Pressupostos teóricos
A educação infantil, como uma etapa fundamental para o desenvolvimento integral das crianças, necessita de uma prática pedagógica que priorize o contato com a natureza e ações de valorização da vida humana e animal, pois, com o passar dos anos, houve uma redução considerável do tempo das crianças em ambientes naturais, o que pode prejudicar as interações sociais, bem como a criatividade e o aprendizado.
Nesse sentido, considerando o objetivo do projeto, que consistiu em desenvolver junto aos estudantes hábitos e atitudes mais conscientes em relação às pessoas e à natureza, especialmente no que se refere aos animais que fazem parte da vida cotidiana da turma, utilizamos como referencial teórico a Psicologia Histórico-Cultural e, principalmente, as ideias de Lev Vigotski (1987, 2009, 2010, 2012). Em sua teoria sociocultural do desenvolvimento, o autor explica que o desenvolvimento e a aprendizagem ocorrem por meio das interações que estabelecemos com os pares nos diferentes contextos sociais e culturais em que vivemos.
Para o autor, a aprendizagem mobiliza o desenvolvimento; por isso, a mediação docente e a relação constitutiva entre o sujeito e outro são imprescindíveis para a construção do conhecimento e a formação integral dos estudantes, principalmente no contexto educacional. De acordo com Vigotski (2012):
Se a atividade do homem se reduzisse apenas à reprodução do passado, então seria uma criatura orientada somente para o passado e incapaz de se adaptar ao futuro. É precisamente a atividade criadora do homem que desperta a sua essência que está orientada para o futuro, tornando-o criativo e modificando o seu presente (p. 24).
Desse modo, o teórico defende que o ser humano é capaz de construir suas próprias condições de existência, por meio da atividade criadora, que possui um grande potencial gerador e transformador, mediado pelo processo de significação produzido e presente nas interações que dinamizam semioticamente a consciência, provocando o desenvolvimento psicológico do ser humano (Vigotski, 2009, p. 11).
Assim, apoiados em Lev Vigotski (1987, 2009, 2010, 2012), compreendemos que o sujeito constitui-se na cultura, de acordo com o meio social em que vive; ou seja, o indivíduo se forma e transforma a partir das experiências que fazem parte do seu contexto e, nesse quesito, compreendemos que os momentos vivenciados no projeto “As famílias e seus animais domésticos” puderam ampliar as interações entre as crianças e os adultos e promoveram aprendizados importantes acerca do tema do projeto, como será mostrado no próximo item.
O trabalho efetivado com o grupo de estudantes e suas famílias também remete à ideia de David Lancy (2009), de que as crianças podem aprender por meio da interação com seu ambiente e com os sujeitos que cercam. Assim, o projeto buscou envolver as crianças ativamente, valorizando suas falas e experiências, levando em consideração a visão de Lancy (2009), que afirma que o desenvolvimento infantil está profundamente interligado com o ambiente e as práticas sociais da comunidade.
Nesse quesito, é importante ressaltar que os sujeitos participantes do projeto se envolveram com as propostas efetivadas no decorrer do ano de 2023, criando um ambiente propício à construção de aprendizagens significativas para o grupo, e tiveram o contado direto com diferentes animais. Percebemos que, devido ao modo como as ações foram realizadas, proporcionamos inúmeras experiências de aprendizagem às crianças, propondo ações conectadas aos interesses delas, pois o projeto focou no tema dos animais domésticos, assunto observado como um grande interesse da turma, tornando as atividades mais envolventes e relevantes para elas.
Para organizarmos práticas lúdicas e inclusivas com as crianças e suas famílias e ampliarmos as possibilidades de propostas educativas no cotidiano escolar, efetivamos as ações no decorrer do ano letivo com intuito de alcançar os seguintes objetivos de aprendizagem junto aos sujeitos envolvidos:
Estimular o desenvolvimento da linguagem oral, as conexões e a reflexão, a partir da proposta da criança expor suas opiniões acerca das vivências realizadas junto com as famílias, bem como dela criar possibilidades atitudinais diante de uma situação hipotética de cuidado com os animais, com a natureza e em prol da transformação social no ambiente em que vive.
Estimular atitudes de respeito, de cuidado e de solidariedade na interação com/entre as crianças, a professora e as famílias, incentivando sempre a amizade e o cuidado entre elas.
Propiciar experiências que levem as crianças a refletirem juntas sobre ações que podem ser realizadas de maneira coletiva, no cotidiano escolar e no ambiente em que vivem, respeitando as diferenças.
Proporcionar para a turma momentos de aprendizagem significativa, de forma prática e lúdica.
Trabalhar a socialização e as habilidades relacionadas às diferentes linguagens, estabelecendo conexões entre o vivido e o aprendido.
Estimular a oralidade por meio do diálogo com as crianças.
Trabalhar a interlocução entre comunidade, escola e família, o trabalho colaborativo, a interação social e as possibilidades de transformação social no ambiente em que vivem.
Metodologia
As atividades desenvolvidas a partir do projeto6 “As famílias e seus animais domésticos” estão fundamentadas nas diretrizes curriculares nacionais para a educação infantil (Brasil, 2010) e foram cuidadosamente pensadas sob a perspectiva de uma educação inclusiva, o que permitiu a exploração da complexidade do processo de aprendizagem das crianças da educação infantil em relação à temática estudada com o grupo.
Utilizamos como estratégia metodológica a observação no cotidiano escolar e fizemos fotografias, registro escrito e filmagens das propostas desenvolvidas. Utilizamos alguns instrumentos para encaminhar as ações propostas no projeto: computador, livro, painéis, pincel, tintas e canetas coloridas, caderno de anotações, celular para realizar as fotografias e filmagens, aparelho de som. Para as visitas técnicas, utilizamos o ônibus cedido pela instituição.
Realizamos uma observação atenta no cotidiano escolar, referenciadas pelos estudos de Minayo et al. (2007, p. 70), que explica que essa estratégia metodológica consiste em um processo pelo qual o sujeito assume um papel observador de um cenário social e se posiciona de maneira “direta com seus interlocutores no espaço social em que as observações são realizadas e, na medida do possível, participando da vida social deles, no seu cenário cultural, mas com a finalidade de colher dados e compreender o contexto da pesquisa”. Junto à observação, também efetivamos a escuta acerca dos desejos expressos pela turma, de trazerem seu animal de estimação para participar da rotina escolar. Nesse sentido, desenvolvemos os seguintes procedimentos:
Enviamos para os responsáveis um texto informativo explicando sobre a finalidade do projeto “As famílias e seus animais domésticos” e os convidamos a participarem conosco. No texto, especificamos a organização dos encontros com as famílias no espaço escolar, enfatizamos a respeito do horário e do tempo definido para a visita do animal à escola, explicamos que só poderiam participar aqueles bichos que não oferecessem risco para os estudantes, e que seria montado um cronograma de acordo com o interesse das famílias em participarem da ação proposta. Todas as famílias aceitaram participar do projeto e assinaram o Termo de Compromisso.
Fizemos a tabulação do instrumental enviado para as famílias e organizamos um cronograma de encontros com as famílias dentro do espaço escolar.
Realizamos 11 encontros com as famílias e seus animais domésticos. No momento dos encontros (rodas de diálogos), as famílias e, especialmente, as crianças contaram sobre os cuidados que têm em casa no que se refere à manutenção do seu animal de estimação, sobre o que ele gosta de comer e alguma especificidade ou curiosidade. Abaixo, elencamos alguns momentos vivenciados com as crianças e suas famílias que demonstram a efetivação do trabalho realizado com a turma de segundo período:

Fonte: Acervo das autoras
Figura 1 Encontro com as famílias e seus animais domésticos no espaço escolar (Criança J. M. trouxe a jabuti para passar um período da rotina conosco, em 02/06/2023.
A fotografia acima representa um dos encontros do projeto, a turma já aguardava em roda, quando J. M., com um sorriso radiante no rosto, entrou segurando uma caixa aberta, que revelava o convidado especial do dia: seu jabuti de estimação, que foi colocado no centro da roda. As crianças, curiosas, aglomeraram-se ao redor, os olhos brilhavam de entusiasmo, enquanto J.M. contava sobre os cuidados e a rotina com o jabuti, descrevendo suas refeições e como ele se comportava. Por se tratar de um animal de estimação não tão comum, tivemos muitas perguntas, aproveitamos a oportunidade para falar mais sobre os hábitos e características dos jabutis, permitindo também que as crianças pudessem tocar suavemente sua carapaça, proporcionando assim uma experiência educativa e sensorial que foi muito positiva para a turma.
Foi um momento incrível, pois a turma aprendeu sobre diferentes aspectos relacionados ao cuidado com a vida de um animal, interagiu com os pares e pudemos observar como todos (sem exceção) construíram aprendizagens significativas acerca do tema do projeto.

Fonte: Acervo das autoras
Figura 2 Encontro com as famílias e seus animais domésticos no espaço escolar (criança E. trouxe a calopsita chamada Pavão para passar um período da rotina conosco, em 30/06/2023).
A imagem supracitada foi registrada durante o terceiro encontro, momento em que recebemos a visita da mãe de E., que trouxe uma calopsita chamada Pavão para passar um período da rotina conosco. Como de costume, as crianças estavam muito felizes e cheias de expectativa para o momento do encontro. Assim, nossa roda foi tomada por entusiasmo logo que a gaiola com o pássaro branco adentrou a sala. A turma, imediatamente atraída pela novidade, cercou a gaiola para observar Pavão.
As crianças, com os olhos fixos em Pavão, faziam perguntas sobre o que ele comia, como ele brincava e como ele dormia. Então, E. e sua mãe contaram como cuidavam da calopsita, descrevendo suas refeições de sementes. Contaram que as calopsitas podem também viver soltas, que são aves inteligentes e afetuosas, que podem imitar sons e aprender truques. Posteriormente, tiraram-na da gaiola para um momento muito interessante de interação, no qual ela recebeu carinho e até mesmo pousou no braço de algumas das crianças.
A visita de Pavão foi uma experiência educativa, que misturou alegria e diversão com o aprendizado sobre as características, responsabilidade e o cuidado com os animais.

Fonte: Acervo das autoras
Figura 3 Encontro com as famílias e seus animais domésticos no espaço escolar (criança N. trouxe uma casa de abelhas sem ferrão, da espécie Mandaçaia para passar um período da rotina conosco, em 23/08/2023).
A Figura 3 mostra o momento do encontro em que recebemos o pai do estudante N., que trouxe sua criação de abelhas Mandaçaia, conhecidas por serem nativas e sem ferrão, para ser apresentada à turma. O pai trouxe uma pequena caixa de madeira com um painel transparente que permitia observar de perto as movimentações das abelhas.
As crianças, muito curiosas, logo se reuniram para observar, interessadas, as abelhas dentro da caixa e logo começaram as perguntas. O pai de N. explicou, com muita paciência e entusiasmo, o mundo das abelhas Mandaçaia. A turma ouvia atenta sobre como essas abelhas coletam néctar e pólen, para produzir mel, e como vivem e se organizam dentro da colmeia. A visita encheu a tarde de empolgação e proporcionou valiosos aprendizados e lições sobre a natureza e a grande importância que as abelhas têm.
Articuladas ao desenvolvimento dos encontros efetivados com as famílias no espaço escolar, realizamos duas visitas técnicas, sendo uma em um espaço urbano e outra em uma fazenda localizada na zona rural de Uberlândia, com o intuito de materializar os aprendizados construídos no espaço escolar. Os registros das visitas podem ser visualizados por meio da Figura 4.
A visita à fazendinha do Camaru foi muito especial, pois a turma pôde conhecer, de maneira coletiva, um ambiente diferente da escola e que também valoriza as questões inerentes ao projeto desenvolvido por nós. Pudemos conhecer outros animais, como vacas, bezerros, cavalos e ovelhas. Também observamos de perto plantações de couve, alface e rúcula, uma plantação de girassol e outras que puderam ampliar o repertório cultural das crianças.
Além do passeio realizado no Camaru, fomos a uma fazenda localizada na zona rural de Uberlândia, abaixo pode ser visualizada uma fotografia que demonstra um dos momentos especiais vivenciados pelas crianças no espaço rural.
A visita na fazenda possibilitou momentos incríveis para a turma. Conhecemos um bezerro recém-nascido, vimos um pavão de perto, brincamos junto com galinhas e pintinhos. Pudemos aprender sobre o que esses animais gostam de comer e como podemos cuidar deles. E ainda fizemos um piquenique com alimentos colhidos na fazenda. Foi uma tarde de muita alegria e aprendizado.
Dentre as ações realizadas no decorrer do ano letivo, também fizemos a produção de atividades de leitura, escrita, desenhos e tentativas de escrita acerca das ideias construídas pelas crianças a partir dos encontros realizados com as famílias e seu animal doméstico.
No fim do ano letivo, as crianças, junto com as famílias, também construíram uma maquete acerca do tema do projeto e apresentaram na Mostra Pedagógica da educação infantil realizada na escola. Este foi um momento de partilha dos estudantes ao apresentarem as maquetes, as crianças expressaram alegria e contaram aos participantes, que vieram prestigiar o trabalho realizado, sobre o que aprenderam durante o ano letivo.
No Quadro 2, elencamos também algumas falas dos estudantes que foram compartilhadas no dia da Mostra Pedagógica, por meio de cartazes expostos na parede da sala de aula. Tais falas exemplificam as descobertas realizadas pela turma no decorrer do Projeto “As famílias e seus animais de estimação”. Salientamos que foram verbalizadas pelas crianças durante a roda de conversa realizada no dia 4 de dezembro de 2023, momento em que fizemos um diálogo com elas e perguntamos: o que vocês aprenderam nos encontros realizados sobre o nosso projeto? O intuito da roda de conversa consistiu em compreender o que foi importante para a turma durante a participação nas ações propostas por nós, ou seja, o que as tocou em cada encontro realizado.
Quadro 2 Síntese de falas das crianças sobre o que elas aprenderam a partir do desenvolvimento do projeto
| Falas apresentadas pelas crianças durante a roda de conversa realizada no dia 04 de dezembro de 2023 | Inicial do nome da criança |
|---|---|
| “Aprendi que os cachorros gostam de brincar!” | A. |
| “Aprendi que, se dá comida para o pássaro, ele come! É preciso cuidar dos animais como fazemos com as pessoas.” | E. |
| “O pavão é um tipo de galinha, um pouco mais bravo.” | F. |
| “Os Jabutis gostam de alface.” | J. M. |
| “Os cachorros às vezes correm atrás. Outras vezes não, pois ficam cansados. Eles são muito amigos.” | M. E. |
| “Os gatos fazem xixi quando ficam nervosos.” | M. |
| “Algumas galinhas ficam no colo.” | A. |
| “Nem todas as abelhas têm ferrões. Quando a abelha pica deixa seu órgão na pele da pessoa e a abelha morre.” | N. |
| “Os gatos tomam banho se lambendo com a língua.” | M. |
| “À noite as calopsitas dormem com o olho fechado, mas quando acordam ficam com o olho aberto.” | E. |
| “Quando chegamos perto do pavão… ele corre.” | F. |
| “Aprendi muito com o projeto, mas a melhor parte foi ficar com a família na minha escola.” | N. |
Fonte: As autoras
O Quadro 2 apresenta falas que expressam o envolvimento das crianças com as ações desenvolvidas no projeto. Pudemos observar, por meio da realização do projeto “As famílias e seus animais domésticos”, perspectivas de propiciar às crianças, desde a educação infantil, uma formação voltada para uma perspectiva mais crítica e consciente em relação aos cuidados com o meio em que estão inseridas.
Nesse sentido, defendemos a importância de as questões abordadas por nós, como o cuidado com a vida humana e a natureza, estarem presentes desde o início do processo de escolarização, já que, atualmente, percebemos a necessidade de uma educação que valorize o cuidado e respeite as diferenças culturais, especialmente na sociedade onde vivemos.
Resultados
Por meio das atividades efetivadas a partir do desenvolvimento do projeto “As famílias e seus animais domésticos”, fundamentadas na legislação que orienta o trabalho na educação infantil, foi possível envolver de forma qualitativa a comunidade escolar, especialmente as famílias dos estudantes e promover um ensino-aprendizagem de maneira mais contextualizada com a turma de segundo período, à medida que vivenciamos ações práticas junto aos estudantes.
Durante a efetivação do projeto, as crianças puderam expor o que aprenderam por meio de diferentes linguagens. Ao fim do ano letivo, na Mostra Pedagógica, conhecemos os trabalhos confeccionados pelos estudantes e suas famílias sobre o tema “Animais Domésticos” por meio da exposição e do diálogo com a turma. Assim, consideramos que as ações desenvolvidas com o grupo foram significativas, devido à maneira como as crianças participaram, envolveram-se e demonstraram interesse pelas atividades propostas.
Ao considerarmos a temática desenvolvida com a turma, verificamos a construção de um campo de interações com a sociedade e as culturas; abordamos a complexidade do assunto por meio de aprendizagens processuais, reflexivas e críticas, para as crianças entenderem a sua presença no mundo e repensarem a própria interação com a sociedade.
Apoiados nos estudos de Vigotsky (2010), os momentos experienciados pelas crianças durante o desenvolvimento do projeto mostraram como cada um foi se apropriando e interpretando as relações construídas com seus pares, adultos e a natureza, dando sentido e significado ao que viveram coletivamente. O autor, ao explicar o conceito de vivência (perejivanie em russo), discorre que deve ser compreendida como um processo de interação entre o sujeito e o seu ambiente cultural, social e histórico, não podendo ser interpretada como uma ação solitária, pois se constitui parte das conexões estabelecidas no contexto em que o sujeito vive junto aos pares, conforme pudemos observar durante o desenvolvimento do trabalho com as crianças na turma de segundo período.
No texto A questão do meio na pedologia, publicado em 1934, Vigotski explica “a vivência é uma unidade […], sempre se liga àquilo que está localizado fora da pessoa […] e, por outro lado, está representado como eu vivencio isso, [ou seja, como cada sujeito interpreta e dá sentido e significado ao contexto que vive]” (Vigotski, 2010, p. 686, grifo nosso). Assim, apropriando-nos da Psicologia Histórico-Cultural, pudemos promover momentos de socialização com/entre as crianças, a professora e as famílias, incentivando sempre a amizade e o cuidado entre todos os envolvidos no projeto. Foram propiciadas para a turma vivências que levaram o grupo a refletir sobre ações que podem ser realizadas de maneira coletiva no cotidiano escolar e no ambiente em que vivem, respeitando as diferenças, de forma prática e lúdica. O projeto possibilitou, aos participantes, o estabelecimento de relações com o meio em que vivem, dessa maneira, foi possível verificar no coletivo “a vivência da criança, isto é, de que forma ela toma consciência e concebe [suas conexões com os pares e o mundo], de como ela se relaciona afetivamente para com certo acontecimento” (Vigotski, 2010, p. 686, grifo nosso).
Nesse sentido, verificamos que os objetivos elencados no início do desenvolvimento do projeto7 foram atingidos, por meio dos diálogos realizados, ampliamos e estimulamos o desenvolvimento da linguagem oral, as conexões e a reflexão, a partir das opiniões da própria criança acerca de suas vivências, bem como delas criarem possibilidades atitudinais acerca do cuidado com os animais e com a natureza e em prol da transformação social no ambiente em que vivem.
O desenvolvimento do trabalho com os estudantes também proporcionou a eles estabelecerem conexões entre o vivido e o aprendido, além de possibilitar a interlocução entre comunidade, escola e família. Além disso, o trabalho colaborativo proporcionou ao grupo hábitos e atitudes mais conscientes em relação às pessoas e à natureza, especialmente, no que se refere aos animais que fazem parte da vida cotidiana dos estudantes.
Considerações finais
A partir das vivências com a turma da educação infantil, durante a realização do projeto “As famílias e seus animais domésticos”, pudemos proporcionar momentos práticos que possibilitaram ensinar às crianças sobre o cuidado com o ambiente onde vivemos, pois todos se envolveram bastante.
Ressaltamos que o trabalho construído considerou a vontade das crianças, assim, despertando nelas senso crítico e curiosidade, motivando-as a conhecer mais sobre o mundo e a natureza, além de possibilitar que elas estabelecessem conexões entre o aprendizado escolar e a vida em sociedade.
Verificamos que as crianças experienciaram momentos singulares, nos quais houve um contato significativo com diferentes animais, com a natureza e a sociedade. É importante enfatizar também que a prática desenvolvida proporcionou um aprendizado mútuo, para as crianças, o professor, as famílias e os estagiários que acompanhavam a turma. Por fim, foram vivenciadas atividades práticas, significativas e inclusivas, à medida que tivemos um olhar para as necessidades e vontades dos estudantes, entendendo como eles vivenciam o mundo em que estão inseridos e suas preferências diante dele.
















