Ninguém caminha sem aprender a caminhar,
sem aprender a fazer o caminho caminhando,
refazendo e retocando
o sonho pelo qual se pôs a caminhar.
O ato de caminhar tem sido ressignificado por inúmeros movimentos educacionais ao longo do tempo. Educar é um caminho de busca, de sonhos, de criação, de aprendizagem, de encontrar novos percursos num devir que se configura por meio de processos históricos de lutas e resistências.
A intensidade das palavras de Freire nos convoca a refletir sobre esse caminhar, com o qual podemos percorrer por caminhos diferentes na educação das crianças, oportunizando a formação e atuação docente, a fim de qualificar os percursos realizados pelos diferentes educadores.
Nesse propósito, apresentamos o dossiê temático Educar na(s) infância(s):desafios, experiências e tensões, fruto de um momento significativo formativo durante a proposição do II Congresso Internacional das Infâncias. O evento foi promovido pela Universidade de Caxias do Sul (UCS) em parceria com o Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e o Grupo de Estudos e Pesquisa: Infâncias, Cultura e História (GEPICH).
O objetivo do evento foi promover momentos de aprofundamento teórico-prático, explanação de pesquisas, debates e relatos de experiências, de modo a discutir ações relativas às infâncias, mais especificamente ao período de zero a cinco anos, envolvendo diferentes áreas do conhecimento relacionadas às temáticas da Educação e da Saúde. Nessas temáticas que se entrecruzam, foi contemplado o cotidiano das crianças em ambientes escolares e não escolares, assim como as vivências acadêmicas, de modo a contribuir com novas perspectivas acerca das diferentes infâncias.
Entre os desafios e as possibilidades existentes com as crianças, enfatizamos a conquista no final do século XX com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), Lei nº 9.394/96, e a sua incorporação no cenário educacional brasileiro.
Há movimentos em torno de construir novas práticas educacionais para infância, que, embora ainda carregue marcas das velhas concepções, por meio das ações cotidianas, buscam desconstruir práticas assistencialistas. Embora isso nem sempre se concretize, podemos evidenciar que há uma tomada de consciência cada vez maior, de que as crianças precisam apenas ser cuidadas, mas a elas deve-se abrir um caleidoscópio de possibilidades desafiadoras.
Para aclarar a necessária relação entre educar e cuidar, procura-se dar sentido à educação como um caminho a ser percorrido pela multiplicidade de pensamentos e de ações que se movimentam na sociedade. Desse modo, os trabalhos deste dossiê contam com cinco artigos, com o propósito de discutir com pesquisadores, professores, gestores e estudantes caminhos reflexivos sobre educação e saúde para o desenvolvimento das crianças.
“Notas sobre bebês e seus encontros com a poesia”, de Marli Cristina Tasca Marangoni, Fernanda Gonçalves e Flávia Brocchetto Ramos, apresenta indagações relevantes sobre como se inauguram os contatos de bebê com a linguagem e, notadamente, com a poesia, procurando discutir o encontro de bebês com as linguagens, mais particularmente, com a linguagem literária de natureza poética
O artigo “Brinquedotecas na Saúde e na Educação: desafios contemporâneos”, de Sirlândia Reis de Oliveira Teixeira, discute os desafios contemporâneos que a brinquedoteca ainda precisa vencer nas áreas da saúde e educação. As brinquedotecas, em ambas as áreas, ainda carecem de políticas públicas, de formação, de materiais, de modo a assegurar o processo de desenvolvimento humano, em especial na fase da infância.
“A educação pré-escolar na cidade de Santo André: das iniciativas particulares ao Centro de Recreação Infantil (1954-1969)” é o artigo de Claudia Panizzolo e Luciane Galvão Candido, cujo objetivo é apresentar e problematizar a história das primeiras escolas voltadas às crianças pequenas até a composição da rede andreense de ensino para a infância, responsável por acolher as crianças de quatro a seis anos, entre os anos de 1954 e 1969.
O artigo “Infâncias do sul global: experiências, desafios, tensões”, escrito por Flavio Santiago, Daniela Carolina Ernst e Yeison Arcadio Meneses Copete, apresenta discussões acerca dos estudos referentes à infância e ao quanto esta tem sido historicamente marcada por diferentes concepções e representações acerca do conceito de criança. Visa a ampliar o campo dos estudos acerca da infância do Sul Global, bem como dos estudos de coloniais, que têm estruturado a produção do conhecimento a partir de interlocuções locais e saberes descentrados.
E o último artigo de Núria Frank, intitulado “Literatura y psicomotricidad, un diálogo fértil”, apresenta as discussões de sua palestra no congresso intitulada “Corpo, movimento e ludicidade: interlocuções com a psicomotricidade”, ao evidenciar apontamentos teóricos de diversos autores da educação sobre o jogo e a psicomotricidade estabelecendo, assim, um diálogo provocativo sobre a profissão.
Está lançado o convite. Que a leitura dos estudos propostos neste estudo nos motive a percorrermos, mesmo que por diferentes caminhos, possibilidades e alternativas sobre o que move as infâncias, colaborando para o enriquecimento da profissão docente.













