Introdução
Ao longo dos tempos, os espaços de infância e para infância foram se modificando, acompanhando o progresso e as formas de organização social, política e cultural. Há muito tempo, em grande parte do nosso espaço urbano, sobretudo, a rua não é mais lugar de brincar, os quintais já quase não existem mais, na escola, muitas só permitem brincar na hora do intervalo, os pais não têm tempo físico e nem psicológico para interagir nas brincadeiras... São essas e outras narrativas que fazem parte de um cotidiano comum no século XXI. Neste sentido, a brinquedoteca de certa forma vem para salvar e guardar a infância em tempos de relações cada vez mais remotas e conectadas pelo abstrato. Na direção da humanização, a brinquedoteca é, ainda, um espaço de conexões concretas e vínculos reais mediados pela atmosfera lúdica dos encontros presenciais e das brincadeiras.
Para Teixeira e Oliveira (2023), o espaço de brincar que denominamos brinquedoteca precisa ser capaz de favorecer as atividades lúdicas e garantir que esteja sempre seguro e pronto para a brincadeira acontecer de forma que atenda as necessidades lúdicas das crianças, adolescentes, adultos e idosos nas diversas faixas etárias. Essa é uma definição ampla da palavra brinquedoteca, mas há muitas outras que podem ser definidas segundo o contexto, funcionamento, e faixa etária. Para Cunha (2007) a brinquedoteca é um espaço criado para favorecer as brincadeiras de modo que potencialize e estimule as diversas formas de manifestação das necessidades lúdicas conforme a faixa etária e o sentido que cada um der ao seu brincar nela.
Para compreender como a brinquedoteca pode contribuir com os fazeres da criança, é preciso conhecer sua história, como se constituiu e como se tem sustentado. A história da brinquedoteca revela muito sobre sua importância e sobre as necessidades de se estabelecer como espaço de direito da infância, seja na escola, na sociedade ou no hospital. Assim, a partir de um levantamento bibliográfico, este artigo tem como objetivo discutir os desafios da brinquedoteca na saúde e na educação.
1. Breve história das brinquedoteca no Brasil
A brinquedoteca proporciona às crianças participarem ativamente das suas vivências de brincar, são livres para descobrir novos conceitos, realizar experiências e criar seus próprios significados
Embora não se trate de uma brinquedoteca, fica evidente pelos relatos dos autores como Kuhlmann Junior e Fernandes (2004), que, na década de 1920, já havia no Brasil espaços de brincar nas escolas e esses espaços representavam de algum modo uma forma de respeitar os interesses próprios das crianças como brincar, correr, pular, jogar e construir. O “embrião de brinquedoteca”, aos quais os autores se referem, surgiu no Nordeste, em Pernambuco no Recife, em 1929, por meio da iniciativa do então diretor de escola José Ribeiro Escobar, que, procurando utilizar o brinquedo como suporte pedagógico, justificava o uso do brincar e jogar de forma espontânea e natural. Este dado abre uma perspectiva histórica da utilização de um espaço projetado, no qual os jogos e brinquedos seriam utilizados para desenvolver momentos de brincadeiras livres, mesmo antes do aparecimento da primeira brinquedoteca.
A ideia de um espaço chamado de brinquedoteca, com foco na necessidade de criança com deficiência, surge em 1971, quando na ocasião na inauguração do Centro de Habilitação da Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais – APAE, em São Paulo, foi realizada uma exposição de brinquedos pedagógicos, com o intuito de apresentar aos pais, aos profissionais e aos estudantes as possibilidades dos jogos e brinquedos. O interesse que a exposição despertou foi tamanho que a transformou em um Setor de Recursos Pedagógicos dentro da APAE. Em 1973, o setor implantou um sistema de rodízio de brinquedos e materiais pedagógicos (Cunha, 1992).
Em 1981, a Escola Indianópolis, em São Paulo, especializada no atendimento de crianças com deficiência, cria a primeira brinquedoteca brasileira em escola de educação especial, com objetivos distintos das toy libraries e com características relacionadas às necessidades específicas das crianças que frequentavam a escola, priorizando o ato de brincar, realizando empréstimo de brinquedos e dando assistência direta à criança. Neste caso, esta brinquedoteca atendia exclusivamente os seus alunos, e servia de modelo para profissionais que buscavam a formação na área da brinquedoteca.
As brinquedotecas, como assim reconhecidas, inicialmente, foram criadas para o empréstimo de brinquedos e evoluíram conforme as necessidades dos países e, com esse crescimento, passaram a oferecer uma diversidade de serviços. A brinquedoteca espelha o perfil da comunidade que a criou e estas características estão relacionadas aos contextos, valores culturais e aspectos econômicos e sociais de cada comunidade e de cada País. Para Ramalho (2003), a principal diferença entre as brinquedotecas brasileiras e as estrangeiras é que, no país, a atividade de empréstimo de brinquedos e livros é pouco ofertada. A brinquedoteca é um espaço, para favorecer experiências para que a criança possa brincar livremente e se desenvolver numa forma lúdica, por algumas horas diárias. No quadro 1 a seguir, apresenta-se um resumo cronológico da história das brinquedotecas brasileiras.
Quadro 1 Síntese cronológica da história das brinquedotecas no Brasil
| Ano | Nome | Área | Local |
|---|---|---|---|
| 1920 | Sala de brinquedos | Educação Infantil | Pernambuco (Nordeste) |
| 1971 | Setor de Recursos Pedagógicos |
Deficiência/Inclusão | APAE – São Paulo |
| 1981 | Brinquedoteca | Deficiência/Inclusão | Escola Indianópolis – São Paulo |
| 1982 | Brinquedoteca | Deficiência/Inclusão | Natal – Rio Grande do Norte |
| 1984 | Brinquedoteca/ Laboratório de brinquedos e materiais pedagógicos (LABRIMP) |
Universidade | Faculdade de Educação da USP – São Paulo |
| 1996 | Brinquedoteca | Ensino Fundamental | Escola Municipal Pedro Ernesto – Rio de Janeiro |
| 2000 | Cidade da Criança | Comunitária | Florianópolis – Santa Catarina |
Fonte: Teixeira (2018).
2. Metodologia
Foi realizada uma pesquisa de natureza qualitativa, compreendida como um ensaio de um levantamento bibliográfico. A pesquisa qualitativa envolve o estudo do uso e a coleta de uma variedade de materiais empíricos, estudo de casos; experiência pessoal; introspecção, história de vida; entrevista; artefatos; textos e produções culturais; textos observacionais/registros de campo. Portanto, os pesquisadores dessa área utilizam uma ampla variedade de práticas interpretativas interligadas na esperança de sempre conseguirem compreender melhor o assunto que está ao seu alcance (Denzin; Lincoln, 2006).
Foram analisadas as seguintes categorias: 1. Brinquedoteca; 2. Brinquedoteca Hospitalar e 3. Brinquedoteca na Escola das quais, com base em critérios de inclusão (conceito, desafios atuais) foram selecionados quatorze referenciais teóricos sobre brinquedoteca, brinquedoteca hospitalar e brinquedoteca na escola conforme resultados no quadro 2:
Quadro 2 Categorias e exemplos de trabalhos
| Categorias | Exemplos de trabalhos encontrados |
|---|---|
| BRINQUEDOTECA | Oliveira e Teixeira (2023), Associação Brasileira de Brinquedotecas (2017). |
| BRINQUEDOTECA HOSPITALAR | Carvalho (2009); Barros (2003); Brazelton (2007); Brasil (2005) Oliveira (2011); Souza e Marino (2013); Cunha (2007). |
| BRINQUEDOTECA ESCOLAR | Teixeira e Oliveira (2023); Brasil/SESU (2010); Brougère (2010); Vygotsky (2007); Teixeira (2018) e Panizzolo e Teixeira (2014). |
Fonte: Elaborada pela autora.
Dos quatorze referenciais citados no quadro acima, o recorte temporal foi guiado pelo norte do antes e depois de 2005, marco que sustenta de um lado a obrigatoriedade da Lei Federal 11.104/2005 e do outro o marco de 2010 que sustenta a indicação do SESU da brinquedoteca como um critério de qualidade para o curso ode Pedagogia, conforme discussão abaixo.
2.1 Discussão dos Resultados
Nesse campo, apresentaremos uma discussão de autores, sustentada na experiência prática com brinquedotecas nos campos da saúde e da educação.
2.1.1 Categoria Brinquedoteca
Aos poucos as brinquedotecas no Brasil vão ocupando um lugar de importância em vários cenários e áreas diferentes. Apesar das grandes variedades de tipos de brinquedotecas, há algumas questões que norteiam e definem todas elas a partir das suas especificidades. A fim de esquematizar as diversas modalidades de brinquedotecas, há uma classificação básica, passível de combinações diversas, dependendo dos critérios de organização.
De acordo com Oliveira e Teixeira (2023), podemos definir o tipo de brinquedoteca a partir da faixa etária/do contexto e da forma de funcionamento. 1 – Quanto à faixa etária, podemos ter de forma exclusiva ou combinada: para bebês; crianças; adolescentes; adultos e idosos. 2 – Quanto ao o contexto e finalidade. As modalidades acima descritas podem existir nos mais diversos contextos e com finalidades distintas, como a brinquedoteca Hospitalar, a Escolar, a de Pesquisa, a Terapêutica, a Empresarial, a de Centros de Esporte/Lazer, etc. 3 – Quanto à Operacionalização, em suas múltiplas combinações – Fixa, Móvel, Circulante, Itinerante. Observa-se, portanto, como esta grande diversidade de objetivos e procedimentos das brinquedotecas possibilitam uma rica combinação e uma adequação às mais variadas situações, contextos e formas de funcionamento. O importante, contudo, é manter sempre claros os objetivos básicos de uma brinquedoteca e a prevalência do brincar livre, como recomendado pela Associação Brasileira de Brinquedoteca.
Desde 1984, a ABBri trabalha em benefício da divulgação do brincar, na formação de brinquedistas e auxilia na montagem de brinquedotecas por todo país. A associação é referência nacional em consultoria sobre organização de brinquedotecas e capacitação de brinquedistas e segue os padrões internacionais da ITLA (International Toy Libraries Association), da qual é afiliada
(Associação Brasileira de Brinquedotecas, 2017, p. 2).
A Associação Brasileira de Brinquedotecas é uma instituição que busca garantir o direito da criança brincar livremente em casa, na escola, na rua, no hospital e onde quer que tenha criança o direito de brincar precisa ser respeitado.
2.1.2 Categoria Brinquedoteca Hospitalar
A experiência hospitalar pode debilitar as capacidades físicas, psicomotoras, cognitivas e sociais da criança; romper com os vínculos afetivos ao afastá-la da família, da escola e dos amigos; quebrar as rotinas e atividades lúdicas habituais; mobilizar o medo em relação aos procedimentos médicos, exigindo adaptações significativas ao ambiente hospitalar (Carvalho, 2009).
O período de internação hospitalar pode constituir uma experiência potencialmente assustadora e uma fonte de estresse, ansiedade e medo, porém esse processo também pode ser encarado como algo positivo, à medida que crianças e pais aprendem a dominar os seus receios e ansiedades relativos à estadia hospitalar e, consequentemente, aumentam a autoestima e a maturidade (Barros, 2003; Brazelton, 2007). Para que assim seja, é necessário desenvolver medidas concretas que permitam essa manifestação positiva. Assim, importa compreender em que proporção a hospitalização e a experiência cirúrgica constituem verdadeiras fontes de medo, estresse e ansiedade (Barros, 2003) e, a partir daí, compreender a existência da brinquedoteca como uma das medidas potencialmente capazes de amenizar tais situações que a criança hospitalizada enfrenta.
Pensar no brincar como a possibilidade de humanizar o atendimento à criança hospitalizada é respeitar o seu direito de continuar sendo criança em um ambiente que, embora tenha sido criado para amparar, é estranho ao seu cotidiano. Portanto, é indispensável cumprir a proposição de acolhê-la, pelo menos em parte, neste momento de vulnerabilidade em que ela se encontra, ainda que temporariamente. Contudo, o fato é que estes direitos foram somente assegurados por força da Lei n. 11.104/2005 (Brasil, 2005), aprovada pela Câmara dos Deputados e pelo Senado Federal e sancionada pela Presidência da República. Essa lei obriga os hospitais públicos e privados que atendem a população infantil em regime de internação a instalarem brinquedotecas para serem utilizadas pelas crianças no período de internação, como referem seus artigos destacados, a seguir:
Art. 1º Os hospitais que ofereçam atendimento pediátrico contarão, obrigatoriamente, com brinquedotecas nas suas dependências.
.......................................................................................................
Art. 2º Considera-se brinquedoteca, para os efeitos desta Lei, o espaço provido de brinquedos e jogos educativos, destinado a estimular as crianças e seus acompanhantes a brincar.
(Brasil, 2005).
A Lei não determina que tipo de profissional deve atuar na brinquedoteca nem qual seria sua formação e tampouco menciona a forma de organização desse espaço. Todavia, por se tratar de um ambiente com predisposição para infecções, a brinquedoteca precisa contar com recursos materiais e humanos capazes de favorecer o bem-estar físico, psíquico e social da criança. Assim, é importante que se estabeleçam critérios de organização, para esse ambiente, baseados em propostas de cunho humanista que atendam às demandas e às peculiaridades do ciclo do desenvolvimento humano e, além disso, que sejam montadas equipes com pessoas qualificadas e preparadas para atenderem as demandas oriundas deste local. As atividades na brinquedoteca hospitalar torna a adaptação da criança às rotinas hospitalares mais equilibrada e menos sofrida e, por sua vez, propicia uma reorganização física e emocional desse paciente na busca constante do equilíbrio saudável, prevenindo e combatendo o estresse da hospitalização, assim como resgatando mecanismos saudáveis de auto-organização, em seus aspectos complementares a saúde das crianças (Oliveira, 2011).
A brinquedoteca, no contexto do hospital, tem ação terapêutica e essa ação entende-se para o planejamento e a organização do espaço, tornando-os mais humanizados e promovendo a melhora da qualidade de vida e das relações interpessoais. A brinquedoteca vem-se configurando como um ambiente rico de possibilidades no qual a criança e o seu acompanhante passam por experiências muito significativas durante a estadia hospitalar, sendo este espaço coadjuvante no processo de tratamento e reabilitação da criança. Deste modo, configura-se o brincar no hospital como um importante papel no tratamento da criança e um lugar do fazer humano, onde um profissional da saúde pode avaliar o brincar em seus mais diversos objetivos e formas, podendo, por meio da brincadeira, planejar intervenções adequadas para o desenvolvimento de competências cognitivas, motoras e sociais da criança (Souza; Marino, 2013).
A companhia de um profissional capacitado para atuar na brinquedoteca hospitalar, o qual a Associação Brasileira de Brinquedotecas denomina de brinquedista, pode trazer conforto e segurança para as crianças, fazendo com que todos se tornem parceiros durante a brincadeira. Neste sentido, é importante que o profissional esteja atento para não superproteger, mas também para não propor atividades que possam causar frustração, já que as crianças se encontram em situação de vulnerabilidade psicológica, necessitando serem fortalecidas emocionalmente. Para Cunha (2007), é interessante apresentar diferentes possibilidades de brincadeiras adequadas ao nível de desempenho da criança para que esta se sinta ativa e competente no brincar, o que refletirá nos demais contextos de vida.
O espaço físico da brinquedoteca expressa em sua arquitetura, ambiência e objetos lúdicos a adequação aos direitos da criança; porém, a lei apresenta parâmetros insuficientes para a promoção desse espaço que vem sendo ocupado das mais variadas formas. Diante do exposto, observa-se o desafio de um longo caminho para alcançar resultados mais humanizados no contexto das brinquedotecas hospitalares.
2.1.3 Categoria brinquedoteca escolar
No campo da Educação as atividades lúdicas na brinquedoteca, apresentam-se na forma pedagógica ou livre. Embora não aceite o brincar na forma pedagógica, Brougère (2010) explica que esta aparece quando a atividade é parcial ou totalmente construída conforme a aprendizagem. A preocupação com a formatação da atividade lúdica, para fins educacionais, traduz-se em práticas limitadas das ações do brincar. No entanto, refere-se a uma das muitas possibilidades das formas do uso do jogo ou brinquedo. Neste caso, o objeto lúdico pode potencializar uma aprendizagem escolar, mesmo que os jogadores não estejam necessariamente conscientes do que estão aprendendo enquanto conteúdos, uma vez que estão envolvidos, brincando natural e voluntariamente, de forma consciente, mas não se dão conta das aprendizagens intrínsecas que acontecem ao brincar e jogar. Segundo Vygotsky (2007), isso ocorre porque o brinquedo cria uma zona de desenvolvimento proximal, uma vez que as crianças fazem das brincadeiras uma ponte para o imaginário. Contar e ouvir histórias, dramatizar, jogar, desenhar são formas de elas se relacionarem com os conteúdos da realidade que geram aprendizagem.
As crianças expressam suas criações e emoções, revivem suas alegrias, seus medos e conflitos, resolvendo-os da sua maneira e transformando seu contexto. Neste caso, na brincadeira, ocorrendo na perspectiva do aprender, o papel do pedagogo é de grande importância, já que ele é o mediador das situações lúdicas. A criança brinca sem pressão, mas o professor precisa saber o que está acontecendo na aprendizagem e no desenvolvimento de cada situação lúdica. Para isso, é necessário que o professor conheça bem o brinquedo e/ou o jogo para atuar de forma ativa, ainda que não esteja participando da atividade lúdica. Se o educador participar brincando e/ou jogando, ele terá maior oportunidade de criar vínculos aproximando-se dos seus alunos e compreendendo suas dificuldades e descobrindo suas habilidades, fazendo as intervenções pedagógicas necessárias para o sucesso na aprendizagem (Teixeira, 2018). A autora alerta ainda para a questão de o professor ter de ter cuidado para não tornar esse momento maçante e desmotivador, “pedagogizando” uma atividade livre em que a motivação para continuar “brincando” seja a tônica prevalecente no momento da aprendizagem. Quanto mais o professor conhece a importância do brincar mais ele favorece o brincar livre das crianças sem a sua intervenção. Quando a autora diz “de forma ativa”, há um duplo sentido, pois o professor pode participar ativamente da brincadeira, sendo convidado pela criança ou ele pode dirigir a brincadeira, deixando de ser livre. No entanto, o pedagogo que atua no hospital precisa ter clareza das atividades que favorecem a aprendizagem dentro deste contexto, tem de adaptar suas atividades, pois o mais importante é o bem-estar do paciente e as atividades pedagógicas também necessitam vir ao encontro com a demanda.
Neste contexto é preciso considerar as brinquedotecas na Educação Básica e na Educação Superior. Cada fase escolar necessita ser observada e cuidada dentro da lógica das necessidades do desenvolvimento. Assim, quando da oportunidade de montar a brinquedoteca deve se pensar, conforme dito na categoria brinquedoteca, na faixa etária, no contexto e na modalidade. Salientando que independente do contexto, a brinquedoteca favorecerá sempre pelo brincar livre.
Os espaços de brincar na escola, por natureza do contexto escolar, é comum que os organizadores da brinquedoteca escolar escolham brinquedos que de alguma forma estejam relacionados com a aprendizagem e o desenvolvimento de habilidades e competências próprias de cada série. No entanto, o que é preciso lembrar é que no ato brincar a criança já está aprendendo e se desenvolvimento. Assim, é preciso considerar a importância do tempo de brincadeira e valorizar esse tempo de acordo com as faixas etárias atendidas. No contexto escolar a questão do tempo é muito considerada para as atividades do cronograma e do calendário, mas ao favorecer o brincar e respeitar o tempo de brincar é uma forma de valorizar a infância e promover a saúde mental e física dos seres humanos que passam muito tempo no espaço escolar (Teixeira; Oliveira, 2023).
Para que as brinquedotecas na Educação Básica sejam de fato um espaço que favoreça o brincar é preciso que na formação do professor essa discussão seja pautada de fundamentação reflexiva e prática para que os futuros professores possam se favorecer do brincar no contexto escolar. Entender a lógica do brincar e em que momento o brincar pode ser dirigido e em que momento o brincar precisa ser livre na maior parte do tempo é dar voz e potencializar as experiências das crianças. Neste contexto escolar, merece destaque, ainda, o impacto da valorização das brinquedotecas e de espaços lúdicos no Serviço de Ensino Superior do Ministério da Educação – Sesu/MEC ao considerar como critério de qualidade dos cursos de Pedagogia a presença de laboratórios didáticos com brinquedotecas em seus projetos pedagógicos (Brasil/Sesu, 2010). Assim, toda instituição de Ensino Superior que oferece o curso de Pedagogia precisa ter uma brinquedoteca que é para o curso de Pedagogia um laboratório onde os alunos vão aprender na prática sobre os fazeres da docência e valorizar o brincar na escola. Os desafios neste campo estão relacionados, dentre outras demandas, com a fragilidade das diretrizes para a formação do pedagogo e com a ausência de políticas públicas em prol do direito de brincar nas escolas.
Panizzolo e Teixeira (2014) ressaltam a importância de se compreender a brinquedoteca como parte importante do processo de formação dos professores que atuarão na Educação Infantil, buscando aliar os estudos emergidos a partir das discussões sobre o brincar e a brinquedoteca ao favorecimento de situações de observação, planejamento, entrevistas com as crianças e pautar-se no reconhecimento da criança como sujeito histórico que se apropria e produz cultura e na valorização da infância por meio da atenção aos seus direitos.
Quadro 3 Síntese dos principais desafios da contemporaneidade por categorias, segundo os autores.
| Categorias | Principais desafios da contemporaneidade, segundo os autores | |
|---|---|---|
| BRINQUEDOTECA Oliveira e Teixeira (2023), Associação Brasileira de Brinquedotecas (2017). |
• | Compreender e adequar a diversidade de brinquedotecas, bem como sua organização a partir do contexto, da faixa etária e do funcionamento. |
| BRINQUEDOTECA HOSPITALAR: Carvalho (2009); Barros (2003); Brazelton (2007); BRASIL (2005) Oliveira (2011); Souza e Marino (2013) e Cunha (2007). |
• | A partir da Lei Federal 11.104/2005, ainda na contemporaneidade, a necessidade de considerar a importância do brincar como meio de humanização e assistência à saúde, bem como a busca constante de equilíbrio saudável e prevenção ao estresse causado pela hospitalização; |
| • | Outro ponto foi a ausência do profissional qualificado para gerir a brinquedoteca com base nas necessidades do contexto; | |
| • | Ausência do reconhecimento do direito de brincar no hospital. | |
| BRINQUEDOTECA ESCOLAR: Teixeira e Oliveira,(2023); Brasil/ SESU (2010); Brougère (2010); Vygotsky (2007); Teixeira (2018) e Panizzolo e Teixeira (2014). |
• | Necessidade de favorecer o brincar na educação básica; |
| • | Reconhecimento da importância da brinquedoteca universitária como um critério de qualidade para a formação de Pedagogo; | |
| • | Consolidação de prática pedagógica que favorecer as experiências do brincar no cotidiano da escola. | |
Fonte: Elaborada pela autora
Conclusão
Os resultados da atual pesquisa apontam a necessidade de ampliação e a abertura de horizontes e perspectivas de reflexões sobre a conscientização do quanto o brincar e o espaço da brinquedoteca podem contribuir para melhorar a qualidade do atendimento humanizado das crianças internadas e potencializar as vivências de autorias no espaço escolar.
Apesar de muitos estudos sobre a brinquedoteca na saúde e na educação, os desafios ainda permanecem na contemporaneidade. É preciso deixar esclarecer que a brinquedoteca não vem para substituir o brincar com a natureza, o brincar na rua, em casa ou em espaço natural, mas a sua presença em diferentes contextos cria a oportunidade de brincar, em contrapartida, da ausência de brincar. Atualmente, há uma diversidade de tipos de brinquedotecas para favorecer a brincadeira infantil. Entender como e saber onde surgem estes espaços chamados, no Brasil, de brinquedoteca, favorece a compreensão da dimensão das suas possibilidades em uma perspectiva histórica e cultural do desenvolvimento e da aprendizagem humana. Este espaço, que está muito além de uma simples sala com vários brinquedos, tem suas raízes firmes na história da humanidade e na relação do brincar, como uma das principais necessidades para a infância. Porém, para compreender a importância do brincar é necessário que a criança e seu brincar sejam vistas com a seriedade que merecem. Além disso, as demandas da vida urbana, com seu ritmo intenso e acelerado e o pouco espaço de atenção à ludicidade, tornaram a brinquedoteca, um espaço no qual a criança pode brincar “protegida”.













