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Revista de Ensino de Ciências e Matemática

versão On-line ISSN 2179-426X

Rev. Ensino Ciênc. Mat. vol.14 no.2 São Paulo abr./jun. 2023

https://doi.org/10.26843/rencima.v14n2a08 

Artigos

Sexualidade e diversidade de gênero: o ensino e a visão dos profissionais de educação dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental

Sexuality and gender diversity: the teaching and vision of educational professionals in the Early Years of Basic Education

Sexualidad y diversidad de género: la enseñanza y la visión de los profesionales de la educación en los Primeros Años de la Educación Elemental

Raquel Martini1 

Especialista em Educação e saberes para anos iniciais do Ensino Fundamental.


http://orcid.org/0000-0001-7986-7739

Ítalo Kenne Rakowski2 

Especialista em Educação e saberes para os anos finais do ensino fundamental.


http://orcid.org/0000-0002-1387-7907

Amílcar Cardoso Vilaça de Freitas3 

Doutor em Sociologia e Antropologia.


http://orcid.org/0000-0002-9927-1868

Wemerson de Castro Oliveira4 

Doutor em Microbiologia Agrícola.


http://orcid.org/0000-0001-7256-265X

1Professora da Escola Estadual de Ensino Médio Santo Antônio (EEEMSA). Rio Grande do Sul, Brasil. kewmartini@hotmail.com

2Professor da Escola Municipal de Ensino Fundamental Dom Pedro I (EMEFDP). Rio Grande do Sul, Brasil. italo.rakowski@gmail.com

3Professor do Departamento de Ensino, Pesquisa e Extensão (DEPEX) do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-Grandense (IFSul). Rio Grande do Sul, Brasil. amilcarfreitas@ifsul.edu.br

4Professor do departamento de Ensino, Pesquisa e extensão (DEPEX) do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Sul-Rio-Grandense (IFSul). Rio Grande do Sul, Brasil. wemersonoliveira@ifsul.edu.br


Resumo

O ensino da sexualidade é citado como necessário no ambiente escolar, principalmente na educação infantil, sendo um tema importante a ser trabalhado com as crianças. Entretanto, há uma resistência familiar, dos profissionais de educação, das religiões e empecilhos políticos em relação a abordagem dessa temática. Objetivou-se explorar a visão pessoal dos profissionais da educação sobre a sexualidade e diversidade de gênero e o ensino destes no ambiente escolar. Realizouse uma pesquisa qualitativa descritiva utilizando questionários semiestruturados. O perfil do público analisado é conservador e que tende a refletir no ensino e na transmissão de informações sobre sexualidade e diversidade de gênero no ambiente escolar. Concluiu-se que é preciso mudar a forma de se pensar a sexualidade no meio acadêmico, familiar, religioso e político e a escola precisa oportunizar situações envolvendo a orientação sobre a temática.

Palavras-chave Educação Sexual; Educadores; Formação

Abstract

The teaching of sexuality is cited as necessary in the school environment, especially in early childhood education, being an important theme to be developed with children. Nevertheless, there is resistance from families, education professionals, religions, and political obstacles to addressing this issue. This study sought to explore the personal view of education professionals on sexuality and gender diversity and their teaching in the school environment. Descriptive qualitative research was performed using semi-structured data. The public analyzed is conservative and tends to reflect on the teaching and transmission of information about sexuality and gender diversity in the school environment. We concluded that the way of thinking about sexuality must be changed in the academic, family, religious, and political environments and that the school must provide opportunities for situations involving guidance on the subject.

Keywords Sex Education; Educators; Training

Resumen

La enseñanza de la sexualidad se cita como necesaria en el ámbito escolar, especialmente en la educación infantil, siendo un tema importante a trabajar con los niños. Sin embargo, existe resistencia por parte de las familias, los profesionales de la educación, las religiones y los obstáculos políticos para abordar este tema. El objetivo fue explorar la visión personal de los profesionales de la educación sobre la sexualidad y diversidad de género y su enseñanza en el ámbito escolar. Se realizó una investigación cualitativa descriptiva mediante cuestionarios semiestructurados. El perfil del público analizado es conservador y que tiende a reflexionar sobre la enseñanza y la transmisión de información sobre sexualidad y diversidad de género en el ámbito escolar. Se concluyó que es necesario cambiar la forma de pensar sobre la sexualidad en el ámbito académico, familiar, religioso y político y las escuelas necesitan propiciar oportunidades para orientar sobre el tema.

Palabras clave Educación Sexual; Educadores; Formación

1 Introdução

Tratar de sexualidade e diversidade de gênero nem sempre é fácil e enfrenta resistência quando se refere à sua inclusão no currículo escolar. Dois fatores estão atrelados à dificuldade do ensino desses temas: a resistência familiar e a falta de preparo dos profissionais da educação (MULLER, 2013), já que muitos não possuem formação ao longo da sua vida acadêmica para o ensino da Educação Sexual (FARIAS, 2007). Apesar disso, na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o ensino de Ciências da Natureza do ensino fundamental, existem competências e habilidades que apontam para a necessidade e importância de essa temática ser abordada em sala de aula: “Ao estudar Ciências, as pessoas aprendem a respeito de si mesmas, da diversidade e dos processos de evolução e manutenção da vida [...]” (BRASIL, 2018, p. 325).

A sexualidade e diversidade de gênero são abordadas dentro da unidade temática “Vida e Evolução”, tanto para os anos iniciais, quanto para os finais. Nos anos iniciais recomenda-se uma abordagem voltada para o conhecimento e cuidado (higiene) com o corpo, bem como o respeito ao outro, como descrito na competência 07 — “Conhecer, apreciar e cuidar de si, do seu corpo e bem-estar, compreendendo-se na diversidade humana, fazendo-se respeitar e respeitando o outro, recorrendo aos conhecimentos das Ciências da Natureza e às suas tecnologias” (BRASIL, 2018, p. 324). Já nos anos finais, além da abordagem corporal (físico, sexual e doenças), também é observado uma maior especificidade em relação à reprodução, à sexualidade humana e aos aspectos emocional e mental (BRASIL, 2018, p. 327). As quatro habilidades que tratam desta temática orientam: “Analisar e explicar as transformações que ocorrem na puberdade, considerando a atuação dos hormônios sexuais e do sistema nervoso”; “Comparar o modo de ação e a eficácia dos diversos métodos contraceptivos e justificar a necessidade de compartilhar a responsabilidade na escolha e na utilização do método mais adequado à prevenção da gravidez precoce e indesejada e de Doenças Sexualmente Transmissíveis (DST)”; “Identificar os principais sintomas, modos de transmissão e tratamento de algumas DST (com ênfase na AIDS) e discutir estratégias e métodos de prevenção”; e “Selecionar argumentos que evidenciem as múltiplas dimensões da sexualidade humana (biológica, sociocultural, afetiva e ética)” (BRASIL, 2018, p. 349).

Com base nas diretrizes que usam os direitos humanos, a educação sexual abrange o termo sexualidade em toda sua amplitude, desde a afetividade nos relacionamentos humanos até o desenvolvimento sexual propriamente dito (BRUNS; GRASSI; FRANÇA, 1995). A educação sexual nas instituições deve ser um debate sereno feito por profissionais capacitados para exercer a tarefa de formar e informar o aluno, transmitindo às crianças informações simples e corretas sobre a sexualidade (SUPLICY, 1983; LOURO, 2000a).

Considerando essa temática, devemos destacar que os profissionais da educação devem ser imparciais em relação aos seus valores próprios no ensino da educação sexual (MULLER, 2013) e não devem deixar que o silêncio ou ocultação de conhecimento se torne prática pedagógica no ambiente escolar (MISKOLCI, 2010). É necessário reconhecer que o tema sexualidade na educação é vinculado à vida, à saúde, ao prazer e ao bem-estar, associando-se às diferentes dimensões do ser humano. Portanto, o trabalho da orientação sexual dentro das instituições é, além de tudo, a promoção da saúde (ADRIÃO, 2005).

Para Maia (2006), o setor da educação tem um papel crucial na preparação de crianças e jovens para as responsabilidades adultas. A transição para a idade adulta requer tornar-se informado e equipado com os conhecimentos e habilidades apropriados para fazer escolhas responsáveis em sua vida social e sexual (LOURO 2003; RIBEIRO; REIS, 2005). A escola é convidada a estar alerta para as questões que envolvam gênero e sexualidade, desenvolvendo modalidades didáticas que busquem a prática do respeito e da ética no geral (SANTOS; BRUNS, 2000; SOUZA-LEITE; BRUNS, 2012; SOUZA; SILVA; SANTOS, 2015). Diante do exposto, objetivouse, com essa pesquisa, explorar a visão pessoal dos profissionais da educação acerca dos temas sexualidade e diversidade de gênero e o ensino destes temas no ambiente escolar, bem como a capacitação que esses profissionais possuem para abordá-lo em sala de aula e junto à comunidade escolar.

2 A problemática da sexualidade enquanto tema transversal

Vários autores abordam, sob ângulos diferentes, a questão da sexualidade e suas possibilidades transversais enquanto temática. A sexualidade envolve as dimensões do indivíduo e a autonomia sobre o seu corpo (ABRAMOVAY; CASTRO, 2004; POCAHY, 2013) e está diretamente relacionada com sua saúde física e mental do indivíduo (FOUCAULT, 1988; GODINHO; LARA, 2000; FERREIRA; LUZ, 2009). Engloba gênero, identidade, orientação sexual, erotismo, envolvimento emocional, amor, reprodução e aspectos negativos, como a homofobia e os diversos tipos de violências (MISKOLCI, 2010). Constrói-se a partir do contexto histórico e por influência direta do meio no qual o indivíduo está inserido (LIMA, 2010). Além disso, a sexualidade está condicionada aos aspectos pessoais, como história de vida, crenças, valores, diversidade, pluralidade e sentimentos, aspectos sociais, políticos, culturais, econômicos e biológicos (LOURO, 2003).

Por outro lado, segundo Bakhtin (2008), a sexualidade muda de um grupo para outro, até entre gerações e, por isso, não deve ser considerada restrita apenas a uma única e pequena fase da vida, mas sim como um processo que se inicia no nascimento e perpetua até a morte (SILVARES, 2002). Além disso, encontra-se presente desde as doenças que aparecem durante a gestação e acompanha o indivíduo durante sua infância, juventude, fase adulta e até a velhice (LUZ; CARVALHO; CASAGRANDE, 2009; POCAHY, 2011).

Ademais, seria incompreensível falar de sexualidade sem abordar o tema da diversidade de gênero (VALDÉS, 2005). O gênero é a identidade construída durante toda a vida do ser humano (FARIAS, 2007; LUZ; CARVALHO; CASAGRANDE, 2009), podendo ser múltiplas (FREIRE, 1998). Para Madureira e Branco (2012), o conceito de gênero busca a compreensão do processo cultural, onde o indivíduo está localizado e seu modo de viver. Existem na sociedade padrões de gênero e modelos de sexualidade que impedem o desenvolvimento individual, social e político dos indivíduos (CARVALHO; TORTATO, 2009).

Diante disso, é necessário que a orientação sexual aconteça, não só no ambiente domiciliar, como também no escolar (SILVARES, 2002). No entanto, em um estudo de levantamento de artigos sobre o tema sexualidade na escola realizado por Rakowski e Oliveira (2020) demonstrou que a maior parte dos trabalhos publicados relacionados à temática nas escolas é desenvolvido por profissionais da saúde. Esse fato revela uma maior preocupação com temas como Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs) do que com questões sociais e psicológicas como homofobia, diversidade sexual e relações de gênero.

Nessa perspectiva, Louro (2000a) indica que

muitos consideram que a sexualidade é algo que todos nós, mulheres e homens, possuímos ‘naturalmente’. Aceitando essa ideia, fica sem sentido argumentar a respeito de sua dimensão social e política ou a respeito de seu caráter construído. A sexualidade seria algo "dado" pela natureza, inerente ao ser humano. Tal concepção usualmente se ancora no corpo e na suposição de que todos vivemos nossos corpos, universalmente, da mesma forma. No entanto, podemos entender que a sexualidade envolve rituais, linguagens, fantasias, representações, símbolos, convenções... Processos profundamente culturais e plurais. Nessa perspectiva, nada há de exclusivamente "natural" nesse terreno, a começar pela própria concepção de corpo, ou mesmo de natureza. (p. 5-6)

Nesse sentido, a escola vem sendo convocada a enfrentar essas transformações de práticas sexuais contemporâneas, principalmente na adolescência, período diretamente ligado a uma fase escolar de grandes dúvidas (MULLER, 2013). Embora a BNCC traga uma abordagem focada em conteúdos e competências pontuais, os autores supracitados demonstram como essa temática precisa ser trabalhada de maneira transversal de forma a compreender a formação dos sujeitos e das identidades que a perpassam (LOURO, 2000a; FOUCAULT, 1988).

O risco que se corre é de que uma versão hegemônica da sexualidade possa ser normalizada, de forma que os que estão em melhores posições de poder normalizem esta hegemonia e naturalizem suas identidades referentes à temática (LOURO, 2000 a). Miskolci (2010) se questiona “Por que as práticas sexuais que não têm como fim o casamento e a reprodução devem permanecer nas sombras e no silêncio? Por que a sexualidade deve seguir um modelo único?” (p. 13) e alerta que “Tais questões não podem ser ignoradas e cabe ao educador aproveitar a oportunidade para trazer à discussão as diversas formas segundo as quais os sujeitos vivem sua afetividade e sua vida sexual.” (MISKOLCI, 2010, p. 13).

Nesse estudo não se pretende apresentar um refinamento teórico da relação entre sexualidade e identidades socioculturais — portanto, não tencionamos entre os diversos autores apresentados. Apontamos apenas para a importância do conhecimento dessa relação para tratar de maneira libertadora os sujeitos em sua diversidade dentro das propostas pedagógicas. Desse modo, buscou-se compreender, no escopo dessa pesquisa, como professores dos anos iniciais compreendem essa temática, o que impacta centralmente na forma como eles podem abordá-la em salas de aula.

3 Metodologia

A pesquisa qualitativa descritiva foi realizada entre os meses de agosto e dezembro de 2019, na cidade de Lajeado, localizada na região do Vale do Taquari, no estado do Rio Grande do Sul, após aprovação no comitê de ética (registro número 15115719.5.0000.8024) — Plataforma Brasil. Os dados foram coletados dos profissionais da educação (professores, pedagogos e coordenadores) que trabalham diretamente com estudantes dos anos iniciais do Ensino Fundamental e Educação Infantil de escolas das redes de ensino estadual, municipal e privada.

3.1 Instrumentos

Na busca por conseguir responder aos objetivos, foram utilizados: (a) questionário objetivo, com 07 perguntas de caráter sociodemográfico/educacional/ cultural; (b) questionário com 13 perguntas para conhecer a visão pessoal que os profissionais da educação têm em relação à sexualidade e diversidade de gênero, utilizando a escala de Likert; (c) questionário com 20 perguntas sobre o preparo dos profissionais e o ensino da sexualidade e diversidade de gênero nas escolas.

3.2 Procedimentos

No início da pesquisa, os participantes assinaram o Termo de Compromisso Livre e Esclarecido, afirmando seu interesse em participar do estudo. Somente foram considerados na coleta de dados os questionários dos participantes que preencheram e assinaram corretamente o termo. Os três questionários foram entregues impressos e recolhidos após o preenchimento correto, totalizando vinte e nove formulários. Depois da coleta dos dados, eles foram tabulados, analisados e os resultados qualitativos gerados para análise. Os resultados quantitativos foram analisados quanto à frequência, utilizando o programa estatístico Statistical Package for the Social Sciences, versão 25.

Neste estudo, utilizamos o método de escores, que agrupa e classifica os indivíduos em grupos semelhantes (PINHEIRO; ABRANTES, 2012), para definir a tendência conservadora dos profissionais de educação. O escore foi criado a partir dos dados retirados do questionário, no qual as respostas que indicavam tendências a um comportamento conservador foram tratadas como variáveis ordinais e receberam os valores de 1 até 5 pontos. Um ponto para as respostas mais liberais, aumentando de forma crescente até chegar a cinco pontos, que corresponde a um perfil conservador. O somatório de escores obtidos variou entre 13 e 65, com o ponto médio de 39.

4 Resultados e Discussão

O gênero feminino ainda é de maior expressão no ramo da educação infantil, sendo que 100% das entrevistadas foram do gênero feminino. A idade média das respondentes foi de 37 anos, sendo a maior e a menor idade de 59 e 23 anos, respectivamente. A maioria delas é casada (78,0%) e com um ou mais filhos (34,4%). Mais da metade, 58,6%, possui graduação como maior titulação, sendo 93,2% graduadas em universidades privadas. Observou-se também que praticamente a metade das entrevistadas (44,7%) tiveram formação EAD ou semipresencial. O tempo médio de conclusão da graduação é de cinco anos, sendo que 51,7% formaram-se há até cinco anos.

Da totalidade das entrevistadas, 82% são docentes, 11% orientadoras e 7% diretoras escolares. A maior parte das profissionais (44,9%) trabalha com estudantes do primeiro ano, com idade de zero a dez anos e na sua totalidade trabalham em turno integral, mesmo que em mais de uma instituição de ensino. Metade atua principalmente em escolas municipais (51,7%), seguido pelas escolas da rede privada (27,6%) e estaduais (20,5%). É interessante destacar que, mesmo tendo uma porcentagem alta de profissionais de educação da rede privada, não se observou diferença entre as respostas obtidas em relação ao ensino da sexualidade e diversidade de gênero. No entanto, Abadi (2018) relata que é notório que estudantes de escolas públicas têm uma iniciativa à vida sexual bem anterior aos de escola privada e cita ainda que isso acontece devido à desestrutura e nível social, o que também tem direta coesão que a família, muitas vezes, não auxilia nesta preparação, sendo importante o ensino de educação sexual.

Quando as entrevistadas foram questionadas em relação ao tempo de experiência em sala de aula, 62,1% afirmaram ter mais de cinco anos de atividade profissional. Resultado importante, uma vez que a maioria atuava profissionalmente durante a reformulação da nova BNCC e conhece a realidade do ensino destes temas antes e após a proposta atual.

4.1 Olhar pessoal dos profissionais de educação em relação à sexualidade e diversidade de gênero

O ensino de sexualidade e diversidade de gênero deve estar desvinculado de qualquer crença ou opinião pessoal do educador. Com isso, buscamos inicialmente entender o olhar pessoal que os profissionais de educação possuem em relação ao tema de pesquisa (Quadro 1). Cabe destacar que ocorreu uma variação no perfil das respostas e, em alguns momentos, algumas contradições.

Quadro 1 Conhecendo o perfil pessoal do profissional de educação em relação à sexualidade e diversidade de gênero. Os entrevistados deveriam se posicionar com relação às frases propostas. A intensidade da cor representa a frequência de resposta em porcentagem. Con=Concordo; C/D=Não concordo nem discordo; Disc=discordo. 

Questões abordadas Con C/D Disc
A minha atitude em relação à sexualidade e ao sexo é conservadora. 55,1 20,7 24,2
O ambiente familiar é considerado muito fechado para o diálogo sobre temas relacionados à sexualidade. 55,2 13,8 31,0
A sexualidade está presente desde a concepção até a morte, como por exemplo, a sexualidade também pode ser percebida, além dos adolescentes, dos adultos e dos idosos, nos bebês no ato da amamentação, nos brinquedos, nas brincadeiras, nas roupas, no toque, no conhecimento do próprio corpo, no contato físico com a mãe ou pai, gerando sensação de bem-estar. 86,2 10,3 3,5
O comportamento entre homens e mulheres é biologicamente determinado. 62,1 10,3 27,6
Atualmente é normal ter um casamento entre dois homens ou entre duas mulheres. 65,5 17,2 17,3
A homossexualidade é algo errado. 13,8 24,1 62,1
Eu não gostaria que meu filho ou minha filha tivesse amizade com um coleguinha que tenha dois pais ou duas mães 3,4 6,9 89,7
Descobri que meu filho (a) é gay e por isso não o considero mais como parte da minha família. 0,0 3,4 96,6
Eu concordo com a atitude do meu filho ou da minha filha em ser grosseiro e/ou agressivo com casais homossexuais que estejam manifestando alguma forma de afeto entre eles. 3,4 3,4 93,2
Você concordaria de seu filho (a) ter aula de sexualidade e diversidade na escola 93,1 0,0 6,9
Você acredita que a família deve ser a única responsável pela educação sexual. 24,1 3,4 72,5
Você se considera preparado (a) para falar sobre sexo com seus filhos (as). 82,8 3,4 13,8
Você considera importante e se sente à vontade para conversar e esclarecer dúvidas sobre sexualidade com seu(s) filho(s). 93,1 0,0 6,9

Fonte: Elaboração Própria, 2020.

No Quadro 1, observa-se que 55,1% das participantes se consideram conservadoras em relação à sexualidade e diversidade de gênero, fato este que talvez possa ser justificado pela ascendência alemã e italiana, que corresponde à 79,0% do total das entrevistadas e que muitas vezes podem estar associadas a práticas culturais mais provincianas. Além disso, uma elevada porcentagem (55,1%) afirma que o ambiente familiar é fechado ao diálogo sobre estes temas. Para Maldonado (1996), o meio familiar é que garante a sustentação da afetividade, sendo decisivo na educação de seus membros, pois é nele que são aprendidos valores éticos e humanitários. De maneira complementar, Nolte e Harris (2005) afirmam que os pais possuem dificuldade em agir com as demonstrações de sexualidade de seus filhos, uma vez que é necessário rever preconceitos e estereótipos e entender as diferenças de ideias. É importante que na família aconteça uma comunicação franca, pois este tipo de atitude permite uma aproximação e facilita o diálogo, oportunizando uma educação adequada sobre sexualidade (ALMEIDA; CENTA, 2009).

São três os motivos da dificuldade de tratar sobre orientação sexual pelos pais: se sentirem constrangidos em falar do assunto; por não conseguir se comunicar com os adolescentes; e pelo desinteresse e falta de atenção por parte dos filhos para ouvilos. Seguindo o mesmo pensamento, Bernardi (1985) diz que a abordagem do tema sexualidade pelos pais nem sempre é fácil, pois eles acreditam que seus filhos não apresentam idade e maturidade suficientes para discutir abertamente sobre o assunto. O diálogo e a conversa familiar são de extrema importância para o crescimento mútuo e é por meio deles que ocorre a troca de experiências (ABADI, 2018).

Sobre ser importante e sentir-se à vontade para falar sobre sexualidade com seu filho, 93,0% das pessoas dizem se encaixar neste perfil e 82,0% se avaliam como preparados para falar sobre o assunto. No entanto, devemos destacar que anteriormente 55,1% afirmaram ter um ambiente familiar fechado para diálogos sobre os temas. Quando foi perguntado sobre a atuação da família na educação sexual dos seus filhos, 24,1% afirmaram ser responsabilidade exclusiva dos familiares essa educação e 86,2% acreditam ter preparo para esse fim. Contudo, 93,0% concordam com o fato de seus filhos estudarem sexualidade na escola.

Surpreendentemente, 7,0% das profissionais de educação não apoiam a participação dos seus filhos nas aulas que abordam tal tema. Segundo Almeida e Centa (2009), os pais reconhecem o papel da escola como educadora e aliada na educação sexual de seus filhos e citam ainda que muitas das informações que os mesmos possuem são repassadas pela escola. Ademais, Bakhtin (2008) afirma que as intervenções da instituição escolar na vida sexual da criança devem ter auxílio da família. Além disso, não devemos deixar de considerar que é no ambiente familiar que o ser humano deve receber suas primeiras orientações sexuais e que o papel da escola é apenas de complementar (ADRIÃO, 2005).

A sexualidade está presente desde a concepção até a morte do indivíduo, sendo este o entendimento de 86,2% das entrevistadas. Além disso, 62,0% concordam com o fato de que o comportamento de homens e mulheres é biologicamente determinado desde o nascimento. Silvares (2002) constata que não se pode dizer que a sexualidade está restrita a uma única e pequena fase da vida, e sim no processo do nascimento até a morte.

Considerando a importância do casamento na vida do ser humano, 65,0% das questionadas julgam importante o matrimônio na vida social. Entretanto, quando interrogadas sobre o casamento entre indivíduos do mesmo sexo, 62,0% veem como anormal essa prática, indo ao encontro com a postura conservadora apresentada anteriormente. Em desencontro, 89,0% responderam não se importar que seus filhos tivessem amigos de famílias homoafetivas.

Resultado interessante foi observado quando as entrevistadas foram questionadas sobre considerar a homossexualidade como errado. Incrivelmente, 37,9% das entrevistadas não souberam responder ou tinha opinião a favor de que a homossexualidade era uma atitude errônea. Em contrapartida, 93,1% dizem que não concordariam que seus filhos fossem grosseiros com casais de homossexuais que estivessem demonstrando algum tipo de afeto publicamente e 6,9% não souberam responder. Ainda, 76,0% acreditam que a homossexualidade não é uma escolha e 97,0% não negariam um filho homossexual.

Na Figura 1 está representada a tendência do perfil conservador dos profissionais de educação, sendo 13 escores indicando um perfil liberal e 65 escores um perfil conservador. Considerando o escore médio igual a 39 pontos, observamos que 96,6% dos respondentes (grupo B) estão acima dessa pontuação, indicando que quase a totalidade apresenta um perfil mais conservador e, em contrapartida, somente 3,4% (grupo A) ficou abaixo da média. Nenhuma das 29 entrevistadas apresentou pontuação máxima de escore (65 pontos) que indicaria um perfil extremamente conservador e 2 entrevistadas atingiram pontuação maior que 60. Através desses resultados, podemos concluir que o público pesquisado apresenta uma postura conservadora.

Fonte: Elaboração Própria, 2020.

Figura 1 Tendência conservadora das profissionais de educação. As variáveis ordinais receberam os valores de 1 até 5 pontos. A linha tracejada representa o escore médio. 

Muitas vezes há falta de comunicação entre os membros familiares sobre assuntos que geram preconceitos, fazendo com que esse ambiente seja fechado e conservador, no qual o diálogo não é a principal ferramenta utilizada para esclarecimento de dúvidas. Essas dúvidas, muitas vezes, são apontadas pela família como responsabilidade escolar, ambiente este onde os profissionais nem sempre se sentem qualificados para tratar do assunto e na maioria dos casos não possuem uma visão clara do que vem a ser o termo sexualidade como apresentado no tópico abaixo.

4.2 Preparo dos profissionais de educação e o ensino da sexualidade e diversidade de gênero nas escolas

Atualmente, na grade curricular dos cursos de licenciatura e de pedagogia não é observada a presença de disciplinas voltadas para sexualidade e diversidade de gênero, sendo assim, os profissionais de educação não são preparados para o ensino dessa temática. Somado a isso, devemos também considerar a anulação e ausência da escola, como instituição, no preparo e treinamento desses profissionais para que os mesmos possam contribuir e auxiliar na formação cidadã dos seus estudantes.

Assim sendo, neste estudo, além de conhecer o olhar pessoal dos profissionais de educação em relação à temática, também se verificou a formação e preparo dos mesmos e a realidade do ensino de sexualidade e diversidade de gênero na comunidade escolar. Sabe-se que o ensino, mais especificamente a aprendizagem, não acontece somente dentro de sala de aula. É necessária uma continuidade fora do ambiente escolar, com o apoio dos familiares. Baseado neste contexto, duas temáticas foram consideradas na coleta de dados: “formação e capacitação dos profissionais de educação” e “ensino da sexualidade e diversidade de gênero”, sendo este último subdividido em comportamento escolar e familiar.

Inicialmente, averiguou-se qual o entendimento dos profissionais de educação em relação ao conceito de “sexualidade”. Considerando o total de respondentes, 41,4% não souberam conceituar o termo e as demais respostas estão representadas na nuvem de palavras (Figura 2).

Fonte: Elaboração Própria, 2020.

Figura 2 Conceito de “sexualidade”. Nuvem de palavras gerada online, a partir do aplicativo WordArt. Disponível em <wordart.com>. 

Os resultados indicam que uma alta porcentagem dos profissionais de educação não possui o conhecimento básico para definir sexualidade, fato este que foi confirmado por 58,6% das entrevistadas que afirmaram não ter formação adequada para o ensino desta temática (Quadro 2). Segundo Souza (2006), se a formação do professor não é contínua, ele não pode aprimorar cada vez mais sua prática docente, nem apoiar os estudantes na construção do conhecimento, mas apenas contar com o acúmulo de informações. Ademais, Farias (2007) afirma que uma formação específica para determinados temas, incluindo entre eles a sexualidade, qualifica o profissional — além de dar todo amparo necessário no desenvolvimento de seu trabalho pedagógico. Além disso, somente 24,1% e 6,9% possuem capacitação e se consideram preparadas para ministrar aulas e falar sobre sexualidade e diversidade de gênero no ambiente escolar, respectivamente.

A figura 2 retrata, através de representação gráfica, uma nuvem de palavras feita a partir dos conceitos elaborados pelos profissionais de educação entrevistados sobre “sexualidade”. Os termos com mais incidências nos conceitos elaborados são mostrados em tamanho maior. As palavras mais citadas nas respostas foram “corpo”, “mudanças”, “gênero” e “sexo”, as quais estão mais relacionadas com questões biológicas do indivíduo e que não são voltados para aspectos psicológicos e sociais. Além disso, também é visualizada uma forte relação da sexualidade com o ato sexual, uma vez que os termos “sexo”, “sexual” e “desejo” aparecem com frequência nas respostas. Segundo Gava e Villela (2016), falar sobre sexualidade significa tratar diretamente do ato sexual ou referir-se ao corpo físico de cada indivíduo, mas vincula-se também à forma que podemos nos expressar emocionalmente, de falar abertamente o que sentimos sem agressão ao próximo.

Quadro 2 Levantamento de informações da formação acadêmica e capacitação dos profissionais de educação e a realidade do ensino de sexualidade no ambiente escolar. A intensidade da cor representa a frequência de resposta em porcentagem. Sim- Não (% e frequência de resposta). 

Questões abordadas SIM NÃO
CAPACITAÇÃO    
Como professor (a), você possui capacitação para tratar sobre sexualidade com os alunos? 24,1 (07) 75,9 (22)
Você se considera preparada para dar aula sobre sexualidade e diversidade? 6,9 (02) 93,1 (27)
Você acredita ter formação adequada para ensinar sobre sexualidade e diversidade? 41,4 (12) 58,6 (17)
Você acha que a escola deveria oferecer treinamento aos professores para tratar do tema? 96,6 (28) 3,4 (01)
Já participou de algum curso, seminário, programa ou aula sobre sexualidade? 24,1 (07) 75,9 (22)
Você acha que a escola deveria oferecer treinamento aos professores para tratar o tema? 93,1 (27) 6,9 (02)
ENSINO    
Como educador, você sente algum medo ou receio ao falar de sexualidade com os alunos? 48,3 (14) 51,7 (15)
Você considera importante conversar sobre sexualidade na escola? 96,6 (28) 3,4 (01)
Você já trabalhou com tema sexualidade em suas aulas? 58,6 (17) 41,4 (12)
Você considera importante explicar e conversar com os alunos sobre sexo? 93,1 (27) 6,9 (02)
Você possibilita abertura para que os alunos possam se expressar livremente? 69,0 (20) 31,0 (09)
Você acredita que exista resistência dos familiares em relação ao ensino de sexualidade? 82,8 (24) 17,2 (05)
Você acha que a família cumpre seu papel em relação a informações sobre sexualidade? 6,9 (02) 93,1 (27)

Fonte: Elaboração Própria, 2020.

O desconhecimento destes assuntos por parte dos profissionais de educação está relacionado, primeiramente, à sua formação acadêmica, sendo que 75,9% nunca participaram de cursos, seminários ou tiveram componentes curriculares na graduação que abordassem a temática. A formação acadêmica é importante porque contribui para difundir conhecimentos embasados cientificamente no ambiente escolar e a área de formação oferece suporte para o profissional desenvolver temas com amplo domínio (ADRIÃO, 2005). Ademais, deve-se citar a falta de apoio por parte da escola, tanto no incentivo ao ensino quanto na oferta de capacitação/treinamentos, sendo que 96,6% afirmam que a escola deveria oferecer momentos de capacitação sobre o ensino de sexualidade e diversidade de gênero, em razão de que 86,2% necessitam de capacitação específica para conseguirem transmitir informações e conhecimento sobre o tema. As maiores dificuldades para desenvolver o trabalho de orientação sexual na escola é a falta de conhecimento do assunto e dificuldade para abordar o tema, com 41,4% e 31,0% respectivamente.

Quando questionados se o profissional é abordado frequentemente pelos estudantes para conversar sobre o assunto, em torno de 88,0% relataram não serem chamados para tratar de sexualidade. No entanto, 70,0% se mostraram abertos ao diálogo e 69,0% permitem que os estudantes se expressem livremente. Para que ocorra interesse e confiança por parte do estudante em conversar sobre sexualidade e diversidade de gênero é necessário que o docente introduza essa temática em suas aulas cotidianas. Ao contrário disso, foi observado na amostragem pesquisada que 41,4% das entrevistadas nunca abordaram esse tema em sala de aula, mesmo considerando importante conversar sobre sexualidade (96,6%) e sexo (93,1%) na escola. Fato este que é preocupante, em virtude de que os documentos oficiais (BNCC e PCNs) orientam essa prática no ensino. Embora se possa discutir o quanto estes documentos permitem, de fato, uma postura de superar os estranhamentos dos corpos que indicam diversidade de sexualidade e orientação sexual, conforme propõe Miskolci (2010), o desconhecimento, mesmo dos textos oficiais, é grande: aproximadamente 86,2% dos profissionais desconhecem as orientações trazidas pelos documentos educacionais oficiais sobre a sexualidade e diversidade de gênero.

Nos documentos oficiais voltados para a educação são considerados o ensino dessa temática e as habilidades e competências que precisam ser contempladas em sala de aula. Para Gonçalves, Faleiro e Malafaia (2013), devemos tratar nosso corpo como um ser social, buscar compreender como evoluímos socialmente com outros seres semelhantes ou não a nós. Na BNCC, na descrição da área Ciências da Natureza, consta que:

Nos anos iniciais, pretende-se que, em continuidade às abordagens na Educação Infantil, as crianças ampliem os seus conhecimentos e apreço pelo seu corpo, identifiquem os cuidados necessários para a manutenção da saúde e integridade do organismo e desenvolvam atitudes de respeito e acolhimento pelas diferenças individuais, tanto no que diz respeito à diversidade étnico-cultural quanto em relação à inclusão de alunos da educação especial (BRASIL, 2018, p. 325).

A ausência dessa temática no ambiente escolar também está relacionada com o medo e receio da abordagem desse tipo de assunto por parte dos educadores (48,3%), pela falta de conhecimento e até mesmo por não se sentirem confortáveis em conversar e esclarecer dúvidas (41,4%) sobre um tema que não possuem domínio.

Para os profissionais entrevistados, as maiores dúvidas dos estudantes referentes à sexualidade seriam: gravidez (17,2%), mudança corporal (17,2%), métodos anticoncepcionais (13,8%), reprodução/concepção (10,3%), DSTs (6,9%), violência sexual (6,9%), masturbação (6,9%) e diferenças genitais (6,9%). Os mesmos citam a internet (62,1%) e a televisão (27,7%) como os meios que mais influenciam no conhecimento sobre sexualidade. Moizés e Bueno (2007) citam que mesmo com o apelo da mídia por uma sexualidade segura, isso de fato não vem acontecendo, a falta de orientação sexual ainda é acentuada.

Dentre a gama de conteúdos que podem ser abordados na temática sexualidade e diversidade de gênero, as entrevistadas consideraram os temas gravidez, métodos contraceptivos, DSTs e mudanças corporais os assuntos mais importantes para serem trabalhados na orientação sexual das crianças, jovens e adolescentes (Figura 3).

Fonte: Elaboração Própria, 2020.

Figura 3 Sugestões de temas dos profissionais de educação para a orientação sexual. Nuvem de palavras gerada online a partir do aplicativo WordArt. Disponível em <wordart.com>. 

Os familiares reconhecem a importância da educação sexual na formação cidadã dos seus filhos, no entanto, ainda existe uma grande resistência desse segmento. Aproximadamente 83,0% dos profissionais entrevistados acreditam que há resistência familiar em relação ao ensino de sexualidade na escola e que, muitas vezes, o próprio ambiente familiar não cumpre seu papel em transmitir informações básicas sobre o assunto (93,1%). Segundo Nunes (1987), as famílias possuem valores próprios e pensam de acordo com a sua educação familiar. As crenças e valores repassados pelos ancestrais, muitas vezes, acontecem de forma involuntária, evitando-se abordar assuntos como a sexualidade. Araújo e colaboradores (2015) também mencionam em seu trabalho que os pais são tomados por dúvidas, pois não conseguem dialogar de forma clara e esclarecedora, a fim de auxiliar na educação sexual de seus filhos, o que dificulta a abordagem do assunto.

5 Considerações Finais

A necessidade de abordagem dos temas sexualidade e diversidade de gênero na escola estão bem evidentes, apesar de existir várias correntes contrárias a este movimento. A anulação dessas temáticas nas instituições de ensino perpassa a formação adequada dos profissionais de educação, envolve questões políticas, tabus e crenças limitantes relacionadas ao tema.

Nossos interlocutores indicaram que tinham pouca capacitação e estudo sobre uma temática transversal e complexa como a sexualidade, além de considerarem que possuem uma postura conservadora com relação ao tema. O debate sobre sexualidade é bastante complexo e tem bastante nuances, o que não era objetivo desse artigo apresentar de maneira exaustiva. O que buscou-se compreender foi a percepção dos profissionais de educação entrevistados sobre a temática e o que fica claro é que eles sequer conhecem as bases desse debate. A possibilidade de que concepções errôneas, e/ou conservadoras, e/ou preconceituosas sejam reproduzidas é, portanto, grande. Os professores se percebiam como pouco preparados, mesmo para atender aos requisitos colocados na BNCC, que são mínimos, como em outros documentos oficiais, que por vezes podem trazer abordagens mais reducionistas, aquém dos referenciais teóricos mais modernos. A escola deve proporcionar uma formação adequada aos seus profissionais, eliminando possíveis dúvidas sobre qualquer assunto (LOURO, 2000b).

A qualificação de um profissional de educação é de extrema importância em sala de aula sobre qualquer assunto trabalhado, em especial sobre um tema tão polêmico e difícil como o apresentado neste estudo, que está rodeado de tabus e de receios. De acordo com Ribeiro e Reis (2005), a orientação e o conhecimento sobre o tema atuam como facilitadores na transmissão de informações concretas e sólidas, esclarecendo as dúvidas, quebrando tabus e crenças e possibilitando um ensino mais leve. Já os autores Luz, Carvalho e Casagrande (2009) comentam que se o educador não for preparado e não possuir informações adequadas poderá transportar seus valores, crenças e opiniões como verdades absolutas, não permitindo aos estudantes a autonomia para desenvolver seu conhecimento.

A aceitação da necessidade da educação sexual permitirá contribuir para que o estudante possa desenvolver e exercer sua sexualidade de forma responsável. No espaço escolar, o educador deve estar preparado para lidar com essas questões, evitando opiniões pessoais e reconhecendo a importância de falar sobre o assunto dentro deste ambiente. Além disso, devem estar confortáveis e confiantes em responder e abordar questões levantadas pela comunidade escolar a fim de garantir saúde física e psicológica.

Tratar o tema sexualidade nos educandários se tornou muito importante no decorrer dos anos e os profissionais precisam se mostrar abertos a sanar as dúvidas dos estudantes e estimular a participação da família na educação sexual das crianças. A pouca capacitação e discussão sobre a temática pode levar a práticas pedagógicas dispersas, superficiais ou pontuais, quando não forem também reprodutoras de preconceitos dadas as relações de poder.

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Recebido: 29 de Dezembro de 2021; Aceito: 22 de Agosto de 2022; Publicado: 07 de Abril de 2023

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