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Revista Exitus

versão On-line ISSN 2237-9460

Rev. Exitus vol.15  Santarém  2025  Epub 12-Jun-2025

https://doi.org/10.24065/re.v15i1.2794 

Artigo

A MÚSICA COMO INSTRUMENTO PARA UMA EDUCAÇÃO DECOLONIAL NA PERSPECTIVA DA FORMAÇÃO AO LONGO DA VIDA: uma reflexão a partir dos anais do ENPEC

MUSIC AS AN INSTRUMENT FOR DECOLONIAL EDUCATION FROM THE PERSPECTIVE OF LIFELONG EDUCATION: a reflection based on the ENPEC proceedings

LA MÚSICA COMO INSTRUMENTO DE LA EDUCACIÓN DECOLONIAL DESDE LA PERSPECTIVA DE LA FORMACIÓN DURANTE TODA LA VIDA: una reflexión desde los anales de la ENPEC

Edna Alves Pereira da Silva1 
http://orcid.org/0000-0002-9842-4746

Jean Leandro Horas2 
http://orcid.org/0000-0001-6181-8111

Jaqueline Moll3 
http://orcid.org/0000-0001-5465-178X

1Doutorado em educação em ciências (em curso) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS); Doutorado sanduíche na Universidade de Santiago (US) - Cabo Verde; Bolsista do Programa Institucional de Doutorado Sanduíche no Exterior (PDSE)

2Doutorando em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões campus Frederico Westphalen/RS (URI) - Bolsista CAPES PROSUC II; Mestre em Educação pelo Programa de PósGraduação em Educação da Universidade de Passo Fundo (UPF)

3Doutora em Educação. Professora titular da Faculdade de Educação e Professora colaboradora do Programa de Pós-graduação em Ciências: química da vida e saúde da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e professora titular do Programa de Pósgraduação em educação da Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões, Campus de Frederico Westphalen (URI/FW)


RESUMO

Este artigo resulta de uma pesquisa bibliográfica realizada nos anais dos Encontros Nacionais de Pesquisas em Educação em Ciências (ENPEC) das últimas seis edições, abrangendo os últimos dez anos. O objetivo foi investigar o que foi publicado nesses anais sobre as temáticas: Educação Decolonial, Música, Educação Integral e Formação ao Longo da Vida, além de verificar possíveis interconexões entre elas. Foram encontrados 20 trabalhos, mas nenhum abordou as temáticas de forma integrada. A escolha pelos Anais do ENPEC justifica-se pela sua relevância como um espaço interdisciplinar, propício à reflexão e, desta forma, ao aproximarmos as temáticas, buscamos não só verificar os textos já publicados, mas também, motivar novas investigações que se relacionem com esta abordagem. Ressaltamos que a música é um instrumento para promover/oferecer uma educação decolonial visando à formação humana ao longo da vida (Silva, 2017; Castelões, 2024), e o estímulo a novas pesquisas que envolvam essas temáticas poderá proporcionar novos estudos interdisciplinares, ampliando a compreensão sobre a integração entre os assuntos abordados, favorecendo práticas pedagógicas que valorizem saberes locais e ancestrais. Essas investigações têm o potencial de enriquecer o campo educacional, promovendo uma educação mais inclusiva, crítica e transformadora.

Palavras-chave: Música; Educação Decolonial; Formação ao longo da vida.

ABSTRACT

This article is the result of a bibliographical survey carried out in the annals of the National Research Meetings on Science Education (ENPEC) of the last six editions, covering the last ten years. The aim was to investigate what was published in these annals on the themes: Decolonial Education, Music, Integral Education and Lifelong Learning, as well as checking for possible interconnections between them. 20 papers were found, but none addressed the themes in an integrated way. The choice of the ENPEC Annals is justified by their relevance as an interdisciplinary space, conducive to reflection and, in this way, by bringing the themes closer together, we seek not only to verify the texts already published, but also to motivate new research that relates to this approach. We emphasize that music is an instrument for promoting/offering a decolonial education aimed at lifelong human formation (Silva, 2017; Castelões, 2024), and stimulating new research involving these themes could provide new interdisciplinary studies, broadening the understanding of the integration between the subjects addressed, favoring pedagogical practices that value local and ancestral knowledge. These investigations have the potential to enrich the educational field, promoting a more inclusive, critical and transformative education.

Keywords: Music; Decolonial Education; Lifelong learning

RESUMEN

Este artículo es el resultado de una investigación bibliográfica realizada en los anales de los Encuentros Nacionales de Investigación en Enseñanza de las Ciencias (ENPEC) de las últimas seis ediciones, que abarcan los últimos diez años. El objetivo fue investigar lo publicado en esos anales sobre los temas: Educación Decolonial, Música, Educación Integral y Aprendizaje a lo largo de la vida, así como verificar posibles interconexiones entre ellos. Se encontraron 20 artículos, pero ninguno abordaba los temas de forma integrada. La elección de los Anales de la ENPEC se justifica por su relevancia como espacio interdisciplinario, propicio a la reflexión y, de esta forma, al aproximar los temas, buscamos no sólo verificar los textos ya publicados, sino también motivar nuevas investigaciones que se relacionen con este abordaje. Enfatizamos que la música es un instrumento para promover/ofrecer una educación decolonial dirigida a la formación humana a lo largo de toda la vida (Silva, 2017; Castelões, 2024), e incentivar nuevas investigaciones que involucren estos temas podría proporcionar nuevos estudios interdisciplinarios, ampliando la comprensión de la integración entre los temas abordados, favoreciendo prácticas pedagógicas que valoricen los saberes locales y ancestrales. Estas investigaciones tienen el potencial de enriquecer el campo educativo, promoviendo una educación más inclusiva, crítica y transformadora.

Palabras clave: Música; Educación decolonial; Formación durante toda la vida.

INTRODUÇÃO

Por mais que você corra, irmão

Pra sua guerra vão nem se lixar

Esse é o xis da questão

Já viu eles chorar pela cor do orixá?

E os camburão o que são?

Negreiros a retraficar

Favela ainda é senzala, Jão

Bomba-relógio prestes a estourar

(trecho da música Boa Esperança. Emicida

A música é uma manifestação cultural que vários povos e comunidades utilizam para expressar seus sentimentos, além de proporcionar a transmissão de conhecimentos que são passados de geração para geração (Silva, 2017; Castelões, 2024). A música também expressa o modo de vida das comunidades, pois estão atreladas ao cotidiano das pessoas, e também é um meio de persistência e resistência daqueles que foram silenciados e subalternizados ao longo dos séculos.

A LDBEN (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) - Lei 9394/96 traz o ensino de música no componente curricular de Arte (Brasil, 1996). Além dessa, temos a Lei 11.769/2008 que trata da “obrigatoriedade do ensino de música na educação básica” (Brasil, 2008). Porém a referida lei não especifica o tipo de música que deve ser ensinado na educação básica, e como temos um currículo colonizador e eurocêntrico (Melo e Ribeiro, 2019; Mulico e Costa, 2021), raramente se ensina sobre as músicas originadas dos povos indígenas e afro-brasileiros.

As músicas de matrizes indígenas e afro-brasileiras são ricas em conhecimentos e saberes ancestrais que devem ser repassados para as futuras gerações, além de expressar os sentimentos de resistência e luta por direitos. No contexto da educação ao longo da vida, é crucial que esses saberes sejam transmitidos de forma contínua, reconhecendo que o aprendizado não se limita ao ambiente escolar, mas se dá ao longo de toda a existência humana, em um processo constante de troca e vivência.

A decolonialidade, nesse cenário, propõe a quebra das narrativas hegemônicas que invisibilizam ou distorcem essas culturas, criando um espaço educacional mais plural e justo, onde as vozes dos povos indígenas e afro-brasileiros são ouvidas e respeitadas. A educação integral, por sua vez, promove uma formação que abarca não apenas o conhecimento acadêmico, mas também os aspectos emocionais, culturais e sociais, permitindo que os alunos se conectem com o conhecimento musical de maneira profunda e transformadora, ampliando sua visão de mundo e fortalecendo suas identidades.

De acordo com Junior e Borges (2024), as Leis 10.639/2003 e 11.645/2008 são políticas educacionais que possibilitam a perspectiva decolonial:

como forma de resposta às lutas dos movimentos sociais, visando à possibilidade de garantir uma educação mais democrática e justa, que reconheça e valorize as múltiplas culturas, foram incluídos temas que possibilitem discussões, debates, reconhecimento e acesso às culturas afro-brasileiras e indígenas (Junior; Borges, 2024, p. 48).

Assim, as instituições de ensino têm a obrigatoriedade de proporcionar um ensino voltado aos saberes daqueles que foram silenciados ou subalternizados, aplicando as quatros leis citadas acima de forma que proporcionem um ensino voltado para o fortalecimento da cultura e saberes dos povos indígenas e afro brasileiros, nossos ancestrais para uma formação plena ao longo da vida.

Com o intuito de verificar o que tem sido publicado nos últimos dez anos (2013-2023), correspondendo a seis edições (2013; 2015; 2017; 2019; 2021; 2023) a respeito das temáticas: Educação decolonial, Música, Educação Integral e Formação ao longo da vida e se houve alguma integração entre elas, foi realizada uma pesquisa nos anais do Encontro Nacional de Pesquisa em Educação em Ciências - ENPEC, que resultou neste artigo, que está dividido em duas seções: Os achados da Pesquisa e as Reflexões pertinentes, além da introdução e considerações finais.

A escolha pelos Anais do ENPEC justifica-se pela sua relevância como um espaço interdisciplinar, onde se discutem as intersecções entre a música, a educação e os processos de formação ao longo da vida. Os anais revelam uma plataforma rica para a reflexão sobre como a música pode ser um meio de resistência às narrativas coloniais, permitindo uma educação que desconstrua as imposições culturais e valorizem os saberes ancestrais.

Ao analisar os Anais do ENPEC, buscamos refletir sobre as formas como a música, enquanto campo interdisciplinar pode contribuir para a educação decolonial, não apenas no âmbito da formação acadêmica, mas também nas práticas cotidianas de ensino e aprendizagem. A educação ao longo da vida, entendida como um processo contínuo e inclusivo, ganha relevância ao ser pensada sob a ótica do pensamento decolonial, permitindo que sujeitos de diferentes contextos culturais se reconheçam como protagonistas de seu próprio processo formativo.

A música, nesse cenário, emerge como um importante meio para criar espaços de diálogo e integração entre diferentes saberes, rompendo com as posições e valorizando as práticas culturais locais de diferentes povos e nações.

Os achados da pesquisa

Após a busca nos anais do ENPEC, que ocorreu no mês de outubro de 2024, chegamos aos resultados apresentados nos quadros a seguir:

Quadro 1 Artigos encontrados/selecionados nos anais do ENPEC (2013/2023) 

Anais da ENPEC/ano Quantidade de trabalhos Selecionados
2013 03 02
2015 03 01
2017 01 00
2019 07 04
2021 05 05
2023 13 09
TOTAL 32 21

Fonte: Elaborado pelos autores (2024).

Quadro 2 Levantamento de artigos do IX ao XIV ENPEC e os descritores pesquisados 

Ano Descritores Quantidade de trabalhos
IX ENPEC - 2013 música/musicalidade;
decolonização
decolonialidade;
educação
integral;
decolonialidade/ decolonial.
2 (“música/musicalidade”)
X ENPEC - 2015 0
XI ENPEC - 2017 0
XII ENPEC - 2019 4 (3 “decolonização/decolonialidade”; 1
“música/musicalidade”)
XIII ENPEC - 2021 5 (3 ”decolonização/decolonialidade”; 1 “música/musicalidade” e 1 “educação integral”)
XIV ENPEC - 2023 9 (2 “música/musicalidade”; 6 “decolonialidade/decolonial”;
1”educação integral”)

Fonte: Elaborado pelos autores (2024).

Dos artigos encontrados e selecionados ao longo de dez anos (06 edições do ENPEC), seis trabalhos falam somente sobre música, dois trabalhos sobre educação integral e doze trabalhos sobre educação decolonial/decolonialidade, totalizando vinte trabalhos selecionados, entretanto três trabalhos aparecem nos anais sem autoria e optamos por não descrevê-los neste artigo. Observamos também o crescente aparecimento das temáticas educação decolonial e educação integral a partir de 2019 e 2021, respectivamente, demonstrando que é recente a apresentação das temáticas em um evento de Educação em Ciências. Outro ponto que merece destaque, é que não encontramos nenhum artigo com os descritores interconectados, nem com a temática formação ao longo da vida. Os artigos foram analisados na íntegra, e sintetizados e relatados a partir dos olhares dos autores.

Descreveremos a seguir os artigos encontrados, divididos em três grupos: Educação decolonial/decolonialidade, música/musicalidade e Educação Integral.

Educação decolonial/decolonialidade

A partir dos descritores Educação decolonial/decolonialidade apresentamos os dez trabalhos selecionados e analisados que resumimos a seguir relacionados a essa temática:

O artigo “Elementos de decolonialidade em um projeto de divulgação científica com o público infantil” de autoria de Juliane dos Santos Amorim; Ludmila Olandim; Débora D’Ávila Reis e Francisco Ângelo Coutinho, apresenta uma experiência com um projeto de extensão desenvolvido na Universidade das Crianças UFMG (UC-UFMG). O projeto criado em 2016, “se insere no campo da educação, da divulgação científica e também no campo da cultura, enquanto um processo dinâmico de interações, que proporciona a construção de valores e de modos de percepção do mundo” (Amorim et. al., 2019, p. 2). Segundo os autores, o projeto busca promover o diálogo entre adultos e crianças e garante o direito de fala e de ser ouvido de cada criança, além de contribuir para a formação de um saber coletivo. Além de possibilitar o entrelaçamento entre a cultura do adulto e da criança.

Os autores ainda afirmam que:

Na América Latina, o termo decolonização surge para contrapor a ideia da colonização do poder, do saber e do ser, que traz consigo a concepção de que os europeus seriam os exclusivos criadores e protagonistas de um processo civilizatório colonial de dimensões mundiais (Amorim et al., 2019, p. 2).

Relatam também sobre o não reconhecimento dos saberes locais e crenças como ciência e ainda relatam que a transdisciplinaridade é um elemento relevante para a decolonização. O projeto citado pelos autores é organizado por professores e alunos de diferentes cursos da Universidade Federal de Minas Gerais e as análises realizadas para escrita do artigo demonstraram “que as oficinas UC-UFMG constituem-se como espaços de impressões de decolonialidade, de subversão e de contradição” (Amorim et al., 2019, p. 6).

O artigo intitulado “Gênero(s) e sexualidade(s) no ensino de biologia: Reflexões a partir de diálogos entre discursos decoloniais africanos e das trans-identidades latinas” dos autores Yonier Alexander Orozco Marin e Suzani Cassiani de natureza teórica, tem como objetivo “refletir sobre as possíveis contribuições dos discursos produzidos em dois lugares-corpos historicamente marginalizados e silenciados, a mulher africana e as travestis de América do Sul, para repensar o ensino de ciências, especificamente a biologia” (Marin; Cassiani, 2019, p. 1). Para os autores, um dos grandes problemas da educação é o contexto de poder acadêmico, especialmente na educação em ciências, pois quase não se consideram as participações dos sujeitos, principalmente os mais marginalizados pela sociedade e suas relações coloniais. Ainda, de acordo com os autores, o ocidente nos ensinou ao longo dos anos que os corpos marginalizados não produzem conhecimentos e quando são produzidos não são valorizados.

Os autores Débora S. de Andrade Dutra e Bruno Andrade Pinto Monteiro no artigo “Decolonialidade e formação de professores: Reflexões a partir de uma proposta de formação docente” relatam que “Os termos colonialidade e decolonialidade ainda causam estranhamento por tratar-se de temas recentes nas pesquisas, principalmente, atrelando essa temática a educação [...]” (Dutra; Monteiro, 2021, p. 2).

Entretanto, repensar os meios de dominação entre dominador e dominado, os movimentos em prol do rompimento da superioridade, é algo necessário na formação de professores. A aproximação dos debates promovidos pelos movimentos decoloniais são formas de reconhecer a cultura e os conhecimentos promovidos pelos povos dominados pelo colonialismo e repensar a formação de professores na perspectiva decolonial. Além de dialogar sobre a decolonialidade com professores no ensino e no cotidiano da sala de aula como forma de contribuir para uma educação mais humana e cidadã, promovendo uma formação emancipadora dos sujeitos.

O artigo “Decolonialidades no ensino de ciências e matemática: Os jogos de Mancala pelas narrativas docentes” de autoria de Júlio Omar da Silva Lourenço e Bruno Andrade Pinto Monteiro foram escritos a partir das observações das dificuldades de aprendizagem dos discentes e, além disso, com o distanciamento identitário e cultural afro-brasileiro, o desconhecimento das culturas africanas e também em cumprimento ao que determina a Lei 10.639/2003 para a educação básica brasileira.

Segundo os autores, o uso dos jogos da família Mancala permite trabalhar a valorização da população negra e indígena e contempla algumas carências que o currículo escolar possui. Especialmente após a promulgação das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, que torna obrigatória a introdução nos currículos escolares da temática de História e Culturas Africanas e Afro-brasileira e da Cultura Indígena. Os jogos além de promover a melhoria no processo de aprendizagem contribuem para o cumprimento das exigências legais, além de trazer uma crítica aos currículos engessados que valorizam uma cultura euro centrada e apagam a contribuição dos povos originários e outros que contribuíram para construção da sociedade brasileira.

Kassiano Ademir Amorim Ferreira e Patricia Montanari Giraldi no artigo “Decolonialidade Quadrinística: análise de ciência em duas HQs brasileiras” afirmam que: “É no sistema educativo que essa colonialidade evidencia-se, pelo ensino ser pautado sobretudo nas epistemologias de origem europeias” (Ferreira; Giraldi, 2021, p. 2-3). E define a colonialidade como uma forma de dominação desde a época da colonização até os dias atuais. Assim, sob essa visão o padrão europeu passa a servir de modelo para toda a sociedade “e por mais que a denúncia tenha seu papel importante, é realmente necessário fazer proposições teóricas e práticas, para romper com a colonialidade” (Ferreira; Giraldi, 2021, p. 3).

Os autores apresentam no seu texto o conceito de decolonialidade através das histórias em quadrinhos (HQ) nomeadas “Decolonialidade Quadrinística”. O nome dado pelos autores refere-se a um movimento decolonial dentro das páginas das HQs, quando a narrativa não apenas vai contra os quatro eixos da colonialidade, mas também contra os padrões de representação que as HQs vêm perpetuando por décadas. O movimento das HQ dá voz às narrativas subalternizadas e os conhecimentos e saberes silenciados e através de uma Decolonialidade Quadrinística é possível contribuir para as mudanças nos currículos escolares e valorizar outros conhecimentos não evidenciados, pois uma ciência hegemônica pode silenciar completamente outros saberes.

O artigo “Ensino de Ciências e Decolonialidade: um levantamento nos Repositórios Digitais das Universidades Federais do Rio Grande do Sul”, de autoria de Giordano Ferreira Vargas e Saul Benhur Schirmer, é uma pesquisa realizada nos repositórios das Universidades Federais do Estado do Rio Grande do Sul, buscando refletir sobre a produção acadêmica contrahegemônica ligada a formação de professores. Os autores observaram que há um pequeno número de trabalhos ligados à decolonialidade, sendo necessário pensar sobre o domínio colonial no meio acadêmico, partindo do princípio de consolidar um processo consciente de concepção de mundo, enquanto pessoas latino-americanas. Para os autores, “pensar nosso lugar no mundo enquanto latino-americanos enquanto justamente isto: nosso - e onde o ensino de ciências possa abarcar, por exemplo, a nossa natureza, o nosso viver, o nosso cotidiano” (Vargas; Schirmer, 2023, p. 3).

As autoras Sára Regina Magalhães Melo, Cecília Santos de Oliveira e Tatiana Galieta apresentam o trabalho intitulado “Relações étnico-raciais e formação de professores: articulação teórica a partir dos estudos decoloniais e do campo do currículo”, que trata de um ensaio teórico que articula os estudos decoloniais ao campo do currículo das licenciaturas em ciências biológicas, especificamente sobre as relações étnico-raciais.

De acordo com as autoras:

se estamos comprometidos com a inclusão de conhecimentos produzidos por nós e para nós do Sul global, conhecimentos estes que rompem com todas as formas de racismo e de opressão devemos ter uma atenção especial ao que ensinamos nas licenciaturas (Melo; Oliveira; Galieta, 2023, p. 3).

Ainda, para as autoras, faz-se necessário atrelar nos currículos, os estudos decoloniais e o pensamento das teorias pós-críticas, e discutir os diferentes viés e abordagens na formação de professores, ampliando a investigação teórica e empírica, no caso do artigo, especialmente a formação para professores de Ciências Biológicas.

O artigo “Epistemologias contra hegemônicas: os movimentos sociais e a decolonialidade” de autoria de Bárbara Baccin dos Santos e Mariana Brasil Ramos, afirma que “os maiores espaços de construção de conhecimento científico do país estão imbricados em relações de mercado, poder e dominação” (Santos; Ramos, 2023, p. 3). “Assim sendo, a ciência pode ser analisada como permissiva e, até mesmo, responsável por relações de dominação, tendo como o exemplo o projeto de colonização dos europeus sobre América” (Santos; Ramos, 2023, p. 3).

As autoras ainda afirmam que há também epistemologias que influenciam para que possamos contrapor as epistemologias dominantes, através dos movimentos contra hegemônicos e que buscam transformar a realidade que nos foi imposta, superando as opressões existentes na ciência.

Arcenira Resende Lopes Targino e Rogério de Almeida escreveram o artigo intitulado “Imaginário brasileiro sobre o ouro e decolonialidade: implicações para o Ensino de Química”, que retrata o imaginário e a pedagogia no âmbito da educação, baseados na ideia de Sanchez Teixeira (2006), que defende a pedagogia do imaginário não como conjunto de métodos e estratégias de ensino, mas como metáfora, a qual deve ser considerada em todas as áreas e disciplinas, uma vez que a lógica do imaginário possibilita a interação entre imaginação e razão. Destaca no ensino de ciências o crescente interesse na proposta da decolonialidade, porém ainda de forma incipiente. Ainda, de acordo os autores: “Muitas vezes no currículo não há valorização da ciência local e são apagadas as contribuições de sujeitos historicamente considerados subalternos, como negros, indígenas e mulheres” (Targino; Almeida, 2023, p. 2).

O texto “O Ensino de História da Ciência e CTS por meio dos Estudos Decoloniais e as Epistemologias do Sul: Preenchendo lacunas que dialogam com os desafios da contemporaneidade na Educação Científica”, de autoria de Rodrigo Da Vitória Gomes, Leonir Lorenzetti e Joanez Aparecida Aires, aborda que, apesar de existir outros conhecimentos que necessitam de legitimação social, a ciência é reconhecida, historicamente como surgida no continente europeu, sempre vista como algo confiável e válido, apesar dos decorrentes processos de deslegitimação.

Entretanto, têm surgido movimentos, como os estudos decoloniais e de decolonialidade que denunciam supostas superioridades e fazem parte de uma corrente teórica maior, denominada de epistemologias do sul. Os estudos decoloniais questionam e debatem sobre a superioridade da ciência europeia que partiu de uma branquitude ocidental que se localiza acima da linha do equador e “que subjaz todas as demais relações sociais, uma vez que a ciência é apenas mais uma das construções humanas” (Gomes; Lorenzetti; Aires, 2023, p. 3).

Assim, os autores buscaram com o artigo discutir a ciência, utilizando a abordagem CTS e a utilização dos estudos decoloniais e da epistemologia do sul na educação científica, acreditando que os resultados podem ser utilizados pelos professores como outras narrativas para desconstruir um currículo eurocêntrico. que está arraigado na educação. E assim, possam dialogar com debates teóricoreflexivos, rompendo as fronteiras do conhecimento em busca de uma educação científica decolonial, capaz de dialogar com os desafios que surgem na contemporaneidade. Ainda, os autores citam as Leis 10.639/03 e 11.645/08 que propõem diretrizes curriculares para o estudo da história e cultura afro-brasileira, africana e indígena, considerando que “o ensino de ciências decolonizado, além da desconstrução do paradigma da hegemonia intelectual” (Gomes, Lorenzetti e Aires, 2023, p. 4) demonstra outras narrativas e diferentes formas de conhecimento.

Música/Musicalidade

A partir dos descritores Música/Musicalidade analisamos os seis artigos, selecionados com essa temática, e apresentamos a seguir:

Em 2013, o artigo intitulado: “A música, a poesia e o teatro no contexto da educação científica” de autoria de Leonardo Alves do Valle, Cristhiane Cunha Flôr e Paulo Henrique Dias Menezes aborda a ideia de que as manifestações artísticas, como música, poesia e teatro, podem criar um espaço rico em potencial para a educação. Os autores sugerem que, ao integrar conhecimentos das disciplinas de física, química e biologia, é possível abrir novas possibilidades de aprendizado científico, especialmente quando se considera a afetividade no processo educacional. O trabalho faz parte de uma revisão de literatura que analisa pesquisas sobre a relação entre educação científica e as artes, focando no período de 2000 a 2012.

Essa pesquisa faz parte de uma dissertação vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da UFJF e buscou investigar como a afetividade e a arte do palhaço podem contribuir para uma educação científica.

Ainda neste mesmo ano, o artigo “A música como recurso didático no ensino de química” escrito por Laudicéia Rocha Coutinho, Fabiana R. Gonçalves e Silva Hussein investiga como a música contribui para a assimilação de conteúdos de química no ensino médio. A pesquisa foi conduzida em uma turma do 3º ano de uma escola pública em São José dos Pinhais - PR. Os alunos, que estavam no 1º ano em 2011, criaram uma paródia sobre modelos atômicos e em 2013, ao cursarem o 3º ano, responderam a um questionário com perguntas objetivas sobre o tema, além de questões abertas sobre suas percepções acerca da música como recurso didático.

Os resultados indicaram que a utilização da música favorece um aprendizado significativo, permitindo que, mesmo anos após o estudo do conteúdo, os alunos consigam recordar e aplicar os conceitos. Observa-se também na pesquisa que a música pode promover laços afetivos entre alunos e professores, além de entre os próprios alunos, o que pode incentivar o engajamento nos estudos.

Em 2019, o artigo intitulado: “A música como Metodologia de Ensino: Uma análise de 2009 à 2017 dos anais do Enpec”, de autoria de Joice Menezes Lupinetti e Adriana Marques de Oliveira apresenta os resultados de uma revisão bibliográfica realizada a partir das atas do Encontro Nacional de Ensino de Ciências (Enpec). Portanto, foram analisados artigos apresentados no evento entre 2009 e 2017, com o objetivo de explorar metodologias que incorporam a música em diferentes níveis de ensino (básico, superior e continuado) e suas contribuições para o processo de ensino e aprendizagem. A pesquisa envolveu 10 trabalhos que abordaram o uso da música no processo educativo. Segundo as autoras, embora o número de estudos tenha sido limitado, um aspecto comum entre todos foi a ênfase dada pelos autores, às potencialidades da música em sala de aula, destacando aspectos como interdisciplinaridade, contextualização, e motivação do aluno, dentre outros.

No ano de 2021 o artigo de autoria de Ronaldo Eismann de Castro e Maria do Rocio Fontoura Teixeira intitulado: “A música no ensino de química: uma possibilidade de aprendizagem significativa correlacionando aspectos emocionais e cognitivos” verificou como a música pode influenciar significativamente o processo de aprendizagem, analisando aspectos emocionais de alunos de uma escola de educação básica em Porto Alegre, Rio Grande do Sul (RS).

Para isso, foi realizado um estudo de caso com 50 estudantes de duas turmas do terceiro ano do ensino médio, regularmente matriculados na instituição. A maioria dos alunos relatou usar a música como uma ferramenta para ajudar na memorização de conteúdo. Foram identificados fatores importantes que podem ampliar esse uso, associando aspectos emocionais a uma aprendizagem mais significativa. Constatou-se que a música pode ser uma estratégia eficaz para potencializar as possibilidades de aprendizagem significativas, dentro da disciplina de química.

Por fim, no ano de 2023, dois estudos foram publicados com a temática em questão, sendo o primeiro: “Música e a vida acadêmica: um retrato de estudantes de graduação em Ciências Biológicas da UFSCar-São Carlos” de Camila Dias Berbert e Michel Pisa Carnio sendo que este artigo teve como objetivo compreender as influências da música nos momentos de estudo de alunos do curso de Ciências Biológicas. A pesquisa partiu do princípio de que a formação de indivíduos capazes de interpretar e agir criticamente na sociedade requer a integração de diferentes dimensões que formam o sujeito, incluindo aspectos intelectuais, físicos, emocionais e espirituais. Foi aplicado um questionário virtual, cuja análise qualitativa revelou os diversos fatores que impactaram o uso da música durante os estudos, como características pessoais, o tipo de música, o ambiente, o estado emocional do estudante e as características das tarefas. O estudo mostrou que, embora o uso da música seja uma prática pessoal, ele oferece uma compreensão das singularidades dos estudantes, suas necessidades de aprendizagem e a maneira como se relacionam.

Já o outro artigo intitulado “Práticas Pedagógicas em Ensino de Ciências por meio de Músicas Regionais Amazonenses”, de autoria de Radamés Gonçalves de Lemos, Inês Cleiza dos Santos Ijuma e Elissadrina Felix Rodrigues cujo objetivo foi oferecer alternativas de práticas pedagógicas para o ensino de ciências, utilizando músicas regionais amazônicas, com a participação de alunos (as) do 1º e 3º ano do Ensino Médio de uma escola pública no município de Benjamin Constant, no Amazonas.

A metodologia do artigo foi à pesquisa-ação e estruturada em quatro fases: uma fase exploratória, seguida por uma fase de avaliação, na qual as letras das músicas foram comprovadas a partir de seu entendimento, uma fase de ação, realizada por meio de uma roda de conversa e, por fim, uma fase de reflexão sobre a prática. Dessa forma, essa abordagem pedagógica permitiu a integração do saber popular com o conhecimento científico, valorizando outras formas de saberes, culturas e o contexto local.

A partir da análise dos textos com a temática Música/Musicalidade fica evidente como a música pode ser uma ferramenta transformadora no processo educativo. A música, em suas diversas formas - seja no ensino de química, na educação indígena ou na formação acadêmica - é capaz de criar pontes entre o conhecimento científico e as experiências sensoriais, emocionais e culturais dos estudantes.

Ao integrar a música ao currículo, não apenas enriquece-se o aprendizado cognitivo, mas também se reconhece o valor das tradições e dos saberes locais, promovendo uma educação mais inclusiva, plural e sensível às diferentes realidades e contextos de cada aluno.

Compreendemos que a ludicidade como experiência humana e plenitude do sujeito tende a contribuir com práticas que podem se inovar pela tomada de consciência do professor e com um ensino que mobilize saberes necessários ao processo de ensinar-aprender. (Guimarães; Ferreira, 2022, p. 21).

A música, portanto, não é apenas um recurso didático, mas um meio de despertar a criatividade, a reflexão crítica e a participação ativa, fundamental para a formação de cidadãos conscientes e humanizados.

Educação Integral

Os dois artigos apresentados no ENPEC que se referem à educação integral no período pesquisado foram encontrados nos anos de 2021 e 2023, sendo o primeiro “Experiências de Iniciação Científica nos anos iniciais a partir das interfaces com a Educação Integral”, das autoras Renata Gerhardt de Barcelos e Jaqueline Moll. As autoras analisaram os processos científicos em uma escola de educação integral de Porto Alegre/RS, na perspectiva de uma formação voltada para os diferentes campos do conhecimento e formação humana e obteve-se como resultado que:

As práticas pedagógicas ancoradas na perspectiva de Educação Integral devem promover o desenvolvimento de diferentes habilidades, saberes, experiências, respeitando os tempos de cada estudante. Por isso, entende-se como uma potência para a promoção da ciência no espaço escolar (Barcelos; Moll, 2021, p. 6).

Ainda segundo as autoras: “Tal perspectiva aponta para articulação do trabalho da Ciência com a Educação Integral, pois parte-se do entendimento de que é possível desenvolver os indivíduos nas suas diferentes áreas e dimensões” (Barcelo; Moll, 2021, p. 3).

O artigo intitulado “A Educação Integral e as atuais propostas curriculares: Um olhar a partir da Perspectiva Histórico-Crítica” de autoria de Jeruza Rocha Lima Arcanjo, Fernanda Welter Adams e Edilson Fortuna de Moradillo, trata sobre a formação omnilateral e o ensino de ciências que de forma articulada tem um papel importante na formação da humanidade, que “se faz importante que a educação integral, seja muito mais do que, um tempo a mais que o aluno passa na escola, mas sim um tempo que vai permitir a este ter maior contato com o conhecimento para assim interpretar a realidade”(Arcanjo; Adams; Moradillo, 2023. p. 3). As autoras afirmam que é preciso articular um currículo que possibilite a integração dos saberes clássicos aos saberes científicos, visando a integralidade do sujeito e a compressão histórica da formação humana e os mesmos devem estar presentes nas propostas das escolas.

Reflexões pertinentes

Eram rancores abissais (mas)

Fiz a fé ecoar como catedrais

Sacro igual Torás, mato igual corais

Tubarão voraz de saberes orientais

Meu cântico fez do Atlântico um detalhe quântico

Busque-me nos temporais (vozes ancestrais)[...]

Da pasta base pra base na pasta, o mundão arrasta

A milhão minha casta voa, ping-pong

Afasta bosta, basta, mente Rasta vibra

Recalibra o ying-yang

Igual um cineasta, eu busco a fresta, ofusco a festa

Mira a testa, eu mando o Kim Jong (Masta)

Eu decido se cês vão lidar com King ou se vão lidar com Kong

Em ouro tipo asteca, vim da vida seca

Tudo era o Saara, o Saara, o Saara

Abundância meta, tipo Meca

Sou Thomas Sankara que encara e repara

Pique recém-nascido, cercado de xeca

Mescla de Vivara, Guevara, Lebara [...]

E o mundo grita: Não para, não para, não para

Então supera a tara velha nessa caravela

Sério, para, fella, escancara tela em perspectiva

Eu subo, quebro tudo e eles chama de conceito

Eu penso que de algum jeito trago a mão de Shiva

Isso é Deus falando através dos mano

Sou eu mirando e matando a Klu

Só quem driblou a morte pela Norte saca

Que nunca foi sorte, sempre foi Exu

(trecho da música Eminência Parda de Emicida)

Partindo da ideia de que as músicas podem ser utilizadas como instrumentos de decolonialidade, uma vez que trazem nas suas letras as diferentes formas de pensamentos e de resistências que a sociedade apresenta, como nos mostra o trecho da música Eminência Parda do cantor Emicida, podemos afirmar que o saber e o poder devem ser demonstrados de diferentes formas.

A educação decolonial é um dos caminhos para demonstrar que os povos indígenas e africanos contribuíram e contribuem para a construção da nossa sociedade e também para o avanço da ciência. No entanto, esses povos sempre foram subalternizados e silenciados pelo colonialismo do poder e do saber advindos do eurocentrismo (Quijano, 2005).

É fundamental, promover uma educação decolonial que valoriza os saberes culturais e científicos daqueles que foram silenciados e/ou apagados durante séculos, trazendo a tona os conhecimentos produzidos por autores do Sul Global e os conhecimentos populares que resistiram e resistem até os dias atuais como os advindos dos povos indígenas e de suas diferentes etnias, dos africanos e dos afro-brasileiros e também de outros povos que são minorias e, na maioria das vezes, são esquecidos, como os povos ciganos.

As leis 10.639/2003 e 11.645/2008 podem contribuir para que as instituições de ensino, na educação básica ou no ensino superior, ofertem uma educação decolonial capaz de demonstrar a importância do conhecimento científico e do conhecimento popular produzidos pelos povos que foram escravizados e colonizados ao longo dos séculos, não somente no Brasil, mas em todo o Sul Global. Entretanto, a lei por si só não faz diferença, é necessário modificar os currículos de formação de professores, para que estes possam transformar a educação básica com a oferta de uma educação decolonial que articula os diferentes saberes para a construção do conhecimento.

O ENPEC é um encontro de pesquisas em educação em ciências que envolvem não somente as ciências da natureza, mas pode englobar todas as ciências no contexto de formação de professores ou futuros professores que atuarão ou não na educação básica. Portanto, como ambiente de formação e pesquisa busca trazer à tona discussões e temáticas interdisciplinares, proporcionado uma formação que percorre o debate entre o saber popular e ancestral e os conhecimentos científicos para o trabalho pedagógico e acadêmico. Os autores Vargas; Schirmer (2023) ressaltam que:

Neste entremeio de ideias sobre o decolonial, do pedagógico, do epistêmico, que traz ao ensino de ciências e, em nosso trabalho, à academia e ao levantamento da produção acadêmica a possibilidade de pensar em caminhos desobedientes, nas questões que permeiam, entranham, percorrem o saber e o conhecimento: as diferenças e apropriações culturais, étnico-raciais, assim como as relações de poder arraigadas de colonialismo que podem ser abordadas na produção acadêmica e, num conseguinte, na sala de aula (Vargas; Schirmer, 2023, p. 3).

A música é capaz de auxiliar na apropriação do conhecimento e também de fomentar a construção de uma consciência crítica e reflexiva, pois ao trabalharmos atividades musicais, seja por meio da escuta, da prática ou da criação artística-musical, é possível facilitar a aprendizagem de maneira integral, sendo um processo dinâmico de experienciação, que possibilita uma ampliação de aspectos cognitivos, emocionais e sociais.

Além disso, com a utilização da música nos espaços de educação é possível trazer à tona os diversos saberes e conhecimentos como forma de promover uma educação decolonial e formar sujeitos mais conscientes e críticos, principalmente quando trabalhado de forma interdisciplinar, pois não podemos formar sujeitos plenos, se não conhecerem e serem críticos em relação a sua história e seus ancestrais.

A formação plena do sujeito ao longo da vida deve ser pautada em uma formação que contempla saberes científicos e saberes populares articulados aos conhecimentos ancestrais dos diferentes povos e etnias que contribuíram para a formação do nosso país. Mas, além disso, é preciso que as instituições escolares conheçam e apliquem as leis 10.639/2003, 11.645/2008, articuladas a lei 11. 769/2008, além da LDBEN e da Constituição Federal vigente, buscando uma formação integral do sujeito, para que os mesmos tenham consciência do seu papel enquanto cidadãos e promovam a transformação da sociedade. Assim, Bertol e Moll (2024) afirmam que:

[...] a educação precisa tomar consciência de seu papel, e assumirse como meio para uma verdadeira transformação. Mais do que preparar para o mundo do trabalho e para o exercício da cidadania, a educação precisa formar seres humanos completos e verdadeiramente humanos. A educação é para a vida e por toda a vida” (Bertol; Moll, 2024, p. 67-68).

Não podemos afirmar que uma instituição de ensino está ofertando uma Educação Integral, se não está preparando os sujeitos para uma vida plena durante todas as suas etapas de escolarização, desde a educação Infantil até o ensino superior, independente se é uma instituição formal ou não formal, se não está aliando os diversos saberes e conhecimentos. A formação plena do sujeito se dá através de uma educação que envolve todas as etapas e modalidades da educação, durante toda a vida, buscando uma educação que proporciona a integração de saberes científicos e saberes ancestrais, de forma articulada e interdisciplinar.

Assim, mesmo durante a pesquisa nos anais do ENPEC não termos encontrado nenhum artigo com as temáticas pesquisadas de forma interconectadas, entendemos que se faz necessário articular as temáticas não somente em pesquisas, mas no cotidiano escolar para proporcionarmos uma educação voltada para a formação plena ao longo da vida para todas as pessoas independente da classe social, do gênero, da raça e da etnia a qual pertence.

Pensar uma educação decolonial, não só da educação em ciências, mas de forma interdisciplinar, é necessário para formar cidadãos plenos em todas as fases da vida e para a vida toda, e sabemos que a música é um instrumento capaz de proporcionar não somente conhecimentos musicais, mas de forma interdisciplinar e interconectada com outros temas, promover um conhecimento articulados com saberes populares e conhecimentos científicos.

Assim, é preciso fazer ciências de diferentes formas, desconstruindo e repensando os saberes acadêmicos que legitimaram as atrocidades históricas proporcionadas pelo colonialismo do saber e do poder, trazendo produções acadêmicas legítimas que foram apagadas, silenciadas e/ou apropriadas pelos processos dominadores durante séculos. Cyrillo, Guimarães e Farias (2023, p. 20) afirma que: “Em detrimento de tantos percalços que se acercam do caminho, não podemos perder a esperança na educação como fio condutor dos processos de construção social”. É fundamental promover uma ciência capaz de contribuir para a formação plena dos sujeitos, a partir de pesquisadores que refletem sobre a educação decolonial atrelados ao ensino das diferentes ciências, especialmente pesquisadores do Sul Global.

Considerações finais

A formação integral do sujeito ao longo da vida deve perpassar por todas as dimensões humanas e também por conhecer e discutir temáticas interdisciplinares de forma interconectada seja temas transversais ou de temáticas que vão surgindo durante o processo de ensino e aprendizagem. Promover uma Educação decolonial nas diferentes etapas e modalidades da educação básica e do ensino superior é um dos caminhos para formar cidadãos plenos ao longo da vida e a música é um importante instrumento para decolonizar os conhecimentos e saberes científicos e populares.

A música é uma linguagem universal que possibilita o conhecimento de outras culturas, além de ser um instrumento de desconstrução de narrativas coloniais que ainda permeiam as práticas educacionais. Portanto, ao utilizarmos a música como um processo educativo, estamos trabalhando na perspectiva integral do sujeito, pois a atividade promove o reconhecimento e a valorização das diversas culturas e também daquelas que foram historicamente silenciadas e marginalizadas. Desta forma, a música torna-se uma ferramenta decolonial, contribuindo para um aprendizado mais inclusivo e plural.

Ao trabalhar as temáticas: Educação decolonial/decolonialidade, música/musicalidade de forma interconectada, estamos promovendo uma educação integral e formando cidadãos plenos ao longo da vida. Além disso, estaremos cumprindo o que preconiza as leis 10.639/2003, 11.645/2008 e a lei 11. 769/2008, além da LDBEN e da Constituição Federal de 1988.

Assim é preciso desconstruir e repensar outras formas de fazer ciências como forma de legitimar os demais saberes e não continuar com as atrocidades históricas no ensino de ciências e nas pesquisas acadêmicas. p>Segundo Marin e Cassiani, faz-se necessário:

[...] olhar sentir para os referentes e epistemologias produzidas no Sul, entendendo o Sul não só no contexto geográfico global, mas também como aqueles saberes que foram silenciados e marginalizados por ocidente, mas que existem, resistem e persistem (Marin; Cassiani, 2019, p. 6).

Isso permite modificar as normalizações culturais excludentes além de romper com o que dá sentido à colonialidade, trazendo produções legítimas que foram apagadas, silenciadas e/ou apropriadas pela cultura dominante ao longo dos processos, além de ser uma maneira eficaz de promoção de uma ciência cidadã.

Cabem às instituições de ensino promover uma educação decolonial que vise à formação plena dos sujeitos ao longo da vida. Assim como, não somente a educação em ciências precisam promover espaços de estímulos a novas pesquisas que envolvem as temáticas: Educação Decolonial, Música, Educação Integral e Formação ao longo da vida, mas todas as instituições das diferentes áreas do conhecimento poderão proporcionar estudos interdisciplinares visando à integração das diferentes temáticas de forma interconectada com vista à formação plena do sujeito ao longo da vida.

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Recebido: 05 de Dezembro de 2024; Aceito: 15 de Janeiro de 2025; Publicado: 01 de Fevereiro de 2025

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