A crescente preocupação da comunidade científica em compreender a história do ensino das Ciências Sociais tem sido significativa nos últimos anos, considerando os pesquisadores vinculados tanto às Ciências Sociais quanto à Educação. Esse interesse em expansão é evidenciado por diversos indicadores, incluindo: a) a persistência de Grupos de Trabalhos voltados para esse tópico nos principais eventos da área; b) o aumento significativo da produção acadêmica dedicada ao tema por meio de teses, dissertações, artigos em periódicos, livros e coletâneas.
Não obstante, se por um lado esses indicadores, assim como o dossiê ora publicado pela Revista Brasileira de História da Educação (RBHE), refletem o crescente reconhecimento da importância de compreender a história do ensino das Ciências Sociais, por outro lançam luz para a necessidade de aproximação dos cientistas sociais da práxis historiográfica e do amplo universo das pesquisas em História da Educação.
Tais dados apontam para o fato de que este movimento é recente e incipiente dentro do campo das Ciências Sociais, e, também, para a necessidade de diálogo dos sociólogos com os historiadores em geral - e com os historiadores da educação, em particular. Estes últimos, aliás, há décadas envolvidos com a história dos saberes e práticas educacionais, dos intelectuais, do ensino, da formação docente, dos currículos, das disciplinas, dos sujeitos, da cultura e dos materiais escolares, dentre outros temas característicos que marcam a trajetória tanto deste periódico quanto da Sociedade Brasileira de História da Educação que o edita.
Visando contribuir para o debate, bem como para a aproximação entre campos, trazemos a público o dossiê “História da Educação e o ensino das Ciências Sociais” (2024), que apresenta seis artigos interinstitucionais de pesquisadores brasileiros e estrangeiros que procuram oferecer uma abordagem abrangente e diversificada sobre o tema, considerando a pluralidade de fontes, de análises e a diversidade institucional dos autores. Também buscamos situar os leitores do referido dossiê no conjunto dos debates sobre a História do ensino das Ciências Sociais no Brasil.
Certamente um dos desafios para pensarmos a organização de um número dedicado à história do ensino de Ciências Sociais na RBHE remete ao lugar que esse assunto ocupa, situado na interface entre três esferas distintas de saber. Ainda que a maioria de nossos autores provenham da Sociologia, vale ressaltar que este não é um dossiê de Sociologia do ensino da Sociologia - ainda que a perspectiva sociológica esteja inevitavelmente posta no horizonte -, trata-se de um número pensado na interface entre Sociologia, História e História da Educação.
Vale a pena ressaltar que a abordagem metodológica predominante nos estudos acerca da história do ensino das Ciências Sociais, especialmente no contexto da Sociologia escolar, destaca-se pela ênfase em uma narrativa construída a partir de marcos legais e institucionais, bem como pelas contribuições de intelectuais de destaque nas batalhas pela inclusão/exclusão deste saber nos currículos escolares.
Nesse contexto, observa-se que essa narrativa é frequentemente moldada pelas legislações educacionais vigentes, pelas dinâmicas institucionais que permeiam o ambiente educacional, pela produção de manuais escolares específicos e pelo reconhecimento de figuras-chave, muitas vezes os autores de manuais introdutórios à Sociologia.
Portanto, sabemos que há muito o que avançar, a conhecer e a aprender com os historiadores da educação que há mais de duas décadas se lançaram no movimento de reinterpretação e reavaliação do passado educacional do país. Em vez de simplesmente aceitar as narrativas estabelecidas - como é o caso de muitos sociólogos que se voltam para a história do ensino de Sociologia -, esses historiadores da educação buscaram novas formas de olhar para os objetos de estudo tradicionais, como livros, documentos, instituições e práticas pedagógicas, a fim de descobrir novas perspectivas explicativas e inéditos objetos de análises.
Eles exploraram as suposições convencionais e exploraram novas linhas de investigação que acabaram por fornecer uma compreensão mais rica e complexa do desenvolvimento histórico da educação no Brasil. Isso incluiu a análise de fontes negligenciadas anteriormente, como registros pessoais, cartas, diários e materiais visuais, bem como a aplicação de novas metodologias e teorias para examinar os dados existentes sob uma ótica diferente.
Ao adotar essa postura na construção de um campo de pesquisa hoje consolidado, os historiadores da educação no Brasil lançaram luz sobre aspectos do passado educacional que foram subestimados, ignorados ou distorcidos, contribuindo assim para uma compreensão mais completa e precisa da história da educação. Essa abordagem também abriu espaço para uma reflexão crítica sobre as implicações do passado educacional para os desafios contemporâneos e futuros enfrentados pelo sistema educacional brasileiro.
Desse modo, procuramos nos aproximar deste campo do saber considerando o conjunto das pesquisas que vêm sendo publicadas sobre o tema da história do ensino de Ciências Sociais no Brasil, destacando os seguintes aspectos: a) observa-se uma predominância de dois recortes temporais nas pesquisas, abrangendo o período de 1925 a 19421 e os anos 2000. Em ambos os casos, a presença da Sociologia escolar no currículo do ensino secundário emerge como uma variável crucial para compreender essa predominância; b) a maior parte das pesquisas direciona seu foco para o ensino da Sociologia escolar, sendo pouco explorado o ensino de Antropologia e de Ciências Política2 no âmbito do ensino superior; e c) a revisão de literatura é a metodologia mais comum adotada, destacando-se como uma abordagem recorrente na investigação da história do ensino das Ciências Sociais (Bodart & Cigales, 2019). Em geral, essas pesquisas exploram os aspectos ideológicos presentes nos manuais de Sociologia produzidos por representantes de determinados grupos intelectuais, passando pelos lugares sociais que eles ocuparam e pelos conteúdos que imprimiram em suas obras.
Nesse contexto, importa ressaltar que o ensino da Sociologia não possuía (e não possui) um sentido uniforme, apresentando variações ao longo do tempo e do espaço; e, de modo mais substantivo, aquela Sociologia introduzida na escola brasileira ainda na Primeira República e no início da chamada Nova República é distinta daquela que passou a ocupar os currículos escolares paulatinamente após o processo de redemocratização na década de 1980 (Oliveira, 2013), o que refletiu, por exemplo, nas variações de discursos que buscaram legitimar sua oferta (Azevedo & Nascimento, 2015).
Notadamente, compreender os processos de transformação dos sentidos que a Sociologia passou a assumir ao longo do tempo demanda uma reflexão mais abrangente sobre a própria transformação do campo das Ciências Sociais em seu sentido mais amplo, incluindo-se aí seu ensino universitário.
Algumas pesquisas vêm evidenciando as multiplicidades de caminhos do ensino de Sociologia. Seja buscando observar os sentidos dados pelos egressos de licenciatura em Ciências Sociais (Cigales et al., 2019), pelos estudantes (Leal & Yung, 2015), pelos documentos oficiais (Lima, 2018), assim como pelos livros didáticos (Engerroff & Oliveira, 2019) e pelas disputas curriculares (Cigales, 2019; Pereira, 2015; Silva & Bodart, 2019; Lima, 2018). As contendas pela definição dos sentidos da Sociologia escolar têm sido exploradas a fim de apresentar subsídios para a compreensão do processo de institucionalização da Sociologia, inclusive o processo de relativa autonomização do campo da Sociologia em relação ao campo educacional brasileiro em geral (Engerroff & Oliveira, 2019, Cigales, 2019; Oliveira, 2023).
Desse modo, o artigo intitulado “A sociologia sai da escola: a Reforma Capanema de 1942 e as disputas dos católicos em torno da disciplina no Brasil”, de Thiago da Costa Lopes (2024), explora a exclusão da Sociologia como disciplina obrigatória do currículo das escolas secundárias após a Reforma Capanema, de 1942, e destaca as disputas encampadas pelos intelectuais católicos em torno da cientificidade e dos contornos a serem assumidos pelas Ciências Sociais no Brasil. Na literatura especializada acerca dos embates entre a Sociologia laica e a Sociologia Católica, encontramos um conjunto de pesquisas (Cigales, 2019; Cigales & Oliveira, 2024; Oliveira & Gatti Junior, 2019), porém sem se ater aos aspectos que levaram a Sociologia a ser excluída do ginásio e dos cursos complementares em 1942.
O segundo artigo do dossiê, intitulado “Antigos livros didáticos de Ciências Sociais para a escola elementar: a coleção de Ariosto Espinheira”, de autoria da historiadora Antonia Terra Calazans (2024), enriquece os estudos sobre a história dos livros didáticos ao analisar uma coleção desenvolvida a partir de um programa curricular de Ciências Sociais para os anos iniciais. Essa coleção foi implementada no Rio de Janeiro na década de 1930, em meio a debates para a reformulação dos princípios da educação nacional. Calazans analisa os conteúdos da coleção, os quais, segundo a autora, estavam diretamente associados ao contexto brasileiro, marcado pelo processo de urbanização, modernização econômica e substituição das importações, o que impactou diretamente a produção de livros didáticos no Brasil, especialmente após a Grande Depressão, como indicou Hallewell (2017).
Destacamos, ainda, o artigo “Avaliação das aprendizagens na disciplina de Sociologia para o Curso Complementar: reflexões a partir de manuais didáticos das décadas de 1930 e 1940”, de autoria de Welkson Pires e Lucas Matheus Lima (2024), que investiga manuais escolares voltados aos cursos complementares preparatórios para o ensino superior que circularam no Brasil nas décadas de 1930 e 1940. Esse artigo contribui para a compreensão dos processos avaliativos no ensino da Sociologia na primeira metade do século XX. Além disso, inaugura um foco de análise relevante: os objetivos de ensino-aprendizagem contidos na Sociologia durante o período examinado.
No artigo intitulado “Perfil das Comissões de Avaliação Pedagógica dos Livros Didáticos de Sociologia do Programa Nacional do Livro Didático de 2012 a 2018”, Rafaela Reis Azevedo de Oliveira, Thiago de Jesus Esteves e Katiuscia Cristina Vargas Antunes (2024) exploram agentes que até então não haviam sido observados: os avaliadores dos livros do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Estes são sujeitos importantes de análise, posto que são quem avaliam e elegem as obras que irão compor o catálogo do referido programa. Segundo os autores, identificar o perfil dos avaliadores das obras permite evidenciar suas identidades profissional e acadêmica, que no recorte adotado (2012-2018) demonstram estreita relação com a grande área de conhecimento das Ciências Sociais.
Ainda que não se voltando para a experiência brasileira, mas francesa, Igor Martinache (2024), em “As disciplinas escolares como campos em (trans)formação: o caso da introdução das Ciências Econômicas e Sociais no ensino médio francês (1965-1985)”, nos convida a compreender os agentes sociais que disputaram, na França, o poder pelas conformações do currículo escolar. Destacamos que alguns trabalhos acerca da realidade do ensino de sociologia naquele país já foram publicados no Brasil anteriormente (Martinache, 2021), principalmente por intermédio da tradução de textos de autores franceses (Chatel & Grosse, 2014; Vitale, 2015; Troung, 2019; Serre, 2020), além da realização de análises comparativas entre duas realidades distintas (Maçaira, 2017; Martins & Fraga, 2021). O caso francês é especialmente interessante para compararmos com o Brasil na medida em que nos possibilita pensar os diferentes arranjos que as Ciências Sociais podem assumir no currículo escolar. Enquanto na França a Sociologia está articulada na educação secundária às Ciências Econômicas, no Brasil está ligada à Antropologia e à Ciência Política.
No artigo intitulado “Temas, metodologias e núcleos de sentido: uma análise de conteúdo da produção científica do Mestrado em Ciências Sociais para o Ensino Médio”, de Tatiane Moura, Patricia Bandeira de Melo, Rodrigo Vieira de Assis e Alexandre Zarias, observamos o enfoque na produção acadêmica sobre o ensino das Ciências Sociais tendo como fontes de pesquisa os trabalhos de conclusão de curso de um programa de mestrado profissional. Ainda que se trate de uma análise do tempo presente, mostra-se como um exame relevante para compreender a história do ensino de Ciências Sociais no Brasil, especialmente no campo da formação docente, tema tão caro aos educadores.
No Brasil, várias pesquisas têm sido realizadas com o propósito de analisar a produção acadêmica sobre ensino das Ciências Sociais em um recorte temporal mais atual, contribuindo para a compreensão das dinâmicas relacionadas a essa produção científica na história recente. Algumas se dedicaram a examinar as dissertações e teses (Handfas, 2011; Bodart & Cigales, 2017; Antunes & Alves, 2018), artigos em revistas na área de Sociologia (Oliveira & Melchioretto, 2020), dossiês sobre o tema (Brunetta & Cigales, 2018), artigos em grupos de trabalhos em eventos (Röwer, 2016; Oliveira, 2026; Cruz, 2022), livros e coletâneas (Eras, 2015); e grupos e linhas de pesquisa (Neuhold, 2015).
Retomando os argumentos apresentados nos artigos que compõem o dossiê, podemos observar algumas questões que contribuem para uma reflexão sobre o (sub)campo de maneira mais ampla, especialmente sobre a pesquisa histórica do ensino das Ciências Sociais.
Lopes (2024), buscando elucidar as razões que levaram à exclusão da sociologia do currículo escolar em 1942 e discutir o impacto das disputas travadas pelos intelectuais católicos nesse processo, utilizou-se de análise de documentos históricos como pareceres, relatórios e correspondências, além de revisão bibliográfica sobre o tema. Destaca-se o uso de documentos disponíveis no Arquivo Gustavo Capanema.
Dentre as diversas fontes que vem sendo mobilizadas no Brasil, estão as atividades escolares (Bodart, 2015), os manuais escolares (Meucci, 2000; Brito, 2012; Cigales, 2019; Lima, 2018), os jornais de época (Bodart & Marchiori, 2021), os programas escolares (Lima, 2018), as revistas científicas (Neuhold, 2023) e a legislação (Machado, 1987). Nesse sentido, vimos nos aproximando fortemente da práxis dos historiadores da educação.
Vamos encontrar nos artigos de Calazans (2024) e de Pires e Lima (2024) o uso de manuais escolares como fontes históricas para pensar o ensino das Ciências Sociais. No caso de Calazans (2024), a metodologia adotada inclui a análise da materialidade e do conteúdo de livros didáticos de Ciências Sociais para a escola elementar produzidos na década de 1930, o que foi realizado a fim de compreender como as ideias educacionais da época foram incorporadas - ou não - na prática didática. Pires e Lima, por sua vez, realizaram a análise de cinco manuais escolares de Sociologia publicados na década de 1930, voltados aos Cursos Complementares, a partir de uma perspectiva histórico-educacional, o que fizeram por meio documentos curriculares e legislação educacional da época.
Os autores não deixaram de destacar a importância de contextualizar as análises dos manuais escolares à luz da legislação educacional e dos documentos curriculares em voga, o que já havia sido sinalizado por Bodart e Pires (2021) quanto aos livros didáticos de Ciências Sociais ao proporem uma metodologia de análise que considera aspectos internos e externos às obras.
Nessa busca de renovação de questões e de objetos de pesquisas, Oliveira, Esteves e Antunes adotaram uma abordagem metodológica estimulante ao explorarem os guias do Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) com o propósito de compreender aspectos das obras didáticas e caracterizar o perfil da comissão avaliadora.
Encontramos, ainda, no artigo de Moura et al. (2024), uma análise quali-quantitativa de parte da produção acadêmica do (sub)campo de pesquisa do ensino de Sociologia, que se soma a outras pesquisas com diversos recortes e variáveis de análise. Esse tipo de exame permite a compreensão das dinâmicas desse (sub)campo, especialmente evidenciando a ampliação do volume de trabalhos na última década, inclusive a diversificação dos temas explorados.
Quanto à base teórica que vem sendo adotada nas análises sobre a história do ensino das Ciências Sociais no Brasil, há uma predominância da Teoria dos Campos, o que “têm oxigenado a agenda de pesquisas sobre a história do ensino de Sociologia e proporcionado ao tema um tratamento teórico-metodológico promissor” (Bodart & Tavares, 2021, p. 50). Isso, em grande medida, pode refletir a predominância que Bourdieu ocupa no campo da Sociologia da Educação no Brasil, bem como no próprio campo da História da Educação (Catani & Faria Filho, 2002).
Ainda que as pesquisas sobre a história do ensino das Ciências Sociais ultrapassem o escopo do presente dossiê, é interessante perceber alguns elementos aqui presentes que evidenciam certas marcas nessa área. A mais evidente é a centralidade do livro didático nas análises sobre a história do ensino das Ciências Sociais.
Reconhecemos que os manuais escolares e os livros introdutórios à Sociologia são fontes históricas fundamentais para a compreensão dos conteúdos e das intencionalidades pedagógicas, sobretudo em se tratando de períodos longínquos. Além disso, outra abordagem metodológica proeminente para a compreensão desses elementos relacionados ao ensino das Ciências Sociais é a análise de documentos produzidos por professores e estudantes, como fez Bodart (2015), ao explorar atividades avaliativas aplicadas em uma Escola Normal no ano de 1935, e a legislação, como empregada por Machado (1987).
Por outro lado, bem sabemos que ao menos desde os anos de 1990, os estudos relativos à cultura escolar e, sobretudo, àqueles destinados à história das disciplinas escolares vêm dinamizando sobremaneira o conhecimento sobre as práticas e as representações dos saberes institucionalizados e, também, sobre os usos cotidianos dos/nos livros didáticos. Justamente por isso, entendemos que um dos grandes desafios enfrentados pelos que se debruçam sobre a história do ensino de Ciências Sociais daqui por diante é justamente se apropriar da vasta bibliografia produzida sobre o assunto cultura escolar dentro do campo da História da Educação, procurando incorporar as ricas discussões a respeito dos significados dos livros didáticos para além da ideia de meros “currículos editados” ainda presentes na história do ensino de Ciências Sociais (Julia, 2001; Escolano Benito, 2011; 2017; Chervel, 1990; Souza-Chaloba, 2000).
Observamos uma tendência em pesquisas empreendidas por sociólogos que continuam a utilizar manuais escolares para investigar aspectos curriculares e práticas docentes em diferentes períodos históricos desconsiderando, muitas vezes, os usos desses artefatos pela própria comunidade escolar. Por outro lado, nota-se que, embora existam múltiplos períodos de interesse, os recortes mais frequentes concentram-se na primeira metade do século XX e nas primeiras décadas do século XXI. Especificamente, destaca-se o período subsequente à inclusão da Sociologia no Programa Nacional do Livro Didático (PNLD). Voltamos a destacar aqui a relevância da análise do período compreendido entre a Primeira República e a Nova República para o campo da História da Educação, de modo que as pesquisas acerca desse tempo possuem uma forte vinculação com o que tem sido debatido no campo educacional brasileiro em período recente.
Notadamente as pesquisas sobre a história do Ensino das Ciências Sociais não se resumem a tais aspectos, cabendo ainda um destaque especial para os estudos acerca da criação dos primeiros cursos de Ciências Sociais (instâncias de formação docente), bem como para os agentes envolvidos nesse processo. Talvez caiba refletir que muitas das pesquisas que se inserem nesse debate amiúde não são compreendidas como análises sobre ensino de Ciências Sociais, ainda que se voltem para a compreensão da trajetória de docentes e de cursos de formação de professores.
Convém mencionar, ainda, que as questões aqui presentes representam também um outro momento no (sub)campo do ensino de Sociologia, na medida em que tem havido um crescente refinamento das ferramentas teóricas e metodológicas adotadas. Se, em grande medida, encontrávamos até meados dos anos 2000 e início dos anos de 2010 uma contínua replicação de certas afirmações sobre a história do ensino de Ciências Sociais3 sem a devida consulta aos arquivos, com a reprodução de hipóteses pouco fundamentadas em documentos e a utilização massiva de bibliografia não problematizada, podemos observar atualmente um esforço genuíno de aproximação da empiria, ao mesmo tempo que temos procurado questionar com maior complexidade os próprios eventos demarcadores da história do campo.
O que nos parece relevante enfatizar é como os estudos da História do ensino das Ciências Sociais têm se expandido nos últimos anos, contribuindo para consolidar o (sub)campo do ensino de Sociologia, seja a partir da exploração de novas fontes e novos campos empíricos, seja por meio de novas abordagens teóricas e metodológicas. O avanço contínuo nesta área requer o reconhecimento dos debates já conduzidos recentemente e uma maior interlocução com os aportes teórico-metodológicas da História, especialmente da História da Educação, a fim de fomentar o desenvolvimento de novas agendas e de férteis interlocuções.