Introdução
Neste estudo objetivamos socializar as experiências de formação contínua de professores/as do campo no município Presidente Figueiredo/AM, durante o curso de aperfeiçoamento em “Educação do Campo: práticas pedagógicas” da Universidade Federal do Amazonas, desenvolvido em convenio com o MEC/FNDE/SEDUC/SEMESP através das ações do programa Escola da Terra, que integra o Programa Nacional de Educação do Campo (PRONACAMPO) no Estado do Amazonas.
O Pronacampo foi criado pelo Decreto n.º 7.352/2010 (BRASIL, 2010), e instituído por meio da Portaria nº 86, de 1º de fevereiro de 2013. Seu objetivo é oferecer apoio técnico e financeiro aos estados, Distrito Federal e municípios para a implementação do acesso e qualificação da oferta da educação básica e superior, desenvolvido pela União em regime de colaboração com os entes federados, conforme as diretrizes e metas estabelecidas no Plano Nacional de Educação. E é estruturado em quatro eixos de ação: EIXO 1: Gestão e Práticas Pedagógicas; EIXO 2: Formação Inicial e Continuada de Professores; EIXO 3: Educação de Jovens e Adultos e Educação Profissional; e EIXO 4: Infraestrutura Física e Tecnológica. (BRASIL, 2013a, 2013c).
O Pronacampo abarca o Programa Escola da Terra que foi instituído pela Portaria nº 579, de 02 de julho de 2013 e sua finalidade consiste em promover a formação continuada específica de professores para que atendam às necessidades de funcionamento das escolas do Campo e das localizadas em comunidades quilombolas e oferecer recursos didáticos e pedagógicos que atendam às especificidades formativas das populações do Campo e Quilombolas (BRASIL, 2013b, 2013c, p.3).
Para tanto, o estudo teve como foco as atividades formativas do Escola da Terra no Estado do Amazonas com 20 professores/as de escolas do campo, realizadas durante o Tempo Universidade do referido curso na sede do município de presidente Figueiredo/AM, que ocorreu entre agosto a dezembro de 2021.
Quanto ao percurso metodológico utilizamos a pesquisa qualitativa desenvolvida com apoio da pesquisa bibliográfica, documental com ênfase nos estudes de Borges; Mourão (2016), Hage; Silva; Freitas (2021), Caldart (2011, 2016), Molina; Sá (2011), Antunes-Rocha; Hage (2010), Arroyo (2011) dentre outros; e em referencias legais sobre Educação do Campo, como: portarias, decretos, resoluções e documentos institucionais do Escola da Terra; bem como descrevemos a experiência de formação docente e os relatos informais das experiências dos cursistas ao longo da formação.
Para uma melhor compreensão das questões tratadas no estudo, apresentamos o Programa da Terra no Estado do Amazonas no contexto de Pandemia de Covid-19, posteriormente apresentamos o município de Presidente Figueiredo, lócus da formação, e o desenvolvimento das atividades formativas no Tempo Universidade durante o curso de aperfeiçoamento em “Educação do Campo: práticas pedagógicas” no município. Almejamos que este estudo possa contribuir para ampliação das discussões sobre o programa Escola da Terra no Brasil e no Amazonas.
O Programa Escola da Terra no Amazonas no contexto de pandemia
No Estado do Amazonas o programa é ofertado pela Faculdade de Educação (FACED) da Universidade Federal do Amazonas, que desde dezembro de 2013, vem trabalhando na formação continuada de professores/as que atuam nas escolas do campo com classes multisseriadas, por meio de convênios de Cooperação Técnica UFAM/FNEDE/MEC-SEMESP5 - Programa Escola da Terra, na área temática Educação do Campo, em parceria com Seduc/AM e as Secretarias Municipais de Educação (PAR) (PPC/UFAM, 2020).
As ações do Escola da Terra se fazem por meio do curso de aperfeiçoamento em Educação do Campo: práticas pedagógicas da UFAM, que voltado para formação contínua de docentes que atuam nas escolas multisseriadas do campo dos municípios do Estado do Amazonas, nas séries iniciais do Ensino Fundamental e nos movimentos sociais na área de educação (BORGES; MOURÃO, 2016), pois é extremamente relevante que, conforme sinaliza o Art. 10. § 2º da Resolução n. º 2, de 28 de abril de 2008,
Art. 10. §2º. As escolas multisseriadas, para atingirem o padrão de qualidade definido em nível nacional, necessitam de professores com formação pedagógica, inicial e continuada, instalações físicas e equipamentos adequados, materiais didáticos apropriados e supervisão pedagógica permanente (BRASIL, 2008).
Em 2021, em face das restrições da pandemia de Covid-19 causada pelo novo coronavírus SARS-CoV-2, o curso de aperfeiçoamento em Educação do Campo: práticas pedagógicas do Escola da Terra no Amazonas, atendeu a demanda de apenas 120 (cento e vinte) professores/as que atuam em escolas do campo de 6 (seis) municípios sendo estes: Humaitá; Itacoatiara; Iranduba; Manicoré; Presidente Figueiredo; São Sebastião do Uatumã, com a quantidade de 20 (vinte) cursistas por turma, obedecendo todas as medidas de biossegurança estabelecidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), Vigilância Sanitária do Amazonas e Ministério da Saúde.
Para a formação contínua dos professores/as cursistas, o curso de aperfeiçoamento ofertou ao todo carga horária de 120h, distribuídos entre estudos teóricos (debates, rodas de conversas, oficinas, seminários integrador) planejamentos das atividades do tempo universidade/tempo comunidade (atividades de pesquisa e registro de experiências), preparação do material didático, de forma individual e coletiva.
A formação oferecida nesse curso de aperfeiçoamento está centrada nos princípios legais e conceituais da Educação do Campo, sustentada pelo conhecimento elaborado cientificamente, com intuito de estreitar a relação do mundo do trabalho do campo com o saber escolar presente no cotidiano da escola do campo. Apresenta em seu percurso formativo os tempos de ensino e aprendizagem de domínio da Pedagogia da Alternância, como condutor do trabalho pedagógico da formação contínua dos professores e professoras em formação dos municípios do Estado do Amazonas (BORGES; MOURÃO, 2016, p. 5).
Ao assumir os princípios da Educação do Campo, o mesmo foi desenvolvido regime de Alternância por meio da integração dos tempos formativos (Tempo Universidade - TU/Tempo Comunidade - TC). Para a aplicação e desenvolvimento da Pedagogia da Alternância utilizamos os instrumentos: plano de formação; plano de estudo; colocação em comum - socialização e organização dos conhecimentos da realidade do educando/a e do seu meio, que servem de base para o aprofundamento articulado nas várias áreas do saber; interdisciplinaridade; caderno de síntese da realidade do aluno (vida); fichas didáticas; visitas de estudo; intervenções externas - palestras, seminários, debates; experiências/ projeto profissional do aluno; visitas à família do aluno; caderno de acompanhamento da alternância e avaliação - contínua e permanente (PPC/UFAM, 2020).
Nesse sentido, entendemos que a Pedagogia da Alternância como estratégia teórico-metodológica é essencial na formação de professores/as das escolas do campo, pois se constitui em um,
[...] contributo importante que procuramos exercitar nas formações executadas pelo Programa Escola da Terra é a interação entre o conhecimento da vida e o conhecimento escolar por meio do exercício desafiador de eleger a Formação em Alternância como estratégia teórico-metodológica que reconhece que diferentes tempos, espaços e saberes são formativos dos sujeitos, e que, portanto tem se constituído como um eixo importante do processo formativo das/os professoras/es que atuam nas escolas do campo, das águas e da floresta. (HAGE; SILVA; FREITAS, 2021, p. 302).
A formação em Alternância permite o desenvolvimento do TU e TC no curso de aperfeiçoamento Educação do Campo: práticas pedagógicas da Faced/UFAM. O TU é o momento em que os professores/as em formação têm aulas teóricas, participam dos aprendizados das várias áreas dos conhecimentos: pedagogia, didática, psicologia, filosofia e da conjuntura agrária, além da discussão do mundo do trabalho do campo. Nesse tempo eles irão se auto-organizar para realizar tarefas que garantam o funcionamento do curso e participam de discussões com a coordenação sobre o processo do planejamento das atividades, em relação ao próximo modulo e do Tempo Comunidade. E no TC, se realizam as atividades de pesquisa da sua realidade, de registro de experiências, de práticas que permitem a troca de conhecimento, nos vários aspectos. Este tempo será acompanhado pela coordenação do curso, pelos professores/as formadores/as, é um momento que não pode ficar solto porque com certeza não será realizado (PPC/UFAM, 2020).
Os dois tempos, de forma complementar, possibilitam que a Educação do Campo seja desenvolvida no seu trabalho pedagógico de ação-reflexão-ação. Cada teoria discutida no Tempo Escola é trabalhada em forma de pesquisa, no Tempo Comunidade. Quando se retorna para o círculo de diálogo no grupo e durante a partilha do saber, torna-se possível uma nova reflexão, que posteriormente possibilitará uma nova ação (BORGES, 2016). Dessa forma, a concepção e organização dos tempos formativos permitem sua articulação e a mediação na construção de saberes, aprendizagens, planejamentos e práxis dos/as educadores/as do campo, pois se constituem em tempos/espaços de construção de conhecimentos interdisciplinares, contra hegemônico e coletivo, necessários ao processo de transformação social das escolas dos territórios camponeses.
Por tais motivos, o curso é organizado em 2 (dois) eixos articuladores e estruturantes da matriz curricular do processo formativo, subdivididos em 6 (seis) eixos temáticos, como exibe o quadro 1:
Quadro 1 Eixos e subeixos do curso de aperfeiçoamento em Educação do Campo: práticas pedagógicas/Programa Escola da Terra /UFAM
| Eixos Articuladores | Eixos Temáticos |
|---|---|
| 1º Trabalho e Educação do/no Campo | 1º Agricultura Familiar, Agroecologia e Alfabetização Ecológica |
| 2º Desenvolvimento Sustentável e Fundamentos da Economia Solidária | |
| 3º Cultura, Trabalho, Educação, Subjetividade e Identidade no Campo | |
| 2º Escola do Campo e sua práxis | 4º Pesquisa como Princípio Educativo e o Currículo da Escola Básica do Campo |
| 5º Práxis Docentes na Escola do Campo | |
| 6º Ensino e pesquisa na Formação de Professores do Campo na Amazônia |
Fonte: PPC de curso aperfeiçoamento Educação do Campo: práticas pedagógicas/UFAM, 2020.
O projeto do curso tem a estrutura curricular focada no professor/a em formação como sujeito histórico, com suas problemáticas e sua contextualização, para que este compreenda a concepção da Educação do Campo, e posicionarem-se de forma crítica, diante da ciência moderna e das questões sociais, econômicas, políticas e ambientais do mundo atual, buscando interferir no processo social e compreendendo a luta no campo (UFAM, 2020). Por isso, os fundamentos teóricos e metodológicos sobre práticas pedagógicas da Educação do Campo, por meio dos eixos articuladores, temáticos e seus módulos, permitem um movimento dialético, que proporciona ao desenvolvimento de estratégias e de recursos educativos que facilitam a integração do saber tradicional ao saber científico (BORGES; MOURÃO, 2016).
O município de Presidente Figueiredo: lócus da formação
Presidente Figueiredo, município amazonense, que faz parte da Região metropolitana de Manaus, fica a cerca de 130 km da capital, possui uma área territorial de 25.459, 099 km2, a estimativa atual da população é de aproximadamente 38.095pessoas habitantes. (IBGE, 2022).

Fonte: SRMM, 2010.
Figura 2 Localização do município de Presidente Figueiredo em relação a Região metropolitana de Manaus
Segundo a Secretária Municipal de Educação de Presidente Figueiredo, o município possui 17 escolas do campo, localizadas em assentamentos, ramais, áreas rodoviárias e comunidades do Rio Uatumã, que atendem a Educação Infantil e Pré-escola; Ensino Fundamental Anos Iniciais, Ensino Fundamental Anos Finais, e sedem o espaço físico para a realização das aulas do Ensino Presencial com Mediação Tecnológica para o Ensino Médio da Seduc/AM. E são organizadas de forma nucleadas (seriadas) e multisseriadas com classes multissérie.
O desenvolvimento das atividades formativas no Tempo Universidade
Iniciamos as atividades formativas do Tempo Universidade do Curso de Aperfeiçoamento em Educação do Campo: Práticas Pedagógicas da Faced/UFAM no município de Presidente Figueiredo no dia 30 de agosto, por meio do Seminário de Abertura, onde compôs a mesa a Coordenadora Estadual do Programa Escola da Terra no Estado do Amazonas (UFAM), a Professora Formadora (PPGE/UFAM), Professor Pesquisador (EDUCANORTE/UFAM), a Coordenadora Regional de Educação da SEDUC em Presidente Figueiredo, o Secretário municipal de Educação do referido município, o Chefe da Divisão de Ensino Rural da Coordenadoria Pedagógica-SEMED local, as Tutoras do Programa Escola da Terra no município e o Presidente da Câmara Municipal de Presidente Figueiredo.
As atividades formativas no Município de Presidente Figueiredo desenvolvidas no 1º Eixo Articulador: Trabalho e Educação do/no Campo foram desenvolvidas por meio de (três) eixos temáticos: 1º Agricultura Familiar, Agroecologia e Alfabetização Ecológica; 2º Desenvolvimento Sustentável e Fundamentos da Economia Solidária; 3º Cultura, Trabalho, Educação, Subjetividade e Identidade no Campo nos encontros presenciais nos meses de agosto e setembro.
Nos encontros formativos realizados entre 30, 31/08 e 01/09/2021 abordamos o 1° (primeiro) e 2º (segundo) eixo temático. O objetivo dessa formação foi estudar e dialogar com os professore/as cursistas sobre o mundo do trabalho e da educação do/no campo amazônico, reconhecendo a história e a relação do trabalho do campo, identificando a agricultura familiar, agroecologia e alfabetização ecológica; bem como enfatizar a importância do desenvolvimento sustentável e fundamentos da Educação do Campo.
O material de estudo foi o livro “Trabalho e Educação do/no campo: Agricultura familiar, agroecologia e alfabetização ecológica” organizado por Borges; Mourão (2016) que permitiu o estudo teórico com a finalidade de contribuir para a compreensão do histórico da evolução dos sistemas agrícolas, a agricultura familiar no contexto agroecológico, os conceitos, objetivos, princípios e bases científicas da agroecologia; a história das populações tradicionais na Amazônia; a agricultura familiar os referencias teóricos; o conceito introdutório sobre sustentabilidade e desenvolvimento sustentável; os pressupostos e princípios da economia solidária; assim como as características e tendências da economia solidária no Brasil; teoria e práxis da economia solidária; autogestão e as experiências de geração de renda no campo.
No que concerne a metodologia utilizada para o desenvolvimento do conteúdo programático no tempo universidade está foi efetuada mediante as seguintes técnicas de ensino: exposição do plano de ensino, místicas6 com auxílios de vídeos e músicas, aulas expositivas com auxílio do PowerPoint; leituras individuais e coletivas com fundamentação para discussões em sala de aula; elaboração de trabalhos escritos, desenvolvimento de oficinas, debate e de roda de conversa para as reflexões dos grupos. Vale ressaltar que os debates dos textos eram mediados para que todos pudessem ter a oportunidade de falar.
Durante as atividades os cursistas eram organizados em grupos para fazer a leitura individual e coletiva dos textos e em seguida faziam a exposição do material, socializados através peças teatrais, cartazes, poesias e músicas sobre os conteúdos abordados, como exibe as figuras 3A, 3B, 3C, 3D, 3E, 3F.
Durante a formação uma professora cursista escreveu e declamou um texto para expor a importância de o camponês valorizar o campo enquanto território de vida, a agricultura familiar camponesa, a agroecologia, a alfabetização ecológica e sustentabilidade no meio ambiente.
[...] Mas o homem com essa mania de enriquecer da noite pro dia
Devastava a mata, crueldade
Um coração sem solidariedade
Retira os animais do seu habitat
Oh quanta maldade
Depois de tanto apanhar
Porque um dia a natureza vai cobrar
E de pouco a pouco e devagar
Olha pra trás e ver prejuízo
Corre atrás do seu amigo
Devagar vai replantando
Da natureza vai tirar
Seu alimento, seu sustento
E a sua paz vai retornar
Em harmonia com a natureza
A sustentabilidade vai gerar
Olha pro céu e agradece
E com uma pequena prece
Oh Senhor, meu Salvador
Obrigada por me mostrar
Que o Campo é meu lugar
(Trecho de texto escrito e declamado por uma Professora cursista)
E é nesse percurso que a relação das escolas do campo com a Agroecologia é necessária e possível, podendo contribuir para reestruturar o contexto de atual crise alimentar articulada produção agrícola de base ecológica e aos princípios de soberania alimentar, com a socialização da propriedade da terra e com formas de trabalho associado e coletivo. É uma relação que se coloca no bojo de um projeto de transformação da agricultura, assim como da educação e da escola, a favor dos interesses sociais e humanos da maioria das pessoas, da humanidade (CALDART, 2016).
Prosseguindo, fechamos esses 2 (dois) primeiros eixos temáticos trabalhando os “Passos dos tempos formativos do curso de aperfeiçoamento em educação” para a elaboração de oficina para elaboração do plano de trabalho da pesquisa do Tempo Comunidade e avaliação dessa etapa da formação.
Nos encontros formativos de 30/09 e 01/10/2021 trabalhamos o 3º Eixo Temático Cultura, Trabalho, Educação, Subjetividade e Identidade no Campo, cujo objetivo era levar os cursistas a reconhecer e dialogar sobre a Cultura, Trabalho, Educação, Subjetividade e Identidade no Campo amazônico, valorizando o homem/ mulher do campo amazônico e os movimentos sociais e o processo de identificação presente nas ações humanas no campo; e refletir o caráter sócio histórico da identidade amazônica.
Assim, abordamos textos sobre o caráter sócio-histórico dos conceitos de cultura, trabalho, subjetividade e identidade; constituições subjetivas individuais e coletivas; sobre o homem/ mulher do campo amazônico e os movimentos sociais e o processo de identificação presente nas ações humanas no campo, contidos no livro “Trabalho e Educação: Cultura, Trabalho, Educação, subjetividade e identidade no campo”, organizado Borges; Mourão (2014).
Nesse 3º (terceiro) eixo, além da exposição do plano de ensino, das místicas com auxílios de músicas, imagens e elementos da cultura amazônica, das aulas expositivas; leituras individuais e coletivas; exposição do material socializados por cartazes, problematização dos textos e mapas conceituais, ainda realizamos a socialização dos relatórios de pesquisa do TC no Seminário Integrador I e a aplicação do diagnóstico socioeconômico para mapear o perfil dos professores/as cursistas, como exibem as figuras 4A, 4B, 4C, 4D, 4E, 4F.
Para Borges; Silva (2014) a Educação do Campo surge para afirmar que os sujeitos do campo, como pessoas de cultura, educação, subjetividade e identidade, não inferior, sim diferente na diversidade, especificamente no Estado do Amazonas.
As atividades formativas do 2º eixo articulador “Escola do Campo e sua práxis”, foram realizadas por meio dos eixos temáticos 4º Pesquisa como Princípio Educativo e o Currículo da Escola Básica do Campo; 5º Práxis Docentes na Escola do Campo e 6º Ensino e pesquisa na Formação de Professores do Campo na Amazônia, durante os encontros presenciais nos meses de outubro a dezembro.
O 4° (quarto) Eixo Temático “Pesquisa como Princípio Educativo e o Currículo da Escola Básica do Campo” foi realizado nos dias 25, 26 e 27 de outubro, e tinha como finalizada levar os cursistas a conhecer a proposta da pesquisa como princípio educativo e o currículo da escola do campo, estudando sobre as contribuições para a construção de um projeto de educação do campo; dialogando e refletindo sobre a Educação de Campo e a organização do trabalho pedagógico.
Atividades formativas diárias iniciaram com as místicas e socialização dos relatos dos docentes no TC, e seguiram com os estudos de textos propostos no plano de ensino, e aula expositiva dialogada sobre o Projeto Político Pedagógico (PPP) da Escola do Campo e orientações da elaboração dos passos da elaboração deste documento nas escolas no TC.
Os textos trabalhados foram “Por um Tratamento Público da Educação do Campo” (ARROYO, 2004); Questões Paradigmáticas da Construção de um projeto Político da Educação do Campo (JESUS, 2004); Educação do Campo e a Escola Multisseriada na História da Educação Brasileira (LOCKS, ALMEIDA; PACHECO, 2013); Educar e Aprender Pela Pesquisa: Uma Opção Metodológica à Construção dos Saberes (VIEIRA et al.; 2020); e a Educação do Campo e a Organização do Trabalho Pedagógico (BORGES; SILVA; 2012).
As atividades formativas envolveram místicas, aulas expositivas; rodas de conversa, estudo dirigido, leituras individuais e coletivas dos textos; trabalho escrito, elaboração de trabalhos como construção de linhas do tempo pelos grupos de cursistas, confecção de uma Árvore da Escola do Campo, figuras 5A, 5B, 5C, 5D, 5E, 5F
As atividades formativas desenvolvidas ainda permitiram discussões sobre o processo de educar pela pesquisa na Educação do Campo, as teorias do currículo (tradicional, crítico e pós-crítico), o currículo da Escola do Campo, e a Relação Escola - Comunidade, no sentido de pensar um currículo da escola do campo com os conhecimentos da cultura e dos saberes cotidianos da classe trabalhadora camponesa (ARROYO, 2011).
Um aspecto importante que chamou a atenção durante uma das rodas de conversas foi o relato de experiência educacional em escolas do campo multisseriadas apresentado por um cursista:
Eu tive muita resistência para vim a este curso, não é a primeira vez que eu ouço falar do Escola da Terra aqui em Presidente Figueiredo, mas não queria participar, eu pensei que a formação não era boa, que não iria acrescentar nada de novo para a gente. Eu comecei a trabalhar como professor em escolas multisseriadas unidocentes, para mim era horrível, porque a minha formação inicial não me permitia trabalhar ali, naquela dinâmica do multissérie, então eu ficava louco, separava as atividades no quadro, separava as crianças pequenas das mais grandinhas, mas nessa formação eu pude perceber que o problema não é a escola multisseriada, o problema é que não tínhamos uma formação como essa, que nos permitisse pensar e fazer na prática metodologias e um trabalho pedagógico nas escolas do campo interdisciplinar, sem precisar separar as crianças e dividir o quadro. Eu hoje posso falar que mudei minha visão totalmente sobre as escolas multisseriadas [...] (Transcrição de parte do relato informal do professor Galo da Serra7durante o curso, 2021).
A fala deste cursista é extremamente relevante, pois traz muitas reflexões sobre as escolas do campo com classes multisseriadas. E isso nos permite entender a necessidade do processo de educar pela pesquisa como uma opção metodológica para a construção dos saberes e na organização do trabalho pedagógico no sistema multisseriado; bem como a necessidade da construção de um olhar próprio acerca da educação pensada nas escolas multisseriadas na Amazônia, vinculadas à diversidade de populações camponesas, considerando seus diferentes e conflitantes modos de vida e de organização do trabalho, histórias, condições socioeconômicas e culturais (ANTUNES-ROCHA; HAGE, 2010).
Quanto ao 5° (quinto) eixos Temáticos “Práxis Docentes na Escola do Campo” este foi desenvolvido entre os 29 e 30/11/2021, tendo com os objetivos dialogar sobre práxis docente na escola do campo, debater sobre o trabalho pedagógico dos educadores da Educação do Campo; e conversar sobre processo de ensino e aprendizagem na escola do campo.
Os conteúdos trabalhos foram o trabalho pedagógico e trabalho docente dos educadores da Educação do Campo e a Pedagogia da alternância, a partir do texto de Souza; Mendes (2012), Borges (2012), Padilha (2001). E utilizamos para o desenvolvimento do conteúdo programático foi efetuada mediante as místicas, aulas expositivas; leituras individuais e coletivas com fundamentação para o debate; e orientações gerais para elaboração do plano do projeto ensino, plano de aula para o tempo comunidade e ensino, PPP da Escola do Campo e organização do Seminário de encerramento.
Nos dias 16 e 17/12/2021 tivemos o 6° Eixos Temáticos “Ensino e pesquisa na formação do professor do Campo na Amazônia”, onde realizamos o Seminário de encerramento cujo objetivo foi socializar as experiências (PPP da Escola e projeto ensino e plano de aula) realizadas durante 2° eixo articulador, para a construção do conhecimento científico na Formação do/a professor/a reflexivo/a, crítico/a e pesquisador/a na escola do campo.
No dia 16 a equipe da UFAM e da SEMED/Figueiredo visitaram algumas escolas localizadas em assentamentos agrário, Comunidade Rio Canoas e Rio Pardo. A Comunidade Rio Canoas, foi criada através pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA-SR (15) AM, em 1989, e com ato de criação Resolução n. º 193, de 2 de setembro, de 1992, localizada na Rodovia BR 174, KM 139, Ramal do Canoas, a uma distância de 32 km da área urbana do Município de Presidente Figueiredo. Seu acesso pode ser realizado por meio de ramal ou rio, no entanto, pelas dificuldades de navegação no rio devido ao assoreamento, atualmente, o transporte é feito prioritariamente por vias terrestre pela Rodovia BR 174, via Ramal do Canoas. No que lhe concerne, o Assentamento de Rio Pardo, foi criado em 1996 pelo INCRA, através da Portaria no 274/96, no município de Presidente Figueiredo, e limita-se com o assentamento Canoas e com a Reserva Indígena Waimiri-Atroari. (SOARES, 2015).
Percorrer esses caminhos para conhecer nessas localidades distantes da sede do município, foi fundamental para verificar de perto os desafios enfrentados diariamente por professores/as e estudantes, em estradas vicinais precárias para chegar às escolas; bem como dos agricultores para fazerem o escoamento de seus produtos.
Já no dia 17/12/2021 iniciamos com Seminário de Encerramento, com a presença da Coordenadora Estadual do Programa Escola da Terra no Estado do Amazonas (UFAM), a Professora Formadora (PPGE/UFAM), a Coordenadora Regional de Educação da SEDUC em Presidente Figueiredo, o Secretário municipal de Formação do referido município, o Chefe da Divisão de Ensino Rural da Coordenadoria Pedagógica-SEMED local, as Tutoras do Programa Escola da Terra no município de Presidente Figueiredo.
A mística foi apresentada pelos cursistas, e seguimos com a socialização do PPP das escolas, o projeto ensino e plano de aula interdisciplinar feito pelos docentes no TC. As atividades apresentadas professores/as de Presidente Figueiredo foram bastante ricas e revelaram a valorização das experiências, da realidade e saberes dos sujeitos históricos dos territórios camponeses; contribuindo diretamente com as práticas pedagógicas nas escolas do campo.
Ressaltamos que a integração dos diferentes tempos formativos e a interdisciplinaridade nas atividades propostas aos docentes, permite o trabalho pedagógico interdisciplinar que se coloca como uma exigência metodológica e epistemológica, provocando a realização de um processo permanente de formação dos docentes (MOLINA; SÁ, 2011).
Após esse momento abrimos a última roda de conversa para que os/as professores/as puderam relatar suas vivências, experiência e avaliar a formação da UFAM no município de Presidente Figueiredo. De modo geral, as narrativas dos/as cursistas relataram que gostaram da dinâmica do curso, o aprendizado através das leituras dos textos, das atividades propostas e expressaram a importância para as escolas do campo em Presidente Figueiredo, como demonstram as falas transcritas a seguir:
Nós agradecemos pelo curso, que gerou muitos aprendizados sobre a Educação do Campo, para gente pensar e colocar em prática o PPP da nossa escola que estava meio parado, e outros projetos na escola também. Eu já tinha a experiência do PRONERA, e agora então com o Escola da Terra a gente vai conseguir melhorar nosso trabalho na escola [...]. (Transcrição de parte do relato informal da professora Flor de Maracujá durante o curso, 2021).
O curso atendeu a minha expectativa, realmente, é o que eu estou esperando, é o que estou almejando para levar para o campo, e para a escola (Transcrição de parte do relato informal da professora Flor do Araçá durante o curso, 2021).
Antes desse curso, a gente não tinha uma escola do campo, agora a gente vai ter uma escola do campo, porque a gente entendeu que a escola do campo se faz em coletividade, na relação com a comunidade, com a família, com os estudantes, com o modo de vida na comunidade [...]. (Transcrição de parte do relato informal da professora Vitória Régia durante o curso, 2021).
Esse último relato revela um ponto de extrema relevância, pois compreende o processo pedagógico nas escolas do campo como “[...] um processo coletivo e por isto precisa ser conduzido de modo coletivo, enraizando-se e ajudando a enraizar as pessoas em coletividades fortes. Educadores e educandos constituem a coletividade da escola” (CALDART, 2011, p.123). Isso porque a materialização da escola do campo se faz numa construção coletiva, interligada a realidade do campo e seus sujeitos, com uma educação capaz possibilitar a classe trabalhadora camponesa uma visão crítica e emancipatória. Nesse sentido fica evidente que a luta pela educação e escola do campo, e a transformação nesse território passa por uma formação de professores/as do campo, precisa fazer parte do projeto de sociedade em disputa, que valoriza a luta de classes nas relações sociais do camponês, em suas histórias de vida, seus saberes, seus fazeres e práticas produtivas com o campo
Para finalizar esse momento riquíssimo e emocionante, realizamos a mística “A Tarrafa dos Sonhos” em que os/as professores/as escreviam no papel qual escola do campo que sonhavam e desejam, e colocam na tarrafa. Nesse sentido, as místicas acompanharam todo o processo formativo do Escola da Terra em Presidente Figueiredo.
Conclusões
No período de agosto a dezembro de 2021 foram desenvolvidas as atividades formativas do curso de aperfeiçoamento Educação do Campo: práticas pedagógicas da UFAM em Presidente Figueiredo, vinculada as ações do Programa Escola da Terra no Estado do Amazonas, apesar dos desafios impostos pela pandemia de Covid-19.
Durante a formação, constatamos que as atividades formativas destinadas os/as professores/as que atuam escolas do campo multisseriadas, no Tempo Universidade e tempo Comunidade, contribuir para formação contínua de profissionais da educação nos territórios camponeses, à medida que permitiu um novo aprendizado, contribuindo diretamente com as práticas pedagógicas, o planejamento curricular contextualizado e embasado na pesquisa, na interdisciplinaridade; na valorização das experiências, da realidade, do trabalho, da agricultura camponesa, dos saberes e identidade cultural das escolas e seus sujeitos históricos dos territórios camponeses. Nessa perspectiva, as práticas pedagógicas nas formações do Programa Escola da Terra foram no sentido de contribuir com a formação pedagógica, contra hegemônica, e crítica, como estratégia de afirmação do direito à Educação do Campo no município de Presidente Figueiredo.
Deste modo, o Programa Escola da Terra com a formação contínua de professores/as no Amazonas, e especificamente em Presidente Figueiredo, é capaz de oferecer subsídios para promover transformações positivas nesses espaços, e defesa das escolas do campo.




















