Para começo de conversa…
Sala, sofá longo de três lugares, duas poltronas, uma mesa de centro, com um pequeno tapete embaixo. A visita chegava e a cadeira da cozinha assumia novo lugar, a mãe corria fazer o café, a TV era desligada, as pessoas mais velhas sentavam e as mais novas se acomodavam no chão ou amontoavam-se, no braço do sofá ou no colo de alguém, para ouvir os "causos" contados, vividos e revividos por parentes e antepassados que só conhecíamos de ouvir falar ou por fotos em preto e branco.
Era assim lá na casa do pai e da mãe. As histórias passavam de geração em geração, despertando a nossa imaginação, era assim que conhecíamos os vizinhos e que formávamos laços de amizade. Assim, fomos constituindo a nossa cultura e a nossa identidade (dos mais velhos para os mais novos). Com o passar do tempo, o hábito da conversa foi se tornando cada vez menos presente e hoje, na era digital, as palavras ouvidas dão lugar às palavras lidas, com os dispositivos móveis, com as redes sociais e com as relações virtuais, mas a saudade e a necessidade de se conversar permanecem.
O presente artigo apresenta o recorte de uma pesquisa de Mestrado, considerando a etapa metodológica e a utilização do instrumento metodológico “Roda de Conversa”, elucidando-a como um dispositivo formativo e coletivo para a produção e aprofundamento de dados para/na pesquisa qualitativa em Educação.
A Roda de Conversa desenvolvida na pesquisa é uma adaptação da proposta de Warschauer (2001, 2002) quando, em sua tese de Doutorado, propõe uma formação pela experiência, através das rodas de educadores e da reflexão, rompendo com o ciclo de reprodução da concepção de escola e de ensino dos professores. Ao nos inspirarmos em Warschauer (2001, 2002), propomos um movimento de diálogo junto aos participantes, compreendendo este instrumento para a produção de dados e para a reflexão coletiva, de modo que consideramos esta abordagem investigativa como possibilidade de compreender o sentido que os sujeitos encontram no fenômeno estudado, enquanto instrumento metodológico dialógico, por meio do qual vez e voz são potencializadas.
Desde a etapa da Educação Infantil, a roda de conversa vem se apresentando como uma atividade que envolve a linguagem. Com o intuito de desenvolver a oralidade, a expressão e a interação da criança, configura-se como um método utilizado nessa faixa etária no cotidiano de muitas escolas, de modo a se tornar uma ação pedagógica de âmbito permanente e diário, envolvendo a habilidade de ouvir o outro, exercitar o modo de se expressar, relatar fatos do cotidiano, necessidades, desejos, opiniões e ainda elaborar justificativas e argumentos, situações possíveis com a interação entre os pares e a mediação docente.
A promoção das rodas de conversa nas escolas pode possibilitar múltiplos benefícios ao desenvolvimento infantil, como o protagonismo na construção do próprio conhecimento e a construção de um espaço dialógico que permita aos estudantes se expressarem e aprenderem em conjunto.
Considerando a mesma essência no universo acadêmico, a Roda de Conversa consiste em um método de participação coletiva, por meio do qual o debate em torno de uma determinada temática possibilita o diálogo com os sujeitos participantes, os quais se expressam e escutam seus pares e a si mesmos por meio de um exercício reflexivo.
Desse modo, a conversa que desenvolvemos neste estudo e na pesquisa é concebida como um espaço de formação, de troca de experiências e vivências, de histórias e memórias potencializadas na Roda de Conversa enquanto instrumento metodológico, tecnológico, formativo e coletivo para/na pesquisa qualitativa em Educação, surgindo como uma possibilidade de reviver o prazer da troca, da partilha, do diálogo entre pares de um coletivo de trabalho e de profissão, e ainda de aprofundar dados repletos de riqueza e boniteza, isto é, de sentido e significado.
Partindo destes pressupostos, trazemos com este recorte a experiência metodológica da Roda de Conversa durante o percurso de uma pesquisa de Mestrado, articulando a potência da Roda de Conversa, aos dispositivos digitais e tecnológico, presentes no atual cotidiano, os quais permitiram movimentos facilitadores com relação aos dados, à gravação de som, imagem, transcrições e registros, sem se esquivar da potência e da essência humana e qualitativa do campo ora pesquisado.
Compreendemos a potencialidade da Roda de Conversa no sentido de favorecer o diálogo, o empoderamento, o fortalecimento das percepções individuais e coletivas, a construção de conhecimentos integrados e com sentido, os quais potencializaram a mediação da pesquisadora. Assim, a Roda de Conversa se torna um instrumento a partir de “NÓS”, compreendendo uma significância tão bonita, que transcende o papel e a tela, que permite discorrer sobre os dados, sobre as impressões, as representações e as ressignificações, de cada sujeito participante de modo individual e na perspectiva coletiva.
Vamos conversar? Entre, puxe uma cadeira e fique à vontade!
A Roda de Conversa e seus Pressupostos Teóricos
Sustentados em Warschauer (2001), avistamos a possibilidade de criar um espaço dialógico, não hierarquizado, requisito primordial do instrumento metodológico, com foco na organização do grupo, na troca de conhecimentos, no relato sobre as vivências e as experiências, promovendo reflexão sobre a própria prática, constituindo-se também uma ação formativa, uma vez que propõem a reflexão do vivido, criando um espaço de confrontação dos pontos de vista dos participantes.
Conversar, nesse sentido, significa compreender com profundidade, refletir, ponderar, compartilhar, como reitera Warschauer (2001, p.179):
Conversar não só desenvolve a capacidade de argumentação lógica, como, ao propor a presença física do outro, implica as capacidades relacionais, as emoções, o respeito, saber ouvir e falar, aguardar a vez, inserir-se na malha da conversa, enfrentar as diferenças, o esforço de colocar-se no ponto de vista do outro etc [...]
(Warschauer, 2001, p.179).
Empreender a construção de contextos sociais participativos e coletivos como a Roda de Conversa, para Warschauer (2001, p. 126), significa possibilitar circunstâncias favoráveis ao desenvolvimento pessoal dos sujeitos participantes, “alimentar as redes de conversa e explicitar as histórias construídas a partir delas, individuais ou grupais” abrindo caminhos para se tomar consciência do poder de (trans)formação de cada sujeito, na construção de uma sociedade mais justa, colaborativa e coletiva. Deste modo, compreendemos que a Roda de Conversa promove uma espécie de ressonância coletiva, de construção e reconstrução de conceitos e de argumentos, através da escuta e do diálogo com os pares e consigo mesmo.
Ao intencionar o uso e a condução deste instrumento metodológico, há que se considerar que o diálogo construído representa o pensar e o falar de “indivíduos com histórias de vida diferentes e maneiras próprias de pensar e de sentir, de modo que os diálogos nascidos desse encontro não obedecem a uma mesma lógica” (Warschauer, 2002, p. 46).
A Roda de Conversa consiste, portanto, em um método de participação dialógica e coletiva, em torno de um determinado tema, pelo qual sujeitos se expressam e escutam seus pares e a si por meio da ação reflexiva. Um dos objetivos previstos é o de socializar saberes e implementar a troca de experiências por meio da conversa entre os participantes, na perspectiva de construir e reconstruir novos saberes sobre a temática proposta.
Warschauer (2004, p. 2) nos explica que os "trabalhos comunitários e as iniciativas coletivas, das mais diversas naturezas, se desenvolvem de maneira semelhante há muito tempo", nesse sentido, a conversa pede licença às varandas, às salas de visita, aos quintais, e chega à escola como uma metodologia de ensino e, em seu percurso natural, alcança as pesquisas em Educação.
Assim, inspiradas em Warschauer (2001, 2002), adaptamos a sua proposta e estudos sobre as rodas de professores, em uma ação ousada de empregá-la como um dispositivo de produção de dados para a pesquisa qualitativa e avançarmos na perspectiva de proposição dialógica. Um instrumento de produção e aprofundamento de dados coletando, a partir da Roda de Conversa, narrativas, vivências, experiências, histórias e memórias, articulando-as aos dispositivos tecnológicos e digitais e propiciando um momento formativo-coletivo aos participantes, bem como à pesquisadora, que também faz parte do processo.
Acreditando na importância da Roda de Conversa pela partilha dos saberes, em consonância com Silva (2020), percebe-se que a roda torna-se um instrumento que cria e oportuniza espaço e tempo colaborativo e coletivo, voz, vez e escuta dos sujeitos que participam do movimento. Em contrapartida, de acordo com Nóvoa e Vieira (2017, p. 24), observa-se que a profissão docente nasce de uma densa matriz individualista, contrariando outras profissões que evoluíram em um sentido coletivo, por sua vez, o modo como a escola se organiza, contribui para o desencontro dos caminhos que levam às concepções sobre cooperação e colaboração. Nesse sentido, os aspectos sobre o trabalho colaborativo são destacados na Roda de Conversa, de modo a retratar que o trabalho, de forma individualizada, limita o aprimoramento e traz a sensação de fragmentação, criando a imagem de “ilhas isoladas” no desenvolvimento dos fazeres e no aprimoramento dos saberes do Orientador Pedagógico.
A Roda de Conversa reitera a importância da força do trabalho dos pares e com os pares, como possibilidade de avanços significativos, conforme destaca Nóvoa (2017, p. 24) no verbete “colaboração”, reforçando as dimensões coletivas e colaborativas, o trabalho feito em equipe e a intervenção conjunta, assim como a importância de uma composição coletiva, de uma construção de “comunidades de prática” de ações consistentes para a inovação pedagógica, para a pesquisa e para a formação contínua, que nasce pelo reforço do trabalho.
Nessa essência, Souza e Meireles (2018, p. 291) destacam que “as histórias vividas e contadas pelos sujeitos permitem que os narradores (re)signifiquem o próprio percurso existencial”, assim, podemos cotejar as narrativas como perspectivas que revelam saberes, fazeres, sabores, histórias, memórias, referências, inferências, sentimentos, conhecimentos, sensações, emoções, ações, formações, transformações e aprendizagens, constituintes da vida humana, as quais correlatamos com o cotidiano da Orientação Pedagógica, com o percurso das ações formativas e com a atuação profissional, pois à medida que as histórias narram com palavras e sentidos o processo de formação, revelam a experiência de quem descreve sua explanação.
A Metodologia da Roda de Conversa e a Pesquisa Qualitativa em Educação
Considerando os pressupostos teóricos e metodológicos da abordagem qualitativa, fundamentados em Chizzotti (2003), a Roda de Conversa relaciona teoria e prática, disponibilizando ferramentas para a interpretação das questões educacionais manifestadas e comprometidas com a prática, com a emancipação humana e com a transformação social, considerando os sujeitos, o contexto e os instrumentos utilizados.
A Roda de Conversa também parte do pressuposto em Creswell (2010), pois compreende o campo como ambiente natural em que os participantes vivenciam, permite a partilha de saberes que contribuem de maneira formativa e reflexiva para o desenvolvimento de sua atuação profissional, levando em conta a dimensão político-pedagógica e seu papel formador, uma vez que os participantes da pesquisa são sujeitos históricos e que, ao formar, também se formam e estabelecem consonância com a base teórica e epistemológica enunciada.
Para efeito da argumentação proposta, nossos estudos versam sobre a constituição profissional (fazeres e saberes), no sentido de aprofundar as especificidades e particularidades do campo, uma vez que as narrativas, as vivências, as experiências, histórias e memórias significativas e relevantes não são encontradas em arquivos documentais. Para tanto, toma-se a interlocução da Roda de Conversa realizada em março de 2023, junto aos sujeitos que compuseram a pesquisa, um coletivo representante de Orientadores Pedagógicos, de uma rede municipal pública, localizada no interior do Estado de São Paulo.
Compreendemos os sujeitos participantes desta etapa metodológica (Orientadores Pedagógicos), a partir da constituição de sua identidade docente, porque são docentes antes de tudo. O princípio de coletividade sustenta um dos pilares da profissão e do cotidiano escolar, um princípio de trabalho, reiterados em Oliveira (2007), quando se refere aos espaços de troca e partilha, sobre os saberes em rede, de modo não hierarquizado, mas sim dialogados:
é possível dizer que o objetivo dessas pesquisas é não só o pensar complexo – que permite pensar e praticar a ruptura com as fragmentações e hierarquizações entre os diferentes saberes, abrindo espaço para a compreensão de que os conhecimentos/valores se tecem em redes nas quais não há hierarquia nem ordem obrigatória e, portanto, para mais diálogo, mais democracia e mais solidariedade entre os diferentes grupos e sujeitos em interação nos diferentes espaços/tempos
(Oliveira, 2007, p. 13).
Na via de promover um espaço, conforme Oliveira (2007), enviamos o convite diretamente aos Orientadores Pedagógicos selecionados e, após o preenchimento de um Questionário de Pesquisa e da triagem com critérios de inclusão/exclusão: profissionais em efetivo exercício, em ciclos distintos de seu desenvolvimento e atuação profissional, com realidades e contextos diversos e aproximados, subdivididos em três categorias: “iniciante” (1 até 3 anos de trabalho - estágio probatório), “estável”: a partir de 4 anos de atuação e “experiente”: a partir de 10 anos de atuação. Consideramos também as especificidades, as particularidades de atuação e as modalidades de Ensino em que atuam, a saber: Educação Infantil - Creche e Pré-Escola e Ensino Fundamental (séries iniciais - 1º ao 5º ano e séries finais - 6º ao 9º ano), de modo a garantir a representatividade destes profissionais.
Considerando o avanço da tecnologia, optamos pelo uso das ferramentas tecnológicas e digitais e do recurso remoto (online), entendendo que favoreciam o encaminhamento das diversas ações, compreendidas aqui como possibilidades facilitadoras para o desenvolvimento da pesquisa. Assim sendo, para a realização da Roda de Conversa, optamos pelo uso da ferramenta “Google Meet”, um serviço de videochamadas muito utilizado na atualidade, o qual permite, a partir de seus recursos, por meio da gravação de imagem e voz, o desenvolvimento do presente método.
Também fizemos uso do recurso “Google Documento - digitação por voz”, o qual possibilitou a transcrição da gravação da Roda de Conversa, sendo organizados e resgatados com qualidade, os tempos e a interlocução das falas em sua íntegra. Foi resguardado o anonimato dos participantes, os quais foram identificados com nomes fictícios, de modo que, ao fazer uso das transcrições na pesquisa, suas identidades foram preservadas.
Nos valendo da internet em pleno funcionamento e das ferramentas tecnológicas que favoreceram o processo, iniciamos o movimento de imersão acadêmico-pedagógica. Abre-se a Roda de Conversa, compreendendo a importância deste recurso para esta etapa metodológica, o que nos faz lembrar Michel Serres (1991, apudNóvoa; Vieira, 2017) ao discorrer sobre o digital como a terceira revolução na história da humanidade.
A primeira foi a invenção da escrita, há 5000 anos. A segunda foi a invenção da tipografia, do livro impresso, há 500 anos. A terceira é hoje. Em cada uma destas revoluções os seres humanos passaram a usar o cérebro, a pensar, a comunicar, a relacionar-se e a aprender de maneira diferente. A formação de professores tem de compreender esta nova realidade, a rede (web), não tanto enquanto realidade tecnológica, mas nas suas consequências para a vida dos alunos e para os processos de aprendizagem
(Serres apudNóvoa; Vieira, 2017, p.39).
Nóvoa e Vieira nos provocam a fazer uma comparação e estabelece relações entre duas invenções tecnológicas - o quadro negro e o tablet, sendo difícil imaginar o que serão e como serão os novos espaços de conhecimento e aprendizagem, mas a partir de algumas ideias vislumbram-se possibilidades do que poderá vir a ser uma educação futura. Inspirados em uma dessas ideias, a Roda de Conversa toma corpo e nos permite estabelecer relações semelhantes, valendo-nos do espaço digital para uma metodologia até então realizada apenas presencialmente.
O quadro negro é um dispositivo “vazio”. Por definição, o quadro negro é uma superfície vazia. É necessário um professor, que detém o conhecimento, para que ele se torne útil do ponto de vista pedagógico. O quadro negro é um dispositivo fixo. Ao ser cravado a uma parede, o quadro negro fixa e define um espaço, a sala de aula. Os prédios escolares, o mobiliário escolar e a arrumação dos alunos são feitos para uso do quadro negro. O quadro negro é um dispositivo “vertical”. A localização do quadro negro no topo da sala de aula induz inevitavelmente uma comunicação “vertical” e uma determinada ação didática do professor. Não há comunicação “horizontal” entre alunos. Mudemos agora de metáfora: do quadro negro para o tablet. O quadro negro é um dispositivo “vazio”, o tablet é “cheio”. Se o quadro negro necessita de alguém que nele inscreva um conhecimento, o tablet está repleto de todos os dados e informações possíveis e imagináveis, aos quais os alunos têm acesso direto. O quadro negro é um dispositivo fixo, o tablet é móvel. Se o quadro negro fixa e define o espaço da sala de aula, o tablet traz mobilidade e pode ser utilizado nos mais diferentes espaços, físicos e virtuais. O quadro negro é um dispositivo “vertical”, o tablet é horizontal. Se o quadro negro provoca formas “verticais” de comunicação, a partir de um centro, o tablet sugere formas individualizadas de estudo e relações “horizontais” entre alunos, entre alunos e professores, entre pessoas que estão dentro e fora da escola
(Nóvoa; Vieira, 2017, p. 39).
Considerando a ilustração da metáfora exposta por Nóvoa e Vieira (2017), aproximamos a Roda de Conversa ao tablet: cheia, repleta de dados e informações possíveis, imagináveis (e inimagináveis) e que, construída nesse círculo, permite acesso direto, traz mobilidade e pode ser utilizada nos mais diferentes espaços, físicos ou virtuais.
Nesta analogia, a Roda de Conversa apresenta extensão horizontal, formato circular, permite olho no olho, face a face, olha para o singular, se engrandece e se potencializa no plural, em uma relação horizontal e que se estabelece entre e com as pessoas que participam junto à roda, construindo um modo de ser reflexivo e coletivo.
De acordo com Nóvoa e Vieira (2017), coincidindo com a popularização da expressão e conceito de professor reflexivo, surge na literatura a importância de dar voz aos professores, desenvolvendo-se a partir de então, as histórias de vida e as narrativas biográficas, transitando as questões subjetivas e os debates relevantes do/no/para o campo:
Há cerca de 30 anos, coincidindo com a popularização do conceito de “professor reflexivo”, assistiu-se ao surgimento de uma literatura sobre a importância de dar voz aos professores. Desenvolveram-se, a partir desse momento, as histórias de vida e as narrativas biográficas. Este movimento cruza-se com a questão das subjetividades e, também, com os debates sobre o gênero que são particularmente importantes no campo do ensino. Hoje, reconhecemos a importância destas “vozes” e sabemos que são essenciais para compreender as formas de inserção e de inscrição na profissão docente. Mas sabemos também que é necessário construir os espaços institucionais e públicos nos quais se possam fazer ouvir
(Nóvoa; Vieira, 2017, p. 38).
No reconhecimento da importância destas “vozes”, sabendo que são fundamentais para a compreensão da constituição profissional, tal como a necessidade de construir e oportunizar espaços institucionais e públicos para que se possam fazer ouvir, sentimos a necessidade e pensamos nesta possibilidade para legitimar a presença destes profissionais nestes espaços, possibilitando visibilidade e voz aos sujeitos participantes desta Roda de Conversa.
Nesse sentido, os sujeitos participantes desta roda - os Orientadores Pedagógicos -, reconhecendo a importância da ação e do processo de produção de conhecimento para o campo e para a valorização profissional, reiteram a carência de ações deste tipo, considerando as lacunas dos espaços e dos tempos para dialogar sobre o cotidiano (desafios, troca de ideias e experiências) e aceitam o convite em participar de forma espontânea, fora do horário convencional de trabalho, após um dia inteiro de atividade profissional, com a premissa de discussão, diálogo, troca, partilha e aprofundamento de estudo junto aos pares.
Iniciamos então a Roda de Conversa acolhendo, agradecendo pelo aceite e a participação dos presentes, desejando as boas-vindas para esta atividade, como também, reconhecemos a importância de cada um e cada uma nesta ação, em âmbito pessoal e profissional, uma vez que consideramos as demandas diárias e a tarefa hercúlea de conciliar agendas e horários.
Apresentamos sequencialmente os slides, com breve explanação sobre o processo da pesquisa, os dados significativos coletados com o Questionário de Pesquisa e a pergunta norteadora que desencadeia a investigação para a Roda de Conversa: “Como se constitui o Orientador Pedagógico na Rede Municipal, considerando os saberes e os fazeres da sua profissão?”
Vislumbramos, a partir daquele momento, que a Roda de Conversa, se inclinaria para além de um instrumento metodológico acadêmico, mas também um movimento qualitativo-formativo, proporcionando voz e vez, espaço e tempo, reconhecendo a importância do momento de fala e escuta, bem como pontos de encontros e desencontros, de apontamentos e reflexões sobre as nossas vivências e de como nos enxergamos no processo cotidiano da Orientação Pedagógica. Assim, consideramos os saberes e os fazeres destes profissionais, as possibilidades e as complexidades do campo ora pesquisado, a fim de provocarmos um movimento dialógico-reflexivo entre os profissionais participantes, aprofundarmos e contemplarmos os laços formados a partir de nós (Orientadores Pedagógicos), constituídos mesmo com os apertos do cotidiano, como elos, que se unem e projetam passos e olhares na direção de outros panoramas.
Compreendeu-se que a Roda de Conversa contribuiu de maneira relevante e significativa no sentido de possibilitar aos participantes espaço, tempo, voz e vez para a troca de experiências, partilha de saberes e movimento de coletividade, construídas a partir da interação com o outro, complementando, concordando ou discordando, conversando de maneira aprofundada e reflexiva, ponderada e compartilhada, reconhecendo os sujeitos participantes como narradores em potencial:
O fato é que ele não narra sozinho, reproduz vozes, discursos e memórias de outras pessoas, que se associam à sua no processo de rememoração e de socialização, e o discurso narrativo, no caso da roda de conversa, é uma construção coletiva
(Moura; Lima, 2014, p. 100).
No contexto da produção de dados, compreende-se que as memórias culturais e individuais estão intimamente ligadas, coletar e tratar os relatos, as histórias de vida, a partilha, a troca e a conversa, “não é recolher objetos ou condutas diferentes, mas, sim, participar da elaboração de uma memória que quer se transmitir a partir da demanda de um investigador”, para além de uma transmissão, uma construção onde o próprio pesquisador participa (Santamarina; Marinas, 1995, p. 273). Conversar, nesse sentido, significa compreender com profundidade, refletir, ponderar, e compartilhar, conforme Warschauer (2001, p. 179) e, além disso, não só desenvolve a capacidade de argumentar de modo lógico, mas também as habilidades das relações, das emoções e das interlocuções previstas no movimento da conversa: o respeito, o saber ouvir, o saber falar, o aguardar a vez, inserindo-se na trama da roda, enfrentando as diferenças, empenhando-se para ouvir o ponto de vista do outro.
Discussão
A Roda de Conversa, finaliza o percurso metodológico da pesquisa e inicia o processo de aprofundamento dos dados, contribui e possibilita um movimento dialógico, significativo, repleto de reflexão e emoção, oportuniza vez e voz, aos participantes, aprofunda os dados e as informações construídas nesse movimento circular, com acesso direto e mobilidade nesse espaço virtual, horizontal, de olho no olho, face a face, olha para o individual, mas também e, primordialmente, para o coletivo.
A conversa na roda oportuniza um momento de escuta e torna-se um instrumento metodológico possível, singular e plural de partilha, trata questões diversas sobre a rede: concepções, identidade do cargo, os fazeres (atribuições e funções) como também os saberes (conhecimentos e formação) que tangenciam o cotidiano da Orientação Pedagógica.
À medida que a roda fluía na conversa, nas vozes e nas vezes, resgataram-se momentos e fatos históricos, relembrando etapas, vivências e experiências que marcaram o início da criação do cargo na rede e da profissão em si, destacando o quanto o trabalho colaborativo, contribui para o processo de inserção profissional e aprimoramento dos saberes e dos fazeres da Orientação Pedagógica, de modo que os relatos e as narrativas geradas, construídas e reconstruídas no coletivo da Roda de Conversa, evidenciam episódios significativos e nos aproxima das respostas intencionadas.
Após o desfecho da Roda de Conversa, iniciamos a transcrição e organização das narrativas, revisitamos todo o encontro e o movimento gerado na roda e na conversa, um delongado trabalho, cuidadoso, atento e minucioso. Somos (fomos) invadidos pela emoção das narrativas, dos vários episódios refletidos, transbordando e recordando momentos vivenciados de maneira semelhante, vivências e experiências, com marcas e marcos da profissão, complexos, tensionados, emocionados e nutridos nesta organização e seleção de transcrições potentes, significativas, reflexivas e coletivas, posteriormente cotejadas à análise documental e aos dados do Questionário.
Nessa revisitação, organizamos cada fala e cada narrativa, a leitura de cada gesto/gestos, de cada olhar (olhares), que permitiram novos e outros, dos quais muitas vezes não se percebe no momento em que se vive, as vantagens tecnológicas nesse momento, reiteram o quanto as ferramentas digitais tendem a potencializar os percursos metodológicos no âmbito da pesquisa.
A Roda de Conversa nos permite deparar com o desenvolvimento de leituras outras, em um processo de mergulho e imersão para o tratamento dos dados, impacta-nos pela potência da pesquisa qualitativa, pelas relações com as produções do humano, que contribui para o fortalecimento do lugar de fala, promotora do inédito, do viável, experiências singulares e plurais, com nome, sobrenome e autoria.
A relação humana e intensa com a pesquisa traz algumas exigências, a pausa para que a leitura, a audição, a visualização das imagens e das cenas continuassem, para que o tratamento dos dados, a análise e a reflexão fossem elaborados, desconsiderando a lente pessoal momentânea, afastamento do lugar de fala, reconfiguração da leitura, retomada do posicionamento, do olhar pesquisador e um certo distanciamento emocional.
Conclusões
Verificou-se que a Roda de Conversa enquanto instrumento metodológico no âmbito da pesquisa qualitativa em Educação, aliando-se a outros dispositivos digitais e tecnológicos, promove movimentos facilitadores que transcendem o tempo e o espaço. Observou-se que, mesmo de forma online e remota, a Roda de Conversa mantém a essência humana da pesquisa qualitativa em Educação, nos propiciando um momento de encontro(s) outro(s), contribuindo para o fortalecimento das ações, para a apropriação dos saberes necessários ao campo pesquisado, para a criação de vínculos, o fortalecimento da comunicação e do diálogo, e para as trocas que tanto favorecem os saberes e os fazeres do Orientador Pedagógico no cotidiano escolar.
A Roda de Conversa nos impactou, sinalizando a relevância de um trabalho colaborativo e coletivo, enquanto movimento formativo que corrobora para o aprimoramento e aperfeiçoamento profissional. Observamos com as narrativas dos Orientadores Pedagógicos, o quanto os espaços para a formação continuada são imprescindíveis e promovem a expressão pública, tanto no âmbito interno quanto externo da profissão, do mesmo modo que as narrativas, tão necessárias à inscrição de cada um e cada uma na função, no cargo, na profissão e na sociedade, conforme nos inspiram Nóvoa e Vieira (2017).
A Roda de Conversa tornou-se, no desenvolvimento da presente pesquisa, um instrumento promovedor de trocas, proporcionando discussões significativas, inclinando os profissionais para um processo de análise, reflexão e levantamento de possibilidades ativas, participativas (e por que não criativas?), na busca de transformações que acompanham as necessidades e as complexidades do cotidiano do campo. Nesse aspecto, em um movimento de imersão, que se revelou verdadeiramente significativo e necessário, tanto quanto a necessidade de investimentos e esforços para as ações de formação continuada deste tipo, revelou-se um contexto reflexivo sobre o campo, sobre os nós complexos e possíveis do cotidiano e sobre “NÓS”.
Ao passo que a literatura nos apresenta a relevância da ‘busca de si’ e do bem-estar docente (Nóvoa; Vieira, 2007), do mesmo modo destacamos tal necessidade com a Roda de Conversa, uma vez que revelou aspectos que fomentam o desenvolvimento profissional dos profissionais ora pesquisados, no incentivo à busca, à troca e à afirmação da identidade, permeando os caminhos de um processo de formação continuada, consistente e amplo, integrando os “eus” (singular) ao “NÓS” (plural) e se distanciando de comportamentos, ações e histórias individualizadas e fragmentadas.
Mergulhados em instantes de expansão formativo-pedagógica, propiciada e constituída na Roda de Conversa, momento de voz e vez aos sujeitos da pesquisa, esta pode ser vista como uma ferramenta metodológica de potencialidade, promotora de espaço dialógico não hierarquizado, de formação continuada partilhada e de empoderamento entre os profissionais. De igual modo, uma ferramenta fortalecedora de percepções individuais e coletivas, concebida na riqueza e na boniteza da troca de conhecimentos e dos saberes experienciais, de reflexão sobre a própria constituição, permitindo a revelação de suas próprias intenções e necessidades, de formAção (saberes e fazeres) com seus pares, pautados na realidade, no lócus de sua prática, no espaço de amparo e abertura mútua.
Impactados pela narrativa de um dos participantes, ao olhar para a Roda de Conversa nos deparamos com um dispositivo metodológico de potência, reiterando a necessidade da formação contínua, fortalecimento coletivo, constituição profissional e ação para encontro(s) outro(s). Destaca-se que, à medida que se criam espaços de diálogo e reflexão, a Roda de Conversa se firma enquanto um instrumento metodológico para a produção e análise de dados, promovendo uma ressonância coletiva, de construção e reconstrução de conceitos através da escuta atenta, e de diálogo com os pares e consigo mesmo.
Consideramos o quanto a Roda de Conversa favoreceu a oportunidade de vez e voz, de leituras outras, de linguagens não verbais, expressas e manifestas nas faces e nos olhares marejados, emocionados e arrebatados por tamanho encontro, onde vozes, sentimentos, anseios, angústias e desafios foram partilhados e inclinaram possibilidades para a presente pesquisa, consistindo em um método participativo, formativo, coletivo, reflexivo e dialógico, um espaço de expressão e escuta, de socialização de saberes, vivências e experiências, construídas e reconstruídas na relação com o outro, e, por conseguinte, que o hábito da conversa seja recobrado com o auxílio dos dispositivos digitais e a “Roda de Conversa” possa reiterar possibilidades de se converter em um instrumento metodológico-tecnológico-formativo-coletivo para/na Pesquisa em Educação.










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