1 APRESENTAÇÃO
A construção do Estado da Questão (EQ) se propõe a mapear produções científicas cuja temática retratasse o docente dos cursos de Medicina no ensino superior e sua formação como professor universitário. Para a realização desse EQ, partimos dos seguintes questionamentos: o que revelam as pesquisas nacionais sobre as trajetórias de formação, constituição dos saberes docentes e práticas de ensino dos professores do curso de Medicina? O objetivo dessa investigação é proporcionar uma revisão de dissertações e teses que tratem do assunto que norteia nosso objeto de pesquisa, a docência universitária.
Segundo os autores Nóbrega-Therrien e Therrien (2004, p. 7), o EQ tem como finalidade “[...] levar o pesquisador a registrar, a partir de um rigoroso levantamento bibliográfico, como se encontra o tema ou o objeto de sua investigação no estado atual da ciência ao seu alcance”. Os autores acrescentam que a busca seletiva e crítica nas fontes de informação da produção científica se limita aos estudos chegados às especificidades do interesse do pesquisador.
Conforme Nóbrega-Therrien e Therrien (2004, p. 7-8), “[...] a busca seletiva e crítica nas fontes de informação da produção científica restringe-se aos estudos e parâmetros próximos às especificidades do interesse do pesquisador o que requer consulta a documentos substanciais”. Realizar uma busca por pesquisas desenvolvidas na área de formação de professores para o ensino superior é requisito necessário no percurso investigativo proposto para alcançar o objetivo deste artigo. Desse modo, conhecer as discussões científicas atuais auxiliará, sobretudo, a perceber as lacunas que faltam ser preenchidas no que diz respeito ao tema.
Nesse sentido o EQ faz uma aproximação com o objeto de estudo, revelando quais pesquisas já foram desenvolvidas dentro da temática e quais possibilidades reflexivas podem ser desenvolvidas e acrescentadas a este campo de pesquisa. Para além de uma aproximação com o campo de estudo, o EQ se torna parte integrante do desenvolvimento das pesquisas e de sua materialização. As próximas seções deste artigo oportunizam a explanação do campo metodológico, fundamentação teórica, análises dos dados e considerações finais.
2 METODOLOGIA
Para a produção de dados, foi utilizada a análise bibliográfica das teses e dissertações registradas no banco de dados da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). O Catálogo de Teses e Dissertações da Capes é um sistema de busca bibliográfica que reúne registros desde 1987. Possui como referência a Portaria nº 13/2006, que instituiu a divulgação digital das teses e dissertações produzidas pelos programas de doutorado e mestrado reconhecidos (Brasil, 2006).
Baseado em Nóbrega-Therrien e Therrien (2004, p. 9), “[...] o estado da questão configura então o esclarecimento da posição do pesquisador e de seu objeto de estudo na elaboração de um texto narrativo, a concepção de ciência e a sua contribuição epistêmica no campo do conhecimento”. Esse levantamento busca mapear de modo sistemático pesquisas que estejam alinhadas ao objeto de estudo, favorecendo as discussões atuais sobre a temática pesquisada.
2.1 Início do itinerário de buscas
Para o início da primeira etapa do EQ, foi realizada uma busca no Catálogo de Teses e Dissertações da Capes3, utilizando os seguintes descritores: “saberes docentes” AND “medicina” (353 resultados); “práticas de ensino” AND “medicina” (4.058 resultados); “formação docente” AND “medicina” (383 resultados); (“ensino superior” OR “docência universitária” OR “magistério superior”) AND “medicina” (5.271 resultados), totalizando 10.065 resultados. Todos os descritores têm ligação direta com o objeto de estudo e foram relacionados em pares para obter resultados mais restritos ao tema investigado. Além disso, foram aplicados os seguintes filtros: “Tipo: dissertações e teses” e “Idioma: Português”.
Como o número de resultados foi abundante em alguns descritores, optou-se por realizar um recorte temporal, selecionando os trabalhos desenvolvidos nos últimos cinco anos (2018-2022), visto que as últimas Diretrizes Curriculares Nacionais para a graduação em Medicina foram publicadas em 2014 e os cursos teriam até 2019 para implementar as diretrizes. Nesse recorte, foram obtidos os seguintes resultados:
Quadro 1 Descritores e resultados
| DESCRITOR 1 | BOOLEAN | DESCRITOR 2 | RESULTADO |
|---|---|---|---|
| “saberes docentes” | AND | “medicina” | 47 |
| “práticas de ensino” | AND | “medicina” | 1.119 |
| “formação docente” | AND | “medicina” | 89 |
| (“ensino superior” OR “docência universitária” OR “magistério superior”) | AND | “medicina” | 249 |
| Total | 1.504 | ||
Fonte: elaborado pelos autores.
Deste modo, o caminho para as buscas das informações teve, a princípio, o intuito de localizar dissertações e teses brasileiras que abordassem a formação do docente bacharel, relacionando os descritores supracitados. A partir da aplicação desse filtro, foi realizada a leitura dos títulos dos trabalhos, dos quais foram excluídos aqueles com temáticas diferentes da investigação pretendida e os que se repetiram na busca em diferentes descritores, resultando em um total de 22 trabalhos, divididos nos seguintes descritores:
Quadro 2 Descritores e resultados após leitura dos títulos
| DESCRITOR 1 | BOOLEAN | DESCRITOR 2 | REPETIDOS | EXCLUÍDOS | RES. |
|---|---|---|---|---|---|
| “saberes docentes” | AND | “medicina” | 1 | 40 | 6 |
| “práticas de ensino” | AND | “medicina” | 0 | 1.113 | 6 |
| “formação docente” | AND | “medicina” | 1 | 84 | 4 |
| (“ensino superior” OR “docência universitária” OR “magistério superior”) | AND | “medicina” | 1 | 242 | 6 |
| Total | 22 | ||||
Fonte: elaborado pelos autores.
Após a seleção dos trabalhos pelas leituras dos títulos, as teses e dissertações foram organizadas por título, autor, ano e tipo (Quadro 3).
Quadro 3 Trabalhos selecionados para leitura dos resumos
| TÍTULO | AUTOR | ANO | TIPO |
|---|---|---|---|
| Docentes de patologia dos cursos de graduação em Medicina: formação e docência nas universidades federais do Norte do Brasil |
Jonathan Ferreira Brito | 2020 | D |
| Os saberes dos médicos docentes sobre a atuação profissional no ensino superior |
Fernanda Miranda Caliani Sá | 2018 | D |
| Formação continuada de docentes em metodologias de aprendizagem ativa na graduação em saúde | Rodolfo de Oliveira Medeiros | 2021 | D |
| A importância da formação crítico-reflexiva do docente Médico no internato da graduação de Medicina |
Elizama Queiroz Baisch | 2019 | T |
| Graduação em Medicina e odontologia: percepção dos docentes sobre seus papéis |
Rosamaria Rodrigues Gomes | 2019 | D |
| Médicos por formação, docentes em ação: o perfil profissional e a formação do campo médico em Sergipe (1966-1973) |
Patricia de Sousa Nunes Silva | 2018 | T |
| Ferramenta digital de auxílio à qualificação docente do preceptor no internato de Medicina |
Luciana Muri Oliveira | 2021 | D |
| Análise do currículo de um curso de Medicina em implantação no interior do estado de Minas Gerais | Francisca Raimunda de Souza Barreiro | 2020 | D |
| Uso das atividades profissionais confiáveis (entrustable professional activities) durante a graduação em Medicina: uma revisão sistemática | Debora Siqueira Ramos Beltrammi | 2020 | D |
| Estratégias de ensino na formação médica: a importância da atuação docente |
Rodrigo Andrade Leal | 2021 | D |
| A preceptoria na formação médica: percepções e perspectivas de residentes de curso de especialização em preceptoria no Brasil |
Iago Gonçalves Ferreira | 2021 | D |
| Educação interprofissional em saúde e o desenvolvimento de competências colaborativas na formação em enfermagem e Medicina |
Redianne Medeiros da Fonsêca | 2018 | D |
| Formação médico veterinária: visão docente | Vanessa Foloni Torres | 2018 | D |
| Proposta de matriz curricular para o ensino de oftalmologia, utilizando metodologias ativas, no curso de graduação em Medicina da escola multicampi de ciências médicas do Rio Grande do Norte |
Regina Claudia Rafael De Souza Marinho | 2018 | D |
| Formação de professores em Medicina: minicurso para docência em habilidades clínicas |
Ryssia De Oliveira Braun Guimarães | 2018 | D |
| As metodologias ativas de ensino aprendizagem na promoção da qualidade do ensino superior: uma análise no curso de Medicina da UFS Lagarto |
Tamara Moreira da Silva Neiva | 2018 | D |
| O ensino médico no Brasil e a aprendizagem baseada em problemas |
Hector Yuri Conti Wanderley | 2019 | D |
| Estudo da percepção dos médicos com necessidades educacionais especiais sobre a sua formação e atuação médica |
Nayara Neves Mariano | 2020 | D |
| Currículo e integração curricular em um curso de graduação em Medicina: concepções manifestadas pelos docentes que o vivenciam |
Aline de Fatima Cruz Rodrigues | 2018 | D |
| “Curriculum mapping” e construção de instrumento de avaliação em escola de Medicina de alagoas | Ana Carolina Pastl Pontes | 2020 | D |
| Metodologias ativas no ensino superior: perfil e percepções dos estudantes do curso de Medicina | Sarah Beatriz Soares de Oliveira | 2020 | D |
Legenda: D (Dissertação) e T (Tese). Fonte: elaborado pelos autores.
Após filtrar os trabalhos pela leitura dos títulos, partiu-se para a análise dos resumos de cada um deles, identificando os objetivos gerais e específicos das pesquisas, para verificar os que tinham objetivos semelhantes ou próximos ao objeto de estudo. Pela leitura, constatou-se que 10 trabalhos - Barreiro (2020), Beltrammi (2020), Leal (2021), Ferreira (2021), Torres (2018), Marinho (2018), Neiva (2018), Mariano (2020) e Oliveira (2020) - não seguiam o caminho pretendido pela investigação e, por isso, foram descartados. Dessa forma, permaneceram 12 pesquisas, cujos objetivos gerais estão apresentados no Quadro 5.
Quadro 5 Trabalhos selecionados para leitura da introdução e considerações finais
| AUTOR | ANO | OBJETIVO GERAL |
|---|---|---|
| Jonathan Ferreira Brito | 2020 | Compreender o perfil profissional dos docentes de patologia dos cursos de Medicina das universidades públicas federais da Região Norte do Brasil a partir dos caminhos e correlações entre formação e docência |
| Fernanda Miranda Caliani Sá | 2018 | Identificar e analisar a identidade e os saberes da docência dos médicos professores em um curso de graduação em Medicina |
| Rodolfo de Oliveira Medeiros | 2021 | Analisar as estratégias para formação contínua de professores da graduação em saúde |
| Elisama Queiroz Baisch | 2019 | Analisar a formação crítico-reflexiva dos docentes médicos no processo de ensino-aprendizagem do internato dos cursos de Medicina, detectando a maneira como estes professores refletem a prática de ensino |
| Rosamaria Rodrigues Gomes | 2019 | Conhecer a percepção dos docentes dos cursos de graduação em Medicina e Odontologia em relação ao seu papel no processo de formação de um futuro egresso, identificando sua concepção pedagógica, avaliando se existe preocupação com a autonomia do educando e se a alteridade está presente na percepção de sua prática |
| Patricia De Sousa Nunes Silva | 2018 | Realizar a prosopografia de 24 médicos que consorciaram a profissão médica ao magistério e que lecionaram na Universidade Federal de Sergipe, de modo a analisar as semelhanças e dessemelhanças entre os indivíduos e, assim, compor o perfil do grupo |
| Luciana Muri Oliveira | 2021 | Elaborar um aplicativo composto por material que propicie suporte ao médico à função de preceptor, oferecendo orientação ou fonte de busca, colaborando para a mudança ensejada no perfil do docente, e, em consequência, favorecendo a formação do aluno que deverá prestar o serviço à população |
| Redianne Medeiros da Fonsêca | 2018 | Compreender a percepção de profissionais e docentes sobre a Educação Interprofissional para o desenvolvimento de competências colaborativas na formação de Enfermagem e Medicina |
| Hector Yuri Conti Wanderley | 2019 | Analisar as evidências científicas disponíveis na literatura sobre a aplicação da aprendizagem baseada em problemas (ABP) no ensino de Medicina, com ênfase no Brasil, e a sua correlação com as políticas públicas da área |
| Ryssia de Oliveira Braun Guimarães | 2018 | Identificar deficits de competências mínimas necessárias para atuação do docente em habilidades clínicas a partir da autoavaliação de docentes já atuantes nessa área, com a finalidade de elaborar um curso de aprimoramento profissional |
| Aline de Fatima Cruz Rodrigues | 2018 | Analisar as relações entre a proposta de currículo integrado do curso de graduação em Medicina, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e as concepções manifestadas por seus docentes sobre currículo e integração curricular |
| Ana Carolina Pastl Pontes | 2020 | Mapear o currículo do curso de Medicina do Centro Universitário Tiradentes, em Alagoas, com foco na presença das competências das Diretrizes Curriculares Nacionais de 2014 |
Fonte: elaborado pelos autores.
Nessa busca, mostra-se visível a lacuna existente de pesquisas que possuam como foco de estudo a trajetória formativa do docente bacharel do curso de Medicina, considerando seus saberes docentes e suas práticas de ensino como algo imbricado, deixando aparente que esse campo de investigação científica (professores bacharéis/docência universitária) ainda possui lacunas que precisam ser desvendadas.
O debate sobre a formação do docente do ensino superior é enfatizado pela ausência de formação pedagógica para atuação nesse nível de ensino, o que consequentemente reflete no exercício profissional em sala de aula. Deste modo, o preparo para atuação no ensino universitário têm sido preocupação de autores da área nas últimas décadas.
Com o intuito de conhecer os resultados obtidos pelas pesquisas selecionadas, optou-se por fazer a leitura da introdução e das considerações finais das 12 dissertações e teses, observando se os objetivos elencados foram alcançados e que resultados foram evidenciados nos trabalhos. Ao fazer o download dos escritos na íntegra no Catálogo de Teses e Dissertações, na pesquisa de Gomes (2019) apareceu a seguinte restrição: “o trabalho não possui divulgação autorizada”. Por esse motivo, ele não será discutido no tópico seguinte.
3 OS ACHADOS DA PESQUISA: RESULTADOS EVIDENCIADOS NOS TRABALHOS MAPEADOS
Em sua dissertação, Brito (2020) investigou a formação do docente de patologia para compreender o perfil profissional desses docentes nos cursos de Medicina das universidades públicas federais da Região Norte do Brasil. Como resultado da investigação, apresentou os fundamentos teóricos e conceituais que delineiam uma proposta de docência na perspectiva crítica, em que mais de um processo de transmissão de conhecimento à docência foram apresentados, oportunizando a construção de novos caminhos e reordenação dos caminhos já existentes. Em síntese, uma concepção de docência que compreenda o acadêmico como parte de um processo em que o diálogo seja estabelecido, compreendendo que essas apreensões só se constroem no coletivo, em processos contínuos de realizar e refletir, e não em contextos isolados de formação.
A autora Sá (2018), em sua dissertação de mestrado, versa sobre como identificar e analisar a identidade e os saberes da docência dos médicos professores em um curso de graduação em Medicina. Partindo do objetivo proposto, os resultados obtidos ressaltaram que os participantes se referem positivamente à importância da capacitação pedagógica para a docência no curso de Medicina, principalmente se essa ocorresse no início da carreira docente e admitem que a visão de um docente com capacitação pedagógica é diferente. É importante destacar que, quando questionados sobre quais são as características de um bom professor, a maioria respondeu “ter conhecimento do assunto”. Tal resposta coletiva vem corroborando com a ideia de que conhecimentos e experiências profissionais são suficientes e constituem os únicos requisitos para a docência nos cursos superiores.
Discorrendo sobre a análise da formação crítico-reflexiva dos docentes médicos no processo de ensino aprendizagem do internato dos cursos de Medicina, a tese de Baisch (2019) descreve a maneira como esses professores realizam a sua prática de ensino. Com os resultados obtidos na pesquisa, pode-se dizer que os professores das instituições de Medicina investigadas, mesmo os mais novos, são concebidos dentro de modelos conteudistas, de transmissão de conhecimento, com pouca capacitação específica para modificar seus modelos prévios. Outra questão que dificulta essa mudança é o próprio padrão exigido pelos congressos técnicos de Medicina na confecção de aulas. Estas devem ter uma formatação expositiva, rápida, baseada em tópicos e com transmissão passiva de conhecimentos. Assim, os professores da área médica precisam se adaptar a esse modelo de ensino e acabam reproduzindo-o em sala de aula.
É premente a necessidade de mudança dos padrões de ensino na Medicina. O modelo predominante é falho e não consegue desenvolver em todos os alunos as competências e habilidades exigidas no atual sistema de saúde vigente no país. Essa mudança de paradigma precisa acontecer de dentro para fora, tanto do indivíduo quanto das instituições, proporcionando situações e condições de capacitação para novos modelos de aprendizado.
Segundo o estudo desenvolvido por Silva (2018) na Faculdade de Medicina de Sergipe, com foco para a carreira do magistério, após a análise das vinte variáveis prosopográficas, chegou-se a diversas conclusões, dentre elas a de que a escolha para atuar no campo da Medicina está relacionada à vocação, à influência familiar, à admiração pela práxis médica e a casos de doença na família presenciados durante a infância. Portanto, a leitura que fazemos é a de que as especialidades médicas, impulsionadas pela fragmentação do conhecimento, favorecem a formação e a constituição de um campo médico diversificado, ou seja, de diversos campos específicos da Medicina.
Além disso, as especializações contribuíram para uma formação técnica específica, substanciosa, para o exercício da Medicina local, favorecendo a evolução tecnológica dos diagnósticos e tratamentos e a formação educacional, uma vez que os médicos difundiam os conhecimentos adquiridos nos cursos em suas aulas na Faculdade de Medicina de Sergipe.
Buscando compreender como ocorre a qualificação do preceptor em Medicina, durante o internato médico, Oliveira (2021) constatou a utilização de um aplicativo como ferramenta de introdução à docência auxilia na ampliação da concepção de educação em saúde, contribuindo, assim, para um melhor atendimento às demandas da sociedade atual, para o fortalecimento do compromisso ético e humanista do médico em formação e para a institucionalização da valorização da função de preceptor.
Fonsêca (2018), em sua dissertação de mestrado, teve como objetivo discutir com profissionais e docentes as competências colaborativas necessárias ao trabalho em saúde e identificar as propostas pedagógicas que sustentam a adoção de ações interprofissionais. Com base nessas discussões, elaborou uma matriz de competências colaborativas a ser utilizada nas iniciativas de educação interprofissional na formação em Enfermagem e Medicina. Com os resultados obtidos nessa pesquisa, é possível identificar elementos como a importância de capacitação docente na efetivação de adoção de metodologias de ensino aprendizagem e de avaliação para contribuir com o desenvolvimento de competências colaborativas na formação na área de saúde.
A pesquisa de Wanderley (2019) analisou as evidências científicas disponíveis na literatura sobre a aplicação da aprendizagem baseada em problemas (ABP) no ensino de Medicina, com ênfase no Brasil, e a sua correlação com as políticas públicas da área. Como resultado da pesquisa, foi possível constatar que surgem desafios para se implementar uma nova forma de organização curricular com uma postura diferente do professor, agora como tutor e facilitador da aprendizagem, assim como a necessidade de adotar novas ferramentas de avaliação, diferentes das provas objetivas tradicionais
Em sua dissertação de mestrado, Guimarães (2018) fez um percurso para elaborar um curso de capacitação profissional em habilidades clínicas para professores atuantes nessa atividade no curso de Medicina. A partir da análise de dados, concluiu-se com esse estudo que os docentes que fazem parte do quadro de professores de habilidades clínicas do Centro Universitário do Pará (Cesupa), no curso 45 de Medicina, autoavaliaram-se de forma satisfatória no que se refere à confecção de roteiro de aulas práticas e as suas competências como docentes.
De um modo geral, os dados indicaram autorrelatos compatíveis com competências esperadas para a docência do nível superior, no curso de Medicina, na atividade de habilidades clínicas. Embora os relatos estejam dentro do esperado, a presente proposta de minicurso mostra-se relevante por ter como foco a manutenção desse cenário positivo, a formação e o desenvolvimento de novos docentes e o fortalecimento do repertório desejável entre os docentes já atuantes. A proposta, subdividida em etapas e cuidadosamente detalhada, pode ser utilizada e adaptada em praticamente todos os períodos de formação docente ao longo de um ano letivo.
A pesquisa realizada por Rodrigues (2018) descreveu e analisou as relações entre a proposta de currículo integrado em um curso de graduação em Medicina e as concepções manifestadas por seus docentes sobre currículo e integração curricular. Como resultado, foi salientado que, para os professores, o currículo parece ser entendido apenas como documento a ser seguido, não cabendo, portanto, interpretações ou interferências de acordo com os contextos nos quais está inserido. Entretanto, o autor entende que o currículo seria tudo isso: tanto o currículo proposto, expresso pelo texto curricular, quanto o vivenciado por professores e estudantes no cotidiano e o avaliado. Essa constatação é afirmada quando se verifica a estrutura apresentada pela rede de saúde, que, muitas vezes, ainda está pautada em uma organização tradicional, dividida em especialidades, o que não favorece a integração, especialmente para as atividades do terceiro ciclo, ou seja, o internato médico, composto totalmente de atividades práticas.
O estudo de Pontes (2020) trata sobre a aplicação da técnica de mapeamento curricular através da utilização de matriz analisadora da estrutura curricular no curso de Medicina do Centro Universitário Tiradentes (Unit-AL). Assim sendo, como conclusão, a pesquisadora apresenta que, através da análise do mapa do curso e pela extração das impressões durante a sessão realizada com os docentes do curso, pode-se concluir que o curso se alinha com as competências descritas pelas DCN de 2014, porém, existem lacunas que precisam ser preenchidas em todas as grandes áreas existentes. A correção dos problemas identificados se faz necessário para que outras lacunas não apareçam posteriormente, prejudicando o que se almeja ao fim dos seis anos de curso: um novo perfil de egresso alinhado com o orientado.
O estudo de Medeiros (2021) aponta que a percepção dos professores sobre as estratégias de capacitação preconiza espaços reflexivos, diálogo entre pares e valorizam, principalmente, o uso das diversas tecnologias. As representações sociais apontaram para a compreensão de que a percepção dos docentes acerca das estratégias de formação continuada se aproxima dos achados na literatura, ressaltando a iminente necessidade de planejamento institucional para que, de fato, haja motivação intrínseca dos profissionais em se capacitar.
Para tanto, compreende-se que as pesquisas sobre a formação dos professores do curso de Medicina apresentadas nesse EQ deixam evidente a escassez de discussões que tratem de maneira imbricada a constituição do magistério no ensino superior a partir da formação, dos saberes e das práticas de ensino como algo indissociável. Os achados foram fundamentais para mapear as discussões já realizadas dentro da temática, mas, principalmente, para evidenciar as lacunas, revelando aquilo que ainda não foi problematizado, possibilitando novas discussões significativas sobre a temática.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
As leituras das pesquisas supracitadas contribuíram positivamente para as reflexões sobre a docência universitária, principalmente pelo que “não foi dito”, pela ausência de algumas discussões importantes. Percebemos por meio dos dados e reflexões trazidos pelos autores que as categorias formação, saberes docentes e práticas são pouco utilizadas e, quando são, isso é feito de modo isolado, como se não houvesse relação intrínseca entre elas, restringindo as discussões a uma ou outra categoria. Vale ressaltar que nenhuma das pesquisas cunha o termo “prática de ensino” em seus estudos.
Discute-se nas pesquisas sobre formação pedagógica, competências docentes, capacitação profissional, currículo integrado, aprendizagem baseada em problemas, entre outros, mas não se problematiza de maneira reflexiva sobre o “constituir-se professor”. Assim, é importante que sejam criados mais espaços para a pesquisa e a reflexão crítica sobre a formação, os saberes docentes e as práticas de ensino dos professores do curso de Medicina. Isso pode contribuir para o desenvolvimento de um ensino médico mais eficiente e de qualidade, que atenda às necessidades dos estudantes, da população e do mercado de trabalho.














