Introdução
Este artigo é um recorte de uma pesquisa de mestrado intitulada: Processos formativos de docentes atuantes em cursos de bacharelado e as implicações em sua prática pedagógica. A Pesquisa, que se encontra em andamento, busca investigar os processos formativos vivenciados por docentes de cursos de bacharelado na trajetória profissional e as implicações em sua prática pedagógica. A pesquisa possui como público-alvo professores dos cursos de bacharelado de uma Universidade particular localizada no Município de Contagem/MG. Espera-se, com a pesquisa, ampliar o conhecimento sobre o papel dos professores universitários e a importância de se fomentar, no âmbito das Instituições de Educação Superior, estratégias voltadas à formação destes profissionais.
Para Masetto (2009) mesmo sendo discutida há algumas décadas em periódicos e publicações bibliográficas especializadas, a temática formação pedagógica de docentes continua sendo objeto de reflexões teóricas e análise de práticas pedagógicas inovadoras no ensino superior. No entendimento do autor, talvez isso se deva aos novos paradigmas curriculares estabelecidos para os cursos de graduação, ao fortalecimento das chamadas metodologias ativas e às exigências, atuais de um novo perfil de docente, com outras atitudes, posturas e competências (MASETTO, 2009, p. 4).
De acordo com a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional - LDBEN nº 9.394/96, em seu art. 66, “A preparação para o exercício do magistério superior far-se-á em nível de pósgraduação, prioritariamente em programas de mestrado e doutorado” (BRASIL, 1996). Observa-se que a LDB atribuiu aos cursos de pós-graduação stricto sensu, a responsabilidade pela formação de docentes para atuação no magistério superior, entretanto, a legislação é omissa em relação à obrigatoriedade de formação pedagógica para atuação neste nível de ensino. Sobre esta questão, Vasconcelos (1998) afirma haver pouca preocupação com o tema formação pedagógica nos cursos de Pós-graduação do País e que a graduação tem sido “alimentada” por professores titulados, entretanto, sem nenhuma competência pedagógica para a função que exercem. (VASCONCELOS, 1998, p. 86).
De acordo com Saviani (2008), as mudanças tecnológicas e cientificas oferecem uma amplitude de conhecimentos, o que dificulta o seu acompanhamento. Tais mudanças, segundo o autor, influenciam diretamente os espaços educacionais que precisam evoluir adotando novas estratégias para se trabalhar o conhecimento produzido. Consequentemente, novas exigências profissionais emergiram dessas transformações, como novas habilidades e competências, as quais têm impacto sobre a atuação do professor, que deixa de ser apenas um transmissor de conhecimentos e passa a ser um orientador de seus alunos no seu progresso intelectual. Masetto (2009) afirma ser necessário rever as práticas docentes para se trabalhar com o conhecimento em nossa sociedade. Para o autor, “o caráter profissional da docência no ensino superior cada vez mais se explicita e exige comprometimentos pessoais e da categoria docente” (MASETTO, 2009, p. 24).
Neste sentido, nos propomos a analisar os conhecimentos produzidos por pesquisadores da área de educação em relação à Temática: Formação Pedagógica de Professores Universitários, objetivando conhecer as contribuições destas pesquisas na construção do conhecimento produzido na área. Utilizamos como fonte de informação os trabalhos completos publicados nos Anais da Reunião Anual da Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação - ANPED; No banco de teses e dissertações da Biblioteca da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG e em sites que divulgam produções acadêmicas relacionadas à área de educação.
Tomando como referência as consultas realizadas neste artigo, indagamos: Quais as contribuições e as lacunas apresentadas pelas pesquisas analisadas sobre a temática: Formação Pedagógica de Professores Universitários?
Método
Esta pesquisa classifica-se como um estudo teórico-metodológico de cunho misto, quantitativo e qualitativo.
Segundo Galvão, Pluye e Ricarte (2018)
Pesquisas com métodos qualitativos fornecem descrições detalhadas de fenômenos complexos, incluindo seus aspectos contextuais, ou focam em análises aprofundadas envolvendo poucos indivíduos. Desse modo, seus resultados não são generalizáveis. Já, as pesquisas com métodos quantitativos costumam examinar a associação entre variáveis que podem ser generalizadas para uma população por meio de inferências estatísticas. Focam na análise de grandes amostras, porém seus achados não levam à compreensão de processos individuais (p.8).
Será desenvolvida a partir do levantamento de textos publicados pela Associação Nacional de Pós-graduação e Pesquisa em Educação - ANPED; no repositório da Biblioteca da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG . Realizou-se, também, consulta adicional a sites que divulgam trabalhos na área de educação. Nas palavras de Minayo (2008, p. 57):
O método qualitativo é adequado aos estudos da história, das representações e crenças, das relações, das percepções e opiniões, ou seja, dos produtos das interpretações que os humanos fazem durante suas vidas, da forma como constroem seus artefatos materiais e a si mesmos, sentem e pensam.
Para facilitar a leitura e análise dos trabalhos, as informações e dados obtidos nas consultas realizadas foram organizados em cinco quadros distintos. No quadro 1 apresentamos o quantitativo de trabalhos identificados em cada uma das edições do GT 8 - Formação de Professores da ANPED, considerando o período de 2007 a 2017. Esse recorte foi definido tendo em vista o entendimento das autoras, diante dos limites de pesquisa, que o período de uma década é suficiente para atendimento aos objetivos deste trabalho. Assim, como 2017 foi o ano de realização da última Reunião Anual da Anped, o recorte marcado foi para o período citado.
Ainda no âmbito do GT 8 da ANPED, o Quadro 2 apresenta o quantitativo de trabalhos relacionados à temática formação de professores universitários (2007-2017). O Quadro 3 apresenta um consolidado dos trabalhos selecionados em todas as bases pesquisadas, em relação à temática formação de professores universitários. Nos quadros 4 a 10 os trabalhos selecionados foram classificados por área de estudo (Identidade docente; profissionalidade docente; saberes docente; formação inicial; formação continuada, formação pedagógica e sem classificação).
Resultados
Inicialmente fizemos o levantamento dos trabalhos publicados no âmbito do GT 8: Formação de Professores, considerando o decênio 2007-2017 e as respectivas edições da ANPED. No período analisado, foi identificado um total de 233 produções, conforme apresentado no Quadro 1.

Fonte: Elaboração das autoras (2020), com base nos dados das pesquisas realizadas.
Quadro 1 Produções do GT - 08 da ANPED no decênio 2007-2017
Num segundo momento, ainda no âmbito do GT 8 da ANPED, foram selecionados os trabalhos que apontassem no título alguma indicação em relação às palavras-chave: “formação de professores”, “formação pedagógica” e “ensino superior”. A partir da análise da compatibilidade entre o título e resumo da obra, foram identificados os trabalhos que, efetivamente, discutiam a temática formação de professores universitários. Nesta análise foram selecionados um total de vinte e oito produções, conforme apresentado no Quadro 2.

Fonte: Elaborado pelas autoras (2020) com base nas pesquisas realizadas
Quadro 2 Produções sobre Formação de Professores no Ensino Superior no âmbito do GT 8 - Formação de Professores, da ANPED.
A consulta realizada no repositório institucional da UFMG considerou em todo o repositório disponível, os termos: “formação de professores” e “formação pedagógica”. Para o termo “formação pedagógica”, considerando o filtro “título”, a busca retornou 16 trabalhos, sendo 6 dissertações e 10 teses. Ao expandir a consulta por “formação docente” a busca retornou 51 resultados, sendo 24 dissertações de mestrado e 27 teses de doutorado. É relevante mencionar que por não estarem relacionadas à temática em estudo, as produções não foram consideradas para fins de análise. Complementarmente foram realizadas consultas livres a sites que divulgam produções acadêmicas relacionadas à área de educação como, por exemplo, pesquisa junto ao repositório de domínio público, Portal Sapili1, e revistas eletrônicas ligadas a Instituições Educacionais. Entre as revistas destacamos: Revista Perspectiva, vinculada ao Centro de Ciências da Educação da Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC; Revista: Educação por Escrito, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da PUC Rio Grande do Sul; Revista Caderno de Letras, vinculada ao Centro de Letras e Comunicação da Universidade Federal de Pelotas do Rio Grande do Sul, Revista da Avaliação da Educação Superior, disponível no Portal de Periódicos Eletrônicos Científicos da Universidade de Sorocaba - UNISO. Na consulta realizada a sites livres foram selecionados um total de sete trabalhos.
Neste levantamento preliminar, foram considerados os vinte e oito trabalhos selecionados no âmbito do GT 8 da ANPED e os sete trabalhos selecionados na consulta a sites que divulgam informações sobre área de educação, totalizando-se trinta e cinco trabalhos. Na sequência, estes trabalhos foram organizados com as informações: Pesquisador/Ano; Temática; Objetivo e Fonte, conforme Quadro 3.

Fonte: Elaboração das autoras (2020), com base nos dados das pesquisas realizadas.
Quadro 3 Demonstrativo total dos artigos selecionados
A partir da elaboração do Quadro 4, observamos uma pluralidade de temáticas abordadas nos trabalhos publicados no âmbito do GT 8 - Formação de Professores. Para facilitar nossa compreensão e análise, optamos pelo mapeamento destas. Neste processo, foram identificadas seis temáticas distintas: Identidade Docente (ID); Profissionalidade Docente (PD); Saberes Docentes (SD); Formação Inicial (FI); Formação Continuada (FC); Formação Pedagógica (FP). A categoria “Sem classificação - SC” foi criada para identificar os trabalhos que porventura não se enquadrassem em nenhuma das temáticas mencionadas. Na sequência, após releitura integral das obras, os trabalhos foram classificados por área de estudo, conforme Quadros 4 a 10.

Fonte: Elaboração das autoras (2020), com base nos dados das pesquisas realizadas.
Quadro 4 Área de Estudo - Formação Pedagógica

Fonte: Elaboração das autoras (2020), com base nos dados das pesquisas realizadas.
Quadro 5 Área de Estudo - Profissionalidade Docente

Fonte: Elaboração das autoras (2020), com base nos dados das pesquisas realizadas.
Quadro 6 Área de Estudo - Formação Continuada

Fonte: Elaboração das autoras (2020), com base nos dados das pesquisas realizadas.
Quadro 7 Área de Estudo - Sem Classificação

Fonte: Elaboração das autoras (2020), com base nos dados das pesquisas realizadas.
Quadro 8 Área de Estudo - Identidade Docente

Fonte: Elaboração das autoras (2020), com base nos dados das pesquisas realizadas.
Quadro 9 Área de Estudo - Formação Inicial

Fonte: Elaboração das autoras (2020), com base nos dados das pesquisas realizadas.
Quadro 10 Área de Estudo - Saberes Docente
Considerando o foco deste estudo e buscando identificar as contribuições e lacunas apresentadas, utilizamos para fins de análise os trabalhos classificados na área de estudo: formação pedagógica, conforme Quadro 4. Neste sentido, realizou-se a leitura integral dos nove trabalhos, cujos resultados serão apresentados a seguir.
Contribuições Apresentadas Pelas Pesquisas Sobre a Temática: Formação Pedagógica de Professores Universitários.
A pesquisa realizada por Filho (2013) em Formação Pedagógica de Educadores da Educação Superior no Brasil: Algumas implicações é um estudo bibliográfico da formação pedagógica de docentes universitários no Brasil e a desvalorização desta formação perante o universo acadêmico. A pesquisa revelou que a formação pedagógica nos moldes atuais não contribui para o crescimento intelectual do País e que a docência requer do professor universitário conhecimentos pedagógicos para organizar a aula, fazer a transposição didática, transformar o conhecimento científico em saber transmissível e assimilável pelos alunos, dentre outros aspectos. A pesquisa aponta a necessidade de investimentos por parte das Universidades, na formação efetiva do corpo docente, para que estas se transformem em “lócus” de produção de ensino e pesquisa.
Na pesquisa: Prática docente no Ensino Superior: A formação pedagógica como mobilizadora de mudança, Junges e Behrens (2015) apresentam discussão presente numa tese de doutorado que se propôs a analisar a formação pedagógica como mobilizadora de mudança da prática docente no ensino superior. A pesquisa foi realizada junto a trinta e dois professores universitários de um programa de formação docente de uma instituição de ensino superior pública municipal de União da Vitória, Estado do Paraná, denominado Grupo Docência em Reflexão (GDR). De acordo com as autoras foram utilizados vários instrumentos para a coleta de dados, entretanto, optou-se por apresentar no artigo apenas os dados obtidos por meio de uma entrevista semiestruturada realizada com dez professores que efetivamente participaram de todo o processo formativo oferecido pelo programa. O estudo revelou que as atividades do GDR implicaram em mudanças nas práticas dos professores entrevistados, em especial, na percepção do que é ser professor universitário, no relacionamento com os alunos, na organização didática das aulas, na avaliação do processo de ensino e aprendizagem, na reflexão sobre a prática e nas dificuldades encontradas por eles ao implementar uma mudança em sua prática pedagógica. Desta forma e tendo como referência os dados da pesquisa, as autoras afirmam que a adoção de uma proposta de formação orientada e compartilhada com os professores universitários, baseada em ações concretas e inseridas numa perspectiva reflexiva, mobiliza mudanças na prática pedagógica e favorece a adoção de uma prática inovadora por parte dos professores.
Na dissertação: A Formação Pedagógica e seu significado para os docentes do ensino superior: Um estudo com professores da Faculdade de Letras da UFMG, Alves (2005) procurou analisar a formação do professor universitário no Brasil, tendo como marco histórico o período compreendido entre 1931 a 1996. A pesquisa foi realizada com professores atuantes na Faculdade de Letras da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG. O resultado deste trabalho revelou que a trajetória profissional dos docentes pesquisados é construída no dia-adia, em sala de aula, a partir das suas vivências enquanto aluno/estudante, das experiências como professores em outros níveis de ensino e, também, das referências obtidas pela atuação com pesquisa no âmbito da Universidade. Os dados também evidenciaram que se para alguns a formação do professor de ensino superior é necessária, no contexto analisado, esta formação não era objeto de grandes preocupações. De acordo com a autora, para que tenhamos uma mudança no perfil da formação oferecida nas Universidades Brasileiras esta questão precisa ser melhor problematizada. Neste sentido, Maria Alves (2005) considera indispensável a realização de outras pesquisas que tragam contribuições para uma visão mais precisa sobre o papel do professor e para o reconhecimento da importância de se pensar a formação pedagógica destes profissionais.
A formação pedagógica do profissional docente no ensino superior: desafios e possibilidades. Lira e Sponchiado (2012) discutiram a formação pedagógica e os desafios do professor universitário em relação à prática docente, carreira profissional e qualificação quanto ao fazer didático-pedagógico. O presente estudo se propôs a apresentar subsídios incentivadores para reflexões, análises, debates e compreensões sobre questões pedagógicas que, integradas à formação científica e profissional do professor universitário, para que possam apresentar respostas criativas às demandas da educação superior na atualidade. As autoras afirmam que na contramão do que se pensa no ambiente universitário, o ato de ensino é desafiador e requer respostas mais complexas que extrapolam o universo da pesquisa. Ações como ensinar, como estudar, como aprender, como questionar, como organizar-se, também são atribuições do trabalho docente. Neste sentido, o professor precisa repensar e ressignificar seus esquemas conceituais e sua prática, reconhecendo que não é detentor de verdades absolutas. De acordo com as autoras observa-se que muitos professores universitários possuem alta qualificação nos saberes específicos das disciplinas, entretanto, não possuem formação pedagógica e também não reconhecem sua necessidade e valor. Tendo como base essa afirmativa, compõe as expectativas dos estudos que as ideias desenvolvidas possam ser compreendidas e interpretadas como uma contribuição em relação às possibilidades e dificuldades inerentes à docência universitária na atualidade.
Formação Pedagógica para Docência Universitária: Estudo das Condições de Cursos Bacharelados de uma IES pública. Oro e Bastos (2012), procuram conhecer as “condições pedagógicas” vivenciadas por docentes egressos de cursos de bacharelados na Universidade Estadual do Oeste do Paraná - UNIOESTE (Campus Cascavel). Para conhecimento do objeto de estudo, as pesquisadoras utilizaram a técnica de análise do conteúdo, a qual possibilitou a interpretação dos dados a partir das falas dos sujeitos envolvidos. Como parâmetro de análise, a pesquisa foi realizada com uma parcela de professores efetivos de doze cursos de bacharelado e que exerciam a docência em tais cursos. Como resultado, a pesquisa indica que a Universidade deve possibilitar, em diferentes espaços, reflexões sobre a importância dos aspectos pedagógicos, bem como a valorização do significado pedagógico nas ações do corpo de professores. A pesquisa evidenciou, também, a necessidade de repensar a ação dos professores na Instituição, uma vez que as práticas apresentadas foram consideradas insuficientes. Neste contexto, as autoras ressaltam que o objetivo não é afastar os conhecimentos específicos da área de atuação e, sim, agregar a estes a formação pedagógica, articulando, dessa forma, o que é próprio da função docente com a realidade do trabalho da área específica.
Formar ou preparar para a docência no ensino superior? Eis a questão. Bueno (2012) procurou discutir sobre a docência no ensino superior e, consequentemente, sobre a necessidade de formação pedagógica desses profissionais. As reflexões da autora giraram, fundamentalmente, em torno dos eixos preparação e formação em cursos de Pós-graduação Stricto Sensu, tendo como referência pesquisa realizada no período de 2006 a 2010 junto aos discentes.
Para coleta dos dados foram utilizados três instrumentos: questionário, entrevistas e observações das atividades docentes (em duas instituições de ensino superior na região sudeste). A pesquisa evidenciou que a formação pedagógica em cursos de Pós-graduação Stricto Sensu é algo incipiente, possuindo pouca importância. Pelos dados coletados pode-se inferir que tal formação foi substituída, tanto no âmbito legal quanto na dimensão histórica e cultural, pela preparação para a docência neste nível de ensino (BUENO, 2012). Fato curioso é que, segundo a autora, nem a “preparação” ocorre de maneira adequada, haja vista que os conhecimentos específicos à formação para docência no ensino superior não estão contemplados nos programas dos cursos de Pós-graduação. Por fim, observou-se que tal preparação baseia-se no dom, na vocação e nas experiências vivenciadas enquanto discente.
A análise dos dados delimitada pelo referencial teórico evidenciou a existência de um hiato entre o idealizado e o vivido pelos pós-graduandos em relação à docência, considerando os que possuíam e os que não possuíam experiência com a docência (BUENO, 2012). Ambos consideraram os conhecimentos pedagógicos importantes à prática docente, entretanto, reconheceram não possuí-lo. Os dados também evidenciaram que a prática docente ocorre a partir das experiências vivenciadas enquanto discente, tendo como referência os antigos professores (BUENO, 2012). A partir da pesquisa também foi possível inferir a impossibilidade de se refletir sobre a docência idealizada e a vivida sem considerar a formação pedagógica, uma vez que esta se configura numa dimensão imprescindível à atuação do professor universitário.
Formação Pedagógica do Professor Universitário: Possibilidades e limites do Programa de Aperfeiçoamento de Ensino - PAE. Assunção (2015) procurou identificar as contribuições do PAE à formação de futuros professores universitários. Para isso, a Pesquisadora investigou as estratégias adotadas pelo Programa para aprimoramento da formação pedagógica dos Pósgraduandos, de forma que a competência científica estivesse alinhada à competência pedagógica. A pesquisa de campo considerou egressos do programa que há época atuavam como docentes em Instituições de Educação Superior e que aceitaram relatar suas trajetórias respondendo uma entrevista semiestruturada. A pesquisadora conclui seu trabalho observando que, mesmo diante de limitações, o Programa possibilita aos alunos da Pós-graduação stricto sensu o aprimoramento de sua formação pedagógica, configurando-se como importante espaço para a formação de futuros professores universitários. Destaque dado à necessidade de adequações, em especial, quanto à estruturação das atividades programadas para a etapa de formação pedagógica e estágio supervisionado.
A formação pedagógica do docente para a educação superior: Delineando caminhos e aproximações. Rivas e Conte (2012) apresentam reflexões acerca da formação pedagógica de docentes para a educação superior nos cursos de Pós-Graduação stricto sensu. Para este trabalho foram consideradas as disciplinas contempladas no Programa de Formação Pedagógica - PAE, no período de 2000 a 2006, especialmente aquelas relacionadas à 1ª etapa do programa: denominada preparação pedagógica. Para a coleta dos dados foi utilizada a técnica de análise documental e para análise a técnica de análise conteúdo.
A pesquisa revelou uma grande variação no número de disciplinas relacionadas ao PAE no âmbito dos cursos analisados e que o grau de importância atribuído ou não à formação pedagógica dos professores pode ser constato pela observância dos seguintes dados: Os programas de pós-graduação nas áreas Biológicas apresentam o maior número de disciplinas de formação pedagógica: Medicina (16), Enfermagem (4), Farmácia (2) e Odontologia (2). Os programas de pós-graduação na área de Ciências Humanas e Exatas oferecem apenas duas disciplinas: Administração, Economia e Contabilidade (1) e Psicologia, Química, Biologia e Física (1). De acordo com as autoras, os relatórios de conclusão das disciplinas que compõe a Preparação Pedagógica, no período mencionado anteriormente, estão em fase de análise e a conclusão deste estudo. Essa ação, possibilitará avaliar a eficácia deste programa para a formação dos futuros profissionais.
Formação pedagógica no ensino superior: o que diz a legislação e a literatura em Educação e Administração? Lourenço, Lima e Narciso (2016) procuram destacar a importância da Formação Pedagógica do Professor Universitário. Tendo como referência as abordagens presentes na legislação e na literatura relacionada à área de educação, as autoras buscaram subsídios que possibilitassem o desenvolvimento do argumento apresentado. A revisão da literatura privilegiou autores que investigam a formação pedagógica de docentes no âmbito da educação e da administração, em especial. Em relação à legislação, as pesquisadoras mencionam autores como Pachane e Pereira (2004), os quais afirmam que a formação pedagógica dos professores universitários está a cargo do regimento interno de cada Instituição de Ensino, uma vez que a legislação é omissa em relação a esta obrigatoriedade. Citam ainda Bastos (2007), o qual afirma que o critério para ingresso na docência considera somente o conhecimento específico da área e a titulação acadêmica dos professores. Entendimento ratificado por Cunha (2009) que atribui à falta de legislação pertinente como sendo um dos motivos para a não legitimação por partes das Instituições Educacionais dos saberes pedagógicos necessários ao professor universitário. De acordo com as Pesquisadoras, autores como Isaias (2006); Pimenta (2008); Anastasiou (2008); Cunha (2009); Masetto (2009); Soares e Corrêa (2013) e Ribeiro (2013) destacam a importância dos Programas de Formação Stricto Sensu como importante fase para a formação pedagógica do professor universitário, ficando evidente que a discussão dessa temática perpassa também a discussão sobre a Pós-graduação, independentemente da área de conhecimento a que se esteja referindo. Destaque dado a Bastos (2007), o qual afirma não haver nestes cursos preocupação com a formação de professores para atuação no ensino superior.
As pesquisadoras também mencionam Tardif (2000, p.14) que afirma: “ainda hoje, a maioria dos professores aprende a trabalhar na prática, às apalpadelas, por tentativa e erro”. Entretanto, conforme alerta Masetto (2009), novos paradigmas curriculares se apresentam para os cursos de graduação e as chamadas metodologias ativas adquirem força maior exigindo do docente do ensino superior outras atitudes, outras posturas e outras competências. As pesquisadoras afirmam que a principal constatação deste trabalho é o fato de que em relação à formação de professores para o ensino superior, as indagações se sobrepõem às respostas e que mesmo assim, a formação pedagógica de docentes é um tema que continua merecendo atenção cuidadosa dos Programas de Pós-graduação Stricto Sensu. As pesquisadoras concluem seu trabalho destacando que nos últimos anos houve um crescimento no número de pesquisas relacionadas ao Ensino na área de Administração, destacando a relevância do Programa ProAdm.
Formação Pedagógica dos docentes do ensino superior. Nos dizeres de Masetto (2009), mesmo sendo discutida há algumas décadas em periódicos e publicações bibliográficas especializadas, a temática formação pedagógica de docentes continua sendo objeto de reflexões teóricas e análise de práticas pedagógicas inovadoras no ensino superior. Segundo o autor, talvez isso se deva aos novos paradigmas curriculares estabelecidos para os cursos de graduação, ao fortalecimento das chamadas metodologias ativas e às exigências, nos tempos atuais, de um novo perfil de docente, com outras atitudes, outras posturas e outras competências. Masetto (2009), afirma que pensar a formação pedagógica dos professores universitários significa pensar a formação de profissionais que atuam em uma sociedade do conhecimento. Assevera também que, para que estas mudanças na formação e na prática pedagógica se concretizem, será necessário um trabalho de educação permanente destes profissionais, a fim de que desenvolvam atitudes diferenciadas e adequadas às novas exigências de formação para atuação na docência do ensino superior.
O autor entende que para desenvolvimento deste processo de formação é necessária a observância dos seguintes pontos: 1) Compreender e assumir que professor e aluno são sujeitos de um processo de aprendizagem; 2) Incentivar a mudança de atitudes dos alunos que os levem a seu papel de sujeitos no processo de aprendizagem; 3) Assumir um novo papel do professor (ele também um aprendiz) no processo de aprendizagem; 4) Numa proposta de se trabalhar com grandes temas interdisciplinares na reorganização dos conteúdos, e na ênfase da aprendizagem colaborativa em pequenos grupos, está posto um novo papel do docente: O de orientador de pequenos grupos; 5) Rever a metodologia do trabalho docente e discente; 6) Rever o processo de avaliação; 7) Rever o significado, a importância e a dinâmica da aula. A expectativa do autor é que este trabalho possa explicitar a necessidade de formação pedagógica para os docentes do ensino superior na atualidade, bem como identificar os aspectos que precisam ser trabalhados nesta formação. Para Masetto (2009) o caráter profissional da docência universitária está cada vez mais evidente, exigindo comprometimentos pessoais e de toda a categoria de profissionais que atuam neste segmento de ensino.
Considerações Finais
Com base nas informações dos Quadros 1 a 10 constatamos que as discussões acerca da temática: “formação pedagógica” de professores universitários ainda são incipientes, especificamente no GT 8 - Formação de Professores da ANPED. Evidenciou-se, neste GT, que das 233 produções identificadas no período de 2007 a 2017, trinta discutiam a formação de professores no ensino superior, entretanto, apenas duas discutiam, especificamente, a Formação Pedagógica neste nível de ensino. No geral, considerando todas as bases consultadas, conforme Quadros 4 e 6, observou-se que a maior parte das produções analisadas teve como foco as temáticas “formação pedagógica” e “formação continuada”, tendo sido identificados nove e dez trabalhos, respectivamente, nestas áreas de estudo. Entretanto, é importante considerar que o quantitativo de trabalhos relacionados à categoria: Formação Pedagógica se deve aos sete trabalhados identificados nas consultas livres a sites que divulgam informações sobre a área de educação (consultas livres).
Após análise dos dados obtidos retomamos a indagação que nos fizemos: Quais as contribuições e as lacunas apresentadas pelas pesquisas analisadas sobre a temática: Formação Pedagógica de Professores Universitários?
Os resultados revelam que a temática: formação pedagógica de docentes universitários ainda é pouco valorizada no ambiente universitário, não obtendo a legitimação necessária por parte das instituições de educação superior.
Destacam que os Professores pesquisados reconhecem a importância da formação pedagógica e suas contribuições no processo de ensino e aprendizagem.
Apontam que a atuação docente neste nível de ensino constrói-se no dia a dia em sala de aula, tendo como referência as vivências enquanto aluno/estudante, as experiências em outros níveis de ensino e, também, as referências obtidas pela atuação com pesquisa universitária.
Sugerem a realização de outras pesquisas que tragam contribuições para uma visão mais precisa sobre o papel do professor e para o reconhecimento da importância de se pensar a formação pedagógica destes profissionais.
Apontam que os Programas de Formação Docente implantados nas Instituições pesquisadas foram considerados eficazes e provocaram mudanças efetivas nas práticas pedagógicas dos professores.
Revelam que a formação obtida em Programas de Pós-graduação Stricto Sensu foi considerada deficitária, não contribuindo para o desenvolvimento intelectual do País.
Apontam a necessidade de se agregar a formação pedagógica no processo de formação docente, articulando, dessa forma, o que é próprio da função docente com a realidade do trabalho da área específica.
Reconhecem os desafios inerentes à docência universitária e o hiato existente entre a formação específica da área e a formação pedagógica, estando a segunda preterida em relação à primeira.
Diante deste panorama e considerando os desafios inerentes à docência na atualidade, apresenta-se como sugestão para pesquisas futuras, a abordagem sobre possíveis impactos da ausência de formação pedagógica para atuação com métodos ativos de aprendizagem, bem como possíveis dificultadas encontradas pelos professores neste sentido.










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