1 Introdução
Os avanços científicos e tecnológicos impulsionam a incorporação de novas tecnologias na área da saúde, a fim de suprir as demandas sociais em busca da melhoria na prestação de assistência. O fortalecimento do Sistema Único de Saúde (SUS) requer das instituições de ensino e pesquisa, sobretudo aquelas fomentadas por recursos públicos, a proposição de ideias inovadoras em processos e produtos (OLIVEIRA; RODAS, 2017; SANTOS; GOLDSTEIN; RABELLO, 2016).
As metodologias ativas de aprendizagem desempenham papel fundamental no ensino em saúde ao permitir a articulação entre a universidade, o serviço e a comunidade, possibilitando uma intervenção consistente sobre estas realidades. Podem ser um meio capaz de orientar a prática pedagógica comprometida com o desenvolvimento de competências nos estudantes, visando sua autonomia intelectual (FERNANDES et al., 2014; CALDARELLI, 2017).
Entre as estratégias de metodologias ativas, destaca-se a Aprendizagem Baseada em Projeto (ABPj) que consiste em um recurso que possibilita o gerenciamento de projetos para estruturar exercícios de aprendizagem. Além disso, quando vinculada a pesquisas e atividades laboratoriais, a aprendizagem por projetos pode melhorar as atitudes dos estudantes e impactar na sua escolha de atividades profissionais e acadêmicas (COSTA-SILVA et al., 2018).
A aplicação de tecnologias no meio educacional apresenta diversas vantagens como facilitar a compreensão dos conteúdos, respeitar o tempo de aprendizagem do aluno e a possibilidade do feedback. Entre as modalidades de tecnologias, destacam-se as audiovisuais como vídeos, simulações, animações, videoaulas, experimentos virtuais, áudios, aplicativos, ambientes de aprendizagem, páginas de internet e jogos educacionais entre outros meios com aplicação educacional (GÓES et al., 2015; TEIXEIRA; MOTA, 2011; ROCHA, 2019).
Os vídeos educativos são modalidades de multimídia com ampla possibilidade de divulgação e acesso, têm sido utilizados em diversas experiências pedagógicas demonstrando a sua relevância e aplicabilidade no processo de ensino-aprendizagem, combinando vários elementos, tais como imagens, texto e áudio em uma única ferramenta de promoção do conhecimento (DALMOLIN et al., 2016).
Assim como na educação, o desenvolvimento tecnológico na forma de produtos é essencial em todas as áreas de conhecimento. A concepção de produtos se dá através do projeto e a integração dos processos tecnológicos educacionais e de produtos pode aumentar e aprofundar o conhecimento, levando, assim, ao desenvolvimento de alternativas de soluções em saúde mais eficientes (SIQUEIRA et al., 2014).
Este estudo busca construir e avaliar um produto educacional como recurso de ensino na criação de produtos tecnológicos para área da saúde. Espera-se o aprimoramento de estratégias de ensino-aprendizagem, levando a capacitação dos discentes em desenvolver projetos de produto, assim como fomentar o desenvolvimento de tecnologias na saúde pública.
2 Metodologia
A pesquisa foi executada no curso de Fisioterapia da Universidade do Estado do Pará - UEPA. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da UEPA sob o parecer no. 3.497.251. Os participantes aceitaram voluntariamente participar do estudo e assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Trata-se de um estudo de desenvolvimento de produto educacional, elaborado em etapas de estudos pré-produção (estudo de revisão e exploratório-descritivo), produção e validação de uma mídia audiovisual.
Como participantes, o estudo contou com Juízes especialistas da área de ensino em saúde e estudantes do 3º e 4º ano do curso de Fisioterapia da UEPA. Para Juízes especialistas foram convidados a participar do estudo profissionais que apresentassem pelo menos 2 dos seguintes critérios adaptados de Benevides et al. (2016):
Experiência de ensino em saúde há pelo menos 3 anos;
Ter trabalhos publicados em revistas e/ou eventos sobre ensino em saúde;
Trabalhos publicados em periódicos sobre tecnologias educacionais em saúde; • Ser especialista, Lato Sensu e/ou Stricto Sensu, na área de ensino em saúde;
Ser membro de sociedade científica na área de ensino em saúde.
Para compor o público-alvo foram convidados estudantes do curso de Fisioterapia da UEPA, sendo incluídos alunos de qualquer faixa etária, independente de sexo, matriculados no 3º ou 4º ano do curso de Fisioterapia da UEPA. Foram excluídos alunos que tenham cursado graduação em Design. O estudo foi desenvolvido nas seguintes etapas ilustradas na figura 1: a- Revisão da literatura; b- Estudo exploratório-descritivo de competências; c- Produção de uma mídia audiovisual; dvalidação de conteúdo e semântica por juízes especialistas e pelo públicoalvo.
2.1 Estudo de Revisão
Para reunir conteúdo técnico-científico geral para o produto educacional foi realizada uma revisão de literatura sobre os principais conceitos relacionados ao tema “projetos de produto”, como conceitos básicos, modelos de metodologia de projeto mais relevantes, e atributos de projetos com ênfase nos componentes mais adequados a produtos para aplicação em saúde.
A pesquisa utilizou as bases digitais PubMed, Lilacs e Google Acadêmico, com palavraschave de busca os termos: “metodologia de projeto”, “métodos de projeto”, “projeto de produto”, “produtos de saúde”, “tecnologia em saúde”, “tecnologia assistiva”. Foram selecionados os modelos metodológicos mais relevantes e, através da análise comparativa dos processos, foi definido um modelo consensual para o estudo.
2.2 Estudo Exploratório-Descritivo
Para analisar os níveis de competências dos alunos sobre o desenvolvimento de produtos, foi realizado um estudo exploratório descritivo, com abordagem quantitativa, no qual, segundo Lyra, Souza e Costa (2019), o pesquisador busca estabelecer um primeiro contato com o tema, visando uma maior familiaridade com fato ou fenômeno, sem interferir com os mesmos.
O estudo ocorreu nas seguintes etapas: a- Adaptação de um instrumento de avaliação de competências; batividade de criação de projetos em ABPj; c- Disponibilização aos alunos do instrumento de avaliação; d-Análise dos dados da avaliação. Contou com 29 alunos do 3º ano do curso de Fisioterapia.
Foi adaptado para este estudo o instrumento de autoavaliação Escala Aprendizagem Baseada em Projeto para Educação a Distância-EABP/EaD, desenvolvida por Garbin e Dainese (2013). O Instrumento resultante consistiu em um formulário de 22 itens no formato do tipo Likert de 5 pontos (0 - Inexistente a 4 - Ótimo). Os dados obtidos resultarão em um índice percentual de competências, expresso na seguinte forma: Índice% = (Escore total / no de itens x 4) x 100. Os itens do Instrumento foram agrupados em domínios de competências apresentados no quadro 1.
Quadro 1 Domínios de competências e itens relacionados no instrumento
| Domínios de Competências e itens relacionados | |
|---|---|
| Motivação e Iniciativa (1, 2, 5, 6, 7) | Análise do problema (11, 13, 14) |
| Criatividade (7, 8, 9, 12) | Identificação das necessidades (14, 15) |
| Trabalho em equipe (3, 4, 5, 6) | Definição de requisitos (16, 17, 18, 19, 21) |
| Pensamento crítico (2, 3, 4) | Definição de processos (20, 22) |
| Integração de conteúdos (9, 10, 11) | Habilidade de representação (8) |
| Capacidade de comunicação (3, 4, 5, 8) | |
Fonte: Adaptado de Garbin e Dainese, 2013.
A atividade de ABPj consistiu na identificação de problemas pelas equipes (4 a 6 alunos) em cenários de assistência à comunidade em uma unidade ambulatorial escola da UEPA. As equipes foram acompanhadas por orientadores docentes na criação de projetos de inovação tecnológica com a construção de protótipos e apresentação de um artigo.
O instrumento de avaliação foi disponibilizado na plataforma digital GoogleForms, e a extração dos dados do formulário foi feita através da geração e download na plataforma de uma planilha de Excel onde foi realizada uma análise quantitativa dos dados através de estatística descritiva com cálculo de percentuais, médias e desvio padrão.
2.3 Produção da Mídia Audiovisual
A equipe de produção contou com a participação do pesquisador principal, seus orientadores, e com o auxílio de um profissional de edição de vídeos. Com base no conteúdo reunido nas etapas anteriores foi construído um roteiro, a fim de descrever o conteúdo textual e áudio-narrativo apresentado na mídia, informações de tempo de duração de cada cena, além dos elementos gráficos e visuais presentes.
Após a validação de conteúdo do roteiro, foi iniciada a concepção do vídeo educacional, que consistiu em uma análise de conceitos criativos e um estudo semiótico, a fim de orientar a direção de arte. Os conceitos criativos guiaram a definição de estilos estéticos por meio de imagens e vídeos pesquisados em repositórios de uso público. Seguiu-se, então um estudo semiótico para definir elementos gráficos a serem utilizados. A produção digital do vídeo foi realizada nos softwares Corel Draw 2018 e Adobe After Efects.
2.4 Validação de Conteúdo do Roteiro
A validação de conteúdo do roteiro foi executada por 6 juízes especialistas da área de ensino em saúde. Utilizou-se o Instrumento de Validação de Conteúdo Educativo em Saúde (IVCES) construído e validado por Leite et al. (2018), que possui 18 itens divididos em blocos Objetivo (propósito, metas e finalidades), Estrutura/apresentação (organização, estratégia, coerência e suficiência), e Relevância (significância, impacto, motivação e interesse).
Para valoração dos itens e cálculo dos resultados foi usado o Índice de Validade de Conteúdo (IVC) que mede a proporção de juízes em concordância sobre aspectos do instrumento e de seus itens, permitindo analisar cada item individualmente e também o conteúdo como um todo. Este método emprega uma escala tipo Likert com valoração de um a quatro, sendo que: 1 = inadequado, 2 = parcialmente adequado, 3 = adequado, 4 = totalmente adequado (ALEXANDRE; COLUCI, 2011).
O escore foi calculado por meio da soma de concordância dos itens marcados com “3” ou “4”. Os itens que receberam pontuação “1” ou “2” devem ser revisados (TEIXEIRA; MOTA, 2011). O resultado de 0 a 100 do IVC foi calculada pelo somatório das respostas consideradas adequadas (3 e 4), divididas pelo somatório total de respostas e multiplicados por 100. Foi considerado como parâmetro de validade o IVC maior ou igual a 70%.
2.5. Validação Semântica do Vídeo Educacional
Contou com a participação de alunos do 3º e 4º ano de Fisioterapia da UEPA, que realizaram a unidades curriculares de Habilidades profissionais II e III respectivamente, a fim de garantir o envolvimento prévio com o foco-tema do produto educacional.
Foi utilizada uma versão adaptada do questionário de Rosa et al. (2019) para validação áudio-imagética de uma tecnologia educacional pelo público-alvo. O mesmo contém 18 itens divididos em 3 blocos (conteúdo, audiovisual e personagens). Para o presente estudo, o bloco personagens foi substituído por um bloco de motivação. O Instrumento adaptado foi aqui denominado Instrumento de Validação Semântica em Saúde (IVSS).
Para analisar os resultados foi usado o mesmo método de cálculo do IVC para validação de conteúdo, sendo denominado Índice de Validação Semântica (IVS). Da mesma forma foi considerado como parâmetro de validade o IVS maior ou igual a 0,70 (70%).
3 Resultados
3.1 Estudo de Revisão
De acordo com as referências de revisão, foram selecionados conceitos significativos que serão abordados no produto educacional, conforme demonstrado na figura 2.
Inovação tecnológica: É uma solução para um problema técnico por meio de uma novidade ou aperfeiçoamento que resulte em produtos, processos ou serviços novos ou significativamente melhorados envolvendo tecnologia (BRASIL, 2016).
Design de produtos: É a área de conhecimento destinada à criação e desenvolvimento de produtos e objetos destinados ao uso humano. Geralmente se refere a produtos tangíveis ou tridimensionais (FARIAS, 2018).
Produto de saúde: Referem-se a materiais, acessórios ou dispositivos utilizados em procedimentos médicos, odontológicos e fisioterápicos, entre outros, na prevenção, diagnóstico, tratamento, reabilitação ou monitoramento de pacientes (LUZ; SOUSA; OLIVEIRA, 2020).
Metodologia de projeto: É uma orientação de processos e etapas a serem seguidas para a resolução de um problema por meio de um produto, sendo composta por métodos, técnicas e ferramentas (SMYTHE; PRADO; SMYTHE JR, 2016).
Tecnologia assistiva: Produtos desenvolvidos para pessoas com deficiência, mobilidade reduzida ou idosas, com a finalidade de melhorar a funcionalidade, autonomia, qualidade de vida e inclusão social (GARCÍA; ITS BRASIL, 2017).
Atributos de produtos são as características determinantes para o sucesso no desenvolvimento do projeto de um produto e para que este atinja os objetivos estabelecidos. De acordo com as referências consultadas, o Quadro 2 apresenta os principais atributos relacionados a produtos para uso nas áreas da saúde.
Quadro 2 Atributos de produtos apontados no estudo de
| Atri | butos |
|---|---|
| Originalidade | Ergonomia |
| Funcionalidade | Segurança |
| Atendimento de necessidades | Viabilidade técnica |
| Usabilidade | Representação gráfica |
| Estética | Organização do projeto |
Fonte: Dados da pesquisa, 2020
Foram selecionadas para estudo 5 modelos metodológicos, sendo 3 modelos clássicos e com grande aplicação em áreas de Design (Bonsiepe, Munari e Löbach) e 2 modelos mais atuais com aplicação na área de saúde, Merino (2014) e Casagranda (2016). Com base na análise dos modelos foi definido um modelo metodológico consensual para o estudo representado na figura 3.
3.2 Estudo Exploratório-Descritivo de Competências
Todos os 29 alunos do 3º ano do curso de Fisioterapia atenderam aos critérios de inclusão do estudo. A amostra do estudo apresentou média total do índice de competências calculado pelo instrumento de 86,86%, com desvio padrão de 9,20, estando dentro do conceito ótimo, sendo que o maior valor encontrado foi de 100 e o menor valor foi de 69. A distribuição dos alunos entre os conceitos do índice foi de 7 (24,14%) no conceito Bom e 22 (75,86%) no conceito Ótimo.
Os resultados de 0 a 4 dos itens agrupados em competências são mostrados na figura 4, onde se observam melhores médias de avaliação para a Análise do problema (3,69) e a Identificação das necessidades do usuário (3,72). Por outro lado, as competências com menor média de autoavaliação foram a Criatividade (3,26) e a Habilidade de representação (2,45).
3.3 Produção da Mídia Audiovisual
Com base nos estudos de pré-produção foi definido um conteúdo específico e direcionado para a construção do roteiro da mídia audiovisual. O roteiro apresenta as informações principais do vídeo, como o título, o público-alvo e a duração total aproximada. Foi dividido em 6 partes: apresentação, conceitos básicos, atributos de projetos, etapas de projetos, encerramento e sessão de créditos.
O estudo de conceitos e estilos criativos utilizou palavras (substantivos, verbos ou adjetivos) relativas a conceitos gerais sobre o projeto, que passaram por uma seleção para reduzir os conceitos nas ideias mais relacionadas ao projeto, obtendo-se como resultado os conceitos “tecnologia”, ‘geometria” e “movimento”.
O estudo semiótico teve como resultado a produção de ícones representativos de atributos de produtos e etapas de projetos. Priorizou-se o uso de formas simples de modo a facilitar o reconhecimento dos símbolos e a associação aos temas representados. Alguns exemplos de ícones gerados são apresentados na figura 5.
O produto resultante consistiu em um vídeo de animação de tipografias, ícones e símbolos vetoriais, e imagens, organizado em 27 cenas e com duração total de 5min. e 09s. O título do vídeo educacional foi definido como “Métodos de Projeto de Produtos para áreas da saúde”. O vídeo educacional foi registrado na Agência Nacional do Cinema (ANCINE) com e pode ser acessado em sua versão completa através do link: https://youtu.be/EQitauDL5ZM.
3.3 Validação de Conteúdo do Roteiro
A amostra de juízes-especialistas foi composta de 3 voluntários com formação em Fisioterapia, 1 em medicina, 1 em Odontologia e 1 em Nutrição, sendo 6 Juízes com titulação acadêmica de Doutorado e 2 de Mestrado. Com tempo de atividade de ensino em saúde de 7 a 22 anos. As respostas dos juízes ao IVCS, bem como o cálculo do IVC geral e por blocos encontram-se na tabela 1.
Tabela 1 Respostas dos juízes ao IVCS e resultados do IVC geral e por blocos
| Valoração | 1 (I) | 2 (PA) | 3 (A) | 4 (TA) | IVC |
|---|---|---|---|---|---|
| Bloco 1- Objetivos | 2 | 3 | 10 | 14 | 0,8 |
| Bloco 2- Estrutura/Apresentação | 2 | 2 | 16 | 40 | 0,93 |
| Bloco 3- Relevância | 1 | 4 | 3 | 10 | 0,72 |
| Total | 5 | 10 | 29 | 64 | 0,86 |
Legenda: (I): Inadequado, (PA): Parcialmente adequado, (A): Adequado, (TA): Totalmente adequado Fonte: Dados da pesquisa, 2020.
De acordo com os resultados expostos na tabela, o roteiro avaliado alcançou no bloco de Objetivos o IVC de 0,8 (80%) pelos juízes especialistas. A maior pontuação foi no item “Adequado ao processo de ensino-aprendizagem” (100%) e a menor no item “Incentiva mudança de comportamento” (50%).
No bloco sobre estrutura e apresentação o IVC obtido foi de 0,93 (93%), com as maiores pontuações nos itens referentes à adequação da linguagem e a sequência de apresentação (100%), e as menores pontuações no item sobre objetividade das informações (67%).
O bloco Relevância alcançou um IVC de 0,72. (72%), sendo o item com maior pontuação o referente à “contribuição para o conhecimento na área” (83%). A menor pontuação no bloco foi para os itens referentes ao “estímulo do aprendizado” e do “interesse pelo tema” (67%).
A avaliação global do roteiro obteve um IVC geral de 0,86 (86%). Assim, considerando esses resultados, o roteiro proposto foi considerado validado pelos juízes-especialistas e apto à utilização para produção do vídeo educacional, após inserção de alterações.
3.4 Validação Semântica do Vídeo Educacional
Participaram 14 voluntários, sendo 6 alunos do 3º ano e 8 alunos do 4º ano do curso de Fisioterapia. A média de idade foi de 21.9 anos. As respostas dos alunos ao formulário de validação IVSS, bem como o cálculo do IVS geral e por blocos encontram-se na tabela 2.
Tabela 2 Respostas do público alvo ao IVSS e resultados do IVS geral e por blocos
| Valoração | 1 (I) | 2 (PA) | 3 (A) | 4 (TA) | IVS |
|---|---|---|---|---|---|
| Bloco 1- Conteúdo | 0 | 1 | 23 | 60 | 0,98 |
| Bloco 2- Apresentação audiovisual | 1 | 3 | 30 | 64 | 0,96 |
| Bloco 3- Motivação | 0 | 3 | 16 | 51 | 0,95 |
| Total | 1 | 7 | 69 | 175 | 0,97 |
Legenda: (I): Inadequado, (PA): Parcialmente adequado, (A): Adequado, (TA): Totalmente adequado.
Fonte: Dados da pesquisa, 2020.
O vídeo educacional avaliado alcançou no bloco Conteúdo o IVS de 0,98 (98%) pelo público-alvo. As pontuações variaram entre 100% no item “As informações e conteúdos são apresentadas de forma clara e compreensível”, e 93% no item “A forma de apresentação do conteúdo no vídeo é convidativa para quem assiste”.
No bloco Apresentação audiovisual, o IVS obtido foi de 0,96 (96%), também com variação de 100% a 93% entre os itens referentes à clareza-acessibilidade do texto, e a adequação de cores-contraste no vídeo. O bloco Motivação alcançou um IVS de 0,95 (95%), com pontuação variando de 100% no item “O material é apropriado para o perfil do públicoalvo.”, a 93% nos itens referentes à motivação-iniciativa e ao pensamento crítico.
Por fim, a avaliação global do produto educacional obteve um IVS geral de 0,97 (97%). Assim, considerando esses resultados, o vídeo educacional proposto foi considerado validado pelo público-alvo e apto à utilização como tecnologia de ensino.
4 Discussão
No estudo exploratório-descritivo de competências dos alunos a média total do índice de competências foi positiva. Este resultado pode ser explicado, segundo Meurer et al. (2017), pela notável eficiência deste método de ensino em estruturar a resolução de problemas reais relacionados à criação de serviços ou desenvolvimento de produtos, fazendo dessa estruturação um processo efetivo de aprendizagem.
Os agrupamentos em competências representados demonstraram a boa avaliação da identificação e análise de problemas e da definição das necessidades do usuário. Este resultado representa processos trabalhados com os alunos no curso de Fisioterapia através de metodologias de ensino como a ABPj e em conteúdos curriculares do curso.
Sobre a identificação de problemas, Villardi, Cyrino e Berbel (2015) afirmam que o aluno deve identificar dificuldades, falhas, contradições, discrepâncias e conflitos que podem configurar um problema. Ele traz consigo saberes obtidos de outras fontes e, ao ser confrontado com informações reais, consegue problematizá-las, articulando com os conhecimentos que já possui.
A avaliação positiva em identificar necessidades do usuário justifica-se pelo conteúdo programático da Unidade curricular de Habilidades profissionais III do curso de Fisioterapia, no qual um dos objetivos é:
Possibilitar ao estudante o desenvolvimento de variadas habilidades voltadas à prática profissional, no que tange aos aspectos técnico-profissionalizantes, interpessoais e multidisciplinares, objetivando condutas claras, eficazes e éticas, que preparem o futuro profissional às principais necessidades de saúde da população (PPP/UEPA, 2016, p. 92).
Por outro lado, as competências com menor autoavaliação pelos alunos foram a Criatividade e a Habilidade de representação, ambas relacionadas a conteúdos curriculares não comumente abordados nos cursos de áreas da saúde, porém apresentam grande importância no contexto de atividades de criação de produtos.
Segundo Carretta (2019) a criatividade é uma importante ferramenta no desenvolvimento de novos produtos, devendo estar integrada ao processo de projeto. Por isso, recomenda-se fazer uso de meios que estimulem a equipe de projeto a elaborar o maior número possível de ideias para a solução de um problema.
De acordo com Smythe, Prado e Smythe Jr. (2016) na área de saúde os aspectos referentes à representação de símbolos gráficos em projetos ainda são restritos. Os autores em um estudo sobre representação no processo de Design de produtos assistivos observaram diversas possibilidades de organização de conceitos e etapas de projeto, porém com pequena incidência de representações gráficas.
Considerando estes resultados, na seleção e definição do conteúdo específico do produto educacional foram enfatizados os conteúdos de métodos de projeto relacionados com a criatividade e a habilidade de representação. A estes achados somam-se os resultados do estudo de revisão com um modelo metodológico consensual juntamente com conceitos básicos sobre o tema e atributos de produtos.
O conteúdo técnico-científico reunido foi utilizado na composição do roteiro do vídeo educacional. O roteiro é uma ferramenta indispensável na produção de uma peça educacional audiovisual, por permitir a avaliação prévia dos especialistas em relação à qualidade de conteúdo do material a ser desenvolvido (RAZERA et al., 2014).
Em relação ao processo de produção da mídia audiovisual, observa-se uma crescente necessidade de estudos sobre processos criativos na construção de mídias digitais. Os aspectos de autenticidade e de estética das mensagens visuais, bem como a aceitação pelo público, podem ser favorecidos pelo conhecimento sobre processos criativos de hipermídias (COELHO et al., 2017).
Percebe-se que, no âmbito do ensino em saúde, uma parte considerável dos docentes ainda carece de formação pedagógica e instrumentalização para o desenvolvimento de tecnologias educacionais que forneçam maior dinamicidade e interatividade, a exemplo das peças multimídias, provocadoras de uma aprendizagem sensorial, como os vídeos educacionais (LIMA et al., 2019).
Em relação a processo de validação do produto, pode-se afirmar que o conteúdo do produto obteve uma boa avaliação dos objetivos. Porém ainda se encontrou certa dificuldade no quesito “mudança de comportamento”, devido, entre outras razões, à aplicação prática das atividades de criação de produtos ser, ainda, incipiente na maioria dos cursos da área de saúde (SILVA et al., 2017).
A utilização de tecnologias educativas validadas atribui maior qualidade ao processo de ensino-aprendizagem, e salienta a coerência das informações apresentadas no atendimento do objetivo proposto, tornando-se uma importante ferramenta para interação com o público-alvo (ALBUQUERQUE et al., 2016).
No aspecto Estrutura e Apresentação, a avaliação do conteúdo foi considerada positiva, porém com possibilidade de aprimoramento no quesito “objetividade das informações”, o que pode ser explicado pela grande complexidade do conteúdo abordado. Em um estudo sobre produção e validação de vídeo educacional em saúde, Rosa et al. (2019) afirma que:
O conteúdo abordado em uma tecnologia audiovisual com potencial para sensibilizar o público-alvo necessita ser compreensível por qualquer pessoa, sendo claro em sua abordagem técnica e científica (p. 12).
A efetividade dos vídeos educacionais pode ser maximizada combinando essa modalidade com o conteúdo. Usando o canal áudio/verbal e o canal visual/pictórico para transmitir informações e ajustando o tipo de informação ao canal mais apropriado, os professores podem aumentar a carga cognitiva usada em uma experiência de aprendizagem (BRAME, 2016).
Em relação à Relevância, o conteúdo também apresentou boa avaliação, sendo que a menor pontuação dos quesitos “estímulo do aprendizado” e “interesse pelo tema” pode sinalizar uma necessidade de incremento no apelo à motivação pela temática no conteúdo avaliado.
O processo de avaliação envolvendo os estudantes é essencial para aprimorar o produto educacional, pois consolida a importância da tecnologia para o ensino. A participação dos alunos pode apoiar novas práticas pedagógicas e propor uma redefinição nas formas de construção do conhecimento, quando for considerado necessário (GÓES et al., 2015).
Na validação pelo público-alvo as informações foram consideradas coerentes claras e compreensíveis. Segundo Galdino et al. (2019), o vocabulário empregado em materiais educacionais deve ser coerente com a mensagem que se pretende transmitir e com o públicoalvo a que se destina a informação constante no conteúdo.
No bloco sobre apresentação audiovisual, a avaliação semântica pelo público-alvo apontou que a diagramação, a composição das cenas, a iluminação e o enquadramento são adequados, porém sinalizando, uma possível melhoria no quesito “adequação de cores e contraste” o que pode ser explicado pela complexidade estética dos estilos adotados.
As ilustrações utilizadas foram consideradas adequadas, com referência no espaço destinado a comentários de que o vídeo consegue chamar a atenção com as imagens e exemplos de aplicação. Da mesma forma, em estudo de Góes et al. (2015), os participantes concordaram que a utilização de recursos animados como vídeos, sons e animações auxiliam o usuário a compreender a informação, facilitando a aprendizagem significativa.
A utilização de animações nos vídeos educacionais é importante por despertar a atenção dos alunos, tornando o conteúdo mais atrativo, superando as videoaulas apenas com a narrativa ou com o professor como protagonista do material. Isto permite que o recurso seja usado de diferentes maneiras, principalmente em ambientes de suporte à aprendizagem para motivação, como veículo de conhecimento e informação (LIMA et al., 2019; RAZERA et al., 2014).
O uso de recursos audiovisuais no formato de vídeo pode representar uma sofisticação na relação ensino-aprendizagem para um público cada vez mais imerso no mundo virtual, visto que, por meio deste recurso, consegue-se captar de forma mais eficiente a atenção do público, bem como despertar sua curiosidade em relação às temáticas abordadas (RODRIGUES JÚNIOR et al., 2017).
A incipiente exploração do tema na área educacional de saúde constituiu-se no principal desafio do estudo. Verificar a aplicabilidade de mídias audiovisuais como recurso adicional no processo de ensino-aprendizagem, suscitando a necessidade de estudos envolvendo a produção de tecnologias educacionais multimídias em saúde.
5 Conclusão
Por meio do presente estudo foram identificadas no curso de Fisioterapia da UEPA oportunidades de aprimoramento em conteúdos sobre desenvolvimento de produtos, notadamente em temas relacionados à inovação, apresentação gráfica e estética. No tocante à investigação de competências, encontrou-se uma melhor avaliação de competências ligadas à análise de problemas e necessidades do usuário, em comparação àquelas relacionadas à concepção criativa de projetos e formas de representação. Por meio dos conteúdos reunidos e considerando as necessidades identificadas, foi desenvolvida uma mídia audiovisual no formato de vídeo. O processo levou em conta aspectos pedagógicos como a atratividade e a carga cognitiva, assim como fundamentos de produção audiovisual. A validação de conteúdo do roteiro por juízes especialistas apresentou resultado positivo para sua aplicação na produção audiovisual. O vídeo educacional foi avaliado pelo público-alvo, resultado em achados condizentes com a sua aplicabilidade como recurso de ensino.










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