Introdução
O Programa de treinamento em pesquisa médica surgiu nos Estados Unidos, em 1956. A Faculdade de Medicina da Case Western Reserve University foi precursora na formação de médicos pesquisadores através desse programa, que permite intercalar a graduação em medicina com o doutorado na área da saúde. Por meio dessa formação médica, que proporciona a exposição precoce do graduando ao ambiente de pesquisa avançada, são formados jovens médicos pesquisadores, “clinician-scientists”, o profissional MD/PhD.
MD é a abreviação da expressão “Doctor of Medice”, derivada do latim “Medicinae Doctor”, e corresponde à graduação/diplomação na faculdade de medicina. Já PhD, abreviação também derivada do latim “philosophiae doctor ou doctor philosophiae”, é o grau de instrução correspondente a um doutorado, tipicamente, conferido por algumas universidades internacionais, como as dos Estado Unidos e da Inglaterra. Juntas essas siglas referem-se ao programa de treinamento médico, foco do presente trabalho.
Os programas de Doutor em Medicina (MD)/Doutor em Filosofia (PhD) foram estabelecidos nas escolas médicas norte-americanas para melhorar o recrutamento para a medicina acadêmica. Trata-se de uma alternativa para os graduados em medicina que desejam seguir uma carreira de pesquisa com treinamento científico combinada com a prática clínica. Essa abordagem não só fornece a eles o vínculo com a pesquisa e a academia, como também, aprimora as habilidades clínicas do pesquisador.
Graças à sua dupla experiência, esses médicos participam de atividades de pesquisa, e, portanto, desempenham um papel decisivo no desenvolvimento de inovações clínicas para o benefício dos pacientes. Eles são uma espécie rara: seu número exato é difícil de definir.
E sem a intenção de apresentar um rol exaustivo e/ou realizar um julgamento classificatório ou meritocrático, o presente artigo tem o objetivo de apresentar algumas ocorrências do Programa MD/PhD de forma global, lançando o olhar sobre os feitos de sua implementação em outros países, subsidiando reflexões para a experiência brasileira.
Metodologia
A partir do artigo científico “The combined medical/PhD degree: a global survey of physician-scientist training programmes” (ALAMRI, 2016), “O grau combinado de medicina/doutorado: uma pesquisa global de programas de treinamento médico-cientista”, publicado em 2016, no Clinical Medicine Journal, buscamos papers e sites institucionais, através do Portal de Periódicos da Capes e buscas online, para ampliar e atualizar o tema da difusão do MD/PhD pelo mundo.
Para busca de fonte bibliográfica no Portal de Periódicos da Capes e no Google, utilizamos a expressão “MD/PhD program”, de maneira isolada e associada a nomes de continentes, países e universidades. Nesse sentido, faz-se importante salientar que buscas com a utilização de outras expressões ou nomenclaturas como “Physician Scientist training”, podem resultar em resultados distintos e/ou complementares a escopo aqui apresentado.
A nível nacional, adotamos como referencial principal o artigo “An MD-PhD program in Brazil: students concepts of science and of common sense” (OLIVEIRA; CAMPOS; MOURAO, 2011), “Programa de doutorado no Brasil: conceitos de ciência e senso comum dos estudantes”, além de dados relativos ao contexto atual do MD/PHD no Brasil, para os quais, foram utilizados relatórios analíticos de acompanhamento de bolsas, em formato .xlsx, fornecidos pela Coordenação de Programas de Indução e Inovação da Capes. Os relatórios foram disponibilizados em março de 2020, após solicitação formal via ofício, e fazem referência ao financiamento do programa até dezembro de 2019.
Resultados
A ideia de fornecer qualificação científica e clínica simultâneas e o objetivo de formar profissionais de alto nível para dupla atuação na área médica são pontos em comum entre os programas MD/PhD pelo mundo. A partir dos anos 2000 esse programa sofreu uma significativa expansão, alcançando todos os cinco continentes. Mais adiante apresentamos alguns exemplos de país e instituições envolvidos na oferta MD/PhD pelo mundo.
Américas
Além do Brasil, nas Américas, encontramos relatos de MD/PhD no México, no Canadá e nos Estados Unidos da América (EUA), sendo este último o berço do programa e a referência mundial na oferta de vagas, no número de instituições de ensino superior envolvidas com MD/PhD e nas publicações científicas sobre o tema.
O MD/PhD surgiu nos EUA, na Case Western Reserve University (CWRU) em 1956, e em 1964, o National Institutes of Health (NIH) começou a apoiar os programas de MD-PhD em três escolas médicas por meio do Programa de Treinamento de Cientistas Médicos. Atualmente, o programa se difundiu e são mais de 120 universidades e escolas de medicinas por todo o país. No cenário norte americano, duas instituições são destaques quando se trata do programa de treinamento de médicos cientistas, o National Institutes of Health (NIH) e a Association of American Medical Colleges (AAMC).
O NIH é uma agência de pesquisa médica, do Departamento de Saúde e Serviços Humanos dos Estados Unidos, que trabalha para fazer descobertas importantes para saúde e para a preservação de vidas. Por meio de parcerias com escolas de medicina, essa associação, investe na motivação e no financiamento de médicos cientistas, e uma de suas linhas de ação trata diretamente da formação MD/PhD.
Uma vez que o NIH não concede graus de MD ou PhD, este programa é afiliado a escolas médicas parceiras nos Estados Unidos durante a fase de treinamento do aluno em MD, e as universidades parceiras nos Estados Unidos e em outros países durante a fase de PhD de treinamento do estudante. (NIH MD PHD PARTNERSHIP TRAINING PROGRAM, 2020 s/p).
Para a ingressar no MD/PhD, os estudantes podem se inscrever por meio de uma dessas modalidades: Track 1: antes de ingressar na faculdade de medicina, ou Track 2: após ingressar na faculdade de medicina.

Fonte: O autor, adaptado de NIH MD PHD Partnership Training Program ([20--?])
Figura 1 Estrutura MD/PhD do National Institutes of Health (NIH)
Em qualquer uma das alternativas, o estudante necessita ter desempenho acadêmico excepcional nos dois primeiros anos da graduação médica (MD) para entrar no programa MD/PhD da NIH. Depois de quatro anos no treinamento para médico cientista (PhD), o estudante retoma à graduação médica por mais dois anos e consegue, assim, a dupla titulação.
Já a AAMC, que foi fundada em 1876, é uma associação sem fins lucrativos dedicada a transformar a assistência à saúde por meio da educação médica, assistência ao paciente, pesquisa médica e colaborações da comunidade.
Os programas de MD-PhD oferecem treinamento em medicina e pesquisa. Eles são projetados especificamente para aqueles que desejam se tornar médicos pesquisadores, também conhecidos como physician-investigators ou physicianscientists. Graduados de programas de MD-PhD frequentemente passam a se tornar membros do corpo docente em escolas de medicina, universidades e institutos de pesquisa. (ASSOCIATION OF AMERICAN MEDICAL COLLEGES, 2020, s/p).
Conforme disposto no site institucional da AAMC, 123 instituições, distribuídas por 44 estados estadunidenses e mais 13 instituições canadenses são associadas e adotaram o MD/PhD na sua grade curricular.
O cronograma para o treinamento de MD-PhD da AAMC, em geral, segue o mesmo fluxo do NIH de oito anos, dividido em três estágios: dois anos de MD; quatro anos de PhD e mais dois anos de MD (2-4-2). Esse esboço geral pode variar com cada Programa de MD-PhD:
a) Estágio 1: Dois anos de faculdade de medicina quando os conceitos básicos da ciência são dominados;
b) Estágio 2: O trabalho do curso de pós-graduação - realização e defesa da tese. Requisito completo para o grau de doutor - PhD e
c) Estágio 3: Treinamento clínico para preparar o aluno para residência, requisitos para o grau de MD.
Na América do Norte, como um todo, o programa MD/PhD é ofertado em seus três países, a saber: Estados Unidos, Canadá e México, em sistemas bem semelhantes.
Segundo a Clinician Investigator Trainee Association of Canada (CITAC), que representa os interesses dos estudantes registrados nos programas de treinamento de investigadores clínicos do Canadá, incluindo o MD/PhD, 17 grandes universidades oferecem essa oportunidade de titulação na sua grade curricular e elas estão distribuídas em oito das dez províncias que compõem o país.
Em um artigo publicado em 2016, os programas canadenses de MD/PhD foram avaliados. Em junho de 2015, estudantes e diretores se manifestaram a respeito da estrutura, do financiamento, das aulas e do esquema de orientação disponíveis nos programas. Como resultados foram encontrados formatos flexíveis dos programas quanto ao início das atividades, financiamento e à orientação, sendo que “tanto os trainees quanto os diretores do programa, identificaram a necessidade de mais planejamento da carreira e apoio ao desenvolvimento como uma prioridade do aluno.” (JONES et al., 2016, p. 132).
No México, a Universidad Nacional Autónoma do México (Unam) e a Escuela de Medicina y Ciencias de la Salud (TecSalud) ofertam o MD/PhD. Nesta:
o programa de MD PhD visa preparar indivíduos treinados para o ensino e a pesquisa no campo da medicina. Os graduados deste programa devem ser capazes de gerar novos conhecimentos de forma independente, ou aplicá-los de forma original e inovadora. (ESCUELA DE MEDICINA Y CIENCIAS DE LA SALUD, 2020, s/p).

Fonte: ESCUELA DE MEDICINA Y CIENCIAS DE LA SALUD - TecSalud (2020)
Figura 2 Estrutura MD/PhD da Escuela de Medicina y Ciencias de la Salud (TecSalud)
Apesar da coincidência das etapas formativas, o curso MD/PhD na TecSalud é mais longo, são 11 anos: quatro anos de formação médica inicial, seguida pela formação científica de quatro anos, o PhD, e por último mais três anos para conclusão da graduação.
Até a data de realização deste estudo, na América do Sul, o único país que adotou, ainda que timidamente, o MD/PhD como parte da estrutura da educação médica superior, foi o Brasil.
No Chile, por exemplo, em 2017, o Dr. Miguel Concha escreveu sobre o MD/PhD e citou o Brasil como único país ibero-americano a adotar o programa de treinamento em pesquisa médica: “Até onde conhecemos, nenhuma universidade ibero-americana desenvolve este modelo com exceção da Federal de Rio Janeiro”, e, realmente, a UFRJ foi a porta de entrada do MD/PhD no Brasil.
Em 1995, em um desafio à rígida estrutura acadêmica das universidades brasileiras, a UFRJ deu início a um programa pioneiro de MD-PhD. O objetivo era formar médicos que também tivessem sucesso em laboratório. Na fase piloto, 6 alunos de medicina ingressaram na pós-graduação em bioquímica no último ano do curso de medicina. (OLIVEIRA; CAMPOS e MOURAO, 2011, p. 1106).
A partir de 2008, esse treinamento médico começou a receber apoio governamental através da concessão de bolsas de doutorado durante todo o período de formação PhD. O Programa de Bolsa Especial - Doutorado em Pesquisa Médica (PBE-DPM), fomentado pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) já promoveu dois editais de chamamento para a formação MD/PhD com a oferta de mais de 150 bolsas de doutorado.
Poderão ser concedidas bolsas de doutorado a discentes de graduação em medicina, desde que matriculados em Instituição de Ensino Superior que tenha oficialmente estabelecido um programa acadêmico que vincule o treinamento científico de graduandos ao seu ingresso no doutorado. (CAPES, 2014, s/p).
Em dezembro de 2019, foram contabilizada no país, 8 Instituições de Ensino Superior (IES), 19 Programas de Pós-Graduação (PPG) e um total de 97 beneficiários de bolsa, e mais 34 médicos titulados.
No Brasil, o estudante de medicina começa o programa MD/PhD a partir do quinto ano da graduação, tem 48 meses para a conclusão do doutorado, depois retoma as atividades da graduação para adquirir a prática clínica.
Europa
O Reino Unido, mais especificamente a Universidade de Cambridge, foi o precursor do MD/PhD na Europa. Desde 1989, esse movimento foi se fixando no Reino Unido e se expandido pelas universidades europeias. Citamos aqui, além da Universidade de Cambridge, a Escola Inserm Liliane Bettencourt, na França; a Universidade de Basel, na Suíça; a Universidade do Minho, em Portugal; a Universidade Helsinque, na Finlândia e a GeorgAugust Universität Göttingen, na Alemanha.
Por possuir mais de 30 anos de tradição no MD/PhD, o Reino Unido já firmou uma estrutura mais consolidada com o alcance de padrões de excelência na formação e na publicação científica. Em uma pesquisa realizada em 2015 - “The Cambridge Bachelor of Medicine (MB)/Doctor of Philosophy (PhD): graduate outcomes of the first MB/PhD programme in the UK”, encontramos relatos de alto índice de publicação em periódicos científicos, indicações para prêmios nacionais e internacionais, além de significativo número de doutores que continuaram as pesquisas e/ou tomaram posse em cargos acadêmicos. Em Cambridge, a formação MD/PHD, normalmente:
se estende por nove anos a partir da matrícula. Três anos de pesquisa em tempo integral são integrados ao curso clínico padrão de graduação, que combina um programa pré-clínico que se concentra nas ciências médicas básicas; um terceiro ano obrigatório conducente ao bacharelado; e um curso clínico com ênfase na vinculação do conhecimento com habilidades clínicas, práticas e de comunicação e desenvolvimento atitudinal e profissional. (COX, et al.,2012, p. 530).
E em contraponto à Inglaterra, outros países europeus iniciaram a experiência MD/PhD mais recentemente.
Na França, o programa MD/PhD começou na Escola Inserm Liliane Bettencourt, em 2003, e logo se espalhou por outras universidades francesas, “Eles são amplamente inspirados pelos diplomas duplos de MD/PhD da América do Norte.” (SCHERLINGER et al., 2018, p. 466 - tradução nossa) e apresentam a seguinte estrutura:
A partir do segundo ano de medicina, os alunos selecionados seguem cursos básicos específicos (biologia, química, matemática, física) paralelamente aos estudos médicos. Também realizam estágios prolongados em laboratórios (quatro a seis meses ao longo de dois anos). Este curso, sancionado por avaliações, permite obter uma equivalência de Mestre científico 1 (M1) ao final do terceiro ano de estudos médicos. A formação científica precoce e multidisciplinar abre o acesso a uma ampla escolha de disciplinas de mestrado. O Master 2 (M2) é preparado durante um ano sabático entre o primeiro e o segundo ciclo médico. No final do M2, os alunos podem escolher entre dois caminhos:
- faixa 1: retomada dos estudos médicos; o doutorado em ciências é então diferido e realizado durante a interrupção do terceiro ciclo médico;
- faixa 2: a interrupção do curso de medicina é estendida para a realização de trabalhos de pesquisa necessários à obtenção do doutorado científico; o retorno aos estudos médicos (início do segundo ciclo) ocorre então, uma vez obtida a tese. (SCHERLINGER et al., 2018, p. 466 - tradução nossa).
Na Suíça, a Universidade de Basel, em parceria com o Instituto Friedrich Miescher de Pesquisa Biomédica (FMI), desde 2016, ofertam e financiam o “treinamento interdisciplinar em pesquisa básica e acesso a tecnologias de ponta” (EUROPEAN COMMISSION, 2019), e para ingressar no programa é exigido um diploma em medicina ou uma aprovação:
No programa FMI Internacional MD/PhD, médicos com interesse em pesquisa científica fundamental trabalham em conjunto com cientistas internacionalmente reconhecidos nas áreas de epigenética, neurobiologia e biologia quantitativa, desenvolvendo um projeto de pesquisa com seu líder de grupo. (EUROPEAN COMMISSION, 2019, s/p - tradução nossa).
Nessa parceria, o curso PhD dura 4 anos e os candidatos selecionados recebem bolsa integral, com benefícios sociais.
Em 2006, Portugal começou sua primeira experiência com o MD/PhD através da Universidade do Minho. Seu intuito foi o de oferecer uma “oportunidade única e alternativa para os estudantes de medicina se envolverem formalmente em pesquisas biomédicas / clínicas no início de suas carreiras” (UNIVERSITY OF MINHO, 2018, s/p - tradução nossa). Como estrutura foi adotado o esquema 5+3+2, ou seja, 10 anos de formação:
os alunos de MD/PhD interrompem o curso de graduação em medicina no final do 5º ano e iniciam o programa de doutorado. Durante três anos, eles desenvolvem sua tese de doutorado. Depois disso, os alunos são reintegrados ao curso de medicina e concluem o sexto e último ano do curso médico. (UNIVERSITY OF MINHO, 2018, s/p - tradução nossa).
Outro exemplo europeu é a Universidade de Helsinque, na Finlândia. Lá, é permitido que os alunos comecem o programa de treinamento em pesquisa médica logo após o primeiro ano de estudo, com o acompanhamento de “dois tutores professores e um a dois tutores alunos” (UNIVERSITY OF HELSINKI, 2019).
O programa MD PhD é implementado em colaboração com as escolas de pósgraduação e programas de doutorado do Campus Meilahti. O programa é coordenado pelos Serviços de Ensino e Aprendizagem em colaboração com o grupo de orientação do programa de MD PhD (presidido pelo Professor Antti Mäkitie). (UNIVERSITY OF HELSINKI, 2019, s/p - tradução nossa).
Os alunos da graduação trabalham em grupos de pesquisa por um total de três (3) meses durante cinco verões. O financiamento dos cursos de verão dos alunos é feito pelo corpo docente participante do projeto, depois a universidade oferece mais 18 meses de financiamento para conclusão do doutorado.
Em parceria com vários departamentos do Instituto Max Planck, com o Centro Primata Alemão, com o German Excellence Initiative e com o European Neuroscience Institute Göttingen, a Georg-August University School of Science (GAUSS) é uma das universidades alemãs que também possuem MD/PhD na sua grade curricular:
O programa está aberto a alunos da Alemanha e do exterior que possuem um diploma de bacharel (ou grau equivalente) em biociências, psicologia, medicina, física ou áreas relacionadas. Todos os cursos são ministrados em inglês (GAUSS, 2019, s/p - tradução nossa).
Nessa universidade alemã, a formação do médico pesquisador segue com um primeiro ano intenso de imersão em atividades de pesquisa, depois, a depender dos resultados, os alunos podem optar por um destes dois caminhos:
Programa de Doutorado: Resultados bons a excelentes após o primeiro ano qualifica para admissão direta a um projeto de doutorado de três anos em um dos grupos de pesquisa participantes. O requisito de tese de mestrado é dispensado. Após a defesa com êxito de uma tese de doutorado, é conferido o grau de Doutor em Filosofia (PhD) ou o título equivalente Doctor rerum naturalium (Dr. rer. Nat.). Os alunos que concluíram a Faculdade de Medicina antes de entrar no programa podem se inscrever para um título de MD-PhD.
Programa de mestrado: Alternativamente, os alunos podem concluir o programa com uma dissertação de mestrado, baseada em seis meses de pesquisa científica experimental. O grau de Mestre em Ciências (MSc) é concedido após a conclusão da tese de mestrado. (GAUSS, 2019, s/p - tradução nossa).
Além da capilarização e dos ótimos resultados do MD/PhD, a Europa chama a atenção pela Europian MD/PhD Association (EMPA). Essa associação fundada, gerida e destinada aos estudantes MD/PhD europeus foi criada em 2015 e objetiva:
Formar uma rede científica em que se estimule a cooperação, a troca de conhecimentos e a troca de estudantes entre centros de investigação.
Para formar uma rede social, onde conexões entre organizações de MD/PhD, pesquisadores e candidatos a MD / PhD em particular podem ser feitas.
Dar peso político à voz dos candidatos a MD/PhD na Europa e em cada país conectado individualmente.
Formar um órgão jurídico ao qual possam ser feitas contribuições financeiras para a consecução dos objetivos mencionados. (EMPA, 2019, s/p).
O site institucional da associação oferece uma enorme variedade de ferramentas e dicas para os estudantes, desde eventos e cursos a oportunidades de bolsa, além de uma lista de inspiração de profissionais titulados pela estrutura MD/PhD que são destaques em suas áreas de atuação. Outro ponto interessante é o mapeamento dos programas MD/PhD na Europa, além dos países já citados nesse trabalho é possível observar que outras nações como a Holanda, a Itália, a Áustria, a República Tcheca e a Croácia também possuem o programa de treinamento em pesquisa médica.
África
Tratar de saúde e de profissionais da saúde na África é tocar em um tema sensível. Esse continente concentra a maior porção de doenças e povos negligenciados do planeta. Nesse contexto, “o aumento da capacidade de pesquisa clínica é essencial para o bem-estar de sua crescente população e para o desenvolvimento como um todo” (KATZ; MAYOSI, 2014, p. 111).
Quase não encontramos referências sobre a ocorrência do MD/PHD na África, sendo a nossa fonte de relato o artigo “The intercalated BSc (Med) Honours/MB ChB and integrated MB ChB/PhD tracks at the University of Cape Town: Models for a national medical student research training programme” - “Os cursos intercalados de BSc (Med) Honors/MB ChB e MB ChB / PhD integrados na Universidade da Cidade do Cabo: Modelos para um programa nacional de treinamento em pesquisa para estudantes de medicina”, publicado em 2014 no Jornal Médico da África do Sul, e disponível para livre acesso através da SciELO.
Esse trabalho relata a experiência do MD/PHD como um esforço conjunto entre o governo, a universidade e o setor privado da Cidade do Cabo, para aumentar o número de cientistas clínicos através da introdução de treinamento em pesquisa nos níveis de graduação e pós-graduação.
Nas turmas de medicina, a oportunidade de ingressar no MD/PhD é oferecida aos melhores alunos, que iniciam o programa com um ano de medicina molecular concomitante ao terceiro ano da graduação. São oferecidos cursos “teóricos e práticos, bem como técnicas básicas de laboratório bioquímico e molecular, com resultados equivalentes a um bacharelado”. (KATZ; MAYOSI, 2014, p. 112). Depois, os alunos passam por uma etapa de estudos clínicos exclusiva do programa MD/PhD e por mais etapa de “Honras” que os preparam para dissertações de mestrado ou doutorado em laboratório.
Ásia
Dos 50 países que compõem o Continente Asiático, abordamos as particularidades do MD/PhD na China, na Coreia do Sul, na Índia, no Japão e em Singapura.
De maneira diferenciada, na China, as universidades Shandong University, Shanghai Jiao Tong University School of Medicine e Tongji University oferecem o MD/PhD em formato de intercâmbio. Após o 2º ano da faculdade de medicina, os estudantes podem receber o treinamento em pesquisa médica nos Estados Unidos, mais especificamente na University of Nebraska Medical Center (UNMC), por 4 ou 5 anos, para a obtenção do título de PhD, em seguida a formação MD é completada por mais 2 anos de estudos e práticas clínicas na China, para obtenção do diploma MD.
É um programa integrado com treinamento em medicina clínica e pesquisa científica entre algumas instituições chinesas selecionadas (MD) e UNMC (PhD). Este programa conjunto de educação médica em pesquisa médica ajudará a atender à necessidade de melhor atendimento médico chinês, profissionais de saúde de maior qualidade e melhores produtos médicos para o povo da China neste novo século. (UNIVERSITY OF NEBRASKA MEDICAL CENTER, 2020, s/p).
Em uma estrutura recente, pensada desde 2008, o Departamento de Ciências Biomédicas, da Escola de Graduação da Universidade Nacional de Seul, na Coreia do Sul, encarou o MD/PhD como uma ferramenta para fortalecer a pós-graduação em ciências médicas e para produzir inúmeros cientistas biomédicos de destaque e visibilidade mundial.
O Ministério da Educação coreano, que buscava o uso eficaz de talentos médicos, finalmente adotou o programa conjunto de MD/PhD ... para produzir mais cientistas médicos do que apenas clínicos. O programa de MD/PhD permite que os alunos concluam os graus de MD e PhD durante o curso de estudos da escola de pósgraduação em medicina; é composto pelos primeiros 2 anos de medicina básica, 3 ~ 4 anos de programa de doutorado e os próximos 3 ~ 4 anos de cursos de medicina clínica, seguidos de graduação com ambos os graus de MD e PhD. (SEOUL NATIONAL UNIVERSITY, 2014, s/p).
No caso da Índia, existe uma explícita vinculação da implementação do MD/PhD com questões do desenvolvimento econômico-social do país, tendo em vista o êxito da implementação em países desenvolvidos como Estados Unidos e Inglaterra.
O lançamento do programa de PhD/MD também é economicamente viável para países em desenvolvimento como a Índia, que precisa desenvolver médicos de cuidados de qualidade com base no histórico de pesquisas do que pesquisadores de qualidade com base em conhecimentos médicos sólidos. (ANAND; RAO, 2013, p. 85)
O “Conselho Indiano de Pesquisa Médica (ICMR), de Nova Delhi, o órgão máximo na Índia para a formulação, coordenação e promoção da pesquisa biomédica” (ICMR, 2019) é responsável pela implementação e regulação do MD/PhD. No início do processo, o estudante de medicina deve passar por um exame a nível nacional e são escolhidos 25 estudantes por ano para participar do programa em um dos três centros parceiros: King George's Medical University (KGMU), National Institute of Mental Health and Neuro Science (NIMHANS) e Ramachandra University (SRI). O conselho fornece apoio total por 5 anos aos candidatos selecionados com o financiamento de bolsas e subsídios.
No Japão, a Escola de Medicina da Universidade de Hokkaido visa “desenvolver aspirantes a pesquisadores em medicina básica que sejam capazes de responder aos rápidos avanços da medicina e da assistência médica, e às mudanças sociais” (HOKKAIDO UNIVERSITY, 2020, p.??). No Programa MD/PhD japonês, assim como na experiência brasileira, os alunos de medicina do 5º ano têm a oportunidade de ingressar no MD/PhD com apoio financeiro para subsidiar as suas pesquisas:
Ao total são dez anos de formação. Ao final do 5º ano da graduação de medicina começa o ciclo do PhD, sendo que o 6º ano é dedicado ao treinamento inicial do médico pesquisador.
Nos próximos três anos, o aluno deve se dedicar aos projetos de doutorado, e, por fim, no 10º ano, o discente volta para a fase final da graduação de medicina, que ordinariamente corresponde ao 7º ano dos graduandos regulares.
A Estrutura do MD/PhD ofertado pela Duke-NUS Medical School, em parceria Universidade de Singapura, é mais curta que a estrutura acima, sendo apenas sete anos de formação:
Nesse arranjo (2+4+1), os estudantes MD/PhD devem indicar sua intenção de participar do programa na matrícula da graduação, e, ao fim do 2º ano de MD, entre 15% e 20% dos discentes conseguem uma vaga para o programa. Todos recebem bolsa integral até a obtenção da dupla titulação.
E na fronteira continental também encontramos relatos da experiência do MD/PhD em países euroasiáticos, como a Turquia:
A Hacettepe University, Faculdade de Medicina oferece (MD/PhD) programa comum pela aplicação da Lei 15273 do Conselho de Educação Superior em 15 de julho de 2003. Este programa começou a ser realizado no ano letivo de 2003-2004. Este programa é um programa especial cujo programa de pós-graduação em ciências básicas e clínicas está integrado à educação padrão. Os alunos que se destacam recebem diplomas de médico e doutor em filosofia ao se formarem nesta instituição. (HACETTEPE UNIVERSITY, 2003, s/p).
Oceania
Neste continente da Oceania, tanto a Austrália como a Nova Zelândia já possuem cursos MD/PhD, sendo que:
na Austrália, não existe uma abordagem nacional para o treinamento clínicocientífico, seja nos anos de graduação ou pós-graduação. Não há um caminho claro para o treinamento de pesquisa de grau superior para estudantes de medicina (ELEY, 2018, p. 2).
Assim, as universidades possuem autonomia para compor a sua grade curricular. A exemplo de instituições australianas que oferecem o MD/PhD, encontramos a Universidade de Auckland, a Universidade de Sydney, a Universidade de Queensland e Universidade Monash.
Na Universidade de Queensland, o médico pesquisador ingressa em um sistema formativo chamado de Clinician-Scientist Track (CST) e pode seguir o caminho de especialização a nível de mestrado ou de doutorado com estudos complementares e concomitantes à graduação de medicina:

Fonte: O autor (2020), adaptado de Monash University (2020a)
Figura 6 Estrutura MD/PhD da Universidade de Queensland
Na Universidade Monash, o MD/PhD ganha a nomenclatura de MBBS/MD/PhD e possui o seguinte fluxo:
A 1ª opção descrita no fluxo da Figura 7, pela seta azul, é a graduação em medicina com 5 anos de duração, MBBS.

Fonte: O autor (2020) adaptado de Monash University (2020a)
Figura 7 Estrutura MD/PhD da Universidade Monash
O 2º caminho, a seta verde, é a associação da graduação em medicina, o MBBS, com o bacharelado em ciências médicas com honras, BMedSc (Hons). Aqui, o estudante interrompe a graduação, no 3º ou 4º ano, para cursar dois semestres de bacharelado e depois retoma a graduação médica. No bacharelado em ciências médicas, o estudante:
realizará treinamento em metodologia de pesquisa e realizará um projeto de pesquisa independente sobre o tópico selecionado, trabalhando em estreita colaboração com um supervisor que fornecerá orientação individual e aconselhamento acadêmico. (MONASH UNIVERSITY, 2020b, s/p).
Por fim, a terceira alternativa, a seta vermelha, corresponde ao MBBS/MD-PhD. Após o bacharelado, são mais 2 anos de doutoramento com defesa de tese, para finalmente retomar a graduação e completar os estudos para a dupla titulação.
E seguindo o mesmo modelo formativo, a Universidade de Otago, na Nova Zelândia, permite “em circunstâncias excepcionais, que um estudante de medicina faça o upgrade de um BMedSc (Hons) para o MBChB/PhD intercalado” (UNIVERSITY OF OTAGO, 2020).
Considerações Finais
O programa MD/PhD é sem dúvida uma estrutura diferenciada no padrão da educação médica superior com abrangência global que está associada ao desenvolvimento econômico e social dos países, bem como à formação de profissionais de alto nível.
Como destaque, observamos que diferentes artigos científicos e sites institucionais trazem alguns pontos comuns ao abordar o Programa MD/PhD:
a) Uma das principais motivações para a implementação do MD/PhD foi a identificação de obstáculos que são, em grande parte, resultado da insuficiente articulação entre a formação médica e científica;
b) Por vezes, o programa é considerado uma ferramenta de estímulo à formação de profissionais para dupla atuação: clínica e pesquisa;
c) Tem havido um interesse crescente pela implementação do programa;
d) A maioria dos programas são inspirados nos programas de MD/PhD de renomadas universidades dos Estados Unidos;
e) É recorrente as parcerias com associações de institutos para o financiamento dos estudantes;
f) Somente estudantes com alto desempenho conseguem essa oportunidade e
g) Como resultado desse programa, encontra-se a excelência na formação profissional.
No Brasil, assim como em países de recente implementação, o programa ainda carece de estudos sobre os impactos do MD/PhD.
A observação das características e peculiaridades do MD/PhD nos diferentes continentes e países do mundo nos permite vislumbrar algumas ferramentas que podem ser utilizadas para o fortalecimento e a expansão do programa no Brasil. Como exemplo, citamos as associações criadas e geridas por estudantes MD/PhD e o modelo de formação com intercâmbio para universidades de destaque internacional.
Assim como acontece na Europa e no Canadá, a criação de uma associação pode fortalecer o programa MD/PhD no Brasil. Aparentemente, a associação trabalha para capilarização do programa buscando parcerias com universidades nacionais e internacionais, divulga ações de valorização dos profissionais com essa formação e trabalha para a constante oferta de financiamento. No Brasil, os números envolvidos no MD/PhD são tímidos ao se observar o Sistema Nacional de Pós-Graduação (SNPG) como um todo. Ademais, o último edital de fomento para esse programa data de 2014 e não há indícios de novas chamadas para apoiar o MD/PhD no país.
O intercâmbio adotado na China nos parece uma excelente oportunidade de acesso a novos conhecimentos e experiências, com a possibilidade de formação de redes de pesquisa e colaboração, fortalecimento da internacionalização no SNPG e possíveis fontes de financiamento.
Acreditamos que investir no programa MD/PhD é avançar no combate ao desinteresse dos estudantes de medicina pela pesquisa científica, ao mesmo tempo que é um meio de fortalecer a educação médica superior no que tange à formação de profissionais de excelência e produtivos científicamente.










texto em 






