INTRODUÇÃO
O distanciamento social exigido pela pandemia de COVID-19 promoveu o uso da expressão “híbrido/a”, misturando-se a outras como Educação a Distância, Ensino semipresencial, Blended Learning e Ensino remoto. O uso sem distinção desses termos, mesmo na educação, tornaria importante o exame de aproximações, distanciamentos e implicações em relações às demais expressões similares na área educacional.
Para explorar características e questões que podem ser associadas ao “Ensino Híbrido” ou “Educação Híbrida”, seria importante diferenciar os termos correntes que, por diversas vezes, carregam grandes semelhanças entre si (ROZA; VEIGA; ROZA, 2018). Nesse sentido, este artigo apresenta uma pesquisa bibliográfica sobre a presença e as concepções de Ensino Híbrido em regulamentações e na literatura acadêmica brasileira, considerando aproximações e distanciamentos com outras expressões similares.
Para a realização da investigação de caráter exploratório, as pesquisadoras recorreram a autores da área de educação e tecnologia e portarias do Ministério da Educação. O ponto de partida foi a consulta ao “Dicionário de Crítico de Educação e Tecnologias e de Educação a Distância” (MILL, 2018), referência na área por reunir autores de referência nos assuntos copilados. Além de apontar expressões que pudessem ser usadas na busca, o dicionário contribuiu com recomendações de livros a partir de verbetes.
Em seguida, foram identificados e definidos os seguintes termos para a busca no Google Acadêmico, realizada em março de 2022: “Blended Learning”, “Ensino Híbrido” e “Ensino Remoto”. O recorte de busca foi o período intenso de pandemia (2020 e 2021), ordenados por relevância, de páginas em português e apenas resultados relacionados a artigos de revisão. Cabe justificar a escolha pela busca dos sintagmas em inglês Blended Learning pela sua ampla utilização no meio acadêmico brasileiro e, os termos Hybrid Learning e Remote Learning, pela presença de referências estrangeiras, em especial de língua inglesa, nas publicações nacionais.
O resultado das buscas e filtragens encontra-se no quadro abaixo. Inicialmente, foram levantados artigos em qualquer idioma. Diante do grande volume, optou-se por filtrar artigos em língua portuguesa, também para se obter um recorte mais nacional.
Conforme exibe a Tabela 1, para cada expressão, os dez primeiros resultados de busca foram selecionados para leitura do resumo e das conclusões/considerações finais. Então, um grupo de artigos foi composto para análise na íntegra (última coluna do Tabela 1), tendo como critério de seleção oferecerem discussão no âmbito da Educação Superior. Assim, do total de dezenove artigos analisados na íntegra, dez foram selecionados para compor a discussão dos termos. Além desses artigos levantados pelo Google Acadêmico, foram utilizados livros de autores referência na área de Educação e tecnologia para análise das expressões e discussão neste artigo.
Tabela 1 – Número de resultados encontrados para os sintagmas pesquisados e os considerados no estudo
| Termos | Resultados em qualquer idioma | Em páginas em português | Analisados o resumo e conclusões | Análise na íntegra |
|---|---|---|---|---|
| Blended Learning | 2.220 | 76 | 10 | 4 |
| Hybrid Learning | 577 | - | - | - |
| Remote Learning | 835 | - | - | - |
| Semipresencial* | - | 46 | 10 | 5 |
| Ensino Híbrido | - | 92 | 10 | 4 |
| Ensino Remoto | - | 106 | 10 | 6 |
| TOTAL | 3632 | 300 | 40 | 19 |
| *Foram considerados todos os resultados obtidos para o termo semipresencial, independente do ano de publicação. | ||||
Fonte: Elaborada pelas autoras a partir de consulta ao Google Acadêmico em 16 jan. 2022.
Um outro movimento de pesquisa foi identificar o alcance e o interesse por algumas dessas expressões pelo mundo recorrendo à plataforma Google Trends. “Lançado em 2006 e disponível em dezenas de países, o Google Trends é uma ferramenta capaz de mostrar palavras, termos, expressões e assuntos mais pesquisados no principal buscador da internet” (TEC MUNDO, 2022), confirmando o interesse dos internautas por definições e características dessas expressões que pudessem dar a compreender e, mesmo, contribuir com a formulação de práticas na educação, conforme apontam alguns gráficos e mapas da sessão a seguir.
INTERESSE PELAS EXPRESSÕES NO BRASIL E NO EXTERIOR
Na plataforma Google Trends, foram conduzidas buscas pelas expressões em inglês Blended Learning, Remote Learning, Hybrid Learning e, em português, Ensino Remoto, Ensino Híbrido e Semipresencial relativas ao ano de 2020. Foi possível identificar que há uma preferência de uso de um termo sobre outro em certas regiões ou países, conforme é possível visualizar nos mapas gerados pela plataforma e reproduzidos a seguir. Naquele ano, também surge o interesse pela expressão Ensino Remoto, em meio a outras já conhecidas no meio especializado.
Na Figura 1, é possível verificar que o termo Remote Learning predomina nos EUA, Canadá, Austrália, Reino Unido e China. Já o termo Blended Learning lidera na maior parte do território asiático e da Europa, além de vários países africanos, enquanto o Semipresencial está localizado na América Latina e Espanha. Finalmente, o Hybrid Learning não aparece no mapa por sua menor representatividade, porém, analisado isoladamente, destaca-se apenas na China e nos EUA.

Fonte: Reprodução, em março de 2022, a partir de https://trends.google.com.br/trends/explore?date=2020-01-01%202020-12-31&q=Hybrid%20learning,Remote%20learning,Blended%20learning,Semipresencial
Figura 1 – Mapa da presença dos termos Blended Learning, Remote learning, Hybrid learning e Semipresencial em 2020 no Google Trends.
No Brasil, a consulta no Google Trends foi realizada utilizando-se os termos em português Ensino Remoto, Ensino Híbrido e, também, o termo Semipresencial. Este último foi sugerido pela própria plataforma como sendo um termo relacionado aos outros que tinham sido incluídos na comparação, estando associado tanto a ensino quanto à modalidade. O termo em inglês Blended Learning foi incluído em função do uso bastante difundido em publicações da área educacional no país. No resultado obtido, no que tange à distribuição regional das consultas sobre as expressões, foi possível observar a predominância do Ensino Híbrido, no Tocantins apenas, enquanto o Ensino Remoto foi a expressão mais buscada no Acre, Roraima e Rondônia. O termo semipresencial aparece como mais popular no Amazonas, Paraná e São Paulo e o termo Blended Learning não apresentou um número de pesquisas por internautas que gerasse destaque em um comparativo geral.
Já na Figura 2, observando-se o interesse em cada um dos termos individualmente, Ensino Híbrido destaca-se no Tocantins, Maranhão e Alagoas, as três unidades da federação com maior número de pesquisas do termo. Já em relação ao Ensino Remoto, apesar do interesse geral, Paraíba, Roraima e Acre foram os estados com mais buscas, e, quanto ao termo semipresencial, despontam Pará, Amazonas e Paraná. As consultas ao termo Blended Learning foram significativas apenas no Ceará, São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. Ressalte-se que o local onde internautas mais procuraram o termo Blended Learning no país, em 2020 foi o estado do Ceará.

Fonte: Reprodução, em março de 2022, a partir de https://trends.google.com.br/trends/explore?date=2020-01-01%202020-12-31&geo=BR&q=Ensino%20H%C3%ADbrido,Ensino%20Remoto,Blended%20learning,Semipresencial
Figura 2 – Mapa do interesse no Brasil pela busca dos termos Ensino Remoto, Ensino Híbrido, Blended Learning e semipresencial
Além de exibir um maior interesse por um ou outro termo buscado no Google, a Figura 3 mostra que elas foram intensas nas regiões Norte e Nordeste do país, o que pode representar mais necessidade de informações a respeito nesses locais em comparação com outras regiões do país.

Fonte: Reprodução, em março de 2022, a partir de https://trends.google.com.br/trends/explore?date=2020-01-01%202020-12-31&geo=BR&q=Ensino%20H%C3%ADbrido,Ensino%20Remoto,Blended%20learning,Semipresencial
Figura 3 – Mapa comparativo do interesse no Brasil pela busca dos termos Ensino Remoto, Ensino Híbrido, Blended Learning e semipresencial
A plataforma também possibilita conhecer os principais temas das consultas relacionadas aos termos. No caso de Ensino Híbrido, as expressões mais utilizadas pelos internautas para buscar informações foram: “sistema híbrido de ensino” e “o que é ensino híbrido”. Em relação a Ensino Remoto, as buscas foram: “ensino remoto significado”, “ensino remoto emergencial”, “diferença entre ead e ensino remoto” e “o que significa ensino remoto”. Em relação ao termo semipresencial, a busca foi relacionada por um site de bolsas de estudo e, finalmente, no caso de Blended Learning a informação não estava disponível ou as buscas limitavam-se ao próprio termo.

Fonte: Reprodução, em março de 2022, a partir de https://trends.google.com.br/trends/explore?date=2020-01-01%202020-12-31&geo=BR&q=Ensino%20H%C3%ADbrido,Ensino%20Remoto,Blended%20learning,Semipresencial
Figura 4 – Interesse de pesquisa dos termos Ensino Híbrido, Ensino Remoto, Blended Learning e semipresencial no Google, no Brasil, em 2020.
A expressão Ensino Remoto apareceu como um termo frequente nas buscas do Google, no país, a partir do mês de abril de 2020, tendo como pico máximo o período de 04 a 10 de outubro daquele ano. De fato, o termo Ensino Remoto surge como uma resposta ao momento de pandemia em que as atividades presenciais foram suspensas e, portanto, inicia-se também o interesse e a necessidade de definir e compreender suas características e o quanto se aproxima e se distancia de outras formas de organização como a EaD, Blended Learning ou o Ensino Híbrido.
AUSÊNCIA E CONCEPÇÕES DE ENSINO HÍBRIDO
No Brasil, a expressão “semipresencial” há muito está relacionada à possibilidade de oferta e realização de processos de ensino e aprendizagem de forma articulada com uso de TDIC, sobretudo no Ensino Superior. A Portaria nº 2.253, de 18 de outubro de 2001, por exemplo, regulamentou a possibilidade de cursos superiores presenciais realizarem a “oferta de disciplinas, que em seu todo ou em parte, utilizem método não presencial” (BRASIL, 2001) e, ao ser substituída pela Portaria nº 4.059, de 10 de dezembro de 2004 (BRASIL, 2004), a expressão “método não presencial” deu lugar para “modalidade semipresencial”, significando a “mediação de recursos didáticos organizados em diferentes suportes de informação que utilizem tecnologias de comunicação remota”.
Na sequência, a Portaria nº1.134, de 10 de outubro de 2016, e as próximas que se seguiram, não fazem referência ao termo semipresencial ou semipresencialidade, passando a referir-se a esta prática como sendo cursos de graduação presenciais com “oferta de disciplinas na modalidade a distância”, em seguida, como “oferta de disciplinas com metodologia a distância” (Portaria nº1.428/2018) e, finalmente, “oferta de carga horária na modalidade de Ensino a Distância – EaD” (Portaria nº2.117/2019) (BRASIL, 2016, 2018, 2019).
A Figura 5 ilustra a sequência de Portarias desde os anos 2000 que seriam responsáveis pela regulamentação das atividades em cursos superiores presenciais.

Fonte: Elaborada pelas autoras a partir das Portarias (BRASIL, 2001, 2004, 2016, 2018, 2019).
Figura 5 – Sequência de Portarias que dispõem sobre carga horária a distância em cursos de graduação presenciais
Entende-se que as normativas que passaram a utilizar a expressão “modalidade a distância”, em vez de semipresencial, seriam mais coerentes com a legislação educacional como um todo, visto que existem apenas duas modalidades educacionais para o Ensino Superior, quais sejam – a modalidade presencial e a distância – desde a regulamentação do art. 80 da Lei nº 9.394/1996 (BRASIL, 1996). Dessa forma, o emprego do termo semipresencial era, pode-se dizer, inadequado e em desarmonia com outros textos legais.
A publicação de novas portarias em 20171 definiram o percentual máximo de 30% (trinta por cento) de carga horária presencial em cursos EaD e 40% (quarenta por cento) de carga horária a distância em cursos presenciais (BRASIL, 2018, 2019). Trata-se de um percentual que veio crescendo com o passar dos anos. Na Figura 6, pode-se comparar as principais alterações nas portarias que regulam atividades não presenciais em cursos superiores presenciais.

Fonte: Elaborada pelas autoras a partir das Portarias (BRASIL, 2001, 2004, 2016, 2018, 2019).
Figura 6 Principais alterações nas Portarias de regulamentação de práticas atividades não presenciais em cursos de graduação presenciais
No âmbito da regulação do Ensino Superior, o Ensino Semipresencial designava o deslocamento tempo-espacial que, na prática, significou a inserção de disciplinas ministradas com suporte e mediação de TDIC na sua totalidade ou em parte e, sendo entendida como a aplicação da possibilidade normatizada pelo arcabouço legal descrito.
É preciso destacar que a expressão “híbrido” não aparece nas principais Portarias do Figura 6, embora seja amplamente utilizada por Instituições de Ensino Superior, sobretudo privadas, e na literatura acadêmica da área, na qual a expressão “híbrido” e “semipresencial '' se misturam há algum tempo.
“[...] O ensino semipresencial também é conhecido como ensino híbrido ou misto porque abarca uma miríade de possibilidades: múltiplas combinações de abordagens e de métodos conforme as necessidades, circunstâncias e metas, uso de práticas comumente vistas em educação a distância (recursos multimídia, streaming vídeo, comunicação síncrona e assíncrona etc.), comunidades de aprendizagem etc” (QUEVEDO, 2011, p. 18).
De fato, parte das discussões a respeito de uma definição do que venha a ser Ensino Híbrido tem relação com o que é a presencialidade. Para Behar (2020) e Schlemmer (2019), não faz sentido considerar a presencialidade somente a partir da presença física no mesmo tempo e espaço, mas como sendo a presença relacional, ou seja, aquela que permite a interação e o “estar presente”, por meio da tecnologia. Propõem, portanto, a desterritorialização da presencialidade e a legitimação da presença por meio da interface virtual, seja em plataformas de interação síncrona por áudio e vídeo e, talvez, no futuro, com hologramas ou outras formas ainda a serem desenvolvidas. Neste sentido, o Ensino Híbrido parece se alinhar a esta perspectiva, potencializando a multimodalidade.
O termo multimodalidade ou multimodal é, também, polissêmico e pode ter sentidos específicos para cada área do conhecimento, desde transportes até a semiótica. Segundo Corrêa e Coscarelli (2018, p. 467-469), na modalidade a distância ou não, a mediação educativa mediada por computador utiliza variados recursos que unificariam de forma orgânica e articulada recursos comunicacionais e de informática, de texto e de design – essas combinações se tornam cada vez mais complexas à medida que novos recursos tecnológicos vão sendo apropriados pelos sujeitos. Pode-se considerar, nesse sentido, a multimodalidade como sendo mais um sinônimo de híbrido, entendido como a fluidez entre modalidades, em que o estudante transita de uma para outra, sem que as fronteiras entre uma e outra sejam rigidamente demarcadas, conforme propõe Schlemmer e Moreira (2019), assim como Kenski, Medeiros e Ordéas (2019). Para os autores, a questão não é determinar onde começa e termina cada uma das modalidades, mas a possibilidade de serem mais que complementares, uma nova configuração que denominam como Blended, Híbrido e/ou o Multimodal – este último menos frequente.
Conforme explicita Roza, Veiga e Roza (2018, p.2), “embora não haja uma única e universal a respeito do Blended Learning, a sua concepção tem evoluído com o tempo, com as tecnologias, com as necessidades atuais e com a compreensão dos pesquisadores”. É possível sinalizar que está em curso uma modificação generalizada das práticas de organização e planejamento pedagógico nas instituições de Ensino Superior, influenciado pela popularização da EaD mas, não necessariamente vinculado a ela, de integração das TDIC ao ensino presencial. Sua principal manifestação tem sido o “Hibridismo Tecnológico na Educação (HTE)”, segundo Struchiner e Gianella (2018), para quem se torna cada vez mais difícil dissociar as diferentes mídias e suas linguagens, sendo este processo mais do que a mera convergência de meios, além das relações espaço-tempo e físico-virtual no processo de ensino e de aprendizagem.
Assim, no Brasil e no mundo, as denominações Blended Learning (b-Learning), Ensino Híbrido, Educação Híbrida, semipresencial, Ensino Bimodal ou Misto, referem-se a uma diversidade de possibilidades ainda não tão bem estabelecidas em suas diferenças e aproximações, podendo ser tratadas como sinônimas ou não (ALONSO; MACIEL; SILVA, 2017; KENSKI; MOREIRA; ORDÉAS, 2019; MORAN, 2015, 2021).
O hibridismo e o Blended Learning ou Blended (e)Learning, e sua complexidade, podem favorecer as interações e as dimensões sociais do ensino, desde que previsto na concepção de seu desenho didático e possível de ser concretizado por meio da tecnologia utilizada (KENSKI; MOREIRA; ORDÉAS, 2019; MONTEIRO; MOREIRA; LENCASTRE, 2015; MORAN, 2021).
“[...] O ensino híbrido implica na integração entre ambientes de ensino superior presenciais e online. Institui-se a convergência de práticas de ensino e de aprendizagem, [...], que modifica o conceito de presença, tanto do professor quanto do aluno” (KENSKI; MOREIRA; ORDÉAS, 2019, p. 147).
Assim como nas perspectivas de Moreira, Monteiro e Lancastre (2015), Moran (2021) e Kenski, Medeiros e Ordéas (2019), Moreira e Monteiro (2018, p. 86-7) indica que o Blended Learning “afirma-se como um conceito de educação caracterizado pelo uso de soluções combinadas ou mistas, envolvendo a interação entre as modalidades presencial e a distância, a interação entre abordagens pedagógicas e a interação entre recursos tecnológicos”. Logo, transcende as questões relativas exclusivamente à modalidade e até às tecnologias, referindo-se a tudo isso e, também, às inovações pedagógicas.
Horn e Staker (2015, p.34) propõem que o “Ensino Híbrido é qualquer programa educacional formal no qual um estudante aprende, pelo menos em parte, por meio do ensino on-line, com algum elemento de controle por parte do estudante sobre o tempo, o lugar, o caminho e/ou o ritmo”. Esta definição acrescentaria a escolha do “sujeito aprendente” à flexibilidade e mistura de presencial e virtual já conhecidos em outros conceitos de hibridismo, conferindo um caráter menos impositivo. Os autores ainda destacam que não há apenas uma possibilidade de desenho pedagógico, mas várias possibilidades a serem exploradas pelas instituições na construção de seus projetos pedagógicos.
A seguir o Tabela 2 sintetiza as concepções identificadas ao longo da pesquisa para este artigo, em português, bem como o seu correspondente em inglês.
Tabela 2 Termos em língua portuguesa com seu correspondente em inglês e respectivas definições identificadas na literatura acadêmica analisada.
| Termos em português | Termos correspondentes em inglês | Definição |
|---|---|---|
| Semipresencial |
|
|
| Ensino/Educação Bimodal | bi-modal learning | "[...] Modelos que usam intensamente os recursos tecnológicos nos âmbitos da Universidade: na gestão, nos processos técnicos e administrativos, nas pesquisas e no ensino. O ensino ocorre pela convergência entre Educação a Distância e a presencial, originando modelos híbridos de ensino denominado Educação Bimodal. Há a constituição de redes em que diversas instituições, empresas, governos e sociedade podem estar implicados” (GIACOMAZZO, 2014, p, p. 204). |
| Ensino Misturado ou Misto | Blended Learning, b-Learning, Blended e-Learning |
|
| Blended | “[...] O Ensino Híbrido[2] é qualquer programa de educação formal no qual um estudante aprende, pelo menos em parte, por meio do ensino on-line, com algum elemento de controle do estudante sobre o tempo, o lugar, o caminho e/ou o ritmo” (HORN; STAKER, 2015, p, p. 34, grifo nosso). | |
| Ensino Híbrido | Hybrid Learning | "[...] O ensino híbrido implica na integração entre ambientes de ensino superior presenciais e online. Institui-se a convergência de práticas de ensino e de aprendizagem, [...], que modifica o conceito de presença, tanto do professor quanto do aluno” (KENSKI; MEDEIROS; ORDÉAS, 2019, p. 147). |
| Ensino Remoto Ensino Remoto Emergencial (ERE) | Remote Learning, remote teaching, emergency remote teaching |
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| Educação Híbrida | “[...] O conceito de Educação híbrida é mais abrangente, porque olha para as combinações possíveis de todos os envolvidos no processo de ensino e de aprendizagem (visão ecossistêmica do híbrido) [...] Na educação acontecem vários tipos de mistura, blended ou educação híbrida: de saberes e valores, quando integramos várias áreas de conhecimento (no modelo disciplinar ou não); mistura de metodologias, com desafios, atividades, projetos, games, grupais e individuais, colaborativos e personalizados. Também falamos de tecnologias híbridas, cada vez mais “inteligentes”, que integram as atividades da sala de aula com as digitais, as presenciais com as virtuais. Híbrido também pode sinalizar um currículo mais flexível, que planeje o que é básico e fundamental para todos e que permita, ao mesmo tempo, caminhos personalizados para atender às necessidades de cada aluno. O Híbrido também abrange a articulação de processos mais formais de ensino e aprendizagem com os informais, de educação aberta e em rede. Híbrido implica em misturar e integrar áreas diferentes, profissionais diferentes e alunos diferentes, em espaços e tempos diferentes”. (MORAN, 2021, , [s.n.])”. | |
| Hibridismo Tecnológico na Educação (HTE) | "[...] Expressão polissêmica que identifica e qualifica determinadas características relacionadas à sinergia de tecnologias digitais da informação e comunicação (TIDCs) na sociedade contemporânea, partindo da perspectiva de que já não é possível diferenciar ou tratar separadamente as diversas linguagens e suas mídias, bem como as relações espaço-tempo e físico-virtual em processos educativos” (STRUCHINER; GIANELLA, 2018, p. 319). | |
| Sala de aula híbrida | Hybrid Classroom, synchronous hybrid learning classes | “[...] As aulas de aprendizagem híbrida síncrona referem-se a aulas em que os alunos online e presenciais interagem durante sessões síncronas compartilhadas (BELL, J., CAIN, W., PETERSON, A.; CHENG, C., 2016, p. 19, tradução nossa)”. |
| Ensino Flex / Ensino Híbrido Flexível | Hybrid-flexible teaching and learning Hyflex Blended Learning Hyflex Teaching and Learning | “[...] HyFlex combina os termos “híbrido” e “flexível”. Aprendizagem híbrida refere-se à aprendizagem que integra experiências complementares de aprendizagem presencial (síncrona) e online (assíncrona) a serviço dos objetivos de aprendizagem pretendidos [...]. Todos os alunos em um curso híbrido devem passar pela mesma combinação de atividades online e presenciais. Em contraste, o aspecto "flexível" do HyFlex é que os alunos podem escolher como participar do curso e se envolver com o material da maneira que funcionar melhor para eles durante o curso e de sessão em sessão” (COLUMBIA…, [s.d], tradução nossa). |
| Multimodalidade (neste caso, relacionado a multiletramento) | "[...] A multimodalidade pode ser entendida [...] como multissemiose. Pode-se pensar tanto em diferentes linguagens quanto em diferentes "modos de comunicação" existentes [...] (CORRÊA, CASCARELLI, 2018, p.)". | |
| Multimodalidade como sinônimo de integração dos espaços físicos e digitais | “[...] o conceito de multimodalidade, implica integrar a modalidade presencial física e a modalidade online, a qual pode hibridizar elementos de eletronic learning (e-learning), mobile learning (m-learning), pervasive learning (p-learning), ubíquos learning (u-learning), immersive learning (i-learning) e, ainda, gamification learning (g-learning) e Game Based Learning (GBL). No p-learning e u-learning as informações estão dispersas, integrando espaços geográficos e digitais, acessadas por dispositivos móveis, conectados a redes de comunicação sem fio” (SCHLEMMER, E.; MOREIRA, J. A., 2019, p. 699). | |
| Webcurrículo | “[...] o currículo organizado em redes multimodais, hipertextuais e hipermóveis, abertas e flexíveis à incorporação de novas informações e conhecimentos (nós) e ao estabelecimento de inter-relações entre os nós. Nessa ótica, o currículo planejado é reconstruído no contexto da prática social pedagógica realizada com as mídias e Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC) em um processo de interação entre as pessoas e destas com as informações, conhecimentos, linguagens e culturas” (ALMEIDA, 2016, p. 767). |
Fonte: Elaborado pelas autoras.
Embora o hibridismo se refira a arranjos onde elementos presenciais e on-line/virtuais, destaque-se o recorte de Moran (2021), que prefere a expressão Educação Híbrida em vez de Ensino Híbrido. Para o autor, a expressão que enfatiza “ensino” resultar em uma concepção reducionista de educação, com experiências focadas na transposição de aulas expositivas para os meios digitais. Por outro lado, a Educação Híbrida faria referência a arranjos mais amplos quanto às possibilidades de integração e articulação de processos educativos, não somente presenciais e virtuais, mas que mesclem também o formal com o não formal, o ambiente acadêmico e o profissional, áreas diferentes, metodologias, didáticas e formas de avaliação, para além dos referenciais de tempo e espaço da modalidade a distância.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
O estudo apresenta uma profusão de concepções relativas à Ensino e Educação Híbrida, expondo a volatilidade conceitual. A flexibilização curricular e a possibilidade de construção do próprio percurso acadêmico pelos estudantes não foram ressaltadas pela maioria dos autores consultados. O trabalho aponta que a expressão “híbrida” é presente na literatura acadêmica da área e se refere, sobretudo, ao ensino, a uma forma de organização do processo educativo. Embora não tenha sido objeto de análise, sabe-se que Instituições de Ensino Superior, sobretudo privadas, além de cursos livres, também vêm intensificando o uso da expressão, que, no entanto, não aparece em normativas da área da Educação até a publicação deste artigo. É preciso cuidado com novas expressões, siglas e rótulos que proliferam na Educação (FERREIRA; CARVALHO; LEMGRUBER et al, 2020).
Considerando que todo trabalho apresenta limitações, destaque-se que só foi identificado até a conclusão da pesquisa a presença da expressão “híbrida” nas “Diretrizes Gerais sobre Aprendizagem Híbrida” (BRASIL, 2021) elaboradas pelo Conselho Nacional de Educação (CNE) sob a forma de relatório e disponibilizadas para consulta pública a fim de subsidiar discussões com vistas à produção de normativa para regular o assunto em todos os níveis educacionais.
Diferentemente da maioria dos autores que empregam a expressão Ensino, Educação ou relação entre ensino e aprendizagem, o documento apresenta uma ênfase na expressão aprendizagem híbrida, o que causa certa estranheza por se tratar de uma proposta para normatização das formas de organização do Ensino e sua oferta. Trata-se de um exemplo de como a linguagem da Educação estaria sendo substituída pela “linguagem da aprendizagem” que, segundo Biesta (2013), costuma tratar o processo da educação como uma transação econômica, produzindo distorções na compreensão do papel do aprendente, do educador e da relação educacional, assim como dos objetivos da educação. A “aprendizagem híbrida” é apontada nas Diretrizes como sendo uma “metodologia pedagógica flexível, ativa e inovadora que orienta a atividade docente, estimula a autonomia, o protagonismo, a interação entre estudantes e entre estes e docentes integrando atividades presenciais e não presenciais” (BRASIL, 2021, p. 14). A leitura do documento na íntegra sugere uma perspectiva determinista e prescritiva, apoiada sob uso de TDIC. Afinal, a aprendizagem híbrida seria, necessariamente, “ativa e inovadora”, capaz de promover “autonomia, protagonismo e interação”. Em outro trecho, lê-se: “Tudo indica que a pandemia vai passar, mas as metodologias de aprendizagem híbrida, objetivando garantir melhores resultados de aprendizagem, permanecerão” (BRASIL, 2021, grifo nosso). Poderia a aprendizagem, a educação ou o ensino híbrido promoverem apenas melhores resultados? Será este um documento orientador para normativas que virão?
Destaca-se ao final deste artigo o referido documento porque ele pode inaugurar normativas sobre o tema, promovendo agendas e ideologias pautadas em um discurso que se refere à Educação presencial como obsoleta, à ausência ou pouca integração de TDIC ao currículo como responsável por baixos resultados educacionais. Se há necessidade de se assumir uma expressão que sintetize a combinação de tempos e espaços presenciais e virtuais, momentos síncronos e assíncronos e metodologias promotoras de participação como elementos centrais, que seja Educação Híbrida, em direção a práticas político-pedagógicas promotoras de mais criticidade e justiça social.










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