INTRODUÇÃO
Esta é uma pesquisa documental de tipo análise sistemática da literatura, cujo principal objetivo é identificar e analisar as abordagens e temáticas presentes em artigos publicados entre 2015 e 2023, período definido pelo intervalo entre o primeiro artigo localizado e dezembro de 2023, ano de início desta pesquisa. Para tanto, acessaram-se duas plataformas que concentram publicações de inúmeros periódicos científicos arbitrados e acessados no ocidente: a Web of Science (WoS) e a base Scopus.
Com foco na educação básica, os dados bibliométricos foram tratados de duas formas. Primeiro pelo software VOSviewer, cotejando com os resultados de Palludeto e Felipini (2019). Nesse sentido, analisou-se a quantidade de citações que os artigos receberam, acoplamento bibliográfico da amostra, a localização das instituições associadas aos autores e a coocorrência das palavras-chave. Em um segundo momento, realizou-se a análise qualitativa, considerando a natureza e metodologia informada, campo empírico analisado, referencial teórico utilizados e o posicionamento dos autores.
Como preocupação de fundo tem-se a ampliação dos interesses e da lógica associadas ao capital financeiro no setor educacional. Muitos são os mecanismos atuais utilizados para “exploração” da educação pela lógica das finanças (Dowbor; Blandy, 2022; Morgan; Gonçalves; Nascimento, 2023; Mocarzel; Lopes; Ferreira, 2023; Araujo, 2023). Algumas mais comuns, tais como linhas de crédito para custear a frequência à escola. Mas novas formas surgem na medida em que fundos de investimento ou empresas de capital aberto se tornam proprietários de escolas e instituições de ensino superior. Ou ainda, quando tais operadores assumem o controle acionário ou funcionam como “indutores” de editoras e startups responsáveis pela produção de inúmeros serviços curriculares para instituições públicas e privadas.
Entendemos que este protagonismo indica uma mudança de qualidade nos processos de privatização da educação. Como apontam Adrião e Araújo (2023, p. 8),
se a abertura do capital das empresas do segmento educacional na Bolsa de Valores expressa a liberalização do setor para a atuação de acionistas internacionais e a subordinação da educação básica [...] à lógica da financeirização da economia, a assunção de escolas por fundos privados também potencializam essa subordinação.
Ainda, a mudança de qualidade é captada pelo processo de oligopolização, observado no setor, pois, tal como observado em estudos sobre a financeirização no ensino superior brasileiro (Sguissardi, 2015), na educação básica “a abertura de capital parece viabilizar saltos no porte das empresas, permitindo a concentração da oferta educacional via operações de F&A [fusão e aquisição]” (Quibao Neto; Adrião, 2023, p. 18).
Mas se os processos de financeirização aplicados à educação básica brasileira têm sido observados por estudos e por agentes interessados – haja vista o crescimento do setor na Bolsa brasileira de valores mobiliários (Quibao Neto; Adrião, 2023) – indaga-se se este mesmo movimento tem sido percebido e analisado em outros países. Com o objetivo de analisar este fenômeno, adotou-se como descritores para identificação das publicações os termos “financialization”, “financialisation”, “assetization” e “assetisation” em língua inglesa, dado que o uso desta língua é requisito das plataformas para inserção de palavras chave, títulos e resumos. Os dois primeiros termos expressam, com diferentes grafias identificadas na produção, fenômeno caracterizado por Krippner (2005) como um novo padrão de acumulação, no qual os principais mecanismos para a lucratividade do capital não derivam prioritariamente da produção e circulação de mercadorias e serviços e, sim, da adoção de mecanismos financeiros. Estes adquirem formas de ganhos especulativos, que estimulam a transferência do chamado capital líquido das empresas para a esfera financeira na expectativa de juros, dividendos ou ganhos de capital futuros.
Também no início dos anos 2000, Harvey (2005) considerou que as alterações no capitalismo globalizado, marcado pela introdução de tecnologias transformadoras da produção de mercadorias e circulação de capital, compunham um novo padrão de acumulação por ele adjetivado como “flexível”. O autor, ancorado em análise geopolítica, indica que a ascensão dos interesses do capital financeiro apoia-se em três tendências gerais e globalmente ratificadas pelas orientações neoliberais. Primeiro, no âmbito das corporações, ampliação de pagamentos aos CEOs (executivos) por meio de títulos de propriedade/ações, condição que estimula a adoção de estratégias de gestão que valorizam investimentos financeiros e retornos rápidos. A segunda tendência é a redução da separação entre capital monetário (amplificado por juros e dividendos) e capital produtivo, decorrentes de fusões e aquisições intersetoriais, redundando em conglomerados globais E, por fim, a ampliação de desregulamentações e criação de novos mercados financeiros baseados em securitização e diversas inovações relacionadas a mercados futuros.
Ainda que haja outras e muitas abordagens para o tratamento do tema, como mostra o trabalho de Palludeto e Felipini (2019), a financeirização é aqui entendida na perspectiva mais ampla e em seus aspectos operacionais. Assim, para o caso do campo educacional, um aspecto fundamental desse formato de superacumulação é a “temporalidade” dos processos.
Para De Conti e Villen (2023, p. 13):
Em um mercado especulativo, o intuito não é simplesmente a valorização do capital ou a obtenção de elevados rendimentos – que são lógicas inerentes ao próprio capitalismo. Mais do que isso, existe uma temporalidade desejada, que é o curto prazo. Não é suficiente ter uma elevada rentabilidade ao longo de um ciclo produtivo ou ao longo de anos. É o curto prazo que importa.
Já o termo assetização foi acionado para a composição desta pesquisa por aglutinar estudos que consideram tratar-se de conceito diretamente relacionado aos processos pelos quais “o valor e as práticas sociais de valoração foram transformados para fazer de tudo o que há no mundo uma fonte permanente de receitas, e não apenas uma mercadoria intercambiável” (Oliveira, 2022, p. 33, itálico original). Trata-se de uma consequência da financeirização que ressalta a mudança de uma lógica econômica estruturada a partir da centralidade da mercadoria (ou commodity) para o ativo” (Oliveira, 2022, p. 38). Para Birch (2017), a assetização é processo relacionado à transformação de alguma coisa (tangível ou não) em algo que possa trazer rentabilidade, não por sua comercialização, mas sim pelo retorno futuro que assegura. Um exemplo seria: o ativo (asset) é o direito autoral de uma música, enquanto a mercadoria seria o CD ou uma música para download.
A partir desse repertório, da importância da temática e da rapidez pela qual a financeirização e a assetização vêm trazendo consequências para o setor educacional, tratou-se de caracterizar as produções existentes a partir das publicações na WoS e na Scopus. Para apresentar o trabalho realizado, o texto foi desenvolvido em outras quatro partes para além desta introdução. Na próxima seção há a exposição dos procedimentos metodológicos utilizados durante a coleta e tratamento dos dados. Na sequência, tem-se a terceira parte que apresenta e analisa os resultados obtidos com o Software VOSViewer. Ainda sobre os resultados, a quarta seção foca na exibição e análise qualitativa dos dados coletados. Por fim, à guisa de algumas conclusões e considerações para próximos passos, tem-se na última parte “elementos para diálogos e pesquisas futuras”.
PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS
Trata-se de uma pesquisa documental, que agrega análise de dados bibliométricos a categorias qualitativas as quais permitem compor um quadro analítico para identificar campo empírico, a natureza e a metodologia da pesquisa utilizada, bem como observar como o autor se posiciona acerca do tema. Esse desenho de pesquisa apoia-se em estudos anteriores (Adrião, 2022; Mori; Adrião, 2018).
A base de dados que sustenta este trabalho é constituída por artigos publicados na Web of Science (WoS) e na Scopus – plataformas de armazenamento de publicações e acesso via web que, juntas, disponibilizam milhares de títulos para consulta em todas as áreas do conhecimento.4 Os primeiros artigos sobre financeirização e assetização na educação básica foram localizados em 2015 – motivo do ano de início deste mapeamento.
Na parte bibliométrica, inspirados no estudo de Palludeto e Felipini (2019), trabalhou-se com dados organizados para construir as análises sobre os autores, instituições de filiação, país de origem da instituição, periódicos que veiculam os artigos, número de citações, sistematização das palavras-chave, dentre outros metadados disponíveis. Essa organização e composição de dados sobre as produções podem ser selecionadas e exportadas das próprias bases. Este aspecto, somado ao reconhecimento das plataformas Scopus e WoS como as prioritárias na disseminação de publicações, foi determinante para a seleção de ambas como repositório das fontes primárias para a seleção dos artigos que forneceram o conjunto de dados analisados.
Para compor o conjunto de estudos, foram selecionados os artigos publicados em periódicos entre os anos de 2015 e 2023. Para busca, utilizaram-se os termos em língua inglesa “financialisation”, “financializsation”, “assetisation” e “assetization”, todos conjuntamente com o termo “edu*”.5 A opção pelas palavras na língua inglesa justifica-se pelo fato de que todos os periódicos indexados nas bases possuem título, resumo e palavras-chave nessa língua. Como o interesse era identificar os termos nos títulos, resumos ou palavras-chave dos artigos, utilizou-se essa opção nas ferramentas de busca. Na página de resultados, o único filtro aplicado foi relacionado ao tipo de publicação: artigos. Optou-se por não filtrar por área de conhecimento ou categorias de publicações, visto que cada plataforma faz essa classificação de maneira própria e isso acarretaria incongruências na coleta. Na sequência, organizou-se os trabalhos em planilhas próprias.
Para análise no VOSviewer – Visualization of Similaritties Viewer, software gratuito cuja função é análise e visualização bibliométrica –, importaram-se os dados disponíveis nas duas plataformas em arquivos de tipos específicos adequados aos softwares utilizados (extensão .csv, .txt, .ris), os quais foram posteriormente organizados em planilhas próprias. Complementarmente acionou-se o programa Zotero – gerenciador de dados bibliométricos – para agregar e tratar os dados importados das plataformas. Tais procedimentos permitiram o tratamento bibliométrico e a criação de mapas de distância com a identificação de coocorrência de palavras-chave entre os artigos selecionados, baseando-se no manual do programa (van Eck; Waltman, 2010) e no trabalho de Palludeto e Filipini (2019).
Com as planilhas organizadas, trabalhou-se na análise qualitativa da base. Esta análise foi constituída pelos dados dos artigos selecionados e decorrente da leitura dos resumos (Ferreira, 2002), o que permitiu a caracterização dos textos em função dos seguintes aspectos: campo empírico estudado, natureza ou abordagem da pesquisa, metodologia utilizada e posição do artigo sobre financeirização ou assetização (Adrião, 2022; Mori; Adrião, 2018).
A Tabela 1 apresenta a quantidade de trabalhos encontrados e selecionados em cada etapa de filtragem. A primeira filtragem apresentou o total de artigos encontrados pela busca com os descritores nas plataformas WoS e Scopus. A segunda coluna apresenta a seleção dos artigos com base na leitura de título e resumo para exclusão de artigos não relacionados à educação básica ou educação em geral. O terceiro processo foi a exclusão de artigos repetidos.
Tabela 1 Quantidade de artigos encontrados por etapa de filtragem – WoS e Scopus (2015-2023)
| Ano | Filtragem 1 | Filtragem 2 | Filtragem 3 |
|---|---|---|---|
| 2015 | 10 | 5 | 3 |
| 2016 | 11 | 4 | 0 |
| 2017 | 21 | 9 | 2 |
| 2018 | 21 | 11 | 6 |
| 2019 | 30 | 18 | 7 |
| 2020 | 35 | 13 | 4 |
| 2021 | 46 | 28 | 11 |
| 2022 | 49 | 21 | 13 |
| 2023 | 42 | 30 | 11 |
| Total | 190 | 139 | 57 |
Fonte: os autores, a partir da Scopus e da Web of Science.
Decorrente da última filtragem, a partir da qual foi composto o corpus que integra esta análise, tem-se 57 artigos.6 Da Tabela 1, destaca-se a intensificação de publicações sobre temática a partir de 2021, quando o número de artigos selecionados chegou a 11, 13 artigos em 2022 e, em 2023, 11 artigos. Nestes anos, há 35 artigos somados, ou seja, 61,4% da amostra. Por fim, a Tabela 2 apresenta o resultado por plataforma com os dados da filtragem 3. Ao total, chegou-se a 36 artigos da WoS e 21 artigos da Scopus.
ELEMENTOS DESTACADOS PARA ANÁLISE A PARTIR DO ESTUDO BIBLIOMÉTRICO
O primeiro aspecto se refere à repercussão dos trabalhos encontrados, tema identificado por meio do volume de citações a cada artigo que as plataformas contabilizam, portanto, restritas a elas. Assim, tem-se que o conjunto das 57 publicações sobre financeirização e educação básica receberam 477 citações, contabilizadas nas duas plataformas até a data final de coleta (dezembro de 2023). No entanto, quando olhadas individualmente, é possível observar que as referências aos artigos variam muito em quantidade. Nesse sentido, há 19 artigos que não possuem citação – e que não aparecem na Tabela 3 abaixo; um grupo de 23 artigos citados entre uma e dez vezes, e um conjunto de 15 artigos de maior impacto, que possuem mais de dez citações, os quais estão especificados na Tabela 3:
Tabela 3 Artigos que receberam uma citação ou mais – Scopus e WoS (2015 - 2023)
| Título | Autores | Periódicos | Citações |
|---|---|---|---|
| The rise of education rentiers: digital platforms, digital data and rents | Komljenovic, J. | Learning, Media and Technology | 64 |
| The Angel of Geography: Superman, Tiger Mother, aspiration management, and the child as waste | Katz, C. | Progress In Human Geography | 41 |
| Rescaling and reframing poverty: Financial coaching and the pedagogical spaces of financial inclusion in Boston, Massachusetts | Loomis, J. M. | GEOFORUM | 30 |
| Cultivating the self-reliant and responsible individual: the material culture of financial literacy | Santos, A. C. | New Political Economy | 26 |
| Borrowing for social security? Credit, asset-based welfare and the decline of the German savings regime | Mertens, D. | Journal Of European Social Policy | 21 |
| Facing future uncertainties and risks through personal finance: conventions in financial education | Maman, D.; Rosenhek, Z. | Journal Of Cultural Economy | 20 |
| Financialization and Neoliberalism and the Fall in the Labor Share: A Panel Data Econometric Analysis for the European Union Countries | Barradas, R. | Review Of Radical Political Economics | 18 |
| For a political economy of massive open online courses | Hall, R. | Learning, Media And Technology | 17 |
| Investment, Saving and Borrowing for Children: Trends by Wealth, Race, and Ethnicity, 1998-2016 | Bandelj, N.; Grigoryeva, A. | Rsf-The Russell Sage Journal Of The Social Sciences | 15 |
| Critical financial literacy: An agenda | Hütten, M.; Maman, D.; Rosenhek, Z.; Thiemann, M. | International Journal Of Pluralism And Economics Education | 14 |
| ‘Level up your money game’: an analysis of gamification discourse in financial services | van der Heide, A.; Zelinsky, D. | Journal Of Cultural Economy | 14 |
| Robo-advisors and the financialization of lay investors | Tan, G. K. S. | GEOFORUM | 12 |
| Taking Goldschmidt to the Woods: Timberland Ownership and Quality of Life in Alabama* | Bailey, C.; Gopaul, A.; Thomson, R.; Gunroe, A. | Rural Sociology | 12 |
| Finance Capitalism versus Industrial Capitalism: The Rentier Resurgence and Takeover | Hudson, M. | Review Of Radical Political Economics | 12 |
| Social Policy Perspectives on Economic Inequality in Wealthy Countries | Giordono, L. S.; Jones, M. D.; Rothwell, D. W. | Policy Studies Journal | 11 |
| What is an Educational Good? Theorising Education as Degrowth | Jones, Alexander H. | Journal of Philosophy of Education | 10 |
| The financialization of social policy and the politicization of student debt in Chile | González-López, F. | Journal Of Cultural Economy | 9 |
| Introduction to Eurocrisis, Neoliberalism and the Common | Terranova, T. | Theory, Culture & Society | 9 |
| Does the financial system support economic growth in times of financialization? Evidence for Portugal | Barradas, R. | International Review Of Applied Economics | 7 |
| Financialization and income inequality: An extreme bounds analysis | Khatatbeh, I.N.; Moosa, I.A. | Journal Of International Trade & Economic Development | 7 |
| Governing by emotions in financial education | Petterson, J.; Wettergren, Å. | Consumption Markets & Culture | 6 |
| Edu-business within the Triple Helix. Value production through assetization of educational research | Ideland, M.; Serder, D. | Education Inquiry | 5 |
| Inequality caused by macro-economic policies during overaccumulation crisis | Bond, P.; Malikane, C. | Development Southern Africa | 5 |
| Constituting financialized subjectivities: cultural political economy of financial literacy in Turkey | Ayhan, B. | Turkish Studies | 5 |
| Speculative Charter School Growth in the Case of UNO Charter School Network in Chicago | Teresa, B. F. | Urban Affairs Review | 5 |
| Social effect of financialization of education | Yakovleva, N. | Sotsiologischeskie Issledovaniya | 4 |
| Global financial crisis and educational restructuring | Peters, M. A.; Besley, T.; Paraskeva, J. M. | Citizenship, Social And Economics Education | 4 |
| The problematization of consumers in Swedish financial literacy education | Pettersson, J. | Cultural Studies | 3 |
| The valuation of housing in low-amenity and low purchasing power city districts: social and economic value entangled by default | Styhre, A.; Brorström, S.; Gluch, P. | Construction Management And Economics | 3 |
| Financialization of schooling in Australia through private debt: a case study of Edstart | Hogan, A. | Australian Educational Researcher | 2 |
| The Explosion of Household Debt: Curse of Blessing for Human Rights? | Bohoslavsky, U. P. | Human Rights Quarterly | 2 |
| Promises and Profit in Debt-Free Higher Education: The Geographies of Income Share Agreements in the United States | Rosenman, E.; Cohen, D.; Baker, T.; Arapko, K. | Annals Of The American Association Of Geographers | 2 |
| EDUCATION REFORM AND FINANCIALIZATION: Making the Fiscal Crisis of the Schools | Farmer, S. | International Journal Of Urban And Regional Research | 2 |
| Re-humanization of vocational education and training in Australia | Livock, C. | Journal Of Critical Realism | 2 |
| Protect or punish debtors? Policymaker discourse on the state’s role in personal debt governance | Hoření Samec, T. | New Political Economy | 1 |
| Education in Post-Soviet Russia: Marketisation, Financialisation and Bureaucratisation – The case of Universities | Yakovleva, N. | Critical Sociology | 1 |
| Quasi-market manifestations in external and large-scale evaluations | Perboni, F.; Militao, A. N.; Di Giorgi, C. A. G. | Revista Educação (Santa Maria) | 1 |
| Financialization Inclusion Gone Wrong: Securities and Cryptoassets Trading for Children | Packin, N. G. | Hasitings Law Journal | 1 |
Fonte: os autores, com base em Scopus e WoS e tratados no software VOSViewer.
A partir de dados da Tabela 3 é possível perceber que as 15 produções que receberam mais de 10 citações concentraram aproximadamente 80% das citações. Aqueles que receberam entre uma e dez citações possuem cerca de 20% das citações e compõem um conjunto maior, porém com menor impacto.
Dentre esses, olhando-se para os três mais citados, tem-se o trabalho de Komljenovic (2021), com 64 citações, um ensaio sobre os achados da literatura especializada em assetização, capitalismo digital e seus impactos na educação. Em seguida, há o artigo de Katz (2018), com 41 citações, um outro ensaio de cunho mais filosófico a respeito da crise econômica, sua financeirização e impactos negativos na infância e na escolarização. E Loomis (2018), com 30 citações, ao estudar os meandros de um programa de educação financeira nos Estados Unidos, revela como o crescimento ativo do setor financeiro depende de transformar sujeitos em devedores viáveis e, para este fim, é vital o uso de programas de educação financeira, inclusive no currículo escolar, comprados de empresas privadas.
No grupo entre uma e dez citações, pode-se ressaltar como exemplo o trabalho de Jones (2021), com dez citações, que é um ensaio crítico ao uso de modelos empresariais de gestão escolar, em especial de empresas que atuam no mercado financeiro, pois, para o autor, é necessária uma separação dos valores e objetivos da educação escolar com os do capitalismo. Terranova (2018), com nove citações, faz apontamentos sobre a crise na Europa e como esta se associa ao crescimento do endividamento dos indivíduos através do que a autora chama de “financeirização do cotidiano”. Com o mesmo número de citações, destaca-se também Gonzales-Lopez (2021), com escopo na América Latina, que apresenta o aumento do endividamento de estudantes e suas famílias no Chile; o autor relaciona esse aumento ao modelo de privatização da educação do país.
Além disso, há poucos autores, neste conjunto de obras apresentados pela Tabela 3, que tenham publicado mais de um artigo sobre financeirização e educação básica nas bases inventariadas. No caso , apenas os autores Mamam e Rosenhek possuem dois artigos: um artigo de 2020, com 20 citações sobre a relação entre políticas neoliberais adotadas pelo governo de Israel e programas de educação financeira como um componente central de um conjunto de responsabilização dos indivíduos; e outro, em coautoria, em Hütten et al. (2018), mostram que, longe de apresentar uma visão equilibrada da economia ou de encorajar o envolvimento cívico na regulação financeira, esses programas de educação financeira – comumente promovidos pela OCDE – centram-se na correção do que é visto como má conduta do consumidor. No processo, os temas econômicos são naturalizados e reificados.
Sobre os periódicos, o estudo identificou apenas um periódico com três artigos sobre financeirização associada à educação básica, o Journal of Cultural Economy, que somam 43 citações através dos artigos vinculados ao periódico. Há quatro periódicos que publicaram dois artigos: Learning, Media and Technology (81 citações); Geoforum (42 citações), Review of Radical Political Economics (30 citações), e o New Political Economy (27 citações). Os demais trabalhos apresentados na Tabela 3 foram publicados em 27 periódicos diferentes, indicando certa pulverização e diversificação de temáticas dos periódicos na divulgação de estudos sobre financeirização e educação básica.
Neste sentido, vale descrever as características desses veículos, pois, como se poderá observar, não há exatamente uma área singular de análise e nem são revistas focadas na área da educação. O Geoforum é um periódico que recebe artigos relacionados às questões da geografia humana, nos aspectos econômicos, sociais, políticos e ambientais. O Journal of Cultural Economy se descreve enquanto um fórum de debate sobre as manifestações sociais que têm materialmente transformado práticas culturais nas organizações, na economia e na sociedade. Learning, Media and Technology foca no debate sobre mídias digitais, tecnologia e culturas digitais a partir de um olhar crítico, principalmente pelas perspectivas das ciências sociais. Já a Review of Radical Political Economics promove um fórum de debates a partir da crítica da economia política e de pesquisas com propostas inovadoras e visões heterodoxas da economia; seu foco está nos debates da economia, sociologia e política. Por fim, o New Political Economy condensa trabalhos que analisam as características da economia política clássica do século XIX com os avanços analíticos das ciências sociais do século XX.
Avançando na caracterização dos artigos inventariados em cada plataforma, as Figuras 1 e 2 apresentam os trabalhos organizados por acoplamento bibliográfico respectivamente para dados gerados a partir da WoS e da Scopus. Esta forma de organizar procura identificar e aproximar os periódicos que compartilham referências em comum em seus artigos (Palludeto; Felipini, 2019). Assim, o acoplamento bibliográfico entre dois ou mais artigos ocorre quando estes referenciam ao menos uma mesma publicação, estabelecendo uma relação bibliométrica entre os artigos e os periódicos em que são publicados. Isso pode sugerir uma relação temática (Grácio, 2016), ainda que não necessariamente uma concordância de abordagens.

Fonte: os autores, com base Web of Science e tratados no software VOSViewer.
Figura 1 Rede de periódicos por acoplamento bibliográfico das fontes na Web of Science (2015-2023)

Fonte: os autores, com base em Scopus e tratados no software VOSViewer.
Figura 2 Rede de periódicos por acoplamento bibliográfico das fontes na Scopus (2015- 2023)
No caso estudado, como a maioria dos periódicos veiculou apenas um artigo sobre financeirização e educação básica, a análise considerou todos os periódicos e os artigos que possuíam no mínimo duas referências iguais compartilhadas entre si.
Analisando a Figura 1, a rede identifica quatro clusters de periódicos entre os 17 conectados pelo compartilhamento de referências. Em azul, esse grupo possui quatro periódicos da área de concentração de economia política e políticas públicas: International Review of Applied Economics, Journal of International Trade & Economic Development, Review of Radical Political Economics e Policy Studies Journal. Em vermelho, com cinco periódicos e três temáticas, geografia, economia e mídia/cultura digital, são eles: Annals of the American Association of Geographers, Construction Management and Economics, Learning, Media and Technology e Progress in Human Geography. Em amarelo, um grupo de três periódicos, com três temas diferentes, estudos na área de ciências sociais da Turquia – Turkish Studies; um na área da geografia humana – Geoforum; e outro na área de economia/sociologia comportamental – Journal of Cultural Economy. E em verde, forma-se um grupo de cinco periódicos, quatro dentro da temática das ciências sociais e um dentro do campo da economia/sociologia comportamental: Human Rights Quarterly, Journal of European Social Politics, British Journal of Sociology, Cultural Studies e Consumption, Market & Culture.
Na Figura 2, tem-se o acoplamento bibliográfico com foco nos periódicos selecionados a partir da Scopus, com oito periódicos divididos em apenas dois clusters. Em vermelho, com quatro periódicos, tem-se um grupo formado por duas temáticas, educação e ciências sociais; tem-se nesse grupo Education Inquiry, Higher Education, Australian Educational Research e Theory, Culture & Society. O cluster em verde, composto por periódicos de temáticas econômicas e educação: New Political Economy, International Journal of Pluralism and Economics Education, Journal of Philosophy of Education e Journal of Cultural Economy.
Ao comparar os dados de acoplamento das duas bases, percebe-se, no caso da Scopus, a presença de periódicos voltados exclusivamente para o campo da educação, o que não apareceu na WoS. Outro elemento é que somente o Journal of Cultural Economy é identificado a partir do acoplamento bibliográfico nas duas bases. Sobre o tipo de acesso aos artigos dos periódicos analisados, apenas o Education Inquiry se denomina como um periódico de acesso irrestrito para todos seus artigos veiculados; no outro extremo, o Human Rights Quarterly com acesso totalmente restrito. Os outros 23 periódicos permitem a opção de livre acesso aos artigos como opção ao autor, portanto, apenas parte das publicações estão com livre acesso.
Quando se verifica a distribuição das publicações pelas regiões nas quais se localizam as instituições de vínculo de autores/as, nota-se a primazia de países do norte global,7 conforme a Tabela 4. Essa tabela apresenta a quantidade de artigos publicados por país sede da instituição de vínculo do autor e o número absoluto e relativo das citações que os artigos obtiveram em cada base.
Tabela 4 Total de artigos e de citações por país sede de instituições de vínculo dos autores – WoS e Scopus (2015-2023)
| Países | Artigos (nº) | Citações | |||
|---|---|---|---|---|---|
| WoS | Scopus | % | Total | ||
| EUA | 15 | 124 | 20 | 30,2 | 144 |
| Reino Unido | 3 | 52 | 17 | 14,5 | 69 |
| Portugal | 4 | 25 | 26 | 10,7 | 51 |
| Israel | 3 | 16 | 34 | 10,5 | 50 |
| Alemanha | 3 | 35 | 14 | 10,3 | 49 |
| Suécia | 4 | 12 | 5 | 3,6 | 17 |
| Canadá | 2 | 17 | 0 | 3,6 | 17 |
| França | 1 | 0 | 14 | 2,9 | 14 |
| Austrália | 2 | 9 | 4 | 2,7 | 13 |
| Singapura | 1 | 12 | 0 | 2,5 | 12 |
| Nova Zelândia | 1 | 2 | 4 | 1,3 | 6 |
| Rússia | 2 | 1 | 4 | 1,0 | 5 |
| República Checa | 2 | 0 | 1 | 0,2 | 1 |
| Itália | 3 | 0 | 0 | 0 | 0 |
| Sérvia | 1 | 0 | 0 | 0 | 0 |
| Chile | 1 | 9 | 0 | 1,9 | 9 |
| Jordânia | 1 | 7 | 0 | 1,5 | 7 |
| África do Sul | 1 | 5 | 0 | 1,0 | 5 |
| Turquia | 1 | 5 | 0 | 1,0 | 5 |
| Argentina | 1 | 2 | 0 | 0,4 | 2 |
| Brasil | 5 | 1 | 0 | 0,2 | 1 |
| Total | 57 | 334 | 143 | 100 | 477 |
Fonte: os autores, com base em Scopus e Web of Science e tratados no software VOSViewer. Nota: com fundo cinza são os países que compõem o norte global no conjunto de produções selecionadas por este artigo; em fundo branco, o sul global.
Ao todo, os artigos de autores que trabalham em instituições sediadas em países que compõem o norte global (em cinza na Tabela) acumulam 47 produções que somam, juntas, aproximadamente 94% das citações. Neste grupo, sublinha-se o número (15) de artigos por autores de instituições sediadas nos Estados Unidos da América (EUA), que juntos possuem 144 citações. Em sequência, tem-se Portugal, com quatro trabalhos, e Israel e Alemanha com três produções, todas com, aproximadamente, 10% das citações. As quatro publicações derivadas de instituições suecas e as duas canadenses foram citadas por 3,6% das ocorrências, enquanto França, Austrália e Singapura possuem cerca de 2,5%. As produções vindas da Nova Zelândia e da Rússia possuem em torno de 1% das citações e República Checa 0,2%. Itália e Sérvia, embora tenham autores que publicaram sobre financeirização e educação básica, estes não foram citados.
Os artigos de autores vinculados a instituições do sul global formam um conjunto de 10 artigos e ficam com cerca de 6% das citações contabilizadas. Dentre estes, a produção Chilena recebeu 1,9% das citações, seguida do artigo de autores que trabalham na Jordânia, com 1,5%. Os artigos da África do Sul e Turquia receberam, cada, 1% das citações. A produção argentina teve 0,4% das citações e um artigo brasileiro recebeu uma citação.
Ainda, cabe analisar o material coletado a partir da coocorrência das palavras-chave nas publicações. A coocorrência de palavras-chave é uma técnica que explora a conexão entre os artigos a partir dos termos usados pelos autores. Este tipo de análise pressupõe que palavras-chave que frequentemente aparecem juntas e se repetem em diferentes artigos (ou seja, coocorrem) indicam relação entre os artigos (Narong; Hallinger, 2023). No caso do VOSViewer, o programa forma um conjunto de trabalhos conectados por um número mínimo de palavras-chave estabelecidas: neste artigo estipulou-se duas palavras-chave. As conexões encontram-se ilustradas na rede – Figura 3 – por meio de núcleos e linhas de cores distintas. Acredita-se que a rede de coocorrência de palavras-chave auxilia à “identificação de áreas de estudo, além de termos mais comuns e relevantes no interior desses agrupamentos” (Palludeto; Felipini, 2019, p. 328). Ou seja, é uma forma de identificar a aproximação de temáticas analisadas em cada agrupamento.

Fonte: os autores, com base em Scopus e Web of Science e tratados no software VOSViewer.
Figura 3 Rede de coocorrência de palavras-chave entre os artigos coletados – WoS e Scopus (2015-2023)
Assim, das 325 palavras-chave analisadas pelo programa, escolheu-se aquelas com, no mínimo de duas coocorrências, para processar a figura abaixo. Ao todo foram calculadas 284 conexões entre os termos. Exclui-se desta seleção as palavras-chave com nomes de localidades, como Chicago, Estados Unidos e União Europeia, pois não auxiliam na identificação de temáticas comuns.
A análise dos vínculos via palavras-chave, que constituem a Figura 3, indica maior volume de trabalhos que se identificam por meio dos termos financialization, com 26 ocorrências, seguido por education e financialisation com dez ocorrências cada. Abaixo disso estão os termos: credit, debit e financial education com oito ocorrência cada; finance, neoliberalism, inequality e literacy com seis ocorrências; e politics com cinco. Entre as com menos ocorrência, pode-se citar como exemplos: income inequality e privatization (4), financial system e financial inclusion (3), exclusion e poverty (2).
Analisando as conexões expressas, percebe-se o agrupamento de seis cores. Em azul, com nódulos maiores (financialization e education), há um conjunto de 13 palavras-chave que sugerem estar na temática mais próxima ao campo da política-econômica (privatization; accumulation; capitalism) e educação (educational development; education policy). Exemplos de trabalhos que utilizam esses termos são: Dowbor e Blandy (2022), Cohen (2022), Galzerano e Minto (2018), Yakovleva (2019; 2022) e Simon et al. (2022).
Outro grupo com maior número de nódulos é o cluster verde, com oito palavras-chave. Neste grupo há o termo financial education, credit, debit, financial inclusion, financial literacy dentre outros. Esse conjunto de termos aponta para uma temática ligada à financeirização da economia e educação financeira. Dentro desse cluster pode-se observar os trabalhos que focam em estudos sobre programas de educação financeira como: Mamam & Rosenhek (2019), Ayhan (2019), Hütten et al. (2018) e Loomis (2018).
Entre os clusters azul e verde, há um grupo de termos em azul-claro com as seguintes palavras-chave: market, student debt, student loans, everyday finance, social policy. Os termos sugerem que neste cluster concentram-se estudos ligados à questão da mercantilização da educação e financeirização por meio de dívidas estudantis como políticas sociais. Há três estudos que se utilizam desses termos, González-Lopes (2021), para o caso chileno e Bandelj & Grigoyeva (2021), para o caso norte-americano.
Na margem direita da Figura 3 há a concentração dos seguintes termos na cor vermelha: financial system, financialisation of subjects, financial crisis, debt enforcement, personal debt e governamentality. Ligados a temáticas da privatização da educação como forma de forçar o endividamento dos indivíduos e da chamada “financeirização do cotidiano”, exemplos de estudos que usam estes termos são: Horeni e Trlifajová (2023), Jones (2021), e Peters et al (2015).
Em roxo, há um conjunto de cinco termos: financialisation, assetization, privatisation, fintechs e investing. Embora seja pequeno, são trabalhos muito atuais captados na coleta nas bases que utilizam esses termos. Eles analisam a complexa relação entre o crescimento das tecnologias digitais no setor educacional e a transformação dessas tecnologias em produtos financeirizados específicos para a área com a criação de um mercado que acentua a privatização no e do setor. Entre exemplos desses estudos tem-se Komjlenovic (2021), Ideland e Serder (2023) e Birch (2024).
Por fim, o menor cluster criado pelo programa é representado pela cor laranja a partir de dois termos: EdTech e Covid-19. Os termos sugerem que esse grupo de trabalhos apresenta análises sobre o uso de plataformas digitais estimulados pela financeirização no período da pandemia de Covid-19. Neste sentido, o artigo de Paula et al. (2021) é exemplar.
ASPECTOS QUALITATIVOS DA ANÁLISE DAS PUBLICAÇÕES
Para efeito de caracterizarmos os artigos inventariados em relação aos aspectos qualitativos, as tabelas a seguir informam sobre o campo empírico analisado, a posição dos autores a respeito dos temas tratados, a natureza da pesquisa e a metodologia adotada na elaboração das publicações.
Vale observar que 15 trabalhos não se ativeram a campo empírico definido ou não o informaram no resumo. África do Sul, Alemanha, Argentina, Chile, Itália, Portugal, Reino Unido, Rússia, Sérvia, Singapura e Turquia foram analisados por apenas um artigo, enquanto dois trabalhos analisaram um conjunto de países da União Europeia. A Tabela 5 apresenta informações sobre os demais campos empíricos investigados por dois ou mais artigos.
Tabela 5 Campos empíricos específicos abordados por dois ou mais artigos – WoS e Scopus (2015-2023)
| Campo empírico | Número de artigos |
|---|---|
| EUA | 11 |
| Brasil | 6 |
| Suécia | 4 |
| Israel | 3 |
| Austrália | 2 |
| República Checa | 2 |
Fonte: os autores, a partir da Scopus e da Web of Science.
Há uma correspondência entre o campo empírico analisado com o local de produção do artigo, conforme mostrado na Tabela 3. Neste aspecto, EUA é o caso que sobressai: dentre os 15 artigos publicados pelos autores que lá estão sediados, 11 deles focam a análise no país. O segundo país mais estudado é o Brasil, cinco produções brasileiras analisam a temática em território nacional, às quais se soma um artigo de Portugal que observa os impactos da financeirização nos serviços públicos no Brasil, usando a educação e a saúde como exemplos. Suécia foi o lócus de quatro trabalhos, Israel três, Austrália e República Checa com dois. Ou seja, neste campo de análise, há uma sugestiva relação entre a localização das instituições de vínculo de autores principais e o lócus empírico da análise.
As Tabelas 6 e 7 informam sobre a natureza das pesquisas dos trabalhos coletados nas bases e as metodologias por eles praticadas. Os dados sugerem que a maioria dos artigos derivam de pesquisas qualitativas (30) e ensaios (17). No primeiro caso, a abordagem escolhida pode relacionar-se às pesquisas exploratórias sobre o tema como verificado pela preponderância de artigos utilizando revisão da literatura. A pesquisa qualitativa também se operacionalizou por meio de estudos de caso, entrevistas e pesquisas em fontes primárias - em um caso (Styhre et al, 2022) agregando as quatro ferramentas juntas.
Tabela 6 Natureza da pesquisa informada pelos artigos - WoS e Scopus (2015-2023)
| Natureza da pesquisa | Número de artigos |
|---|---|
| Pesquisa qualitativa | 30 |
| Ensaio | 17 |
| Pesquisa quantitativa | 9 |
| Quali-quanti | 1 |
| Total | 57 |
Fonte: os autores, a partir da Scopus e da Web of Science.
Tabela 7 Metodologia da pesquisa dos trabalhos identificados – WoS e Scopus (2015-2023)
| Metodologia da pesquisa | Número de artigos |
|---|---|
| Revisão da literatura | 36 |
| Pesquisa documental | 23 |
| Estudo de caso | 14 |
| Entrevista | 11 |
| Estatística descritiva | 7 |
| Estatística/efeito fixo/regressão/multinível | 6 |
| Análise do discurso | 3 |
| Observação/pesquisa de campo | 3 |
| Etnografia | 1 |
| Pesquisa longitudinal – survey | 1 |
| Análise econômica | 1 |
Fonte: os autores, a partir da Scopus e da Web of Science. Nota: o total de 106 tipos de metodologias explica-se pela utilização de mais de um procedimento por um mesmo artigo.
Sobre os artigos que possuem caráter ensaístico, parecem remeter, por um lado, a uma formulação de referências e solidificação conceitual tendo em vista ser o tema relativamente recente e, por outro, em uma composição de arcabouço teórico capaz de dar suporte analítico a partir da economia-política, perspectiva presente especialmente nos trabalhos com foco em análises macroeconômicas.
Como se observa na Tabela 6, há um número menor de artigos apoiados em pesquisas de natureza quantitativa, todos relacionados a análises macroeconômicas, nos quais a educação é uma das variáveis explicativas do aumento das desigualdades com a financeirização da economia. Outros estudos apresentam como ferramenta metodológica a análise por estatística descritiva também aqui assumindo um caráter mais exploratório do que explicativo.
Por fim, cabe apresentar a Tabela 8, que mostra o posicionamento dos autores frente aos resultados de seus objetos. A amostra coletada indica que o campo de estudo vem sendo majoritariamente crítico aos processos analisados. Isso porque, no geral, os estudos coletados mostram complexificação dos problemas vindos: (i) de um aprofundando na mercantilização da educação nas dimensões da oferta e do currículo; (ii) da transferência da responsabilidade da educação para as famílias e indivíduos; (iii) da criação de mecanismos de despolitização e aceitação do endividamento pessoal via reformas no ensino; e (iv) da entrada e proliferação de companhias no setor cujas estratégias visam a retirada de lucros imediatos. Poucos autores, portanto, enxergam elementos positivos ou que possam ser melhorados nos processos de aprofundamento da privatização da educação com a financeirização da economia.
Tabela 8 Posição dos autores sobre financeirização ou assetização nos artigos identificados – WoS e Scopus (2015-2023)
| Posição dos autores sobre o tema | Número de artigos |
|---|---|
| Crítico aos processos analisados | 46 |
| Não crítico aos processos analisados | 2 |
| Sugere correções e melhorias | 3 |
| Não se posiciona | 6 |
| Total | 57 |
Fonte: os autores, a partir da Scopus e da Web of Science.
ELEMENTOS PARA DIÁLOGOS E PESQUISAS FUTURAS
A primeira decorrência deste artigo é frisar que estudos sobre financeirização e educação são relativamente recentes, tanto no Brasil, quanto em outros contextos. Ainda que assentado em plataformas de publicações disponíveis na Web of Science e Scopus, condição que exclui a quase totalidade de periódicos brasileiros, percebeu-se um adensamento no volume de publicações sobre o tema a partir de 2021. Será um desafio relevante realizar o mesmo percurso analítico para estudos publicados no Brasil, tendo em vista que o país se apresenta como “modelo” de desregulamentação e estímulo à financeirização da educação em todos os níveis (Chaves, 2021).
Identificou-se uma diferença no volume de estudos que tomam o conceito de financeirização como parte fundamental do quadro analítico para os processos estudados e aqueles que associam os processos de ascensão das finanças no campo educacional como expressão da transformação deste direito em um ativo financeiro (assetização).
Do ponto de vista das citações – ou seja, do impacto das produções no campo – o que se percebe é que variam muito em quantidade quando contabilizadas pelas bases. Do total, um grupo de 16 artigos recebeu mais de 10 citações e, no geral, também não há repetição de autores nas produções mais citadas. Embora existam alguns autores que vêm sendo mais lidos e citados até a data da coleta, percebe-se que não há um autor que esteja com um volume muito alto de produções sobre a temática e que tem recebido maior atenção da comunidade científica. O mesmo se pode dizer sobre os periódicos que veiculam os artigos coletados. Nos contextos observados, não é possível também captar um periódico que seja o principal fórum de debate sobre o tema analisado, e há grande gama de temáticas abordadas pelos periódicos - com inclusive pouca incidência de periódicos específicos da educação.
Em termos gerais, há uma centralidade de instituições localizadas em países do norte global, associadas aos artigos mais citados, que acumulam aproximadamente 94% das citações. Neste caso, destacam-se os trabalhos de pesquisadores sediados nos EUA, em maior número e concentrando a maior parte das citações; seguido por Reino Unido, Portugal, Israel e Alemanha. Ao lado da baixa presença de instituições do sul global em publicações nestas plataformas sobre financeirização e educação básica (11), o Brasil é um bom exemplo, pois, embora tenha cinco artigos disponibilizados nestas plataformas, conta apenas com uma citação. Como forma de interpretação, pode-se inferir que a dificuldade de circulação destes trabalhos está associada à escrita em língua portuguesa, ao passo que em Portugal, por exemplo, os trabalhos utilizam a língua inglesa.
Em relação a isso, os artigos analisaram o tema mais recorrentemente nos EUA, Israel, Austrália e Suécia. Mas também se localizaram estudos em contextos como Turquia, Singapura, Rússia, Inglaterra, República Checa, Chile e Argentina, além de análises mais amplas envolvendo a União Europeia ou países membros da OCDE. Em resumo, a pesquisa indica tratar-se de fenômeno que atinge a educação em diferentes lugares do mundo, impactando no avanço da privatização da educação básica em diferentes dimensões. As produções se intensificaram entre 2021 e 2023, período que condensa 61% do total de artigos, em parte relacionado à ampliação dos processos de submissão da educação básica à financeirização, o que eleva o interesse de pesquisadores no tema.8
Interessa destacar que o artigo de maior impacto, “The rise of education rentiers: digital platforms, digital data and rents”, de Janja Komljenovic, associa o tema da financeirização a investimentos financeiros no desenvolvimento de tecnologias digitais para a educação, indicando a relação entre este modo de acumulação e a dinâmica do capitalismo na era digital. Além desta temática, tratada em cinco artigos, as publicações abordaram os seguintes temas: (i) financeirização e educação financeira (14 artigos), que apresentam as diretrizes das políticas educativas com propostas de agências internacionais para a formação de futuros investidores; (ii) contração de dívidas ou modelos de créditos (11), e considera formatos e consequências de programas de crédito para indivíduos, famílias e unidades escolares; (iii) estudos ligados ao campo da política-econômica (13), abordando consequências do neoliberalismo e impactos da financeirização no aumento das desigualdades; (iv) um conjunto de 9 artigos que se debruçaram sobre o impacto da financeirização no atendimento educacional, via criação de quase-mercados e presença de empresas de capital aberto no setor; e, por fim, (v) grupo de dois trabalhos que apresentam análises sobre o uso de plataformas digitais estimulados pela financeirização no período da pandemia de Covid-19.
Essas sínteses temáticas decorrem da rede de coocorrência de palavras-chave realizada por meio do software VOSViewer, pela qual se visualiza a frequência com a qual palavras -chave determinadas são identificadas juntas e no conjunto de artigos (Figura 3). Cabe destacar que os termos mais frequentes encontrados foram: financialization, education, financialisation, financial education, credit e debit.
Em relação à natureza das pesquisas que deram sustentação aos artigos, identificou-se a preponderância de pesquisa de abordagem qualitativa (52%), seguida por ensaios (30%). A concentração em metodologias de natureza exploratória, como revisão da literatura, ou focalizadas, como estudos de caso, pode relacionar-se ao estágio relativamente recente deste campo de estudo. O recurso à adoção de metodologias variadas – entrevistas, pesquisa documental, observação, ferramental estatístico (descritivo ou explicativo) etc. – também foi observado nos trabalhos derivados de pesquisas qualitativas.
Embora com focos diferentes para análise da financeirização ou assetização na educação, especialmente a básica, os artigos apresentam conclusões comuns: em geral (80%) críticas, apontando problemas no aprofundamento da privatização da educação e nas formas distintas de ampliação de desigualdades.
Por fim, este artigo introduz no campo de estudos exploratórios em educação uma metodologia para análise bibliométrica que buscou captar não apenas características – metadados e aspectos qualitativos – dos trabalhos inventariados, mas também indicar as conexões entre as produções que integram a base analisada, colaborando para a compreensão de como está configurado este campo de estudo.



