1 Introdução
Na última década, a teoria histórico-cultural - com suas diferentes denominações - vem ganhando espaço no Brasil, com destaque para a Educação em Ciências (GEHLEN e MATTOS, 2009; TOASSA, 2016; CAMILLO e MATTOS, 2019). De outra perspectiva, Roth, Lee e Hsu (2009) também apontaram que, de 1989 a 2009, trabalhos acadêmicos indexados na base de dados Web of Science (ISI), da Clarivate Analytics, que citam Vigotski, Leontiev e Engeström cresceram exponencialmente. Recentemente, Asbahr e Oliveira (2021) fizeram um levantamento abrangente de Grupos de Pesquisa (GPs) registrados no Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) na área da teoria histórico-cultural. É diante desse contexto que este trabalho se insere: foram utilizados os dados brutos disponibilizados por Asbahr e Oliveira (2021) para ampliar e aprofundar a caracterização da área de pesquisa da teoria histórico-cultural no Brasil a partir da produção científica e da formação de recursos humanos.
Asbahr e Oliveira (2021, p. 567) realizaram um levantamento dos GPs com o objetivo de “identificar grupos de pesquisa cadastrados no Diretório de Grupos de Pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (DGP-CNPq) que apontassem a Psicologia ou Teoria Histórico-Cultural como referencial teórico assumido”. Buscando 15 diferentes palavras-chave no nome, descrição do grupo e/ou linha de pesquisa, as autoras foram capazes de identificar 115 diferentes GPs na área da teoria histórico-cultural, dos quais 103 GPs foram classificados na área de Educação e na área de Psicologia. Os outros 12 GPs foram classificados em outras oito diferentes áreas, a saber: administração, antropologia, enfermagem, letras, linguística, física, matemática, e saúde coletiva.
Asbahr e Oliveira (2021, p. 573) encerram seu artigo com a expectativa que a comunidade científica possa dar continuidade ao estudo: “esperamos que os dados brutos abaixo apresentados em ordem alfabética possam servir de material para outras pesquisas sobre a extensão da teoria histórico-cultural no Brasil”. Desse modo, foram utilizadas as informações dos pesquisadores vinculados aos GPs na área de Educação e de Psicologia para identificar suas principais características a partir da análise das áreas de titulação, da produção científica e da formação de recursos humanos. Nessa perspectiva, este trabalho propõe dialogar e aprofundar o trabalho de Asbahr e Oliveira (2021), além de fomentar estudos que visam produzir uma reflexão sobre as características, a organização e as tendências da própria pesquisa na área da teoria histórico-cultural.
Para alcançar o objetivo proposto, aplicaram-se indicadores bibliométricos e cientométricos. Tais disciplinas compõem os Estudos Métricos da Informação (EMI) que, a partir de indicadores quantitativos das atividades científicas, fornecem importantes informações sobre o crescimento e o desenvolvimento da ciência e permitem avaliar o desempenho de pesquisadores, de instituições e de países (GLÄNZEL, 2003).
A bibliometria é definida como os estudos dos aspectos quantitativos de produção, dispersão e uso da informação registrada, sendo um segmento da Ciência da Informação (TAGUE-SUTCLIFFE, 1992). A Cientometria, por sua vez, é definida como o estudo dos aspectos quantitativos da ciência enquanto uma disciplina ou atividade econômica e é um segmento da Sociologia da Ciência, sendo aplicada para a definição de políticas públicas em Ciência e Tecnologia-C&T (PRICE, 1963; TAGUE-SUTCLIFFE, 1992; GLÄNZEL, 2003).
Nesses termos, ambas as disciplinas, juntamente com as demais que surgiram ao longo dos anos (Informetria, Webmetria, Patentometria e Altmetria), estão presentes nas diferentes áreas das Ciências Humanas. Conforme explica Hayashi (2013), elas se constituem como
campo interdisciplinar dedicado ao estudo quantitativo da ciência e da tecnologia e estão voltados para avaliar a produção científica e tecnológica produzida pela comunidade científica no interior das áreas de conhecimento, representada por artigos, livros, capítulos de livros, trabalhos publicados em anais de eventos, e também patentes (HAYASHI, 2013, p. 66).
Para o presente estudo, a utilização dessas métricas permitirão compreender as contribuições dos pesquisadores dos GPs das áreas de Educação e de Psicologia do CNPq para a produção de conhecimento científico e para a formação de recursos humanos.
2 Materiais e métodos
Trata-se de uma pesquisa de cunho descritivo, com abordagem quantitativa, que aplica indicadores bibliométricos e cientométricos de produção científica (número de trabalhos publicados), de recursos humanos (número de pesquisadores por área e perfil) e de formação de recursos humanos (número de mestres e de doutores titulados e em andamento) dos membros dos 96 Grupos de Pesquisa do CNPq que desenvolvem pesquisas no campo da teoria histórico-cultural. Conforme explicado anteriormente, a lista desses GPs foi obtida através do estudo realizado por Asbahr e Oliveira (2021). O nível de agregação deste estudo é considerado micro (GLÄNZEL, 2003), pois avalia pesquisadores que compõem os GPs vinculados a Instituições de Ensino Superior do Brasil. Os dados foram coletados nos Currículos Lattes dos 1.963 pesquisadores membros dos GPs, cuja coleta foi realizada entre os dias 18/08 e 24/09/2021. No momento do levantamento, sete links estavam desativados, o que impossibilitou o acesso aos GPs no DGP-CNPq, portanto o número total considerado foi de 96 GPs, sendo 64 da área de Educação e 32 da área de Psicologia.
Utilizou-se o software ScriptLattes (MENA-CHALCO e CESAR JUNIOR, 2009) para a extração de dados dos pesquisadores na plataforma do Currículo Lattes. Considerando que a extração dos dados pelo ScriptLattes depende do ID Lattes dos pesquisadores, a obtenção do ID do Currículo Lattes deu-se manualmente a partir do link do espelho dos GPs disponibilizado por Asbahr e Oliveira (2021).
Nesses termos, os seguintes campos foram recuperados, levando em conta o período de 2000-2020:
i) Titulação dos pesquisadores: graduação, mestrado e doutorado (em andamento ou completo);
ii) Produção científica: artigos completos publicados em periódicos, livros (publicados, organizados ou edições), capítulos de livros e trabalhos completos publicados em anais de eventos;
iii) Formação de Recursos Humanos (orientações concluídas): mestrado, doutorado e supervisão de pós-doutorado. Para esse caso, a análise ocorreu somente com os Pesquisadores que tiveram orientações no período, os quais representaram 16,0% do total.
2.1 Tratamento e análise dos dados
O software Excel e a Linguagem R de Programação foram utilizados para tratamento/normalização dos dados e para a realização das análises. Em relação ao tratamento/normalização, as seguintes ações foram feitas:
a) Agrupamento das titulações (graduação) informadas no Currículo Lattes. Primeiro, foram retirados da descrição das graduações os termos licenciatura, licenciado(a), bacharelado, bacharel, visto ser irrelevante a ênfase da titulação.
b) Do total de pesquisadores, ficou contatado que 0,3% (seis casos) possuem dois mestrados e 0,2% (cinco casos) possuem dois doutorados. Optou-se por manter a área e o período do último mestrado e do último doutorado informados.
c) As áreas das titulações (graduação, mestrado e doutorado) foram agrupadas a partir de radicais ou terminações comuns das palavras, sendo que o conjunto de letras “enge” sempre estava ligado aos cursos de engenharia. Assim, foram agrupados todos os termos “enge” em engenharia, e esse processo foi repetido diversas vezes para cada nível de titulação a fim de refinar os agrupamentos, utilizando-se como referência as áreas e subáreas da CAPES4. Por exemplo, os mestrados e doutorados que são “educação em matemática”, “educação em ciências”, “educação em ciências e matemática”, “ensino de ciências”, “ensino de ciências e matemática”, “educação para ciências”, entre outras combinações, foram todos agrupados dentro da subárea 90201000 Ensino de Ciências e Matemática. Durante esse processo, identificaram-se diversos erros de digitação, visto que, em alguns currículos, as titulações (graduação) estavam assim grafadas: “pedgogia”, “pegagogia”, “bilogia”, entre outros. Nesses casos, os dados foram padronizados.
d) Identificou-se que 28 pesquisadores (1,4% do total) não informaram em seus respectivos currículos o curso de graduação, embora tenham informado a titulação de mestrado e de doutorado. Para esses casos, não foram contabilizadas as graduações, apenas as outras titulações informadas.
e) Utilizou-se o método de regressão linear multivariada (AGRESTI e FINLAY, 2012) para avaliar a relação entre o número de artigos em periódicos por GPs e a proporção de pesquisadores com títulos de doutor controlado pelas áreas de interesse de educação e psicologia (ver Gráfico 6).
3 Resultados e discussão
Os resultados foram organizados em três seções: 3.1) Perfil dos Grupos de Pesquisa (Número de GP por área, número de pesquisadores por GP, áreas de titulação dos pesquisadores por GP); 3.2) Produção Científica por GP; e 3.3) Formação de Recursos Humanos.
3.1 Perfil dos pesquisadores que compõem os Grupos de Pesquisa
O total de GPs que foram analisados foi de 96, sendo que 64 foram cadastrados na área de Educação e 32 na área de Psicologia, integrando um total de 1.963 pesquisadores membros. Desse montante de pesquisadores cadastrados, 1.263 são membros da área de Educação e 674 são da área de Psicologia. Contatou-se que 26 pesquisadores estão simultaneamente associados a GPs das duas diferentes áreas, e que a média de pesquisadores por GP é 20,4.
O gráfico 1 (A-C) apresenta as áreas de titulações (graduação, mestrado e doutorado) dos pesquisadores que integram os GPs das áreas de Educação e de Psicologia. Ao todo, identificaram-se 145 cursos diferentes de graduação (Gráfico 1A), o que confere aos GPs uma formação multidisciplinar. Os três cursos de graduação com maior número de frequência foram: Pedagogia (n = 735), o que corresponde a 31,2% do total; Psicologia (n = 648), o que corresponde a 27,5%; e Matemática (n = 176), o que corresponde a 7,5%.

Fonte: Elaborado pelos autores, com base em dados da pesquisa
Gráfico 1 Áreas de titulação dos pesquisadores integrantes dos Grupos de Pesquisa do CNPq das áreas de Educação e de Psicologia: (A) Graduação, (B) Mestrado e (C) Doutorado com maior número de frequência
Ao comparar os dados (Gráfico 1A) pelas áreas dos GPs em separado, foi possível observar que, embora os GPs da área de Educação tenham o dobro de membros em comparação aos GPs da área de Psicologia, esse fato não se reflete proporcionalmente nas áreas de graduação. Como resultado, os GPs de Educação abrangem uma maior diversidade de áreas de cursos de graduação tendo caráter mais heterogêneo.
Em relação à Pós-Graduação (Gráfico 1B-C), constatou-se um distanciamento entre as áreas de Educação e de Psicologia, cuja proporção desse distanciamento se mantém tanto no mestrado quanto no doutorado. Esse resultado pode indicar que os pesquisadores que formam os GPs trabalham a teoria histórico-cultural em seu aspecto educacional, com problemas mais ligados à Educação do que a Psicologia, estritamente falando.
Nessa linha, tanto no mestrado quanto no doutorado há destaque para a área Ensino de Ciências e Matemática. A presença considerável de pesquisadores com pós-graduação nessa área é um resultado quantitativo que está em consonância com o apontamento feito por Camillo e Mattos (2019). Os resultados obtidos no presente estudo corroboram também com os resultados obtidos por Bonfim, Solino e Gehlen (2019) acerca do uso de Vigotski como referencial teórico de dissertações e teses na área de Educação em Ciências no Brasil. Para as referidas autoras, houve um crescimento significativo de teses e dissertações defendidas entre 1991 e 2016 que utilizam conceitos vigotskianos. Na presente pesquisa, a maioria dos pesquisadores defenderam seus doutorados na área de Ensino de Ciências e Matemática a partir de 2016.
Em sequência, o gráfico 2 apresenta a evolução temporal das principais áreas nas quais ocorreram defesas de doutorado, sendo que dos 1.963 pesquisadores dos GPs analisados, 683 (34,8%) pesquisadores têm doutorado completo, titulações obtidas no período de 1979 a 2020.

Fonte: Elaborado pelos autores, com base em dados da pesquisa
Gráfico 2 Número de pesquisadores integrantes dos Grupos de Pesquisa do CNPq das áreas de Educação e de Psicologia com o título de doutor por área e ano de titulação
Nesses termos, o primeiro doutorado foi defendido em 1979, na área de Psicologia. Na área de Educação, o primeiro doutorado seria defendido cinco anos depois, em 1984. Embora haja uma defesa de doutorado em Ensino de Ciências de Matemática em 1983, essa foi uma exceção. Na área de Ensino de Ciências e Matemática, os doutorados estão concentrados, majoritariamente, a partir de 2013. Vale ressaltar que a primeira vez que um doutorado foi defendido em uma área distinta das áreas de Psicologia, Educação, Ensino de Ciências e Matemática e Medicina foi em 1989, porém somente a partir de 1995 que outras áreas começariam a aparecer com mais frequência.
Diante dessa diversidade de titulações dentro dos GPs, importante esclarecer como se deu a trajetória de quem concluiu ou está realizando doutorado. O gráfico 3indica a movimentação das áreas de titulação de todos os pesquisadores com doutorado completo ou em andamento, sendo que o n = 893 pesquisadores, 45,5% do total.

Legenda: As cores utilizadas têm como referência a área do doutorado. Vermelho indica doutorado em educação, ao passo que o azul indica o doutorado em psicologia. Fonte: Elaborado pelos autores, com base em dados da pesquisa
Gráfico 3 Movimentação das áreas dos 893 pesquisadores integrantes dos Grupos de Pesquisa do CNPq das áreas de Educação e de Psicologia com doutorado completo ou em andamento
A partir do gráfico 3, é possível verificar dois caminhos esperados: 1) graduação em pedagogia implicou um mestrado em Educação e um doutorado em Educação. Esse trajeto de formação acadêmica correspondeu a 193 pesquisadores (21,6%); 2) graduação em psicologia implicou um mestrado em Psicologia e um doutorado em Psicologia para 168 pesquisadores (18,8%). Contudo, o inesperado foi observar que a troca de áreas corresponde a mais da metade dos pesquisadores com doutorado completo ou doutorado em andamento (59,0%). Alguns pesquisadores, por exemplo, começaram a formação em psicologia (graduação), mas acabaram se titulando doutor ou estão realizando doutorado em Programas de Pós-Graduação em Educação. Também importante atentar para a trajetória acadêmica daqueles que possuem mestrado e doutorado em Ensino de Ciências e Matemática: possuem, majoritariamente, a graduação em física (11 pesquisadores). Esses pesquisadores estão concentrados em um único GP. Nessa perspectiva, foram constatados muitos outros caminhos das áreas de titulação até chegar ao doutoramento. O gráfico 4 apresenta as datas de titulação dos pesquisadores que compõem os 96 GPs.

Fonte: Elaborado pelos autores, com base em dados da pesquisa
Gráfico 4 Ano de titulação do mestrado e doutorado dos pesquisadores integrantes dos 96 Grupos de Pesquisa do CNPq das áreas de Educação e de Psicologia do CNPq
Uma interpretação da queda a partir de 2014 para o mestrado e 2017 para o doutorado pode estar relacionada à demora em atualizar, no portal do GP, os currículos de seus membros, além de acompanhar a restrição de verbas das principais agências de fomento de pesquisa científica, conforme apontado por Silva Júnior e Fargoni (2021).
3.2 Produção científica
Ao analisar a produção científica dos 1.963 pesquisadores membros dos GPs, de 2000 a 2020, identificou-se um total de 43.876 apresentações de trabalhos em eventos científicos, 2.851 livros, 9.410 capítulos de livros, 13.956 trabalhos completos em anais de congressos e 10.974 artigos completos em periódicos. Os pesquisadores apresentaram, em média, 2 mil trabalhos em eventos científicos nacionais e internacionais, por ano. Vale lembrar que esses números representam a produção científica total por pesquisador. Contudo, há produção científica que possui mais de um autor, e que ambos autores integram os GPs analisados. Logo, se cada autor incluiu em seu respectivo Currículo Lattes a publicação em questão, então ela foi contada mais de uma vez ao fazer o levantamento com o ScriptLattes. Assim, uma análise pormenorizada da produção científica única está em desenvolvimento para compor futuros estudos.
Em relação à distribuição do número de artigos publicados em periódicos ao longo dos anos, é possível notar um crescimento expressivo, com destaque para dois momentos: i) de 2008 a 2012, ocorreu um crescimento contínuo de artigos publicados, dobrando o número de publicações em relação aos anos anteriores; ii) de 2019 a 2020, houve o maior crescimento percentual de publicações em todo o período, apresentando um aumento de 25,9%.
Com base nesses resultados, não é possível relacionar ou justificar causalidade com os apontamentos feitos na literatura, conforme apontado por Salém (2012), Silva e Hai (2016); e Bonfim, Solino e Gehlen (2019). Segundo os autores, teve um aumento no número de dissertações e teses que utilizam o referencial teórico vigotskiano ao longo das últimas décadas. Com os resultados da presente pesquisa, embora haja um aumento do número de dissertações e teses defendidas, não se pode inferir que este está correlacionado com o número de artigos publicados em periódicos pelos mesmos pesquisadores. Noutras palavras, não se pode garantir que uma justificativa para o crescimento contínuo ao longo dos anos de artigos publicados em periódicos seja fruto do aumento do número de dissertações e teses defendidas.

Fonte: Elaborado pelos autores, com base em dados da pesquisa
Gráfico 5 Distribuição do número de artigos em periódicos dos pesquisadores membros dos Grupos de Pesquisa do CNPq das áreas Educação e Psicologia por ano (2000-2020)
Por fim, em relação à produção acadêmica, o gráfico 6 apresenta três variáveis: 1) número de artigos em periódicos por GP, separando os de Educação e os de Psicologia; 2) proporção de pesquisadores com doutorado completo em GP; 3) número de pesquisadores por GP.

Legenda: Grupos de Pesquisa da área Educação: 64; Grupos de Pesquisa da área Psicologia: 32. A contagem de artigos para cada GP é por pesquisador, sendo que 26 pesquisadores pertencem a dois ou mais Grupos de Pesquisa classificados em ambas as áreas, Educação e Psicologia; 53 pesquisadores pertencem a dois ou mais Grupos de Pesquisa classificados na área de Educação e 33 pesquisadores pertencem a dois ou mais Grupos de Pesquisa classificados na área de Psicologia. A linha preenchida indica a regressão linear, e o sombreamento em cinza indica o desvio padrão da amostra. Fonte: Elaborado pelos autores, com base em dados da pesquisa
Gráfico 6 Distribuição do número de artigos em periódicos por Grupo de Pesquisa do CNPq das áreas de Educação e Psicologia, de 2000-2020
O gráfico 6 apresenta dois segmentos de reta que representam a média do número de artigos em periódicos por GP. Ambos os segmentos apresentam inclinação positiva, o que indica que, na média, conforme cresce a proporção de pesquisadores com o título de doutor por GP, também cresce o número de artigos publicados pelos GPs. O tamanho da circunferência indica a quantidade de pesquisadores por GP. O menor dos grupos possui dois membros; e o maior, 110.
O tratamento estatístico dos dados presentes no gráfico 6 permite concluir que:
i) Não há diferença significativa entre a produção de artigos entre as diferentes áreas de Educação ou Psicologia. Ambas as áreas contribuem igualmente para a pesquisa na teoria histórico-cultural.
ii) Não há diferença significativa entre a produção de artigos dos diferentes GPs. Apenas três dos 96 GPs apresentaram uma produção muito acima da média.
iii) O número de artigos em periódicos é estatisticamente significativo em relação à proporção de pesquisadores dos GPs com o título de doutor e em relação ao número de pesquisadores por GPs5.
Portanto, modo geral, a pesquisa em teoria histórico-cultural, representada pelos GPs de Educação e Psicologia encontrados por Asbahr e Oliveira (2021), vem sendo desenvolvida simetricamente entre as áreas.
3.3 Formação de recursos humanos
Considerando a expressiva contribuição dos membros dos GPs para a produção de conhecimento científico, surge a necessidade de identificar o número de orientações concluídas ou em andamento pelos pesquisadores-orientadores.
Dos 1.963 pesquisadores que integram os 96 GPs, 315 (16,0%) pesquisadores foram responsáveis pela titulação de 3.782 mestres e 147 (7,5%) pesquisadores foram responsáveis pela titulação de 1.016 doutores de 2000 a 2020, totalizando 4.798 mestres e doutores titulados. Um grupo menor de pesquisadores, 60 (3,1%) foi responsável por supervisionar 178 pós-doutorados. O crescimento no número de mestres e doutores titulados por ano foi linear, conforme Gráfico 7.

Fonte: Elaborado pelos autores, com base em dados da pesquisa
Gráfico 7 Número de mestres e doutores titulados pelos pesquisadores-orientadores membros dos Grupos de Pesquisa do CNPq das áreas de Educação e Psicologia entre 2000 e 2020
A queda no número de mestres e doutores titulados pelos pesquisadores-orientadores membros dos GPs em 2020 pode estar relacionada à pandemia do coronavírus, que modificou a dinâmica das instituições de ensino e de pesquisa. Nesse cenário, alguns programas de pós-graduação, como o Programa de Pós-Graduação Interunidades em Ensino de Ciências (USP) permitiu, em caráter excepcional, uma prorrogação dos prazos para a defesa.
4 Considerações finais
Os resultados desta pesquisa permitiram identificar algumas características da área de pesquisa da teoria histórico-cultural a partir de uma análise dos pesquisadores que compõem 96 Grupos de Pesquisa de Educação e Psicologia cadastrados no CNPq inicialmente levantados por Asbahr e Oliveira (2021). Nessa perspectiva, este trabalho se constitui em um passo adicional para a construção de um panorama dessa área de pesquisa.
Embora esses grupos se identifiquem predominantemente nas Ciências Humanas (Educação ou Psicologia), vale lembrar que a titulação dos pesquisadores é multidisciplinar. Apenas na graduação, por exemplo, há mais de 140 diferentes cursos compondo um amplo espectro que engloba cursos das Ciências Sociais e Ciências Exatas. É provável que este seja um fator que contribua para explicar porque as áreas das titulações de Pós-Graduação não são exclusivamente Educação e Psicologia, com destaque para Ensino de Ciências e Matemática, Medicina e Letras.
Em se tratando da produção científica, é possível afirmar que as duas áreas investigadas, Educação e Psicologia, contribuem, através de seus GPs, igualmente para a realização da pesquisa na área da teoria histórico-cultural. Além disso, os dados indicam que fatores como o tamanho do grupo e a proporção de pesquisadores com o título de doutor impactam significativamente na produção científica. Do ponto de vista da formação de recursos humanos, tem-se que os pesquisadores-orientadores que compõem os 96 GPs têm orientado e titulado mestres e doutores em um número crescente nos últimos 20 anos.
Este artigo consiste em uma primeira tentativa de apresentar um amplo levantamento do perfil dos pesquisadores da teoria histórico-cultural nos aspectos da produção científica e da formação de recursos humanos. Assim como pontuado por Asbahr e Oliveira (2021), há limitações desse levantamento que não cobrem todos os pesquisadores dedicados à pesquisa na teoria histórico-cultural no Brasil, seja porque não participam de Grupos de Pesquisa cadastrados no CNPq, ou porque compõem Grupos de Pesquisa nas quais as áreas predominantes não sejam Educação ou Psicologia (como os 245 pesquisadores em GPs de outras 9 áreas), ou ainda porque compõem GPs criados a partir de 2019.
Os resultados apresentados neste trabalho poderão subsidiar outros pesquisadores da área da teoria histórico-cultural ou, mais amplamente, da psicologia educacional, a compreender um perfil dessa área de pesquisa.










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