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Obutchénie. Revista de Didática e Psicologia Pedagógica

versão On-line ISSN 2526-7647

Obutchénie: R. de Didat. e Psic. Pedag. vol.8  Uberlândia  2024  Epub 10-Jun-2025

https://doi.org/10.14393/obv8.e2024-5 

DOSSIÊ - Psicologia Histórico Cultural no Ensino Superior: tecendo contribuições

Apresentação - Psicologia Histórico Cultural no Ensino Superior: tecendo contribuições

Camila Trindade1 
http://orcid.org/0000-0001-9489-9050

Nilza Sanches Tessaro Leonardo2 
http://orcid.org/0000-0002-1692-9581

Adriana de Fátima Franco3 
http://orcid.org/0000-0002-2727-1367

1Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Estadual de Maringá-Paraná- Brasil. E-mail: trindadecami@gmail.com.

2Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Estadual de Maringá-Paraná- Brasil. E-mail: nilza_sanches@yahoo.com.

3 Programa de Pós-Graduação em Psicologia da Universidade Estadual de Maringá-Paraná- Brasil. E-mail: affranco@uem.br.


A partir da década de 1960, considerando a Reforma Universitária, é possível observarmos no Brasil, a intensificação do movimento pela construção de um ensino superior que estivesse alinhado com as questões do então desenvolvimento nacional. Tal desenvolvimento, conforme Fávero (2006) fundava-se na perspectiva de expansão econômica, via o processo de industrialização. Nesse sentido, a educação formal em geral, especialmente o ensino superior, tanto no que diz respeito a sua estrutura quanto o seu conteúdo, passa a ser cada vez mais discutida pelos setores governamentais. Acrescente-se também, o fato de que a mobilização estudantil, sobretudo no ano de 1968, constituiu um papel importante de questionamento das contradições constituídas no contexto do ensino superior (FÁVERO, 2006).

Essa dinâmica revela a existência de diferentes perspectivas e, portanto, interesses para pensar e construir o ensino superior brasileiro, desde as que são diretamente voltadas ao desenvolvimento da sociedade capitalista em si, até as que buscavam questionar e pensar outras possibilidades formativas nesse contexto de ensino. Sobre isso, Chauí (2001) enfatiza a importância de não perdermos de vista a defesa do ensino superior brasileiro em seu caráter público, isto é, das de universidades públicas, enquanto direito democrático dos cidadãos brasileiros.

Considerando essa perspectiva, mais recentemente, sobretudo a partir dos anos 2000, constatou-se a implementação e o desenvolvimento de um conjunto de políticas públicas voltadas à expansão e ao financiamento do ensino superior brasileiro. Tais políticas, implicam diretamente no cotidiano das instituições educativas, pois envolvem, por exemplo, tanto a ampliação da quantidade de estudantes no ensino superior quanto as condições de possibilidade de suas permanências. Vale destacar, a partir das reflexões tecidas por Chauí (2001), a relevância de desvelarmos os conteúdos e os desdobramentos dessas novas políticas, dado que a finalidade do ensino não diz respeito a mera transmissão de conteúdos em si e a formação de obra barata para o mercado de trabalho.

Com base nessa breve introdução do contexto do ensino superior brasileiro, marcada por diferentes possibilidades e desafios, passamos a refletir também sobre as relações Psicologia e Educação. Nesse sentido, enfatizamos que historicamente a área da Psicologia Escolar e Educacional esteve voltada, principalmente, às demandas e intervenções no âmbito da Educação Básica brasileira. Ao analisar a relação Psicologia e Educação em nossa sociedade, Barbosa (2011) pontua o papel das influências estadunidenses e francesas na compreensão dos processos educativos da educação básica, compreensões essas que eram voltadas à uma perspectiva psicométrica de entendimento dos indivíduos que apresentavam as ditas dificuldades de aprendizagem. Segundo a autora, tais entendimentos começaram a serem superados quando teve início pesquisas e intervenções na interface Psicologia e Educação em uma perspectiva crítica, que considerava as múltiplas relações que constituem os sujeitos.

Essas novas possibilidade de concepções das relações Psicologia e Educação culminaram para além das terminologias, Psicologia Escolar / Psicologia Educacional, e da educação básica brasileira em si, mas sim fazendo uma reflexão sobre os diferentes níveis de ensino, sobretudo para as suas diferentes estruturas e conteúdo. Tanto é isso que, Tanamachi (2000 p. 75) pondera a necessidade de voltarmos “nossa atenção tanto para o referencial teórico que lhe tem dado sustentação quanto para a pratica profissional dele decorrente, em virtude das finalidades sociais da ação do psicólogo na educação escolar e da própria Psicologia enquanto ciência”.

É também partindo dessa reflexão que objetivamos com o presente dossiê sistematizar diferentes contribuições, elaboradas a partir da Teoria Histórico- Cultural para a compreensão e a intervenção no Ensino Superior. A respectiva opção epistemológica fundamenta-se, entre outros aspectos, no fato desta teoria contribuir para o desvelamento da constituição humana, de modo singular, particular e universal, isto é, para além do olhar em si e por si dos indivíduos; ao mesmo tempo, lançar condições de possibilidades teórico-práticas para as elaborações de intervenções no ensino superior que vislumbrem o pleno desenvolvimento dos sujeitos. Visto que, a partir das sistematizações de Vigotski (2001), entendemos a importância do processo educativo, intencionalmente organizado, na constituição dos seres humanos.

Assim, o primeiro manuscrito do dossiê, intitulado “Desafios à formação da consciência comunista no ensino superior: pensamento teórico e vontade de realização prática” de autoria de Angelo Antonio Abrantes e Silvana Calvo Tuleski tem como horizonte apresentar as contribuições da Pedagogia Histórico- Crítica e da Psicologia Histórico Cultural ao trabalho educativo no ensino superior. Desse modo, ao discutirem e analisarem as relações de ensino, aprendizagem e desenvolvimento, os autores defendem a necessidade do conhecimento tanto das teóricas pedagógicas quanto das finalidades da educação para pensarmos a efetiva formação científica dos estudantes do ensino superior. Nesse percurso, a educação superior apresenta-se como uma das determinações fundamentais da constituição dos sujeitos, especialmente para a superação da consciência fragmentada fomentada pelo modo de produção capitalista.

O segundo manuscrito, de autoria de Walêska Dayse Dias de Sousa, nomeado “Docência universitária e aprendizagem de estudantes monitores de engenharia”, visa potencializar a constituição da docência universitária na perspectiva da teoria histórico-cultural a partir da análise do processo de aprendizagem de estudantes monitores da disciplina de cálculo em graduação de engenharia. Para tanto, ao discutir o que os estudantes revelam sobre suas experiências no processo de monitoria, a autora tece análises sobre as relações estudantes e docentes, bem como suas estratégias de estudos, entre outros. Com isso, enfatiza-se a necessidade e a relevância da ampliação e criação de espaços coletivos que estejam voltados à formação da docência universitária.

Já o terceiro manuscrito, nomeado “O possível dentro do impossível”: sentidos atribuídos por professores/as universitários/as relacionados ao ensino remoto emergencial, de autoria de Maria Fernanda Diogo, realiza um convite para refletirmos sobre a questão da docência no ensino superior e o ensino remoto emergencial (ERE). Nesse trabalho, são destacados os sentidos atribuídos ao respectivo ensino por parte de professores/as universitários/as. Tais sentidos, são discutidos e analisados em diferentes Núcleos de Significação que discorrem sobre os desafios da aprendizagem, a perda de referências, as condições objetivas e as impossibilidades pedagógicas.

Por sua vez, o quarto manuscrito, de autoria de Herculano Ricardo Campos, Maria da Apresentação Barreto, Marilda Gonçalves Dias Facci, Eloisa Rocha de Sousa Alves e Hiany Gasparetti Bertuccini, intitulado Mediações pedagógicas no ensino remoto: percepção dos estudantes na formação de psicólogos durante a pandemia do COVID-19, objetiva compartilhar dados de uma pesquisa realizada com graduandos de psicologia acerca do ensino remoto desenvolvido durante a pandemia do COVID-19. Os respectivos sujeitos de pesquisa revelam o surgimento de diversas contradições em meio a essa nova dinâmica educacional, os quais se relacionam com o processo de ensino-aprendizagem, mas também do próprio sofrimento decorrente do contexto da pandemia. Vale acrescentar, a reflexão realizada pelos autores no sentido de que a crítica em relação ao ensino remoto, não diz respeito necessariamente às ferramentas tecnológicas, mas na forma como ela foram utilizadas ao longo desse período.

O quinto manuscrito, de autoria de Silvia Maria Cintra da Silva, Camila Turati Pessoa, Gustavo Antônio Rodrigues Leite, Marlon de Oliveira Cunha e Sofia D Agostino Mascarin, chamado “EsperançArte - uma proposta da Psicologia Escolar para o Ensino Superior” apresenta um importante relato de experiência de um Estágio em Psicologia Escolar. Contando com a participação de estagiárias/os dos cursos de graduação Psicologia e Pedagogia de uma instituição pública de ensino, a proposta das atividades estágio são voltadas aos ingressantes do Ensino Superior e revelam a importância e potência da construção de espaços coletivos para os respectivos sujeitos.

No que diz respeito ao sexto manuscrito, intitulado Desnaturalizando o fracasso no Ensino Superior: debatendo acerca da atividade de estudo profissionalizante, de autoria de Camila Trindade, Nilza Sanches Tessaro Leonardo e Adriana de Fátima Franco, temos a possibilidade de compreender e refletir sobre a questão das dificuldades de aprendizagem no respectivo nível de ensino. Partindo da discussão sobre a constituição da atividade de estudo dos acadêmicos, as autoras constroem sua discussão sobre o fracasso no ensino superior a partir das múltiplas determinações que envolvem o processo. Nesse percurso, as autoras almejam contribuir com o desenvolvimento de compreensões e práticas que buscam desnaturalizar o dito fracasso escolar no ensino superior.

Em relação ao sétimo manuscrito, de autoria de Solange Pereira Marques Rossato, Sônia Mari Shima Barroco, Hilusca Alves Leite, e Ana Paula da Paz Tavares, intitulado Inclusão na Educação Superior: do que estamos falando? somos convocados para refletir sobre o tema da Educação Inclusiva no ensino superior. Assim, tendo em vista os desafios da temática, as autoras afirmam a necessidade do compromisso ético e político com o desenvolvimento da genericidade em todos os sujeitos.

O oitavo manuscrito, de autoria de Yolanda Rosas Rivera, denominado El desarrollo de la personalidad desde la educación inclusiva, a partir da análise qualitativa das experiências pedagógicas, objetiva refletir sobre o desenvolvimento da personalidade de estudantes do ensino superior. Nesse sentido, a autora discorre sobre experiências educativas na educação inclusiva, sinalizando como as atividades desenvolvidas podem impulsionar o desenvolvimento dos estudantes. Com isso, observa-se que a educação inclusiva pode ser um importante processo que possibilita o desenvolvimento dos motivos que constituem a personalidade dos respectivos sujeitos.

Por fim, o nono manuscrito, denominado Os processos dialógicos na concepção do projeto de investigação científica em línguas, de autoria de José Marra, objetiva analisar as relações dialógicas entre o conteúdo dos projetos de investigação dos estudantes da língua portuguesa e os alguns quadros teóricos. Para tanto, o autor discorre sobre o contexto da educação superior em Moçambique, apontando sua intrínseca relação com a forma da sociedade capitalista. As quais, direcionam a atividade de estudantes e docente estão condicionadas às leis do mercado.

Assim, a partir da organização dos respectivos manuscritos entendemos a possibilidade tanto do desvelamento das contradições educativas postas no ensino superior quanto possibilidades de caminhos de sua superação. Nesse percurso, a partir das contribuições da Psicologia Histórico-Cultural, o processo educativo revela-se como essencial ao desenvolvimento humano do jovem-adulto. Do mesmo modo, a função do professor, também no ensino superior, é concebida como primordial à constituição dos processos de ensino-aprendizagem.

Referências

BARBOSA, D. R. Estudos para uma história da Psicologia Educacional e Escolar no Brasil. 2011. Tese (Tese de Doutorado). Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Universidade São Paulo, São Paulo, SP. [ Links ]

CHAUÍ, M. S. (2001). Escritos sobre a universidade. São Paulo: Editora Unesp. [ Links ]

FÁVERO, M. L. A. A Universidade no Brasil: das origens à Reforma Universitária de 1968. Revista Educar, 28, 2006. Disponível em: https://www.scielo.br/j/er/a/yCrwPPNGGSBxWJCmLSPfp8r/?format=pdf&lang=pt. [ Links ]

TANAMACHI, E. R. Mediações Teórico-práticas de uma visão crítica em Psicologia Escolar. In: TANAMACHI, E. R.; PROENÇA, M.; ROCHA, M. Psicologia e Educação: desafios teórico-práticos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2000, p. 73-104. [ Links ]

VIGOTSKI, L. S. A construção do pensamento e da linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001. [ Links ]

Recebido: 01 de Fevereiro de 2024; Aceito: 01 de Fevereiro de 2024

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