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Obutchénie. Revista de Didática e Psicologia Pedagógica

versão On-line ISSN 2526-7647

Obutchénie: R. de Didat. e Psic. Pedag. vol.8  Uberlândia  2024  Epub 10-Jun-2025

https://doi.org/10.14393/obv8.e2024-14 

DOSSIÊ - Psicologia Histórico Cultural no Ensino Superior: tecendo contribuições

Os processos dialógicos na concepção do projeto de investigação científica em línguas

Los procesos dialógicos en la estructura del proyecto de investigación científica en lenguas

1 Assistant Professor of the Faculty of Arts and Humanities at Universidade Licungo in Mozambique, Mozambique. E-mail: marra.jose@yahoo.com


RESUMO

A construção de qualquer texto implica a assunção do posicionamento do enunciador que orienta a constituição dos enunciados. Ainda assim, os enunciados realizam-se sob o empreendimento dialógico da língua como seu princípio constitutivo e de ação. O presente artigo objetiva analisar as relações dialógicas entre o conteúdo dos projetos de investigação dos estudantes da língua portuguesa e os respetivos quadros teóricos, considerando a teoria histórico-cultural como sua base epistemológica e as noções de discurso e de texto de Dominique Maingueneau e Mikhael Bakhtin, respetivamente. A metodologia utilizada foi de caracter interpretativo, baseada na qualidade dos nexos de sentido instituídos na relação do investigador com os dados (partes de textos extraídos para a análise). O artigo conclui que os processamentos dialógicos que os estudantes de línguas empreendem na construção do quadro teórico de suas pesquisas resultam maioritariamente de citações diretas às quais ficam subordinadas todas as estratégias argumentativas do texto.

Palavras-chave: Língua; Discurso; Dialogismo

RESUMEN

La construcción de cualquier texto implica la asunción de la posición del enunciador, que guía la constitución de los enunciados. Aun así, los enunciados se realizan bajo la empresa dialógica del lenguaje como su principio constitutivo y de acción. Este artículo pretende analizar las relaciones dialógicas entre el contenido de los proyectos de investigación de los estudiantes de lengua portuguesa y los respectivos marcos teóricos, considerando la teoría histórico-cultural como su base epistemológica y las nociones de discurso y texto de Dominique Maingueneau y Mikhael Bakhtin, respectivamente. La metodología utilizada fue interpretativa, basada en la calidad de los vínculos de significado establecidos en la relación del investigador con los datos (partes de textos extraídas para el análisis). El artículo concluye que los procesos dialógicos que emprenden los estudiantes de idiomas al construir el marco teórico de su investigación son, en su mayoría, el resultado de citas directas a las que se subordinan todas las estrategias argumentativas del texto.

Palabras clave: La lengua; Discurso; Dialogismo

ABSTRACT

Any structure of a given text entails the hypothesis of the enunciator's locus, which guides the composition of all his statements. Even so, the statements are carried out under the dialogical initiative of language as its constitutive and action principle. This article aims to analyze the dialogical relationships between the content of Portuguese language students' research projects and the respective theoretical frameworks, considering historical-cultural theory as its epistemological basis and the notions of discourse and text by Dominique Maingueneau and Mikhael Bakhtin, respectively. I used the interpretative approach as the main methodology, based on the quality of the acquaintances of meaning established in the researcher's relationship with the data (parts of texts extracted for analysis). As the main conclusion, the article utters that the dialogical processes that language students undertake in constructing the theoretical framework of their research result mainly from direct quotations to which all the argumentative strategies of the text are subordinated.

Keywords: Language; Enunciation; Dialogism

1 Introdução

A matriz constitutiva do presente artigo situa-se no contexto da Didática de Ensino Superior aplicada aos cursos de línguas, muito particularmente, no de licenciatura em língua portuguesa da Faculdade de Educação da Universidade Licungo de Moçambique, onde leciono a Unidade Curricular de Trabalho de Culminação do Curso, doravante TCC, a estudantes do 4º ano do curso de licenciatura em ensino da língua portuguesa.

A disciplina de TCC ocorre no último semestre do curso. Aliás, a colocação desta disciplina neste semestre objetiva dar continuidade a uma outra disciplina, Método de Estudos e de Investigação Científica (MEIC), lecionada no 1º semestre do curso numa perspetiva prático-instrumental. Na disciplina de TCC, o docente orienta e acompanha a lógica das técnicas de construção metodológica dos projetos de investigação científica dos estudantes em ciências sociais e humanas, dentro das quais se encontra a área das línguas, ajudando-os a compreender a construção deste género académico-científico de texto.

De acordo com o plano curricular em vigor na Faculdade de Educação, esta disciplina deve ser lecionada por um docente com o grau académico de Doutor por envolver experiências no âmbito da investigação científica, publicação e orientação de trabalhos a vários níveis na área de especialidade. Fato que me faz presumir, então, que esses requisitos constituem condições basilares para a ampliação das habilidades a desenvolver previstas no plano curricular, o qual preconiza que durante o processo o estudante é avaliado tendo em conta se “Aplica os saberes adquiridos para a elaboração de uma pesquisa científica [e se] Trabalha com autonomia e responsabilidade na elaboração de monografia científica e outros trabalhos de natureza científica” (PLANO ANALÍTICO DE TRABALHO DE CULMINACAO DE CURSO, 2023, o acréscimo em parênteses retos é meu).

No contexto da lecionação do TCC, fui-me deparando com algumas características dos estudantes no campo de construção do enquadramento teórico (revisão da literatura) de suas propostas de pré-projetos de investigação científica que, no conjunto do corpus discursivo, assinalam a ocorrência de vozes significativas na determinação do sentido que gostavam de conferir a essas mesmas propostas. Na minha opinião, essas vozes são importantes na construção da totalidade do discurso científico pretendido para legitimar a relevância dessas propostas de trabalho. Até porque elas empreendem formas dialógicas cujas relações de seus enunciados definem determinadas posições no todo do discurso de seus proponentes.

Na verdade, essas posições caracterizam a tessitura geral do texto que, pretendendo suportar teoricamente o fio condutor do discurso das propostas de projetos de investigação, erigem um uso discursivo específico no apoio à autenticação e legitimação do texto, a vários níveis, ao convocar enunciados de outros textos estabelecendo-se relações de sentido nos textos propostos que têm por base enunciados de outros textos (FIORIN, 2016).

Assim, o presente texto objetiva-se analisar as relações entre os conteúdos dos pré-projetos de investigação e os quadros teóricos que eles propõem para a realização da investigação científica, tendo como base as noções de Análise de Discurso de Dominique Maingueneau com desdobramento de estudos do dialogismo em Bakhtin. A construção do texto e da análise orientam-se por algumas noções da teoria histórico-cultural como o seu guarda-chuva.

Para perseguir este objetivo vou, em primeiro lugar, identificar as aproximações e os distanciamentos do conteúdo proposto nos pré-projetos de investigação vis-à-vis das orientações teórico-epistemológicas patentes nos textos do quadro teórico e, em segundo lugar, discuto as suas funções dialógicas com base nos objetos de investigação propostos nos pré-projetos, e tendo em conta o valor dos estatutos discursivos do quadro teórico convocado.

2 Quadro ético e conceitual

O quadro conceitual deste artigo estabelece-se substancialmente na unidade dialética do linguístico e do histórico da noção de texto. Este último é entendido como que transcendendo a visão bipolar de texto-língua e de texto- história, valorando a noção de discurso2 na interpretação das propostas dos pré- projectos de investigação dos estudantes de línguas. Sob essa compreensão, e sendo objeto de estudo o discurso veiculado nos projetos em alusão, as formas pelas quais os textos construídos pelos alunos se imbricam linguística e historicamente. É a imbricação que une essas categorias “por intermédio de um dispositivo de enunciação específico” (MAINGUEANEAU, 2007, p. 19), o discurso científico e, nesse sentido, a língua e sua historicidade são formas de constituição da linguagem nas quais o discurso citado se introduz no discurso citante de várias formas. É a introdução do discurso citado nos projetos de pesquisa que interessa o presente estudo, na medida em que essa introdução explica o funcionamento real da linguagem, e não de outra forma.

Para o efeito, o estudo do discurso implica compreender em última análise a noção de discurso como uma noção de valor epistêmico e disciplinar que abandona a positividade da língua para abraçar o sujeito e a situação como o centro de seus movimentos (movimento do discurso). Por isso, enquanto objeto de análise, e como muito bem revindica Orlandi, o discurso não pode ser captado pela via de procedimentos da análise de conteúdo que parte do exterior para o texto. Pelo contrário, tais procedimentos devem “conhecer esta exterioridade pela maneira como os sentidos se trabalham no texto, em sua discursividade” (ORLANDI, 2007, p. 28).

Nessa medida, a compreensão da discursividade de determinado texto pressupõe que o seu potencial discursivo deva, por vocação, se constituir a partir de uma perspetiva de construção do discurso que não pretere a noção de textualidade, isto é, a noção de que o sentido que produz enforma uma “interpretação [que] deriva de um discurso que a sustenta, que a provê de realidade significativa” (ORLANDI, 2007, p. 52, o acréscimo é nosso).

Assim, a discursividade dos textos propostos pelos estudantes referenciados pode ser encontrada se compreendermos o discurso enquanto “um objeto social cuja especificidade está em que sua materialidade é linguística” (ORLANDI, 2007, p. 28). O que significa que a nossa pretensão de analisar os pré-projectos de investigação científica com o enfoque na apreensão dos discursos ali produzidos vai nos forçar a ver o discurso na zona intermédia entre o texto e o lugar social que o mesmo ocupa, olhando para o que une a organização textual e a situação de comunicação que a origina (MAINGUENEAU, 2007).

Posto isto, e do ponto de vista da organização do arranjo teórico- metodológico, o presente texto caracteriza a noção de projeto de investigação científica como um género textual académico que obedece a um movimento lógico do discurso estruturado que funciona sob a estratégia de “reenvio de texto para texto” como uma das características relevantes do seu modelo discursivo e das respetivas condições de sua produção. É esta característica que revela que as relações que se mantém entre o projeto de investigação como género académico e as condições de sua produção são relações mediadas por outras instâncias discursivas e, por essa razão, exigem uma teoria de discurso consentânea com os modos dessa mediação.

Por opção teórica, adoto aqui uma compreensão de enunciação bakhtiniana em que o sujeito falante, ao realizar um ato ou ação com recurso à linguagem, vê-se na obrigação de mobilizar a língua “por sua conta” e, tomando-a como instrumento cujas unidades até então são neutras, transfigura-a em discurso. É sob essa compreensão que para Maingueneau este processo de transformação da língua em discurso coloca o sujeito falante na situação de “locutor por meio de índices específicos” (1983, p. 125) que constituem pistas necessárias à captação da significação (ação do signo = conteúdo) e do sentido proposto. Por isso, é pretensão deste artigo utilizar-se desta noção de enunciação focando para os processos de sua realização.

O controlo dos processos de realização do enunciado (enunciação) será realizado tendo em conta os critérios de modalização, distância e de enunciado relatado. Este último equipara-se à noção de dialogismo constitutivo de Mikhael Bakhtin que se explica pela estratégia de “incorporação pelo enunciador da(s) voz(es) de outro(s) no enunciado [as quais revelam] maneiras externas e visíveis de mostrar outras vozes no discurso” (FIORIN, 2016, p. 37, acréscimo meu) através de formas específicas, designadamente o discurso objetivado e o discurso bivocal. Visto desse ponto de vista, as diferentes formas de realização do dialogismo são formas por meio das quais a estratégia argumentativa se realiza nas propostas de projeto de investigação em análise.

Para a realização do estudo, tomei os pré-projectos de pesquisa dos estudantes da Faculdade de Educação da Universidade Licungo - 2023 como fontes de informação cujo critério de eleição foi, por um lado, por serem do domínio genérico do campo de estudos de línguas, mais especificamente do curso de licenciatura em ensino da língua portuguesa. Por outro lado, pelo fato de que excecionalmente projetos de investigação nesse domínio se revestem de uma natureza que lhes são peculiares: a ocorrência de uma escrita de caráter argumentativo, o que impele estudantes a produzir textos cujos discursos (enunciados) terão de apelar ao intertexto (diálogo com outros textos). Além disso, a escolha do quesito acima adiantado tem ainda a ver com a ideia de que as propostas de investigação selecionadas proporcionam a possibilidade da análise do objeto a que me propus nesse artigo, uma vez que as mesmas contêm uma extensão física significativamente grande no seu quadro teórico da investigação.

Nesse sentido, selecionei uma turma do 4º ano do curso de licenciatura em língua portuguesa composta por apenas dez (10) estudantes dos quais apenas dois (02) preenchiam o quesito apresentado acima. As propostas selecionadas foram designadas por Projetos 1 e 2, e codificadas em P1 e P2, respetivamente, tendo também preservado a identidade dos nomes dos propoentes e, em vez de enunciar os títulos das propostas temáticas de cada um dos selecionados, interpretei nominalmente o conteúdo e a finalidade dos pré-projectos selecionados.

Assim, o conteúdo temático do P1 inscrevi-o na área dos estudos literários e se baseia na obra O fogo da fala, de Boaventura Cardoso; e o conteúdo da temática do P2 está ligado também ao conteúdo de estudos da literatura mais focado nas questões identitárias, e se baseia no romance Os oito maridos da dona Luísa Michaela da Cruz.

3 Produção de sentidos

3.1 Relação conteúdo - orientação teórica das propostas

O conteúdo do P1 integra-se na área de literatura, um campo de estudos de línguas e culturas. Com o estudo o proponente defende a ideia cujo conteúdo aponta para a reflexão sobre como a literatura pode ser uma ferramenta de desobediência diante da sujeição dos povos negros na sua própria terra aos ditames coloniais, tomando o exemplo da experiência colonial amarga relatada no romance do escritor angolano Boaventura Cardoso. Esta defesa pode ser testemunhada na intenção do objetivo geral proposto em que fundamentalmente se busca a compreensão das formas pelas quais a manifestação da resistência à opressão se apresenta em O fogo da fala, de Boaventura Cardoso.

Segundo a proposta, a realização da investigação destaca três etapas de ação, quais sejam (1) reconhecimento das marcas de resistência no romance, (2) relato dos caminhos de que a resistência se utilizou para explicitar o tipo de opressão sociocultural sofrido pelo povo angolano, e (3) desenvolvimento de uma reflexão conducente ao resgate e à revalorização da literatura angolana. A análise da defesa do conteúdo proposto no quadro teórico-epistemológico, designado no próprio texto por “Pressupostos teóricos”, destaca quatro movimentos discursivos circunstanciados:

No primeiro, tem-se a apresentação da lógica que preside à construção dos movimentos discursivos em primeiro plano, e assumido pelo proponente, com a afirmação categórica de que os angolanos estariam novamente interessados em revitalizar a sua cultura, como se de uma tese ou asserção de partida se tratasse. E esta proposição teria sido encontrada em um autor e tomada como ponto inicial de construção teórica da proposta deste pré- projecto de investigação.

Segue-se o segundo movimento em que se evidencia a finalidade do movimento do texto: explicitar analítica e sinteticamente a manifestação da resistência com base em extratos de texto do romance escolhido. Mas, por outro lado, o proponente pensa que a realização dessa explicitação careceria de evidências relativas à definição da noção de conto. Talvez porque teria entendido que a obra escolhida teria o seu enquadramento genérico no conto. Em razão desse entendimento, vai apresentando no texto as definições do conto segundo os autores arrolados como género de modo narrativo (REIS; LOPES, 2000), pequena narrativa em que se tem poucos personagens e diminutamente caracterizados (REIS, 2018) e como modo narrativo em África (AFONSO, 2004). E deste último autor, apreende-se a ideia de que seria a sua matriz conceitual de conto que suportaria a reflexão sobre o livro de Boaventura Cardoso, objeto da proposta para a investigação científica.

No terceiro movimento discursivo, assiste-se a uma preocupação com a identificação das vozes de discurso na literatura de Boaventura Cardoso, sem uma justificação clara sobre este interesse. Mesmo assim, busca-se, mais uma vez, o recurso a definições do discurso indireto livre de Brait(2017), também não muito claras.

Penso que os esforços empreendidos para se fazer a reflexão sobre a temática de vozes têm que ver com a necessidade de alimentar a percepção sobre quais vozes seriam predominantes na obra de Boaventura Cardoso. O que me faz compreender que o que teria dificultado esta preocupação talvez seja a falta de posicionamento ou orientação teórica e epistémica do estudante enquanto proponente do seu pré-projecto de investigação.

Há, no quarto e último movimento discursivo, uma preocupação em se desenvolver a compreensão do conto como um dos modos de resistência. O que devia ser teorizado com base em literatura de especialidade, explicitando de que forma o conto pode ser visto como uma forma de resistência uma vez que no texto não existem elementos que direcionariam a discussão teórica nesse sentido. Em vez disso, assiste-se à referência ao escritor Boaventura Cardoso como proponente de uma ação contra o colonialismo na sua obra, sem alguma justificação para essa direção.

Dois pontos importantes que resultam da minha análise a respeito desta proposta: trata-se de uma pretensão rica e relevante para o estudo de línguas na área de especialidade da literatura. Mas esta riqueza e relevância ficam traídas pelos falsos pressupostos teóricos. Explico-me: por um lado, em vez da teorização da temática se basear na literatura colonial e/ou pós- colonial em África, que é a sua matriz conceitual de eleição, e para a qual há vários estudos e publicações, a elaboração conceitual da proposta limita-se ao senso comum e ilações preconceituosas sobre os escritos de Boaventura Cardoso. Por outro lado, na tessitura do texto não se vê o posicionamento do proponente em relação à sua convicção teórica sobre o conceito e o enquadramento da noção de resistência na literatura; deixa à sua sorte em que medida o conceito de literatura pode constituir uma contribuição para estudos desta natureza.

Em relação ao P2, o conteúdo temático que este propõe pesquisar é de natureza de estudos da literatura ligados a questões de identidade cultural da mulher. O capítulo recebeu o nome de “Pressupostos teóricos” em que, como fiz com a proposta acima, também noto que a ambição do estudo tem que ver com a necessidade de buscar a compreensão de como a mulher negra é representada culturalmente no romance Os oitos maridos da dona Luísa M. Cruz. A discussão teórica sobre esse assunto perfaz uns movimentos discursivos interpelantes. O primeiro movimento começa com a afirmação, e com a qual o estudante concorda, de que os estudos culturais identitários nascem no Centre for Contemprary Cultural Studies (CCCS) sem elementos de localização/confirmação desta afirmação como, por exemplo, a data, o lugar e os propósitos da iniciativa. Em vez disso, a primeira parte do texto foca a importância deste tipo de estudos para a compreensão e o combate tanto da opressão quanto das desigualdades históricas que as mulheres negras sofreriam e o desenvolvimento da suposta afirmação ocupa uma extensão relativamente significativa sem, contudo, qualquer referência à literatura de especialidade.

A proposta segue, no segundo movimento, com a tentativa de sistematizar a noção de identidade cultural, de sua localização no espaço colonial e de uma tentativa de construir uma reflexão sobre como é que o processo de identidade ocorre na mulher negra.

A revisão da noção de identidade cultural resulta das ideias de alguns autores como matriz de experiências e de construção de significados de um povo, forma como as pessoas lêem o mundo e, consequentemente, se posicionam e, nesse sentido, fala-se da linguagem como elemento criador da identidade. Adicionalmente, afirma-se que o tipo de alimentos que as pessoas consomem constitui um dos elementos definidores da identidade cultural. A lista é longa em que é possível apreender alguns aspetos a ela associada tais como as noções de cultura, relação dos indivíduos com o seu próprio organismo, as formas como indivíduos se reconhecem ou são reconhecidos no seu próprio espaço pelas condições históricas e sociais.

O terceiro momento faz uma exposição sobre a identidade cultural localizada no período colonial. Alguns aspetos desta exposição indicam como as diversas culturas refletem a cultura de dominação colonial através de diferentes mecanismos, quais sejam pela negação da história e política particulares, absorção de uns grupos por outros, pela adaptação dos autóctones à nova realidade a que se submetem, nascendo uma nova produção simbólica e discursiva.

No quarto movimento fala-se de como seria construído o processo de identidade da mulher negra partindo até de uma abordagem comparativa com a mulher branca, remetendo a discussão a fatores históricos. Afirmando-se que qualquer configuração cultural se estrutura a partir do conceito de raça, a mistura cultural e dos povos, até com o colono, torna inevitável a assunção de outras identidades. É sob este entendimento que se sentenceia com a citação de Brito; Silva e Sousa (2024) de que não se pode conceber as identidades negras de forma única, evidenciando a ideia de que elas resultam de uma combinação de múltiplos fatores.

Desta forma, o texto vai fluindo nesse sentido com a convocação de vários autores na tessitura do processo de construção da identidade cultural da mulher negra, e culmina com a ideia de que a construção da identidade cultural obedece a dinâmicas sociais e históricas que não podem ser vistas de forma unilateral.

Expostos os quatro movimentos, vejo que de forma geral o pré-projecto tem “pernas” para se constituir um projeto de investigação científica porque existe uma discussão sobre questões ligadas à identidade e à cultura, uma discussão atrelada a uma teorização desses conceitos para suportar a noção de identidade cultural. Todavia, verifica-se um gap muito grande entre o trabalho teórico e os objetivos traçados para a investigação. Estes, além de vagos, não precisam o que realmente deverá ser feito para a investigação da ambiciosa problemática de investigação. O que significa que não há uma relação teórica e conceitual entre o conteúdo e o quadro teórico da proposta.

3.2 Estratégias dialógicas das propostas para a investigação científica

Nesta parte do artigo, analiso a utilidade dos procedimentos dialógicos dos pré-projectos concebidos pelos estudantes alinhando-os com as formas do dialogismo na perspetiva de Bakhtin (a. Princípio por meio do qual o enunciado se constitui, b. Forma composicional do enunciado e c. Princípio por meio do qual o indivíduo se constitui e se agencia) e com os processos de enunciação protelados por Maingueneau com foco nas noções de intertexto e de modalização.

No P1, nota-se o predomínio de utilização da forma composicional do enunciado, ou seja, do discurso cuja construção do sentido se caracteriza por utilização de estratégias que fazem referência a outros textos. Para efeitos de análise, selecionei dois procedimentos dialógicos:

(1)“Os colonialistas foram obrigados a constar que não podiam controlar a totalidade do campo cultural. Razão pela qual os jovens dirigentes políticos começaram quase todos por ser escritores: antes de passar à prática, forma obrigados a escrever a teoria da prática possível. Escrever, como o fez por exemplo o grupo da Claridade cabo-verdiana, mas sobretudo o grupo da Mensagem angolana, era já combater (MARGARIDO, 1980, p. 21)” e

(2)“a construção de uma consciência nacionalista, contribuindo para a resistência e a luta anticolonial (ALVES, 2013, p. 1)”.

A primeira citação é direta e tem que ver com o entendimento do autor citado do papel da literatura no enfrentamento do colonialismo. Sob esta base, ela desempenharia a função de prova no sentido de que realmente a literatura tem essa vocação se se tivesse uma argumentação anterior que conduzisse para esse sentido. Não é o caso. Talvez uma outra alternativa funcional desta citação seria se ela tivesse sido colocada como uma epígrafe que funcionaria como uma orientação geral do discurso que conduziria todo o quadro teórico. Faltando, no mínimo, esses dois elementos essa citação não somente carece de enquadramento como também, mais do que ser um discurso alheio ao enunciado citante, ele torna-se ele próprio o discurso citante em que o ponto de vista do outro é assumido como verdade no novo texto substituindo o vazio do que constituiria a espinha dorsal do enunciado citante.

O caso da segunda citação, a situação é claramente percetível na medida em que se inscreve como uma “citação-autoridade”, isto é, o valor de que dispõe provém da importância da personalidade que o profere. O que faz com que o enunciador se identifique com ele.

Devo referir que não posso ignorar, ainda que se trate de casos isolados, a existência de citações diretas que operam, por vezes, como definição de um conceito e, outras vezes, como mecanismos de identificação das atribuições que as configuram. Não devo também ignorar que também há evidências do uso de formas indiretas de citação que conferem ao texto uma relativa autonomia interpretativa e argumentativa do seu proponente. Contudo, tanto a interpretação quanto a argumentação feitas induzem-me, ambos, a afirmar que parecem estar presas apenas ao discurso citado, o que diminui a capacidade dialógica com a qual pode se expandir o texto.

No caso do P2, os seus “Pressupostos teóricos” não expõem com clareza e coerência a função dialógica do texto construído. As razões que encontro para esta afirmação é que toda a primeira parte (identidade cultural na representação da mulher negra) se constitui por afirmações muito dispersas de autoria do estudante sobre a temática que ele próprio se propõe a investigar. Tais afirmações instauram discursos, pelo menos inicialmente, inconsistentes sobre o próprio objeto de estudo proposto (como é que culturalmente a mulher negra se reconhece).

Aponto alguns discursos instituídos: que estudos culturais são fundamentais no combate a estereótipos e na promoção da inclusão e da igualdade; que dentro desse quadro geral é que se enquadra o estudo da identidade da mulher negra, havendo a necessidade de estudá-la para compreender e combater as opressões e desigualdades históricas que ela sofre no seu cotidiano; que por meio da investigação a valorização da mulher negra vai permitir uma adequada representação social nos meios de comunicação social, academia etc.

Assim dispostos, os discursos acima não somente não dispõem de uma articulação interna como também, quando analisados sob o ponto de vista do seu conjunto enunciativo, não estabelecem nenhum tipo de relações de sentido internas. É aqui onde a análise se torna interessante quando esses discursos são vistos a partir do ângulo do funcionamento da linguagem em Bakhtin o qual deixa claro que “todos os enunciados no processo de comunicação, independentemente de sua dimensão, são dialógicos” (FIORIN, 2016, p. 23). A questão que fica é: não sendo claras as dimensões dos discursos acima identificados, como ainda pode-se afirmar que mesmo assim são dialógicos?

Penso que para esse caso, a saída que se me dispõe é considerar a ocorrência de duas vozes básicas em tais discursos as quais podem ajudar a definir a voz do enunciador e “aquela em oposição à qual ele se constrói” (FIORIN, 2016, p 27). Parece-me também que não está clara a voz do enunciador pela falta da teorização geral dos estudos culturais. Dos discursos identificados, aqueles aos quais o enunciador se opõe, impera-me deduzi-los nos seguintes termos: se, por um lado, defendem a inclusão e a igualdade das mulheres negras, então estamos diante do discurso antirracista. Por outro lado, se pretende compreender e combater a opressão da mulher negra, figura-me a ideia de que se opõe à exploração, ao colonialismo, à descriminação etc. Nesse quadro, tais discursos deviam dialogar com estudos relacionados a (de)colonialidade como ponto de entrada para a exploração teórica de sua proposta de investigação. Nesse sentido, estariam diante de um discurso anticolonial.

Verifico que a proposta disserta sobre o conceito de identidade cultural, iniciado pela etimologia da noção de identidade. E, sob essa base, verifico também que existe um esforço muito significativo de se fazer uma espécie de “argumentação por implicação”, isto é, se a noção de identidade denota “a tudo o que é idêntico”, então, falar da identidade cultural significa abordar tudo o que é idêntico à cultura.

Assim, menciono o que caracterizaria a noção de cultura, entre várias noções arroladas dos autores que o proponente convoca para o seu quadro teórico, são dois aspetos principais como os signos e o reconhecimento do sujeito orientado pelas condições históricas e sociais de sobrevivência. Essas são noções que vão iluminar a teorização de como era a identidade cultural no período colonial e o entendimento de como a mulher negra se identificaria culturalmente.

Para dissertar sobre a identidade cultural colonial, o proponente recorre a vários autores que reiteram que o conceito se articula com a negação da história e política particulares. Este recurso torna-se possível através da argumentação por implicação a respeito dessa concepção, ao mesmo tempo que reconhece que, além de serem diferentes, as identidades culturais coloniais baseiam-se nos processos de subordinação dos negros aos traços sociais e culturais do colono. Esta forma de construção do discurso predomina até o fim do texto.

Para concluir a análise sobre o P2, importa afirmar que a construção de argumentos por implicação é uma tarefa que requer não apenas uma abordagem comparativa do suposto conteúdo em causa, como fundamentalmente requer uma capacidade que possibilite confrontar vozes em polêmica velada ou clara, tendo em vista o objeto que origina a discussão. O que não se sinaliza nessa proposta.

Em ambos os pré-projectos analisados, não se evidenciam com clareza formas de adesão dos proponentes aos discursos que eles próprios produzem (sustentação da tese ou do objeto do estudo), quando se analisa determinados traços ou marcas linguístico-discursivas que eles próprios atribuem a seus enunciados no texto. O que significa que a modalização, enquanto instrumento de produção textual, se figura como instrumento necessário e fundamental a ter em conta nos processos de concepção dos projetos de investigação científica seja no nível de graduação, seja no nível de pós-graduação.

4 Alguns comentários finais

O artigo procurou responder à pergunta sobre quais relações são estabelecidas entre o conteúdo e o quadro teórico dos pré-projectos. Para o efeito, analisou uma eventual aproximação ou distanciamento entre o conteúdo e o quadro teórico dos pré-projectos, e os procedimentos dialógicos praticados para esta aproximação/distanciamento do conteúdo e do quadro teórico propostos.

Em relação ao primeiro item de análise (relação conteúdo/quadro teórico), mesmo tendo observado que as propostas apresentadas são ricas e relevantes do ponto de vista do seu conteúdo, é possível verificar que o ponto de vista que motiva a pretensão da realização da investigação não se sustém nem enquanto fio condutor, nem enquanto uma suposta tese a defender. A falta da sustentação deve-se ao fato de que, por um lado, as propostas não dispõem de pressupostos teóricos adequados; por outro lado, elas não revelam o posicionamento teórico-epistemológico de seus proponentes em relação ao conteúdo que se pretende investigar. Sendo assim, não se pode falar de aproximação ou de distanciamento, mas de um vazio no sentido de que a relação que se estabelece entre o conteúdo e o quadro teórico correspondente é uma relação de anulação mútua.

A mútua anulação entre o conteúdo e o quadro teórico torna as suas ações dialógicas presas maioritariamente a procedimentos de citação direta na construção, interpretação e argumentação do texto do quadro teórico. Essa característica torna a expansão do texto reduzida e concentrada em definições de conceitos, deixando de articulá-los com o objeto que motiva a investigação.

Dentro deste estado de coisas, concluo o seguinte: ao se privilegiar a citação direta como procedimento dialógico de eleição, persiste uma importante vontade de se construir o texto baseado nas relações de sentido que nascem da argumentação por implicação. Com essa estratégia, assegura-se a expansão do quadro teórico, pelo menos, com base na interpretação do extrato recortado citando-o.

Com base nessas conclusões, pode-se perguntar que relação elas têm com a psicologia histórico-cultural? Eu responderia que a maneira como se propõe os projetos de investigação científica tem que ver com as formas pelas quais se apreendem esse género académico. A essas formas associam-se as finalidades e atividades que realizam para o efeito. Tais formas resultam da necessidade de modificar o seu pensamento da noção de projeto de investigação científica em conceito. Ou seja, “Sem o pensamento em conceitos, é impossível a consciência do ser humano” (FACCI, 2010, p. 128) sobre a realidade. A consciência é a condição primária para a compreensão da relação entre a aprendizagem e o desenvolvimento.

O contexto de educação superior em Moçambique é um contexto em que torna difícil compreender a finalidade da formação como uma ação humanizadora. A razão para essa dificuldade está no facto de que as relações que têm sido estabelecidas no processo de ensino e de aprendizagem são o reflexo de relações de uma sociedade capitalista, de economia do mercado. Nelas, as atividades do estudante e do professor estão condicionadas às leis do mercado nas quais o ensino e a aprendizagem não forçam o aluno a desenvolver suas capacidades intelectuais. Em vez disso, o ensino e a aprendizagem tornam a sua especificidade (o desenvolvimento das capacidades intelectuais) em uma atividade centrada numa economia política neoliberal caracterizada pela competitividade económica. Aqui, o conhecimento se desloca do sentido do desenvolvimento das capacidades intelectuais para o sentido de que ele deve constituir-se em uma “resposta, estratégica […], aos problemas postos pela globalização económica […] pela definição do lugar que os indivíduos irão ocupar na produção e também responsáveis para resolver a crise do emprego” (FACCI, 2010, p. 124). Deixo em aberto, mas óbvio, o significado e sentido atribuídos a essa disciplina enquanto género académico.

5 Referências

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2 Uma noção que para Bakhtin equivale a enunciado.

Recebido: 01 de Fevereiro de 2024; Aceito: 01 de Fevereiro de 2024

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