1 Introdução
O presente texto apresenta uma incursão na literatura relacionada à denominada, até os dias de hoje, Teoria Histórico-cultural (uma ciência de início denominada “instrumental” e de “dupla estimulação”, segundo Tunes e Prestes, 2018), mais especificamente quanto ao conceito de “vivência” (em russo perejivanie), termo que tem sido cada vez mais utilizado nos últimos tempos no Brasil devido principalmente a novas traduções de alguns textos do bielorusso Lev Semionovich Vigotski2. Trata-se do produto de pesquisa realizada em estágio pós-doutoral, no período entre fevereiro de 2021 e agosto de 2022.3 O objetivo foi recuperar produções que marcaram o estudo desse conceito e analisá-las, verificar a que outros conceitos o termo “vivência” tem sido relacionado de modo a configurar seu desenvolvimento histórico notadamente no contexto brasileiro. Pretende-se que esse mapeamento ajude no aprofundamento dos estudos deste tema que tem se mostrado essencial para a compreensão do desenvolvimento humano e da subjetividade. Paralelamente ao presente levantamento, estão sendo analisadas outras produções científicas brasileiras, em diferentes áreas do conhecimento como no campo das artes, da psicologia, da educação relacionadas ao tema e confrontadas com os achados desta primeira incursão que tem como foco mais específico os trabalhos no campo da educação.
A intenção não é comparar obras, mas sim realizar uma cartografia de conceitos relacionados a perejivanie, sendo que nesse artigo o fio condutor são as publicações da própria Rússia e a partir de textos do próprio Vigotski. Recupero, para isso, as reflexões de Prestes (2010) e as questões relativas às traduções para o Brasil; as duas traduções para a Quarta Aula de L. S. Vigotski que compõe as Sete Aulas proferidas pelo autor ao final da vida e onde menciona diretamente o conceito de “vivência”; reúno reflexões do próprio autor e tento delinear que ideias defende, que leis estipula em sua teoria e método; por último apresento as noções de “vivência” defendidas por autores russos contemporâneos notadamente em publicações na Revista Veresk, uma revista brasileira dedicada aos temas da Teoria Histórico-cultural.
No processo de levantamento de produções científicas brasileiras dedicadas ao conceito de Vivência no âmbito da Teoria Histórico-cultural, verifico que Nascimento e Silva (2020) listam alguns trabalhos dedicados ao tema em diferentes áreas do conhecimento. Percebe-se que no momento deste estudo os conceitos relacionados à “vivência” ligam-se fortemente à noção de emoções, emoção vivenciada, unidade da vida consciente, sentimentos e impressões fortes, viver/sofrer algo (pieriejit), sofrimento (perejit), atravessar período difícil de vida (píer), marca de natureza ontológica e metodológica de desenvolvimento humano relacionada a sentimentos contraditórios e estruturação do sistema psicológico da consciência (como no caso da arte, na tragédia). Perejivanie ou perejivânia (“vivências”) seriam experiências participativas perpassadas pela emocionalidade (TOASSA, 2009 e outros trabalhos), reflexão promovida notadamente pelas traduções de obras do espanhol e do inglês norte-americano. Veremos também, mais adiante, como o conceito de “vivência” aparece na Revista Psicologia USP que publicou a primeira tradução da “Quarta Aula: a questão do meio na pedologia” em 2010 (ver em VIGOTSKI, 2010) para se ter uma noção de que esse conceito gira em torno da atitude afetiva, ambivalente, frente a dada situação na vida da criança ou da pessoa em desenvolvimento.
Prestes (2010), procedendo a levantamento bibliográfico e de edições brasileiras e estrangeiras e aprofundando em conceitos apresentados por Vigotski em fontes russas e entrevistas com familiares e estudiosos russos da Teoria Histórico-cultural, observa que algumas adulterações ocorreram quando de traduções das obras de Vigotski ao chegarem ao Brasil. Tendo vivido alguns anos imersa na cultura russa e traduzindo obras diretamente da língua russa, sugere outras alternativas de tradução mais condizentes com a abordagem e os fundamentos da teoria.
A autora, assim, apresenta perejivanie no contexto em que apresenta o Livro “Psicologia da arte”. Traça um histórico das versões e edições do Livro. Em síntese, trata-se de uma obra que reflete a influência da literatura nos alunos de Vigotski já que atuava como professor e sobre a percepção da literatura pela alma infantil. Muitas ideias de Psicologia da Arte estavam também desenvolvidas em Imaginação e Criação na Infância, escrito um pouco mais tarde. Nessa última discute formas de relações entre imaginação e realidade que poderiam ser sintetizadas como: a) imagem criada com base na realidade; b) imagem criada com base na experiência de outras pessoas; c) sentimento encarnado na imagem que influi no sentimento; d) criação de algo totalmente novo que jamais existiu na experiencia humana e que se torna realidade. Essas formulações surgem quando Vigotski se pergunta para que é necessária uma obra artística. A reação emocional que uma obra provoca é a base da reação estética, afetos provocados pela arte, sentimentos que são vivenciados em toda sua realidade e força e tem sua descarga na atividade da fantasia. O objetivo de Vigotski era compreender a arte como atividade humana e as relações da obra com o expectador da obra e da obra com a própria obra (PRESTES, 2010, p. 116). A análise da estrutura de uma obra artística tem como conteúdo efetivo seu conteúdo ativo, aquilo que determina o caráter específico da vivência (perejivanie) estética provocada por ele, a arte seria a chave para alma humana.
Segundo Prestes, a vivência tem enorme importância para Vigotski pois a arte tem a função de superar o sentimento individual porque o aspecto criativo da arte é a possibilidade de transferência de uma vivência comum. A autora comparou o original russo com a tradução brasileira de Paulo Bezerra e verifica que a palavra vivência vem relacionada a diferentes ideias: sentimento, emoção, vivência. Nessa análise, acrescenta o que A. N. Leontiev apresenta sobre o conceito de perejivanie no livro “Estudo sobre o meio nos trabalhos pedológicos de L. S. Vigotski” publicado em 1998 na Revista Questões de Psicologia do Instituto de Psicologia da Universidade de Moscou. Para Leontiev a maneira como o ambiente influencia a criança em suas especificidades é definida por sua perejivanie.
Para Prestes (2010), é necessário ter em conta que a discussão acerca de perejivanie (cuja melhor tradução para o português é “vivência”) está intrinsecamente relacionada ao conceito de “situação social do desenvolvimento” e resgata a importância da idade de algum modo reduzida pelo olhar de Leontiev. Menciona o texto “A crise dos sete anos”, de Vigotski, em que discute perejivanie e destaca as diferentes possibilidades que tem um bebê e uma criança de sete anos na percepção das próprias vivências, o tipo de orientação consciente de suas próprias vivências. Segundo Leontiev, citado por Prestes (2010), havia a necessidade de aprofundar a relação entre a consciência da criança e sua atividade no ambiente circundante e em sua realidade objetiva. O nível de compreensão do sentido e significado que define o quanto a criança tem consciência da situação vivenciada é definido em russo com a palavra ozosnanie que, segundo Prestes (op cit), diz mais de um despertar de uma consciência reflexiva do que apenas da noção de consciência, o que indicaria um controle consciente do ato de pensar.
Assim como nas relações entre pensamento e fala, a situação social do desenvolvimento e as especificidades da criança formam uma unidade já que a perejivanie é a relação interna da criança como pessoa com um ou outro aspecto da realidade. Fica claro em Prestes (2010) que sua tese defendida é a de que a questão da idade é relevante e que para Leontiev perejivanie não diz respeito às especificidades da criança nem ao ambiente social, mas à relação entres eles, o que configuraria uma abordagem interacionista e não em unidade como aparece na teoria e método de Vigotski e que aparece com muita frequência em seus textos. Por essa razão, a autora defende que se revejam as traduções de perejivanie para o português. Para o inglês ela foi traduzida como experiência, no entanto há outra palavra em russo que designa esse conceito (opit) que, segundo Prestes (2010), é muito usada no Livro Imaginação e Criação na Infância (2009), de Vigotski.
Sendo assim, a autora sintetiza que é em Psicologia da Arte (1925) que aparece pela primeira vez o termo perejivanie, uma obra do início das produções intelectuais de Vigotski. Além disso, em A Crise dos Sete Anos (1929) e Fundamentos de Pedologia (1933), textos da fase final da vida de Vigotski, aparece com força novamente. Em A Crise dos Sete Anos encontra-se mais desenvolvido o sentido e o significado desse conceito e em função dos problemas do desenvolvimento infantil. Para a autora, muitas traduções desconsideraram esse fato, levando à possibilidade de compreender a concepção de Vigotski como interacionista e não sua abordagem monista de desenvolvimento humano.
Em resumo, Prestes (2010) ressalta a importância da literatura na alma humana, a arte como vivência comum e superação do sentimento individual, questiona a tradução do brasileiro Paulo Bezerra que relaciona vivência a sentimento e emoção, além de enfatizar a relevância do problema da idade que afirma ter sido negligenciado até então. Questiona também a tradução do termo opit (experiência, usado como vivência), assim como ozosnanie (preferindo a tradução de consciência reflexiva e não apenas consciência - de uma situação por exemplo). Defende a vivência como unidade, método de seu estudo, a relação interna da criança como pessoa com um ou outro aspecto da realidade, sendo a idade um componente relevante.
2 As Sete Aulas sobre os fundamentos da Pedologia: o caso da Quarta Aula
No livro publicado em português, com tradução e organização de Zoia Prestes e Elizabeth Tunes e tradução de Claudia da Costa Guimarães Santana, estão reunidas sete aulas proferidas por Lev Vigotski, como já mencionado neste texto, ocorridas ao final de sua vida. Essa publicação é do ano de 2018 pela editora E-papers, do Rio de Janeiro. Muitos textos do autor foram redigidos e publicados a partir de aulas e palestras estenografadas, muitas vezes sem sua revisão e as autoras atentam para o fato que é o caso desse livro (TUNES; PRESTES, 2018, p. 13). Afirmam também que essa é a primeira tradução para outra língua além do russo. A primeira edição foi publicada em 1934 pela editora da atual Universidade de Moscou (antigo Segundo Instituto de Moscou) com 211 páginas e sob o título Fundamentos de Pedologia, no ano seguinte com 133 páginas sob o mesmo título pela editora do Instituto de Pedagogia de Leningrado. As organizadoras demonstram com isso como, mesmo na Rússia, têm sido publicadas as obras de Vigotski.
Tunes e Prestes (2018) afirmam que tal tradução para o português baseia- se na edição de 2001 (segunda edição, já que em 1996 houve uma edição comemorativa em homenagem ao centésimo aniversário do nascimento de Vigotski, sendo a primeira parte do Livro Lektsii Po Pedologuii - Aulas de Pedologia - em russo). A obra contém duas partes (Fundamentos de Pedologia e O problema da Idade, que compõem também o Tomo IV de Obras Reunidas publicadas em 1980 na União Soviética, também traduzidas para o espanhol pela editora Visor, de Madrid, entre 1991 e 1997). Nos manuscritos das aulas que estiveram sob os cuidados da família de Serapion Alekseevitch Korotaiev (aluno de Vigotski) por 60 anos, as aulas estavam apenas numeradas, sendo que os títulos foram dados pela equipe de redatores da edição russa com base nos objetivos de cada aula expostos claramente pelo autor (TUNES; PRESTES, 2018). No Brasil, antes dessa publicação, a Revista Psicologia USP publicou a “Quarta aula: a questão do meio na pedologia” em 2010 (em VIGOTSKI, 2010). Este texto é relevante porque será especificamente na quarta aula que, ao contrapor-se às abordagens vigentes em sua época que consideravam o ambiente como uma totalidade pura, que o autor definirá vivência e esclarecerá o papel do meio no desenvolvimento da criança no contexto de sua abordagem teórica e metodológica. No entanto, como a primeira tradução no Brasil foi feita a partir do texto isolado do contexto das Sete Aulas, os conceitos relacionados à vivência giram em torno de: atitude afetiva, ambivalente, frente a dada situação; meio de contato entre as pessoas; condições de interação com o meio; elementos interpretados pela vivência, o papel do meio no desenvolvimento da criança. É possível observar que na discussão do meio na publicação da Revista USP de 2010, há a tradução de alguns conceitos que levam ao entendimento de uma “interação” entre a influência/ participação/ papel e significado do meio no desenvolvimento da criança por um lado e, por outro, as particularidades constitutivas e pessoais da criança, suas necessidades (como ela concebe, vive uma significação, interpreta/ entende uma situação, assim como as relações disso com o crescimento físico e psicológico). Há, assim, uma predominância da concepção de: crescimento, compreensão, estudo, ação, elementos do meio.
Já na tradução de Tunes e Prestes de 2018 a Quarta aula é traduzida no contexto das Sete aulas proferidas por Vigotski. Na primeira aula, intitulada O objeto da pedologia, Vigotski (2018) aponta os conceitos da disciplina e a metodologia de investigação da criança. Defende a pedologia como uma “ciência específica”, nem pedagogia, nem psicologia, nem a pedologia como já existia na sua época. Segundo ele, sabendo seu fundamento e leis básicas, se saberá generalizá-la e afirmar o que é desenvolvimento infantil. Defende a criança e seu desenvolvimento como algo complexo, um processo que transcorre no tempo, mas em ciclos, sendo que os aspectos relacionados aos ciclos transcorrem de modo irregular e nem sempre proporcional. Sistemas e órgãos não crescem proporcionalmente e não há relação direta entre eles (como por exemplo, entre crescimento do corpo e amplitude da mente). Em cada novo degrau etário ocorrem transformações (metamorfose).
Na segunda aula, A definição do método da pedologia, defende um método específico considerando seu objeto de estudo: o desenvolvimento da criança. Ele se baseia na análise da unidade; por ser clínico no sentido de estudar um processo de desenvolvimento, sua essência e natureza; e possui um caráter genético- comparativo. O caráter clínico seria o método do caminho das manifestações específicas dos processos de desenvolvimento para o estudo dos próprios processos de desenvolvimento, já o caráter genético-comparativo consiste na comparação de formas (tipos) de desenvolvimento infantil, mas principalmente compara-se a criança com ela mesma em diferentes etapas do desenvolvimento. Vigotski contrapunha-se ao método típico da pedologia do seu tempo que comparava “a criança bem-dotada ou genial com a criança de desenvolvimento acelerado” VIGOTSKI, 2018).
Na terceira aula, O estudo da hereditariedade e do meio na pedologia, o autor desenvolve ainda mais sua concepção do estudo da unidade e não elementos isolados. Contrapõe-se ao pré-formismo e ao ambientalismo que, cada um a seu modo, explicam o desenvolvimento como derivado das influências hereditárias puras ou das influências puras do ambiente que conduziriam a determinados tipos de desenvolvimento. Segundo Vigotski (2018), interessará ao pedólogo (dessa pedologia específica defendida por ele) as características dinâmicas que surgem ao longo do desenvolvimento, aquelas híbridas, instáveis e que estão submetidas a alterações no processo de desenvolvimento. Essas características dinâmicas estudam o papel e significado do meio e da hereditariedade nos diferentes degraus etários para “cada um dos aspectos do desenvolvimento isoladamente e para o mesmo aspecto separadamente” (op cit, p. 71).
Será na quarta aula, A questão do meio na pedologia, que Vigotski (2018) enfatizará que o significado da influência do meio se modifica para a criança a cada degrau etário e afirma que os momentos essenciais para a definição da influência do meio no desenvolvimento psicológico, da personalidade consciente, são as vivências. Essa seria a “compreensão dinâmica do meio” e sua relação com diferentes aspectos do desenvolvimento, determinadas partes específicas e sistemas do organismo, ou ainda sua influência sobre o desenvolvimento de funções psicológicas, etc. É necessário ter em conta o meio como fonte de desenvolvimento, sendo que a forma ideal (modelo que deve ser obtido ao final do desenvolvimento - por exemplo a fala desenvolvida) não somente existe no meio como interage e exerce influência sobre a criança.
Na quinta, sexta e sétima aulas, Vigotski (2018) se dedica a explicar as leis do desenvolvimento psicológico, físico e do sistema nervoso respectivamente. No que chama de curso de pedologia etária e ao falar do desenvolvimento psicológico, afirma ser um equívoco estudar funções psicológicas separadas. A percepção, a emoção, a memória, o pensamento estão em relação a planos de interdependência no curso das etapas etárias em que provocam mudanças na estrutura da consciência, a dominação de uma função depende do quanto as outras estão diferenciadas (exemplifica com o fato de que na primeira infância, aos dois anos mais ou menos, um grupo de funções anda não está suficientemente diferenciada e se isolam do resto da consciência).
Na sétima e última aula, Vigotski (2018) estabelece as leis do desenvolvimento do sistema nervoso. Já no sistema nervoso há uma transição das funções para os centros superiores tendo a função dos centros inferiores alterada na passagem para os superiores. Apresenta contradição no quadro dinâmico entre a criança e o adulto nos casos de desordens orgânicas que denomina de paradoxo do desenvolvimento motor: na criança uma encefalite epidêmica provoca hiperatividade, atinge o desenvolvimento mental, do caráter, dos movimentos superiores voluntários. Já no adulto pode haver tremor nas mãos, movimentos vagarosos por conta de desordens, mas as formas superiores como subir uma escada permanecem sem serem afetadas.
Tendo em vista o exposto, em suma, ao longo das Sete Aulas e tendo como ápice de suas reflexões, o esclarecimento do conceito de vivência na Quarta Aula, Vigotski (op cit) apresenta o desenvolvimento infantil como algo complexo. A cada novo degrau etário ocorrem transformações, novas relações interfuncionais. Tal complexidade exige um método específico: da unidade, da análise de relações interfuncionais, da comparação entre formas de desenvolvimento e da criança em relação consigo mesma em diferentes etapas etárias. Exige também compreensão dinâmica dos fatores de influência e seu papel e significado no desenvolvimento e seus aspectos. O prisma que refrata essas influências será a vivência (unidade de análise do ponto de vista metodológico e ontológico). Como já citado, o fato central do desenvolvimento, seja das relações entre sistemas e/ ou funções, será o das relações internas do todo, da nova organização a cada degrau etário.
Vê-se que na tradução de Tunes e Prestes de 2018 há predominância das concepções de desenvolvimento, atribuição de sentido, ciência, atividade, momentos do meio/ situação, deflagrando com isso um outro contexto de discussão das questões envolvendo meio e vivência e outros conceitos articulados. Ademais, no contexto das Sete Aulas, a questão do meio no desenvolvimento diz das relações entre funções, ou seja, a função da fala no contexto da situação social (se há um meio falante e este exerce influência no desenvolvimento da criança) e a fala da criança numa relação recíproca. Então, não é o meio, mas a função da fala no meio e sua influência no desenvolvimento da criança. Aqui está a essência da compreensão dinâmica do meio em contraposição à compreensão do meio como totalidade, reflexão central proposta por Vigotski em sua Quarta Aula, contrapondo-se às concepções vigentes em sua época.
Para manter tal compreensão dinâmica, as relações entre funções devem ser compreendidas também na unidade dos sistemas psicológico/orgânico/ nervoso. Isso amplia de certa forma a ênfase no sistema psicológico adotada por Toassa (2009) e já comentado anteriormente. Seria necessário, então, compreender não o papel do meio no desenvolvimento e a interação entre eles, mas a relação recíproca entre o papel da fala no meio falante e sua influência na fala da criança (cito aqui a fala, mas caberia à análise de qualquer outra função com qualquer outro aspecto da realidade). Essa relação vale sob o prisma da vivência da criança e a reestruturação da vivência interior (o que requer verificar a que aspectos desse meio a criança atribui sentido, o que se relaciona às novas organizações internas em cada degrau etário e os tipos/ formas de desenvolvimento). Vê-se também que a tradução das Sete aulas delimita uma ciência específica, com suas leis e métodos, sendo a unidade de análise a “vivência”, e não o estudo da relação de interação entre meio e criança, como os conceitos relacionados na tradução de 2010 da Revista USP levam a generalizar.
A seguir desenvolvo essas noções de funções e sistemas, novas organizações internas no contexto dos degraus etários que vem se mostrando de extrema relevância no debate acerca do conceito de vivência no âmbito das reflexões atuais e os conceitos relacionados a ele.
3 A vivência como prisma que refrata a situação social
Segundo Tunes e Prestes (2018), a concepção de Vigotski é a de que não há método único que defina a ciência. Para cada objeto investigado há uma ciência, uma teoria e uma filosofia que define o caminho (método) de seu estudo, com seus objetivos e métodos específicos. Nas aulas sobre a Pedologia, por exemplo, há afirmações teóricas e metodológicas de uma ciência específica. Assim como nas Aulas de Pedologia, em outros textos, Vigotski opera um esforço por colocar em pauta discussões teórico-metodológicas que geravam grande confusão nos estudos do desenvolvimento infantil em sua época.
As discussões, desse modo, em torno de “Vivência”, englobariam o estudo do desenvolvimento humano (nova organização em cada degrau etário considerando tipos de desenvolvimento - dons e patologia - e a relação psicológica fundada pela língua). Além disso, o estudo da personalidade em sua dinâmica (“Drama”, ou seja, a mudança de papéis das funções na hierarquia de sistemas nos ciclos de desenvolvimento em que certas peculiaridades da vida orgânica e da personalidade se deslocam para o centro). Por fim, o estudo das etapas etárias, ou seja, em cada etapa etária há limites e possibilidades de reação (inibida ou externalizada, pensamento e/ ou comportamento) que são atos integrais e concretos com sua natureza e mecanismos reguladores (domínio sobre a natureza e sobre si próprio). O quadro abaixo ilustra o exposto:
Há um foco nos ciclos internos de desenvolvimento a cada nova etapa etária segundo Vigotski (2006). Há uma síntese entre filogênese e ontogênese e um ponto de vista histórico, comparando a criança com ela mesma ao longo desses ciclos (cortes etários) e as relações entre o velho e o novo como em Vigotski (2018). A vivência será o prisma que refrata situações de modo singular. O importante será levantar a questão e o problema no estudo do desenvolvimento (VIGOTSKI, 2004a). A psicologia deve ser um ramo da biologia geral e também de todas as ciências sociológicas (VIGOTSKI, 2004a).
A experiência do homem é duplicada (o trabalho modifica a natureza e o homem se modifica a si mesmo). Será necessário tomar posição sobre o que é psíquico, os problemas inerentes à psicologia, fisiologia e biologia. Ser como um historiador que interpreta vestígios segundo Vigotski (2004c). Defende a unidade entre psíquico e físico numa perspectiva monista. A práxis organizada estrutura a metodologia.
O conceito de reação será central pressupondo aspectos subjetivos e objetivos no ato integral da reação. Cada pessoa é um modelo de sociedade, da classe a que pertence (totalidade das relações sociais): o singular (VIGOTSKI, 2004c). Será a dedução das leis da psicologia da arte no estudo da psicologia consciente recorrendo a análises de formas desenvolvidas de arte a chave da natureza e dos mecanismos da reação estética. Não há generalização de uma doutrina, mas análise de processos em sua essência e abstração de traços concretos de gêneros (fábula, romance ou tragédia) concentrando esforços na essência da reação estética. A reação estética se combina com as formas de ideologia (moral, política, etc.), por isso é importante ir além do campo da observação. A força da análise estará na abstração, estudo indireto dos estímulos para chegar no mecanismo da reação (assim como a análise do destacamento leva à interpretação do movimento dos soldados, pela forma da fábula compreendem- se as reações que esta causa) (VIGOTSKI, 2004c).
O método da análise ampara-se na realidade, nos fatos estudados e generalizados e novas generalizações relativas e reais. A teoria da luz e a coisa refletida explica os reflexos especulares (metáfora do espelho). Do mesmo modo, a psique deve ser estudada como integração de dois processos objetivos (um no outro). O que está fora do espelho (a coisa refletida) submete-se às mesmas leis cujas partes também regem o espelho. O método se dedica à exploração das funções psíquicas, à psicologia histórico-social e étnica da criança e a seu desenvolvimento artificial - educação e outros (VIGOTSKI, 1930). Deve-se reconstruir a história da criança e do trabalho que levou ao caminho da humanidade. O psíquico é a síntese da história do homem e do trabalho (VIGOTSKI, 2000).
A personalidade é um processo interno, foi para os outros o que é agora para si. A psicologia é o estudo das reações da personalidade, das ligações do tipo funções que regulam a conduta e correspondem à ideologia social, por conseguinte, a uma estrutura psicológica. Por isso, deve-se estudar dois aspectos: base da psicologia concreta e ligações de funções e reações dos excitantes presentes - a psicologia do Drama considerando-se tipos de desenvolvimento (patologia geral) (VIGOTSKI, 2000).
O processo superior de desenvolvimento é um pequeno Drama, atividade psíquica, sua organização e reorganização. O Drama é mudança de papéis (o papel da paixão, da avareza, dos ciúmes, do sonho, do pensamento, da atenção). Na tragédia a esposa traiu (traiu em sonho), então deve morrer. Qual o significado do sonho para o bebê, aos sete anos e aos 10 anos? O infantil perde seu papel, significado e lugar nos ciclos de desenvolvimento. A diferença do doente para o saudável é que aquele acredita em seu próprio delírio, o segundo não. É o papel de uma função que vai para o primeiro plano, que se destaca e regula as demais (VIGOTSKI, 2000).
O destaque no estudo do desenvolvimento será a introdução dos conceitos de função e sistema. A experiência duplicada interna e externa tem como resultado a reação que deriva da luta de um grupo de receptores por um campo motor comum de um órgão de trabalho. Cada reação vitoriosa é produzida após a luta, a reação é uma das muitas possibilidades de respostas possíveis. Dar-se conta, a vivência das vivências, é uma excitação recíproca de sistemas de reflexos, os reflexos inibidos (pensamentos). A metodologia que guia a psicologia é a que leva em conta esses “reflexos inibidos” (algo entre o que se provoca de resposta e a resposta externa, algo interno ou sussurrado, pensado) (VIGOTSKI, 2000).
O foco do estudo desta maneira será o significado que uma função simbólica adquire na consciência das pessoas por um lado e o aparecimento de novas formas de comportamento a partir de um novo conteúdo extraído pelo homem da ideologia do meio. Construção de funções psicológicas e substrato cerebral, relações entre sistemas psicológicos ou do organismo segundo Vigotski (2000).
A reestruturação da vivência interior, vivência atribuída de sentido (sua fragilidade no caso das psicopatologias), a formação nova (maneira de ver a totalidade da realidade numa atitude generalizada) são discutidas em Vigotski (2006). A unidade entre sistemas psicológico, físico e nervoso e a relação entre funções (meio falante e fala da criança) e os processos de desenvolvimento em cortes etários com seus tempos e conteúdos específicos, as relações entre o que surge de novo e o velho são destacados em Vigotski (2018). Os ciclos de desenvolvimento apontarão, assim, para a complexidade das relações entre sistemas e órgãos e certas peculiaridades da vida orgânica e da personalidade que se deslocam para o centro (o que implica em relações hierárquicas de dominância e subordinação análogas às relações sociais).
A sucessão das etapas de idade determina-se pela alternância de períodos estáveis e críticos. Ao início de cada período de idade a relação estabelecida entre criança e o entorno, sobretudo o social, é peculiar, específica e irrepetível para esta idade. Denomina-se essa situação como situação social do desenvolvimento em determinada idade. A estrutura da nova consciência adquirida em cada idade significa que se percebe de maneira distinta a vida interior assim como o mecanismo interno de suas funções psíquicas (2006). A essência da crise reside na reestruturação da vivência interior, mudanças na relação com o meio, de necessidades e motivos que são motores do desenvolvimento. O aumento e mudança dessas necessidades e desejos é a parte menos consciente e voluntária da personalidade.
Sobre as idades críticas, as crises, as mudanças significativas, a peculiaridade mais importante e menos clara é a índole negativa do desenvolvimento. Seriam períodos mais destrutivos que criadores. A criação interromper-se-ia nas crises, perderia ganhos antes que adquirisse algo novo. O advento da idade crítica tem um caráter negativo (rebeldia) e não estaria relacionada a novas aspirações ou novas formas de atividade ou novas formas de vida interior. O conteúdo negativo do desenvolvimento dos períodos críticos é a faceta inversa ou velada das mudanças positivas da personalidade que configuram o sentido principal e básico de toda idade crítica.
Sobre os graus de consciência, haveriam possíveis e infinitas variedades de graus de consciência, ou seja, interação de sistemas incorporados ao reflexo que atua. A campainha ativa a saliva, mas a saliva ativa a deglutição. O uivo de um lobo (excitante) pode provocar medo, mudança da respiração e no batimento cardíaco, e fazer pensar: “tenho medo”. Por isso, há a transmissão de um sistema a outros. Segundo o autor, a psicologia deveria estudar o problema da consciência na perspectiva da interação, excitação recíproca de diferentes sistemas de reflexos. (VIGOTSKI, 2004b). Por que podem ser estudados os reflexos complexos de linguagem e não podem ser levados em consideração os pensamentos-reflexos, interrompidos em seus dois terços, embora se trate do mesmo tipo, real e inquestionável, de reação? Indaga o autor ao desenvolver a questão das reações.
Os tipos de desenvolvimento da criança (dons e patologias) parecem ligados em grande parte ao tipo e caráter do desenvolvimento instrumental. As possíveis conexões entre partes isoladas do cérebro se estabelecem fora, através do sistema nervoso periférico. Partindo dessas ideias, segundo Vigotski, podemos compreender uma série de fatos da patologia, sobretudo aqueles casos em que uma pessoa com sistemas cerebrais lesionados não é capaz de realizar algo diretamente, mas consegue fazê-lo se falar disso consigo mesma, ligar um ponto do cérebro com outro através de um signo externo - nas construções orgânicas e funções no cérebro constroem-se os instintos.
Sobre a conduta verbalizada, está o poder psicológico da palavra sobre as funções psicológicas. O papel das funções, do cochicho, do segredo em uma dada estrutura de personalidade. O Drama é luta de ligações, choque de sistemas (dever e sentimento, paixão etc.) A nova psicologia é a da mudança de papéis. O sonho do Drama do Kaffir (grupo étnico) é um papel, o do neurótico é outro: o herói e o vilão. O pensamento em Espinosa é dono dos desejos, diferentemente que na psicanálise de Freud que ele é escravo dos desejos, uma questão de hierarquia de sistemas. A psicologia, segundo Vigotski (2000), deve apresentar-se no conceito de Drama e não de processos. A relação entre sistemas é desvelamento de uma “política interna e também externa” em que se reestruturam as relações. Dessa forma, o desenvolvimento do sistema endócrino numa idade determina o fluxo do desenvolvimento do cérebro, o caráter da atividade de suas funções na idade e de certa forma o desenvolvimento psicológico.
4 O que dizem os estudos russos contemporâneos sobre vivência
A Revista Veresk é uma publicação internacional e periódica de Psicologia que se propõe a divulgar trabalhos que examinam e aprofundam o estudo do legado da teoria de Lev Semionovitch Vigotski. Os autores são especialmente convidados a apresentarem seus textos pelos Editores Associados ou pelo Conselho Editorial. Veresk é apresentada tanto no formato impresso, quanto no eletrônico, nas versões em russo, português e inglês. Sua publicação é patrocinada pelo Instituto de Psicologia L. S. Vigotski, da Universidade Estatal de Humanidades da Rússia, pela Faculdade de Educação da Universidade Federal Fluminense, Brasil e pela Faculdade de Ciências da Saúde, do Centro Universitário de Brasília, Brasil. Aqui apresento uma síntese de algumas reflexões baseadas em publicações da Revista e de trabalhos derivados da parceria entre essas instituições.
As produções mais recentes apontam para a vivência estética do crítico, interpretação semântica da obra (movimento do ator como conflito semântico) conforme em Sobkin (2017). O desenvolvimento etário é a “história das vivências da personalidade em formação” (JEREBTSOV, 2014). Neoformações. Enraizamento dos órgãos da vivência. Sistema interno de relação com o outro (JEREBTSOV, 2014).
Análise das vivências e reações do auditório. Reagir psicologicamente à ação cênica: a questão do gênero, contradição, fenômeno psicológico, subtextos. Unidade: posição interna diante da realidade, resolução de conflito, choque dramático, contradição que exige resolução, novas posições, superação do sofrimento e da solidão em suas dimensões estrutural (saber conjunto), dinâmica (resolução de conflito) e existencial (superação do sofrimento e solidão) segundo Pergamenschik (2017). A vivência implica em transformação de algo, geração de novos sentidos, formação de campo semântico (generalização), períodos da vida e idade. O meio é a situação de vida segundo Jerebtsov e Prestes (2019). Para Vladimir T. Kudriavtsev, segundo entrevista a Prestes (2021), vivência será no futuro equivalente a “reação estética”.
5 Considerações finais
O desenvolvimento histórico do conceito russo perejivanie (vivência) nas produções brasileiras apontam para reformulações no campo teórico-metodológico nos estudos em desenvolvimento humano no âmbito da Teoria Histórico-cultural. Na medida em que se configurou atrelado à ideia de experiência marcada pela emocionalidade numa perspectiva de interação/relação entre características da criança e meio, um "entre" características psicológicas e realidade social para a concepção de unidade teórico-metodológica de estudo da criança em desenvolvimento, voltou o olhar para uma ciência específica proposta por Vigotski e que recupera o sentido monista de sua pedologia.
Simultaneamente um conceito metodológico e ontológico, perejivanie põe em movimento questões caras à psicologia e à psicopatologia da personalidade que é o problema da vivência atribuída de sentido, ao desenvolvimento da percepção de toda a realidade com seus vínculos e relações semânticas no processo de formações novas e diferenciação do interior e exterior quando se produz o desdobramento interno de vivências, quando a criança as compreende pela primeira vez. Ressaltando o caráter complexo e não linear do desenvolvimento, as reflexões atualizadas sobre os estudos do tema destacam as resenhas teatrais de Vigotski que marcam sua concepção de personalidade como luta interna, choque de sistemas, hierarquia de funções, os modos de relacionar para si como para o outro (relacionados às idades pedológicas, sistemas físico, nervoso e psicológico).
As duas traduções da Quarta Aula, uma publicada pela Revista USP de 2010 e a outra publicada e organizada em Tunes e Prestes (2018) no contexto das Setes Aulas, as obras contemporâneas de autores russos reunidas na Revista Veresk, além da literatura produzida pelo próprio Vigotski mostram uma ressignificação do sentido de perejivanie. Da concepção de interação ou influência meio/ criança para a ideia de unidade, para as relações desta com a arte/ literatura/ situação social de desenvolvimento. Da concepção de sentimentos contraditórios para compreensão dinâmica de desenvolvimento (e não estudo da interação entre meio e criança). Ou seja, o meio se modifica enquanto a criança compreende de diferentes maneiras uma situação, nisso chega-se à relação psicológica com as situações e as demais pessoas por atribuição de sentido, pelo significado da palavra, por novas organizações, novos motivos, novos valores, novas atitudes. Essas novas reorganizações são produzidas nos âmbitos físico, psicológico e nervoso, desde que certas funções ganham centralidade e outras vão para a periferia. Requer verificar a que aspectos do meio a criança atribui sentido, o que se relaciona às novas organizações internas em cada degrau etário e os tipos/ formas de desenvolvimento.
A percepção atribuída de sentido seria compreender estados internos, diferenciando interior e exterior por lutas internas, em inúmeras possibilidades de reações, domínio de si e da natureza. Seria como cada criança vivencia a situação que é uma cena - obra dramática - uma nova situação na trajetória de vida. Vivência como superação da solidão e do sofrimento, sem negá-los, mas superando-os através do saber conjunto, da resolução do conflito e superação dialética de conflitos (vida/morte), como inspirado na análise de “A tragédia de Hamlet” de 1916.
Tal desenvolvimento histórico aponta para muitas possibilidades novas de compreensão da criança em desenvolvimento, na busca pela superação das teses ambientalistas e mentalistas, o que pode trazer contribuições para outros olhares tanto para o desenvolvimento humano como para aspectos da vida em geral.










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