SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.28 número57ECOBIOGRAFIA: RENOVANDO LAÇOS, FORMAS DE SE RELACIONAR COM O MUNDO NO ANTROPOCENO índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Compartilhar


Linguagens, Educação e Sociedade (LES)

versão impressa ISSN 1518-0743versão On-line ISSN 2526-8449

Revista LES vol.28 no.57 Teresina maio/ago. 2024  Epub 03-Abr-2025

https://doi.org/10.26694/rles.v28i57.5728 

Dossiê Temático

APRESENTAÇÃO DOSSIÊ: CRIAÇÕES DE MUNDOS OUTROS POSSÍVEIS: PESQUISAS NARRATIVOBIOGRÁFICAS E FORMAÇÃO

Joelson de Sousa Morais1 

Maria da Conceição Passeggi2  3 

Elizeu Clementino de Souza4 

1Universidade Federal do Maranhão

2Universidade Federal do Rio Grande do Norte

3Universidade Cidade de São Paulo

4Universidade do Estado da Bahia


Os artigos que compõem o Dossiê Criações de mundos outros possíveis: pesquisas narrativo-biográficas e formação, trazem contribuições de pesquisadoras e pesquisadores da Espanha, França, México e Brasil que anunciam modos possíveis de (re)criações narrativobiográficas em pesquisas com memórias, histórias, narrativas de experiências vividas, enquanto processos formativos, que se realizam em diversos contextos institucionais e não institucionais.

Os doze textos têm em comum referenciais epistemológicos, teórico-metodológicos e políticos no campo da pesquisa qualitativa em educação, em que se recorre a narrativas biográficas e autobiográficas. E por adotarem diferentes abordagens, autoras e autores deste dossiê vêm enriquecendo discussões, teorizações, estudos e reflexões, na troca de experiências, ao longo de suas carreiras, dedicadas ao aprofundamento de aprendizagens sobre a formação humana. O que permite retomar aqui as palavras de Souza (2023, p. 4-5) e afirmar que essas contribuições “oferecem padrões de interpretação, que contribuirão, tantoparaoconhecimentodo humano, quantoparaopróprio aprimoramento da pesquisa qualitativa interpretativa”.

Narrar as experiências vividas se inscreve, portanto, em modos privilegiados de tecer mundos outros e formas outras de viver a vida. O exercício da memória, que se contrapõe ao esquecimento ou revela o que nele se guarda, gera possibilidades de auto(trans)formações que servem de guia a projetos futuros. Para Ricoeur (2007, p. 241), o exercício da memória e o de se projetar em devir se tornam relevantes na medida em que permitem “atualizar os recursos que a reflexividade dos agentes sociais em suas tentativas de compreenderem a si mesmos e ao seu mundo” se agenciam como sujeitos históricos e de linguagem. Esses são alguns dos fios que tecem o conjunto dos textos que seguem.

O artigo que abre o dossiê Ecobiografía: renovar lazos, modos de relación con el mundo en el Antropoceno, em autoria de José Antonio Serrano Castañeda, Juan Mario Ramos Morales e Lorena del Socorro Chavira Álvarez, tem como tema central questionamentos relacionados à necessidade de se construir uma outra cosmovisão para enfrentar as ameaças provocadas pelo Antropoceno. O conceito central da reflexão é o de ecobiografia em múltiplos sentidos. Somos um ecossistema corpóreo, vivendo num ecossistema cósmico. Perspectiva que permite alargar horizontes de pesquisa em educação e na formação, com base nas relações que o humano entretece consigo mesmo, com o outro e com o mundo, para além de uma mirada teocêntrica e antropocentrista, mas com vistas ao futuro planetário na interdependência entre seres viventes no universo em profunda mutação.

O artigo de Hervé Breton, Modos narrativos e modos de existência de saberes experienciais, propõe como objetivo examinar as respectivas contribuições e complementaridades geradas pelos modos de narrar em primeira e terceira pessoa. O desafio desse exame consiste em definir, por um lado, as maneiras pelas quais a experiência vivida é narrada e, por outro lado, caracterizar como se realizam as estratégias narrativas a fim de analisar seus efeitos sobre os modos de existência de saberes experienciais no contexto da validação das aquisições da experiência vivida.

Virando de ponta-cabeça: branquitude, (trans)formação docente e outros mundos possíveis, artigo de Graça Reis, Marcia Reis, Erica Teixeira e Amanda Silva, as autoras exploram as percepções de professoras da Educação Básica com relação à noção de branquitude. O objetivo é discutir o papel da pessoa branca na luta antirracista no contexto escolar. Consideram os currículos pensadospraticados e assumem como opção politicaeticametodológica a pesquisa narrativa nosdoscom os cotidianos escolares como forma de (re)valorizar os saberes dos sujeitos, enquanto potencial emancipatório e (trans)formador.

Camila Petrucci dos Santos Rosa, Adriana Carvalho Koyama e Inês Ferreira de Souza Bragança no artigo, Uma viagem errante: o desvio como método em pesquisas narrativas e (auto)biográficas, convidam à reflexão sobre o desvio como método em pesquisas narrativas e (auto)biográficas, a partir das contribuições de Walter Benjamin, por meio da socialização de lampejos de uma viagem errante, vivida em uma pesquisaformação, que tematizou as infâncias, na relação com as memórias, as narrativas e os cotidianos escolares.

O artigo, Ateliê formativo: narrativas de profissionais da educação em espiral, de autoria de Ecleide Cunico Furlanetto, Cristiane Nobre Nunes e Ivanice Nogueira de Carvalho Gonçalves, ancora-se em narrativas produzidas no contexto de um ateliê formativo tomando como base a perspectiva da pesquisa-formação. O objetivo das autoras é apresentar o desenrolar dos processos de formação pautados no que denominam de narrativas em espirais de formação. Para tanto, exploram, inicialmente, a noção de formação, na perspectiva da pesquisa biográfica, e apresentam a metáfora da espiral como simbologia da (trans)formação que se opera ao longo da escrita. As análises descrevem três movimentos: o de circundação, o de amplificação e o de reconstelação, que dão sustentação à elaboração e à análise das narrativas em espirais produzidas no contexto do ateliê.

O artigo, O potencial formativo da pesquisa narrativa na formação continuada do docente universitário, de autoria de Mauro José de Souza, Filomena Maria de Arruda Monteiro e José Inácio Rivas-Flores, tomam a narrativa como fenômeno e método investigativo, adotando a perspectiva da pesquisa narrativa. O artigo centra-se em narrativas de docentes universitários e universitárias, elaboradas nos cenários da Educação Superior brasileira e espanhola. Por meio da reflexão sobre suas próprias experiências suas narrativas evidenciam as potencialidades da pesquisa narrativa na formação docente continuada. Em sua conclusão, sugere-se que se trata de uma possibilidade formativa, emancipatória, ímpar e necessária para orientar programas formativos institucionalizados, destinados a docentes no âmbito da Educação Superior em ambos os países.

Vanessa Martins Farias Alves-Bomfim, Gehysa Lago Garcia e Rodrigo Matos-de-Souza, no artigo de sua autoria, “Vi muitos rostos parecidos com o meu”: outros caminhos para a formação continuada nas prisões, problematizam o processo de formação continuada, realizado com docentes que atuam no sistema prisional, com o objetivo de focalizar a formulação de outras pedagogias para sujeitos outros. Para tanto, discutem uma investigação realizada com base na pesquisa (auto)biográfica, que permite pôr em evidência aspectos subjetivos e o lugar de fala desses atores sociais, no lugar que ocupam no tecido social. O artigo trata de forma instigante as intersecções entre histórias narradas e contexto social no qual vivem pessoas privadas de liberdade.

Ainda no contexto de pesquisas desenvolvidas com foco no sistema prisional, o artigo A palavra é um tiro, não volta atrás: história de vida e privação de liberdade, Elizeu Clementino de Souza e Vanessa Girotto sistematizam aspectos alienantes e transformadores, presentes na história de vida de uma pessoa privada de liberdade. Partem de um referencial de justiça restaurativa e buscam afastar a dualidade existente entre os conceitos de sujeito bom e de sujeito mau. Para tanto sugerem que se torna necessário escutar, de forma empática, a narrativa da pessoa privada de liberdade, para melhor compreender sua história e os significados que ela vai construindo ao longo de sua narrativa.

O artigo, Identidade narrativa de professoras da educação infantil, de Jónata Ferreira de Moura e de Adair Mendes Nacarato, é fruto de uma pesquisa biográfica realizada com base em narrativas de seis professoras da educação infantil de uma pré-escola da rede pública municipal de uma cidade do interior do Estado do Maranhão. O objetivo é compreender como se manifestam em suas narrativas de experiências pessoais e profissionais, indícios de identidade narrativa. Os dados revelam que as narrações autobiográficas, por permitir processos que representam, expressam e constituem o eu, ajudam a encontrar o fio condutor para estabelecer relações que se constroem, ao longo do processo de formação, entre um antes e um depois, uma vez que as professoras participantes admitem terem outra visão delas mesmas depois da formação.

O artigo, Memorial escolar: a escola como lugar de memórias e de educação da memória, das autoras Maria da Conceição Passeggi e Patrícia Lúcia Galvão da Costa, apresenta uma reflexão sobre o memorial escolar, escrito por crianças do 5º Ano do Ensino Fundamental, enquanto dispositivo pedagógico favorável ao ritual de passagem por elas vividos na travessia para o Ensino Fundamental II. Após uma breve retrospectiva sobre o gênero memorial na Educação Superior, no Brasil, as autoras descrevem procedimentos de escrita do memorial escolar, para em seguida se centrarem nas análises de memoriais disponibilizados no site da escola e de entrevistas realizadas com as crianças sobre o que representou para elas a primeira escrita de um gênero memorialístico. Concluem sobre a importância da escola como lugar de experiências, de memórias e do memorial escolar como processo de subjetivação, de socialização e de educação da memória.

Dilmar Rodrigues da Silva Júnior, Franc-Lane Sousa Carvalho do Nascimento e Maria Divina Ferreira Lima, no artigo de sua autoria: O método autobiográfico e sua dimensão formativa na pesquisa sobre alfabetização em classes multisseriadas, fundamentam-se na concepção de alfabetização em classes multisseriadas como uma modalidade educacional, marcada por singularidades inerentes à identidade e à cultura dos povos do campo. Participaram da pesquisa três alfabetizadoras que atuam em classes multisseriadas, de uma escola do campo, da rede municipal de ensino da cidade de Caxias no Estado do Maranhão. O método autobiográfico utilizado na pesquisa, considera a dimensão do reconhecimento da subjetividade das professoras alfabetizadoras e suas contribuições para o processo educacional de crianças residentes no campo ao longo do tempo.

O artigo, Aportes teóricos e metodológicos da transcriação: da poesia concreta à pesquisa biográfica, de Carolina Kondratiuk, apresenta uma discussão pouco usual sobre o processo de tradução de textos científicos, o que a autora denomina de transcriação. Tanto do ponto de vista de uma prática automedial, quanto de um procedimento de escrita científica sensível, a transcriação carrega em si promissoras potencialidades para a compreensão e o favorecimento dos processos de formação autobiográfica e heterobiográfica, que entram em ação quando os sujeitos narram e escrevem sobre eles mesmos, compartilhando histórias e construindo sentidos a partir de sua experiência de existir no mundo.

A leitura deste Dossiê permitirá, assim, constatar que os textos que o compõem tematizam perspectivas epistemológicas, políticas, de(s)coloniais, teórico-metodológicas, com base em narrativas biográficas e autobiográficas, em diferentes campos do conhecimento, entrecruzando caminhos e abordagens com foco na pesquisa-formação (Josso, 2010), em diversos contextos, com múltiplos agentes socioculturais, narrações da infância e na infância, histórias e memórias que se constroem em escolas, com povos do campo, na Educação Superior, suas dimensões ética, estética, imagéticas, sensíveis à narração e a estudos nos/dos/com os cotidianos escolares, que ensejam outras políticas educacionais num mundo em mudança, talvez, nunca experienciadas.

Se “o ser humano se apropria de sua vida e de si mesmo por meio de histórias”, como defende Delory-Momberger (2008, p. 35), que o presente Dossiê seja um dispositivo de tessitura e compartilhamento de histórias veiculadas pela memória, vividas pela experiência e construídas em narração, na composição de histórias sensíveis, potentes e transformadoras como tão bem salientou Benjamin (2012). Histórias que ultrapassam o tempo da vida, tempo roubado pelas exigências atuais que aligeiram a experiência e enfraquecem o deixar-se tocar pelo cotidiano, que pulsa de mil e umas formas. Tratam-se, pois, de reflexões caras, sensíveis e primorosas que representam o vigor e a vitalidade da pesquisa com narrativas sobre a formação humana, em suas mais diversas perspectivas, ancoradas “em uma epistemologia mais sensível que acolhe as múltiplas dimensões que envolvem a construção de saberes e da própria vida” (Bragança, 2012, p. 30). No bojo da complexidade do vivido, caberia por fim afirmar que narradoras e narradores, que expressam em seus escritos reflexões existenciais, seguem em busca da “construção de saberes, conhecimentos e formação como deleite e transbordamento” (Morais, 2023, p. 1137).

Que as leitoras e os leitores possam se deleitar na leitura dos textos que compõem este Dossiê, com vistas ao aprofundamento de conhecimentos, de subsídios teóricos, metodológicos e epistemológicos, suscetíveis de afetar e emocionar, ao aliar paixão, conhecimento, ciência, razão e emoção, fertilizando, segundo Passeggi (2021, p.94), novos cenários de formação “como possibilidades abertas, o que revela ao mesmo tempo a complexidade da narração e seu poder de auto(trans)formação”.

A todas e a todos que participaram com suas contribuições e a quem sobre elas se debruçar, para ampliar discussões e reflexões, nosso reconhecimento. Afinal, a expectativa é que as leituras e releituras provoquem estados de ânimos com encanto, sensibilidade e emoção, mais propícios à busca de dias melhores para a Educação e a formação. Boa leitura!

São Luis, Natal, Salvador, maio de 2024.

REFERÊNCIAS

BENJAMIN, Walter. O narrador. In.: BENJAMIN, W. Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. Obras escolhidas I. Tradução: Sérgio Paulo Rouanet; prefácio Jeanne Marie Gagnebin. 8.ed São Paulo: Brasiliense, 2012. [ Links ]

BRAGANÇA, Inês Ferreira de Souza. Histórias de vida e formação de professores: diálogos entre Brasil e Portugal. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2012. Disponível em: <https://doi.org/10.7476/9788575114698. Acesso em: 16 abr. 2024. [ Links ]

DELORY-MOMBERGER, Christine. Biografia e educação: figuras do indivíduo-projeto. Tradução de Maria da Conceição Passeggi, João Gomes da Silva Neto, Luis Passeggi. São Paulo: Paulus, 2008. [ Links ]

JOSSO, Marie-Christine. Experiências de vida e formação. Tradução de José Cláudio, Júlia Ferreira; revisão Maria da Conceição Passeggi, Marie-Christine Josso. 2. ed. rev. e ampl. Natal, RN: EDUFRN; São Paulo: Paulus, 2010. [ Links ]

MORAIS, Joelson de Sousa. Epistemologia complexa e as compreensões narrativas do vivido na pesquisa (auto)biográfica. Revista Diálogo Educacional, v. 23, n. 78, p. 1135-1149, 2023. Disponível em: https://periodicos.pucpr.br/dialogoeducacional/article/view/30305/26240. Acesso em: 06 mai. 2024. [ Links ]

PASSEGGI, Maria da Conceição. Reflexividade narrativa e poder auto(trans)formador. Revista Práxis Educacional, Vitória da Conquista, v. 17, n. 44, p. 93-113, jan./mar. 2021. Disponível em: https://periodicos2.uesb.br/index.php/praxis/article/view/8018/5528Links ]

RICOEUR, Paul. A memória, a história e o esquecimento. Tradução Alain François [et al]. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2007. [ Links ]

SOUZA, Elizeu Clementino de. (Auto)biografia, ciência e arte: diálogos com Oliver Sacks. Revista e-Curriculum, São Paulo, v.21, p. 1-17, 2023. Disponível em: https://revistas.pucsp.br/index.php/curriculum/article/view/59921/41861. [ Links ]

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.