SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.28 número57O MÉTODO AUTOBIOGRÁFICO E SUA DIMENSÃO FORMATIVA NA PESQUISA SOBRE ALFABETIZAÇÃO EM CLASSES MULTISSERIADASA PEDAGOGIA LIBERTADORA DE PAULO FREIRE: UMA UTOPIA BRASILEIRA índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Serviços Personalizados

Journal

Artigo

Compartilhar


Linguagens, Educação e Sociedade (LES)

versão impressa ISSN 1518-0743versão On-line ISSN 2526-8449

Revista LES vol.28 no.57 Teresina maio/ago. 2024  Epub 03-Abr-2025

https://doi.org/10.26694/rles.v28i57.5417 

Dossiê Temático

APORTES TEÓRICOS E METODOLÓGICOS DA TRANSCRIAÇÃO: DA POESIA CONCRETA À PESQUISA BIOGRÁFICA

THEORETICAL AND METHODOLOGICAL CONTRIBUTIONS OF TRANSCREATION: FROM CONCRETE POETRY TO BIOGRAPHICAL RESEARCH

CONTRIBUCIONES TEÓRICAS Y METODOLÓGICAS DE LA TRANSCREACIÓN: DE LA POESÍA CONCRETA A LA INVESTIGACIÓN BIOGRÁFICA

Carolina Kondratiuk

1 Doutora em Educação com dupla titulação pela Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), Brasil, e pela Universidade Paris 8 (UP8), França. Coordenadora de pesquisa do GIS Le Sujet dans la Cité Sorbonne Paris Nord-Campus Condorcet, Paris, França. Pesquisadora do Centro interdisciplinar de pesquisa “Culture, éducation, formation, travail” (CIRCEFT), Paris, França. E-mail: carolinakondratiuk@gmail.com

1 
http://orcid.org/0000-0002-8889-4621

1GIS Le Sujet dans la Cité, Sorbonne Paris Nord


RESUMO

O artigo se interessa pela transcriação, com o objetivo de explorar os desdobramentos possibilitados por essa ferramenta teórica e metodológica no desenvolvimento de uma escrita científica sensível em pesquisa biográfica. Para tanto, apresenta uma breve genealogia do conceito, organizada em três momentos: as origens no campo da literatura, sua ressignificação no campo da história oral e seu alcance atual no contexto da pesquisa biográfica em educação. Tal percurso, que retraça a noção desde suas raízes na poesia brasileira, evidencia os aportes teóricos e metodológicos da transcriação, a serem explorados no campo da pesquisa biográfica em educação, das histórias de vida em formação e da investigação narrativa. Tanto uma prática automedial quanto um procedimento de escrita científica sensível, a transcriação carrega promissoras potencialidades para a compreensão e o favorecimento dos processos de formação auto e heterobiográfica que entram em ação quando os sujeitos narram e escrevem a si mesmos, compartilhando histórias e construindo sentidos a partir de sua experiência de existir no mundo.

Palavras-chave: Transcriação; pesquisa biográfica; escrita científica sensível; auto/heterobiografia.

ABSTRACT

The article focuses on transcreation, with the aim of exploring the developments made possible by this theoretical and methodological tool in the development of sensitive scientific writing in biographical research. To this end, it presents a brief genealogy of the concept, organised into three moments: its origins in the field of literature, its re-signification in the field of oral history and its current scope in the context of biographical research in education. Retracing the notion from its roots in Brazilian poetry, the article highlights the theoretical and methodological contributions of transcreation to be explored in the field of biographical research in education, life stories and narrative research. Both a self-medial practice and a sensitive scientific writing procedure, transcreation carries promising potential for understanding and favouring the processes of auto and heterobiographical formation that come into play when subjects narrate and write about themselves, sharing stories and constructing meanings from their experience of existing in the world.

Keywords: Transcreation; biographical research; sensitive scientific writing; auto/heterobiography.

RESUMEN

Este artículo se interesa por la transcreación, con el objetivo de explorar los desarrollos que esta herramienta teórica y metodológica hace posibles en el desarrollo de una escritura científica sensible en la investigación biográfica. Para ello, presenta una breve genealogía del concepto, organizada en tres momentos: sus orígenes en el campo de la literatura, su resignificación en el campo de la historia oral y su alcance actual en el contexto de la investigación biográfica en educación. Este recorrido, que remonta el concepto desde sus raíces en la poesía brasileña, pone de relieve las contribuciones teóricas y metodológicas de la transcreación, a explorar en el ámbito de la investigación biográfica en educación, las historias de vida en formación y la investigación narrativa. A la vez práctica automedial y procedimiento de escritura científica sensible, la transcreación tiene un potencial prometedor para la comprensión y el favorecimiento de los procesos de formación auto y heterobiográfica que entran en juego cuando los sujetos narran y escriben sobre sí mismos, compartiendo historias y construyendo significados a partir de su experiencia de existencia en el mundo.

Palabras clave: Transcreación; investigación narrativa; escritura científica sensible; auto/heterobiografía.

INTRODUÇÃO

Quando, a partir de uma perspectiva fenomenológica, estudos orientados pelas abordagens narrativo-biográficas se interessam pela experiência do sujeito, o lugar que a pesquisa confere à fala dos atores sociais ouvidos merece ser cuidadosamente examinado. Como apreender e documentar, em contexto de pesquisa, a experiência vivida e adquirida por sujeitos singulares em espaços sociais compartilhados? Longe de ser uma entidade fixa e acabada, o narrador que fala de si e de sua vida encontra-se em permanente construção. De acordo com Delory-Momberger (2005), o campo multidisciplinar da pesquisa biográfica em educação compreende o sujeito como construção jamais acabada, incessante produção de subjetividade e pertencimento, de individuação e socialização. Do nascimento à morte, o curso da vida é para ele o lócus da experiência singular de ser um “eu mesmo” em espaços compartilhados. Tal experiência comporta as duas acepções que a língua alemã distingue nos termos Erlebnis e Erfahung: respectivamente, a experiência vivida e a experiência adquirida, ou seja, as vivências pelas quais o sujeito passa e os saberes que a partir delas constrói. A porta de entrada para esse vasto universo é, por excelência, a narrativa que os próprios sujeitos fazem sobre si mesmos.

Porém, o compromisso que as abordagens biográficas assumem de ouvir e dar visibilidade à fala dos sujeitos vem acompanhado pela responsabilidade de respeitá-la em sua integridade, na qual forma e conteúdo se entrelaçam inexoravelmente. Em restituições de pesquisas, é frequente a presença de falas toscamente transcritas, marcadas por repetições e vícios característicos da oralidade, contendo erros de concordância, frases inacabadas, raciocínios interrompidos e afins. Ora, a linguagem oral não possui os mesmos dispositivos de correção que a escrita. A oralidade inclui, naturalmente, formas linguísticas que, quando presentes no texto escrito, assumem a aparência de erros, redundâncias ou inconsistências. Fixadas no papel, estas têm seu peso significativamente aumentado e acabam por ofuscar o conteúdo da mensagem. Além disso, as palavras proferidas são apenas um dos elementos que constituem uma história contada a um interlocutor presente. Bastaria haver presenciado a entrevista e comparar as impressões recebidas in loco àquelas provocadas pela leitura de sua transcrição bruta para constatar que tudo aquilo que transcende as palavras foi deixado de fora, ocasionando omissões e deformações.

Com vistas a apreender a narração que o sujeito faz de si mesmo e de sua experiência de ser no mundo, a entrevista de pesquisa biográfica é um encontro sensível (Coccia, 2010) entre ele e o pesquisador. No diálogo estabelecido, espaço de intersubjetividades e intercorporeidades (Bernard, 1976), o sujeito é convidado a se projetar no mundo por meio, não somente de palavras, mas de todas as impressões sensíveis que emana, da voz ao silêncio, da entonação ao olhar, dos gestos à dramatização, das lágrimas aos sorrisos. Assim construída somática e dialogicamente, a narrativa biográfica toma parte em uma incessante busca por dar forma, no plano sensível, a um sentimento de si mesmo e representa, nesse sentido, uma relação estilística (Macé, 2016) estabelecida consigo, com os outros e com o mundo. Um trabalho de biografização, diria Delory-Momberger (2005), pelo qual o sujeito expressa e dá forma a um “si mesmo” jamais acabado. Tecitura da intriga, diria Ricoeur (1990), pela qual memórias, eventos e experiências são entrelaçados e adquirem significado na constituição de uma identidade narrativa.

De que modos as narrativas biográficas, tecidas oralmente durante o encontro sensível entre pesquisador e colaborador, podem ser tornadas audíveis nos produtos escritos da pesquisa para serem, então, devolvidas à sociedade? O que seria uma tradução relevante, em linguagem escrita, de narrativas contadas pelo narrador com toda a sua presença, compostas não somente por palavras, mas também pela multiplicidade de elementos que as transcendem e acompanham? Sob quais condições o registro de tais narrativas, sem reduzi-las ao status de meros dados a serviço da produção científica, pode engendrar textos favorecedores de contínuos processos formação de si, tanto para os próprios narradores quanto para os pesquisadores e leitores? Tais perguntas têm me motivado a explorar, em meu percurso de pesquisa, as potencialidades da transcriação, entendida como ferramenta conceitual e metodológica.

Esse percurso foi alimentado por reflexões desenvolvidas, inicialmente, no Collège International de Recherche Biographique en Éducation (CIRBE) e que hoje encontram seus desdobramentos na rede internacional de pesquisa GIS Le Sujet dans la Cité, sediada na universidade Sorbonne Paris Nord-Campus Condorcet. DeloryMomberger e Janner-Raimondi (2018) explicam que os estudos sobre o tema “Escrever em pesquisa biográfica”, levados a cabo no interior desses espaços de pesquisa e formação, visam responder ao desafio, que a pesquisa biográfica em educação toma para si, de ouvir e dar a ouvir falas de atores sociais invisibilizados. Em minha trajetória de pesquisa, pude acompanhar o encontro dessa florescente vertente de estudos com o conceito de transcriação, originário do campo literário da poesia concreta brasileira e transposto para a reflexão metodológica em história oral por pesquisadores do Núcleo de Estudos em História Oral da Universidade de São Paulo (NEHO-USP). Sua teoria da transcriação convida a pensar a transcrição de narrativas orais como um trabalho análogo à tradução entre línguas. Oriunda desse encontro, a problemática que este artigo se propõe a abordar se constitui a partir da articulação dessa esclarecedora analogia com a centralidade da experiência em pesquisa qualitativa e com o interesse da abordagem biográfica pelos processos de formação dos sujeitos sociais singulares: autobiográfica - quando a narração da própria vida é lugar da formação de si - e heterobiográfica - quando potencializada pela leitura da biografia de outrem. Como veremos, a transcriação das histórias que os sujeitos tecem sobre si mesmos, reconhecidas como artes formadoras da existência (Pineau, 1996), representa um caminho profícuo no sentido de uma escrita científica sensível.

Diante desse quadro e com o intuito de explorar os desdobramentos possibilitados pela transcriação no desenvolvimento de uma escrita científica sensível em pesquisa biográfica, este artigo apresenta uma breve genealogia do conceito, organizada esquematicamente em três momentos: as origens no campo da literatura, sua ressignificação no campo da história oral e seu alcance atual no contexto da pesquisa biográfica em educação. Tal percurso, que retraça a noção desde suas raízes na poesia brasileira, oferece elementos de reflexão face às questões aqui levantadas e evidencia os aportes teóricos e metodológicos da transcriação, a serem explorados no campo da pesquisa biográfica em educação, das histórias de vida em formação e da investigação narrativa.

NO CAMPO LITERÁRIO, A TRANSCRIAÇÃO COMO RECRIAÇÃO TRADUTORA

A transcriação encontra suas origens no campo da literatura e, mais especificamente, na tradução de textos poéticos, tendo sido concebida na década de 1960 por Haroldo de Campos. Em um ensaio de 1962, o tradutor e escritor pioneiro do concretismo brasileiro define sua concepção de tradução como uma “recriação, ou criação paralela, autônoma, porém recíproca”, que constituiria o “avesso da chamada tradução literal” (campos, 2006, p. 35). Junta-se, desse modo, a Walter Benjamin (1987) quando sublinha o componente criativo da tarefa do tradutor, para além da simples transposição mecânica de palavras do idioma de origem ao idioma de destino. Por recusar tal componente, a tradução literal faz o luto do corpo da obra original em nome da ressurreição de seu significado. Já a tradução que combina transposição e criação linguística busca fidelidade, não apenas à intenção e ao conteúdo, mas também à forma, ou seja, aos próprios signos em sua materialidade. Para Campos, o trabalho de recriar um poema no idioma de destino engendra um novo poema - o mesmo, ainda que diferente - um poema que se afirma como obra ao lado do original. Numa tensão entre liberdade e fidelidade, o tradutor é movido pelo anseio por re-criar o texto original, escrevendo-o novamente como texto único (Magalhães, 1998).

Na elaboração de sua concepção poética da tradução, Campos desenvolveu uma “cunhagem neológica de termos 'especificadores': recriação, transcriação, reimaginação (...), transparadização ou transluminação (...) e transluciferação mefistofáustica (...)”, com vistas a “(...) polemizar com a 'naturalizada' ideia de tradução literal, fiel ou servil (...)” e conceber a tradução como “canto paralelo” (Campos apudMagalhães, 1998, p. b3). Foi durante a tradução do poema “Blanco”, de Octavio Paz, que Campos criou o neologismo transcriação. Em espanhol, blanco significa a cor branca, mas também um alvo distante, enquanto o termo correspondente em português guarda apenas o primeiro significado. Vemo-nos, aqui, diante da complexidade da empreitada tradutora, enfatizada pelo paradoxo: “nada é jamais traduzível e nada é jamais intraduzível” (Derrida, 2004, p. 567, tradução nossai). Tal paradoxo foi evidenciado por Derrida em 1998, durante o Quinzième Assises de la Traduction Littéraire, numa conferência que trazia como título a sugestiva pergunta: O que é uma tradução relevante?

O longo e fecundo processo transcriativo que deu origem ao poema então intitulado “Transblanco” foi acompanhado por um diálogo epistolar entre o Campos e Paz. Essa interessante colaboração entre tradutor e autor foi documentada no livro que leva o nome do poema (Campos; Paz, 1986), no qual é possível acompanhar o vaie-vem das tentativas, com comentários relacionados não apenas aos sentidos, mas também à materialidade fônica do texto. Sobre o produto acabado dessa transcriação, Paz escreve a Campos: “li e reli sua admirável tradução. Estou de fato comovido. ão só é muito el mas, ainda, por vezes, o texto português é melhor e mais conciso do que o espanhol” (idem, p. 119). Julio Ortega, em sua leitura desse percurso, observa: “a uma certa altura, pareceu-me que o poema se multiplicava. ão eram dois textos, em espanhol e português, mas antes o texto das permutaç es da linguagem: isto é, um objeto linguístico refazendo-se em contato com essa leitura tradutora” (idem, p. 146).

NA HISTÓRIA ORAL, A TRANSCRIAÇÃO COMO CRIAÇÃO DIALÓGICA DE UM TEXTO VIVO

Na década de 1990, pesquisadores do Núcleo de Estudos de História Oral da Universidade de São Paulo (NEHO-USP) basearam-se na poética da tradução de Campos para pensar o trabalho com narrativas orais. É importante lembrar, com Souza (2006; 2007), que a corrente da história oral desempenhou um papel fundamental e pioneiro no vasto campo da pesquisa biográfica na América Latina e, especialmente, no Brasil. Essa corrente se desenvolveu paralelamente ao declínio da influência do estruturalismo e à mudança paradigmática que trouxe o reconhecimento da relevância da experiência dos sujeitos para a compreensão dos fenômenos sociais e, em particular, das interseções entre social e individual. No Brasil, assim como na França, a pesquisa biográfica encontrou seus fundamentos metodológicos na perspectiva qualitativa da Escola de Chicago. Inspirou-se, ainda, na nova história da Escola dos Annales, em sua compreensão da história como campo de tensões e lutas. Afirmando a legitimidade das fontes orais, tal movimento contribuiu para uma nova história, contada por vozes até então desacreditadas.

Rancière (2000) observa que, antes que esse movimento fosse incorporado à nova história, foi no domínio da literatura que a experiência de pessoas comuns começou a ganhar espaço em meio às grandes histórias dos grandes personagens. Teorizada pelos historiadores do NEHO, a transcriação representou justamente uma profícua aproximação da história oral com a literatura, na busca por caminhos que permitissem atender às exigências de rigor científico e de sensibilidade face às especificidades do trabalho com a memória e a oralidade.

Construída pelos tortuosos caminhos da memória, a narrativa é produto de lembranças e esquecimentos, seleções, lacunas e omissões, tonalidades atribuídas por emoções, desejos, frustrações... Bosi (1994) enfatiza a importância fundamental de tais nuances, por serem expressivas do não-dito. As memórias são forjadas na relação entre o ser individual e o mundo. Cada narrativa do vivido é sempre uma versão pessoal, particular e única de realidades sociais e coletivas, pois exprime uma tradução da experiência, em certo nível existencial, das estruturas que a envolvem. O sujeito exprime, por seu prisma, múltiplos aspectos da vida social e cultural, religiosos, étnicos, políticos, profissionais e econômicos. Levando isso em conta, essa perspectiva de produção de conhecimento permitiu que os discursos generalizantes, característicos da modernidade, dessem lugar à multiplicidade de experiências dos atores sociais. Porém, como vimos, o compromisso de dar espaço à fala dos atores sociais ouvidos em contexto de pesquisa está em grande parte condicionado pela forma como essa fala é apresentada pela própria pesquisa.

Foi buscando meios para exprimir, na forma escrita, o amplo leque de significações que emergem e são compartilhadas no momento das entrevistas (Meihy, 1996), que os pesquisadores do NEHO pensaram a transposição de narrativas da forma oral para a linguagem escrita como um processo análogo à tradução entre idiomas. Como observam Meihy e Holanda (2017, p. 14), a palavra falada e gravada

não existe como fenômeno ou ação isolada. Muito do que é verbalizado ou integrado à oralidade, como gesto, lágrima, riso, silêncios, pausas, interjeições ou mesmo as expressões faciais - que na maioria das vezes não têm registros verbais garantidos em gravações -, pode integrar os discursos que devem ser trabalhados para dar dimensão física ao que foi expresso em uma entrevista (...). A consideração da entrevista além do que é registrado em palavras é um dos desafios em História Oral.

Tal consideração passa, nesse sentido, pelo desafio de teatralizar o que foi dito, recriar na forma escrita a atmosfera da entrevista, a fim de “trazer ao leitor o mundo de sensaç es provocadas pelo contato” (Meihy, 1991, p.30). Evidentemente, isso não seria possível por meio da simples grafia das palavras proferidas. É a esse desafio que procura responder o procedimento metodológico da transcriação, em suas quatro etapas do (Meihy, 1996; Meihy; Holanda, 2007; Meihy; Ribeiro, 2011): a transcrição ipsis litteris constitui apenas o primeiro passo, no qual são escritos todos os sons captados pelo gravador. Em seguida, a textualização é o momento em que a textura do texto mecanicamente transcrito é trabalhada de acordo com a linguagem escrita. A narrativa é inteiramente configurada em primeira pessoa, é feita a sua pontuação, correção de erros gramaticais, limpeza de repetições excessivas e de palavras sem peso semântico. Nessa abordagem, é ainda na etapa da textualização que ocorre a identificação de um tom vital, ou seja, uma expressão ou frase selecionada para servir de epígrafe à narrativa por sintetizar, de algum modo, sua essência, resumindo sua atmosfera principal. A transcriação - termo que denomina a terceira etapa, mas também o procedimento como um todo -, é o momento em que são traduzidos à forma escrita e incorporados ao texto aqueles sentidos que circularam para além das palavras, captados sensivelmente pelo pesquisador durante a performance da narração. Por fim, temos a etapa da conferência, onde o texto transcriado é submetido à leitura pelo narrador, que verifica se este exprime aquilo que se quis dizer. São então discutidas as alterações julgadas necessárias e tem início o vai-e-vem de versões até a validação da versão final do texto, julgada apta para publicação.

Desdobrando-se para além da oralidade toscamente transcrita até obter uma forma escrita que, ao final, se aproxima muito mais da oralidade, esse método “flexibiliza todo o trajeto de criação textual, desrespeitando ao respeitar, modificando ao compreender, criando ao entender a criação” (Caldas, 1999, p.71). Caldas sugere a radicalização do conceito de transcriação, considerando todas as etapas da pesquisa como uma empreitada transcriativa - desde a elaboração do projeto, passando pela entrevista, até a devolução dos produtos da pesquisa à sociedade. O movimento transcriativo pretende assim “fazer fluir a vivência da interioridade, da voz, para o mundo da escrita” (Caldas, 2001, p. 38). Ao contrário do que poderia parecer à primeira vista, as criações e recriações necessárias durante o processo não operam a deformação de uma pretensa realidade anterior. Todos os movimentos de transposição transcriativa - da memória à palavra dita, do diálogo à versão escrita coconstruída entre pesquisador e colaborador - constituem ficcionalidades: as inúmeras transformações inerentes a esse processo não deformam a verdade, mas nutrem a criação dialógica de um texto vivo. O texto transcriado, diz Caldas (1999, p.77), “se liberta do seu reflexo, da sua origem, para se tornar referência de si, sem refletir enquanto objeto outro objeto”.

No campo da história oral, como explica Seawright (2016), a transcriação de narrativas orais é um procedimento usado com o objetivo de estabelecer um corpus documental com base no “documento vivo” pressuposto no narrador. Aproximandose da preocupação que Campos demonstrava com a restituição da dimensão estética do poema original em sua tradução, os historiadores do NEHO sistematizaram um caminho que nos permite apreender e restituir as dimensões sensíveis que é preciso levar em conta se quisermos respeitar aquele que fala como sujeito biográfico. No entanto, enquanto, no campo da História, a abordagem biográfica permite estudar fenômenos sociais e épocas pelo prisma daqueles que os viveram, no campo da Educação essa abordagem está essencialmente interessada pelo sujeito aprendente, que se constrói no e pelo ato de dizer, escrever e narrar a si mesmo.

NA PESQUISA BIOGRÁFICA EM EDUCAÇÃO, A TRANSCRIAÇÃO COMO FORMAÇÃO AUTO/HETEROBIOGRÁFICA

De acordo com Souza (2006), o nascimento da abordagem biográfica no Brasil pode ser identificado com a criação, em 1973, do programa de história oral do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC-FGV). Cerca de duas décadas depois, a pesquisa biográfica começou a tomar forma no campo da educação, tendo como marco a criação do Grupo de Estudos Docência, Memória e Gênero (GEDOMGE-FEUSP). Uma dinâmica de troca e diálogo entre os dois campos sempre esteve presente, de modo que os procedimentos da transcriação sistematizados pelos oralistas do NEHO-USP são amplamente utilizados, até os dias de hoje, em pesquisas educacionais, balizando a transposição escrita de narrativas orais. Especificamente na pesquisa biográfica em educação, cujo interesse fundamental se refere aos modos de constituição do sujeito como um ser social singular, a noção de transcriação abre novos temas a serem explorados, em particular no que se refere à escrita sensível de narrativas biográficas em meio científico e seus impactos sobre os processos autobiográficos e heterobiográficos de formação dos sujeitos.

Em nível metodológico, temos trabalhado a transcriação em pesquisa biográfica em educação seguindo basicamente as mesmas etapas descritas na sessão anterior, acrescidas da identificação de tons vitais, que nossa experiência tem levado a considerar como uma etapa em si (Kondratiuk, 2021). Temos, portanto: a transcrição ipsis litteris, a textualização, a transcriação, a identificação de tons vitais e a conferência.

A gravação da entrevista continua sendo requisito técnico fundamental para possibilitar seu registro escrito que, num primeiro momento, será obtido pela transcrição exata dos sons captados. A memória e o diário de campo do pesquisador, com anotações sobre o conjunto de impressões recebidas durante o encontro sensível com o sujeito, serão de grande ajuda para o trabalho subsequente. Com seu apoio, a transcrição bruta, que registra apenas a camada verbal da entrevista, poderá ser completada com as demais camadas que a compuseram. Sofrimento, espanto, alegria, afeto, saudade, motivação ou tristeza são algumas das nuances muitas vezes expressas pelo não-dito, mas transmitido e compartilhado nas dimensões somáticas, performáticas e dialógicas da narrativa oral.

Cabe salientar que, durante as etapas de textualização e transcriação, esta perspectiva confere uma importância central à manutenção cuidadosa das marcas fraseológicas e do vocabulário característicos do narrador, bem como da ordem pela qual ele tece o fio de sua narrativa, seja esta cronológica, temática ou outra. Como adverte Delory-Momberger (2014, p. 78), o objetivo da entrevista biográfica é “apreender a singularidade de uma palavra e uma experiência”. Consequentemente, as modalidades enunciativas e os tipos de discurso empregados pelo sujeito durante sua narrativa são de grande interesse para a pesquisa e devem, portanto, ser diligentemente preservados. É sempre com esse cuidado que, na etapa da transcriação, o pesquisador recorre à sua memória e registros de diário de campo para incorporar aquelas impressões vivas que, embora tenham sido recebidas durante o encontro com o narrador, ainda não encontraram, após a textualização, sua expressão no texto escrito.

O trabalho com narrativas de crianças, desenvolvido por Passeggi, segue nessa mesma direção quando propõe uma elaboração textual que respeite e valorize o caráter simbólico, somático, conciso e colaborativo da fala infantil. A textualização de micronarrativas de crianças proposta por Passeggi et al. (2016; 2018) - e seu entrelaçamento em narrativas coletivas, nos casos das falas ouvidas em contexto de rodas de conversa -, rompe com modelos narrativos canônicos. Dessa maneira, é ressaltada a dimensão ética da postura do pesquisador comprometido em conhecer e dar a conhecer os saberes e experiências de crianças:

As operações envolvidas nesse processo de textualização fazem do pesquisador um mediador entre os narradores e quem os lê. Daí a responsabilidade de quem escreve para criar condições necessárias à compreensão e à interpretação do que percebeu nas vozes, olhares, movimentos das crianças no momento da construção das narrativas (Passeggi et al., 2018, p. 161).

Cabe ainda salientar, no tocante à identificação de tons vitais, que esta passa a ser vista como uma etapa dedicada à seleção, não somente de uma frase ou expressão capaz de condensar a atmosfera da narrativa como um todo para servir-lhe de título. No caso de narrativas mais longas, tratar-se á também do momento de identificar aquelas frases ou expressões que exprimem a atmosfera particular de partes da narrativa. Assim, o trabalho com múltiplos tons vitais permite que, além do título principal, outras expressões sejam identificadas para servir como subtítulos. Esses subtons vitais recriam na forma escrita a existência de diferentes “momentos” da narrativa - cada qual, como um “ato” teatral, com sua coloração particular. Desse modo, é levada em conta a existência de fases da vida, de momentos de mudança ou turning points, assim como de categorizações menos cronológicas e mais temáticas que podem guiar a composição do todo de uma história (por exemplo, aquelas ligadas a distintas áreas da existência, como vida profissional, vida familiar, hobbies etc.) Evidentemente, é o fio da própria trama tecida oralmente pelo narrador que vai determinar a pertinência e o teor de tal partição interna em sua transposição escrita.

Por fim, podemos observar que a conferência, mais do que uma simples etapa de verificação, ganha aqui um novo peso por contribuir para a efetivação do caráter de pesquisa-formação compartilhada que caracteriza a pesquisa biográfica em educação. Essa etapa permite que a colaboração entre pesquisador e sujeito tenha continuidade após a entrevista, pois o texto transcriado é devolvido ao narrador para que verifique se nele se reconhece, se é preciso modificar, suprimir ou acrescentar algo. Aí tem início um vai e vem de versões que culmina na autorização da versão a ser publicada. Desse modo, o poder formativo da autobiografia se estende para além da entrevista, dando ao sujeito a oportunidade de reencontrar, a cada vez com um novo distanciamento, sua narrativa traduzida para o texto escrito e de participar de sua reelaboração em um novo medium. De acordo com Bourguignon e Delory-Momberger (2020, p.19), a noção de medium “concentra a atenção na fisicalidade dos materiais das artes, em seus traços específicos, em suas limitações e exigências, assim como nas aberturas e possibilidades relativas à sua materialidade” .

De fato, o processo transcriativo encerrado pela etapa de conferência faz com que a construção de si tenha lugar, sucessivamente, em diferentes medium: o corpo, na narrativa oral, e o papel, na narrativa escrita, cada qual com suas limitações e exigências, mas também com suas aberturas e possibilidades próprias. Bourguignon e Delory-Momberguer, em uníssono com Rancière, refutam a compreensão do medium como sendo apenas o intermediário, o meio para um fim ou o agente de uma operação. Longe de ser simplesmente o instrumento de uma arte, o medium é a própria materialidade que ajuda a defini-la. Portanto, as mediações às quais os sujeitos recorrem em seu trabalho biográfico “são muito mais do que meros instrumentos servindo de suporte à expressão de uma subjetividade já totalmente formada - ao contrário, elas constituem práticas por meio das quais uma subjetividade em ato se experimenta e encontra suas formas” (Bourguignon; Delory-Momberger, 2020, p.22). À luz dessa teoria sobre o papel das mediações na relação que os sujeitos estabelecem consigo mesmos, a transcriação - desde a realização da entrevista até a publicação do texto transcriado - revela ser uma prática automedial, ou seja, prática por meio da qual e na qual a subjetividade se constitui.

Como podemos perceber, no campo interdisciplinar da pesquisa biográfica em educação, a narrativa biográfica ouvida em contexto de entrevista, gravada e, posteriormente, transposta à forma escrita por meio do trabalho de transcriação extrapola o status de mero corpus documental. Isso ocorre na medida em que a narrativa de si é reconhecida como o espaço no qual os sujeitos tomam forma e o ato pelo qual significam sua experiência singular de existir no mundo. Em consonância com a radicalização proposta por Caldas, entendemos o próprio ato de narrar a si mesmo como parte de uma interminável trans-criação do eu. Aquele que conta a si mesmo na entrevista não é uma realidade acabada, previamente estabelecida, mas é quem constrói sentidos na narrativa e se forma por meio dela. Como explica DeloryMomberger (2005, p. 135), a narrativa “faz mais do que simplesmente traduzir para a linguagem das palavras aquilo que seria a realidade dos fatos: ela é o lugar onde o eu toma forma (Gestalt) e, nesse sentido, é o lugar de sua formação (Bildung), de seu aprendizado” . O conceito de transcriação de si evidencia o caráter, ao mesmo tempo, criativo e formativo do ato de narrar a si mesmo. Implica, portanto, não apenas o reconhecimento das ficcionalidades que compõem a narrativa de si, mas também de sua performatividade. Traçar o curso da própria vida estabelecendo relações entre diferentes experiências de aprendizagem é, em última instância, um processo de formação pelo qual o sujeito produz-se a si mesmo como o sujeito de uma história. Do mesmo modo que os enunciados performativos, estudados pela linguística, produzem uma realidade ao enunciá-la, ao contar-se o narrador está a fazer-se. A narrativa biográfica não é testemunha de um passado, mas o local de uma interação hermenêutica transcriadora que o narrador estabelece consigo mesmo, com o outro e o mundo.

Todavia, o poder formativo da prática automedial da transcriação não se esgota em seu caráter autobiográfico, nem tampouco seu alcance fica restrito à individualidade do narrador. Disponibilizar narrativas biográficas, na forma de textos bem escritos, a um público mais vasto amplia a visibilidade das falas, saberes e experiências dos sujeitos ouvidos na pesquisa. As narrativas transcriadas, tornadas acessíveis nas publicações decorrentes da pesquisa, são fruto de um minucioso trabalho de tradução-criação compartilhada. Quando devolvidos à sociedade, esses textos vivos configuram-se como convites à heterobiografia (Delory-Momberger, 2005) ou, dito de outro modo, convidam novos sujeitos a vivenciar a leitura de biografias de outrem como espaço de formação de si. Nas leituras múltiplas às quais as narrativas biográficas transcriadas se abrem, reside seu potencial formativo heterobiográfico, pois para o leitor, tomando emprestadas as palavras de Ricoeur (1986, p. 117), “compreender é compreender a si mesmo diante do texto” .

A partir de uma perspectiva hermenêutica, é possível identificar ao menos três momentos de leitura presentes na feitura de um estudo orientado pelo paradigma biográfico: a narrativa de si feita pelo sujeito, hermeneuta de si mesmo, em interação e colaboração com o pesquisador; sua análise em contexto de pesquisa; e, enfim, a leitura, por um público mais amplo, do texto que presta contas dessa pesquisa. Multidimensionais e polissêmicas, as narrativas transcriadas são, nas palavras de Caldas (1999, p. 5), “textos que, ao resultarem de uma poética da experiência, exigem, para se tornarem, tanto uma poética da leitura quanto uma poética da interpretação” . O produto dessas múltiplas leituras e interpretações, apresentado nos produtos da pesquisa, também será, finalmente, interpretado a partir da ótica de cada leitor, que lhe conferirá nuances e significações próprias. Esse terceiro momento concretiza a devolução à sociedade de saberes nela gestados. O acesso à integralidade das narrativas transcriadas fornece ao leitor ricos elementos para dialogar com a leitura proposta pelo pesquisador, bem como para (re)interpretá-las a partir de novas perguntas, (re)contextualizando-as para além de suas condições psicológicas e socioculturais de produção. Alimentando o círculo hermenêutico, as narrativas se abrem a um diálogo inesgotável.

No sentido de favorecer tal potencial formativo heterobiográfico, a solução formal de disponibilizar os textos transcriados inteiros no corpo principal da dissertação ou tese, ou ainda nos meios de divulgação científica - e não somente no apêndice ou em breves trechos citados - mostra-se coerente com o modelo dialógico da pesquisa (auto)biográfica. Esse modelo potencializa uma nova forma de relação entre pesquisador e sujeito, na perspectiva de uma construção compartilhada de sentidos. Em pesquisa-formação, tanto colaboradores como pesquisadores se encontram envolvidos num processo de formação e construção de conhecimentos centrado na narratividade (Souza, 2006). Levando isso em conta, a interpretação científica não se sobrepõe às narrativas, mas figura ao seu lado como uma nova camada hermenêutica. Tal escolha não se limita a uma simples questão formal, pois expressa a recusa de reproduzir uma dissimetria entre a palavra do pesquisador e a do narrador de si, ao mesmo tempo que devolve à sociedade os saberes e experiências por ele narrados. Com efeito, o paradigma do biográfico “coloca em ação não apenas o reconhecimento do Sujeito, de suas experiências e provações, mas visa igualmente à dignidade da pessoa na comunidade de pesquisadores e, para além dela, na Cidade dos homens” (Janner-Raimondi, 2021, p. 70).

CONSIDERAÇOES FINAIS: POR UMA ESCRITA CIENTÍFICA SENSÍVEL EM PESQUISA BIOGRÁFICA

Em busca de uma tradução relevante, na escrita científica, de narrativas biográficas tecidas oralmente em contexto de pesquisa, a transcriação se apresenta como potente ferramenta teórica e metodológica. Como vimos, não se trata de mero recurso instrumental, mas de uma escrita científica sensível que considera as questões éticas, estéticas, epistemológicas, e até mesmo formativas, envolvidas em investigações centradas na narratividade.

Entendida como prática automedial capaz de promover a criação dialógica de textos vivos, a transcriação se coloca a serviço da formação auto e heterobiográfica dos sujeitos envolvidos na pesquisa, sejam eles os atores sociais ouvidos, os pesquisadores ou um público mais amplo. A esse quadro, soma-se uma dimensão política quando consideramos, com Rancière (2000), a existência de um sistema de partilha do sensível que determina aquilo que em dada sociedade é visível e, simultaneamente, aquilo que não o é, os atores sociais cujas falas são audíveis e aqueles cujos saberes e modos de ser não encontram lugar nos espaços coletivos. Quando se interessa por vozes ainda não ouvidas, a pesquisa biográfica contesta essa linha divisória e trabalha por seu deslocamento.

De um ponto de vista ético e estético, eu diria que não se trata de dar voz, mas de acolher a voz dos atores sociais que participam da pesquisa. Um tal acolhimento solicita aquilo que Janner-Raimondi (2020) denomina como humildade em pesquisa, referindo-se à postura que sustenta o esforço empático na direção de compreender e acolher outros pontos de vista, apostando no compartilhamento de experiências vividas na trama social como contribuição fundamental para favorecer a construção de um mundo comum. Ele convoca, igualmente, a postura de respeito e valorização das capacidades, dos saberes e do poder de agir dos sujeitos, sobretudo quando estes se encontram em situação de vulnerabilidade (PÔLE INITIATIVES EN RECHERCHE BIOGRAPHIQUE, 2021). Como escrita sensível alinhada a tal posicionamento, a transcriação carrega promissoras potencialidades a serem exploradas no sentido da compreensão e do favorecimento dos processos de formação auto e heterobiográfica que entram em ação quando os sujeitos narram e escrevem a si mesmos, compartilhando histórias e construindo sentidos a partir de sua experiência de existir no mundo.

iTodas as citações diretas de obras em francês apresentam uma tradução nossa, de modo que optou-se por omitir essa precisão no restante do texto.

REFERÊNCIAS

BOSI, E. Memória e sociedade: lembranças de velhos. São Paulo: Cia. Das Letras, 1994. [ Links ]

BENJAMIN, W. Obras escolhidas. Magia e técnica, arte e política. (3e éd., Vol. 1). Brasiliense, 1987. [ Links ]

BERNARD, M. Le corps. Paris: Jean-Pierre Delarge, 1976. [ Links ]

CALDAS, A. L. Transcriação em História Oral. Neho-História, São Paulo, n. 1, p. 71-79, 1999. [ Links ]

CALDAS, A. L. Nas águas do texto: palavra, experiência e leitura em História Oral. Porto Velho: Edufro, 2001. [ Links ]

CAMPOS, H.; PAZ, O. Transblanco: em torno a Blanco de Octavio Paz. Editora Guanabara, 1986. [ Links ]

CAMPOS, H. Da tradução como criação e como crítica. In: CAMPOS, Haroldo de. Metalinguagem e outras metas: ensaios de teoria crítica e literária. São Paulo, Perspectiva, 2006, p. 31-48. [ Links ]

COCCIA, E. La vie sensible. Paris: Éd. Payot & Rivages, 2010. [ Links ]

DELORY-MOMBERGER, C. Histoire de vie et recherche biographique en éducation. Paris: Economica, 2005. [ Links ]

DELORY-MOMBERGER, C. De la recherche biographique em éducation : fondements, méthodes, pratiques. Paris: Téraèdre, 2014. [ Links ]

DELORY-MOMBERGER, C.; BOURGUIGNON, J.-C. Médialités biographiques, pratiques de soi et du monde. Le sujet dans la cité, Actuels 9(1), p. 17-26, (2020). [ Links ]

DELORY-MOMBERGER, C.; JANNER-RAIMONDI, M. Écrire en recherche biographique. Conferência proferida no Seminário Chantiers du CIRBE, Paris: Université Paris-Est Créteil, mai. / jun. 2018. [ Links ]

DERRIDA, J. Qu’est-ce qu’une traduction « relevante » ? Em: MALLET, M.-L.; MICHAUD, G. (Org.), Cahier de l'Herne: Derrida, 2004, p. 561-576. [ Links ]

JANNER-RAIMONDI, M. Expérience sensible du corps de chair et phénoménologie de l’événement : vers une éthique de la délicatesse. Questions vives recherches en éducation, n° 34, 2020. Disponível em: https://journals.openedition.org/questionsvives/5483 Acesso em: 4 fev. 2024. [ Links ]

JANNER-RAIMONDI, M. Paradigme du biographique en éducation : un parcours de reconnaissance du Sujet dans la Cité. Le sujet dans la cité, Actuels n° 12(2), p. 53 - 73, 2021. [ Links ]

KONDRATIUK, C. “Só” cuidar? Corpo sensível e aprendizagem no cuidado doméstico de crianças. 2021. 477 f. Tese (Doutorado em Educação) - Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo e Laboratoire CIRCEFT, Université Paris 8, São Paulo / Paris: 2021. [ Links ]

LE BRETON, D. Éclats de voix : une anthropologie des voix. Paris: Éditions Métailié, 2011. [ Links ]

MACÉ, M. Styles: critique de nos formes de vie. Paris: Gallimard, 2016. [ Links ]

MAGALHÃES, C. Tradução e Transculturação: A Teoria Monstruosa de Haroldo de Campos. Cadernos de Tradução, [S. l.], v. 1, n. 3, p. 139-156, 1998. Disponível em: https://periodicos.ufsc.br/index.php/traducao/article/view/5384 Acesso em: 4 fev. 2024. [ Links ]

MEIHY, J. C. S. B. Canto de morte kaiowá: história oral de vida. Loyola, São Paulo, 1991. [ Links ]

MEIHY, J. C. S. B. Manual de História Oral. 5 ed. São Paulo: Loyola, 1996. [ Links ]

MEIHY, J. C. S. B.; HOLANDA, Fabiola. História oral: como fazer, como pensar. São Paulo: Editora Contexto, 2007. [ Links ]

MEIHY, J. C. S. B.; RIBEIRO, S. L. S. Guia prático de história oral: para empresas, universidades, comunidades, famílias. São Paulo: Editora Contexto, 2011. [ Links ]

PASSEGGI, M.; NASCIMENTO, G.; OLIVEIRA, R. As narrativas autobiográficas como fonte e método de pesquisa qualitativa em Educação. Revista lusófona de educação, 33, p. 111-125, 2016. Disponível em: https://revistas.ulusofona.pt/index.php/rleducacao/article/view/5682 Acesso em: 4 fev. 2024. [ Links ]

PASSEGGI, M.; NASCIMENTO, G.; RODRIGUES, S. Narrativas de crianças sobre a escola: desafios das análises. Revista lusófona de educação, 40, 2018, p. 155-169. Disponível em: https://revistas.ulusofona.pt/index.php/rleducacao/article/view/6440 Acesso em: 4 fev. 2024. [ Links ]

PINEAU, G. Les histoires de vie comme art formateur de l’existence. Pratiques de formation/Analyses, 31, p. 65-80, 1996. [ Links ]

PÔLE INITIATIVES EN RECHERCHE BIOGRAPHIQUE. Posture du chercheur dans la recherche biographique en éducation : vers la co-construction d’un pouvoir d’agir. Le sujet dans la cité, vol. 12, no. 2, p. 193-205, 2021. [ Links ]

RANCIÈRE, J. Le partage du sensible : esthétique et politique. Paris: La Fabriqueéditions, 2000. [ Links ]

RICOEUR, P. Soi-même comme un autre. Paris: Seuil, 1990. [ Links ]

SOUZA, E. C. A arte de contar e trocar experiências: re ex es teórico-metodológicas sobre história de vida em formação.i a ducau , atal, v. 25, n. 11, p. 22-39, 2006. Disponível em: https://periodicos.ufrn.br/educacaoemquestao/article/view/8285 Acesso em: 4 fev 2024. [ Links ]

SOUZA, E. C. (Auto)biogra a, histórias de vida e práticas de formação. In: NASCIMENTO A. D.; HETKOWSKI, T. M. (Dir.). Memória e formação de professores. Salvador : EDUFBA, 2007, p. 59-74. [ Links ]

SEAWRIGHT, L. A. O corpus documental em história oral: teoria, experiência e transcriação. Revista Observatório, v. 2, n. 1, p. 54-75, 2016. Disponível em: https://sistemas.uft.edu.br/periodicos/index.php/observatorio/article/view/1781 Acesso em: 5 fev. 2024. [ Links ]

Recebido: 08 de Fevereiro de 2024; Aceito: 25 de Abril de 2024; Publicado: 03 de Maio de 2024

Creative Commons License Este é um artigo publicado em acesso aberto (Open Access) sob a licença Creative Commons Attribution, que permite uso, distribuição e reprodução em qualquer meio, sem restrições desde que o trabalho original seja corretamente citado.